Em busca de Cinderela / Em busca da perfeição
Capítulo Quatro
— Podem cair fora. Não preciso mais de vocês aqui.
Hannah salta da cama e segura a mão de Bolota, puxando-a da cadeira.
— Queremos que dê certo, Daniel — diz Hannah enquanto sai do quarto. — Mas também queremos ver a merda que vai dar quando nossos pais descobrirem.
— Exatamente — concorda Bolota. — Quero muito ver isso.
Tranco a porta e deixo as duas do lado de fora.
Capítulo Quatro
Escolhemos a casa de Sky para o jantar entre amigos porque Karen e Jack passarão boa parte do dia fora de casa. Six me chamou para ajudar a preparar o molho, só que nunca cozinhei na vida, então tenho mais atrapalhado do que ajudado. Sky está encarregada dos cookies, porque, segundo Holder, ela faz os melhores do mundo.
Porém, depois que derrubo o segundo ovo em dois minutos, Six finalmente se arrepende da escolha que fez.
— Vá ficar com Holder e Breckin na sala — diz ela. — Acho que vai ser mais fácil sem você na cozinha.
Não me ofendo, porque é verdade.
Vou para a sala e me sento ao lado de Breckin. Ele está jogando uma partida com Holder.
— Está ganhando, Bambi?
Ele vira a cabeça preguiçosamente e me lança um olhar irritado.
— A gente passou uma semana inteira sem você me chamar disso. Achei que realmente tivesse aprendido alguma coisa na universidade.
— O que é que eu teria aprendido que me faria deixar de te chamar de Bambi?
— Ah, sei lá. A ser educado?
Holder ri da poltrona em que está esparramado. Dou uma olhada feia na direção dele.
— Está rindo do quê, Bafo de Bunda?
— Breckin tem razão — diz Holder. — Às vezes acho que talvez você esteja amadurecendo, mas aí você diz alguma coisa grosseira e vejo que me enganei. Ainda é o mesmo Daniel de sempre.
Balanço a cabeça.
— Achei que você gostava de mim justamente porque nunca mudo. Eu sou eu mesmo o tempo inteiro.
— Acho que esse é o problema — diz Breckin. — Você não evolui.
Mas está melhorando. Desde que voltou para casa, não te ouvi dizer nenhuma vez aquela palavra que começa com R de uma maneira pejorativa.
— Que palavra com R? — pergunto, sem fazer ideia do que ele está falando.
Ele começa a soletrar:
— R-E-T-A-R…
Interrompo-o.
— Ah. Essa — digo. — Pois é, aprendi que não devo dizer isso quando uma menina da minha aula de economia me deu a maior cadernada na cabeça.
— Então talvez você ainda tenha jeito — diz Breckin. — Pensando bem, acho que eu te odiava mais na escola. E se parasse de me chamar de Bambi, eu nem te odiaria mais.
— Você não usa o Twitter? — pergunta Holder. — Não vê o que acontece com gente como você?
— Gente como eu?
— Isso. Caras que saem dizendo merda de um jeito insensível por acharem que assim ficam parecendo descolados e despreocupados.
— Não acho que eu seja descolado nem despreocupado. Eu não fazia ideia de que era insensibilidade chamar alguém de Bambi.
— Que mentira — diz Holder.
— Tá, talvez eu soubesse — admito, olhando para Breckin. — Mas é só uma brincadeirinha.
— Bom — diz Breckin —, como alguém que se identifica como um homem gay, sinto que é meu dever te ensinar a ser mais sensível. Bambi é um insulto. Assim como a palavra que começa com R. E a maioria dos apelidos que você dá aos outros.
— Isso — diz Holder. — Pare de chamar minha namorada de Peitinho de Queijo.
— Mas… é brincadeira. Nem sei direito o que significa Peitinho de Queijo ou Bambi.
Holder vira a cabeça e me olha.
— Eu sei disso. Nem eu sei o que significa. Mas Breckin tem razão. Às vezes você é um babaca, e às vezes devia parar de agir como um babaca.
Merda. Pelo jeito, estou fazendo muitas descobertas sobre o que as pessoas pensam a meu respeito durante este recesso, quer eu queira ou não.
