Entre irmãs
Capítulo 5
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
O Sr. Degas Van der Ley Feijó Coelho, em viagem ao interior, casou-se com a Srta. Emília dos Santos, moradora de Toritama, em
cerimônia íntima. A viagem de núpcias foi adiada em virtude dos estudos do noivo na faculdade de Direito da Universidade Federal de
Pernambuco.
O nome da sua cidade natal saiu errado. Emília ficou chateada, mas Degas lhe garantiu que erros desse tipo ocorriam com frequência. A festa de casamento seria marcada quando o calor amainasse, disse ele. Os vestidos, o passeio de automóvel, os almoços e jantares viriam com o tempo. No momento, segundo dizia, andava ocupadíssimo com os estudos. Ela certamente entenderia.
Emília assentiu. Os homens trágicos das suas fantasias infantis tinham ido embora. As figuras surdas, mudas e bonitas das páginas da Fon Fon haviam sido substituídas por um homem de verdade. E, dele, a moça não esperava amor nem romance. Esperava contar apenas com a sua atenção, os seus conselhos. Achava que o marido poderia ser um pouco seu professor, acompanhando-a pelos círculos da sociedade do Recife e, quem sabe, até lhe mostrando o mundo. Mas, assim que chegaram à capital, Degas se tornou um homem fechado, difícil de atingir. Não tinha mais nenhuma história para lhe contar, nenhum elogio a lhe fazer. De dia, tratava-a com educação, puxando a cadeira para ela se sentar à mesa, na hora do café da manhã, e dando-lhe um beijo na bochecha antes de sair. Emília andava desconfiada daquela gentileza, interpretando-a como uma forma cavalheiresca de tolerar a sua presença. De noite, depois que Emília já tinha se deitado na cama, ele entrava furtivamente no quarto, pegava o pijama no armário e voltava rapidamente para o seu quarto de solteiro.
Nas fotos da Fon Fon que mostravam casas e apartamentos elegantes, o quarto de casal muitas vezes tinha duas camas – uma para o marido, outra para a mulher. Na casa do coronel, dona Conceição não aguentava os roncos do marido e, portanto, os dois dormiam em quartos separados, com uma porta de comunicação. Isso ela teria aceitado: gostava de ter uma cama só para si. Preocupava-se, porém, com os seus deveres conjugais. Dia sim, dia não, as empregadas trocavam os lençóis da sua cama. Ninguém os inspecionava. Dona Dulce e o Dr. Duarte não procuravam manchas marrom-avermelhadas que provassem a pureza da nora. Emília se convenceu de que, na cidade, as pessoas não praticavam os mesmos rituais bárbaros que a gente do interior. Talvez o comportamento de Degas fosse normal, pensava com seus botões. Talvez os cavalheiros não tivessem pressa.
“Todo homem é como os bodes”, dissera-lhe uma vez tia Sofia, quando a viu toda encantada diante da foto de um ator na Fon Fon. “Eles têm as suas necessidades. Os ricos são os piores, são verdadeiras cobras!” Mas o que é que tia Sofia sabia a respeito dos cavalheiros? Degas não tinha essas necessidades. A não ser pelos rápidos olá e até logo, jamais a tinha tocado. Ela tomava longos banhos, borrifava-se com perfume e trocara aquela camisola antiquada, com a fenda na frente, pelo conjunto bordado que os sogros tinham lhe dado. Degas nem pareceu notar esses progressos. Como tudo o que a cercava agora, o marido era, para ela, um estranho. A cidade e a casa dos Coelhos tinham cheiros diferentes, sons diferentes, insetos e pássaros diferentes, plantas diferentes, regras diferentes. Por que então deveria esperar que o marido agisse como os fazendeiros com quem tinha sido criada? Sem saber como lidar com tantas mudanças, todo dia Emília se trancava no quarto por alguns minutos. Deitava na cama, respirava fundo e fechava os olhos. Talvez ela é que fosse diferente, e tudo ao seu redor absolutamente normal. Talvez Degas não fosse estranho ou tivesse algum problema, e sim ela mesma. Se não a tinha tocado deveria ser por alguma razão – estaria revoltado com os seus modos de provinciana? Será que, como as empregadas da casa, ele próprio criticava em silêncio a escolha que tinha feito?
Quando estavam namorando, Emília só tinha pensado nas vantagens daquela união. Via apenas os espaços repletos de móveis, fogões a gás e tapetes confortáveis. Não tinham lhe ocorrido os espaços vazios: a cama com aquela imensidão branca de lençóis; a mesa da sala de jantar, com a toalha comprida e com as dobras bem visíveis, e a disposição dos pratos e talheres separando uma pessoa da outra. E o corredorzinho estreito do andar de cima por onde, toda noite, Degas ia para o seu quarto de solteiro, fechava a porta e a deixava esperando.
7
Havia muitos pássaros na propriedade dos Coelhos. Ficavam piando nas pitangueiras, saltitando pelo quintal. Por sobre aqueles pios e trinados, erguia-se o canto agudo e persistente do corrupião. Foi um presente que o Dr. Duarte ganhou de um de seus correligionários políticos, e o pássaro chegou àquela casa sem saber nada, a não ser a melodia da primeira estrofe do hino nacional. O animal só variava o ritmo. Quando as criadas entravam no escritório, a música soava rápida e assustada. Depois que lhe davam uma boa porção de sementes de abóbora frescas e de água, o canto se tornava lento e preguiçoso. À noite, quando o Dr. Duarte tentava lhe ensinar a segunda estrofe, o corrupião, teimoso, só fazia repetir a velha melodia.
Certa tarde, quando Emília estava bordando no quintal da casa, o canto do pássaro soou entrecortado e frenético. A porta envidraçada do escritório estava aberta. Tinham deixado o corrupião ao sol. Irrequieto, o bichinho pulava de um lado a outro da gaiola. Enfiava as asas alaranjadas na vasilha de água vazia. A moça deixou de lado o bordado. Entrou no escritório e arrastou a gaiola de pé para a sombra.
Um raio de sol quente atravessou a escrivaninha maciça do Dr. Duarte. Junto dela, num pedestal semelhante ao da gaiola do corrupião, havia um busto de porcelana. A cabeça era dividida em várias seções, todas elas rotuladas: Esperança. Lógica. Amorosidade. Sagacidade. Benevolência. Destrutividade.
