Entre irmãs
Capítulo 4
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Era muita falta de consideração da parte dele e do resto do bando, pensou Luzia, se lavar assim, esquecendo que ela estava ali perto, limpando a carne para o jantar. Como se ela não merecesse respeito. Como se não fosse uma mulher.
No acampamento, os outros cangaceiros estavam sentados ao redor do fogo. Com umas pinças metálicas, Canjica tirou das chamas duas pedras do tamanho de um punho fechado e jogou-as no bule já cheio de água. As pedras chiaram.
– Não vejo a hora de dançar um forró – disse Fala Mansa, abrindo os braços e arrastando os pés para a frente e para trás.
– Não é só dançar que você quer – observou Baiano, sorrindo. – Vi um garotinho parecidíssimo com você na última cidade onde estivemos.
– Tem garotinhos parecidos com ele por todo o estado de Pernambuco – exclamou Orelhinha.
Os homens riram. Inteligente olhou para os companheiros meio aturdido. Canjica balançou a cabeça. Levou a mão ao bule, mas logo a retirou. As pedras já haviam aquecido a água. Envolveu então a alça com um pano.
Quando Luzia surgiu, saindo das sombras, os homens pararam de rir. A tigela estava pesada. A moça a entregou a Canjica. Orelhinha se aproximou. Estava com o cabelo todo penteado para trás e a fogueira às suas costas dava à borda das suas orelhas um brilho rosado. Olhou para o conteúdo da vasilha, remexendo ali dentro com os dedos.
– Isso não está limpo – disse, então, fitando Luzia. – Vá lavar de novo.
– Com a fervura, o resto da sujeira vai embora – retrucou Canjica, estendendo as mãos para apanhar a tigela.
Mas Orelhinha o deteve.
– Isso é um trabalho porco! – exclamou ele. – Vá lavar outra vez.
Luzia o encarou. Os homens estavam tomando banho no açude; não podia voltar para lá. Pôs a mão no pescoço e balançou a cabeça.
Orelhinha se agachou, pegou um punhado de terra, estendeu a mão em cima da vasilha e abriu os dedos. A terra caiu ali dentro com um ruído seco. Atrás deles, um dos homens riu.
– Olhe só – disse ele. – Veja que sujeira. Nós não comemos comida suja – acrescentou, pondo a vasilha no chão a seus pés. – Pegue isso e volte lá para lavar.
Luzia estava ofegante. Abaixou-se. Ali ao lado, esfriando em cima de umas pedras, estava o bule de café. Em vez de apanhar a tigela aos pés de Orelhinha, com o braço bom ela pegou o bule e o atirou na sua direção. A água quente respingou na mão dele, marcando a pele.
– Merda! – esbravejou Orelhinha, recuando e dando uns tapas na parte da frente das calças. – Merda!
Fez-se silêncio. Em seguida, ouviram-se risos abafados.
– Ela queimou o pau dele! – exclamou Branco.
– Não faz mal – disse Fala Mansa. – Se tem coisa que ele não usa mesmo, é isso aí!
Os homens seguravam a barriga de tanto rir. Orelhinha olhou para a rodinha de cangaceiros e, depois, para Luzia. Tirou o punhal da cinta. Baiano segurou o seu braço. Luzia pegou a tigela e se embrenhou no mato.
5
Mas não foi para o açude. Não de imediato. Agachou-se em meio à vegetação, com as mãos trêmulas e sentindo falta de ar. Viu o Carcará e seus homens voltando para o acampamento, com a parte superior da camisa molhada e grudada no corpo. Prendeu a respiração até eles passarem. Quando chegou ao açude, ele lhe pareceu imenso à sua frente, com as águas escuras e revoltas. Não sabia nadar. Talvez, no fundo, os homens quisessem vê-la atravessar aquelas águas e ir embora. Luzia pôs a vasilha no chão, sentindo-se de repente furiosa. Não ia sair assim, feito um cachorro. Voltaria com aquela buchada idiota para se sentar entre eles, invisível e irritante, como um espinho por debaixo da pele.
A garganta lhe ardia. Recriminou-se. Andava louca por um pouco de água, sonhava com isso. No entanto, quando tinha um rio à sua frente, não bebia. Com a mão em concha, pegou um punhado de água e, depois, mais outro. Não conseguia parar. A água lhe escorria pelo queixo, molhando o seu gibão. Era um alívio para a garganta, mas, assim que engolia, voltava a senti-la seca e ardida.
Ouviu um ruído às suas costas. Sentiu o perfume da brilhantina. Ouviu passos. Continuou bebendo.
– Está na hora de parar com o xiquexique – disse ele, agachando-se ao seu lado. – Prefiro vê-la discutindo com os meus homens do que os machucando.
Luzia enxugou o queixo. Não o encarou.
– Alguns deles – prosseguiu o cangaceiro – não estão gostando de tê-la no bando. Diariamente, fazemos a oração do corpo fechado para nos proteger e lá venho eu, trazendo-a conosco, abrindo-nos como melancias para que qualquer bala nos atravesse. – Ele esfregou o rosto com força e a fitou. – A maioria das mulheres traz tristeza. Má sorte. Não é culpa sua. É apenas a sua natureza.
Luzia tossiu. A água que tinha tomado lhe subiu pela garganta, mas com um gosto diferente, mais ácido. Tinha bebido demais.
Ele pigarreou.
– Naquela manhã, lá no alto do morro, eu achava que o ladrão de passarinhos era um garoto. Algum menino pobre. Quando suponho alguma coisa geralmente estou certo. Mas apareceu você, usando tranças e sapatos. Uma moça de família. Você me surpreendeu. São poucas as coisas que me surpreendem hoje em dia – prosseguiu ele, suspirando e balançando a cabeça. – Não posso dizer aos meus homens se você vai nos trazer sorte ou azar – acrescentou ainda –, porque eu próprio não faço ideia.
