Entre irmãs

Frances de Pontes Peebles · Capítulo 7 de 20 · parte 3/3

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Entre irmãs

Capítulo 5

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Chamava-se Margarida Carvalho e era filha de um pecuarista, acrescentou ela. Era solteirona até que Geraldo Pinto Lapa, na ocasião já idoso, e um dos últimos barões que ainda existiam no Brasil, a conheceu e a levou para o Recife. Pouco depois do nascimento da única filha do casal, o barão morreu, deixando Margarida livre para fazer o que bem entendesse. Tinha se casado com um membro de uma família tradicional das mais respeitáveis, mas a sua presença a tornou uma família nova.

– Ela é a única mulher sócia do Clube Internacional – observou Degas, sorrindo. – É uma visita importante.

– Aquela filha dela é um horror – protestou dona Dulce. – Uma sufragista. – Inspecionou o convite, franzindo o cenho. – Vou ter de acompanhá-la.

 

12

 

A baronesa lembrava um dos jabutis do quintal. O queixo, anguloso e firme, projetava-se acima do pescoço enrugado, que se virava lentamente de um lado para outro. Os olhos, pequenos e saltados como duas jabuticabas, iam e vinham de dona Dulce a Emília. Sentaram-se numas poltronas de vime bem fundas que ficavam na varanda, de onde se viam a praça do Derby e o imponente quartel da polícia militar. Um bonde veio descendo a rua, chiando nos trilhos e obrigando as mulheres a interromper a conversa até ele passar. Emília ficou admirando os jasmins da baronesa, podados formando quadrados perfeitos. Pedras de quartzo brancas e rosa, dispostas em círculo, faziam o jardim da frente parecer uma torta em que se alternavam flores e pedras. Ao seu lado, dona Dulce permanecia sentada, sorridente e rígida. Falou dos preparativos para o Carnaval e lamentou que a festa caísse tão tarde naquele ano – na primeira semana de março, e não no mês de fevereiro. A baronesa se embalava na cadeira de balanço de palhinha. Usava um colar de pérolas e cada uma delas era tão grande quanto os dentes da frente de Emília. O cabelo grisalho se erguia e baixava com o vento.

– Essa moça fala? – indagou a baronesa, interrompendo a conversa. – Ou será que é muda?

– Ela é tímida – retrucou dona Dulce.

– Gosta de doce? – perguntou a senhora, dando um tapinha no braço de Emília.

Tinha mãos grandes e nodosas. Os dedos eram rígidos e recurvados, como garras rosadas.

– Gosto, sim, senhora – respondeu a moça.

– Ótimo. Sempre desconfio das pessoas que não gostam de doce.

A baronesa tocou uma sineta. Apareceu uma criada trazendo uma bandeja com uvas envoltas no leite condensado e recobertas de açúcar. Colocou-a diante de Emília.

– Então, você se casou com Degas – disse a velha senhora. – Ele era um menino tão calado. Brincava com a minha Lindalva, lembra, Dulce? – acrescentou ela, rindo. – Adorava as bonecas da minha filha.

– Vocês duas têm algo em comum – observou dona Dulce, abrindo um largo sorriso. – Emília também é do interior.

– Sei disso – retrucou a baronesa, pegando uma uva açucarada. – O comunicado do casamento que saiu no jornal era tão pequeno que mal pude lê-lo. Dizia que você é de Toritama. Não conheço essa cidade.

– Sou de Taquaritinga do Norte – disse Emília. – Aquilo foi um erro do jornal.

– Taquaritinga! – exclamou a velha, esquecendo a uva. – Então, somos ambas filhas das montanhas. Fui criada em Garanhuns. Adoro o interior. Todo ano, durante os meses de chuva, viajo para lá por conta da minha artrite – prosseguiu ela, mostrando as mãos retorcidas. – O meu pai era criador de gado. Paulo Carvalho. Já ouviu falar dele?

A moça balançou a cabeça. A baronesa franziu o cenho.

– Mas isso não tem a menor importância. Os Carvalhos estão extintos hoje. A não ser por mim e por Lindalva. Agradeço a Deus pelo velho barão! Todos achavam que ele era uma bananeira que já tinha dado os seus frutos – acrescentou ela, com uma piscadela –, mas ele provou que não era verdade.

Emília sorriu. Dona Dulce enrubesceu.

Da porta lateral, surgiu uma moça, usando um vestido amarelo-ovo. A saia deixava à mostra as canelas e um par de sapatos brancos elegantíssimos. O cabelo preto era ainda mais curto que o de Emília e ela tinha uma echarpe enrolada na cabeça, parecendo uma cigana ou uma artista de cinema. Emília olhou para o próprio vestido cinzento e se sentiu ridícula.

– Ah, Lindalva! – exclamou a baronesa, sorrindo. – Falando do diabo...

A moça se recostou no espaldar da cadeira da mãe. Tinha o rosto brando e redondo, como a parte convexa das colheres de sopa de dona Dulce. Os seus dentes da frente eram bem separados.

– Olá! – murmurou ela, ofegante, como se tivesse vindo correndo até a varanda.

– Foi Lindalva que a viu passeando ali na praça do Derby – disse a baronesa, indicando o parque com um gesto. – Espiando para ver qual dos dois lados a acolheria – acrescentou, piscando para dona Dulce. Em seguida, voltou os olhos para Emília e indagou: – Gosta do meu jardim?

– É adorável – replicou a moça, lembrando-se imediatamente da primeira aula de dona Dulce.

– Mandei fazer o muro baixo para que, aqui da varanda, pudéssemos avistar a praça. É muito agradável. Dá para ver quem vem e quem vai. Mas o preço que pagamos por nossa curiosidade é ter todas essas mexeriqueiras das famílias tradicionais olhando o meu jardim por cima do muro. Se vierem espiar hoje, vão vê-la aqui, tomando chá conosco – disse a baronesa, sorrindo. Os seus olhos de jabuticaba brilharam. – Logo vai descobrir, minha querida, que o Recife é uma cidade de famílias nobres com muros baixos.

– Gostaria de lhe mostrar a casa – propôs Lindalva, estendendo para Emília a mão gorducha de dedos curtos. – Venha. Mamãe fará companhia a dona Dulce.

