Entre irmãs
Capítulo 6
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Luzia torceu o paninho. A água da bacia estava marrom. Teria de ir esquentar um pouco mais, pois ainda nem tinha lavado o cabelo do Carcará. O Dr. Eronildes se afastou da cama. Estava usando botas de cano alto, que lhe batiam nos joelhos, como as de um coronel.
– Esse Carcará é famoso. Assino A Tarde, o jornal da Bahia, e o Diário de Pernambuco. Eles chegam de barca. Os dois publicaram alguma coisa a respeito dele recentemente. Agora, os meus empregados vieram me dizer que houve uma escaramuça em São Tomé, lá nas terras do coronel Clóvis. Parece que há soldados atrás dele. De você também?
Luzia assentiu. O Dr. Eronildes ficou brincando com uma linha solta do bolso de suas calças.
– Não se preocupe – disse o médico. – Agora, vocês estão na Bahia. Não quero tropas pernambucanas fuçando por aqui. Os nossos governadores não se dão, sabe? O daqui é fã de Vargas.
Voltou os olhos para o Carcará e pousou a mão branca na sua garganta e, depois, na sua testa.
– Está com febre. Mas teve sorte: a bala não atravessou de um lado a outro. Esses tiros abrem um buraco pequeno, mas vão rasgando tudo o que encontram quando saem. Ele podia ter perdido o membro. Temos de manter o ferimento bem limpo. Vou pedir a Honorata, minha criada, que lhe dê chá de quixabeira de hora em hora, para debelar a infecção. – Voltou a fitar Luzia. Os seus olhos grandes se detiveram por um instante no cabelo molhado da moça e no vestido que ela usava. – Também vou pedir a Honorata – acrescentou, pigarreando – que ponha mais um lugar à mesa para o almoço. É raro termos visitas por aqui. Vou gostar de ter companhia.
Antes que Luzia pudesse fazer qualquer objeção, o médico saiu porta afora, com as botas ressoando no assoalho de madeira.
10
Para o almoço, a velha criada preparou um surubim fresquinho, com aquelas nadadeiras pontudas e o corpo listrado como o de um gato-do-mato. Luzia jamais havia comido um peixe fresco, só o bacalhau seco na época da Páscoa. Também não estava habituada a usar pratos. Na casa de tia Sofia, sempre comiam feijão e fubá em tigelas. Os pratos eram rasos demais, lisos demais. Ficava difícil pegar qualquer coisa que se pusesse ali. A moça tinha esquecido de trazer a colher de prata do Carcará e ficou olhando atentamente aquela massa branca fumegante que haviam posto no seu prato. Até a farinha de mandioca torrada e o feijão mulatinho lhe pareciam sinistros. O Dr. Eronildes a fitava, esperando, para só começar a almoçar depois que a sua hóspede tivesse provado a comida. A moça pegou o garfo. Espetou-o no peixe, mas a carne estava escorregadia por causa da manteiga e não ficava presa aos dentes do talher. Comer com um cavalheiro era irritante. Nunca tinha estado naquela situação e perguntava-se por que ele a teria convidado. Estava claro que não era uma dama. Devia estar na cozinha, com a empregada, ou sentada à cabeceira do Carcará, esperando que ele acordasse. Ouviu a voz de Emília, soando clara e orgulhosa em sua mente: o médico era gentil e educado, e Luzia devia ser grata por aquele gesto. A moça arrastou os pés no chão, como se tentasse afugentar a presença da irmã. Talvez ele fosse delicado, mas ela preferia estar na cozinha enfumaçada que acuada ali, atrás daquela mesa comprida, coberta com uma toalha de linho.
– Não gosta de surubim? – indagou o Dr. Eronildes.
– Queria uma tigela – retrucou ela, contraindo os lábios.
Os meses passados com os cangaceiros tinham destruído os seus modos. Luzia nem se lembrou de dizer “por favor” ou “obrigada” e, quando pensou nisso, era tarde demais: o Dr. Eronildes já tinha pedido à criada que trocasse o seu prato por uma tigela.
– Espero que não se importe com a minha observação, mas você tem dentes incrivelmente saudáveis para uma mulher do campo – disse ele. – O que faz para eles não se estragarem?
– É o juá – respondeu a moça. – Eu masco a casca do juá.
O médico arregalou os olhos. Tirou do bolso do paletó um lápis minúsculo e um bloquinho encadernado em couro e começou a tomar notas.
– Juá! Maravilha! – exclamou ele. – Preciso descobrir o nome científico dessa planta – acrescentou, erguendo os olhos das anotações. – Estou tentando avaliar as propriedades medicinais da flora da caatinga, sabe? Minha mãe insiste em dizer que não há nada que preste por aqui, mas onde ela vê deserto, eu vejo comércio.
