Em busca de Cinderela / Em busca da perfeição
Capítulo Cinco
Apesar do meu esforço para não sorrir, acabo sorrindo. Abro um sorriso ridículo e balanço a cabeça, concordando.
— Não sei o que é que ela tem, Holder. Eu... É que ela... Pois é.
— Sei o que quer dizer — comenta ele, baixinho, olhando para a grama entre os dedos.
Nenhum de nós diz mais nada por vários minutos até ele soltar a grama e limpar as mãos na calça, preparando-se para se levantar.
— Bem... fico contente por termos tido essa conversa agora, Daniel, mas o fato de a gente ter confessado nosso amor um pelo outro hoje está me deixando um pouco confuso. Nos vemos amanhã. — Ele se levanta e vai em direção a seu carro.
— Amo você, Holder! — grito para ele. — Melhores amigos para sempre!
Ele continua andando para a frente, mas ergue a mão e mostra o dedo do meio para mim.
É quase tão legal quanto me cumprimentar com o punho.
Capítulo Cinco
— Você está errado — diz ela.
Estamos na minha cozinha. Ela se encostou no balcão e estou em pé na sua frente, com os braços nas laterais de seu corpo. Prendo seus lábios com os meus, fazendo-a parar de falar. O beijo nem demora muito, pois Six afasta meu rosto.
— Estou falando sério — sussurra. — Acho que eles não gostam de mim.
Ergo a mão e a coloco em sua nuca, olhando-a bem nos olhos.
— Eles gostam de você. Juro.
— Não, não gostamos — diz meu pai ao entrar na cozinha. — A gente não suporta ela. Na verdade, estamos torcendo pra que você nunca mais a traga aqui. — Ele enche o copo de gelo e volta para a sala.
O olhar de Six o acompanha enquanto ele vai embora. Depois ela me encara, com olhos arregalados.
— Está vendo? — pergunto, sorrindo. — Eles adoram você.
Six aponta para a sala.
— Mas ele acabou de...
Meu pai a interrompe ao voltar para a cozinha.
— Estamos brincando, Six — diz ele, rindo. — É uma piada interna. Na verdade, gostamos muito de você. Tentei dar a Danny-boy o anel da vovó Wesley hoje, mas ele disse que é cedo demais para você entrar pra família.
Six ri na mesma hora em que suspira, aliviada.
— Pois é, talvez seja mesmo. Estamos juntos há apenas um mês. Acho que a gente devia esperar pelo menos mais duas semanas antes de falar em casamento.
Meu pai aproxima-se, entrando na cozinha, e se encosta no balcão na nossa frente. Fico um pouco constrangido por estar tão perto de Six, então vou para o lado dela e também me apoio no balcão.
— Você veio pra cá só pra dizer coisas que vão me envergonhar? —
pergunto.
Sei que é por isso que ele está parado aqui. Dá para ver o brilho em seus olhos.
Ele ri e toma um gole do chá. Depois franze o nariz.
— Que nada — diz ele. — Eu nunca faria isso, Danny-boy. Não sou o tipo de pai que conta para a namorada do filho que ele só fala dela. Eu também nunca diria para a namorada do meu filho que sinto orgulho dela por não ter transado com ele ainda.
Puta merda. Solto um gemido e dou um tapa na minha própria testa.
Lógico que eu não devia ter trazido Six para cá.
— Você conversa com ele sobre a gente não ter transado ainda? —
pergunta Six, completamente envergonhada.
Meu pai balança a cabeça.
— Não, não precisa. Sei porque toda noite quando chega em casa ele vai direto para o quarto e passa meia hora no banho. Já tive 18 anos.
Six tapa o rosto com as mãos.
— Ai, meu Deus. — Ela olha para meu pai por entre os dedos. — Acho que agora já sei de quem Daniel herdou a personalidade.
Meu pai assente.
— Nem me fale. A mãe dele é muito indecente.
Nessa hora, minha mãe e Bolota entram em casa com o jantar. Fulmino meu pai com o olhar, vou até minha mãe e pego as caixas de pizza. Ela guarda a bolsa, aproxima-se de Six e dá um breve abraço nela.
— Peço desculpas por não ter cozinhado pra você. Hoje o dia foi corrido — justifica minha mãe.