De mãos dadas, entraram na casa. Ela era maior que a dos Coelhos, porém mais simples. A baronesa tinha menos móveis e muitas janelas bem grandes. Penetraram numa sala claríssima com o chão ladrilhado em preto e branco. Lindalva levou Emília para um lindo sofazinho estofado e se sentou bem junto dela. Olhou para o vestido cinzento da moça, como se só agora tivesse reparado nele.

– Está de luto? – indagou, erguendo as sobrancelhas com ar preocupado.

– Não – respondeu Emília, mas logo se corrigiu – Estou.

– De quem?

– Minha tia e minha irmã, que faleceram em junho. Mas, depois, eu me casei e...

– Foi Dulce que escolheu essa roupa? – atalhou Lindalva.

– Foi – disse a outra, suspirando aliviada.

– Bom, espero que não se aborreça comigo – acrescentou a filha da baronesa, aproximando-se ainda mais –, mas ele é absolutamente desenxabido. Você é linda. Devia destacar mais o seu corpo. Lá no Rio de Janeiro tem uma loja que faz uns vestidos de luto espetaculares. É roupa pronta, claro. Hoje em dia, todo mundo no Sul compra prêt-à-porter. Vou lhe dar o endereço. Acabo de chegar de lá. Eu me formei em literatura portuguesa na Universidade Federal. Quer ver uma foto da minha formatura?

Emília aquiesceu, distraída. Lindalva tinha a energia de um beija-flor. Só parava por tempo suficiente para a sua convidada assimilar o que ela dizia, mas, logo em seguida, já estava falando de outra coisa. Na verdade, Emília não estava com a menor vontade de ver a tal fotografia, mas não podia ser desagradável. Lindalva atravessou o aposento a passos rápidos, com o vestido amarelo esvoaçando às suas costas. Voltou com um estojo de veludo nas mãos. Ali dentro, havia uma foto bem grande. Um grupo de moças, trajando vestidos de baile brancos, estava sentado em duas fileiras bem ordenadas.

– Tinha tão poucas moças na minha turma. Antes de morrer, o meu pai insistiu para que eu estudasse. Depois de casada, a minha mãe estudou na Universidade Católica aqui do Recife, sabia? Isso era uma coisa excepcional para a época – disse Lindalva, sorrindo e entregando a foto a Emília. – Quem sou eu aí na foto?

Emília olhou para o rosto redondo à sua frente e, depois, para o retrato. Eram tantas as estudantes... Como poderia saber ao certo? Passou os olhos por todos aqueles rostos em preto e branco e acabou apontando para a que estava usando o vestido mais bonito: cheio de babados, com fitas e tule.

– Meus Deus! Claro que não! – retrucou a outra, rindo. – Se hoje não sou morena, imagine naquele tempo! Tente outra vez.

Emília estava com dor de cabeça. Queria voltar para a varanda, ficar sentada lá, quietinha, ouvindo dona Dulce discorrer sobre o Carnaval. Distraída, apontou para outra estudante.

– Não – disse Lindalva, sorrindo. – Sou esta aqui – acrescentou, indicando uma moça na última fileira, usando um chapéu bem grande com uma única pena presa na parte dianteira da aba.

Emília reconheceu então o rosto redondo, os dentes da frente separados.

Bem depressa, Lindalva fechou a caixa de veludo que continha a foto.

– Prometi à minha mãe que voltaria para o Recife. Gosto muito da cidade, mas as pessoas daqui são umas perfeitas idiotas. Principalmente as mulheres. As coisas são tão rígidas. Nada aqui é moderno. Você tem de ir a São Paulo. Lá, uma mulher pode sair sozinha na rua. Pode dirigir um automóvel sem que ninguém zombe dela. Eu a vi no parque e implorei à minha mãe que a convidasse. Achei que você seria diferente dessas bobonas. Afinal, você trabalhou! Foi costureira! – exclamou ela, pegando a mão de Emília. – Tenho plena convicção de que as mulheres não devem viver como parasitas. Com certeza dona Dulce e o Dr. Duarte gostaram de você. Andavam loucos para ver Degas casado – prosseguiu Lindalva, enrubescendo e apertando a mão de Emília com mais força.

– Como você conheceu Degas Coelho?

– Eu o conheci – respondeu a moça, repetindo em parte a pergunta da sua interlocutora, como se fossem aquelas frases das aulas de inglês do marido – em Taquaritinga. Ele foi para lá nas férias.

– E o que a levou a se casar com ele?

– Os sapatos – disse Emília, um tanto distraída, lembrando-se dos sapatos engraxados e de duas cores de Degas.

Mal tinha acabado de dizer aquela frase, arrependeu-se de admitir tal coisa em voz alta. Parecia até as bobonas que Lindalva criticara um pouco antes. Queria dizer que Degas era algo novo, diferente. Que a sua presença tinha feito com que ela se esquecesse daquela monotonia aborrecida que a sua vida tinha se tornado; que, durante as caminhadas que faziam, ele mencionara a inocência e a pureza dela, ao passo que todos os moradores da cidade pensavam justo o contrário. Enfim, que Degas não precisou convencê-la de nada. Simplesmente tinha pedido e ela tinha aceitado.

Lindalva soltou uma risada.

– Já ouvi motivos piores para alguém se casar – observou, num tom divertido. – Mamãe diz que nós, mulheres, estaríamos muito melhor se esquecêssemos essa história de amor. Na sua opinião, o melhor marido possível é o feio e liberal.

– Bem, eu não concordo – disse Emília. – Acho que o amor é importante. É essencial.

Ficou espantada com a firmeza da própria voz, e, de repente, sentiu raiva daquela moça de cara redonda. E também de dona Dulce, que passava o tempo todo a espicaçá-la e a corrigi-la. Com raiva de Degas, com aqueles frios beijos na testa e o seu silêncio quando lhe dava as costas à noite e se enfiava no seu quarto de solteiro.

– Eu a deixei aborrecida – disse Lindalva. – Desculpe.

– Não – respondeu Emília, dando-lhe umas palmadinhas no rosto. – Não estou aborrecida.

– Não quero que pense que sou uma mexeriqueira de marca maior. Estou lhe falando francamente porque é como eu gostaria que me falassem. Você vai ver como isso é raro por aqui. Quais são os seus planos? – acrescentou a moça, respirando fundo e pondo a mão no joelho de Emília.

– Meus planos?

