Entre irmãs

Frances de Pontes Peebles · Capítulo 6 de 20 · parte 3/3

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Entre irmãs

Capítulo 4

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Os homens discutiam. As novas pistolas parabélum, fabricadas na Alemanha, cujos cartuchos eram enfiados pela coronha, seriam muito mais fáceis de recarregar do que os velhos Colt “cavalinho”, que possuíam um tambor circular no qual se punham as balas uma a uma. Alguns não gostavam de pistolas. Preferiam confiar em seus revólveres porque, segundo diziam, seria difícil comprar cartuchos de pistolas fora da capital. E havia ainda os rifles: as velhas armas de dez tiros tinham menos munição, mas os seus canos eram mais curtos. Não esquentariam nas mãos de um homem. Os rifles novos, de doze tiros, tinham canos compridos de ferro. Tinham mais munição, porém os cangaceiros especulavam que depois de sessenta disparos o cano estaria pegando fogo.

– Vai queimar a mão da gente inteirinha – alertou Fala Mansa. Viu Luzia e piscou para a moça. – Ela é que vai decidir. Qual dos dois acha melhor? O de dez ou o de doze tiros?

Os outros homens começaram a rir. O Carcará limpou a boca e ficou esperando para ver o que Luzia responderia.

– Ela vai nos dar uma aula? – indagou Orelhinha, balançando a cabeça.

– Nada disso deveria ter importância – respondeu a moça, bem devagar. – As más costureiras...

– Uma aula de costura! – atalhou Meia-Lua.

Luzia ergueu a voz para suplantar os risos. Já estava arrependida de ter respondido. Detestava aquelas caras presunçosas, aqueles risinhos que eles davam, achando-se superiores.

– As más costureiras estão sempre criticando as máquinas. Ou as agulhas. As boas simplesmente costuram. Acho que é a mesma coisa com as armas. Essa história de dez ou doze é para quem não tem pontaria.

O Carcará soltou a maior gargalhada. Aos poucos, os demais seguiram o seu exemplo, rindo e cumprimentando Luzia pela tirada inteligente. Só Orelhinha não riu. Pôs uma colherada na boca e, depois, cuspiu um bocado de feijão.

– Está queimado! – disse ele, limpando a boca na manga do gibão. Deteve-se por um instante, fitando a moça. – Traga sal... Vitrola.

Havia semanas que ela não ouvia aquele nome. Achava que ele estivesse esquecido, enterrado na caatinga, como a velha maleta de couro. Antes que pudesse responder, o Carcará falou. Em tom baixo e afável, fitando-a bem nos olhos.

– Por favor – disse ele. – Traga o sal. Traga a lata inteira.

Orelhinha abriu um sorriso triunfante. Mais que depressa, Luzia entrou na cozinha, aliviada por se ver livre daqueles homens. As palavras de Orelhinha a tinham assustado, mas o pedido do Carcará a magoara. Ele era o guia do grupo, a sua base, a sua razão de ser. Todos os demais se espelhavam nele e, num minuto, ele a tinha transformado em empregada do bando, em sua menina de recados. Alguém de quem todos podiam debochar e a quem podiam dar ordens.

Quando entrou na cozinha, Lia tomou um susto. Pegou a lata do sal, de cabeça baixa, fitando os próprios pés. Eles tinham ficado grossos e amarelos, parecendo garras. Tia Sofia sempre dizia que as pessoas nasciam com uma cota de lágrimas. Alguns tinham mais que outros. Luzia acreditava que a sua cota era pequena e que, nas últimas semanas, tinha gastado a pouca quantidade que lhe havia sido atribuída pela vida toda. Agora, porém, sentia os olhos arderem. O rosto estava afogueado. Voltou para o quintal, tomando o cuidado de manter a cabeça baixa. Com um gesto brusco, pôs o sal em cima da mesa e se afastou.

– Espere – disse o Carcará. – Fique aqui.

A moça continuou andando. Não pretendia servi-lo. Não ia estender as mãos, como uma criada, para levar a lata de volta para dentro.

– Luzia! – exclamou ele, em tom severo. Ela parou.

– Dê cá a tigela – disse ele, dirigindo-se a Orelhinha.

Sorrindo, o cangaceiro obedeceu. O capitão pegou a lata com ambas as mãos, virou-a e derramou na tigela uma verdadeira montanha de sal que cobriu inteiramente o feijão e a farinha de mandioca.

– Você pediu sal – disse ele. – Pronto. Agora coma. E, da próxima vez, lembre-se de ter um pouco de educação.

 

10

 

Depois do almoço, os homens se deitaram tranquilamente no mato para cochilar. Orelhinha, com os lábios brancos e ressecados, sentou-se à sombra de um juazeiro e ficou tomando um copo de água atrás do outro. Aos poucos, as cabras vieram voltando do pasto. Luzia ajudou Lia a ordenhar as mães, cujas tetas estavam inchadas e doloridas. Mais tarde, enquanto Lia dava de comer aos animais, Luzia despejou o leite num pano, dentro de uma vasilha de ferro. Equilibrou a vasilha no braço aleijado, tentando derramar o líquido com o outro. Mas o recipiente estava pesado e com a alça escorregadia por causa do leite. Nesse momento, percebeu um movimento qualquer na porta, mas não podia desviar os olhos do que estava fazendo. Sentiu um cheiro que misturava suor e brilhantina.

– Quer ajuda?

– Não – respondeu ela.

Mas o braço aleijado estremeceu e caiu um pouco de leite no chão.

