Em busca de Cinderela / Em busca da perfeição

Colleen Hoover · Capítulo 6 de 23

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Em busca de Cinderela / Em busca da perfeição

Capítulo Três

Ela faz que sim com a cabeça.

— Sei, sim — responde, confiante. — Você também não.

Em seguida, ela volta para dentro de casa e fecha a porta.

Meu Deus.

Uma porra de um anjo.

Capítulo Três

— Vamos! — digo para ela pela quinta vez.

Ela pega a mochila, solta um gemido, levanta-se e empurra a cadeira para debaixo da mesa.

— Qual o seu maldito problema, Daniel? Você nunca tem essa pressa toda para chegar ao colégio.

Ela engole o resto do suco de laranja. Estou parado na porta há cinco minutos, pronto para sair. Abro a porta para minha irmã e vou atrás dela.

Após entrarmos no carro, nem a espero fechar a porta para engatar a ré.

— Sério, por que tanta pressa? — pergunta ela.

— Não estou com pressa — digo, na defensiva. — Você que estava muito lerda.

A última coisa que ela precisa saber é o quanto sou extremamente patético. Tão patético que estou acordado há duas horas, esperando o momento de sair. É provável que eu nem veja Six antes do almoço, a não ser que a gente tenha alguma aula em comum, então não sei mesmo por que estou com tanta pressa.

Nem tinha pensado nisso. Quero muito que a gente tenha aulas em comum.

— Como foi seu encontro ontem? — pergunta Bolota enquanto coloca o cinto.

— Foi bom.

— Beijou ela?

— Aham.

— Está gostando dela?

— Aham.

— Qual o nome dela?

— Six.

— Não, sério. Qual o nome dela?

— Six.

— Não, não o apelido que você deu. Como é que as outras pessoas a chamam?

Viro a cabeça e olho para ela.

— Six. Todo mundo a chama de Six.

Bolota enruga o nariz.

— Que estranho.

— Combina com ela.

— Você a ama?

— Não.

— Mas quer amá-la?

— Aha...

Caramba.

Espere.

Se eu quero?

Não sei. Talvez. Quero? Merda. Não sei. Que coisa feia, só faz dois dias que terminei um namoro e já estou contemplando a possibilidade de amar outra pessoa?

Bem, tecnicamente acho que nunca amei a Val de verdade. Achava que sim, mas agora penso que se uma pessoa está verdadeiramente apaixonada, o amor dela é algo incondicional. O que eu sentia por Val não era nada incondicional. Tudo que eu sentia por ela tinha certas condições. Porra, eu só a convidei para sair comigo porque durante uns 15 segundos achei que ela fosse a Cinderela.

Depois daquela experiência no armário no ano passado, eu não conseguia parar de pensar na garota misteriosa. Eu a procurei por todo canto, apesar de não fazer ideia de como ela era. Tenho quase certeza de que tinha cabelo louro, mas estava escuro, então eu podia estar errado.

Prestei atenção na voz de todas as garotas por quem passava para ver se parecia com a voz dela. O problema é que todas as vozes se pareciam com a dela. É difícil memorizar uma voz quando não se tem um rosto para fortalecer a lembrança, por isso eu sempre encontrava pequenas coisas que a lembravam em todas as garotas com quem conversava.

E cheguei mesmo a me convencer de que a Val era a Cinderela. Um dia passei por ela no corredor quando estava indo para a aula de história. Já a tinha visto antes, mas nunca prestara muita atenção porque a Val parecia ser fresca demais para mim. Esbarrei acidentalmente no seu ombro porque estava com a cabeça virada, falando com outra pessoa. Ela reclamou:

— Presta a atenção, menino.

Fiquei paralisado, com medo demais para me virar porque escutá-la dizer a palavra “menino” me convenceu de que eu estava prestes a ficar cara a cara com a garota do armário. Quando finalmente criei coragem para me virar, embasbaquei com o quanto ela era gostosa. Sempre torci para que eu achasse a Cinderela atraente quando descobrisse quem ela era. Mas a Val era bem mais gostosa do que eu estava imaginando.

Andei até ela e a fiz repetir o que tinha acabado de dizer. Ela ficou chocada, mas fez o que pedi mesmo assim. Quando as palavras saíram da sua boca, eu me inclinei para a frente no mesmo instante e a beijei. Mas, assim que a beijei, percebi que ela não era a Cinderela. Sua boca era diferente. Não diferente de um jeito ruim, apenas diferente. Quando me afastei após perceber que não era ela, fiquei um pouco irritado comigo mesmo por não conseguir superar isso. Eu nunca ia descobrir quem era aquela garota, então não adiantava ficar obcecado com isso. Além do mais, a Val era muito gostosa. Eu me obriguei a convidá-la para sair naquele dia e foi assim que começou “o namoro”.

