Em busca de Cinderela / Em busca da perfeição
Capítulo Três
Afasto o cabelo dela do rosto.
— Prometo que nunca vou duvidar da sua decisão — digo. — Prometo que nunca vou falar do assunto a não ser que você queira. Prometo que vou
continuar tentando te fazer sorrir, mesmo sabendo que isso é um tipo de tristeza que uma piada não conserta. Prometo que sempre vou te amar, não importa o que aconteça. — Pressiono meus lábios nos seus e a beijo, depois me afasto. — Não importa o que aconteça, Six. Não. Importa. O. Que.
Aconteça.
Seus olhos ainda estão com lágrimas, e sei que seu coração ainda está cheio de tristeza, mas, em meio a isso tudo, ela sorri para mim.
— Eu não te mereço, Daniel.
— Eu sei — digo, concordando plenamente. — Você merece alguém muito melhor.
Ela ri, e o som da risada preenche meu coração.
— Pelo jeito, vou ter que te aguentar até alguém melhor aparecer por aí.
Também sorrio, e finalmente, finalmente, as coisas parecem normais outra vez. Tão normais quanto elas podem ser entre pessoas como Six e Daniel.
— Amo você, Cinderela — sussurro.
— Também amo você. Não importa o que aconteça.
Capítulo Três
Quando voltei da casa de Six ontem, dormi a noite inteira pela primeira vez em um mês. Fui para a cama aliviado por saber que estávamos bem.
Mas acordei hoje me sentindo não tão bem.
Sim, nosso namoro parece estável, mas Six está sofrendo. Muito. Fico dizendo a mim mesmo que não há nada que eu possa fazer, mas, depois de acordar inquieto, percebo que é porque não estou nem sequer tentando.
Tudo bem, a adoção foi fechada. Tudo bem, as pessoas vão provavelmente bater a porta na minha cara. Mas que tipo de namorado eu seria se nem tentasse melhorar o mundo de Six?
É por isso que passei duas horas ao telefone. Liguei para sete agências de adoção e todas me disseram a mesma coisa. Não podem divulgar nenhuma informação. Mesmo assim, continuo tentando, porque vai que eu encontro uma única pessoa que não siga a ética tão à risca e se disponha a me ajudar?
Eu estava na oitava ligação quando Hannah apareceu. Contei da conversa com Six e de como sinto que preciso fazer mais coisas para tentar descobrir informações sobre quem pode estar com nosso filho, ou ao menos para encontrar alguém que possa nos dizer que ele está bem.
Também contei para Bolota, pois ela é a sombra de Hannah sempre que Hannah vem para casa nos recessos da universidade.
Pensei em não atualizá-las, pois jamais quero que elas falem desse assunto, mas também é bom ter algumas pessoas sabendo a verdade. Além disso, é melhor três cérebros pensando do que um, mesmo que sejam todos da família Wesley.
Até o momento, Hannah ligou para três advogados na Itália. Dois disseram de imediato que não poderiam fazer nada para ajudar. Agora ela está ao telefone com o terceiro.
— Adoção — diz ela, pesquisando algo no Google. — Hum. Italiano. Adozione? — Ela espera um instante, depois encara o telefone com uma expressão de desânimo. — Ele desligou na minha cara.
Toda ligação me deixa um pouquinho mais decepcionado do que a anterior.
— Deve ter alguém que possa nos ajudar — diz Hannah.
Ela se deixa cair na minha cama, tão frustrada quanto eu.
Bolota está sentada na minha cadeira da escrivaninha, girando em um círculo.
— E se você estiver mexendo num vespeiro? — diz ela. — Eles quiseram que a adoção fosse fechada por um motivo: não querem que vocês se envolvam.
— Sim, mas porque tinham medo de que ela fosse tomar o bebê de volta — digo. — Mas ela não quer isso. Só quer saber se ele está bem.
— Acho que precisa deixar as coisas como estão — diz Bolota.
Olho para Hannah, esperando que ela não esteja pensando a mesma coisa.