O Carcará se postou ao seu lado e segurou a vasilha. Estava quente ali, junto ao fogão. Aos poucos, o leite foi dessorando. O pano ficou coalhado de pelos, mosquitos e umas pintinhas de sangue. Quando terminaram, a moça retirou o pano e pôs a vasilha em cima do fogão.

– Lia está muito apegada a você – disse o Carcará. – Vai ficar triste quando for embora.

– Ela está triste pelo irmão – respondeu Luzia. – Está triste por perder a casa.

Depois do almoço, pegou a menina chorando na despensa. No dia seguinte, Tomás ia para Fidalga com os cangaceiros, para a sua vingança. Lia e seu Chico teriam de vender o rebanho e ir embora. Iam se mudar para Exu, onde trabalhavam seus outros irmãos.

– Aqui eles não estarão a salvo – disse o Carcará. – A família foi desonrada. Tomás vai lavar a honra deles.

– Não é a honra deles – retrucou Luzia, subitamente enfurecida. – É a dela. Lia deveria poder fazer o que quer. E o que ela quer é ficar aqui, onde têm uma casa e as cabras. Uma vida tranquila. Uma vida calma.

– Você é uma moça do brejo – disse o Carcará, com uma risadinha. – Isso é o seu jeito de pensar.

– O que uma coisa tem a ver com a outra?

– Você cresceu nas montanhas. E, visto lá do alto, como acontece com quem está em Taquaritinga, tudo aqui embaixo parece distante e bonito, como num quadro, mesmo se estiver ressecado e morrendo. Quando se vive aqui, na caatinga, é outra coisa. A gente vê o mundo como ele realmente é. Somos diferentes, vocês, o povo do brejo, e nós, da caatinga.

A moça pôs mais lenha no fogão. Lembrou-se do jeito como Emília distinguia as pessoas: gente do norte e gente do sul, gente da cidade e gente da roça. Luzia não via sentido nisso.

– Você é da caatinga? – perguntou.

– Exatamente.

– Isso explica a sua preferência. As pessoas sempre têm preferência pelo que conhecem.

– Nem todas. Tem gente que quer fugir daquilo que conhece – disse o Carcará, sorrindo. – Sabe – prosseguiu ele, com a mão perigosamente próxima ao fogão aceso –, você cozinha muito mal.

Luzia fitou aquela pele acobreada, a cicatriz branca, a boca carnuda e meio torta.

– Por que comeu, então? – indagou ela. – Ninguém o obrigou.

Pegou então um abanador de palha que estava perto do fogão e começou a atiçar o fogo, usando o braço bom. Ele era a pessoa mais frustrante que já conhecera – temperamental como um boi zebu de orelhas compridas que, num minuto, está andando atrás da gente e, no outro, nos dá um coice. O fogo se avivou, soltando fumaça. Luzia tossiu e abanou com mais força ainda.

O Carcará segurou o seu pulso com força. A moça já não conseguia agitar o abanador. Olhou para ele.

– Quero que meus homens a respeitem. Que sejam leais – disse o Carcará.

– Eles não são cachorros – retrucou ela. – Não pode obrigá-los.

– Não – disse ele, sorrindo. – Mas posso fazer eles comerem tudo o que você preparar.

A pressão de seus dedos se afrouxou, mas ele não tirou a mão do braço dela. Era uma mão quente, com a pele áspera. Luzia se afastou.

 

11

 

Deixaram a casa de seu Chico no meio da noite, antes que os gibões-de-couro de asas amarelas saíssem dos seus ninhos no alto das árvores. Antes que as cabras se amontoassem junto à porteira do curral e começassem a balir, pedindo para ir pastar. Lia ficou na janela da cozinha, segurando uma vela. Era uma noite fresca, sem lua. Quando Luzia olhou para trás, viu o vulto da moça contra o fundo escuro do sítio: o seu rosto reluzia, inexpressivo, como a estátua de um santo.

Não tinha conseguido dormir de tão nervosa com a perspectiva do ataque. Os homens estavam animados e só pensavam nisso. Davam instruções a Tomás, agora chamado de Beija-Flor, explicando-lhe como fazer pontaria e atirar. Horas depois, quando chegaram aos arredores de Fidalga, o bando se dividiu.

– Não desperdicem balas – sussurrou o Carcará, dirigindo-se aos seus homens antes de se separarem. – Fiquem de olhos bem abertos, com as armas prontas para serem usadas. Quando tudo terminar, vocês vão ter umas horas de folga. Respeitem as famílias. Respeitem as pessoas decentes. Se uma garota quiser se divertir com um de vocês – acrescentou, olhando para Fala Mansa –, prestem atenção para ver se ela não é jovem demais. E não paguem muito pelas raparigas.

Aquelas instruções deixaram Luzia espantadíssima. Esperava que ele falasse de balas e armas. Mas rapariga era uma palavra grosseira. Desde que tinha saído de Taquaritinga, sentia uma estranha afinidade com aquelas mulheres. Nunca tinha conhecido uma delas, mas imaginava que, por baixo do ruge e do batom, eram todas moças simples. Quando o Carcará as mencionou, Luzia começou a se perguntar quais seriam as verdadeiras intenções daquele ataque a Fidalga. Passou a ver a animação dos cangaceiros sob uma perspectiva diferente. Já tinha entreouvido conversas daqueles homens, à noite, contando vantagem sobre as garotas que se ofereciam a eles. Só os macacos e os tarados as tomavam à força; os cangaceiros do Carcará se orgulhavam dessa distinção. Será que pretendiam mesmo vingar Lia ou se exibir para as garotas da cidade? Como tia Sofia tanto dizia, “os homens têm as suas necessidades”. Os seus “instintos”, era a palavra que ela usava. E era por isso que tinham de ser evitados a todo custo, declarava sua tia, porque eram exatamente como os bodes: criaturas ferozes, imprevisíveis, que não se aquietariam enquanto esses tais instintos não fossem saciados. Antes que pudesse assimilar inteiramente as instruções do Carcará, Ponta Fina a pegou pelo braço.

