Em busca de Cinderela / Em busca da perfeição

Colleen Hoover · Capítulo 3 de 23

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Em busca de Cinderela / Em busca da perfeição

Prólogo

Cada um desses livros é uma prova tangível de que, se você tiver coragem para torná-los realidade, sonhos são bastante reais e alcançáveis.

Tudo o que se precisa fazer é encontrar o que o inspira, que pode ser algo tão simples quanto uma letra de música ou o sorriso de uma criança no palco. E depois você terá de fazer um grande esforço que vai exigir valentia, que pode ser tão intimidador quanto se sentar na frente de uma página em branco na tela do computador, sem desistir antes de alcançar a linha de chegada.

Apesar de todas as experiências maravilhosas e conquistas que vieram depois, continuo considerando o meu momento de maior orgulho a primeira vez em que digitei a palavra Fim.

Pois aquele foi o meu começo.

Colleen Hoover, 2013

Prólogo

— Você fez uma tatuagem?

É a terceira vez que faço a mesma pergunta para Holder, mas ainda não consigo acreditar. Ele não é de fazer essas coisas. Especialmente se não fui eu que o incentivei.

— Caramba, Daniel — resmunga ele, do outro lado da linha. — Para com isso. E também para de me perguntar o motivo.

— É que é estranho tatuar essa palavra. Hopeless. É algo bem depressivo. Mas estou impressionado mesmo assim.

— Tenho que ir. Ligo no final da semana.

Suspiro ao telefone.

— Isso é um saco, cara. Depois que você foi embora, a única coisa boa no colégio é o quinto tempo.

— O que tem no quinto tempo? — pergunta Holder.

— Nada. Eles se esqueceram de encaixar uma aula para mim, então passo uma hora escondido no armário dos zeladores todos os dias.

Holder ri. Percebo que é a primeira vez que escuto a risada dele desde que Les morreu, dois meses atrás. Talvez se mudar para Austin faça bem a ele.

O sinal toca. Seguro o telefone com o ombro, dobro o casaco e o jogo no chão do armário dos zeladores. Apago a luz.

— Depois nos falamos. Hora do cochilo.

— Até mais — diz Holder.

Encerro a ligação, programo o alarme para tocar em cinquenta minutos e coloco o telefone no balcão. Eu me abaixo e me deito no chão. Fecho os olhos e penso no quanto este ano está sendo péssimo. Odeio o fato de Holder estar passando por essas coisas sem que eu possa fazer nada para ajudá-lo. Nunca tive que lidar com a morte de alguma pessoa próxima, muito menos de alguém tão próximo quanto uma de minhas irmãs. Ainda por cima uma irmã gêmea.

Nem me arrisco a dar conselhos, mas acho que ele prefere isso. Acho que precisa apenas que eu continue me comportando normalmente, pois só

Deus sabe o quanto todo mundo desse maldito colégio fica sem graça perto dele. Se as pessoas daqui não fossem tão idiotas, talvez ele não tivesse se mudado e as aulas não seriam tão ruins.

Mas são um saco. Todo mundo nesse colégio é um saco e eu odeio todos. Odeio todo mundo, exceto Holder, e é por causa deles que ele não está mais aqui.

Estico as pernas, cruzo os tornozelos e dobro o braço por cima dos olhos. Pelo menos tenho o quinto tempo.

O quinto tempo é legal.

* * *

Meus olhos se abrem bruscamente e solto um gemido ao sentir algo cair em cima de mim. Escuto o barulho da porta se fechando.

Que merda é essa?

Ponho as mãos em cima do que quer que tenha acabado de cair em mim e começo a rolar a coisa para o lado, mas minha mão encosta numa cabeça com cabelo macio.

É uma pessoa?

Uma garota?

Uma garota acabou de cair em cima de mim. No armário dos zeladores.

E ela está chorando.

— Quem diabos é você? — pergunto com cuidado.

A garota, quem quer que seja ela, tenta me empurrar para longe, mas nós dois parecemos nos mover na mesma direção. Eu me levanto e tento rolá-la para o outro lado, mas acabamos batendo nossas cabeças.

— Merda.

Caio para trás no meu travesseiro improvisado e ponho a mão na testa.

— Desculpe — murmuro.

Nenhum de nós se mexe dessa vez. Consigo escutá-la fungando, se segurando para não chorar. Não consigo ver nada na minha frente porque a luz ainda está apagada, mas de repente percebo que não estou mais me importando com o fato de ela ainda estar em cima de mim porque seu cheiro é maravilhoso.