— Tudo bem — responde Six. — Nada como uma conversa inapropriada enquanto comemos pizza.
Observo minha mãe se virar e lançar um olhar para meu pai.
— Dennis? O que andou aprontando?
Ele dá de ombros.
— Só estou dizendo para Danny-boy que eu nunca o envergonharia na frente de Six.
Minha mãe ri.
— Bem, se não está envergonhando seu filho, tudo bem. Seria péssimo se Six ouvisse falar dos banhos demorados que ele toma todas as noites.
Dou um soco na mesa.
— Mãe! Meu Deus!
Ela ri e meu pai pisca para ela.
— Já contei isso.
Six vai até a mesa, balançando a cabeça.
— Seus pais realmente fazem você parecer o maior cavalheiro. — Six se senta à mesa e eu me sento na cadeira ao lado.
— Me desculpe — sussurro para ela, que olha para mim e sorri.
— Está brincando, né? Estou adorando isso.
— Por que você sentiria vergonha de tomar banhos demorados? —
pergunta Bolota para mim, sentando-se na frente de Six. — Na minha opinião, querer ficar limpo é uma coisa boa. — Ela pega uma fatia de pizza e dá uma mordida, mas de repente seus olhos se apertam e ela larga a pizza no prato. Pela expressão em seu rosto, Bolota acabou de entender o significado dos banhos demorados. — Ah, eca. Eca! — diz, balançando a cabeça.
Six começa a rir e eu apoio a testa na mão, convencido de que esses foram os cinco minutos mais constrangedores e vergonhosos da minha vida.
— Odeio todos vocês. Todos. — Lanço um rápido olhar para Six. —
Menos você, linda. Não odeio você.
Ela sorri e limpa a boca com o guardanapo.
— Sei exatamente o que quer dizer. Também odeio todo mundo.
Assim que as palavras saem de sua boca, ela desvia o olhar como se não tivesse acabado de esmurrar minha barriga, arrancar minhas entranhas do corpo e as esmagar no chão.
Também odeio todo mundo, Cinderela.
As palavras que eu disse naquele dia dentro do armário estão ecoando na minha cabeça.
Não é possível.
Não é possível que eu não tenha percebido que ela é a Cinderela.
Levo as mãos ao rosto e fecho os olhos, me esforçando bastante para tentar me lembrar de alguma coisa daquele dia. Da voz, do beijo, do cheiro dela. Da maneira como sentimos uma ligação quase imediata.
A risada dela.
— Você está bem? — pergunta Six depressa.
Ninguém além dela consegue perceber que algo importantíssimo está acontecendo comigo agora. Six percebe porque estamos em sintonia.
Percebe por causa dessa ligação implícita que existe entre a gente. A ligação que surgiu desde o segundo em que coloquei os olhos nela no quarto de Sky.
A ligação que surgiu desde o segundo em que ela caiu em cima de mim no armário dos zeladores.
— Não — digo, baixando as mãos. — Não estou bem. — Seguro na beirada da mesa e me viro lentamente para ela.
Cabelo macio.
Boca incrível.
Beijo fenomenal.
Minha boca está seca, então pego meu copo e tomo um grande gole de água. Bato o copo de volta na mesa e me viro para ela. Tento não sorrir, mas tudo isso está me deixando um pouco confuso. Perceber que a garota por quem eu queria ter conhecido no passado é a mesma garota por quem me sinto grato por ter na vida agora é um dos melhores momentos da minha vida. Quero contar para Six, quero contar para Bolota, quero contar para os meus pais. Quero subir no teto de casa, gritar para todo mundo e publicar isso em todos os jornais.
A Cinderela é Six! Six é a Cinderela!
— Daniel, você está me deixando assustada — diz ela, me observando enquanto meu rosto fica mais pálido e meu coração acelera.
Olho para ela. Olho para ela de verdade dessa vez.
— Quer saber por que ainda não dei um apelido pra você?
Ela parece confusa por ser isso que decido falar no meio do meu surto silencioso. Faz que sim com a cabeça cuidadosamente. Ponho uma das mãos no encosto de sua cadeira e a outra à sua frente, em cima da mesa. Em seguida, me inclino para perto dela.
— Porque eu já tinha te dado um, Cinderela.