– Venha – disse o menino, com ar emburrado.

Tinha recebido ordens para cuidar dela. O Baiano seguiu à frente de um grupo rumo ao leste, ao passo que o Carcará levou o outro para oeste. Ponta e ela entraram sorrateiramente em Fidalga, agachando-se na frente de uma loja fechada que dava para a praça. Luzia teve de ficar bem curvada para não bater com a cabeça no portal. As portas da loja estavam todas trancadas. Do outro lado da praça, a luz de uma lamparina bruxuleou numa janela. Dava para sentir o cheiro de um fogão que se acendia. Escuros fios de fumaça começaram a sair pelos telhados de sapê. A maioria das casas era de barro e ficava torta e apinhada em torno da praça, como se uma se apoiasse na outra. A distância, a moça ouviu vários estampidos altos que se sucederam rapidamente, como fogos de são João. A lamparina logo se apagou na tal janela.

Surgiram umas sombras na rua principal. Um a um, os cangaceiros foram aparecendo, empurrando os capangas do coronel Machado à sua frente. Baiano, Branco e Caju vinham trazendo os primeiros deles. Dois usavam trajes de dormir amarfanhados, o terceiro tinha levado um tiro no ombro. O sangue lhe escorria pela frente da camisa e manchava as suas calças. Orelhinha, Fala Mansa e Meia-Lua chegaram com mais dois homens. Ambos usavam um paletó de couro manchado e tinham os olhos semicerrados. Alfinete de Fralda, Vaidoso e Tatu trouxeram o último dos capangas, que era o mais moço deles. A sua roupa de baixo, de calças compridas, estava abotoada errado. Duas mulheres, com ruge no rosto e lábios vermelhos, o seguiam, implorando. Uma procissão se amontoava ao redor da praça, composta pelas mulheres dos outros capangas – mães, filhas, esposas –, com os xales jogados de qualquer jeito sobre a camisola de dormir, o cabelo preso sem jeito no alto da cabeça.

O sol estava nascendo. As casas de barro de Fidalga foram ficando alaranjadas. Lá no mato, Luzia podia ouvir os pássaros se comunicando alegremente, alheios ao que estava acontecendo na cidade. O Carcará apareceu com mais dois dos seus homens, trazendo um rapaz que ela não conseguiu reconhecer. O moço estava usando um roupão de linho sobre um pijama listrado. Tinha o rosto branco como cera.

– É o filho do coronel Machado – sussurrou Ponta Fina.

O Carcará mandou os seis capangas e o rapaz bem-vestido se ajoelharem junto ao busto de pedra de dona Fidalga.

– Bom dia – exclamou ele, aos brados, dirigindo-se às portas e janelas trancadas, e não aos homens ali ajoelhados.

Estreitava o olho bom por causa do sol da manhã. O outro, do lado desfigurado do rosto, continuava aberto. Ele o protegeu com o lenço.

– Sou o capitão Antônio Teixeira – declarou. – Temos umas pendências para resolver com esses sujeitos aqui. E com mais ninguém.

Mandou os prisioneiros se levantarem. Baiano cutucou cada um deles com a coronha da Winchester. Tomás postou-se à sua frente. Apontou a pistola nova, segurando-a com ambas as mãos. Luzia pôde ver o tremor nos pulsos do rapaz.

– Tirem a roupa – ordenou o Carcará.

Bem devagar, os capangas foram tirando a camisa de dormir, o paletó de couro, as ceroulas. O moço pálido se desvencilhou do roupão e começou a tirar o pijama. O ferido se encolheu ligeiramente, segurando o ombro. A camisa encharcada caiu no chão com um ruído seco. Ele tinha o peito inteiro avermelhado. Fios de sangue já secos lhe desciam pela barriga e pela parte interna das coxas. O filho do coronel Machado tratou de se cobrir com as mãos em concha. Os outros homens, porém, ficaram parados, orgulhosos, de cabeça erguida e com as pernas bem afastadas, como se aguardassem uma inspeção.

A nudez dos homens não a chocava – já tinha visto todo tipo de corpos quando tomava as medidas dos mortos –, mas aqueles estavam vivos, com o rosto reluzente de suor e os membros frouxos, não rijos. Lembrou-se dos besouros-amarelos que invadiam a casa de tia Sofia no verão. Quando eram apanhados, ficavam desamparados e viravam de costas, deixando à mostra as patinhas finas e a barriga esbranquiçada.

Ao seu lado, Ponta Fina soltava umas risadinhas. Ao redor da praça, todas as janelas continuavam fechadas. Luzia tinha ouvido dizer que o coronel Machado não deixava os seus rendeiros portarem armas de fogo. Mesmo assim, os cangaceiros tomaram lá suas precauções: Chico Caixão e Sabiá se agacharam atrás de tonéis de grãos, de armas em punho. Jacaré se acocorou junto ao tronco encalombado de um angico. Jurema e Coral, com as Winchesters engatilhadas e apontadas, esconderam-se no batente de portas.