Luzia assentiu. Os cangaceiros tinham lhe ensinado a usar o juá. Lembrou-se de Ponta Fina, Baiano, Inteligente e Canjica. Será que estavam feridos? Será que tinham chegado ao ponto de encontro? Se já estivessem lá, ficariam esperando pelo Carcará, mas não para sempre.
– Em quanto tempo ele vai poder voltar a andar? – perguntou.
O Dr. Eronildes pestanejou. Os seus olhos eram ampliados pelas lentes e os cílios, escuros e espessos.
– Ah! – exclamou ele, suspirando. – Está se referindo ao nosso paciente. Ele teve sorte. A bala perfurou músculos, mas não ossos. O tiro penetrou na parte mais carnuda da perna. Mesmo assim, só deve se levantar e poder andar daqui a várias semanas, não antes.
– Tenho de ir dar a notícia aos homens dele – disse Luzia.
– Só vai poder fazer isso depois que ele se recuperar – observou o médico, ajeitando os óculos.
– Eles não vão esperar tanto tempo – retrucou ela. – Vão vir à sua procura.
– Isso eu não posso permitir – disse Eronildes. – Prefiro não ter o bando dele por aqui.
– Você o salvou. Não lhe farão mal.
– Não estou com medo – atalhou ele, enfiando o lápis no bloquinho e fechando-o. – Há três anos, sou vizinho de um coronel que jurou me castrar, me marcar com ferro, me mandar de volta a Salvador dentro de um caixão. Não tenho medo de um coronel e por certo também não tenho medo de uns poucos cangaceiros!
Contraiu os lábios e soltou o ar ruidosamente pelo nariz. A sua pele ficou com umas manchas vermelhas, como se ele tivesse encostado numa moita de urtigas. Enfiou duas garfadas consideráveis na boca.
– Desculpe – disse Luzia. – Você foi muito bondoso. Não acho que tenha medo. Se os homens vierem aqui, vão se comportar bem. Vão ficar quietos. Só precisam saber que ele está se recuperando. – Calou-se por um instante e pensou nos santos: como apreciavam um presente, um favor ou um sacrifício em troca da sua bondade. Talvez os homens não fossem diferentes. – Eles podem até ajudá-lo. Na sua rixa com esse tal coronel. Podem dar um jeito para que ele não volte a incomodá-lo.
Eronildes pousou o garfo.
– Não quero esse tipo de ajuda – disse ele. – Quando cheguei aqui, decidi que daria o bom exemplo. Os meus empregados achavam que eu era um idiota porque não fazia ameaças nem batia neles. Por essas bandas, a única linguagem que se conhece é a violência. Todos têm de ser cabra-macho. Mas não pretendo aceitar isso. Veja bem, Srta. Luzia, meus problemas com meu vizinho coronel começaram porque, ao contrário dele, pago um salário justo aos que trabalham para mim. Por isso, depois da hesitação e das zombarias iniciais, o pessoal daqui preferiu trabalhar para mim. Hoje em dia, tenho os seus melhores vaqueiros a meu serviço. E os seus melhores lavradores. Todos escaparam das suas terras. É claro que o coronel matou alguns dos que se bandearam para o meu lado. Mas isso não impediu que os outros fizessem a mesma coisa. O que ele e os seus cangaceiros não entendem é que o comércio será o grande libertador. É o comércio que vai destituí-los do seu poder, mais do que qualquer arma. Portanto, não preciso dos seus arruaceiros por aqui, criando problemas.
– Eles não são arruaceiros – observou Luzia. – E vão vir, queira o senhor ou não.
– Pois que venham, então! – bradou o médico, dando um murro na mesa com aquela mão branca. Os copos de água balançaram, respingando parte do seu conteúdo. – Por mim, quero mais é que carreguem o seu chefe para longe daqui!
Passou a mão no copo e tomou, de um só gole, o líquido cor de âmbar que havia ali dentro. Luzia ficou calada. Se Emília estivesse ali, teria lhe dado um bom chute por baixo da mesa. O médico suspirou e se encolheu na cadeira. Com a mão trêmula, ajeitou os óculos.
– Perdoe o meu rompante – disse ele. – Não gosto de perder a calma. Não tenho nada contra os seus cangaceiros. Acho até que os respeitaria se não saíssem por aí roubando ninharias.
– Eles roubam por necessidade – retrucou Luzia, com os punhos cerrados, o rosto afogueado. Sabia que era mentira, mas não podia desconsiderar a possibilidade de o Carcará acordar e ouvir a conversa lá do seu quartinho. O que ele diria se ela não o defendesse?