As paredes do aposento eram recobertas de estantes. Em sua maioria, as prateleiras continham livros. Em outras, havia crânios dispostos em ordem crescente, dos menores aos maiores. No fundo, iluminados por um raio de sol que penetrava mais na sala, havia potes de vidro com umas tampas arredondadas. Emília protegeu os olhos com a mão. Pareciam os potes de geleia de dona Dulce, só que maiores. E, em vez de conterem aquelas conservas escuras e doces, estavam cheios de um líquido amarelado, cor de âmbar, que reluzia ao sol. Emília fechou as portas envidraças e baixou as persianas. Dirigiu-se então às prateleiras dos fundos.
Nos potes, flutuavam objetos. Eram opacos e desbotados, como se o líquido que os envolvia lhes houvesse sugado a cor. Num deles, boiava uma língua, enroscada e cheia de músculos. Noutro, um coração de um cinza pálido. A moça não conseguiu identificar o conteúdo dos demais. Havia dois órgãos no formato de feijões, uma grande massa amarela que parecia fibrosa e encorpada e um órgão flácido e marrom recostado nas paredes de vidro que o confinavam. Acima desses potes, havia um outro, maior ainda, sozinho numa prateleira. Na etiqueta, lia-se Menina Sereia.
Estava de olhos fechados. Tinha a cabeça inclinada e o corpo enroscado. Uma ligeira penugem cobria a cabecinha do feto. A criança parecia imersa num sono profundo e tranquilo, podendo despertar a qualquer momento. Emília adoraria que o corrupião parasse com aquele canto ininterrupto. Do torso miúdo da garotinha, brotavam dois cotos moles, dando a impressão de que os braços estavam escondidos nas costas. As pernas eram fundidas, como uma nadadeira. A moça tocou no pote. Alguns fios do cabelo daquele feto flutuaram para um lado e para o outro no líquido cor de âmbar.
A porta que dava para o corredor se abriu. Emília se afastou da estante. O Dr. Duarte entrou. Pareceu espantado ao vê-la ali.
– Desculpe – disse ela. – Vim tirar o corrupião do sol e baixar as persianas.
O Dr. Duarte resmungou qualquer coisa. Pôs a pasta em cima da escrivaninha e se aproximou da nora. Cheirava a charuto, a água-de-colônia e a algo mais – uma mistura de frutos excessivamente maduros e ar do mar; o cheiro dos armazéns do cais do porto, o cheiro da cidade.
– Espionando a minha coleção? – indagou ele.
– Ah, não! – exclamou Emília, com o coração aos pulos.
Queria sair dali, mas o homem impedia a sua passagem e perscrutava o seu rosto.
– Consigo essas coisas depois que os sujeitos já morreram – prosseguiu ele, rindo. – Não precisa me olhar desse jeito. Não sou o lobisomem!
– Claro que não! – retrucou a moça, num sussurro.
O rubor lhe queimava o rosto. Por um instante, quando deparou com o conteúdo dos potes, lembrou mesmo daquele personagem. Era uma história horrível que as crianças da escola do padre Otto gostavam de contar: um velho rico, amaldiçoado por um dos seus empregados e obrigado a raptar crianças para comer os seus órgãos, caso contrário viraria lobisomem.
– Ela é uma anomalia – disse o Dr. Duarte, apontando para o pote mais próximo de Emília.
– Uma o quê?
– Uma anormalidade. Apenas um em cem mil fetos tem pernas e braços fundidos. A mãe era uma criminosa, talvez alcoólatra. A pobrezinha herdou isso.
Girou o pote. Os ombros da menininha bateram contra o vidro. O seu cabelo ondulou.
– Ela morreu ao nascer – acrescentou o Dr. Duarte. – Melhor assim. Teria certamente as tendências criminosas da mãe.
– Por não ter pernas? – perguntou Emília, pondo a mão no pote, numa tentativa de deter o movimento do feto. – Mas a culpa não é dela.
– Esse é o problema! – exclamou seu sogro, juntando as mãos ruidosamente e assustando-a. – A maioria dos médicos criminologistas, mesmo os pioneiros, como Lombroso, acredita que essas deformações muito flagrantes, uma cauda, vários mamilos, queixo para dentro, identificam um criminoso. Mas não têm condições de avaliar exatamente como essas coisas afetam o comportamento humano.
Ficou olhando para Emília, à espera de uma resposta.
– Minha tia Sofia não confiava em homens de barba rala – disse enfim a moça.
O Dr. Duarte jogou a cabeça para trás e soltou uma sonora gargalhada.
– A sua tia é partidária do nosso estimado Lombroso! – observou ele, sorrindo. Tinha o rosto corado, os olhos brilhantes. – Não se pode simplesmente olhar para alguém e determinar o seu potencial criminoso. Isso é um contrassenso ultrapassado. Alguns pobres infelizes podem ter um nariz terrivelmente achatado e nenhuma outra característica de criminalidade. Mas não me entenda mal: concordo inteiramente com Lombroso. Afinal, ele é o fundador da Escola Moderna! Os criminosos são diferentes de nós. São identificáveis, mensuráveis e previsíveis. Só que a verdade não está no nosso olhar, mas na matemática. É tudo uma questão de escala.
Emília assentiu. O Dr. Duarte falava com clareza e convicção, mas, quando as palavras dele lhe chegavam aos ouvidos, pareciam confusas e obscuras. A moça lembrou da fita métrica que estendia de ombro a ombro ou passava em torno da cintura. Tia Sofia sempre lhes dizia que uma costureira deve ser calada e sensível, pois fica sabendo de grandes segredos. Com a fita métrica, Emília percebia a curva de uma barriga que de repente havia crescido. Tinha de passá-la com todo o cuidado por braços machucados. Via os contornos do corpo das recém-casadas, miúdos e frouxos, irem se espessando e avolumando com o tempo. Será que era isso que o Dr. Duarte estava querendo dizer, que o que pode ser medido pode ser conhecido?
– A medição nos permite ver o que não é visível – prosseguiu ele. – A formação do cérebro nos dá a possibilidade de distinguir os criminosos incuráveis dos desviados.
– Desviados? – indagou Emília.