– É. Seus objetivos. Os Coelhos não podem mantê-la trancada em casa para sempre. Especialmente alguém como você, uma trabalhadora! Tenho certeza de que, antes, você tinha uma vida social.

– Não tenho plano algum – retrucou Emília.

– Se não arranjar nenhum por conta própria, Dulce fará isso por você – observou Lindalva, sugando o ar por entre os dentes separados.

Emília puxou as pontas dos dedos das luvas. Lembrou-se da ida à modista, daquela conversa entre as peças de fustão rosa e azul.

– Dulce sempre tem planos – prosseguiu Lindalva. – Se não tivesse, não se daria o trabalho de andar saindo com você. Todo mundo sabe que ela não suporta a minha mãe. Dulce vem de uma dessas famílias que só têm nome, mas nenhum dinheiro. Depois que se casou com o Dr. Duarte, as famílias tradicionais não quiseram mais saber dela. E ela se acha acima das novas. – Lindalva se calou por um instante, e ficou fitando Emília. – Andam dizendo que você é órfã, que vem de uma família do interior em que todos foram morrendo, um a um, tísicos. E que precisou se sustentar costurando para fora. Dizem que Degas a salvou. É verdade?

– Quem disse isso? – indagou Emília.

– Quem acha que pode ter sido? – retrucou Lindalva, inclinando um pouco a cabeça na direção da varanda. – As famílias novas adoram histórias trágicas. Principalmente se essa tragédia está bem longe da vida delas.

– Mas seria fácil descobrir que não é verdade – disse Emília. Estava pensando no filho do coronel Pereira, Felipe. Descobriu, pelas recomendações que dona Dulce fazia a Degas, que Felipe era aluno da faculdade de direito e morava num pensionato no Bairro Recife, local por onde damas e cavalheiros não circulavam. Na capital, o rapaz tinha se tornado um humilde estudante, nem tradicional, nem novo, simplesmente incluído naquele outro grupo, o dos sem-nome. Mas era de Taquaritinga e conhecia as origens da moça.

– Preste atenção no que vou lhe dizer – declarou Lindalva, voltando a segurar as mãos de Emília entre as suas. – Se escavar bem em qualquer uma dessas famílias ditas nobres, sejam elas tradicionais ou novas, vai acabar chegando à selva ou à cozinha. Ninguém vai lhe fazer tantas perguntas assim, desde que você esteja ciente de que as perguntas podem ser feitas em ambos os sentidos.

Emília se remexeu na cadeira. O vestido estava apertado debaixo dos braços. Queria soltar a mão que Lindalva segurava e ir embora. Para seu grande alívio, apareceu uma criada dizendo que o café estava servido. As duas voltaram para a varanda e se sentaram junto com a baronesa e dona Dulce. Emília se concentrou na xícara de café, sentindo-se incomodada pelo tagarelar constante de Lindalva e os sorrisos amistosos e coniventes que ela lhe dirigia sempre que dona Dulce dizia alguma coisa. Quando estavam indo embora, a baronesa Margarida segurou firme a mão da moça entre aqueles dedos rosados e retorcidos como garras.

– Vamos nos ver de novo depois do Carnaval – declarou ela. – Você não precisa abandonar os seus afazeres diários, Dulce. Mando o carro buscá-la.

A dor de cabeça de Emília recomeçou. Lindalva sorria radiante.

 

13

 

Duas semanas antes do Carnaval, surgiram umas nuvens vindas do Atlântico. O cata-vento começou a rodar. Choveu por cinco dias seguidos, provocando deslizamentos de terra. No bairro de Cidade Amarela, algumas casas desabaram. Os bueiros do Recife transbordaram, lançando as suas águas no Capibaribe já bem cheio. As costureiras chegaram à casa dos Coelhos abrigadas por sólidos guarda-chuvas, carregando rolos de tule e bolsas de costura repletas de lantejoulas e plumas iridescentes. Para o seu primeiro Carnaval como marido e mulher, Degas e Emília usariam fantasias combinadas – índios da Amazônia para duas noites e, para as outras duas, um pierrô de gola bem bufante e uma colombina, sua parceira mascarada. Os trajes de Degas já estavam prontos, mas os de Emília eram mais elaborados e exigiam que as costureiras viessem ao domicílio.

A casa estava vazia. O Dr. Duarte e a esposa tinham ido ao tradicional almoço de Carnaval no British Club. Já Degas tinha ido apreciar o desfile do corso pela rua da Concórdia. As gerações mais jovens das melhores famílias do Recife, tanto das tradicionais quanto das novas, subiam e desciam as duas pistas da avenida nos seus automóveis, jogando confetes e rolos de serpentina. Levavam ao nariz lenços encharcados de lança-perfume e o resto do conteúdo dos frascos de vidro era espirrado nos companheiros e nos espectadores nas calçadas. Uma multidão se reunia de ponta a ponta da rua, na esperança de receber um jato de lança-perfume e de ver aqueles cavalheiros e mocinhas de família estragando as fantasias uns dos outros. Emília adoraria ter ido assistir. Implorou a Degas que a levasse, mas ele disse que não era a situação adequada para marcar o seu primeiro compromisso social. As coisas podiam ficar feias no corso. Eram comuns as cenas de gente de um carro atirando coisas horríveis no automóvel de uma família rival: garapa, farinha, frutas podres e até mesmo urina.

– Ele já está velho demais para participar dessas brincadeiras – resmungou Raimunda antes da chegada das costureiras. Logo a campainha tocou, indicando a sua presença na casa. – Essas mulheres são capazes de todo tipo de disse me disse – alertou. – Falam até da própria mãe.

Emília aquiesceu.

Dona Dulce também a tinha alertado sobre as costureiras. Mãe e filha faziam exclusivamente fantasias, jamais roupas de verdade. O seu talento estava nas lantejoulas, nas plumas, nos vitrilhos e nos tecidos multicoloridos, característica que as tornava cobiçadíssimas durante o Carnaval, mas esquecidas pelo resto do ano. Graças à popularidade de que gozavam durante os meses de janeiro e fevereiro, as duas mulheres trabalhavam para dezenas de famílias – velhas e novas – e eram recebidas nos seus casarões. Tinham olhos aguçados e línguas ainda mais afiadas, e saíam de cada uma daquelas casas com várias histórias para contar na seguinte. A prova da fantasia de Emília foi feita na sala de visitas dos Coelhos. Com isso, as costureiras podiam dizer que tinham sido tratadas com todo o respeito, mas não teriam condições de espionar os aspectos mais íntimos relacionados ao quarto de dormir. Raimunda pôs um banquinho baixo bem no meio da sala, e Emília ficou ali em cima, usando sua melhor combinação de seda. As costureiras a fitaram.