— Acho que estou perdida — diz ela. — Pensei que estava entrando no banheiro.

Balanço a cabeça, apesar de saber que ela não consegue enxergar o que estou fazendo.

— Aqui não é um banheiro. Mas por que está chorando? Você se machucou quando caiu?

Sinto o corpo dela inteiro suspirar em cima de mim e, apesar de eu não fazer ideia de quem ela é nem de sua aparência, dá para sentir sua tristeza, o que também me deixa um pouco triste. Não sei direito como acontece, mas meus braços a cercam e ela encosta a bochecha no meu peito. Em apenas cinco segundos passamos de uma situação extremamente constrangedora para uma agradável, como se fizéssemos isso o tempo inteiro.

É estranho, normal, sensual, triste e diferente, e não quero soltá-la.

Existe algo de empolgante nisso, como se estivéssemos numa espécie de conto de fadas. Como se ela fosse a Sininho e eu, o Peter Pan.

Não, espera aí. Não quero ser o Peter Pan.

Talvez ela possa ser a Cinderela, e eu, o Príncipe Encantado.

É, gosto mais dessa opção. A Cinderela é gostosa mesmo pobre, suada e se matando de trabalhar na frente do fogão. Também fica bem bonita com o vestido de baile. Além disso, nos conhecemos num armário cheio de vassouras. Bem adequado.

Sinto que ela está levando a mão até o rosto, muito provavelmente para enxugar uma lágrima.

— Odeio eles — afirma, baixinho.

— Quem?

— Todo mundo. Odeio todo mundo.

Fecho os olhos, ergo a mão e a passo pelo cabelo dela, fazendo o que posso para consolá-la. Finalmente alguém que entende isso. Não sei por que ela odeia todo mundo, mas tenho a impressão de que seu motivo é válido.

— Também odeio todo mundo, Cinderela.

Ela ri baixinho, talvez por não ter entendido por que a chamei de Cinderela. Pelo menos riu e não está mais chorando. A sua risada é contagiante, e tento pensar em alguma coisa que a faça rir mais uma vez.

Estou tentando pensar em algo engraçado para dizer quando ela afasta a cabeça do meu peito e eu a sinto se aproximar mais de mim. Antes que eu possa perceber, sinto seus lábios tocarem os meus e fico sem saber se devo empurrá-la ou rolar para cima dela. Começo a erguer as mãos na direção de seu rosto, mas ela se afasta com a mesma rapidez com que me beijou.

— Desculpe — diz. — Tenho que ir. — Ela põe as palmas das mãos no chão e começa a se levantar, mas agarro o seu rosto e a puxo de volta para perto de mim.

— Não — digo.

Puxo sua boca para perto da minha e a beijo. Mantenho nossos lábios pressionados com firmeza enquanto aproximo o corpo dela e coloco sua cabeça deitada no meu casaco. Seu hálito tem cheiro de balas de frutas, o que me dá vontade de continuar beijando-a até conseguir identificar todos os sabores.

A mão dela encosta no meu braço e o aperta com força no instante em que minha língua entra na sua boca. Sinto gosto de morango na ponta da sua língua.

Ela mantém a mão no meu braço, movendo-a de vez em quando para a minha nuca, e logo em seguida voltando para o braço. Continuo com a mão em sua cintura e não toco nenhuma outra parte de seu corpo. A única parte que exploramos é a boca um do outro. Nós nos beijamos e não há som algum fora o do nosso beijo. Ficamos nos beijando até o alarme do meu telefone tocar. Apesar do barulho, não interrompemos o beijo. Nem hesitamos. Continuamos nos beijando por mais um minuto inteiro, até o sinal soar no corredor lá fora e os alunos começarem repentinamente a bater as portas de seus armários e a conversar, e todo o nosso momento juntos é roubado por todos os fatores externos e inconvenientes do colégio.

Paro de movimentar meus lábios, mas os mantenho encostados nos dela, e depois me afasto devagar.

— Tenho que ir para a aula — sussurra ela.

Balanço a cabeça, apesar de ela não conseguir me enxergar.

— Eu também — respondo.

A garota começa a sair de debaixo de mim. Após me virar para ficar de costas, sinto-a se aproximar. Sua boca encontra mais uma vez a minha bem depressa e, em seguida, ela se afasta e se levanta. No instante em que abre a porta, a luz do corredor inunda o armário e eu aperto os olhos, jogando o braço por cima do rosto.