— Costumo concordar com Bolota, mas desta vez estou do seu lado —
diz Hannah para mim. — Continue insistindo. Faça mais algumas perguntas para Six, talvez. Alguém tem que saber de alguma coisa. A Itália não é tão grande assim, é?
— A Itália tem sessenta milhões de habitantes — digo. — Mesmo que a gente entrasse em contato com quarenta pessoas por dia, precisaríamos de mais de quatro mil anos para falar com todos os habitantes.
Hannah dá uma risada.
— Fez mesmo essas contas, foi?
Faço que sim pateticamente.
— Ah, merda — murmura ela. — Então não sei. Precisa continuar tentando, só isso. Talvez a família anfitriã de Six saiba quem foi.
Meneio a cabeça.
— Six disse que eles não se envolveram muito. Uma americana que trabalhava no colégio ajudou Six com a adoção. Perguntei a Six se havia alguma maneira de falarmos com ela, mas Six já tentou obter informações com ela mais de uma vez. Ela se recusa a dizer qualquer coisa por motivos jurídicos.
Hannah parece esperançosa.
— Mas ela sabe? De alguém que saiba onde o bebê pode estar?
Dou de ombros.
— Não sei o que exatamente ela sabe. Só sei que ela ajudou Six.
— Ligue para ela — diz Hannah.
— Não.
— Por que não?
— Porque Six disse que já tentou. Mais de uma vez. É como falar com as paredes.
— Mas você é irritante. Talvez funcione.
Será que devo me sentir ofendido?
— O que o fato de eu ser irritante tem a ver com isso?
Hannah ergue meu celular e o coloca novamente na minha mão.
— A pessoa precisa ser persistente para ser irritante. Seja persistente com ela.
Encaro meu celular.
— Nem sei para quem ligar. Não sei qual era o colégio.
Hannah me pergunta o nome da cidade em que Six fez intercâmbio e depois anota três números enquanto pesquisa na Internet. Não me lembro do nome da mulher que Six disse que conheceu, mas lembro de ter dito que era americana. Ligo para os dois primeiros colégios, pergunto se há alguma professora americana no corpo docente e ambos dizem que não.
Disco o terceiro número com pouca esperança.
— A senhora fala inglês? — pergunto.
— Falo. Como posso ajudá-lo?
— Estou procurando uma professora. Uma professora americana. Não me lembro do nome, mas preciso falar com ela.
— Temos uma professora americana no corpo docente. Ava Roberts.
— Ava! — grito. Isso! Foi esse o nome que Six mencionou ontem à noite. — Isso — digo, tentando me acalmar. Agora estou de pé e nem me lembro de ter levantado. Pigarreio. — Eu gostaria de falar com Ava Roberts, por favor.
— Um instante.
Ela me deixa na espera e meu coração dispara. Uso minha camiseta para secar o suor da testa.
— O que está acontecendo? — pergunta Bolota, parecendo um pouco mais interessada.
— Estou esperando. Mas acho que é o colégio certo.
Hannah leva as mãos à boca bem no momento em que alguém atende do outro lado da linha.
— Ava Roberts falando. Como posso ajudar?
Minha voz sai trêmula quando começo a falar.
— Oi. Olá. — Pigarreio de novo. — Meu nome é Daniel Wesley.
— Ah, um conterrâneo meu — diz. Ela parece simpática. — Está querendo se inscrever para o programa de intercâmbio?
— Não. Não, sou universitário. Estou ligando para falar de outro assunto. Talvez seja estranho, não sei.
Há uma pausa.
— Está bem — diz ela lentamente. Ouço o barulho de uma porta se fechando, como se ela estivesse garantindo a privacidade da conversa. —
Como posso ajudá-lo?
— Hum. Você se lembra de uma aluna chamada Six Jacobs? Ou talvez ela fosse conhecida como Seven Jacobs.
O fato de ela não responder é o que responde à minha pergunta. Ela certamente sabe de quem estou falando. Isso não quer dizer que vou obter alguma resposta, mas é bom saber que estou no caminho certo.
— Daniel. Foi isso que você disse?
— Foi, senhora.
— Daniel, espero que entenda que não posso falar dos alunos de jeito nenhum. Posso ajudá-lo de alguma outra maneira?