— Você passou direto pelo meu colégio — diz Bolota.

Piso no freio ao perceber que ela tem razão. Engato a ré e volto, depois paro o carro para que ela possa descer. Minha irmã olha pela janela do carona e suspira.

— Daniel, a gente chegou tão cedo que ainda não tem ninguém.

Eu me inclino para a frente e olho pela janela dela, observando a escola.

— Não é verdade — digo, apontando para alguém estacionando. —

Tem uma pessoa lá.

Ela balança a cabeça.

— Esse é o zelador. Cheguei antes até mesmo do zelador. — Ela abre a porta, sai, vira-se e enfia a cabeça dentro do carro antes de fechar a porta.

— Preciso sair da aula uma hora antes também? Por acaso o seu cérebro está funcionando em outro fuso horário hoje?

Ignoro o comentário e ela fecha a porta. Em seguida, piso no pedal e vou para o colégio.

* * *

Não sei qual modelo de carro ela dirige, então paro na minha vaga de sempre e fico esperando. Já tem mais alguns carros por aqui, inclusive o de

Sky e o de Holder, mas sei que eles estão correndo na pista como fazem todos os dias de manhã.

Não acredito que não sei qual é o carro dela. Também não tenho o telefone dela ainda. Nem sei quando é seu aniversário. Nem qual sua cor preferida ou o que ela quer ser quando for mais velha, por que diabos escolheu a Itália para fazer intercâmbio, os nomes de seus pais ou o que gosta de comer.

As palmas das minhas mãos começam a suar, então as enxugo na calça jeans e seguro o volante. E se Six for bem irritante perto de outras pessoas?

E se for viciada em drogas? E se...

— Oi.

A voz dela interrompe o que quase chegou a ser um ataque de pânico.

Ela também me acalma pra caramba, pois assim que a vejo indo se sentar no banco do meu carro meus medos injustificados se transformam em total alívio.

— Oi.

Six fecha a porta e põe a perna em cima do banco, virando-se para mim.

Ela tem um cheiro tão bom. E não é cheiro de perfume de jeito nenhum... é só um cheiro gostoso. Um pouco cítrico.

— Já teve seu ataque de pânico? — pergunta ela.

Meu rosto é tomado pela confusão. Antes que eu possa responder, ela volta a falar:

— Tive um agora de manhã — diz, olhando para tudo ao nosso redor, sem conseguir fazer contato visual comigo. — Não consigo parar de pensar que somos dois imbecis. Talvez essa ligação que achamos que existe entre nós seja mera imaginação, talvez ontem a gente não tenha se divertido tanto quanto pensamos. Eu nem conheço você, Daniel. Não sei quando é seu aniversário, qual é o verdadeiro nome da Bolota, se tem animais de estimação, o que quer estudar na faculdade. Sei que a gente não fez nada sério demais nem se casou nem transou, mas você precisa entender que eu nunca tinha achado a ideia de ter um namorado minimamente interessante, e talvez continue não achando, mas... — Ela finalmente olha para mim. —

Mas você é tão engraçado e o ano passado foi o pior ano da minha vida, e por alguma razão quando estou com você me sinto bem. Apesar de mal conhecê-lo, eu gosto muito, muito mesmo do que já sei sobre você. — Six encosta a cabeça no apoio do banco e suspira. — E você é um gato. Muito gato. Gosto de ficar olhando pra você.

Eu me viro no banco e imito a posição dela, encostando a cabeça no apoio do meu banco.

— Terminou?

Ela faz que sim com a cabeça.

— Tive o meu ataque de pânico logo antes de você entrar aqui no carro.

Mas, quando abriu a porta e escutei sua voz, tudo desapareceu. Acho que agora já estou bem.

Ela sorri.

— Que bom.

Sorrio de volta, e ficamos nos encarando por vários segundos. Quero beijá-la, mas também gosto só de ficar olhando para ela. Eu seguraria sua mão, mas Six está passando os dedos pela costura do banco do carona e gosto de observá-la fazer isso.

— É melhor eu entrar logo e fazer minha matrícula — diz.

— Pegue o segundo horário do almoço.