Se não estivesse sem voz, Luzia lhe diria que ele não sabia de absolutamente nada. Ela não era um santinho de papel, nem um colar de fio vermelho.
– Olhe ali – disse o Carcará, pondo-se subitamente de pé e apontando para o mato.
Era um mandacaru com o tronco marrom e grosso como o de uma árvore, só que com espinhos do tamanho de um dedo saindo por todo lado. Acima das suas cabeças, os ramos em forma de tubo eram verdes. Destes brotavam uns poucos bulbos tenros.
– Fique quieta – disse o Carcará.
Estava escurecendo. A distância, ouviam-se os sapos-bois cujos chamados longínquos lembravam o mugido das vacas. Ali em cima, um dos bulbos do cacto se abriu e, de dentro dele, surgiu uma pétala branca. Luzia sentiu o pescoço duro, mas não se mexeu, temendo espantar a flor de volta para o bulbo. Outras pétalas foram se abrindo, todas elas espessas e brancas.
Bem devagar, Luzia ergueu os olhos para ele. A linha da cicatriz no seu rosto estava branca como a flor do mandacaru. Fitou aquela marca como se ela também fosse se abrir e se revelar. Observou o seu cabelo molhado, o seu rosto barbeado. Em Taquaritinga, todos os homens que as pessoas chamavam de “cabra valente” usavam barba. Falavam palavrões, bebiam e davam tiros para o ar. Achava que um cangaceiro seria pior ainda. Mas não podia imaginá-lo gritando e, com uma certeza que chegou a surpreendê-la, sabia que, se atirasse, não seria para o ar.
– Elas se abrem uma vez – disse o Carcará. – Antes de uma chuva forte. Amanhã, já terão desaparecido.
Encarou Luzia. E, mais que depressa, a moça ergueu os olhos para o botão de flor. Não conseguia se levantar e ir embora. Algo crescia dentro dela, algo indesejado e insistente, como a romúlea que invadia o quintal da casa de tia Sofia em maços verdes e espessos. Era uma planta bonita, mas que podia sufocar todas as outras se fosse deixada ali. A única solução era arrancá-la pela raiz e jogá-la no fogo, pois só assim o resto do jardim poderia sobreviver.
6
A flor do mandacaru acertou em cheio. Naquela noite, a chuva encheu os fossos improvisados que cercavam as toldas. E chegou a molhar os cobertores. Os oleados que lhes serviam de teto ficaram abaulados com tanta água. As cordas que os prendiam às árvores ficaram retesadas. Chico Caixão tinha permanecido de guarda. Acocorou-se perto da fogueira, fitando a panela de buchada fervente. Lentamente, a cabeça lhe caiu sobre o peito.
Os outros homens estavam em silêncio, agrupados sob as toldas. No jantar, tinham comido carne de cabra e a buchada ficou para o café da manhã. Luzia tinha esperanças de que a barriga cheia e a promessa de mais comida os fizessem dormir a sono solto. Alguns, porém, deviam estar acordados, pensou a moça, e inquietos. Mas a chuva a protegeria; a chuva abafaria o som dos seus movimentos. Ela caía ruidosamente, atingindo as lonas e o chão com milhares de baques surdos. Havia também o alarido dos sapos, coaxando e grasnindo no mato. Uma celebração, pensou Luzia. E, a distância, por detrás do ruído da chuva e dos animais, ouvia o burburinho suave do açude.
Sentou-se. Com um gesto rápido, pôs o bornal a tiracolo e o ajeitou no peito. Lépida, saiu da tolda e enfrentou a chuva.
Nos primeiros dias que passou longe de Taquaritinga, rezou pedindo coisas grandes e importantes – a salvação, um milagre. Mais tarde, começou a rezar pedindo água em vez do suco do cacto no seu cantil. Um chapéu, uma boa agulha, mais linha de bordar. E, mecanicamente, pedia para conseguir escapar dali. Parecia-lhe impróprio não fazer isso. Deveria querer fugir, esgueirar-se rápida e furtivamente como uma raposa-do-campo. Mas o que faria então? Para onde iria? O povo de Taquaritinga se convenceria do pior. Todos diriam que ela estava mais que arruinada, que estava desonrada. Ninguém ia querer uma mulher desonrada fazendo as suas roupas ou tirando as medidas dos seus mortos. Uma mulher assim tinha uma única vocação. Naquela noite, porém, depois de ver o botão da flor do mandacaru se abrir, Luzia compreendeu que quanto mais tempo ficasse ali, mais dependeria da confiança que o Carcará depositasse nela. A cada dia que passava, ia sentindo uma estranha gratidão por ele. A fé que o cangaceiro tinha na sua finalidade a mantinha viva, e até mesmo respeitada. Mas e se ela não confirmasse essa utilidade? Quanto tempo duraria essa fé? E se, involuntariamente, desse azar ao bando, essa fé sobreviveria?