A mãe tinha um sorriso largo e o cabelo curto, de um jeito que não combinava nada com o seu corpo roliço e o vestido florido fora de moda. A filha era magra e meio masculinizada. Ambas tinham a pele morena e lustrosa, como bagos de café bem torrados. Vestiram Emília com os seus modelos extravagantes. Tinham feito uma saia comprida toda de penas, um corpete de um dourado brilhante e um cocar. Emília enfiou a fantasia pela cabeça. Os mosquitos esvoaçavam em torno das suas pernas. A mãe girou ao seu redor, prendendo uma coisa aqui, dobrando outra ali, para fazer os ajustes finais. Raimunda ficou por perto, servindo copos de água à moça e pedindo às costureiras que tomassem cuidado com os alfinetes.

– Que corpo bonito! – exclamou a mais velha das mulheres, dando uns tapinhas na coxa de Emília. – São tão feias essas moças magrinhas...

Emília não assentiu, nem deu qualquer sinal de concordar com o que ela dizia, temendo que a costureira fosse dizer às suas outras clientes que a esposa de Degas Coelho tinha falado mal das mulheres magras. A outra deu de ombros. A filha espalhou um punhado de plumas iridescentes em cima da mesinha e começou a aumentar o arranjo de cabeça da fantasia de índia.

– Índios e palhaços são dois clássicos – disse a mãe, num tom de aprovação. – Ninguém mais mandou fazer essas fantasias este ano. A senhora vai ser a única. Foi escolha sua?

– Não – respondeu Emília. – Foi meu marido quem escolheu.

– Ah! É o seu primeiro Carnaval – exclamou a mulher, abrindo um sorriso largo.

– É o primeiro ano de dona Emília no Recife – atalhou Raimunda. – A senhora não fez fantasia para ela no ano passado, não é mesmo?

A costureira a fitou. A criada cruzou os braços e a encarou também.

Desde que se viram pela primeira vez, no banheiro dos Coelhos, Raimunda tinha se tornado uma presença calada e constante na vida de Emília. A moça gostava daquele silêncio. Todos – dona Dulce, Degas, o Dr. Duarte, a Srta. Lindalva – tinham algum conselho a lhe dar. Todos falavam através de charadas que ela já tinha se cansado de procurar decifrar. Menos Raimunda. A criada a vestia, penteava o seu cabelo, prendia as suas meias nas ligas e aparava as suas unhas com uma eficiência solene e diligente. Não tentava entabular conversa, nem Emília a encorajava a fazê-lo. Depois da revelação de dona Dulce lá na loja de tecidos, tinha a impressão de que até os jabutis e as imagens de Nossa Senhora de rosto alongado podiam ser informantes de sua sogra. Ficou grata por Raimunda ter tratado de protegê-la das costureiras, mas não podia permitir isso. É claro que as criadas deviam defender os seus patrões, mas não na sua presença. Uma senhora precisava ter voz própria, não podia deixar a empregada assumir esse papel.

– Tenho apenas 19 anos – disse, então, procurando recriar a voz de dona Dulce, com aquele misto de tédio e de severidade. – No interior, uma mocinha solteira não brinca o Carnaval.

Na verdade, em Taquaritinga, ninguém festejava o Carnaval. Simplesmente respeitavam a Quaresma. “Vocês ficam com todo o sacrifício e sem nada do divertimento”, disse Degas uma vez, durante o período que passou na casa do coronel. Emília torceu para que aquelas costureiras jamais houvessem saído do Recife, pois, assim, não saberiam o que realmente acontecia. A mãe assentiu e fitou Emília com um olhar penetrante, fazendo outro juízo da moça. Ninguém ignorava que as famílias ricas do interior mandavam as filhas para o convento, não para que se tornassem freiras, mas para protegê-las por trás de muros altos e regras rígidas. Emília baixou a cabeça compungida.

– É isso mesmo, dona Emília – observou a mulher. – As mocinhas não deviam ser expostas ao Carnaval. Mas o Clube Internacional é diferente. Não é como nas ruas. Vai ter cada fantasia tão bonita...

Emília aquiesceu. A mulher passou a descrever os trajes elaborados que tinha feito para os Coimbras, os Feijós, os Tavares e outros mais. A moça reconheceu o tom afável da costureira, aquele falatório entusiasmado que visa deixar a freguesa à vontade. Ela própria já tinha feito a mesma coisa com as suas clientes, não muito tempo atrás.

– Um homem queria uma fantasia de cangaceiro – disse a filha da costureira, erguendo os olhos do cocar em que trabalhava.

– Eu me recusei a fazer isso – apressou-se em dizer a mãe. – Essa gente não tem nada de elegante. Não tem lantejoulas, nem plumas. Não faço fantasias de saco – acrescentou ela, perscrutando o rosto de Emília. Ao notar seu interesse, prosseguiu: – Ouviu falar do ataque mais recente que eles fizeram?

A moça balançou a cabeça.

– Tem um coronel hospedado na casa de uma das minhas clientes – disse a costureira, deixando de lado a almofada de alfinetes. – Coronel Machado não sei de quê. Ele veio à capital para pedir que o governador mande tropas para a sua região. Está furioso. Alguns cangaceiros quase deram cabo do filho dele. Atacaram a sua cidade, mataram sete homens. Um horror.

– Quem? – indagou Emília. – Que cangaceiros?

A mulher fez um gesto com a mão. Um alfinete caiu no chão.

– Um cujo apelido é um nome de pássaro. O Periquito... O Galo...

– O Carcará?

– Isso mesmo – respondeu a mulher, lançando a Emília um olhar inquiridor.

– É um pássaro comum – retrucou a moça, fitando as próprias unhas. O seu coração estava aos pulos. Só esperava que a mulher não pudesse percebê-lo subindo e descendo por baixo da combinação. – O que mais esse coronel disse?