Ela assente.

— Não vejo a hora de fingir que odeio você.

— Não vejo a hora de fingir que odeio você mais ainda.

Percebo que Six está prestes a se virar, então me inclino para a frente e ponho a mão em sua nuca, puxando-a para mim. Dou um beijo de bom-dia, de oi e de tchau, tudo ao mesmo tempo. Ao me afastar, olho por cima do ombro dela e avisto Sky e Holder saindo da pista e vindo para o estacionamento.

— Merda! — Empurro a cabeça dela para baixo. — Eles estão vindo pra cá.

— Droga — sussurra ela.

Six começa a cantarolar o tema de Missão Impossível, me fazendo rir.

Começo a me agachar junto com ela, mas, independentemente de estarmos com a cabeça abaixada ou não, os dois vão nos ver se vierem até meu carro.

— Vou sair do carro para que eles não venham até aqui.

— Boa ideia — diz ela, a voz abafada pelos braços. — Acho que você me causou um traumatismo cervical.

Eu me inclino e beijo a cabeça dela.

— Desculpe. Vejo você daqui a pouco. Tranque as portas quando sair.

Abro a porta do carro no instante em que Holder começa a se aproximar de mim. Ando até eles para que não se aproximem.

— Foi boa a corrida? — pergunto ao alcançá-los.

Os dois fazem que sim com a cabeça, ofegantes.

— Preciso pegar minha muda de roupa para trocar — avisa Sky para Holder, apontando para o carro dela. — Quer que eu pegue a sua? —

Holder concorda com a cabeça e ela segue naquela direção.

Os olhos de Holder desviam dela para mim.

— Por que chegou tão cedo? — pergunta ele.

Não parece estar me acusando. Provavelmente está apenas puxando papo, mas já estou achando que preciso me defender. — Bolota precisou chegar mais cedo no colégio — minto.

Ele balança a cabeça e usa a barra da camisa para enxugar o suor da testa.

— Você vai mesmo hoje à noite?

Penso na pergunta dele. Penso muito, mas não estou conseguindo me lembrar do que é que vai acontecer hoje à noite que precise da minha presença.

— Daniel, você nem sabe do que estou falando, não é?

Nego com a cabeça.

— Não faço a mínima ideia — admito.

— O jantar na casa da Sky. Karen convidou você e Val. Eles vão fazer uma festa de boas-vindas para a melhor amiga da Sky. Isso chama minha atenção.

— Ah, óbvio que vou. Mas não vou levar a Val. A gente terminou, lembra?

— Eu sei, mas o jantar é só daqui a dez horas. Talvez você volte a amá-la até lá.

Sky aproxima-se e entrega a bolsa de Holder para ele.

— Daniel, você viu Six?

— Não — respondo imediatamente.

Sky olha para o colégio, sem perceber o tom defensivo da minha resposta.

— Ela deve estar fazendo a matrícula lá dentro. — Ela se vira para Holder. — Vou atrás dela. — Ela se estica e o beija na bochecha, mas Holder continua me encarando.

E apertando os olhos.

Isso não é bom.

Sky se afasta e começo a ir atrás dela na direção do colégio. Ao passar por Holder, as mãos dele encostam no meu ombro, então paro. Eu me viro,

mas demoro alguns segundos para fitá-lo nos olhos. Ao fazer isso, percebo que ele não parece nada contente.

— Daniel?

Ergo a sobrancelha para ficar com a mesma expressão dele.

— Holder?

— O que está aprontando?

— Não sei do que está falando — respondo, com certa inocência.

— Sabe, sim, pois você usa um tom de voz diferente quando está mentindo.

Fico pensando no que ele disse. É verdade?

Merda. É verdade.

Solto um suspiro pesado e faço o que posso para parecer que estou confessando alguma coisa.

— Está bem — digo, chutando a terra debaixo dos meus pés. — Acabei de transar com a Val. No meu carro. Não queria que soubesse, porque você e Sky pareceram felizes com o fim do meu namoro.

Os ombros de Holder relaxam e ele balança a cabeça.

— Cara, não estou nem aí pra quem você namora. Sabe disso. — Ele começa a andar em direção ao colégio, então vou atrás dele. — A não ser que seja Six — acrescenta Holder. — Você não tem permissão para sair com a Six.

Continuo andando, apesar desse comentário ter me dado vontade de ficar parado.

— Não tenho a menor vontade de sair com Six. Ela nem é tão gata assim.