Resistiu ao impulso de correr. A chuva lhe toldava a visão e encharcava as suas roupas, tornando os seus movimentos hesitantes e desajeitados. Tinha de ir devagar, pensou consigo mesma, lembrando-se do olho leitoso de Meia-Lua. A vegetação era densa e estava tudo escuro. Foi passando por entre as plantas, usando o braço aleijado para afastar os ramos. As nuvens encobriam a luz da lua. Mesmo assim, Luzia sabia por onde caminhar, acompanhando o ruído da água até alcançar o açude. Mais além, havia uma cidadezinha. Ouvira os cangaceiros falando em ir até lá conseguir mantimentos. Achava que, se atravessasse aquela água, poderia chegar a esse local. E poderia se esconder. Com o que já tinha aprendido a respeito de sobrevivência no mato, teria condições de passar alguns dias sozinha. Mas se não existisse cidadezinha nenhuma ficaria exposta ao tempo e acabaria morrendo. Ou poderia se afogar ali mesmo, pois não sabia nadar. Estremeceu e balançou a cabeça. Afinal, não era um rio, pensou. Não podia ser tão fundo assim. Fechou os olhos para imaginá-lo no verão: nada além de uma valeta seca. Logo, logo, estariam novamente no verão. As noites seriam silenciosas e secas. Não haveria mais barulhos para encobrir a sua fuga. Ou chuva para apagar os seus rastros. Nem açude para impedir que os cangaceiros viessem em seu encalço.
Entrou na água. As suas sandálias ficaram encharcadas. Sentia a pressão da correnteza nas pernas. Tratou de fazer força também, em sentido contrário, dando passos longos e decididos. A água parecia até espessa, como se ela estivesse se deslocando num xarope. De repente, estava mais longe do que pretendia. No meio da travessia, a água já lhe batia no peito. Alguma coisa arranhou o seu pé, um galho de árvore, talvez, levado pela correnteza. A sua sandália ficou presa. Luzia tentou se soltar. A pressão da corrente lhe travava os joelhos. Entrou água nos seus ouvidos, no seu nariz. Tinha um gosto metálico, parecido com o da lama. A moça engasgou e cuspiu. Puxou o pé novamente, com mais força desta vez. O galho se soltou da sua sandália, mas a correnteza continuou a arrastá-la. Tentou firmar o pé para recuperar o equilíbrio, mas não conseguiu encontrar nada. Será que aquele açude era mais fundo do que imaginava? Ou a corrente a tinha atrapalhado, virando-a de cabeça para baixo? O seu peito ardia. Ergueu o pescoço, deu chutes e sacudiu o corpo. O braço aleijado balançava como uma asa inútil. Quando voltou à tona, inspirou com força e engoliu água. Do alto, vinha a chuva. Por todo lado, só havia água. Não tinha como escapar.
Quando caíra da mangueira, sentira um silêncio tão profundo e envolvente que parecia algo líquido preenchendo-a, obstruindo seus ouvidos, nariz, olhos, cada um dos seus poros. Ali no açude, voltou a sentir aquele silêncio. Sentiu a correnteza que a puxava para baixo, se deu conta da inutilidade de qualquer movimento. Quando ficava parada, a água não oferecia resistência. Simplesmente a cobria, a engolia, a puxava para dentro de si.
Algo a envolveu, pressionando-lhe as axilas e, depois, fazendo mais força ainda no seu peito. Viu-se erguida. A chuva lhe batia no rosto. O barulho da água a deixou tonta. Luzia sorveu o ar, em desespero.
– Puxe! – gritou uma voz junto dela, tão alto que lhe doeu no ouvido. – Puxe!
Viu a silhueta robusta de Inteligente na margem do açude. Enfiado na água até os joelhos, Baiano segurava firme o braço do companheiro. O outro braço estava enganchado no de um terceiro cangaceiro que era segurado por um quarto, um quinto e, finalmente, um sexto que era quem a tinha nos braços.
Remexeu o corpo. O braço que a envolvia apertou com mais força, como tenazes pressionando-lhe os pulmões. O rosto estava a poucos centímetros do dela. O lado normal contraído pelo esforço; o da cicatriz, impassível.
A correnteza os puxava para baixo. Os homens tentavam arrastá-los para a margem. Luzia sentia os olhos arderem. As suas pernas estavam sem forças. Inteligente, a âncora que os firmava a todos, poderia sentir as forças lhe faltarem diante da pressão da água. Se isso acontecesse, ela voltaria para aquele silêncio, com o Carcará ao seu lado. Ou talvez a correnteza os devolvesse, entregando-os aos homens que os puxariam de volta para a margem escura. Luzia fechou os olhos e esperou para ver quem venceria.
7
Depois da chuva, a caatinga floresceu. Flores cor de laranja, com pétalas finas e secas como papel, brotaram das curvas espinhosas do quipá. Os arbustos de malva atingiam o tamanho de um homem. As bromélias se abriram em botões vermelhos. Abelhas zumbiam em meio à vegetação. Quando Luzia fechava os olhos, o ruído daqueles insetos parecia até o barulho da água.
Depois que a tiraram do açude, os homens passaram a fitá-la com um respeito sem palavras. Agora, chamavam-na de Srta. Luzia, em vez de simplesmente evitar pronunciar o seu nome. Ponta Fina lhe deu mel para a garganta. Acendeu umas fogueiras sob as colmeias e, quando a fumaça afugentou as abelhas, o menino cutucou os orifícios redondinhos dos favos que recobriam as suas paredes. Orelhinha mantinha-se calado e na defensiva, mas jamais procurou vingar aquela queimadura. Luzia se perguntava se essa nova atitude por parte dos homens era o resultado de seu enfrentamento com Orelhinha ou de ter entrado no açude sozinha à noite, como uma espécie de bruxa. O motivo mais provável era o fato de o Carcará achar que aquela mulher valia o bastante para ser salva. Ele tinha parado de falar com ela. Depois do tal episódio, mantinha-se a distância, sem cuidar mais dos seus pés ou lhe dar rações extras de comida. Como Luzia parou de tomar o suco do xiquexique, a sua voz foi voltando, grave e rouca.