– Os ladrõezinhos à toa. Os pervertidos – disse seu sogro, juntando as pontas dos dedos de ambas as mãos. – São indivíduos de mente fraca. Têm remorsos depois de exibir um comportamento degenerado, mas são egoístas. Não querem abrir mão de prazeres particulares em nome do aperfeiçoamento da sociedade. No entanto, podem ser recuperados com disciplina e, às vezes, com medidas mais rigorosas: detenção, confinamento, injeções hormonais. Desculpe – disse ele de súbito, passando os dedos pelo cabelo que já rareava. – Isso não é conversa para damas.
– Estou gostando – retrucou a moça, feliz por poder conversar com alguém. O Dr. Duarte sorriu, mas não mostrava mais o brilho e o entusiasmo de antes. Ao fundo, o corrupião continuava a cantar.
– O que está achando de morar aqui? – perguntou seu sogro.
– Ah... – balbuciou ela. – É... exatamente o que eu queria.
– Ótimo.
Emília voltou a fitar a Menina Sereia. Um pozinho flutuava no fundo do vidro. Há quanto tempo ela estaria ali dentro? Ficaria assim para sempre, calada e enroscada, ou, aos poucos, começaria a se desmanchar, virando apenas um punhado de pó? Pensou em perguntar isso ao sogro, mas achou que era bobagem.
– Tem de admitir – disse o Dr. Duarte – que uma esposa é uma força motivadora para um homem. Enfim, Degas está se dedicando aos estudos. Dona Dulce queria que ele se casasse com uma moça do Recife. Ela diz que tem uma razão para o Cupido ter asas curtas – acrescentou ele, rindo. – Devo confessar que fiquei chocado quando recebi os telegramas de meu filho sobre a... a ligação de vocês. No início, achei que fosse mais uma de suas histórias. Mas é claro que eu queria que ele assumisse uma atitude honrada. E, depois de refletir um pouco sobre o assunto, passei a gostar da ideia. É evidente que não gostaria de vê-lo manchar a honra de uma moça honesta! – prosseguiu, enrubescendo. – O que quero lhe dizer é que fiquei aliviado ao vê-lo arranjar uma esposa. Uma boa moça do interior: é tudo de que ele precisava.
– Manchar? – repetiu Emília.
– É um modo de falar – retrucou o Dr. Duarte abanando a mão com um gesto impaciente. – Independentemente das circunstâncias, já era hora. Pouco importa que seja justo ou não, mas, à medida que um homem envelhece, ser solteiro vai se tornando uma desvantagem. Tem de admitir, Emília, que Degas pode ter se comportado mal com relação a você, mas reparou o erro cometido ao lhe dar o seu nome.
Seu sogro gostava de começar as frases com expressões como Você tem de admitir ou É evidente que, deixando os seus ouvintes praticamente sem escolha. Emília baixou a cabeça. Os seus ouvidos zumbiam, estava ofegante. Uma coisa era aquela gente de Taquaritinga achar que ela estava desonrada; outra, bem diferente, era os seus sogros pensarem a mesma coisa. Nunca perguntou a Degas o que ele dizia nos telegramas que enviava ao Recife. Deduziu que o rapaz lhe fazia justiça.
– Não há do que se envergonhar, minha querida! – disse o Dr. Duarte. – Essas coisas acontecem. Até dona Dulce vai acabar entendendo. As mães sempre se preocupam excessivamente com os filhos. Quando meu pai me mandou estudar medicina na Europa, minha mãe passou três meses chorando. Naquela época, ter instrução não rendia dinheiro, mas as famílias tradicionais sempre mandavam os filhos para o exterior; portanto, meu pai decidiu que, com o filho dele, não seria diferente. A minha mãe, pobre alma, adoeceu de tanta preocupação. Achava que cultura em excesso estragava os homens. Como se a cultura fosse açúcar e os homens, dentes! – O Dr. Duarte se calou. – Hoje em dia entendo melhor o que ela queria dizer com isso.
Ouviu-se uma leve batida à porta que dava para o pátio. Dona Dulce entrou no aposento.
– Ouvi o pássaro – disse ela, olhando para o marido e, depois, para Emília. – Ele parecia agitado, mas eu não podia me afastar da cozinha.
– Emília cuidou dele – retrucou o Dr. Duarte.
– Ótimo – observou dona Dulce, sorrindo. Tinha os dentes miúdos e as gengivas bem largas, como Degas. – Espero que não tenha se assustado com as quinquilharias do Dr. Duarte. Entre ciência e política, prefiro ter a primeira dentro de casa. É a menos repugnante das duas.
O marido bufou.
– Venha – disse a sogra, com uma vozinha estridente e estendendo a mão pálida para Emília. – Não deixe que ele a aborreça com essas conversas. O Dr. Duarte está sempre atrás de ouvidos disponíveis.
8
Emília não conseguiu dormir aquela noite. Ficou deitada ali, sentindo-se desconfortável entre os lençóis engomados do leito conjugal. À tarde, no escritório do Dr. Duarte, descobriu por que ninguém cuidava direito daqueles lençóis. Todos na casa dos Coelhos achavam que Degas a tinha desonrado antes do casamento; viam-na como uma mulher perdida. Talvez fosse por isso que dona Dulce não gostava dela.
Do outro lado do corredor, os discos em inglês de Degas bradavam: “Onde posso pegar o bonde? – Where can I find the trolley?”
Emília se levantou. Vestiu o roupão de linho e foi até o quarto de solteiro do marido. Delicadamente, bateu à porta. Como Degas não respondeu, a moça entrou. O quarto estava esfumaçado e era apinhado de coisas. Num dos cantos, ficava a vitrola. Ao contrário das que vira em Taquaritinga, aquela ali não tinha o tal tubo de cobre. O fonógrafo do seu marido era encaixado num móvel de madeira bem alto. Acima dele, prateleiras repletas de relíquias da infância: um fantoche de pau, com as cordas terrivelmente emaranhadas, um punhado de bichinhos miúdos, um trenzinho. Havia livros de direito espalhados por todo lado e, nos pés da cama de casal, um baú de viagem. Os seus trincos de cobre estavam descorados pelo tempo. Na tampa de couro, viam-se diversas etiquetas com emblemas de países. Degas estava sentado numa poltrona, junto da única janela do aposento, que dava para o pátio. Fumava um cigarro. Entre as baforadas, repetia as estranhas frases do disco. Quando viu Emília, parou no meio de uma delas.