Escuto a porta se fechar quando ela sai e, depois de me ajustar à claridade, a luz desaparece mais uma vez.

Suspiro pesadamente. Continuo no chão até me recuperar da forma como meu corpo reagiu a ela. Não sei quem diabos essa garota é nem por que veio parar aqui, mas espero mesmo que ela volte.

Preciso de muito mais disso.

* * *

Ela não apareceu no dia seguinte. Nem no dia depois desse. Na verdade, hoje faz uma semana que a garota literalmente caiu nos meus braços, e eu me convenci de que talvez aquilo tudo não tenha passado de um sonho.

Fiquei vendo filmes de zumbis com Bolota durante boa parte da noite anterior, mas, mesmo tendo dormido apenas duas horas, sei que não teria sido capaz de imaginar aquilo. Minha imaginação não é tão divertida assim.

Quer ela volte ou não, continuo sem ter aula no quinto tempo e, enquanto ninguém reclamar, vou continuar me escondendo aqui. Na noite passada acabei dormindo muito, então não estou cansado. No instante em que pego o celular para enviar uma mensagem a Holder, a porta do armário começa a se abrir.

Escuto-a sussurrar:

— Você está aí, menino?

Meu coração começa a bater acelerado no mesmo momento, e não tenho certeza se é porque ela voltou ou porque a luz está acesa, mas não sei se quero ver o seu rosto quando a porta se abrir.

— Estou aqui — digo.

A porta mal se abriu. Ela põe a mão para dentro do armário e tateia a parede até encontrar o interruptor e o desligar. A porta se abre, ela entra no armário e fecha a porta depressa.

— Posso me esconder aqui com você? — pergunta ela.

Sua voz está um pouco diferente daquela da última vez. Parece mais feliz.

— Hoje você não está chorando — digo.

Sinto-a se aproximar de mim. Ela encosta na minha perna e percebe que estou sentado no balcão, então tateia a área ao meu redor até encontrar um lugar vazio. Ergue-se e se senta ao meu lado.

— Hoje não estou triste — diz ela, dessa vez sua voz bem mais perto de mim.

— Que bom. — Ficamos em silêncio por vários segundos, mas acaba sendo legal.

Não sei por que a garota voltou nem por que demorou uma semana, mas fico feliz por ela estar aqui.

— Por que você estava aqui dentro semana passada? — pergunta ela. —

E por que está aqui agora?

— Estou com um buraco no horário. Não encaixaram nenhuma aula para mim no quinto tempo, então fico escondido, na esperança de que ninguém da administração perceba.

Ela ri.

— Que esperto.

— Pois é.

Ficamos em silêncio de novo por cerca de um minuto. Nossas mãos estão segurando a beirada do balcão e, toda vez que ela balança as pernas, seus dedos encostam de leve nos meus. Depois de um tempo, eu acabo pegando sua mão e a colocando no meu colo. Parece estranho agarrar a mão dela desse jeito, mas na semana passada nós dois passamos uns quinze minutos nos agarrando, então, na verdade, segurar a mão dela é recuar um passo.

Ela entrelaça os dedos nos meus e nossas palmas se encontram. Em seguida, dobro os dedos por cima dos dela.

— Isso é gostoso — afirma. — Nunca tinha segurado a mão de ninguém.

Fico paralisado.

Quantos anos essa garota tem, afinal?

— Você não está no ensino fundamental, está?

Ela ri.

— Meu Deus, não. É só que nunca segurei a mão de ninguém. Os garotos com quem fiquei parecem se esquecer de fazer isso. Mas é legal.

Gostei.

— Pois é — concordo. — É legal.

— Espera — pede ela. — Você não está no ensino fundamental, está?

— Não. Ainda não — digo.

A garota balança a perna para o lado e me dá um chute, em seguida nós dois rimos.

— Isso é meio estranho, não é? — pergunta.

— Seja mais específica. Muitas coisas podem ser consideradas estranhas, então não sei do que está falando.

Percebo que ela dá de ombros.

— Não sei. Isso aqui. A gente. A gente se beijar, conversar e ficar de mãos dadas sem nem saber como somos fisicamente.

— Eu sou muito gato — afirmo.

Ela ri.

— Estou falando sério. Se me visse agora, você ficaria de joelhos, imploraria para ser minha namorada e ficaria me exibindo pelo colégio inteiro.

— Muito improvável — afirma. — Eu não namoro ninguém. Namorar é uma coisa superestimada.