Aos poucos, a vegetação se transformou. As chuvas acabaram, mas os trovões ainda ressoavam pelo céu em estrondos furiosos. O bando passou por sítios com campos de algodão floridos e, mais tarde, depois que as flores caíam, os botões se abriam deixando à mostra as fibras claras. Parecia até que a caatinga estava coberta por um imenso lençol branco.
As casas, naqueles sítios, eram cabanas de pau a pique onde moravam lavradores e vaqueiros. Às vezes estavam vazias, mas havia sinais de vida por ali: carvão em brasa no fogareiro, um cachorro magricela amarrado a uma árvore. Ao ver que os cangaceiros se aproximavam, os moradores iam se esconder no mato. Se o estoque de mantimentos estivesse baixo, a ordem do Carcará era que pegassem o necessário e fossem embora. Os homens arrancavam nacos de carne defumada dos ganchos que pendiam acima do fogão. Apanhavam tijolos de rapadura, uns bons punhados de farinha de mandioca e de favas. Se acontecia de haver pequenas roças de milho e de melão no quintal, eles arrancavam espigas e frutas do pé. Não deixavam dinheiro para pagar. Luzia não gostava nada da ideia de pegar comida desse jeito. Mesmo assim, comia como todo o resto do bando.
Alguns moradores ficavam em casa. As mulheres, com lenços manchados amarrados na cabeça e os braços cruzados sobre a barriga protuberante, andavam cambaleando para um lado e para outro, atrás dos muitos filhos que corriam pelados pelo quintal. As crianças tinham a barriga inchada e uns bracinhos esqueléticos. Do nariz lhes escorria uma substância esbranquiçada e viscosa que elas limpavam com a língua. Os pais eram sempre os últimos a aparecer. Vinham do campo ou do interior da casa. Alguns eram bem morenos, de lábios finos. Outros tinham uma palidez amarelada e os olhos injetados de bebida. E todos eram encurvados por anos e anos de plantio e colheita.
Luzia era obrigada a se esconder no mato ali por perto, junto com Ponta Fina, para evitar que a vissem. Mas gostava de observar aquelas mulheres. Tinha a impressão de não ouvir uma voz feminina há anos. Certa vez, uma sertaneja a viu. Limitou-se, porém, a ficar olhando para as suas pernas, pois o que mais pareceu espantá-la foi ver uma mulher usando calças compridas.
Os cangaceiros eram mais gentis com quem não fugia. Não invadiam a casa nem roubavam produtos das suas roças. Na verdade, perguntavam se não teriam comida para vender. A resposta era sempre afirmativa. O Carcará pagava bem, oferecendo trinta mil-réis por um pedaço de queijo que normalmente não custaria mais de três. Pagava por sua lealdade, por sua discrição. Muitos dos lavradores deixavam que os cangaceiros pernoitassem em suas terras. Diziam-lhes onde ficava a cidade mais próxima ou informavam se a polícia militar ou os capangas de um coronel tinham passado por ali recentemente. Alguns recusavam o pagamento, preferindo pedir ao Carcará que os abençoasse e os protegesse.
Durante todo aquele tempo que acompanhou os deslocamentos do bando, Luzia não viu nenhuma igreja. Uma das famílias de lavradores lhes disse que precisava viajar por três dias para ir assistir à missa no Natal. A moça não gostava do jeito como aquela gente se ajoelhava, calada e reverente, diante do Carcará. “Eles o adoram”, pensou ela, “porque não têm outra alternativa”.
Fechavam os olhos. O Carcará punha a mão na cabeça de cada um deles. Luzia estremecia. Ele a tinha tocado várias vezes, massageando-lhe os pés, ajudando-a a se levantar, obrigando-a a comer, mas era sempre como se tocasse um bichinho doente, com muito jeito e receio de ser mordido. Quando abençoava os sertanejos, tinha uma atitude amorosa. Punha os dedos calejados na sua testa, no seu rosto ou nas suas faces encovadas. Luzia levou a mão à própria face, mas logo a retirou.
Certa manhã chegaram aos arredores de uma fazenda onde o algodão já havia sido colhido. Os cangaceiros hesitaram, escondendo-se no mato. A porteira de madeira estava meio troncha, caindo para a frente como se tentasse se soltar das dobradiças. Era uma corda grossa que a mantinha fechada. A casa ali dentro era de tijolos com um telhado de telhas abauladas.
O Carcará e seus homens empunharam as espingardas, apoiando-as na coxa para mantê-las em posição de tiro. O coice daquelas Winchesters podia deslocar o ombro, disse-lhe Ponta Fina. Era por isso que todos tratavam de usar o quadril para escorá-las. Faziam isso antes de entrar em qualquer casa. Só estabeleciam contato com as pessoas depois de passar horas sentados no mato, vigiando a área, contando quantos moradores havia ali, analisando os caminhos que iam dar na propriedade. “Mais vale ter paciência e ficar vivo”, repetia sempre o Carcará, “do que ser avexado e morrer”. Quando já tinham observado o necessário, Meia-Lua enfiou dois dedos na boca e soltou um assobio estridente.
Um velho apareceu à porta e respondeu, assobiando também. Tinha o cabelo grisalho e andava num passinho miúdo, quase se arrastando, como se os ossos lhe doessem. Luzia tentou ver o rosto do homem, mas percebeu que tinha a vista turva. Esfregou os olhos. Bem que tia Sofia sempre a alertara para essa história de bordar no escuro. Quando o sujeito veio abrir a porteira, a moça percebeu, espantada, que ele era mais moço do que parecia: um pai, e não um avô. Dois vincos profundos lhe desciam do nariz até a comissura dos lábios, como um desses bonecos de madeira que vira em criança, cuja boca abre e fecha quando se mexe na alavanca que ele tem nas costas.
