Em busca de Cinderela / Em busca da perfeição
Capítulo Cinco
— Não. — Ela se aproxima e põe as mãos no meu peito, os olhos cheios de preocupação. — O que houve? Por que está chorando? Você nunca chora.
Ponho as mãos no rosto dela e pressiono minha testa na sua. Sinto seus braços cercarem minha cintura.
— Six, eu te conto tudo — sussurro. — Mas não quero falar disso.
Ainda não. Quero só um tempinho para assimilar as coisas, pode ser?
— Assim eu fico assustada.
— Eu estou bem. Perfeitamente bem. Foi só um momento. Preciso que confie em mim. — Ponho os braços ao seu redor e a aperto com firmeza. —
Estou com fome. Tudo o que quero é comer toda aquela comida, ficar com você e meus amigos e não pensar em mais nada hoje. Estou bem. Juro.
Ela faz que sim, com a cabeça encostada no meu ombro.
— Tudo bem. Mas estraguei o molho, então a pizza já está a caminho.
Dou uma risada.
— Bem que imaginei.
Capítulo Cinco
Já se passaram oito horas desde a ligação daquele homem. Confiro meu celular a cada cinco minutos para ver se não tem nenhum e-mail, ligação perdida ou mensagem de texto.
Nada.
Ele não disse quando ia falar com a esposa. Talvez esteja esperando o momento perfeito, o que pode demorar semanas ou meses. Ou talvez eles já tenham conversado e ela tenha decidido não se comunicar conosco.
Talvez eu vá passar o resto da vida conferindo o celular, esperando o contato deles. Eu devia ter pedido para ele me avisar caso os dois decidissem não ter contato conosco. Assim, ao menos eu teria uma resposta definitiva.
— Sua vez, Daniel — diz Jack para mim.
Ponho o celular na mesa de novo e jogo os dados. Sugeri que a gente jogasse Banco Imobiliário quando Jack e Karen chegaram em casa mais cedo. Eu precisava me concentrar em outra coisa, mas esse maldito jogo é lento demais. Holder pediu para ser o banqueiro porque ele não confia em mim e conta três vezes o dinheiro de todo mundo.
Movo o dedal e vou parar em Park Place.
— Eu compro — digo.
— São 350 dólares — diz Holder.
Pago com notas de cinco porque, por algum motivo, é tudo que tenho.
Observo-o contar. Depois ele conta de novo. Ele faz como se fosse pôr as notas na bandeja, mas depois pega o maço e começa a contá-las pela terceira vez.
— Caramba. Vai logo, cacete — digo grunhindo.
— Olha a boca — diz Jack.
— Desculpe — murmuro.
Holder para de contar o dinheiro. Ele está me encarando do outro lado da mesa.
— Está tudo bem? — pergunta Six, preocupada.
— Está, sim — tranquilizo-a. — Esse jogo está demorando uma eternidade porque Holder fica contando o dinheiro como uma toupeira cega.
— Vá se ferrar — diz Holder, continuando a terceira contagem do meu dinheiro.
— As toupeiras são realmente cegas, então é redundância dizer toupeira cega — diz Breckin.
Viro a cabeça e o fulmino com o olhar.
— Calado, Bambi.
— Sério — diz Holder rispidamente enquanto toma de volta o meu título de Park Place. — Acabou para você. Vá para casa.
Pego o título de volta.
— Não, a gente não acabou. Vamos terminar essa droga de jogo.
— Você está deixando o jogo sem graça — diz Sky.
— Sério — diz Six. Ela aperta minha perna por baixo da mesa com um pouco de força. — Vamos fazer uma pausa. Podemos ir nos agarrar lá em casa. Talvez assim você se sinta melhor.
Isso realmente parece bem melhor e mais provável de me distrair do que esse jogo ridículo. Jogo o título de Park Place no centro do tabuleiro.
— Boa ideia.
— Já vai tarde — murmura Holder.
Ignoro-o e me dirijo à porta da frente. Six se desculpa por mim, fazendo com que eu me sinta um merda, mas não a detenho. Amanhã peço desculpas a todos.
A questão é que nunca me senti tão reprimido assim. Aquela ligação fez com que eu ficasse me perguntando se é assim que Six se sente o tempo inteiro. Talvez ela se sinta dessa forma desde o dia em que pôs o bebê para adoção, e, nesse caso, sou o maior babaca por jamais ter percebido e por não ter feito nada antes dessa semana.
