Em busca de Cinderela / Em busca da perfeição
Capítulo Dois
Nunca que ela vai conseguir guardar esse segredo. Eu jamais deveria ter contado nada para nenhuma das duas. Jogo as cobertas em cima de Bolota de novo e vou até a porta.
— Se alguma de vocês abrir a boca, podem me esquecer para sempre.
— Isso é um incentivo, não uma ameaça — diz Bolota.
— Então se você contar para eles, eu volto para casa. Que tal?
— Vou ficar de bico calado.
Capítulo Dois
Faz muito tempo que não bato à janela do quarto de Six.
Agora ela e Sky moram no mesmo dormitório no campus, mas o quarto fica no quinto andar de um prédio e não consigo escalar uma altura tão grande. Até tentei algumas semanas atrás, porque o toque de recolher do dormitório é às 22h, mas era quase meia-noite e eu queria muito ver Six.
Fiquei com medo quando estava no meio do primeiro andar e desci.
Olho a janela do quarto de Sky, mas as luzes estão apagadas. Ela e Holder ainda não chegaram de Austin. Olho a janela de Six, também de luzes apagadas. Tomara que ela esteja em casa. Ela não disse que ia sair.
Mas também não perguntei. Nunca pergunto nada. Espero que Hannah esteja certa e que eu consiga consertar o que quer que haja de estranho entre nós.
Bato levemente à vidraça, na esperança de que ela esteja no quarto.
Logo escuto um movimento, e então as cortinas são puxadas para o lado.
Ela ainda parece um anjo, porra. Ainda.
Aceno e ela sorri para mim. Parece realmente feliz em me ver. Seu sorriso elimina a maior parte do meu nervosismo.
Isso sempre acontece. Fico paranoico e preocupado quando estou longe dela, mas, quando estou ao seu lado, ainda consigo perceber o que Six sente por mim. Mesmo quando ela parece triste.
Six abre a janela e se afasta para que eu possa entrar. O quarto está escuro, como se ela estivesse dormindo, mas são apenas 21h.
Eu me viro para ela e a contemplo. Six está de camiseta e com uma calça de pijama com estampa de pizza, o que me faz pensar que nem jantei hoje. E nem me lembrei de almoçar. Não estava com muito apetite.
— E aí, tudo bem? — pergunta ela.
— Tudo.
Ela me encara por um instante e depois deixa escapar uma ponta de constrangimento em seus olhos. Ela volta para a cama e se senta. Dá um tapinha no espaço ao lado dela, então me deito e a olho.
— Eu menti — digo. — Não está tudo bem.
Six suspira com força e depois se abaixa para ficar deitada ao meu lado, mas não se vira para mim. Fica encarando o teto.
— Eu sei.
— Sabe, é?
Ela faz que sim.
— Estava imaginando que você fosse passar aqui agora de noite.
De repente me arrependo de ter vindo até aqui para confrontar a situação, pois confrontá-la significa que alguma ação será tomada e talvez não seja uma ação que eu queira. Merda. Agora estou com medo.
— Você vai terminar comigo? — pergunto.
Ela vira a cabeça e me olha com sinceridade.
— Não, Daniel. Deixe de ser imbecil. Por quê? Você vai terminar comigo, é?
— Não — digo na mesma hora. Convicentemente. — Sua imbecil.
Ela dá uma risada. É um bom sinal, mas depois ela desvia o olhar, volta a encarar o teto e não diz mais nada.
— Por que as coisas andam estranhas entre a gente? — pergunto.
— Sei lá — responde ela baixinho. — Também tenho me perguntado isso.
— O que estou fazendo de errado?
— Não sei.
— Mas estou fazendo algo de errado? — pergunto.
— Não sei.
— O que posso fazer para ser melhor?
— Eu nem sei se tem como você ser melhor.
— Bom, se o problema não sou eu, é o quê?
— Todo o resto? Nada? Sei lá.
— Essa conversa não vai dar em nada — digo.
Ela sorri.
— Pois é, nunca fomos muito de conversar mais a fundo.
Não mesmo. Somos superficiais. Nós dois. Nossas conversas são, na maioria, superficiais. Gostamos de manter tudo leve e divertido porque tudo o que há debaixo da superfície é pesado demais.
— Mas isso não parece estar dando muito certo para a gente, então me diga o que está pensando. Vamos investigar um pouco e resolver isso tudo.
Six vira a cabeça e me olha.
— Estou pensando no quanto odeio as festas de fim de ano — diz ela.
— Por quê? É tão bom. Não tem aula, tem comida de sobra, e a gente pode só ficar sentado, se empanturrando na maior preguiça.