Ao avistar o Carcará, o homem sorriu e veio se aproximando, com passos mais ligeiros que antes. Os dois se seguraram pelos ombros.
– A sua porteira está caindo – disse o Carcará.
– É que andou chovendo muito, graças a Deus – retrucou o homem.
Ele tinha um galo na testa, com uma crosta de sangue bem no meio. Puxou o cabelo para a frente, retraindo-se quando a mão roçou o machucado.
– Devia mandar os meninos consertarem isso – acrescentou o Carcará.
– Eles foram embora. Já faz uns seis meses. Arranjaram trabalho como vaqueiros, lá em Exu.
– Tomás também?
– Não. Ele está por aí cuidando das cabras – respondeu o homem, apontando com o queixo em direção ao horizonte onde se viam cercas altas e bem cerradas.
– E Lia? – indagou o cangaceiro. – Lembro que ela sempre vinha correndo abrir a porteira para nós. Agora manda o pai?
– Ela está ficando mais tímida. Já não é criança – disse o outro, fitando a corda que tinha nas mãos. Depois, olhou para Luzia, intrigado. – Tem gente nova no bando?
O Carcará fez que sim com a cabeça. O homem se aproximou dela.
– Você é grande – disse ele, estendendo a mão. – Francisco Louriano. O pessoal me chama de seu Chico.
– Viemos lhe devolver a sanfona – atalhou o Carcará, apontando para o velho instrumento de madeira que Meia-Lua carregava nas costas. – Não vai nos convidar para entrar?
– As coisas já não são mais como você conheceu – disse seu Chico, suspirando e levando-os em direção à casa.
A fachada de tijolos estava rachada e com falhas. Em certos pontos, bem estragada pelas chuvas. Na parede da frente, havia diversos furos pequenos e bem redondos, da largura do polegar de Luzia. Para o lado dos fundos, viam-se vários cercados de cabras, com os mourões altos e a trama bem cerrada. Estavam todos vazios. Luzia ouviu ao longe o tilintar das sinetas. Voltou a olhar para a casa. Uma mocinha os fitava de uma das janelas. Tinha o rosto magro e bronzeado, com marcas escuras sob os olhos. Fitou Luzia com uma intensidade impressionante, parecendo um animal prestes a atacar ou a fugir, dependendo da ameaça que lhe fizessem. De súbito, a menina saiu da janela e desapareceu.
Antes de entrar, o Carcará limpou as solas das alpercatas. Os outros homens fizeram o mesmo. Baiano, Fala Mansa, Ponta Fina e Alfinete de Fralda não entraram. Ficaram de guarda em torno da casa. Luzia foi a última a passar pela porta.
Ali dentro, havia vários banquinhos com o forro de couro rasgado. Uns poucos tinham sido remendados meio às pressas. Nos outros, os pedaços de couro pendiam aos frangalhos. Na parede, uma mancha marrom. Nos cantos, havia diversos caritós de madeira feitos com capricho. Um deles continha uma imagem chamuscada de são Jorge. Nos outros, só se viam fragmentos de imagens de barro: uma cabeça com véu, um braço segurando pássaros, dois pés lascados. Ao lado de cada um desses cacos, uma vela acesa. E havia um cheiro no ar. Luzia não conseguia identificá-lo – tinha a fumaça que vinha do fogão, mas dava para sentir também algo penetrante e estonteante, como o cheiro que saía das caldeiras que o marido de dona Maria Chaves usava para curtir o couro dos bichos lá em Taquaritinga.
– Quem esteve aqui? – perguntou o Carcará.
Seu Chico baixou a cabeça. Um som que mais parecia um soluço lhe brotou da garganta. O homem cobriu os olhos com as mãos.
– Sente-se, meu amigo – disse o Carcará, empurrando um banquinho na sua direção.
O lavrador balançou as mãos, como se estivesse espantando um inseto. Embrenhou-se pelo corredor escuro e voltou trazendo uma cadeira: uma cadeira de verdade, com espaldar de madeira, que ele pôs diante do cangaceiro.
– Sente-se primeiro – disse seu Chico. – Por favor.
A cortina da porta da cozinha se abriu. Por trás do pano, a menina deu uma espiada furtiva na sala. Ela não era mais velha que Ponta Fina. Um raio de sol penetrou por uma fenda do telhado e fez o seu cabelo brilhar.
– Foi há uns quinze dias – prosseguiu ele. – Um grupo de capangas do coronel Machado passou por aqui vindo de Fidalga. Tenho de vender meu algodão para ele. Só que... – Seu Chico fez uma pausa, tossiu e cruzou os dedos retorcidos. – O preço que ele paga não é justo. Vendi parte da colheita para um sujeito de Campina. O coronel descobriu. Esses coronéis acham que as costas de um homem não passam de um lugar onde eles podem limpar as suas facas.
– Quantos eram? – indagou o Carcará.
– Seis.
– E que horas eram?
– Ao entardecer. Tomás não estava. Tinha ido buscar as cabras. Só Lia e eu estávamos aqui.
Seu Chico olhou para a cozinha, nervoso. A cortina estava fechada, A menina tinha desaparecido. Ele pigarreou e cuspiu. Quando viu a cusparada no chão, ergueu as sobrancelhas, aflito, e, mais que depressa, tratou de esfregar a terra batida com a ponta da sandália.
– Eles pegaram o meu velho papo-amarelo – prosseguiu seu Chico. – Foi meu pai quem me deu aquele rifle. Queimaram as camas. Quebraram os santos. Cagaram na nossa cisterna. Tomás e eu levamos uma semana para conseguir limpar tudo. Graças a Deus tivemos bastante chuva nesse inverno. Se tivessem feito isso no verão, teríamos morrido de sede.