Contornamos sua casa até a lateral, pois ela ainda usa a janela do quarto sempre que sai da casa de Sky. Logo antes de Six empurrá-la, agarro sua mão. Ela se vira, e eu deslizo a mão pelo seu cabelo e lhe puxo a cintura.
— Me desculpe. Amo você.
— Também amo você — diz.
— Desculpe o mau humor.
— Tudo bem. Você foi o maior babaca lá com o pessoal, mas eu te conheço. Você vai consertar a situação.
— Vou mesmo.
— Eu sei.
— Amo você. Não importa o que aconteça.
— Eu sei. — Ela empurra a janela para abri-la. — Venha, vou te deixar pegar nos meus peitos. Talvez assim você se distraia um pouco.
— Nos dois?
— Claro.
Ela entra pela janela e vou logo atrás, me perguntando como foi que encontrei a única garota no mundo que consegue me entender.
E, embora saiba exatamente quem eu sou, ela ainda me ama mesmo assim.
Quando estamos parados ao lado da cama dela, eu a beijo, e é um beijo gostoso. Um beijo que me distrai. Quando estou prestes a deitá-la na cama, meu celular vibra no bolso.
Minha adrenalina começa a ficar ainda mais forte. Me afasto na mesma hora e vejo a mensagem que chegou. Praticamente murcho ao perceber que é apenas uma mensagem de Holder.
Tá tudo bem, cara? Quer conversar?
— É só o Holder — digo, como se Six estivesse se perguntando quem foi que me escreveu.
Guardo o celular no bolso. Ela se senta na cama e me puxa para cima dela e, embora eu tenha agido como o maior babaca hoje à noite, ela deixa a gente ficar se agarrando por quinze minutos sem parar. Até me deixa tirar seu sutiã. Não transamos desde o dia no armário dos zeladores, então já faz um tempo do cacete. Mas é bom saber que ainda temos algo pelo que ansiar. Muito embora eu não veja a hora de transar com ela de novo, não quero que seja hoje. Hoje me comportei como um moleque. Ela merece transar comigo quando eu não estiver agindo assim.
Meu celular vibra de novo, mas agora o ignoro. Holder pode esperar.
— Acho que você recebeu outra mensagem — diz Six.
— Eu sei. Dá para esperar.
Ela empurra meu peito.
— Eu já queria fazer xixi mesmo.
Deito de costas e a vejo indo ao banheiro. Tiro o telefone do bolso e vejo uma notificação do Gmail.
Sinto meu coração revirar. Clico na notificação com tanta força que fico surpreso por não derrubar o telefone.
É um e-mail de alguém chamado Quinn Wells.
Não conheço esse nome.
Não conheço esse nome, o que é algo bom. Pode ser algo bom. Agora estou de pé. Andando de um lado para o outro. Ouço a descarga do banheiro. Leio o assunto do e-mail.
Oi.
Só isso. Só Oi. Nem sei como interpretar, então continuo lendo.
Caros Six e Daniel,
Graham me contou da conversa de vocês.
É estranho, porque já escrevi inúmeras cartas para a mãe biológica do meu filho. Cartas que eu sabia que jamais iria enviar. Mas agora que sei que vocês vão ler, nem sei por onde começar.
— Ah, meu Deus. Puta merda. Porra, porra, porra. Aê, porra!
Cubro a boca com uma das mãos e paro de ler, porque não é algo que eu deveria ler sozinho. Six precisa ler isso. Ela sai do banheiro e me vê de pé ao lado de sua cama. Gesticulo para que ela se aproxime logo e se sente.
— O que foi?
— Senta. Senta. — Dou um tapinha na cama e me sento ao seu lado.
Ela está muito confusa, mas não sei descrever o que está acontecendo, então começo a tagarelar na esperança de que ela consiga decifrar minhas palavras. — É o seguinte, fiz umas ligações no outro dia. E hoje um cara me ligou, e eu não sabia se eles entrariam em contato de novo com a gente, então nem te disse nada, mas…
Empurro meu celular para as mãos dela.
— Olha aqui. Veja só isso. Não li ainda, mas…
Six pega meu celular e me encara com uma preocupação compreensível. Ela desvia o olhar e fita a tela do aparelho.
— Caros Six e Daniel — diz ela em voz alta. — Graham me contou da conversa de vocês. É estranho, porque já escrevi inúmeras cartas para a mãe biológica do meu filho. Cartas que eu sabia que…
Six para de ler e me olha. Vejo pelos seus olhos que ela não faz ideia do que é, mas que está torcendo para que seja o que está pensando, embora esteja assustada demais para pensar isso.