Do fundo da sala, Raimunda pigarreou. Emília sabia que não devia demonstrar curiosidade sobre coisas tão mórbidas. Mas, ignorando a criada, a costureira estava louca para continuar falando.

– Ah, pelo que ouvi, foi um ataque terrível – disse ela. – Simplesmente terrível. Depois, o bando fez uma festa e dançou em cima dos cadáveres. Havia um frade, pobrezinho, que presenciou tudo. Ficou tão abalado que disse que um dos bandidos era mulher. É um engano bem compreensível, afinal todos eles usam cabelo comprido. Mas o frade insiste nisso. Imagine só – prosseguiu ela, baixando a voz. – Que tipo de mulher faz uma coisa dessas? Que tipo de família permitiria que isso acontecesse? É uma vergonha.

Emília assentiu. Tinha a boca seca.

– Ela deve ser feia que nem um cão! – exclamou a filha da costureira, rindo.

– Não ofenda o pobre animal – retrucou sua mãe, rindo também. Parou ao perceber que Emília não estava achando graça nenhuma. – Que destino terrível para uma moça! – acrescentou, estalando a língua. – Se é que isso é verdade...

O calor na sala estava abafado. A combinação de Emília já estava colada à barriga. A saia de plumas tinha dezenas de pontinhas que lhe arranhavam a parte posterior das coxas. Um mosquito zumbiu perto da sua orelha, mas a moça não o espantou, com medo de perder o equilíbrio e cair. Raimunda se adiantou.

– A senhora está pálida – observou a criada.

– Preciso descansar um pouco – disse Emília, descendo do banquinho.

Antes que a costureira pudesse reclamar, ouviram o barulho do portão se abrindo. Degas estava de volta. Raimunda mandou que parassem com aquela prova. Emília tirou a fantasia e saiu da sala, deixando que a criada cuidasse de tudo e mandando a costureira terminar logo o cocar.

Encontrou o marido no vestíbulo. Ele tinha estragado a fantasia de Pierrô no corso. Agora, ela estava imprestável. A chuva não amenizara a selvageria habitual desse festejo carnavalesco. O cabelo de Degas estava duro de garapa, a fantasia coberta de uma maçaroca amarela bem consistente. Os seus olhos estavam esgazeados, com as pálpebras pesadas. Riu ao ver Emília parada ali, de combinação, e, depois, começou a subir a escada com passos trôpegos. Lá em cima, empurrou a porta do quarto da mulher e se atirou na cama.

Emília o seguiu. O riso de Degas mais pareceu uma fungadela maldosa. Debochada. Feia. E, agora, lá estava ele, escarrapachado nos lençóis limpos, com aquele cabelo pegajoso manchando os seus travesseiros. Adoraria que as formigas que vira e mexe invadiam a cozinha de dona Dulce o descobrissem. Não haveria ninguém para lavar a roupa de cama, nem para virar o colchão. Metade da criadagem estava de folga. Raimunda e a passadeira iam estar ocupadas cuidando da sua fantasia, do vestido de dona Dulce e do smoking do Dr. Duarte. Os Coelhos tinham reservado uma mesa para aquela noite no Clube Internacional.

Pegou então um jogo de lençóis da prateleira no armário de roupa de cama. Degas que fosse dormir naquela sujeira quando voltassem do baile, pensou ela. Faria sua própria cama no outro quarto.

Tirou os lençóis da cama do marido; recusava-se a dormir em qualquer coisa em que ele tivesse tocado. Pôs as fronhas nos travesseiros e fez a cama com movimentos rápidos, violentos. Bateu com o dedo no estrado. Uma das suas unhas se quebrou bem no meio. Começou a sangrar. Emília enfiou o dedo na boca e se sentou na borda da cama parcialmente arrumada.

Ficou olhando para os discos do curso de inglês empilhados junto da vitrola. Olhou o próprio aparelho. Aquele braço gordo e recurvado. A agulha de ponta afilada.

Em criança, ela era a boazinha. Luzia sempre deixou bem claro, através da sua teimosia silenciosa, que só obedecia quando tinha decidido obedecer. Emília tinha saudade da irmã. Tinha saudade da sua força calada, do jeito como tapava a boca com a mão quando ria, do jeito como encaixava o braço aleijado no de Emília sempre que andavam juntas. Diariamente, ficava à espera de uma notícia qualquer: um artigo no jornal mencionando os cangaceiros, uma carta de dona Conceição dizendo que Luzia estava de volta. Mas nada...

O dedo ainda estava sangrando, deixando em sua boca um gosto salgado e metálico. A unha quebrada lhe arranhava a língua. Adoraria ter feito mais perguntas à costureira. Queria descobrir que família estava hospedando o tal coronel e ir lhe fazer uma visita. Nem bem a ideia lhe passou pela cabeça, Emília já a tinha rechaçado. Demonstrar interesse por criminosos a exporia a falatórios maldosos – uma dama não pergunta sobre assuntos como esse. Uma dama não pode se interessar por cangaceiros. Lembrou-se das perguntas da costureira: que tipo de mulher faz uma coisa dessas? que tipo de família permitiria que isso acontecesse? E a mulher concluíra afirmando que aquilo era uma vergonha.

Emília roeu a ponta quebrada da unha. Ficou esperando pela dor, mas, quando ela surgiu, não a impediu de continuar com raiva. Sentia o estômago ardendo, como se tivesse tomado aquela mistura de ovo cru e pimenta que o seu sogro tomava. Estava com raiva daquelas costureiras por suas especulações, suas críticas. Estava com raiva de Luzia por deixá-la naquela situação, sendo alvo de tais mexericos. Mas era mesmo ela? Haveria realmente uma mulher no bando de cangaceiros? Caso houvesse, seria Luzia? Emília voltou a se sentir como em criança: impelida a defender a irmã, a tomar o seu partido e a ser evitada e ridicularizada por agir assim. Quando as duas eram pequenas, Luzia pegava a sua mão ou escovava o seu cabelo como forma de lhe agradecer por sua lealdade. Agora, ela não estava mais ali. Era como um fantasma – nem viva, nem morta, simplesmente flutuando na memória de Emília, penetrando na sua nova vida. Não podia chorar pela morte da irmã, mas tampouco podia salvá-la.