Ela sabe. Ela sabe por que estou ligando. Dá para ouvir o medo na voz.
— Não desligue — imploro. — Por favor. É que… Tá, vou arriscar e supor que a senhora é a professora que ajudou Six a encontrar uma agência de adoção. Ela mencionou que você conhecia um casal que queria adotar, então talvez ainda os conheça. Então você é a única pessoa que pode nos dizer onde está nosso bebê.
Mais silêncio de fazer o coração acelerar.
— Por que me ligou? Não posso discutir esse assunto.
— Só queremos saber se ele está bem.
— Foi uma adoção fechada, Daniel. Sinto muito. Por motivos jurídicos, não posso discutir esse assunto com ninguém.
— Eu sei. — Minha voz soa desesperada. Tenho medo de que ela esteja prestes a desligar, então começo a falar mais rápido na esperança de conseguir dizer tudo antes que ela realmente desligue. — A gente sabe que a senhora não pode falar sobre isso. Não queremos contato. Não estou ligando porque queremos o bebê de volta. Quer dizer, se ele não estiver bem, nós queremos, mas se ele estiver feliz e os pais dele estiverem felizes, nós ficaremos felizes. A gente só… — Estou me sentindo como um peixe fora d’água. Nervoso. Como se fosse incapaz de pedir uma mísera
informação a essa mulher. Mas então penso no que Hannah disse. Ela tem razão. Eu sou mesmo irritante. Sou persistente. Expiro pela boca e prossigo.
— Ela chora, sabe. Todas as noites. É não saber nada que a deixa arrasada.
Não sei se você tem alguma maneira de entrar em contato com as pessoas que o adotaram, mas, se tiver, talvez eles não se incomodassem em apenas mandar um e-mail para ela. Para atualizá-la. Mesmo que você responda com somente uma frase, dizendo que ele está bem, tenho certeza de que isso seria muito importante para Six. É tudo que peço. É que… é difícil, sabe?
Não saber nada. É bem difícil para ela.
Há um longo silêncio. Um longuíssimo silêncio. Fico preocupado achando que ela desligou, então olho o celular, mas vejo que a ligação ainda está acontecendo. Ponho o aparelho no viva-voz e espero. Depois escuto um som que parece um fungado vindo do telefone.
Ela está chorando?
Eu e Hannah nos entreolhamos, e sei que minha expressão deve ser a mesma de choque que vejo em seu rosto.
— Não posso prometer nada — diz Ava. — Posso entrar em contato com a agência de adoção e repassar sua mensagem. Mande suas informações de contato por e-mail, mas… não fique muito esperançoso, Daniel. Por favor. Tudo que posso fazer é tentar levar a mensagem até eles.
Não posso prometer que eles vão recebê-la nem que vão se sentir à vontade para responder, caso a recebam.
Aponto agitadamente para minha escrivaninha, gesticulando para que Bolota pegue papel e caneta para mim.
— Tudo bem. — Sei que devo estar parecendo bem desesperado. —
Obrigado. Obrigado. Você não faz ideia do quanto isso é importante para mim. Para a gente.
— Você já parece entusiasmado — diz a mulher. — Eu disse para não ficar esperançoso.
Pressiono minha nuca.
— Desculpe. Não estou entusiasmado. Quer dizer, estou, mas de maneira realista.
Ela já parece totalmente arrependida de ter topado fazer isso, mas não me importo com o arrependimento dela. Não sinto vergonha nenhuma.
Anoto o endereço de e-mail dela e lhe agradeço mais duas vezes.
Quando desligo, eu, Hannah e Bolota nos entreolhamos.
Acho que estou em estado de choque. Não consigo formar nenhuma palavra, nem mesmo pensar direito.
É a primeira vez que acho bom alguém ter me chamado de irritante.
— Caramba — diz Bolota. — E se der certo?
Hannah põe as mãos ao lado da cabeça e exclama:
— Meu Deus! Eu achei mesmo que fosse um beco sem saída.