— São eles — digo, apontando para meu celular. — Quinn Wells. É o nome dela. E o nome do marido dela deve ser Graham. Quinn e Graham.
Nosso bebê está com eles.
Six solta o aparelho e cobre a boca. Nunca vi olhos se encherem de lágrimas com tanta rapidez assim.
— Daniel? — sussurra ela.
Sua voz está cautelosa. Ela está com medo de acreditar.
Pego o celular.
— São eles — digo de novo.
— Como? — Ela está meneando a cabeça, totalmente incrédula. — Não estou entendendo. Você falou com o marido dela? Mas… como?
Ela está assustada demais para ler o e-mail. Eu provavelmente deveria ter explicado tudo antes para que este momento não fosse tão caótico, mas eu não sabia que ele falaria com a esposa hoje e que ela entraria em contato conosco e puta merda, não acredito que isso está mesmo acontecendo.
— Liguei para aquela moça que você mencionou. Ava. Hannah disse que eu era irritante e que precisava ser persistente, então foi o que fiz e implorei de verdade para ela, Six. Não sabia se ia dar certo, mas ele me ligou hoje e disse que ia deixar a decisão nas mãos da esposa. Me desculpe por não ter te contado, mas não queria que você ficasse esperançosa, porque eu não sabia se ela ia mesmo entrar em contato com a gente. Mas ela entrou.
O corpo inteiro de Six está tremendo com os soluços. Ela está chorando tanto que não consegue ler o e-mail. Puxo-a para perto.
— Está tudo bem, meu amor. Está tudo bem. Isso é bom.
— Como você sabe? — diz ela em meio às lágrimas. — E se ela tiver escrito para nos dizer que devemos deixá-los em paz?
Ela está apavorada, apesar de não precisar se sentir assim. Não sei como eu sei, já que ainda não li o e-mail, mas algo me diz que o contato de Quinn é algo positivo. O marido dela pareceu me escutar hoje, e não acho que eles escreveriam para dizer algo ruim.
— Quer que eu leia em voz alta?
Six faz que sim e se aconchega no meu corpo. Ponho o braço ao seu redor enquanto ela pressiona o rosto no meu peito, como se não quisesse ver o e-mail. Pego o celular e continuo a leitura da carta em voz alta. Leio desde o começo outra vez.
Caros Six e Daniel,
Graham me contou da conversa de vocês.
É estranho, porque já escrevi inúmeras cartas para a mãe biológica do meu filho. Cartas que eu sabia que jamais iria enviar. Mas agora que sei que vocês vão ler, nem sei por onde começar.
Primeiro, quero aproveitar para me apresentar. Eu me chamo Quinn Wells e o nome do meu marido é Graham. Nós dois nascemos e crescemos em Connecticut. Por força das circunstâncias, passamos um tempo na Itália, onde tivemos a sorte de receber a dádiva que foi adotar o lindo bebê de vocês.
Preciso largar o aparelho e respirar. Six ergue o rosto do meu peito e me olha, assustada com a minha pausa. Sorrio para ela e enxugo uma lágrima.
— Ela disse que ele é lindo.
Six sorri.
— Não acho que vou conseguir ler em voz alta — digo. — Vamos ler juntos.
A esta altura, já estamos duas pilhas de nervos, então estendo o braço, pego lenços de papel na mesa de cabeceira e os entrego para Six. Ela endireita a postura e eu ergo o celular. Encostamos nossas cabeças e continuamos lendo o e-mail.
Nossa luta com a infertilidade foi bem longa. Foi muito difícil concebermos um bebê, e, quando finalmente conseguimos, o resultado foi uma gravidez inviável e uma histerectomia. Não quero inundá-los com todos os detalhes dolorosos, mas saibam que, com as dificuldades que eu e Graham enfrentamos, nosso casamento se tornou mais forte e mais amoroso do que eu jamais seria capaz de imaginar.
E agora, graças a vocês, meu casamento é nada menos do que perfeito.
Como você foi mãe muito jovem, nem consigo imaginar como deve ter sido difícil colocar seu filho para adoção. E como sou incapaz de compreender a dor que você deve ter sentido, às vezes me pergunto se você não é incapaz de compreender nosso júbilo e a gratidão que sentimos.
Foi minha irmã quem nos contou a seu respeito. Você a conhece.
Ava. Ela a amava e a respeitava não apenas como uma de suas
alunas preferidas, mas como pessoa.