– Está tudo bem? – indagou, desligando a vitrola.
– Não – respondeu a moça. – Não estou conseguindo dormir.
– Nem eu – retrucou ele, virando-se para a janela.
Emília fechou mais o decote do roupão. Não tirava os olhos dos pés descalços, dos dedos gordos. Lamentava ir interromper assim os estudos de Degas, mas as palavras do sogro continuavam a lhe doer.
– Quer fumar? – perguntou ele, voltando-se para dentro novamente.
– Não – respondeu Emília, embora tivesse curiosidade de experimentar um cigarro. – Dona Dulce diz que as damas não fumam.
Degas estalou a língua.
– Metade das senhoras do Recife fuma. Minha mãe sabe disso. Não há problema em ter um vício, Emília – acrescentou ele, tirando um cigarro bem enroladinho da cigarreira de prata. – Só não deixe que a peguem. Não é o vício, mas a descoberta dele que é perigosa aqui.
– Nesta casa? – indagou ela.
– Nesta cidade – respondeu ele, dando de ombros. – Na verdade, em qualquer lugar. – Tinha as pálpebras caídas, parecendo mais cansado do que dissera estar.
Emília pegou o cigarro. Aquele cilindro parecia leve e delicado entre os seus dedos. Lembrou-se das atrizes de pescoço comprido que via nas suas velhas revistas, das poses que faziam com o cigarro nas mãos, e sentiu uma onda de excitação. Quando Degas acendeu o isqueiro, a moça teve dificuldade em ficar imóvel. Puxou uma longa baforada. A fumaça fez sua garganta arder e seu nariz pinicar. Teve um violento acesso de tosse. Degas se aproximou.
– Não quero corrompê-la – disse ele, tentando lhe tirar o cigarro da mão.
Emília recuou, afastando-se dele.
– Não sou criança – respondeu, ainda tossindo e sentindo a garganta arranhar. Aquele ar protetor do marido a deixou irritada. Achou que ele só tinha lhe dado aquele cigarro para se divertir tomando-o de volta. Puxou outra baforada e, com esforço, conseguiu engolir a fumaça.
– Conversei com seu pai hoje – disse ela. – No escritório. Ele me falou dos telegramas que você lhes mandou. Os que eram sobre mim.
O rapaz arregalou os olhos. Enfiou o isqueiro de prata no bolso.
– Era o único jeito, Emília. Caso contrário, os meus pais jamais teriam concordado.
– Agora sei por que as empregadas ficam cochichando a meu respeito – prosseguiu ela, sentindo na boca um gosto a um só tempo doce e enfumaçado.
O cigarro que segurava nas mãos já tinha se consumido em parte, formando uma massa de cinza na ponta acesa. Mais que depressa, a moça deu outra baforada.
– Bobagem – retrucou Degas, baixando a voz. – Elas não sabem de nada. Minha mãe é discreta. Jamais deixaria o verdadeiro motivo vir à tona.
– Mas não é verdade.
Degas mordeu o interior da bochecha.
– Às vezes – retrucou ele –, temos de dizer às pessoas o que é necessário, não o que é verdade.
Por causa do cigarro, Emília sentiu uma leve tonteira. Apoiou-se no móvel da vitrola.
– É o meu nome que está desonrado, não o seu – retrucou a moça, baixinho. – Você saiu dessa história como um homem de honra, por ter se casado comigo apesar... – Os seus ouvidos zumbiam. Precisou se segurar com mais força no toca-discos. – Você nunca tomou nenhuma liberdade comigo, Degas. Eu não teria deixado. Quero que diga isso aos seus pais. Quero que eles fiquem sabendo. Para você, não vai fazer a menor diferença, já que estamos casados. Mas, para mim, vai.
Degas piscou. Recostou-se no outro lado do gabinete de madeira. Bem devagar, tocou a etiqueta metálica. Havia, ali, a figura de um cachorro, de orelha em pé, diante da concha acústica de um fonógrafo. Acima dele, a palavra Victrola, escrita em letras grandes e desenhadas.
– Ouvi dizer que a sua irmã se chamava assim – disse ele. – É um nome tão estranho...
Emília estava se sentindo enjoada. Tinha fumado demais. O cigarro ainda estava ali, quente na sua mão, com a brasa quase tocando em seus dedos.
– Era apelido – retrucou.
– Foi horrível o que aconteceu com ela – prosseguiu Degas, ignorando-a. – Simplesmente terrível. Qualquer um pensaria que, por causa do braço aleijado, os cangaceiros não a importunariam.
– Achei que você não sabia sobre minha irmã – disse Emília.
– É adorável vê-la pensar assim – observou ele, esboçando um ligeiro sorriso. – Isso só prova como você é pura, como os mexericos não a atingem. Felipe me contou, mas todos falam a respeito. Até as empregadas do coronel. Nunca na sua frente, claro.
Circulando o móvel, Degas se aproximou e pôs as mãos nos ombros da mulher.
– Todo mundo acredita que esse silêncio é consideração – acrescentou ele, com brandura. – Mas, na verdade, é discriminação. As pessoas que são objeto de fofocas são efetivamente objeto de silêncio. Você sabe como é isso. E eu também. Foi o que me aproximou de você, Emília. Queria ajudá-la a sair daquela situação indigna.
– Que ela descanse em paz – balbuciou a moça, com a voz embargada, fitando o toca-discos.
– Não fique chateada – disse Degas, abraçando-a com força. – Não contarei a ninguém o que aconteceu com sua irmã. Meu pai é perverso com relação a essas coisas. Ele se intitula uma autoridade em termos de criminosos. Na verdade, não tem noção do que está dizendo. Tudo o que faz é acrescentar uma pitada de matemática às conclusões a que chega para que elas pareçam coisa de especialista.
Ele a soltou. Quando voltou a falar, foi num tom de voz mais baixo.
– Temos de ser discretos com os seus problemas familiares, Emília. O que fere a sua reputação fere a minha, e vice-versa. É como a história que contei aos meus pais: verdade ou não, não nos faria nenhum bem, nem a você nem a mim, que isso se espalhasse. Essa é a nobreza do casamento: temos o compromisso de proteger o outro dos falatórios.