– E Lia? – perguntou o Carcará, num sussurro.
O homem levou a mão ao ferimento da testa.
– Um dos capangas me acertou com a coronha do rifle. Desmaiei. Ainda estou me sentindo como se tivesse tomado branquinha demais. Quando acordei, achei que já tivessem ido embora. Procurei Lia, mas não consegui encontrá-la. Foi aí que ouvi as vozes deles. Os capangas rindo lá no quarto dos fundos. A porta estava trancada. Ouvi a Lia lá dentro, com eles. Ela gritava por mim e eu não podia entrar. Esmurrei a porta o mais que pude, mas ela não cedeu. – Seu Chico fitou o Carcará por um bom tempo. – Lia está lá atrás – disse, enfim. – E não quer sair de lá. Não com homens aqui dentro. Agora não consegue nem ficar na mesma sala que o próprio pai. Queria que eles tivessem nos matado a ambos – acrescentou ele, escondendo o rosto nas mãos.
Os cangaceiros se mantinham calados. A sobrancelha esquerda do Carcará estava contraída. O canto da sua boca, repuxado. O lado desfigurado do seu rosto continuava plácido, inexpressivo, a não ser pelo olho marejado que ele secou, dando uns tapinhas de leve com o lenço.
8
A cidade de Fidalga ficava a meio dia de viagem do sítio de seu Chico e pertencia ao coronel Floriano Machado. Ele próprio a havia batizado em homenagem à mãe já falecida, uma portuguesa. Tinha mandado instalar na pracinha um busto de pedra da senhora, com o maxilar inferior proeminente, os olhos incessantemente fixos no leste, como se olhando para a sua terra natal. Sempre que ia a Fidalga com Ponta Fina, Luzia examinava aquele busto.
Antes de partirem, Ponta prendia o cabelo e tirava todas as facas da cintura, deixando apenas uma. Vestia calças e camisa de aniagem, pertencentes aos filhos de seu Chico. Luzia botava um vestido que ficava largo e curto. O lavrador guardava todas as roupas da falecida mulher, mas ela era baixinha e atarracada e a moça teve de emendar uma tira de pano à bainha do tal vestido para que ele lhe batesse na canela. Quando pôs aquele traje pela primeira vez, sentiu falta das calças. Um vestido parecia tão arejado, tão vulnerável...
– Vocês vão ser os nossos olhos – disse-lhe o Carcará na primeira vez em que ela foi à cidade com Ponta.
O menino ainda não tinha os célebres calos nos ombros de todo cangaceiro, mas usava o cabelo comprido e as suas costas eram encurvadas. O povo da região ficaria desconfiado ao ver um garoto desconhecido, de cabelo comprido, mas ninguém suspeitaria de uma mulher. Nem de dois irmãos. Foram a Fidalga três vezes, fazendo-se passar por órfãos que, estando de viagem, precisavam de mantimentos. Ponta sempre segurava firme no braço de Luzia. Da primeira vez que passou pelas estreitas ruelas de terra da cidade, a moça sentiu todos os olhos pregados nela. As pessoas olhavam o seu braço aleijado, o seu vestido folgado, os seus pés calejados. Na segunda visita, os dois compraram carne-seca e uns tijolos de rapadura. Na vez seguinte, já tinham se tornado rostos familiares e tanto a sua aparência humilde quanto o pagamento à vista ajudaram a soltar a língua dos comerciantes.
A propriedade do coronel Machado se estendia até onde a vista podia alcançar. Mesmo a cavalo, um homem não conseguiria percorrer aquilo tudo num único dia. As primeiras casas de Fidalga foram construídas por rendeiros. Mais tarde, o coronel mandou fazer uma pequena capela e permitiu a instalação de lojas, bares, um salão de baile, uma feira aos sábados. Como acontecia com os outros coronéis, as regras de Machado eram simples: ninguém pagava um tostão sequer para viver nas suas terras; em troca, porém, todos lhe deviam obediência e uma considerável porcentagem sobre o que quer que colhessem ou vendessem. Se o coronel não gostasse da cor de uma casa, mandava que refizessem a pintura. Se não gostasse do jeito de alguém, dizia-lhe para ir embora. E se, de uma forma ou de outra, os moradores do lugar se recusassem a obedecer ou quebrassem o contrato, não lidariam mais com o próprio coronel, mas com os seus capangas.
Depois de cada ida à cidade, Luzia e Ponta davam voltas e mais voltas para retornar ao sítio de seu Chico. Lá chegando, sentavam-se com o Carcará e descreviam Fidalga: onde ficavam a mercearia, a cadeia improvisada e a mansão azul-clara do coronel, bem mais afastada. Exatamente como a casa, os capangas do coronel eram fáceis de localizar. Em sua segunda visita, Luzia viu um grupo de homens sentados em banquinhos de madeira na porta do maior armazém do lugar. Usavam aqueles chapéus de vaqueiro, de abas curtas, com o couro manchado de suor e de chuva. Eram seis ao todo.
– Grande como um cavalo – disse o mais velho deles, um homem de peito largo, com uns quarenta anos, cumprimentando Luzia com um aceno de cabeça.
– E bonitona também! – observou um outro, com uma risadinha debochada.
Este último era mais ou menos da idade de Ponta Fina.
Nessa ocasião, também ficaram sabendo que o coronel Machado tinha ido ao Pará comprar gado e ficaria fora por mais dois meses.
– Não faz mal – disse o Carcará. – Não precisamos da permissão dele.