Um outro grupo vinha andando pela rua. Estreitando os olhos, Luzia distinguiu Inteligente, com a sua sombra alongada e esguia se projetando no chão, trazendo três outros homens para a praça. Canjica vinha logo atrás. Ao contrário do que aconteceu com os outros, estes três puderam trocar de roupa: usavam calças frouxas, amassadas e túnicas de lona grosseira. Um deles carregava uma sanfona. Outro, um agogô. O terceiro, um triângulo.

– Vamos ter quadrilha – gritou o Carcará, e, em seguida, acrescentou, virando-se para os capangas nus. – Tomara que gostem de quadrilha.

Do outro lado da praça, uma janela se abriu. E, depois, mais uma.

O Carcará cumprimentou os músicos, dando-lhes uns tapinhas nas costas. Os homens seguravam firme os seus instrumentos. Mantinham os olhos baixos. O Carcará abriu um sorriso tão largo que os seus lábios se ergueram ligeiramente mesmo do lado desfigurado do rosto, que parecia contente, como se tivesse acabado de fazer uma piada astuciosa. Já o outro lado se estirou todo, mostrando os dentes, arregalando o olho.

– Toquem – ordenou.

Nervoso, o primeiro dos músicos começou a tocar o agogô. O sanfoneiro acompanhou o ritmo, abrindo e fechando o fole do seu instrumento, que emitiu uma série de sons baixos e frenéticos. O tocador de triângulo apressou-se em acompanhá-los.

– Mais devagar – observou o Carcará. Depois, virando-se para os prisioneiros despidos. – Rodando, rodando.

Luzia jamais gostou de quadrilhas. Desde pequena, odiava a chatice de ter de escolher um par e acompanhar os comandos gritados pelo chamador. Nunca conseguiu fazer as voltas e os rodopios tão depressa quanto a dança exigia.

– Rodando, rodando – gritou o Carcará.

Os homens nus baixaram a cabeça. Lentamente, começaram a girar em torno da estátua de dona Fidalga, arrastando os pés. O busto de pedra parecia observá-los, com aquele queixo proeminente que lhe dava um ar severo e de reprovação. Com a mão livre, os cangaceiros se puseram a bater na coxa, marcando o compasso da música.

– Cumprimente o seu par – disse o Carcará.

Os capangas fizeram um leve aceno de cabeça.

– Alavantu! – gritou ele.

Meio sem jeito, os homens estenderam a mão para pegar a do outro. O filho do coronel hesitou, pois não queria se descobrir inteiramente. Fala Mansa lhe bateu de raspão com o chicotinho incrustado de prata. O golpe deixou um lanho vermelho nas coxas brancas do rapaz, que estremeceu e logo tratou de segurar a mão de um dos capangas. E todos erguiam e baixavam os braços, desanimados. O Carcará fez um aceno de cabeça para Baiano.

– Balancê – disse Baiano, com voz arrastada.

Os homens soltaram as mãos e, cambaleando, dirigiram-se ao que seria seu par. Seguraram-se com a maior cautela, olhando para o céu ou para o chão. Deixaram o filho do coronel sem par. Ele ficou arrastando os pés para a frente e para trás, sozinho.

Um a um, os cangaceiros foram gritando comandos, mandando-os girar, fazer reverência, se curvar. Ouviram-se risos vindos de uma janela aberta. Alguns moradores da cidade tinham vindo espiar da porta de casa. Outros, perdendo o medo inicial, saíram para a rua e começaram a bater palmas.

O sol da manhã invadiu o arco da porta onde Luzia estava, aquecendo-lhe o rosto. Mesmo assim, ela sentia um estremecimento por dentro, como se tivesse tomado uma caneca de água e percebesse o líquido descendo – arrepiante, frio –, percorrendo o interior do seu corpo e instalando-se no estômago. Sentia também uma leve satisfação em ver que aqueles homens estavam sendo comandados, aguilhoados e humilhados. Exatamente como haviam humilhado Lia.

– Enfiem um dos polegares na boca – gritou Orelhinha. – E o outro no rabo!

Os homens nus fizeram o que o cangaceiro mandou.

– Troquem os polegares! – bradou Meia-Lua.

E os cangaceiros caíram na gargalhada.

Luzia sentiu um bolo no estômago. Fechou os olhos.

– Parem! – exclamou o Carcará. – Acabou a brincadeira.

Os homens se calaram. A sanfona parou com um guincho. Luzia abriu os olhos. O rosto dele tinha se transformado; o sorriso desaparecera. A sua face estava bem vermelha, exceto pela cicatriz branca e irregular, como se fosse um osso saindo pele afora. Então, ele desembainhou o punhal.

– De joelhos – disse.

A lâmina era tão comprida quanto o cano de um rifle. O sol refletia nas suas partes chatas. O Carcará parou atrás do primeiro capanga ajoelhado. Mandou Tomás se postar atrás do segundo.

– Sabe o nome da sua mãe? – perguntou o Carcará, dirigindo-se ao sujeito que estava no chão à sua frente.

Luzia o reconheceu: era o mais velho do grupo, o de cabelo escuro que a tinha comparado a um cavalo. O cabelo do sujeito estava molhado de suor. Os seus olhos eram ferozes.

– Maria Aparecida da Silva – disse o homem, bem alto.

– Sabe o nome do seu pai? – perguntou o Carcará.

– Vá para o diabo!

O cangaceiro dobrou os braços. Ergueu o punhal. Parecia até uma agulha comprida. Luzia se lembrou das explicações que Ponta Fina lhe dera acerca das facas – se fosse enfiado no lugar certo, o punhal penetraria direto no corpo, perfurando coração, pulmões, estômago. Havia uma cavidade na base do pescoço do sujeito, uma depressão natural entre a clavícula e os ombros. Foi ali que o Carcará encostou a ponta do punhal.