Até agora, descobri que sou insensível. Sou um babaca. Sou irritante. Sou homem. O que mais há de errado comigo?
— Isso significa que preciso inventar um novo apelido para você —
digo para Breckin.
— Pode me chamar só de Breckin mesmo.
Faço que sim.
— Está bem. Por enquanto.
Isso parece satisfazê-lo. Eu me recosto e na mesma hora meu celular toca. Tiro-o do bolso e olho de onde vem a chamada. É um número desconhecido.
Eu me levanto, e parece que meu coração ficou no sofá. Sinto a adrenalina percorrer meu corpo enquanto deslizo o dedo na tela para aceitar a chamada. Talvez seja telemarketing, mas talvez não, então corro pela sala e saio da casa para atender a ligação com privacidade.
— Alô? — Ninguém diz nada, então repito. — Alô? É Daniel. Alô?
Se for mesmo telemarketing, o atendente provavelmente nunca ouviu alguém tão desesperado para falar com um deles.
Um homem pigarreia e depois diz:
— Oi. É Daniel Wesley?
Estou andando de um lado para o outro no jardim, pressionando minha nuca.
— Isso. Quem fala?
— Eu… bom… sou o pai do seu filho.
Paro de andar. Na verdade, abaixo o tronco ao ouvir essas palavras.
Parece que meu estômago acabou de cair no chão. Parece que eu estou prestes a cair no chão.
Puta. Que. Pariu. Não diga nenhuma idiotice, Daniel. Não estrague tudo.
— Podemos conversar por um instante? — pergunta o homem.
Faço que sim freneticamente.
— Podemos. Lógico. — Vou até a varanda e me sento. Mal consigo sentir minhas pernas. — Obrigado por ligar, senhor. Agradeço muito. Só queria saber como ele está. Ele está bem? Saudável? Está feliz?
Eu provavelmente deveria chamar Six para participar da conversa. Eu me sinto péssimo por estar a metros dela, sem que ela faça a menor ideia de que estou numa ligação com um homem que sabe onde nosso filho está.
Mas temo que talvez ele não esteja ligando com boas notícias, então fico sentado até descobrir mais informações.
— Ele… — O homem hesita. Para por um instante. — Escute, Daniel.
Eu não te conheço. E não conheço a mãe biológica do meu filho. Mas conheço minha esposa, e ela passou pelo maior inferno. A última coisa que quero é trazer dor ou estresse para a vida dela de novo, pois agora ela está ótima. Preciso saber quais são suas intenções antes de contar para ela que você entrou em contato conosco. Antes que eu decida compartilhar informações com você. Espero que entenda.
— Ela não sabe que você está falando comigo agora?
— Não, não sabe. E ainda nem decidi se vou contar para ela sobre esta conversa.
Ainda.
Eu me concentro nessa palavra. Ela significa que esta ligação é o fator que vai decidir se Six e eu descobriremos o que aconteceu com nosso filho.
Pois é, zero pressão. Pelo amor de Deus.
Penso no que Hannah disse. Seja persistente.
— Certo. Tudo bem. Meu nome é Daniel. Tenho 19 anos. Minha namorada, Six… ela é a mãe biológica. E… — Eu me levanto de novo, sentindo a pressão de toda a conversa e percebendo quanta coisa depende de mim neste exato momento. — Me desculpe. Preciso de um instante, só isso.
O homem responde:
— Tudo bem. Sem pressa.
Expiro pela boca para me acalmar. Encaro a casa e dou uma olhada em direção à janela da cozinha. Six está lá dentro, sem saber o que está acontecendo aqui do lado de fora. Sem saber que estou falando com um homem que sabe onde o filho dela está.
O nosso filho.
Mas sendo bem franco… o filho é dela. É o bebê que ela gestou e carregou por nove meses. É o fardo que ela ainda carrega.
Sei que é meu filho, mas estaria mentindo se dissesse que estou falando com esse homem e sentindo todo esse nervosismo devido a uma criança que nem cheguei a conhecer. Não estou fazendo isso por ele. Tenho certeza de que Six tomou a decisão certa.
Tudo que estou fazendo é por Six. E não quero decepcioná-la. Ninguém jamais precisou tanto de uma coisa quanto Six precisa disso. E, infelizmente, o futuro da felicidade dela está nas minhas mãos. Nas minhas mãos minúsculas.