Ele para imediatamente e se vira para mim. Em seguida, ergue o dedo como se estivesse prestes a me repreender.

— Você também não tem permissão para falar mal dela.

Meu Deus. Talvez manter nosso namoro em segredo acabe sendo mais cansativo do que divertido.

— Não posso amá-la, nem odiá-la, nem transar com ela, nem sair com ela. Entendi. Mais alguma outra coisa?

Ele pensa por um instante e depois abaixa o braço.

— Não. Só isso mesmo. Nos vemos no almoço. — Ele se vira e entra no prédio.

Olho para o estacionamento a tempo de ver Six saindo escondida do meu carro. Ela acena para mim rapidamente. Eu aceno de volta, me viro e

entro também.

* * *

Levo a bandeja até a mesa e comemoro internamente ao ver que o único lugar vazio é ao lado de Six. Ela me vê se aproximando e seus olhos sorriem, mas apenas por um instante. Coloco a bandeja na frente de Holder e procuro me inteirar da conversa. Eles estão discutindo o jantar na casa de Sky hoje, mas eu já jantei lá antes. Karen não sabe o que é comida de verdade. Ela é vegana, então costumo recusar os convites para comer na casa delas. Mas não dessa vez.

— Vai ter carne? — pergunto.

Sky faz que sim com a cabeça.

— Vai. Na verdade é Jack quem vai cozinhar, então a comida deve ser boa. E eu fiz um bolo de chocolate.

Estendo a mão para pegar o sal, apesar de não precisar dele. Só queria uma desculpa para me inclinar e ficar bem pertinho de Six.

— E aí, Six, está gostando das aulas? — pergunto, de forma casual.

Ela dá de ombros.

— São ok.

— Me deixa ver seu horário.

Six aperta os olhos como se eu estivesse fazendo algo errado. Olho para ela, querendo que perceba que não precisa se preocupar. Eu puxaria conversa mesmo que não estivesse a fim dela, pois não sou um babaca.

— Que saco que não vamos ter nenhuma aula juntas — diz Sky. —

Quem é seu professor de história?

Six tira o horário do bolso e o entrega para mim. Eu o abro e dou uma rápida olhada nas aulas, mas vejo que não temos nenhuma em comum.

— Carson — digo, respondendo à pergunta de Sky.

Devolvo o horário para Six e lanço um olhar indicando que não temos nenhuma aula juntos. Ela parece ficar chateada, mas não diz nada.

— Você fala bem italiano? — pergunta Breckin para Six.

— De jeito nenhum. Falo melhor espanhol do que italiano. Escolhi a Itália porque tinha dinheiro suficiente para fazer essa viagem e preferia passar um ano lá do que no México.

— Escolheu bem — comenta Breckin. — Os homens são mais bonitos na Itália.

Six faz que sim com a cabeça.

— São mesmo — diz ela, concordando.

Perco o apetite imediatamente e solto o garfo no prato, o que faz o maior barulho. Óbvio que todos se viram para mim. Ficamos um momento em silêncio e constrangidos, e todos continuam me encarando, então digo a primeira coisa que surge na minha cabeça:

— Os italianos são peludos demais.

Sky e Breckin riem, mas Six pressiona os lábios e olha para o próprio prato.

Nossa, sou péssimo nisso.

Por sorte, Val aproxima-se e rouba a atenção de todo mundo.

Espere um pouco. Eu disse “por sorte”? Porque Val se aproximar não é nada bom.

— Posso conversar com você? — pergunta ela, me fulminando com o olhar.

— Tenho escolha?

— Corredor — ordena ela, virando-se por completo e seguindo para a saída do refeitório.

— Faça um favor para todos nós e vá ver o que a Val quer — diz Sky.

— Se não for atrás dela, essa menina vai acabar aparecendo de novo aqui na mesa.

— Por favor — murmura Breckin.

Fico observando a reação de todos e não sei se eles sempre agiram assim em relação a Val ou se estou percebendo isso pela primeira vez por finalmente estar vendo as coisas com mais nitidez.

— Por que vocês estão chamando Tessa Maynard de Val? — pergunta Six, confusa.

Breckin aponta por cima do ombro para a direção em que Val foi.

— Tessa é Val. Val é Tessa. Daniel não consegue chamar ninguém pelo nome, se ainda não percebeu.

Observo Six inspirar lentamente e olhar para mim. Ela parece enojada.

— Sua namorada é Tessa Maynard? Você transa com Tessa Maynard?