– Para quem você trabalha? – perguntou.

– Para o coronel Machado – respondeu o capanga. – Um homem de verdade, que não é como você, seu cangaceiro vagabundo!

O Carcará sorriu. Manteve os braços rígidos, a arma perfeitamente imóvel.

– Sabe por que está sendo julgado?

– Só Deus vai me julgar! – gritou o sujeito.

O Carcará esticou os braços. A lâmina penetrou naquela cavidade e desapareceu. Um esguicho fino e escuro jorrou para cima, respingando os punhos do cangaceiro. Ele soltou o ar longamente e, então, inclinou-se, como se fosse cochichar ao ouvido do capanga. Os olhos do homem se arregalaram. O corpo cambaleou e caiu para frente. Com todo o cuidado, o Carcará retirou o punhal e o entregou a Tomás.

O processo se repetiu com o segundo homem, mas o filho de seu Chico estava nervoso ao fazer as perguntas. O Carcará ficou ao seu lado, incitando-o a falar mais devagar. O garoto procurou a cavidade entre os ombros e a clavícula e preparou o punhal. Um momento antes do movimento final, estremeceu. O punhal saiu do lugar. Ficou preso no meio do caminho. O capanga gemeu. Tomás retirou a lâmina.

Ponta Fina saiu correndo da soleira da porta e entregou ao filho de seu Chico um facão de lâmina bem grossa. Era o mesmo que ele usava para decepar a cabeça de cabras e lagartos do mato com um único golpe certeiro. Com o rosto reluzente de suor, Tomás pegou a arma e mirou o pescoço do capanga. Luzia tapou os olhos. Sentiu o frio do portal de barro em seu rosto. Voltou a se encolher. Ouviu-se uma pancada surda, parecida com o som oco de uma abóbora sendo cortada e, depois, silêncio. Luzia escutou uma tosse seguida do ruído de um líquido caindo. Tirou as mãos do rosto. O filho do coronel Machado tinha vomitado. Mais uma vez, Tomás errara o golpe e o sujeito à sua frente ainda estava vivo, ajoelhado e cambaleante. Tinha os olhos esbugalhados e a boca aberta, de onde escorria um fio de baba. Nas suas costas, havia um corte no local onde Tomás, errando a pontaria, o tinha atingido. Pela abertura, saía um pulmão, rosado e reluzente. O Carcará parecia aborrecido.

– Nunca feche os olhos quando fizer pontaria – disse ele. – Só piora tudo.

Pegou o punhal e se inclinou sobre o ferido. Nas suas mãos, a arma funcionava com facilidade, de um modo limpo. O capanga caiu no chão. Quando se dirigiram para o outro homem, o rosto do Carcará continuava sereno. Bateu com os dedos na cartucheira. Disse a Tomás que fosse rápido e eficiente.

Segundo os boatos em Taquaritinga, o Carcará tinha sede de sangue e adorava vê-lo jorrar. Mas Luzia já tinha matado cabras, galinhas e teiús. Sabia como ficava fácil partir um pescoço, cortar um tendão, abrir uma barriga. Como se tornava tedioso. O sangue fazia uma sujeira danada, dava um trabalhão. Aparecia depois que tudo o que era importante já tinha acontecido. Lembrou-se do rosto do Carcará durante a quadrilha e o interrogatório: aquele ar inebriado, o sorriso meio enlouquecido. A humilhação e a exibição pública daqueles homens lhe deram prazer. Mas todos ali tiveram a mesma sensação, inclusive ela. Não tinha se deliciado quando ele os mandara tirar a roupa, se curvar, se pôr de joelhos? Não tinha prendido a respiração quando ele sacara o punhal e o enfiara calmamente e com a maior facilidade naqueles pescoços?

Luzia sentiu o estômago embrulhado. O pulmão do segundo homem murchou, desaparecendo dentro do corte profundo. Os outros homens foram caindo no chão como sacos de farinha. A moça sentiu a saliva grossa e quente. Esgueirando-se da porta onde estava, saiu correndo.

12

 

Atrás da praça, havia uma rua de terra ladeada por mais casas de barro. Galinhas ciscavam tranquilamente pelo chão, alheias ao que estava acontecendo ali perto. Luzia cambaleou. O seu corpo parecia se mover sem o comando da mente. As galinhas se dispersaram.

Bateu numa daquelas portas. Lá dentro, ouviu passos e murmúrios, mas ninguém veio abrir. Deu uma pancada na porta com a mão espalmada e correu até a próxima casa. E, depois, à outra. No fim da rua, viu os fundos da capela de Fidalga. Era uma portinha protegida por um portão de ferro fundido. Luzia enfiou as mãos por aqueles arabescos. Sacudiu a grade. Um homenzinho veio espiar pela porta entreaberta. Usava um hábito marrom e o corte de cabelo dos frades.

– Quem é você? – perguntou ele, passando os olhos pelo rosto da moça, o seu bornal, as cabaças de água e, finalmente, as suas calças compridas. – Veio junto com esses homens?

– Por favor – disse Luzia, num sussurro, com medo de gritar. – Me esconda.

– Você é a prostituta deles – retrucou o frade. – Veio saquear a igreja.

Luzia sacudiu o portão com toda a força. As dobradiças rangeram. O religioso arregalou os olhos. Com um gesto desajeitado, bateu a porta.

A moça se recostou no portão. Parecia até que o seu corpo estava pesado demais para as suas pernas.