Emília assentiu, distraída. Parte dela se sentia estranhamente grata a Degas, ao passo que a outra queria voltar para o quarto e trancar a porta.
– Você não parece nada bem – disse ele, em tom delicado. – Vá se deitar – acrescentou, tirando o toco de cigarro da sua mão. – É fácil exagerar, Emília. Você ainda não conhece os seus limites, mas vai aprender.
9
No dia seguinte, dona Dulce veio ao encontro de Emília no pátio.
– Já descansou bastante – disse-lhe a sogra, tirando o avental engomado. – Agora, temos que trabalhar.
Levou a moça para uma sala grande e cheia de espelhos no térreo. O lugar era escuro e quente. Junto às paredes, estavam empilhadas cadeiras de recepção. Dona Dulce trancou a porta que dava para o corredor e manteve fechadas as cortinas que se abriam para o quintal.
– Não é bom mantê-la trancada em casa – disse ela. – As pessoas vão pensar que estamos tentando escondê-la e vão começar a inventar todo tipo de motivos para justificar essa atitude.
Perto da parede espelhada, havia um bastão comprido e fino. Dona Dulce o pegou.
– Ande – ordenou.
Aqueles espelhos todos davam a impressão de que havia ali fileiras e mais fileiras de donas Dulce de cabelo cor de milho, todas severas e mandonas, com os olhos amarelados pregados em Emília.
– Ande – repetiu ela.
Emília se afastou da sogra, que continuou a observá-la pelos espelhos.
– Não fique assim toda dura – exclamou ela.
A moça apressou o passo.
– Não! – gritou dona Dulce. – Não saia correndo como se fosse um cavalo. E não balance os braços. Você não está espantando moscas! Vá devagar. Não se apresse. Isso indica nervosismo.
De repente, sua sogra surgiu ao seu lado e cutucou sua barriga com o bastão.
– Barriga para dentro. Foi assim que as freiras me ensinaram. Não é fácil, mas tem de ser desse jeito. Agradeça por eu estar disposta a lhe ensinar tudo, senão jamais teria condições de sair de casa. Vai ser mais simples moldar os seus modos, já que nunca lhe ensinaram nada disso antes. Por esse prisma, prefiro que seja você a uma dessas moças obstinadas aqui da capital, que acham que podem simplesmente descartar as boas maneiras. Barriga para dentro!
Dona Dulce cutucou os ombros, as costas e o peito da nora. Parecia até que, quando ela cutucava uma dessas partes, as outras saltavam naturalmente. Mesmo assim, repetiu a tal frase inúmeras vezes, como se entoasse um cântico. Depois, tirou um cabo de vassoura de detrás das cadeiras empilhadas. Pôs o pau na nuca da moça e passou os seus braços por cima dele. O peito de Emília se projetou para a frente.
– A nossa postura revela a nossa natureza – disse dona Dulce. – As pessoas que andam relaxadas são preguiçosas: não têm autodisciplina suficiente para se manter de pé. Agora, ande.
Passaram várias tardes naquela sala quente e cheia de espelhos. Sempre que Emília saía dali, tinha o vestido úmido, o cabelo colado à testa, os pés e o pescoço dormentes. Até dona Dulce exibia um leve rubor no rosto pálido. De noitinha, a moça ficava olhando os ambulantes pela janela do seu quarto. Reparava como os homens carregavam todo o seu estoque – espanadores de penas e baldes de alumínio, vassouras, garrafas e jarras de barro – pendurado numa vara que levavam nos ombros, perfeitamente equilibrada, como se fosse uma balança. Depois que Emília aprendeu a postura correta, dona Dulce descobriu uma das cadeiras e mandou que ela repetisse o ritual de se sentar e ajeitar a saia. A moça se levantou e se sentou até ficar com os joelhos doendo. Enquanto isso, com o bastão sempre à mão, a sogra lhe ensinava outras lições mais sutis: nunca se sente ao lado de um homem que não é o seu marido; nunca demonstre desconforto ou desagrado; nunca apresente as pessoas umas às outras, a não ser quando for a anfitriã; nunca cumprimente ninguém com um aperto de mão.
A cada regra, a voz de dona Dulce ia ficando mais baixa e as pancadas que dava com o bastão, mais fortes. Parecia irritar-se por ter de dizer essas coisas em voz alta, como se, com isso, elas perdessem um pouco do seu valor. Se Emília pedia alguma explicação, a sogra retrucava secamente:
– Quem fala muito revela cada cantinho da cabeça oca – dizia ela. – É melhor ficar calada até que alguém lhe faça uma pergunta qualquer.
Regras são regras, como dizia dona Dulce. Se Emília tivesse nascido naquele mundo, se tivesse recebido uma educação adequada, não haveria necessidade de ficar repetindo essas coisas. Nada disso seria simplificado pelas palavras, soando como aquelas recomendações vulgares que se encontram nas revistas de moda. Elas a teriam impregnado, ao longo de anos e anos de observação e de rotina, a tal ponto que não existiria outra maneira possível de ser.
Lá pelo fim do verão, havia cada vez mais regras a serem decoradas. Depois de cada aula, Emília se sentia exausta e abalada. Eram tantos os erros que podia cometer, tantas as vulgaridades em que podia incorrer sem se dar conta... Ainda assim, estava decidida a se tornar uma mulher refinada. Acreditava que, se aprendesse as regras do seu novo mundo, se as incorporasse, a nódoa que manchava o seu caráter desapareceria. Dona Dulce passaria a respeitá-la. Degas a trataria como sua esposa e não como uma pobre moça do interior que ele havia resgatado. Iria com ela a almoços, ao cinema e, talvez, até ao Rio de Janeiro, em viagem de lua de mel, como tinha prometido. E nessa viagem, Degas a tocaria como um marido deve tocar a esposa. Emília agora sentava mais ereta, andava melhor. Na hora das refeições, não se atrapalhava com todos aqueles apetrechos. Mantinha as mãos longe do rosto. Limpava os cantos da boca com o guardanapo em vez de esfregá-lo nos lábios. Continuava tendo a maior dificuldade em identificar os talheres que dona Dulce gostava de dispor de forma elaborada ao lado e acima dos pratos. Nos momentos de dúvida, a moça imaginava a sogra às suas costas, segurando-lhe as mãos como se ela fosse um fantoche e dizendo: “Não se apresse. Não segure os talheres como se fossem uma pá. Ataque a comida com vigor, mas com o mínimo de ferocidade possível. E, por tudo o que é mais sagrado, não empurre o prato quando tiver terminado.”