— Ex-namorada e transava — informo. — E, sim, é provável que tenha sido na mesma época em que você se apaixonou por um italiano peludo.

Six aperta os olhos e desvia o olhar depressa. Eu me arrependo imediatamente do que disse, mas só estava brincando. Mais ou menos. Nós

devíamos nos tratar mal. Não sei se a magoei de verdade ou se ela está apenas sendo uma ótima atriz.

Suspiro, me levanto e vou correndo na direção das portas do refeitório para voltar logo para a mesa e ter certeza de que Six não está mesmo irritada comigo.

Chego ao corredor e vejo Val parada ao lado das portas do refeitório.

— Volto com você com uma condição — diz ela.

Fico curioso para saber qual é a condição, mas a essa altura isso não importa.

— Não estou interessado.

Ela fica literalmente boquiaberta. E, agora que estou prestando mais atenção, sua boca nem é tão bonita. Não sei como caí nisso todas as outras vezes.

— Estou falando sério, Daniel — diz ela, com firmeza. — Se aprontar mais uma vez, é o fim.

Deixo a cabeça cair para trás até ficar olhando para o teto.

— Caramba, Tessa — digo. Ela não merece mais meus apelidos. Olho-a nos olhos mais uma vez. — Não quero voltar com você. Não quero namorar você. Não quero nem mais ficar com você. Você é má.

Ela zomba do que eu disse, mas continua imóvel.

— Está falando sério? — pergunta, perplexa.

— Sim. Estou falando sério. Essa é a verdade. Tenho toda a certeza do mundo. Pode escolher a frase que preferir.

Val joga as mãos para cima, se vira e volta para o refeitório. Ando até as portas e as abro. Six está me encarando da nossa mesa, então dou uma rápida olhada no resto do grupo. Ninguém está prestando atenção; portanto, gesticulo para que ela venha para o corredor. Six toma um gole rápido de água, se levanta e pede licença. Eu me afasto da porta enquanto ela se aproxima da saída. Quando as portas se abrem, eu a agarro imediatamente pelo pulso e a puxo até alcançarmos os armários. Depois a empurro neles e pressiono meus lábios nos dela. Ela leva as mãos ao meu cabelo na mesma hora e nos beijamos com pressa como se alguém fosse nos pegar no flagra.

E isso pode mesmo acabar acontecendo.

Após um bom minuto, ela empurra sem força o meu peito e eu me afasto.

— Está puta? — pergunto, quase deixando a pergunta escapar entre minhas arfadas.

— Não — responde ela, balançando a cabeça. — Por que estaria?

— Porque Val é Tessa e está na cara que você não gosta muito dela.

Além disso, tive uma crise de ciúmes e chamei os italianos de peludos.

Ela ri.

— Estamos só fingindo, Daniel. Na verdade, fiquei até um pouco impressionada e senti tesão quando você ficou com ciúmes. Mas não fiquei nada impressionada por Val ser Tessa. Não acredito que transou com Tessa Maynard.

— E eu não acredito que você transou com praticamente todos os outros caras desse colégio — digo, brincando.

Six sorri.

— Você é um babaca.

— Você é uma safada.

— Você vai para o meu jantar hoje? — pergunta ela.

— Que pergunta mais idiota.

Um sorriso surge lentamente no rosto dela, e é tão sexy que preciso beijá-la mais uma vez.

— É melhor eu voltar — sussurra ela após eu me afastar.

— Sim, é melhor mesmo. Eu também.

— Você primeiro. Eu disse que ia à secretaria resolver um problema com meu horário.

— Tudo bem — digo. — Posso ir primeiro, mas vou ficar com saudade até você voltar para a mesa.

— Não me faça vomitar.

— Aposto que você fica linda quando vomita. Aposto que até seu vômito é lindo. Ele provavelmente é rosa-chiclete.

— Você é muito nojento. — Ela ri, me dá outro beijo, empurra meu peito e se afasta. Em seguida, põe as mãos nas minhas costas e me empurra na direção das portas do refeitório. — Aja com naturalidade.

Eu me viro, pisco para ela e passo pelas portas. Volto casualmente para a mesa e me sento.

— Cadê Six? — pergunta Breckin.

Dou de ombros.

— Por que eu deveria saber? Estava ficando com Val no corredor.

Sky balança a cabeça e apoia o garfo na mesa.

— Acabei de perder o apetite, Daniel. Valeu.

— Seu apetite vai voltar antes do jantar de hoje — afirmo.