— Se você não fica de mãos dadas com ninguém nem namora, o que é que você faz?

Ela suspira.

— Praticamente todo o resto. Tenho a maior fama, sabe. Na verdade, é possível que a gente já tenha até transado, só não percebemos isso ainda.

— Impossível. Você se lembraria de mim.

A garota dá outra risada e, por mais que eu esteja me divertindo em sua companhia, seu riso me dá vontade de arrastá-la até o chão junto comigo e beijá-la sem parar.

— Você é mesmo um gato? — pergunta ela, ceticamente.

— Muito gato.

— Deixa eu adivinhar. Cabelo escuro, olhos castanhos, abdômen superdefinido, dentes brancos, estilo Abercrombie & Fitch.

— Quase — digo. — Cabelo castanho-claro, acertou os olhos, o abdômen e os dentes, mas prefiro o estilo American Eagle Outfitters.

— Impressionante — comenta.

— Minha vez. Cabelo louro e volumoso, grandes olhos azuis, um vestidinho branco e charmoso com um chapéu combinando, pele azul e meio metro de altura.

Ela ri bem alto.

— Você tem fetiche pela Smurfette?

— Não custa sonhar.

Ela ainda está rindo, e o som da sua risada faz o meu coração doer. Dói porque o que mais quero é saber quem é essa garota, mas tenho noção de que, depois que eu descobrir, provavelmente não vou mais querer ficar em sua companhia tanto quanto quero agora.

Ela inspira depois de parar de rir e o armário fica silencioso. Tão silencioso que é quase constrangedor.

— Não vou vir aqui de novo depois de hoje — confessa, baixinho.

Aperto a mão dela, surpreso com a tristeza que sinto com essa confissão.

— Vou me mudar. Não agora, mas em breve. No verão. Só acho que seria bobagem voltar aqui, pois vamos acabar acendendo a luz ou então nos distraindo e dizendo nossos nomes, e acho que prefiro não saber quem você é.

Passo o polegar por sua mão.

— Então por que veio aqui hoje?

Ela suspira com suavidade.

— Queria agradecer a você.

Dou uma risada baixinha.

— Pelo quê? Por beijá-la? Foi só isso que eu fiz.

— É — diz em tom neutro. — Isso mesmo. Por ter me beijado. Por só ter me beijado. Sabe há quanto tempo um garoto não me beija e só? Depois que fui embora na semana passada, tentei lembrar, mas não consegui. Toda vez que um garoto me beija, ele sempre está com tanta pressa para chegar ao que vem depois dos beijos que acho que ninguém nunca tinha me dado um beijo de verdade, sincero.

Balanço a cabeça.

— Isso é muito triste — digo. — Mas não fique pensando tão bem assim de mim. Sou bastante conhecido por querer passar logo dessa parte também. Só que semana passada não tive nenhuma pressa, porque você beija bem demais.

— Pois é — responde ela, confiante. — Eu sei. Imagina como deve ser fazer amor comigo.

Engulo em seco.

— Vai por mim, já imaginei. Estou imaginando isso há sete dias.

A perna dela para de se balançar ao meu lado. Não sei se a deixei constrangida com esse comentário.

— Sabe o que mais é triste? — pergunta ela. — Ninguém nunca fez amor comigo.

Essa conversa está tomando um rumo estranho. Já dá para perceber.

— Você é nova. Tem muito tempo pra isso. Ser virgem é algo que dá tesão, então não precisa se preocupar.

Ela ri, mas dessa vez é uma risada triste.

Estranho como eu já consigo distinguir as diferentes risadas dela.

— Não sou nada virgem — explica ela. — É por isso que é triste. Tenho bastante experiência com sexo, mas quando olho pra trás... nunca amei nenhum dos garotos. E nenhum deles me amou. Às vezes me pergunto se transar com alguém que amamos é mesmo diferente. Se é melhor.

Penso na pergunta e percebo que não sei responder. Também nunca amei ninguém.

— Boa pergunta — reconheço. — É meio triste, parece que nós dois já transamos, várias vezes, pelo jeito, mas não amamos nenhuma das pessoas com quem fizemos isso. Diz muito sobre quem somos, não acha?

— Pois é — responde ela, baixinho. — Diz muito mesmo. É uma triste verdade.

Ficamos em silêncio por um tempo e continuamos de mãos dadas. Não consigo parar de pensar que ninguém nunca segurou a mão dela. Fico me perguntando se cheguei a segurar a mão das garotas com quem transei. Não que tenham sido milhares, mas foi o suficiente para que eu devesse me lembrar de segurar a mão de pelo menos uma delas.