Se olhasse para o outro lado da mesa e visse as sobrancelhas erguidas de dona Dulce, da cor da palha do milho, demonstrando reprovação, não se aborrecia, nem parava de comer. Tudo o que fazia era fitar a dobra que havia no meio da toalha de linho e se lembrar do que a sogra tinha lhe dito no começo daquelas aulas: que não havia nenhum mistério no refinamento, a estrada que leva à classe era tão reta e sem desvios quanto aquela marca no meio da toalha.
10
Como recompensa pelos seus progressos, dona Dulce levou Emília para comprar tecido e, depois, foram ao ateliê de uma costureira na rua da Imperatriz. A moça não conseguiu dormir na véspera do compromisso, lembrando-se dos modelos que vira na Fon Fon: vestidos em forma de tubo, com saias que iam até a canela e um leve drapeado no decote. Como lamentava ter deixado as suas revistas em Taquaritinga; sua sogra não assinava a Fon Fon.
O ateliê da costureira tinha uma sala onde ficavam expostos tecidos e modelos, e outra para as clientes experimentarem as roupas. Empilhadas junto às paredes da primeira, havia peças e mais peças de tecido bem enroladinhas. Eram sedas estampadas, tafetás lustrosos, crepes translúcidos. Emília achou que ia desmaiar de tanta empolgação. Finalmente ia estar em cima do tamborete, e não ser aquela que segura a fita métrica. Ia ficar parada diante do espelho, mandando diminuir aqui, subir a bainha ali. Mas toda a sua empolgação logo desapareceu. Dona Dulce não dava nenhum valor aos chapéus clochê, aos vestidos elegantes ou aos sapatos de salto alto com fivelas delicadas. Escolheu linhos “clássicos”, todos em tons neutros e sem graça, e determinou que a costureira fizesse os modelos mais simples de vestidos que havia na vitrine: ligeiramente decotados, de cintura baixa, com uma saia reta que deixava os tornozelos à mostra, mas cobria inteiramente as canelas.
A modista assentia em sinal de aprovação e se queixou da moda que estava chegando do Rio de Janeiro. De pé no tamborete, Emília prestou atenção a tudo o que as duas elogiavam e criticavam. Achava que todas as damas da cidade usavam as grandes novidades e os modelos mais ousados. Agora, via que existia uma diferença entre o que era novo e o que era aceitável. Se uma senhora adotasse o estilo melindrosa de forma exagerada, com saias muito curtas e vestidos colados ao corpo, logo era taxada de moralmente liberal ou, o que era pior, de sufragista. Mas quem se vestisse de modo excessivamente tradicional, com saias longas e cintura bem marcada, também seria alvo de falatórios por andar fora de moda. Perto daqueles rolos de tecidos de várias cores, a moça percebeu que uma mulher refinada era o oposto da casa dos Coelhos: no exterior, uma camada de modernidade, mas, por dentro, antiquada.
Da cabine, onde foi vestir o costume de linho de viagem, podia ouvir o barulho tão familiar das máquinas de costura. Saindo dali, não voltou à sala da frente; preferiu ir ao encontro daquele ruído. No fim de um corredor estreito, o som se tornou mais forte. Havia uma porta de madeira. Emília espiou lá para dentro. Um cheiro de guardado a fez recuar. O aposento era quente e mal-iluminado. Três fileiras de Singers a pedal se amontoavam num espaço bem reduzido. Ali dentro, umas mocinhas, recurvadas sobre as máquinas, pedalavam em ritmo febril, fazendo o tecido deslizar sob as agulhas. Algumas usavam lenço na cabeça e, na testa, o pano estava molhado de suor. Uma ergueu os olhos para ela, mas logo retomou o trabalho.
– Você errou de porta – disse dona Dulce bem alto, e sua voz suplantou o barulho das máquinas.
Estava ao lado da nora.
– Essas moças também são modistas? – indagou Emília.
– Não, minha querida – respondeu sua sogra, afastando-a dali. – São costureiras. A modista desenha. As costureiras só montam as peças. Pensei que soubesse.
Emília se atrapalhou toda com as luvas. Havia esquecido de calçá-las novamente e tinha plena consciência da presença das velhas calosidades nas pontas dos seus dedos de costureira. A pele já se tornara mais macia desde que deixara Taquaritinga; na casa dos Coelhos, tudo o que fazia era bordar, ouvir música, passear pelo jardim e ter aulas de etiqueta com dona Dulce. Mas aqueles calos, marcas de sua vida anterior, permaneciam em suas mãos. As duas seguiram pelo corredor. Pararam nos fundos da sala principal da loja, onde a modista guardava as peças de fustão com trama de quadradinhos ou casa de abelha, todos em tons de rosa e azul.
– Não são lindos? – perguntou sua sogra apontando para uma daquelas peças. – Vamos precisar disso em breve, espero eu. Já que não pudemos organizar um casamento, pelo menos vocês hão de me deixar organizar um batizado.
Emília assentiu, distraída. Não conseguia tirar da cabeça a imagem daquela salinha de costura abafada. Se tivesse vindo sozinha para a cidade, como planejava, talvez se visse agora encerrada num lugar assim.
– As cerimônias são importantes, Emília – prosseguiu dona Dulce. – No interior, as pessoas não são tolhidas, digamos assim, pelas mesmas convenções que temos de respeitar na cidade. Foi uma pena você ter de passar a noite de núpcias num trem. É o que sempre digo ao pessoal que trabalha lá em casa – acrescentou ela, fitando a nora, perscrutando o seu rosto com aqueles olhos cor de âmbar. – Lembra do que lhe disse a respeito das criadas? Elas falam demais. Não conseguem evitar. É da sua natureza. Como não têm nada a dizer sobre a própria vida, falam da nossa. E têm uma verdadeira rede que se estende pela cidade toda. Se, por exemplo, um homem recém-casado resolve ir dormir em seu quarto de solteiro, sempre que uma delas faz as camas fica se perguntando se ele não estaria visitando a esposa no outro quarto. Às vezes, comentam o fato com a patroa. Se não tomarmos cuidado, elas vão contar isso às outras. E, em breve, Recife inteira vai estar sabendo dessa história.