Eu me afasto um pouco e observo seu rosto com atenção, esperando a ficha cair. A lembrança. A compreensão. Ela está prestes a se perguntar como pode não ter percebido isso, assim como eu fiz.
Ergue o olhar até encontrar o meu.
— Não — diz ela, balançando a cabeça.
Faço que sim com a cabeça, lentamente.
— Sim.
Ela ainda está balançando a cabeça.
— Não — repete ela, com mais certeza. — Daniel, é impossível que isso...
Não a deixo terminar a frase. Agarro seu rosto e lhe dou o beijo mais intenso que já dei. Não estou ligando para o fato de estarmos à mesa de
jantar. Não me importo com os gemidos de Bolota. Não me importo com minha mãe pigarreando. Continuo beijando-a até ela começar a se afastar de mim.
Six está empurrando meu peito, então eu me afasto a tempo de ver o arrependimento tomar conta do seu rosto. Me concentro em seus olhos por tempo suficiente para vê-la apertá-los enquanto se levanta para sair da cozinha. Fico observando-a correr para longe e conter o choro tapando a boca com a mão. Continuo sentado até a porta da casa bater e eu me dar conta de que ela foi embora.
Eu me levanto imediatamente. Saio com pressa e vou correndo até seu carro, que está dando ré e se afastando da minha casa. Bato o punho no capô enquanto corro até sua janela. Ela não está olhando para mim. Está enxugando as lágrimas, se esforçando para não olhar pela janela enquanto continuo batendo.
— Six! — grito, batendo na janela sem parar.
Vejo-a colocar o carro em drive. Nem penso. Vou para a frente do carro e espalmo as mãos no capô, impedindo-a de ir embora. Fico observando-a fazer tudo que pode para evitar encontrar meu olhar.
— Abaixe o vidro — berro.
Ela não se mexe. Continua chorando enquanto foca o olhar em qualquer lugar, menos no que está bem à sua frente.
Eu.
Bato no capô mais uma vez até ela finalmente olhar para mim. Ver sua mágoa me deixa confuso pra caramba. Eu não poderia ter ficado mais feliz por ter descoberto que ela é a Cinderela, mas Six parece ter ficado envergonhada pra cacete por eu ter percebido isso.
— Por favor — digo, me encolhendo ao sentir a dor que acabou de surgir no meu peito. Odeio vê-la chateada e odeio ainda mais que ela esteja chateada por causa disso.
Six põe a marcha em ponto morto, estende a mão para a porta e abaixa o vidro ao seu lado. Ainda não posso garantir que ela não vá tentar ir embora se eu sair da frente do carro. Com cuidado e bem devagar, começo a me aproximar de sua janela, observando-a o tempo inteiro para me assegurar de que não vai acelerar o carro outra vez.
Ao chegar à janela, dobro os joelhos e me abaixo até ficarmos cara a cara.
— Ainda preciso perguntar?
Ela olha para o teto e encosta a cabeça no apoio.
— Daniel — sussurra ela entre as lágrimas. — Você não entenderia.
Ela tem razão.
Ela tem toda a razão.
— Está com vergonha? — pergunto. — Porque transamos?
Ela aperta os olhos ao fechá-los, demonstrando que acha que a estou julgando. Imediatamente, estendo a mão para dentro da janela e faço-a olhar para mim.
— Nem se atreva a ficar envergonhada por causa disso. Nunca. Sabe o quanto aquilo foi importante pra mim? Sabe quantas vezes pensei em você?
Eu estava lá. Escolhi fazer aquilo assim como você, então, por favor, não pense nem por um segundo que eu a julgaria pelo que aconteceu entre a gente.
Six começa a chorar mais ainda. Quero que saia do carro. Preciso abraçá-la, porque não consigo vê-la tão chateada assim sem fazer tudo que for possível para que isso passe.
— Daniel, me desculpe — diz ela, soluçando. — Isso foi um erro. Um grande erro. — Ela estende a mão para a marcha e já estou enfiando o corpo dentro do carro, tentando impedi-la.
— Não. Não, Six — imploro.
Ela põe o carro em drive e estende a mão para a porta, colocando o dedo no botão da janela.
Tento me aproximar e beijá-la uma última vez antes que o vidro suba.