— Talvez eu seja um desses garotos — admito, envergonhado. — Não sei se alguma vez já segurei a mão de uma garota.

— Você está segurando a minha.

Faço que sim com a cabeça lentamente.

— Estou mesmo.

Mais alguns segundos de silêncio se passam antes que ela volte a falar.

— E se eu sair daqui a quarenta e cinco minutos e nunca mais segurar a mão de ninguém? E se eu continuar a viver como estou vivendo agora? E se os garotos continuarem a não me dar valor e eu não fizer nada para mudar isso e transar várias vezes, mas sem saber o que é fazer amor?

— É só não fazer isso. Encontre um garoto legal, fique só com ele e faça amor todas as noites.

Ela solta um gemido.

— Isso me deixa apavorada. Por mais que eu tenha curiosidade para saber a diferença entre fazer amor e transar... a minha opinião sobre namoros torna impossível eu descobrir isso.

Fico pensando no seu comentário por um tempo. É estranho, pois ela meio que parece uma versão feminina de mim. Não sei se sou tão contra namoros quanto ela, mas é bem verdade que nunca disse para uma garota que a amava, e espero que leve bastante tempo até que isso aconteça.

— Não vai mesmo voltar mais aqui? — pergunto.

— Não vou mesmo voltar aqui — confirma ela.

Solto sua mão, me impulsiono com as palmas da mão e salto do balcão.

Mudo de posição, paro na frente dela e ponho as mãos ao lado de seu corpo.

— Vamos resolver o nosso dilema logo.

Ela inclina-se para trás.

— Que dilema?

Movo as mãos e as coloco nos quadris dela, aproximando-a de mim.

— Temos quarenta e cinco minutos para resolver isso. Tenho certeza de que consigo fazer amor com você em quarenta e cinco minutos. Podemos ver como é e se vale a pena assumir um namoro no futuro. Assim, quando você sair daqui, não vai mais precisar se preocupar em não saber como é fazer amor.

Ela ri de nervoso e se inclina na minha direção mais uma vez.

— Como dá para fazer amor com alguém por quem não se está apaixonado?

Eu me inclino para a frente até minha boca ficar perto da sua orelha.

— Nós fingimos.

Escuto-a arfar. Ela vira o rosto um pouco na direção do meu e sinto seus lábios roçarem na minha bochecha.

— E se nós dois formos péssimos atores? — sussurra.

Fecho os olhos, pois quase não consigo assimilar que talvez eu vá fazer amor com essa garota em questão de minutos.

— Você devia fazer um teste de atuação pra eu avaliar — diz ela. — Se me convencer, talvez eu aceite essa sua ideia maluca.

— Fechado.

Dou um passo para trás, tiro a camisa e a jogo no chão. Pego o casaco no balcão e o desdobro, depois o jogo no chão também. Eu me viro de volta para o balcão e a levanto. Ela se segura em mim, enterrando a cabeça em meu pescoço.

— Onde está sua camisa? — pergunta ela, passando as mãos pelo meu ombro.

Eu a deito no chão e me acomodo ao seu lado, aproximando-a de mim.

— Você está deitada nela — respondo.

— Ah. Que gentil da sua parte.

Levo a mão até a sua bochecha.

— É o que as pessoas fazem quando estão apaixonadas.

Sinto o sorriso dela.

— E nós estamos muito apaixonados?

— Completamente — digo.

— Por quê? Por que me ama tanto?

— Por causa da sua risada — respondo na mesma hora, sem saber ao certo se estou inventando ou não. — Amo o seu senso de humor. Também amo a maneira como você coloca o cabelo para trás da orelha enquanto está lendo. E amo o fato de você odiar falar ao telefone quase tanto quanto eu.

Amo muito os bilhetinhos que você deixa pra mim, com sua letra linda. E

amo o fato de você gostar tanto do meu cachorro, porque ele adora você.

Também amo tomar banho com você. Nossos banhos são sempre divertidos.

Deslizo a mão de sua bochecha até a nuca. Aproximo minha boca e encosto meus lábios nos dela.

— Uau — diz, encostada na minha boca. — Você é muito convincente.

Sorrio e me afasto.

— Não saia do personagem — brinco. — Agora é sua vez. O que você ama em mim?