Aqueles homens caídos na praça tinham-na feito pensar no boneco do Judas. Na Semana Santa, as mulheres de Taquaritinga faziam um boneco de pano do tamanho de um homem e o recheavam de capim. Dona Conceição lhes dava umas calças rasgadas e uma camisa velha. Alguns homens faziam-lhe um chapéu de palha trançada. Quando o boneco estava pronto, era pendurado na praça da cidade. No domingo de Páscoa, pela manhã, todas as crianças saíam catando paus e pedras. Malhavam o Judas até ele desmontar e cair das cordas que o prendiam. No chão, o boneco apanhava ainda mais. Era cuspido e chutado. Os adultos riam. Luzia adorava bater naquele boneco quando era pequena. Espremia-se entre o bando de crianças e o espancava com o braço bom, até sentir os músculos doloridos. O barulho dos paus acertando a pele de pano do Judas a deixava animadíssima. O cheiro forte das suas entranhas de capim chegava a deixá-la meio zonza. Agora, ao pensar nisso, sentiu-se enjoada.

Encostou a testa no portão da capela. O ar da manhã tinha ficado quente e seco. O calor fizera os pássaros se calarem e despertara as cigarras. O ciciar estridente ecoava em seus ouvidos. Apesar de toda aquela zoada, ouviu passos no cascalho da rua, acompanhados de uma série de respirações rápidas e curtas. Sentiu que alguém lhe puxava o braço. Ponta Fina estava parado ali, ao seu lado, sem fôlego.

– Por onde andou? – perguntou o menino.

Antes que ela pudesse responder, ele já tinha segurado o seu braço aleijado e estava tentando ajudá-la a se levantar do chão. Luzia resistiu. Desvencilhou-se da mão de Ponta e ficou de pé. Saiu andando depressa, sem saber para onde iria, mas louca para se afastar dele, da praça, daquela cidade.

– Espere! – gritou Ponta. Quase corria, não conseguindo acompanhar os passos da moça. Desembainhou uma das facas: era a pajeuzeira sem ponta. Luzia parou. – Se você for embora, ele vai dizer que foi minha culpa – falou o garoto, e sua voz falhou. – Eu é que vou ser o culpado.

A linha do seu queixo era angulosa, mas as bochechas continuavam roliças e gorduchas, como as de uma criança. Havia uma manchinha na sua face esquerda, perto do nariz. Uma mancha escura, cor de canela ou do molho pardo que tia Sofia gostava de pôr no seu fubá. Já estava seca e rachada. Luzia pegou o lenço no bornal. Molhou-o na cabaça de água e limpou o rosto do menino.

 

13

 

Não machucaram o filho do coronel Machado. Ao invés disso, o rapaz pálido passou aquele longo dia sem nuvem amarrado ao busto de pedra da avó. Os corpos dos capangas foram retirados da praça e empilhados na varanda da casa do coronel. Ficaram estirados um de cara para o outro, com os dentes cerrados num sorriso estranho. Duas crostas desciam dos buracos escuros onde antes havia os seus olhos, como se tivessem chorado lágrimas de sangue.

Tomás revirou as roupas e os pertences daqueles homens. Pegou para si uma pistola, um chapéu de couro, um crucifixo e um lenço. Todo o resto foi queimado. O Carcará bateu à porta da capela de Fidalga até que o frade trêmulo veio abrir e convidou todos, cangaceiros e moradores locais, a entrar. Depois, Ponta Fina foi batendo de porta em porta, chamando todo mundo para a comemoração que seria realizada na praça. Como geralmente acontecia com os pedidos dos cangaceiros, aquilo era mais uma ordem que um convite. As únicas pessoas que não estariam presentes seriam as mulheres dos capangas, que tinham coberto a cabeça com um lenço preto e se reuniram nas proximidades da casa do coronel para velar os seus mortos. Ficaram ajoelhadas do lado de fora do portão, rezando pela alma dos seus homens. Não tinham autorização para enterrar os corpos, já que aquela pilha era um presente para o coronel quando ele voltasse do Pará. Sem enterro, as almas não descansam; ficariam vagando sem rumo. O Carcará amarrou uns panos brancos nas pernas dos cadáveres para que as suas almas não viessem atrás dele, nem dos seus homens.

Naquela noite, o tempo esfriou, mas o fogo os aquecia. Baiano e Inteligente mataram as melhores porcas do coronel Machado e Canjica fez uma imensa fogueira para assar a carne no espeto. Mulheres da cidade assavam espigas de milho. Um grupo de homens fumava grossos cigarros de palha. Os três músicos que tinham tocado de manhã sentaram-se junto ao fogo e executaram as músicas pedidas pelos cangaceiros. Aos seus pés, brilhavam moedas. A distância, por detrás do lamento da sanfona, Luzia ouviu os grunhidos ferozes dos cachorros-do-mato, banqueteando-se na casa do coronel. E, de quando em quando, dava para ouvir também as orações, em voz alta e firme, vindas da mesma direção. “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco...” Então, o agogô e o triângulo soavam mais alto, voltando a abafar todos aqueles sons.