Tinha esperanças de que o Recife fosse uma metrópole, grande e movimentada. Grande o bastante para fazê-la esquecer tudo o que havia perdido. Grande o bastante para envolvê-la e transformá-la. Mas, como dizia o Dr. Duarte, era tudo uma questão de proporção. O mundo dos Coelhos ficava confinado entre o velho e o novo, os clubes privados, a praça do Derby e aquela casa cercada de muros. Era comum Emília se sentir como se estivesse trancada num salão amplo e bem-cuidado. Em meio a todo aquele luxo, sentia-se apertada, enclausurada, incapaz de respirar. Às vezes, quando se sentava à mesa dos Coelhos para o café da manhã ou se deitava na cama, tinha uma vontade louca de gritar ou assobiar, pedindo socorro.

Anos atrás, sentira a mesma vontade na missa de enterro do seu pai. Luzia e ela se ajoelharam lado a lado no primeiro banco da igreja, diante do corpo, e observaram-no enrolado na rede branca, parecendo estar em um casulo. Emília encostou o queixo no peito, fez uma alça com o polegar e o indicador e enfiou os dois dedos na boca. O silêncio era tão grande que dava para ouvir o chiado das lamparinas de querosene, as mãos postas roçando uma na outra, o ruído dos lábios das pessoas que comungavam. Emília respirou fundo e, então, soltou o ar pela boca, dando um assobio que fez a sua língua vibrar de encontro às bochechas. Ouviram-se exclamações abafadas e murmúrios. “Menina mal-educada!”, sussurrou uma mulher atrás das duas. Luzia sorriu.

Quando tia Sofia a arrastou para fora da igreja e lhe deu uma surra ali mesmo, na frente de todo mundo, Emília mal sentiu as pancadas. Só conseguia pensar naquele assobio, naquele som agudo e estridente que abafou todos os demais ruídos à sua volta, ergueu-se acima dos bancos, do altar do padre Otto, pelo crucifixo, e continuou subindo, rumo aos cantos mais escuros do teto pintado, atingindo um lugar que ninguém conseguiria alcançar. E pensava também na reação de Luzia. Ficou tão orgulhosa de ter recebido aquele sorriso... E o jeito como se entreolharam, como se houvesse um segredo entre ambas... Como se tivessem percebido algo importante e misterioso entre elas, uma lembrança compartilhada para guardar. Caso uma se esquecesse do ocorrido, a outra estaria ali para ajudá-la a recordar.

 

14

 

Serpentinas douradas e prateadas envolviam os lustres do Clube Internacional. No palco, uma orquestra, com todos os músicos de smoking branco, tocava um samba animado. Emília ajeitou o arranjo da cabeça. O cocar tinha ficado volumoso e esquisito. As pontas das plumas lhe arranhavam a testa. Degas lhe deu a mão. Decidiram usar a fantasia de índio, já que a de Pierrô tinha ficado imprestável. Antes de saírem, ele enfiou uma garrafa de lança-perfume e dois lenços no cinturão de penas que levava à cintura.

A mesa do Dr. Duarte ficava num ponto privilegiado do salão, pertinho da pista de dança. Degas passou pelos seus lugares e levou Emília para apresentá-la a outros índios, a exploradores portugueses, monges, faraós e gregos. A moça avistou uma das mulheres da família Raposo usando uma imensa saia de crinolina e uma peruca branca. No alto da peruca, havia uma gaiolinha dourada e, dentro dela, um canário. Nervoso, o pássaro esvoaçava para um lado e para outro. Uma moça bem alta, da família Lundgren, estava vestida de princesa egípcia e usava um minúsculo barrete incrustado de pedras preciosas. Emília sentiu inveja dela. O seu cocar ficava o tempo todo escorregando, despenteando o seu cabelo e obrigando-a a segurá-lo com a mão. Felipe, o filho do coronel, estava num grupo nos fundos do salão. Usava uma fantasia de cigano, com um lenço amarrado na cabeça. Parecia mais magro e mais sardento do que Emília se lembrava. Ele os cumprimentou com um aceno de cabeça. Degas respondeu ao cumprimento. O salão de baile estava dividido. As extremidades, mais cobiçadas por ficarem perto da orquestra, pertenciam às famílias novas e tradicionais, instaladas de ambos os lados da pista de dança. Nos fundos, não havia mesas nem cadeiras. A moça percebeu que era o lugar destinado aos que tinham convite mas não podiam se sentar junto com as famílias. Degas a levou de volta à mesa de seu pai. Pediu copos e mais copos de cachaça misturada com limão. Emília ficou curiosa para saber que gosto teria a tal bebida, mas não provou um gole sequer. Dona Dulce ficou próxima ao palco, ao lado do Dr. Duarte, vigiando-a a distância.

– Comporte-se – dissera-lhe a sogra antes de saírem de casa.

Portanto, a moça ficou sentada ali, quietinha, com uma das mãos no cocar, a outra segurando o copo de guaraná e olhando a pista de dança. Quando as famílias tradicionais se levantavam para dançar, as novas se sentavam. Os dois grupos se fitavam, os cavalheiros rindo com espalhafato, as damas protegendo a boca com a mão para cochichar umas com as outras.

Emília não sabia dançar samba, nem valsa, nem frevo. Só sabia dançar quadrilha e forró. Decorou bem os ensinamentos da sogra: ao dançar, nunca entrelace os dedos com os do seu par, nunca cole o rosto ao dele, use sempre o cotovelo como barreira para evitar a proximidade excessiva.

De repente, os trompetes soaram mais alto. Os braços do pandeirista se agitaram num ritmo frenético. A orquestra começou a tocar um frevo. O público ficou animadíssimo. De ambos os lados do salão, todos se levantaram. Os pares se desfizeram. As pessoas pulavam para a esquerda e para a direita, equilibrando-se nos calcanhares, parecendo até que iam cair para trás, mas logo se aprumando e recomeçando aqueles movimentos enlouquecidos. Os funcionários do clube apareceram trazendo umas sombrinhas douradas que os dançarinos trataram de abrir e ficaram agitando para cima e para baixo, ao ritmo da música. Degas sorriu. Pegou a esposa pelo braço e levou-a para a pista de dança.

Uma sombrinha se abriu ao seu lado. Seu arranjo de cabeça escorregou para a frente, tapando-lhe os olhos. Emília perdeu o equilíbrio e caiu em cima do marido.