Ela não ri. Parece apenas triste. E é então que percebo por que ela odeia as festas de fim de ano, e me sinto um idiota. Quero me desculpar, mas não sei como. Então entrelaço meus dedos nos seus e aperto sua mão.
— As festas de fim de ano te fazem pensar nele?
Ela faz que sim.
— Sempre.
Não sei o que dizer. Enquanto tento pensar numa maneira de fazer com que ela se sinta melhor, Six vira o corpo e fica de frente para mim.
Solto sua mão e toco sua bochecha, acariciando-a com o polegar. Seus olhos estão muito tristes e quero beijar as pálpebras, como se isso fosse acabar com a tristeza que há ali. Mas não vai. Ela está sempre presente, escondida atrás dos sorrisos falsos.
— Você pensa nele em algum momento? — pergunta ela.
— Penso — admito. — Não como você, claro. Você passou nove meses com ele na barriga. Amou ele. Segurou-o no colo. Eu só descobri a existência dele quando já sabia o que tinha acontecido, então não fiquei me sentindo tão vazio quanto você.
Uma única lágrima escorre pela sua face, e fico feliz por estarmos tendo essa conversa, mas ao mesmo tempo me sinto tão, tão triste por ela. Acho que isso a afetou muito mais do que eu havia percebido.
— Queria poder fazer você se sentir melhor — digo, puxando-a para o meu peito. Sempre tento consertar as coisas tristes com humor, mas tenho certeza de que humor não funcionaria nessa situação. — Tenho medo de não saber te fazer feliz.
— Tenho medo de ser triste para sempre.
Também tenho medo de que ela seja triste para sempre. E é claro que aceito qualquer versão de Six possível, esteja ela feliz, triste ou zangada, mas quero que seja feliz pelo bem dela. Quero que se perdoe. Quero que pare de se preocupar.
Six demora um pouco antes de voltar a falar. E, quando fala, a voz sai trêmula:
— Parece que… — Ela suspira fortemente antes de continuar. — Parece que alguém arrancou um pedação bem do meu peito. E agora existem duas partes de mim que estão desconectadas. Eu me sinto tão desconectada, Daniel.
A confissão dolorosa me faz estremecer. Beijo-lhe o topo da cabeça e simplesmente a abraço. Não sei o que dizer para que Six se sinta melhor.
Nunca sei o que dizer. Talvez seja por isso que eu nunca faça perguntas sobre ele, pois sei o fardo que ela carrega e não sei como tirá-lo dela.
— Faz bem para você falar desse assunto? — pergunto. — Você nunca fala.
— Achei que você não quisesse saber.
— Quero, sim. Achei que você não queria falar, só isso. Mas quero mesmo saber. Quero saber tudo o que você quiser me contar.
— Sei lá. Talvez eu fique me sentindo pior, mas às vezes tenho vontade de te contar tudo.
— Então me conta. Como foi? A gravidez?
— Assustadora. Eu mal saía da casa da minha família anfitriã. Agora, quando paro para pensar, acho que estava deprimida. Não queria que ninguém soubesse, nem mesmo Sky, porque já tinha decidido que ia colocá-lo para adoção antes de voltar. Então guardei tudo dentro de mim e não contei para ninguém lá de casa porque achei que a decisão seria mais suportável se nenhuma outra pessoa soubesse. Achei que estava tomando uma decisão baseada na coragem, mas agora me pergunto se não foi uma decisão baseada no medo.
Eu me afasto e a olho nos olhos.
— Foi as duas coisas. Você estava com medo e sendo corajosa. Mas, acima de tudo, você foi altruísta.
Isso a faz sorrir. Talvez eu esteja fazendo alguma coisa certa. Penso em mais coisas para perguntar.
— Como descobriu que estava grávida? Quem foi a primeira pessoa que soube?
— Minha menstruação estava atrasada, mas achei que tinha sido da viagem e do ambiente completamente novo. Mas, quando a menstruação não veio pela segunda vez, decidi comprar um teste.
Eu fiz, e não era um daqueles em que aparece o sinal de mais ou de menos. Era daqueles que diz
“grávida” ou “não grávida”, mas em italiano. E apareceu “incinta”. Eu não fazia ideia do que significava e fiz o teste no colégio, então não pude usar o celular para pesquisar no Google porque ele estava no meu armário. Depois da última aula, perguntei à professora americana o que significava incinta, e, quando ela disse “grávida”, comecei a chorar. Então… acho que Ava foi tecnicamente a primeira pessoa para quem contei.
— Como ela reagiu?
— Ela foi incrível. Eu a adorava, e Ava foi a única pessoa para quem contei no primeiro mês. Ela analisou todas as opções comigo. Até me acompanhou quando resolvi contar para a minha família anfitriã. E ela nunca me pressionou, então foi muito bom poder conversar com ela.