Sky nega com a cabeça.

— Não com você e Val lá. Vocês provavelmente vão ficar se beijando ao lado da minha comida. Se babarem no meu bolo de chocolate não vão ganhar pedaço nenhum.

— Desculpe, Peitinho de Queijo — digo. — Val não vai para o seu jantar. Mas eu vou.

— Aposto que vai — diz Breckin, baixinho.

Olho para ele, que corresponde com um olhar desafiador.

— O que foi que você disse, Bambi?

Ele odeia muito quando eu o chamo de Bambi, mas provavelmente sabe que eu só dou apelido para as pessoas de quem gosto. Acho que na verdade ele sabe, pois não pega muito no meu pé quando faço isso.

— Eu disse “aposto que vai” — repete ele, dessa vez mais alto.

Ele se vira para Sky, que está sentada bem ao lado dele.

— Seis, né?

Sky faz que sim com a cabeça.

— Seis ou seis e meia.

— Chegarei às seis — avisa Breckin. Ele olha para mim e abre um sorriso malicioso. — Aposto que você também vai chegar às seis, não é, Daniel? Gosta de seis? Seis está bom pra você?

Ele sabe. Que merda.

— Seis está perfeito — digo, olhando-o nos olhos. — É a minha hora preferida do dia.

Ele sorri de propósito, mas não estou preocupado. Tenho a impressão de que vai se divertir com isso tanto quanto eu.

— Tudo resolvido? — pergunta Sky a Six quando ela volta para a mesa.

Six assente e se senta. Sua mão alisa a parte externa da minha coxa enquanto ela se acomoda. Pressiono o joelho no dela e nós dois erguemos os garfos e pegamos um pouco de comida ao mesmo tempo.

Ter Six tão perto de mim e não poder tocar nela é uma enorme tortura.

Estou começando a achar que prefiro simplesmente me inclinar e lhe dar um beijo e acabar levando uma surra de Holder do que fingir que não sinto nada por ela.

Nunca me senti tão inquieto e estou assim desde que ela entrou em casa ontem à noite. Passei o dia agitado. Não consigo parar de tamborilar os dedos e balançar a perna. Parece que quero arranhar minha própria pele

quando ela não está por perto, como se eu estivesse voltando ao normal depois de me drogar.

É exatamente isso que estou sentindo. Como se ela fosse uma droga e eu estivesse me viciando na mesma hora, sendo que meu estoque acabou. A única coisa que sacia esse desejo é a risada dela. Ou seu sorriso, seu beijo ou a sensação do seu corpo encostando no meu.

Nossa, como é difícil não tocar nela. É difícil demais.

Ela começa a rir bem alto de alguma coisa que Sky disse e o desejo fica quase intolerável por causa do tamanho da minha necessidade de pegar esse som com a minha boca.

Apoio o garfo no prato, coloco a cabeça entre as mãos e solto um gemido.

— Pare de rir — peço, baixinho.

É óbvio que Six está rindo alto demais para me escutar, então me viro para ela e repito:

— Six. Pare de rir. Por favor.

Ela fecha a boca e se vira para mim.

— Como é que é?

No mesmo instante, Holder chuta o meu joelho. Chego um pouco para trás, puxo o joelho para cima e massageio o local atingido.

— Que porra foi essa?

Holder olha para mim como se eu fosse sem noção.

— Qual é o seu problema, porra? Falei pra você não ser mau com ela.

Rá. Ele acha que estou sendo mau? Ah, se ele soubesse o quanto eu queria ser bonzinho com ela.

— Não gosta da minha risada? — pergunta Six.

Pelo seu tom de voz, percebo que Six sabe o quanto gosto da sua risada, mas ela está adorando o fato de que Holder não faz ideia do que a risada dela provoca em mim.

— Não — resmungo, voltando a me aproximar da mesa.

Ela ri outra vez, e o som da sua risada faz com que eu me contorça.

— Você é sempre tão mal-humorado assim? — pergunta. — Quer que eu vá buscar sua namorada para que ela venha aqui melhorar seu humor?

— Não! — gritam Sky e Breckin em uníssono.

Olho para Six.

— Acha que minha namorada poderia melhorar meu humor?

Ela sorri.

— Acho que sua namorada é uma completa imbecil por aceitar namorar você.

Balanço a cabeça.

— Minha namorada toma decisões incrivelmente sensatas. Não vejo a hora de encontrar com ela hoje à noite e mostrar o quanto eu a considero inteligente por ter decidido namorar comigo.