– Relaxe! – gritou ele, pegando o frasco que trazia no bolso e abrindo a sua tampa.

Molhou o lenço com lança-perfume e jogou a garrafa na bandeja de um garçom que passava. Depois, pôs o lenço no rosto da mulher, segurando-o bem firme.

Emília sentiu as narinas geladas, a garganta comichando. Sua cabeça ficou estranhamente leve. Viu o cocar cair no chão e desaparecer sob dezenas de pés que pulavam ruidosamente. Alguns confetes se colaram aos seus cílios. Tinha a impressão de que o seu peito ia estourar. O teto começou a rodar e foi ficando mais alto. O ritmo da música foi se tornando mais acelerado, e mais ainda, até soar como algo metálico e estranho, parecendo um longo tilintar nos seus ouvidos. Ouviu risos. Tomou um susto com aquele som. Virou-se várias vezes para ver de onde ele vinha. As sombrinhas se abriam e se fechavam como borrões dourados. O riso foi ficando mais forte. Emília percebeu que era ela mesma que estava rindo. Não conseguia parar. Quando tentava, acabava rindo ainda mais. E, agora, era um riso frenético, assustador. Ao seu lado, viu a mulher da família Raposo, aquela da peruca branca. O corpo do passarinho batia de encontro às grades douradas da gaiolinha. As suas asas já não se abriam. Emília parou de rir. O seu coração começou a bater mais depressa. Em vão, procurou Degas. Foi abrindo caminho em meio à multidão.

Não saberia dizer quanto tempo ficou ali, parada, na beirada da pista de dança, de olhos fechados. Não saberia dizer quanto tempo se passou até a sua cabeça parar de rodar. Quando abriu os olhos, o frevo tinha terminado. O seu cocar tinha desaparecido. O couro cabeludo lhe doía. Estava do lado do salão ocupado pelas famílias tradicionais. Assim que se deu conta disso, tratou de voltar, evitando a pista. Passou pela parte mais escura do salão, onde não havia mesas. E foi ali que viu Degas.

Ele estava junto com um grupo de pessoas fantasiadas de ciganos e de marinheiros. Aquelas fantasias não eram tão elaboradas quanto as das novas e das velhas famílias. Entre os marinheiros, homens e mulheres usavam um chapeuzinho branco, e os ciganos tinham na cabeça uns lenços improvisados. No meio dessas fantasias tão simples, Degas parecia até um pavão, envergando o cocar e o peitoral de plumas iridescentes. Estava parado atrás de Felipe, cujo lenço tinha desamarrado. Viu seu marido hesitar e, depois, segurar o lenço pelas pontas. Por baixo do peitoral de plumas, os seus braços estavam nus. As suas mãos pareciam miúdas e desajeitadas, mas prenderam o lenço na cabeça de Felipe com toda a delicadeza. Uma mecha de cabelo do rapaz ficou de fora, caindo-lhe sobre a orelha. Com as pontas dos dedos, Degas o ajeitou debaixo do lenço. A sua mão se deteve no pescoço de Felipe. O rapaz virou o rosto sardento para trás, na direção de Degas.

Uma sensação rápida e fria como o torpor do lança-perfume passou pela cabeça de Emília. Mas logo se desvaneceu.

 

15

 

Dona Dulce estava sentada à mesa dos Coelhos, sozinha e empertigada, bebericando um copo de ponche. Emília não quis se sentar ao lado dela. O salão estava cheio de fumaça dos cigarros, fazendo os seus olhos arderem. A música estava alta demais. Saiu dali, à procura de um pouco de ar. Havia uma fila de automóveis e charretes parados diante da entrada principal. Duas das moças da família Raposo, de cabelos bem pretos, dirigiam-se ao seu carro. Uma delas reconheceu Emília, lá da praça do Derby.

– Você não parece bem – disse ela, franzindo as espessas sobrancelhas. – Moramos na Torre. É bem perto de Madalena. Podemos lhe dar uma carona.

Com a determinação e o espírito prático tão característico das mulheres da família Raposo, a moça pegou Emília pelo braço, levou-a até o carro e bateu na janela para acordar o motorista. Quando Emília protestou, a outra não quis saber de contestações. O sujeito ia voltar para buscar o resto do clã. Diria então aos Coelhos que a sua nora tinha ido embora mais cedo. E Emília estava mesmo cansada daquela festa. Ficou agradecida pela gentileza da jovem. Mas, assim que se afastaram do Clube Internacional, as coisas mudaram.

Toda moça de boa família com mais de 15 anos era uma noiva em potencial, e elas gostavam de discutir as qualidades de um bom partido. Depois de alguns comentários rápidos sobre o baile, as jovens Raposos se puseram a comparar os rapazes que estavam lá.

– Vi aquele moço da família Lobo – disse uma das irmãs. – Decididamente, ele tem uma quedinha por você.

– Acha que vou querer aquele safado? – retrucou a outra, com cara de poucos amigos. – Ele não tem futuro algum. Não tem ambições. Vai viver à custa do pai para o resto da vida. Se nos casarmos, vamos ter de morar na casa dos pais dele! Uma moça precisa ter a sua própria criadagem. A sua própria casa. Não concorda, Emília?

Riram ambas. Emília deu de ombros. Durante todo o resto do trajeto, fingiu que estava dormindo. Diante do portão dos Coelhos, as moças se despediram secamente.

A casa estava às escuras, o ar da noite estava quente e úmido. A distância, ouvia-se o ruído de música pela rua, as batidas firmes que marcam o ritmo acelerado do frevo. Havia toda uma multidão festejando. De repente, Emília sentiu uma solidão assustadora. Pensou em tirar o retrato da primeira comunhão do armário e ficar olhando para ele, mas não teve forças para subir aquela escadaria sinuosa. Preferiu ficar ali, no escritório do Dr. Duarte. Enroscada e adormecida, lá estava a Menina Sereia. A moça pegou o pote de vidro na prateleira e o pôs no colo. De início, o vidro estava frio, mas, aos poucos, foi se aquecendo ao contato com a sua pele.

Emília não entendia bem aquelas ideias do sogro, mas gostava da simplicidade da mensuração. Os homens eram criaturas misteriosas. Nem mesmo os cavalheiros, com a barba bem-feita e a sua elegância perfumada, eram confiáveis. Como seria bom poder mensurar um homem. E determinar quem era bom, quem era cruel. Quem era capaz de nos fazer felizes e quem não era.