Depois disso, determinou o fim daquelas viagens. Tirou do bornal vários maços de notas de mil-réis – o suficiente para comprar umas dez Singers movidas a pedal – e partiu, levando quatro dos seus homens. Foram na direção do rio São Francisco, para visitar um amigo fazendeiro que, segundo ele, era “um homem de caráter”.
O Baiano ficou no comando do bando. O restante dos homens montou acampamento no mato, perto da casa de seu Chico, onde não poderiam ser vistos. Racionaram o café e a rapadura. Uma vez por semana, seu Chico matava uma cabra e, todo sábado, ia com o filho Tomás até Fidalga comprar farinha de mandioca e carne-seca. Só podiam comprar pequenas quantidades, para não levantar suspeitas. Luzia e Lia faziam queijo com o leite das cabras e colhiam macaxeiras, mas isso não bastava para alimentar todo o bando. Luzia estava constantemente com uma leve dor de estômago. Os homens não reclamavam. Estavam habituados a viver com pouca comida, mas já iam ficando inquietos com a inatividade. Toda noite, a moça os ouvia discutir por causa de partidas de dominó.
Ela dormia na casa, no chão, ao lado de Lia. Lembrava-se com frequência de Emília e da cama que compartilhavam, mas Lia não tinha nada a ver com sua irmã. Era mais como uma das cabras de seu Chico: pescoço fino, com um rosto largo e oval, e olhos esbugalhados. Como as cabras, Lia tinha o temperamento doce e retraído, pulando de susto ao ouvir qualquer ruído diferente, escondendo-se na despensa sempre que Ponta Fina ou Baiano se aproximavam da casa. Apesar da aparência delicada, as cabras de seu Chico eram criaturas ousadas e criativas. Determinadas a sobreviver na caatinga, comiam as plantas mais duras, arrancando-lhes a casca com os dentes e descobrindo ali debaixo o núcleo macio e polpudo das árvores. Luzia via em Lia essa mesma determinação. Todo dia, pela manhã, a menina pegava folhas de cacto nas mãos, cortava-as em cubos e despejava os pedaços grudentos no comedouro das cabras. Pegava os cabritinhos recém-nascidos pelas patas traseiras e lhes passava mercurocromo no umbigo sanguinolento; fazia isso de forma tão eficiente e impiedosa que os filhotes nem tinham tempo de se debater ou ficar assustados.
Certas noites, Lia gritava dormindo. Na primeira vez, Luzia tentou consolá-la. A menina a rechaçou, debatendo-se, e ficou ali, toda enroscada, tremendo com a friagem do amanhecer. Em Fidalga, tinha ouvido as pessoas comentarem a respeito de Lia. Era uma pena que ela tivesse se perdido, diziam, pois daria sem dúvida uma boa esposa. Mas, depois da visita dos capangas, jamais poderia se casar. Teria de cuidar do pai e, quando seu Chico morresse, ficaria à mercê do coronel Machado.
Luzia teve inúmeras oportunidades para fugir dali. Podia ter se levantado da cama improvisada e saído pelo portão da frente sem que ninguém percebesse. Os cangaceiros estavam meio apáticos e, por respeito a seu Chico e à filha, raramente se aproximavam da casa. No entanto, sempre que pensava em ir embora, sentia os olhos grandes e assustados da menina cravados nela. Quase nunca se falavam, mas, à tarde, sentavam-se à sombra para debulhar feijão. De noitinha, costuravam juntas e Lia ficava espiando por cima do ombro de Luzia, tentando copiar os seus pontos. Mas havia ainda outra coisa que a prendia naquela casa, uma expectativa de que ela só se daria conta quando se pegou esperando ouvir palmas diante da porteira, ou um assobio, ou então a voz grave do Carcará indicando que ele estava de volta. Uma vez, ouviu os homens gritando lá fora e quase derramou a vasilha do leite ao correr até a janela. Era apenas uma comemoração, pois eles tinham apanhado três mocós bem gordos. Luzia limpou em silêncio o leite que havia respingado, censurando-se por ser tão boba. Mesmo assim, ao anoitecer, apoiava-se no cercado das cabras junto com Ponta Fina e fazia mil perguntas ao garoto.
– Você ficaria espantada ao saber quem são os nossos amigos – disse Ponta, sorrindo. As suas respostas eram sempre um tanto evasivas, o que deixava a moça bastante aborrecida.
– Ele levou dinheiro – observou ela. – O que pretende comprar?
– Só porque levou dinheiro, não significa que pretenda usá-lo. A nossa proteção vale mais que qualquer dinheiro.
– Proteção?
– O capitão é um homem de palavra – retrucou o menino suspirando, irritado com tamanha ignorância. – Ninguém quer estar na mira da faca dele.
Falava devagar, como se a lentidão das palavras fosse ajudá-la a entender. Havia fazendeiros, coronéis e até mesmo capitães de polícia que tinham lá os seus tratos com o Carcará, enterrando munição, comida ou outros presentes em locais combinados para que os cangaceiros pudessem ir desenterrá-los. Em troca, o Carcará lhes dava pagamento em dinheiro ou prometia protegê-los contra coronéis rivais e seus capangas. No caso da polícia, alguns dos capitães lhes pagavam para forjar lutas. Com isso, a sua façanha ia parar nas páginas dos jornais, mas, na verdade, ninguém saía ferido.
– Temos tesouros enterrados por todo o estado – acrescentou Ponta.
Sua voz falhou. Uma penugem já bem densa lhe cobria agora o rosto.
Por trás do cercado, as cabras baliam, ajeitando-se para dormir. Dois machos se ergueram sobre as patas traseiras e arremessaram um contra o outro, atacando-se com os chifres.
– Quando é que ele volta? – perguntou Luzia.