Emília sentiu um nó na garganta. Sempre achou que vários pares de olhos a espreitavam na casa dos Coelhos. Tentou se afastar daqueles rolos de tecido, mas a sogra a deteve. Empertigou-se toda, assumindo um ar rígido e formal, como se estivesse lidando com um membro da criadagem.
– Você precisa tratar o seu marido como um convidado – disse ela. – Uma boa anfitriã aprende a adivinhar as expectativas dos convidados, e trata de corresponder a elas.
– Mas Degas não tem nenhuma expectativa – disse a moça, com a voz embargada. – Não consigo agradá-lo.
Mais uma vez, dona Dulce pegou o fustão rosado entre os dedos.
– Nenhum homem sabe exatamente o que quer. Especialmente Degas. Ele é muito suscetível às más influências, como aquele tal de Felipe. Mas, agora, você é sua esposa e precisa influenciá-lo. Faz parte das tarefas de uma esposa treinar o marido para ter preferências. Com isso, ela pode lisonjeá-lo, correspondendo a tais expectativas. É assim que uma esposa se torna indispensável. Torna-se mais que uma simples falta de juízo momentânea.
A modista interrompeu a conversa, chamando-as de volta à sala de provas. Dona Dulce abriu um largo sorriso para a mulher, exibindo todos aqueles dentes miúdos e imaculados.
11
Três semanas depois da ida ao ateliê, Emília recebeu a sua coleção de vestidos de linho bege, marrom e cinza. Dona Dulce também havia supervisionado a compra de dois pares de sapatinhos de amarrar muito elegantes, de salto baixo, um preto e um marrom. Encomendou para a nora uma sombrinha de seda preta e um chapéu de abas largas, com várias fitas de gorgorão, para combinar com os vestidos. A moça chegou a pensar em esquecer aquele chapéu horrível no quintal, ao alcance dos jabutis. Pensou também em irritar a passadeira de pele de ameixa para que, na hora de passar os seus vestidos, a mulher fosse bem descuidada com as fagulhas que saíam do ferro. Mas não conseguia fazer isso – os vestidos eram caros, o chapéu de palha tinha um acabamento impecável e o couro dos sapatos era o mais macio que já tinha usado. Se não podia ter roupas da moda, ao menos tinha coisas finas.
Naquele dia, em vez de levar a nora para a sala cheia de espelhos onde transcorriam as aulas da tarde, dona Dulce mandou que Emília pusesse um dos vestidos novos e prendesse o cabelo.
– Temos de pôr em prática as lições que lhe dei – disse ela.
O calor da tarde já tinha amainado quando as duas chegaram à praça do Derby. Uma brisa marítima refrescava o ar. Os bondes não tocavam as suas sinetas. Os poucos vendedores ambulantes que cercavam o parque já tinham vendido o grosso de seus legumes ou vassouras, e não apregoavam os seus produtos. Os fios pretos das linhas dos bondes recortavam o céu, parecendo as camas de gato que Emília e Luzia faziam com um barbante entre os dedos. Residências, maiores e mais bonitas que a casa dos Coelhos, contornavam toda a praça. E, na outra extremidade, ficava o imenso quartel da polícia militar, com a sua cúpula branca. Emília e a sogra começaram o passeio pelas alamedas sinuosas do parque.
Havia mais mulheres, umas jovens, outras velhas, todas bem-vestidas, caminhando juntas por ali ou sentadas discretamente nos bancos de ferro forjado. Quando dona Dulce e Emília passavam, sorriam ou cumprimentavam educadamente com um aceno de cabeça. Então, como se houvesse um acordo tácito entre aquelas mulheres, todas ficavam caladas até saírem do campo de visão das outras. Só depois se aproximavam um pouco mais da companheira e falavam em voz baixa.
Dona Dulce também obedecia a esse código, puxando Emília para perto de si e explicando-lhe baixinho quem eram aquelas pessoas e se faziam parte de uma família velha ou de uma nova. As mulheres de famílias velhas tinham lábios finos e gosto apurado. Os seus vestidos tinham golas com bordados intricados, fechadas rente ao pescoço por broches de pérolas. Os chapéus eram clochês de aba curta, com uma única pluma bem espessa presa a um dos lados. Quando viam dona Dulce e Emília, faziam um aceno de cabeça, mas raramente sorriam. Já as mulheres das famílias novas não tinham a mesma elegância imperturbável das outras. Usavam vestidos mais curtos, com mais joias, e tinham várias plumas no chapéu. Algumas estavam até com umas meias de seda cor de carne que faziam as suas canelas parecerem nuas. Também olhavam para as duas e, em geral, sorriam e paravam para conversar, falando em voz alta e soltando sonoras gargalhadas.
– Seja bem-vinda – disse Teresa Raposo, a matriarca de uma das famílias novas, uma mulher de cabelo bem escuro. Tentou arrastar Emília para um lado, mas dona Dulce segurou firme o braço da nora. Frustrada, dona Teresa baixou a voz e deu uma piscadela. – A cidade está precisando de sangue novo.
– Que horror! – murmurou dona Dulce assim que se afastaram. – Parece até uma horda de vampiros. Como se o velho sangue não fosse bom o bastante!
Emília ficou calada. Os sapatos novos estavam machucando os seus pés. A cabeça chegava a latejar de medo de cometer um erro qualquer: fazer uma pose mais relaxada, andar muito depressa ou parecer irrequieta na hora errada. Dona Dulce foi se encaminhando para a charrete a passos rápidos. Já era o suficiente para um dia só. Continuava alta, rígida, mandona, mas parecera antiquada e tensa junto das mulheres das famílias novas, nervosa e reverente diante das tradicionais. Quando entraram pelo portão da casa dos Coelhos, ela soltou um suspiro profundo, e Emília não saberia dizer se era de alívio ou de cansaço.