Apressou-se em devolver a Menina Sereia ao seu lugar. Precisou dizer a si mesma que aquela garotinha não estava viva. E gente não é como um vestido. Não pode ser medida, riscada e cortada para ficar do tamanho ideal. Aquela conversa das irmãs Raposo, com suas alfinetadas veladas, não lhe saía da cabeça. Um bom marido tinha ambições, ao passo que um mau marido dependia do pai para viver. Mulher alguma queria isso. O que elas queriam era ter a própria casa, os próprios empregados. Queriam ser patroas, e não noras.

Emília sempre achou que Degas era um partido considerável. Quando chegaram ao Recife, começou a acreditar que ela própria era cheia de defeitos, uma matuta que precisava ser educada. Estava convicta de que eram as suas deficiências que provocavam aquele desinteresse por parte do marido. Agora, porém, via que as coisas não eram bem assim.

Gostava dos luxos da sua nova vida ao lado de Degas. Sem ele, teria certamente se tornado uma daquelas pobres costureiras da capital, trancadas num quartinho quente, passando horas a fio debruçada diante de uma máquina. Mas a capacidade do seu marido de lhe prover vestidos, casa ou empregados não lhe bastava. Emília tivera a esperança de que um marido educado pudesse lhe dar também alguma satisfação. Que, juntos, os dois pudessem fazer a vida de casados ser como um tecido fino, em que qualquer ponto irregular da trama fosse disfarçado com tamanha perfeição que o pano pareceria liso e adorável. Mas ali no escritório escuro, em meio àqueles livros estrangeiros e àqueles potes contendo restos humanos descorados, lembrou-se da sensação fria do lança-perfume no baile de Carnaval. Lembrou-se das mãos do marido atando com todo o cuidado o lenço de cigano, e teve uma certeza assustadora: tinha feito uma péssima escolha. E todos à sua volta – dona Dulce, as criadas da casa e até aquelas moças da família Raposo – pareciam desconfiar do que ela agora sabia: que Degas era incapaz de tecer aqueles vários fios invisíveis que fazem a felicidade de uma mulher.

 

16

Quando os Coelhos voltaram, Emília estava dormindo no quarto de solteiro do marido. Ouviu o ruído distante de um motor. Acordou com o clique da maçaneta do quarto. No vão da porta, estava a sombra de um homem, escura e grande. Plumas iridescentes brilhavam ao redor do seu pescoço e da sua cintura. E, nas plumas, viam-se grandes círculos brancos, parecendo dezenas de pares de olhos. Emília se sentou na cama.

– Procuramos você por toda parte – disse Degas. – Por que veio embora?

– Estava cansada – respondeu ela. – Meus olhos chegavam a doer.

– Devia ter falado comigo.

– O motorista dos Raposos avisou a vocês, não avisou?

– Avisou. Mamãe está furiosa.

– Por quê? – indagou Emília, subitamente com raiva também.

– Uma esposa não vai embora sem o marido.

Emília voltou a se deitar. As plumas da sua própria fantasia atravessavam o tecido brilhoso, espetando-lhe a pele.

– E muito menos com os Raposos! – prosseguiu Degas. – Amanhã, todo mundo no Recife vai estar comentando isso.

– Que comentem – esbravejou a moça. – É de mim que vão estar falando. Antes você não se importava com isso.

Ouviu a respiração pesada do marido, o zumbido de um mosquito, o som profundo dos tambores do maracatu a distância. Degas tateou, à procura da cama, como se os seus olhos ainda não houvessem se acostumado à escuridão. Desabou ao seu lado e por pouco não sentou nas suas pernas. Mas sentou na sua saia, puxando-a para baixo. Do seu corpo vinha um cheiro fermentado, azedo, um misto de álcool e suor.

– O que sabe a meu respeito? – perguntou ele.

Havia uma premência naquela voz; os seus olhos estavam úmidos e escuros.

Emília sentiu uma onda de irritação. Poderia perfeitamente fazer a mesma pergunta. Degas jamais quis saber o que ela fazia durante o dia. Nunca indagou sobre os seus sentimentos. Para ele, Emília era apenas algo útil e atraente, como a sua vitrola e os seus sapatos com a biqueira debruada de furinhos, que ocupava um espaço periférico no seu mundo.

– Você nunca me beijou – disse ela.

– Já a beijei dezenas de vezes.

Degas esfregou o rosto com as mãos, e soltou um suspiro engasgado.

– É, acho que não – disse, então, fitando-a, e acariciou o seu cabelo suado. – Não tenho cumprido a minha parte do nosso negócio.

– Negócio... – repetiu a moça num murmúrio. Negociar: era o que fazia antigamente no mercado, aos sábados, mas nunca gostara disso. Na verdade, odiava fazê-lo. Sempre pagava de mais e recebia de menos. Embolou nas mãos a borda do lençol engomado. – A sua mãe quer ter netos – disse, com a voz trêmula e rouca. – E acha que a culpa é minha.

– Sinto muito – sussurrou Degas. – Que injustiça! Venha – acrescentou, pondo-se de pé e estendendo-lhe a mão.

Falou de um jeito tão delicado que Emília se levantou. Ele ergueu então os seus braços e despiu a sua fantasia amassada. Por baixo, ela estava usando uma combinação e uma calcinha de algodão. Mesmo assim, estava estranhamente com frio. Cruzou os braços diante do peito.

– Deite-se – disse ele, sempre sussurrando.

Os lençóis lhe pareceram ásperos ao roçar suas costas. As mãos dele estavam frias. Começaram a se mover com alguma hesitação, mas, depois, ganharam força, passando a agarrá-la e empurrá-la como se ele a estivesse moldando com os dedos esguios. Em pouco tempo, Degas tinha tirado a sua calcinha. A combinação estava toda embolada na altura de seus quadris. Ele era muito pesado. O peito de Emília mal podia subir ou descer. Ela foi ficando sem fôlego. E com dor de cabeça. Fechou os olhos e se lembrou da casa de farinha em Taquaritinga: aquele calor úmido, aquele cheiro acre de mandioca, aqueles homens e mulheres suados curvados diante dos tubérculos claros que eram raspados, prensados, amassados e triturados até se transformarem em algo inteiramente diferente.