Luzia sentou num banquinho, afastada do fogo e das festividades. Vaidoso lhe trouxe uma espiga de milho assada, mas a moça não conseguiu comer. Tudo tinha um gosto amargo. Um cheiro forte de perfume se espalhava junto com a fumaça. Diante da perspectiva de dançar com as moças da cidade, os cangaceiros logo trataram de comprar um caixote do Extrato Dirce e jogaram frascos e mais frascos na cabeça. Muitos deles estavam dançando ao redor da fogueira. Todos mantinham uma distância respeitosa das tímidas parceiras. Baiano dançava devagar, movendo-se num ritmo um pouco mais lento que o da música. Jacaré ficava o tempo todo com a cabeça erguida e sorria, exibindo os dentes brancos. Era Fala Mansa quem dançava melhor, mexendo os pés e as cadeiras com tanta facilidade que parecia até que as suas articulações estavam azeitadas. Caju conduzia o seu par todo empertigado. E Ponta Fina não tirava os olhos das sandálias, preocupado em não pisar nos pés da moça com quem dançava. Metade do bando, com a aprovação do Carcará, preferiu não participar da festa. Em vez disso, acompanharam as mulheres de ruge e batom que tinham visto pela manhã até o seu local de trabalho.

Luzia ouviu umas risadas estridentes. Perto dela, um grupo de crianças acocoradas no chão estava fazendo balões. Antes da festa, o Carcará tinha comprado uma resma de papel colorido e um quilo de goma de mandioca refinada. As crianças fizeram um mingau com aquele pó branco. Depois, mergulhavam os dedos na mistura grossa e colavam o papel à estrutura de varetas de madeira. Uma delas colou um bigode de papel no busto de dona Fidalga.

O filho do coronel Machado tinha sido desamarrado da estátua e trancafiado no estábulo do pai para não estragar a comemoração. Ao seu lado, Luzia ouviu um grupinho de moças da cidade dizendo como era bom fazer uma festa sem a permissão do coronel, sem os capangas dele circulando furtivamente por todo lado e acabando com a alegria de todos. O mesmo grupo tinha dado de presente ao Carcará pães e beijus de tapioca. Todas tinham lavado a cabeça e posto o seu melhor vestido. Paravam perto dele, de mãos postas, pedindo-lhe a bênção. Lá em Taquaritinga também havia várias meninas como essas – levadas a acreditar que os cangaceiros eram gente corajosa e romântica. Encantadas com os lenços de seda e as coleções de anéis de ouro daqueles homens.

Luzia alisou as calças. Ficou brincando com a própria trança. Ninguém lhe dirigia a palavra. Um grupo de mulheres tinha se aproximado timidamente, oferecendo-lhe beiju com manteiga e bolo de milho. Depois, elas se afastaram, olhando fixamente para as suas calças e cochichando umas com as outras. Luzia teve saudade dos seus velhos vestidos: o de algodão branco debruado de amarelo ou o verde-claro que, segundo Emília, combinava com os seus olhos. Por trás dos casais que dançavam, viu o Carcará andando bem devagar em meio à multidão. Era a primeira vez que ele se levantava de onde tinha se sentado, ao lado da fogueira. As moças da cidade se alvoroçaram, empolgadas. Luzia chutou o chão. Tanta empolgação por causa de um cangaceiro fedorento, de cabelo comprido! Ele não era padre. Não era coronel. Mas, naquela noite, tinha o poder de um coronel. Era só isso que deixava aquelas moças tão entusiasmadas, nada mais. O coronel Machado acabaria voltando. Ninguém ali na festa parecia se dar conta disso. Ele voltaria e também ia querer se vingar. Afinal, a vingança é um direito de todo homem da caatinga. E, quando ele voltasse, os homens e as mulheres de Fidalga seriam obrigados a paparicá-lo, exatamente como estavam fazendo com o Carcará, simplesmente para salvar a própria pele.

Ergueu os olhos e viu que o Carcará vinha na sua direção. Quando ele se aproximou, estendeu-lhe a mão.

– Não sei dançar – disse ela.

– Não estou convidando você para dançar – retrucou o cangaceiro, com a mão ainda estendida. – Quero que venha comigo.

O seu sorriso estava diferente daquele outro, estranho, exageradamente cuidadoso, que tinha pela manhã: era um sorriso relaxado; os traços do seu rosto estavam abrandados à luz da fogueira. Luzia ficou calada. Sentia as mãos pegajosas.

– Está bom aqui – disse por fim.

– Está com medo? – indagou ele, rindo.

Aquele medo era ridículo. O riso dele só fazia confirmar isso. Luzia olhou para as calças que usava, o braço torto, os pés cheios de calos. Havia dezenas de moças muito mais bem-apessoadas ali na praça. E as mulheres de ruge mais adiante, rua abaixo. Era bobagem achar que ele pudesse se interessar por ela. Levantou-se, então. Era melhor se arriscar que ter de aguentar as zombarias dele.

Mas não lhe deu a mão. Mesmo assim, ele a segurou bem firme e foi levando-a para longe da fogueira, em direção à capela. Abriu a porta de madeira em arco e lhe fez sinal para entrar. Luzia hesitou.

– Quero lhe mostrar uma coisa – disse ele. – Não vai demorar nada.

Pelo chão, entre as fileiras de bancos, havia sacas de feijão, tijolos de rapadura e uma pilha de cobertores novos. Pulando por cima dos seus novos pertences, os dois se encaminharam para os fundos da capela, onde ficava a pia de água benta. Debaixo dela, estava uma máquina de costura. Esguia e preta. Tinha uma manivela prateada, como a de tia Sofia, mas não estava velha nem enferrujada; pelo contrário, brilhava. Ao seu redor, vários carretéis de linha.

– É para você – disse o Carcará. – Para enfeitar os bornais. E os chapéus também. Tem uma agulha bem grossa dentro da gaveta. Dá para costurar até couro.

Luzia se ajoelhou. Girou a manivela. Sentiu o frio do metal nos dedos. Passou as mãos pela haste recurvada onde fica a agulha e por toda a superfície prateada com desenhos gravados. Com certeza aquela máquina tinha vindo da casa do coronel Machado.