— Achei que você tinha dito que ela não ia ao jantar — comenta Sky, desapontada.

Six desliza a mão para debaixo da mesa e começa a massagear a parte do meu joelho que Holder chutou.

— Meu Deus — murmuro, me inclinando para a frente. Apoio os cotovelos na mesa e passo as mãos no rosto, tentando não demonstrar sentimento algum apesar de estar me sentindo como se Six tivesse entrado no meu peito e envolvido meu coração. — O almoço já acabou? —

pergunto, para ninguém em particular. — Preciso dar o fora daqui.

Holder confere o celular.

— Mais cinco minutos. — Ele olha para mim novamente. — Está doente, Daniel? Você não está agindo muito normalmente hoje. Estou começando a ficar assustado.

A mão de Six ainda está no meu joelho. Casualmente, ponho a mão debaixo da mesa e a apoio sobre a dela. Ela vira a mão, eu entrelaço nossos dedos e aperto.

— Eu sei — digo para Holder. — Estou tendo um dia estranho, só isso.

Namoradas. Elas causam isso na gente.

Ele ainda está me observando de forma suspeita.

— Você está mesmo precisando se decidir em relação a ela. Já passou o tempo em que a gente sentia pena de você, agora não passa de uma coisa irritante.

— Ela ter sido a maior piranha também não ajuda em nada — diz Six.

— Six! — exclama Sky, rindo. — Que crueldade.

Six dá de ombros.

— É verdade. A namorada de Daniel era a maior piranha de todas. Ouvi dizer que transou com mais de seis garotos em apenas um ano.

— Não fale assim da minha namorada — digo. — Quem se importa com o que ela fez no passado? Eu não.

Six aperta minha mão, afasta a dela e a coloca em cima da mesa mais uma vez.

— Desculpe — diz ela. — Não foi legal ter dito isso. Se ajudar em alguma coisa, ouvi dizer que ela beija muito bem.

Sorrio.

— O beijo dela é fenomenal.

O sinal toca e todos pegam suas bandejas. Percebo que Six não está com a menor pressa, então também vou devagar. Sky dá um beijo na bochecha de Holder e vai com Breckin até a saída. Holder pega as bandejas dos dois e ergue o olhar para mim.

— Vejo você à noite — diz ele. — E espero que o verdadeiro Daniel apareça na festa, porque você não está fazendo muito sentido hoje.

— Eu sei — concordo, apontando rápido para minha cabeça. — Ela está me deixando maluco, cara. Completamente maluco. Estou perdendo a noção.

Holder balança a cabeça.

— É exatamente disso que estou falando. Val nunca mexeu tanto assim com você. É estranho. — Ele se afasta, ainda parecendo confuso. Eu me sinto um pouco mal por mentir para Holder, mas a culpa é dele. Ele não devia dizer quem devo namorar ou não, pois assim eu não precisaria esconder isso dele.

— Foi divertido — diz Six, baixinho.

Ela estende o braço para pegar a bandeja, mas eu a interrompo. Dou um passo para perto dela e a olho bem nos olhos.

— Nunca mais fale mal da minha namorada. Está me ouvindo?

Ela aperta os lábios para disfarçar o sorriso.

— Entendido.

— Quero que vá até seu armário. E me espere lá.

Ela encontra mais dificuldade em esconder o sorriso enquanto balança a cabeça. Pego nossas bandejas, coloco-as na pilha e volto para a mesa. Dou uma olhada ao redor e não vejo ninguém prestando atenção na gente, então me inclino depressa, dou um beijo rápido nela e me afasto.

— Daniel Wesley, vão pegar você no flagra — diz ela, sorrindo.

Depois se vira e começa a andar em direção à saída, então ponho a mão discretamente em sua lombar e a acompanho.

— Nossa, espero que sim. Se eu tiver que aguentar mais um almoço desses, vou acabar perdendo o controle e deitando você na mesa.

Ela ri.

— Como você sabe escolher bem as palavras.

Saímos do refeitório e eu a acompanho até seu armário, que fica no corredor oposto ao meu. É uma terrível inconveniência. Além de não termos nenhuma aula juntos, eu nem sequer vou vê-la nos corredores enquanto estivermos no colégio. Sei que não faz nem um dia que começamos a namorar, mas já estou com saudades dela.

— Posso passar na sua casa antes do jantar? — pergunto.

Ela balança a cabeça.