Depois disso, iam à praça do Derby uma vez por semana para fazer a sua “excursão”, como dizia dona Dulce. Aos poucos, graças às regras sussurradas da sogra, às histórias do sogro e às suas próprias observações, a cidade e suas divisões começaram a adquirir, para Emília, contornos mais nítidos. Todos os que tinham alguma importância eram tradicionais ou novos. O resto – gente de pele escura ou clara, educada ou ignorante, varredor de rua ou professor universitário – fazia parte de uma horda nebulosa sem dinheiro ou nome de família. Os repórteres dos jornais, as costureiras, os vendedores de cestos, os motorneiros dos bondes, até mesmo os filhos de fazendeiros e de coronéis se incluíam nesse grupo. Ou não tinham um nome, ou eram pobres, ou ambas as coisas, e viviam, rezavam e sofriam como todos os que não são ninguém, invisíveis.
Muitas das famílias tradicionais tinham perdido a sua fortuna, ou, pelo menos, boa parte dela. Mas mantinham o seu prestígio. Os seus ancestrais eram os portugueses ou os holandeses que derrubaram as árvores da Zona da Mata para plantar cana-de-açúcar ou pau-brasil, para extrair tintura vermelha ou madeira de qualidade para violinos. Eram os Feijós, os Sampaios, os Cavalcantis, os Carvalhos, os Coimbras, os Furtados, os Van der Leys. Possuíam vastas extensões de terras e mandavam os filhos estudarem no Recife e, depois, na Europa. Mas o preço do açúcar caiu, a procura por tintura se reduziu e as famílias preferiram morar na capital em vez de continuar nas fazendas. Mesmo assim, mantinham a elegância, a influência política e, o que era mais importante, o bom nome.
As famílias novas não eram novas coisa nenhuma. Pelo menos na cabeça de Emília. A maioria vivia no Recife havia séculos, desde que os holandeses invadiram a região e permitiram que todos os grupos – judeus, ciganos e traficantes de índios – realizassem os seus negócios livremente, transformando a cidade no que os portugueses chamavam de Sodoma e Gomorra. Mas, como essas famílias não podiam traçar sua genealogia com a mesma facilidade das tradicionais, o seu passado tinha a eventual nódoa dos barcos mercantes, dos peixeiros e dos usurários. As famílias novas não estavam interessadas em terras, mas em negócios. Eram os Raposos – um clã de cabelos bem pretos, cujas mulheres tinham o leve sombreado de um bigode sobre o lábio superior e cujos homens eram atarracados e brigões. Eram os proprietários do moinho têxtil Macaxeira, um estabelecimento muitíssimo bem-sucedido. Os Lobos eram donos do Diário de Pernambuco. Os homens da família eram inteligentes e encantadores; as mulheres, enérgicas. Todos tinham em comum o nariz grande e adunco. Os Albuquerques, uma gente baixinha e bronzeada, conhecidos por sua calma e sua paciência, eram proprietários da Companhia Pesqueira Poseidon. E os Lundgrens, donos dos moinhos têxteis Torre e Tacaruna, eram altos, de rosto comprido, em geral espicaçados por seu humor aborrecido, mas elogiados por suas lindas filhas.
Com o passar das semanas, Emília pôde dar mais passeios na praça do Derby e acompanhar os Coelhos à missa de domingo. Eles frequentavam uma igreja recém-construída no bairro de Madalena, de paredes brancas e bancos acolchoados. As famílias tradicionais iam à antiga catedral, no centro da cidade, que tinha o teto abobadado e onde as missas eram mais longas. Entre os diversos clãs, havia muitas diferenças que ninguém jamais mencionava. Preferiam jornais distintos, apoiavam políticos distintos, moravam em bairros distintos. Era comum os homens, tanto os novos quanto os tradicionais, fazerem negócios juntos. O Dr. Duarte importava máquinas para uma das molassas do moinho dos Feijós. A fábrica dos Lundgrens fazia sacos de aniagem para o açúcar colhido pelos Coimbras. Às vezes, o Dr. Duarte almoçava com um senhor de uma família tradicional no seu clube e não raro Emília via homens de ambos os grupos parados à sombra das árvores da praça do Derby, fumando charutos e dando tapinhas nas costas um do outro. Esses mesmos indivíduos, porém, jamais se convidariam para almoçar ou tomar um café na própria casa. As suas esposas não permitiriam tal coisa.
Aparentemente, as mulheres do Recife tinham a memória maior e o coração mais duro. Havia dois clubes femininos de prestígio na cidade: a Sociedade Princesa Isabel e a Sociedade Auxiliadora Feminina. As frequentadoras do Princesa Isabel eram descendentes das famílias tradicionais e acreditavam que estavam ajudando a sociedade como um todo ao ajudarem a Igreja – fundando novas capelas no interior e realizando extensos projetos de restauração na cidade. Já as integrantes da Sociedade Auxiliadora Feminina, criação das famílias novas, realizavam campanhas para coletar alimentos, maratonas de tricô e jantares beneficentes para ajudar diretamente os pobres. As famílias velhas rotulavam a Auxiliadora de vulgar, ao passo que as novas taxavam a Princesa Isabel de inútil. Em geral, umas e outras se mantinham a distância, exceto na praça do Derby. O local, de início ponto de encontro das famílias tradicionais, foi pouco a pouco sendo reivindicado pelas novas. Como ninguém queria abrir mão dos passeios da tarde por aqueles jardins, ambos os grupos caminhavam lado a lado pelas alamedas de paralelepípedo que percorriam o parque. E Emília andava entre elas. Aquilo a deixava nervosa e sem jeito. Não sabia quando devia sorrir ou limitar-se a um aceno de cabeça. Ficou aborrecida ao ver que as mulheres das famílias tradicionais começaram a ignorá-la. Algumas chegavam mesmo a rir quando a moça passava acompanhada da sogra.
– Isso é bom sinal – disse dona Dulce quando voltaram para casa. A sua voz soou tensa e cansada. Cada uma daquelas saídas parecia deixá-la extenuada. – Se um grupo a detesta, o outro certamente a adotará.
Naquela noite, a jovem criada veio interromper o jantar. Trazia uma bandeja com um envelope.
– Venha cá – esbravejou dona Dulce, dirigindo-se à moça.
– É para a Sra. Emília – disse a criada.
O envelope era de um papel grosso, cor de manteiga recém-batida. Na frente, escrito em tinta azul, vinha o seu nome e, no verso, um timbre onde se lia:
Baronesa Margarida Carvalho Pinto Lapa.
– Ela é baronesa por casamento, não por sangue – observou dona Dulce.