– Por que quer saber? – retrucou Ponta, sorrindo. – Está com saudade?
– Não se fala assim com uma moça. É falta de respeito. Ninguém lhe ensinou isso?
– Não – respondeu o menino, em voz baixa, fitando os próprios pés.
– E o seu pai? – indagou Luzia, de um jeito mais brando. – Ele não lhe ensinou essas coisas?
– O meu pai morreu – murmurou Ponta. – Foi assassinado – acrescentou em seguida, chutando a parte inferior da cerca. – Um outro açougueiro, um filho da puta safado, saiu espalhando que o meu pai pesava a carne errado, que a sua balança era maceteada. Ele não fazia nada disso. Eu sei porque ficava lá. Não se pode deixar um homem dizer esse tipo de coisa. Papai fez o que tinha de fazer para proteger o seu bom nome. Só que não venceu. – O menino a fitou e chutou a cerca com mais força ainda. – Já viu alguém esfaqueado?
Luzia assentiu. Nunca tinha testemunhado o ato em si, mas já tinha visto o resultado. Uma vez, quando estava indo para a escola com Emília, um garoto se aproximou correndo.
– O seu Zé carpinteiro está morrendo! – gritou ele. – Venham ver!
Logo depois da curva, as duas viram o corpo de seu Zé estirado no chão, coberto com um lençol.
– Não precisa ficar com pena de mim – disse Ponta. – Ele matou o meu pai, mas eu o matei. Roubei as suas facas e fugi. No começo, o capitão não queria me aceitar. Disse que eu ainda era muito pequeno. “Isso aqui é um beco. Quando alguém entra, não tem mais como sair.” Mas eu não queria sair. Mostrei todas aquelas facas e contei o que tinha feito. Ele me deixou entrar para o bando. Disse que um homem que não se vinga não tem moral. Gostei. Ele me chamou de homem já de cara.
– Então todas as suas facas eram do...?
– Do cabra que matou papai – atalhou Ponta. – E isto aqui – acrescentou, desabotoando o gibão e mostrando um crucifixo de madeira pendurado numa tira de couro – era de papai.
Dentro do cercado, os chifres dos bodes tinham se engatado. Os dois animais recuavam, enlouquecidos, tentando se desvencilhar. Ponta entrou ali correndo.
– Temos de separar esses dois! – gritou ele.
Mas Luzia já estava lá dentro. Sabia que os bodes, como os homens, eram criaturas teimosas. Sem ajuda, ficariam presos um ao outro e morreriam de fome. Ou, então, continuariam fazendo força, acabariam arrancando os próprios chifres e um deles, ou ambos, sangraria até morrer. A moça bem sabia que, de um jeito ou de outro, nenhum dos dois sairia ganhando.
9
As cabras foram as primeiras a sentir a volta do Carcará. Reagindo a uma presença estranha, ficaram rodando em círculos e soltando uns gritinhos baixos e trêmulos que acordaram Lia e Luzia. O capitão e seus quatro homens – Chico Caixão, Fala Mansa, Jurema e Vaidoso – chegaram trazendo uma mula. As patas e a barriga do animal estavam bem machucadas pelos espinhos da caatinga. Diversas trouxas embrulhadas em panos tinham sido amarradas ao seu lombo.
Naquela noite, o Carcará mandou que seu Chico preparasse um banquete. Antes do amanhecer, o velho e o filho Tomás mataram três cabras. Lia e Luzia passaram a manhã toda limpando as entranhas dos animais para a buchada, atiçando o fogo, preparando o feijão. Lia era despachada na cozinha, o que não era o caso de Luzia. Por mais que se esforçasse, sempre acabava deixando o fogão esquentar demais, esquecendo de mexer o feijão ou cozinhando a buchada até a carne ficar dura e borrachenta.
Na hora do almoço, Luzia ficou dentro de casa com Lia. Pela janela da cozinha, viram os homens se sentarem à sombra matizada dos juazeiros do quintal. Seu Chico levou uma mesa lá para fora, os banquinhos e a cadeira de espaldar. Quem não teve lugar para sentar ficou no chão mesmo, de pernas cruzadas. Como não havia vasilhas nem colheres de pau suficientes para todos os homens, os membros mais novos do bando esperavam até que os mais antigos terminassem de comer.
Antes de começarem a almoçar, o Carcará chamou Luzia. Pegou o cristal de rocha. Um a um, os homens foram se ajoelhando. Luzia fez o mesmo. Tomás, filho de seu Chico, baixou a cabeça diante do cangaceiro. No forro de seu gibão de vaqueiro, o rapaz tinha prendido um cacho do cabelo da irmã.
– Você é pequeno e veloz – disse o Carcará. Tomás sorriu. – O seu nome vai ser Beija-Flor.
– Eu fecho o meu corpo – repetiu Tomás no fim da oração do corpo fechado.
Os homens aplaudiram. Em seguida, alguns deles foram se sentar e começaram a comer. Os outros ficaram polindo os canos finos e compridos das espingardas novas. Alguns tinham recebido também umas pistolas compactas, de cano curto. A velha mula trouxera munição e armas, e os cangaceiros ficaram atordoados e animadíssimos ao examinarem o seu novo equipamento. Os que ganharam armas novas se vangloriavam das pistolas ou dos rifles, ao passo que os que continuariam a usar as velhas as defendiam. Luzia ficou parada perto dos juazeiros. Aquelas armas eram de um metal escuro e fosco, como a Singer. Como a máquina de costura, ela observou que também tinham várias partes móveis que retiniam. E como os seus pontos de bordado, cada uma tinha uma qualidade diferente, e vantagens e desvantagens que tinham de ser analisadas antes de se pensar em usá-las.