Extravaso dando murros no ar. Quero gritar, mas nossos pais estão em algum lugar da casa. Puxo Hannah e Bolota para abraçá-las e começamos a pular. Hannah começa a dar uns gritinhos, pois é isso que ela faz quando está empolgada, mas, desta vez, não fico irritado.
— O que diabos está acontecendo?
Nos separamos de imediato. Meu pai está parado na porta, olhando desconfiado.
— Nada — dizemos em uníssono.
Ele ergue a sobrancelha.
— Que mentira.
Ponho um braço ao redor dos ombros de Hannah e outro ao redor de Bolota.
— Estava com saudade das minhas irmãs, pai. Só isso.
Ele aponta para nós.
— Que mentira — repete.
Agora minha mãe está atrás dele.
— O que houve?
— Eles estão felizes — diz meu pai em tom acusatório.
Minha mãe me olha como se ele tivesse surtado.
— Como assim?
Ele gesticula na nossa direção.
— Os três estavam se abraçando e dando gritinhos. Estão aprontando alguma coisa.
Agora minha mãe nos encara suspeitosamente.
— Vocês estavam se abraçando? Tipo, os três? — Ela cruza os braços na frente do peito. — Vocês três nunca se abraçam. O que diabos está acontecendo?
Hannah vai até a porta e sorri para meus pais.
— Com todo o respeito — diz ela —, não é da conta de vocês.
Em seguida, ela bate a porta na cara dos dois.
Não acredito que ela acabou de fazer isso.
Ela tranca a porta e, quando olha para mim e para Bolota, todos caímos na gargalhada. A gente se abraça outra vez e continua nosso momento de comemoração.
Meus pais não batem à porta outra vez. Acho que os deixamos extremamente confusos.
Hannah se deita na cama.
— Vai contar para Six?
— Não — respondo de imediato. — Não quero que ela fique esperançosa. Talvez eles nunca entrem em contato conosco. Espero que entrem, mas, como você disse, eles tinham seus motivos para escolher a adoção fechada.
— Pois é — diz ela. — Vai ser um saco esperar.
Vai ser. Sento na minha cama e penso no quanto vai ser um saco.
Especialmente se Ava nunca mais der notícias.
Espero que ela saiba que vou telefonar de novo na próxima semana. E
na semana seguinte também. E na outra. Vou continuar ligando até ela mudar de telefone ou de nome.
Mas, se alguma dessas duas coisas acontecer, voltarei à estaca zero.
Agora que a energia aqui dentro está se acalmando, começo a assimilar a realidade de toda a situação. Nós três ficamos em silêncio enquanto nossas esperanças diminuem.
— Bom — diz Hannah —, se você não tiver notícias deles em nenhum momento, sempre é possível fazer um daqueles testes de DNA na Internet e esperar que seu filho também faça um quando for mais velho. Sempre há essa opção.
— Pois é, mas aí Daniel jamais poderia cometer um assassinato — diz Bolota. — O DNA dele estaria no sistema para sempre. — Hannah e eu nos entreolhamos. Bolota dá de ombros, indiferente aos nossos olhares desconfiados. — Eu não correria esse risco.
Hannah e eu continuamos encarando-a.
— Você me assusta — digo.
— E o que me assusta é a ideia de você ser pai — retruca Bolota.
Cubro a boca dela com minha mão e encaro a porta do meu quarto.
— Shh. Talvez eles ainda estejam na porta — sussurro e afasto devagar a mão de sua boca.
Hannah se manifesta de sua posição na cama.
— Puts. Eu nem tinha pensado nisso. Se der certo, você vai ter que contar para os nossos pais.
Eu também não tinha pensado nisso. Mas, se for para descobrir uma informaçãozinha qualquer para Six, vale a pena sentir a raiva dos meus pais.
Bolota começa a rir.
— Cara, você está mesmo ferrado.
Hannah também ri. Olho-a com raiva, pois achei que estivéssemos do mesmo lado, mas vejo aquele entusiasmo cruel em seus olhos outra vez.
— Sabe — digo —, por um instante achei que nós três tínhamos ficado mais próximos. Mas agora vejo que vocês duas ainda acham graça do meu possível fracasso.
Abro a porta e gesticulo para que as duas saiam.