– Não vou conseguir carregar isso – disse ela.

– Inteligente carrega.

– Não posso permitir. Ela é pesada demais.

– Para ele, não é nada. Pesa tanto quanto um acordeão. Já vi Inteligente, e os outros também, admirando o seu trabalho de costura.

O cangaceiro se ajoelhou ao seu lado. Luzia manteve os olhos fixos na máquina. Falou de mansinho, como se estivesse se dirigindo à Singer.

– Por que pergunta o nome dos pais deles? – indagou.

Ele suspirou e ficou brincando com os dedos grossos.

– Há muita terra por aqui, e pouca gente. Não quero machucar um parente de um amigo. De um aliado nosso.

– Se for gente conhecida, eles são poupados?

– Às vezes, sim. Às vezes, não.

Luzia pensou nos capangas empilhados na varanda do coronel, com os olhos arrancados. Lembrou da musiquinha de tia Sofia.

– Por que chamam você de Carcará?

Ele estendeu a mão e deu uns tapinhas na máquina, com alguma hesitação, como se estivesse tentando domar uma criatura.

– Minha mãe costurava – disse. – Sempre quis ter uma máquina dessas. Quando eu era criança, plantávamos melão e ela me ensinou a pôr um ladrilho embaixo deles para a parte inferior não apodrecer. Gosto de melão. E de milho. Plantávamos milho também, minha mãe e eu. Ela era forte, como um touro. Eu queria um terreninho para nós. A nossa própria terra. Queria criar cabras. Mas não foi para essa vida que nasci. Às vezes, Deus faz a gente largar a enxada e pegar uma arma. Pouco importa se não é o que a gente quer. É o caminho escolhido por Deus. Às vezes, temos de desobedecer a nós mesmos para obedecer a Ele. É a coisa mais difícil que um homem pode fazer.

Tirou a mão da Singer e se levantou. Olhou para o teto da capela. Luzia fez o mesmo. Só havia ali vigas de madeira e telhas.

– Há bênção nessa nossa vida – prosseguiu ele, num tom de voz mais alto que antes. – Não tem nenhum coronel nos dizendo como viver. Mandando a gente criar os seus bois ou as suas cabras, prometendo algumas cabeças em pagamento e, depois, marcando todos os novilhos com o seu nome. Não tem nenhum coronel botando a culpa na gente quando a colheita se perde por falta de chuva. Não tem nenhum coletor de impostos dizendo que vamos ter de vender os nossos porcos ou as nossas cabras porque não pagamos uma taxa qualquer que vai acabar no bolso dele. Não tem nenhum macaco vindo lá da capital, destruindo as nossas casas e desonrando as nossas irmãs ou a nossa mãe. Estamos inteiramente à mercê de Deus. De mais ninguém.

Lá fora, ouviram-se gritos e palmas. O Carcará balançou a cabeça, assustado com o próprio discurso, e foi se dirigindo para a porta da capela.

– Estão soltando os balões – disse. – Venha ver.

Eram três balões, grandes e em formato de lanterna. Um deles já oscilava no céu. Os dois outros ainda estavam no chão. Uns homens enfiaram a mão dentro dos balões para acender as pequenas mechas de querosene. Depois, esticaram bem os braços e seguraram o balão lá no alto, esperando pelo vento. Quando veio uma rajada, a cidade inteira ergueu a cabeça para vê-los subir devagarinho, um atrás do outro. Luzia olhou para o céu, estreitando os olhos.

Ao seu lado, o Carcará abriu um estojo de couro que ficava preso à cartucheira. Ali dentro, havia um binóculo de latão que ele ofereceu a Luzia.

Os cangaceiros carregavam várias coisas que nada tinham a ver com sua sobrevivência no dia a dia. Naquela noite, a moça finalmente compreendeu o que aquilo significava. Viu Tomás prender a mecha de cabelo de Lia no forro do paletó. Agora sabia que, por dentro do gibão de cada um daqueles homens, protegidos do sol e do calor da caatinga, estavam objetos que tinham pertencido a um ente querido. Em Fidalga, viu Tomás saquear os pertences dos capangas. E à tarde, durante a missa, viu o rapaz depositar os objetos roubados no chão, à sua frente. Cuspiu em cada um deles. Perto dele, Ponta Fina cuspiu nas facas que tinha tirado de sua vítima. Fala Mansa cuspiu no chicotinho. Chico Caixão, no saquinho com os dentes de ouro. Os cangaceiros carregavam relíquias dos mortos. Mortos que, em vida, lhes fizeram algum mal ou que tinham sido amados por eles.

Sentiu o binóculo pesado e frio nas mãos. A sua alça estava desbotada.

– A quem pertenceu isso aqui? – indagou.

O Carcará a fitou. O olho do lado desfigurado do rosto, aquele que praticamente não piscava, estava úmido e vermelho.

– Não lembro – respondeu ele. – Mas achei bonito.

Luzia assentiu. Levou o binóculo aos olhos. As estrelas pareciam estar a poucos centímetros de distância. Os balões de papel pareciam tão perto que daria até para tocá-los. Foi acompanhando o seu trajeto luminoso pelo céu. Não tinham a graça nem a ligeireza dos pássaros. Oscilavam a esmo, dependendo do vento. Apesar disso, porém, subiam bem alto e, por um instante, Luzia acreditou que eles poderiam desaparecer no espaço. Então, um a um, todos pegaram fogo e caíram de volta ao chão.