— Amo muito o seu cachorro. Ele é um cachorro maravilhoso. Também amo quando você abre as portas pra mim, embora eu devesse preferir abri-las sozinha. Amo o fato de você não fingir que gosta de filmes antigos em preto e branco como todo mundo, pois eles me deixam entediada pra cacete.

Também amo quando estou na sua casa e você rouba beijos toda vez que seus pais se viram para o outro lado. Mas o que mais gosto é quando pego você no flagra olhando para mim. Adoro quando você não desvia o olhar e simplesmente continua me encarando, como se não sentisse vergonha de não conseguir parar de olhar para mim. É tudo o que quer fazer na vida, porque acha que sou a coisa mais incrível que você já viu. Amo o quanto você me ama.

— Você tem toda a razão — sussurro. — Amo ficar olhando para você.

Beijo sua boca e depois vou beijando sua bochecha e sua mandíbula.

Pressiono os lábios na sua orelha e, apesar de eu saber que estamos fingindo, minha boca fica seca quando penso nas palavras que meus lábios estão prestes a dizer. Hesito, quase desistindo. Só que uma parte ainda maior de mim quer mesmo dizer. Uma parte enorme de mim gostaria que eu estivesse sendo sincero, e uma pequena parte acha que eu seria realmente capaz de dizer isso com sinceridade.

Passo as mãos pelo cabelo dela.

— Eu amo você — sussurro.

Ela inspira fundo. Meu coração está martelando no peito, e estou em silêncio, esperando a reação dela. Não faço ideia do que vai acontecer em seguida. Mas, pensando bem, ela também não.

Ela tira as mãos dos meus ombros e as leva lentamente até meu pescoço. Inclina a cabeça até sua boca encostar na minha orelha.

— Amo você mais ainda — sussurra ela.

Sinto o sorriso em seus lábios e me pergunto se nos meus lábios também há um sorriso. Não sei por que de repente comecei a curtir tanto isso, mas é assim que me sinto.

— Você é tão linda — murmuro, movendo meus lábios para mais perto da sua boca. — Tão, tão linda. E todos esses caras que não deram valor a você são os maiores idiotas.

Ela diminui o espaço entre nossas bocas e eu a beijo, mas dessa vez nosso beijo parece muito mais íntimo. Por um breve instante, acredito de verdade que amo todas essas coisas nela e que ela realmente ama todas essas coisas em mim. Estamos nos beijando, nos tocando e tirando as roupas que ainda restam com tanta pressa que parece que estamos com tempo contado.

E acho que tecnicamente estamos mesmo.

Tiro a carteira do bolso da calça, pego uma camisinha e depois volto a me acomodar em cima dela.

— Ainda dá tempo de você mudar de ideia — sussurro, torcendo para que ela não mude.

— Você também.

Eu rio.

Ela ri.

Em seguida, ficamos quietos e passamos o resto da hora provando exatamente o quanto nos amamos.

* * *

Agora estou de joelhos, reunindo nossas roupas em silêncio. Após vestir minha camisa, eu a puxo para cima e a ajudo a vestir a blusa. Eu me levanto, coloco a calça e a ajudo a se levantar. Apoio o queixo no topo da cabeça dela e a aproximo de mim, percebendo que nos encaixamos perfeitamente.

— Eu bem poderia acender a luz antes de você ir embora — digo. —

Não está curiosa para ver o rosto do garoto pelo qual está tão apaixonada?

Ela ri, balançando a cabeça que está apoiada no meu peito.

— Isso estragaria tudo. — Suas palavras saem abafadas por causa da minha camisa, então ela afasta a cabeça do meu peito e inclina o rosto na direção do meu. — Não vamos estragar isso. Se descobrirmos quem somos, vamos acabar encontrando alguma coisa de que não gostamos no outro.

Talvez muitas coisas. Agora está tudo perfeito. Podemos guardar essa lembrança perfeita do momento em que amamos alguém.

Eu dou outro beijo nela, mas não muito demorado, pois o sinal toca. Ela não solta minha cintura. Pressiona a cabeça em meu peito novamente e me aperta com mais força.

— Preciso ir — diz.

Fecho os olhos e balanço a cabeça, concordando.

— Eu sei.

Fico surpreso com o quanto não quero que ela vá, porque sei que nunca mais vou vê-la de novo. Quase imploro para ela ficar, mas também sei que ela tem razão. Tudo só parece perfeito porque estamos fingindo que é perfeito.

Ela começa a se afastar de mim, então levo as mãos até as bochechas dela uma última vez.