Perdoe-me se eu estiver enganada quanto a algum detalhe, pois não nos revelaram muitas informações sobre sua situação.
Disseram que você era uma intercambista americana na Itália.
Ava nos informou que você estava procurando uma família para adotar seu filho. Não quisemos ficar muito esperançosos, pois Graham e eu já nos decepcionamos muito no passado, mas era o que mais desejávamos na vida.
Na noite em que Ava foi lá para casa e nos contou sobre a oportunidade, pedi para ela parar de falar na mesma hora. Eu não queria escutar. Estava morrendo de medo de que a situação não fosse dar certo no final. A ideia de não dar certo depois de eu ficar esperançosa era mais apavorante para mim do que pensar que nunca aconteceria.
Depois que Ava foi embora, Graham conversou comigo sobre meus medos. Nunca vou esquecer as palavras que ele disse.
Foram elas que me fizeram mudar de ideia e abrir o coração para aquela possibilidade. Ele disse: "Se você não estivesse completamente apavorada neste momento, eu estaria convencido de que não somos os melhores pais para a criança, pois se tornar pai ou mãe tem que ser a coisa mais apavorante a acontecer na vida de uma pessoa.”
Assim que Graham disse isso, percebi que ele tinha toda a razão.
Tornar-se mãe não é uma questão de garantir a própria felicidade.
É uma questão de correr o risco de se sentir apavorada e até mesmo arrasada por causa de uma criança.
Isso também se aplica a você, como mãe biológica dele. Sei que foi uma decisão árdua. Mas, por algum motivo, você aceitou um futuro com um medo desconhecido em troca da felicidade do seu filho. Nunca serei capaz de agradecer o suficiente por isso.
Ainda não sei por que nos escolheu. Talvez tenha sido porque Ava pôde lhe garantir que éramos pessoas honestas, ou talvez ela tenha contado nossa história. Quaisquer que tenham sido seus motivos, posso garantir que não existe ninguém neste mundo capaz de amar seu filhinho tanto quanto Graham e eu amamos.
O advogado nos aconselhou a escolher a adoção fechada por vários motivos. O principal era para nos deixar tranquilos, pois
assim, se você mudasse de ideia e quisesse encontrar seu filho no futuro, nós estaríamos protegidos.
No entanto, o fato de você não poder entrar em contato conosco devido à natureza da adoção não me deixou nada tranquila. Eu estava morrendo de medo. Não era um medo irracional de perder nosso filho para você, mas um medo concreto de que você passasse o resto da vida sem conhecer o belo serzinho que pôs no mundo.
Apesar de ainda não ter completado um ano, ele é o menininho mais incrível de todos. Às vezes, quando estou com ele no colo, fico me perguntando tantas coisas. Eu me pergunto de onde veio o formato encantador da boquinha dele. Se ele herdou os vastos cabelos castanhos de você ou do pai. Se a sua personalidade brincalhona é um reflexo das pessoas que o geraram. Ele tem tantas características maravilhosas, e tudo o que queremos é compartilhá-las com as pessoas que nos abençoaram com ele.
Decidimos que ele se chamaria Matteo Aaron Wells. Escolhemos Aaron por significar “milagroso” e Matteo por ser um nome italiano que significa “presente”. E é exatamente isso que Matteo é para nós dois. Um presente milagroso.
Algumas semanas atrás, Graham e eu decidimos que ao menos consideraríamos a ideia de entrar em contato com vocês.
Falamos com nosso advogado e pedimos suas informações, mas eu ainda não tinha escrito para você porque estava hesitante. Até mesmo hoje de manhã, quando Graham me falou da ligação, eu hesitei.
Mas então, uma hora atrás, aconteceu uma coisa. Matteo estava na cadeirinha, e Graham estava dando purê de batata na boca dele quando entrei na cozinha. Assim que Matteo me viu, ele ergueu as mãos e disse: “Mama.”
Não foi a primeira palavra que ele disse, nem a primeira vez que ele disse “mama”, mas foi a primeira vez que ele usou o termo para se referir especificamente a mim. Eu não sabia o quanto aquilo iria me abalar. O quanto seria importante para mim. Na mesma hora, peguei-o no colo, apertei-o contra o meu peito e chorei. Então Graham me puxou para o peito dele, e nós dois ficamos parados, chorando juntos por vários minutos. Foi um
momento ridículo, e talvez a gente tenha se empolgado demais, mas foi apenas naquele momento que tudo pareceu real e permanente.
Somos uma família.