Quando me decidi em relação à adoção, ela disse que conhecia um casal que estava querendo adotar, mas que eles queriam uma adoção fechada por terem medo de que eu fosse mudar de ideia no futuro. Mas Ava garantiu que o casal era honesto e eu confiei, então ela nos ajudou a arranjar um advogado e ficou do meu lado durante o processo inteiro. E, apesar de conhecer a família anfitriã, ela nunca tentou me persuadir em relação a nada.
Não quero interrompê-la, pois quero saber tudo isso desde o dia em que descobri que Six teve um filho, mas não consigo deixar de lado essa pequena informação que acabou de compartilhar.
— Pera aí — digo. — Essa professora… ela sabe quem adotou o bebê?
Não podemos entrar em contato com ela?
Six parece abatida quando pergunto isso. Balança a cabeça.
— Eu aceitei a adoção fechada. Todos nós assinamos o contrato. E, mesmo assim, já liguei para ela duas vezes desde que voltei, implorando para saber alguma coisa. Não há nada que ela possa fazer. Por motivos jurídicos e éticos. É um beco sem saída, Daniel. Sinto muito.
Fico desanimado com a notícia, mas tento não demonstrar. Faço que sim e lhe beijo a testa para tranquilizá-la. Me sinto um imbecil por ter presumido que Six não tinha tentado isso e por eu mesmo não ter tentado nada. Nem sequer me ofereci. Agora, quando enxergo a situação como um todo, fico surpreso que ela ainda me ature.
Continuo puxando assunto para que ela não pense na mesma coisa em que estou pensando — no quanto sou um merda.
— Como foi o parto?
— Doeu pra cacete, mas foi bem rápido. Eles deixaram o bebê ficar no meu quarto por uma hora. Fiquei sozinha com ele. Chorei o tempo inteiro.
E quase mudei de ideia, Daniel. Quase. Mas não porque achei que seria melhor para ele ficar comigo. Foi porque eu não queria sofrer. Não queria ficar com saudades do meu filho. Não queria sentir o vazio que eu sabia que ia sentir. Mas, por outro lado, eu também sabia que, se ficasse com ele, seria apenas por motivos egoístas. Eu estava preocupada com a maneira como
aquilo me afetaria. — Ela enxuga os olhos antes de continuar. — Antes de virem buscá-lo, olhei para ele e disse: Não estou fazendo isso porque não te amo. Muito pelo contrário. Foi a única coisa que eu disse em voz alta antes de o levarem. Queria ter dito mais.
Sinto lágrimas fazendo meus olhos arderem. Puxo-a para mais perto de mim. Não consigo imaginar como deve ter sido passar por isso. Não consigo imaginar o quanto Six deve ter sofrido esse tempo inteiro. Não acredito que eu estava achando que era por minha causa. Não sou importante o suficiente para fazer uma pessoa sofrer o tanto que sofreu quando foi obrigada a dar adeus ao próprio filho.
— Depois que a enfermeira o levou, ela voltou para o meu quarto e ficou comigo enquanto eu chorava. Ela disse: Eu sei que hoje é o pior dia da sua vida. Mas, graças a você, hoje é o melhor dia da vida de outras duas pessoas. — Ela inspira, trêmula. — Isso fez com que eu me sentisse um pouquinho melhor. Foi como se talvez essa enfermeira já tivesse presenciado muitas adoções e soubesse o quanto aquilo era difícil para mim. Senti como se eu não fosse a única mãe que desiste do próprio filho.
Balanço a cabeça, resoluto.
— Você não desistiu dele, Six. Odiei essa frase. Você deu uma vida a ele. E deu uma vida aos novos pais dele. A última coisa que você fez foi desistir. Você resistiu.
Isso a faz chorar. Muito. Ela se aconchega em mim e eu apenas a abraço e acaricio sua cabeça delicadamente.
— Sei que dá medo não saber que tipo de vida ele tem. Mas você também não sabe que tipo de vida ele teria se você tivesse ficado com ele.
Se tivesse escolhido ficar com ele, você sentiria o mesmo medo; ficaria se perguntando se não devia tê-lo deixado com alguém que tivesse condições financeiras melhores. São tantos fatores desconhecidos, e provavelmente eles sempre estarão presentes. Talvez você se sinta desconectada para sempre. Mas você tem a mim. Sei que não posso mudar tudo isso pelo que você passou, mas o que eu posso fazer são promessas. E posso cumpri-las.
Ela ergue o rosto do meu peito e me olha com olhos vermelhos e ligeiramente esperançosos.
— Que tipo de promessas?