Expiro pela boca para me acalmar, torcendo para que eu consiga ser o mais sincero possível com o homem.
— Posso fazer uma pergunta? — pergunto.
— Pode.
— Por que o adotou? Você e sua mulher não podem ter filhos?
O homem fica em silêncio por um instante.
— Não, não podemos. Tentamos por vários anos, e depois minha esposa fez uma histerectomia.
Pela sua voz, consigo perceber o quanto foi difícil dizer essas palavras, e viver a situação deve ter sido pior ainda. Penso que sua esposa passou pelo mesmo sofrimento de Six.
— Você teria continuado casado com ela de todo jeito? Mesmo que não tivessem adotado um bebê?
— Sem dúvida — diz ele. — Ela é o amor da minha vida. Mas essa criança é muito importante pra gente, então se está pensando em tentar…
— Escute — digo. — Six é o amor da minha vida. Sei que só tenho 19
anos, mas ela é a melhor coisa que já me aconteceu. E vê-la triste é… é insuportável, cara. É insuportável pra caralho. Ela só precisa saber que ele está bem. Precisa saber que tomou a decisão certa. E eu estaria mentindo se eu dissesse que também preciso disso, porque não preciso. Não tanto quanto ela. Só quero que ela se sinta completa de novo. Isso a destruiu. E se ela não souber que seu filhinho está saudável e feliz, acho que ela jamais vai se curar. Pronto, acho que é só isso que estou pedindo. Quero vê-la feliz, e neste momento você e sua esposa são literalmente as únicas duas pessoas no mundo capazes disso.
Pressiono a mão na testa. Não devia ter falado palavrão. Eu disse caralho, o que provavelmente o irritou. Eu me sinto como o adolescente imaturo que ainda sou enquanto converso com esse homem.
Há um longo silêncio, mas sei que ele ainda está ao telefone porque o escuto suspirar fortemente. Em seguida, ele diz:
— Vou falar com minha esposa. Vou deixar a decisão nas mãos dela, e vou apoiar o que quer que ela decida. Tenho seu contato. Se não tiver nenhuma notícia nossa, peço que esqueça tudo. Por mais que eu queira te ajudar, não posso prometer nada.
Dou um murro no ar. Tento não soar entusiasmado demais quando respondo:
— Está bem. Obrigado. Era só isso que eu esperava. Obrigado.
— Daniel? — diz ele.
— Pois não?
— O que quer que aconteça… obrigado.
Ele não falou nenhuma palavra sobre o nosso filho, mas o obrigado disse tudo. Então nosso menininho deve estar bem e trazendo alegria para eles dois.
Ele desliga depois de dizer isso.
E o que me resta é esse vazio que sinto. Meu Deus, que peso.
Estar tão próximo, mas ao mesmo tempo tão distante.
Sento na cadeira da varanda de novo. Parte de mim quer entrar correndo, rodopiar abraçado com Six e contar tudo o que acabou de acontecer. Cada palavrinha da conversa. No entanto, meu lado realista sabe que a conversa que acabei de ter talvez não signifique absolutamente nada.
Talvez eu nunca mais tenha notícias dele. E, caso isso aconteça, por mais que eu tente entrar em contato com todos ao meu alcance, isso significaria que a decisão do casal é definitiva. E seríamos legalmente obrigados a aceitá-la.
Escondo meu rosto nas mãos porque, até agora, eu sabia que podia depositar minhas esperanças em várias áreas diferentes. Se uma das minhas iniciativas falhasse, eu sabia que podia tentar outra coisa para encontrá-lo.
Mas, agora, todas as nossas esperanças foram depositadas nessa única conversa. Nesse único homem.
Estamos no meio do maior julgamento das nossas vidas e temos um júri de uma pessoa só decidindo nosso futuro.
— Oi.
Enxugo os olhos e desvio o olhar da porta por onde Six acabou de aparecer. Levanto e lhe dou as costas. Guardo o celular no bolso.
— Daniel? Você está chorando?
Passo as mãos debaixo dos olhos mais uma vez.
— Não. É alergia.
Eu me viro para ela e abro o sorriso mais falso que já dei na vida.
— Você não tem nenhuma alergia.
— Não?