— Não, vou ajudar Karen e Sky a preparar as coisas. Vou pra lá assim que a aula acabar.

— E depois do jantar?

Ela balança a cabeça enquanto pega alguns livros e deixa outros ali.

— Sky entra no meu quarto pela janela todas as noites. Você não pode ficar lá.

— Achei que sua janela estivesse fechada para balanço.

— Só para quem tem pênis.

Dou uma risada.

— E se eu dissesse que não tenho um pênis?

Ela olha para mim.

— Eu provavelmente acharia bom. Minhas experiências com pessoas que têm pênis nunca terminam bem.

Balanço a cabeça.

— Meu pênis não quer ouvir coisas desse tipo. Ele tem o ego muito sensível.

Ela sorri, fecha o armário e se encosta nele.

— Bem, talvez você deva ir pra casa depois da aula e acariciar um pouco o ego dele até melhorar.

Ergo uma das sobrancelhas.

— Você acabou de fazer uma piada sobre masturbação.

Ela faz que sim com a cabeça.

— Isso mesmo.

— Tenho a namorada mais legal do mundo.

Ela balança de novo a cabeça.

— Tem, sim.

— Nos vemos no jantar.

— Nos vemos.

— A gente pode sair escondido pra dar uns amassos enquanto o pessoal estiver comendo?

Ela aperta os olhos como se estivesse mesmo pensando no assunto.

— Não sei. Vamos ver como vai ser.

Balanço a cabeça, concordando, e encosto o ombro no armário ao lado do dela. Estamos a apenas alguns centímetros um do outro, nos encarando de novo. Amo a maneira como ela me olha, como se realmente gostasse de fazer isso.

— Me dê o número do seu telefone — peço.

— Só se não estiver planejando me enviar fotos de você acariciando seu ego depois do colégio.

Dou uma risada e ponho a mão no coração.

— Caramba, Six. Amo todas as palavras que saem da sua boca.

— Pau — diz ela, secamente.

Ela é malvada.

— Menos essa — digo. — Não amo pau.

Ela ri e abre o armário outra vez. Então tira uma caneta, se vira e segura minha mão. Ela anota meu telefone e depois guarda a caneta no armário.

— Vejo você hoje à noite, Daniel. — Ela começa a se afastar.

Tudo que posso fazer é assentir, pois tenho certeza de que a voz dela quase fez sexo com meus ouvidos. Ela se vira e desaparece pelo corredor no mesmo instante em que alguma outra coisa surge em meu campo de visão.

Encaro os olhos que estão me fulminando agora.

— O que você quer, Bambi? — pergunto para ele, me afastando do armário.

— Você gosta dela?

— De quem? — pergunto, me fazendo de bobo.

Nem sei por que estou tentando me fazer de bobo. Nós dois sabemos de quem ele está falando.

— Eu acho fofo — diz ele. — Ela também gosta de você. Dá para perceber.

— Dá mesmo?

Ele ri.

— Você entrega o jogo rápido demais. E, sim, não sei como, mas dá para perceber que ela gosta de você. Formam um casal fofo. Por que estão escondendo? Ou melhor, de quem estão escondendo?

— De Holder. Ele disse que não posso sair com ela. — Começo a ir em direção à minha aula, e Breckin me acompanha.

— Por que não? Só porque você é um babaca?

Paro e olho para ele.

— Sou um babaca?

Breckin assente.

— É. Achei que soubesse disso.

Dou uma risada e recomeço a andar.

— Ele acha que isso vai estragar tudo por todos nós sermos amigos.

— Ele tem razão. Vai estragar mesmo.

Paro de andar outra vez.

— E quem disse que as coisas não vão dar certo entre mim e Six?

— Você não acabou de conhecê-la? Tipo, dois dias atrás?

— Não importa — respondo, na defensiva. — Ela é diferente. Tenho um bom pressentimento em relação a ela.

Breckin fica me observando por um instante e depois sorri.

— Isso vai ser divertido. Nos vemos à noite. — Ele se vira e começa a andar na direção oposta, mas depois para e volta a ficar de frente para mim.

— Se me chamar de Bambi mais uma vez, o seu segredo já era.

— Está bem, Bambi.

Ele ri e aponta para mim.

— Está vendo? O maior babaca.

Ele se vira e vai para a aula. Tiro o celular do bolso e acesso as informações da Val. Aperto o botão de deletar e adiciono o número de Six aos contatos. Vou esperar chegar à sala de aula para mandar uma mensagem.

Não quero parecer desesperado.