Eronildes riu. Tinha os dentes grandes e manchados, como grãos de milho descorados.
– Necessidade! – repetiu ele, rindo. – Aqueles anéis de ouro que eu vi eram uma necessidade? E aqueles cordões? Que desperdício – prosseguiu o médico, balançando a cabeça. – Que enorme desperdício. Os homens que se rebelam são ladrões e o resto é guiado pelos coronéis, como bichos na coleira. Os nordestinos nunca vão ser homens modernos até que seja possível educar todos eles. Aposto que aquele homem ali é inteligente – acrescentou ele, apontando para a porta da cozinha. – Só pode ser, para conseguir viver tanto tempo assim no meio do mato. Se tivesse tido uma educação adequada, não estaria na enrascada em que está agora.
– Ele sabe ler – disse Luzia.
– Isso não faz de alguém uma pessoa educada – retrucou Eronildes. – Um homem deve refletir e não sacar da faca. Deve antever as consequências dos seus atos. Deve esquecer as superstições e as crenças. Deve compreender que não somos tutelados por uma divindade, mas sim cidadãos de um Estado, de uma nação.
Luzia não tirava os olhos do prato. Algumas das palavras de Eronildes a deixavam confusa. Outras, enfurecida. Ficou remexendo o peixe de um lado para outro dentro da tigela. Deixe de ser matuta, ralharia Emília se estivesse presente. Acene com a cabeça. Seja educada. Mas a irmã não estava ali e Luzia não conseguiu se conter.
– Também acho que as pessoas precisam de instrução. Um padre me ensinou a ler, a escrever, a decifrar os mapas e a fazer contas. Fico feliz por isso. Mas, tendo instrução, as pessoas passam a querer ser alguém na vida, e por aqui não há outra opção além de ser criada, vaqueiro ou cangaceiro. Quem quer ser uma dessas coisas? Tendo instrução, todos iam querer ir para a capital.
– Não muitos – retrucou Eronildes. – Salvador fica longe daqui. Recife também. E são mundos inteiramente diferentes. Por lá não há cabras, nem caatinga. Todas as capitais ficam no litoral e são apinhadas de gente. As pessoas vão preferir ficar com o que já conhecem.
– Não se tiverem instrução – disse a moça. – Vão querer saber mais. Vão querer ser doutores, como o senhor.
– Admiro a sua visão – observou o médico, rindo. – Mas acho que está levando longe demais a minha ideia de educação.
– Por quê?
– As pessoas não vão querer tanto assim... A maioria só quer saber ler e votar. Mais nada.
– É a mesma coisa que dar a um pássaro uma gaiola maior, só para ele poder esticar as asas – retrucou Luzia.
– Isso é ótimo – disse Eronildes, sorrindo. – Onde aprendeu esse dito?
– Com minha tia Sofia.
– Bom, eu aprendi um outro com o meu pai: “Quem nasce para periquito nunca chega a papagaio.”
Luzia não tirava os olhos da tigela. A comida já tinha esfriado e ela não estava com fome. Queria que Emília estivesse ali, ao seu lado. A sua irmã sempre sabia como se comportar. Sempre dizia as coisas certas e era esperta o bastante para não insistir em conversas desagradáveis.
O Dr. Eronildes ajeitou os talheres na diagonal sobre o prato. Pôs o guardanapo em cima da mesa.
– Você é bem direta – disse ele. – Gosto disso. Sabe, se quebrássemos de novo esse seu braço e o repuséssemos no lugar, é provável que ficasse bom. O cotovelo é uma articulação complicada, mas não impossível de ser tratada.
A moça tirou o braço aleijado da mesa.
– Está bom assim – disse ela. – Já estou acostumada.
11
O mês de maio trouxe uma série de temporais rápidos. Diariamente, a velha empregada do Dr. Eronildes rezava para são Pedro. Os peões faziam apostas para ver quando começaria a chover e quanto tempo duraria a tempestade. Nas margens do São Francisco, numa atividade febril, os pescadores plantavam os seus roçados de feijão, abóbora e mandioca. A chuva chegava, mas logo ia embora. As plantações andavam fracas. Mesmo assim, as pessoas agradeciam aos seus santos acendendo fogueiras e armando altares, porque pouca comida era melhor que nada. Até o médico expressava a sua gratidão pela chuva parca, embora não rezasse. O único momento em que ficava calado, assumindo uma atitude de devoção, era ao anoitecer, quando se sentava diante do retrato da moça pálida, na sala da frente. À medida que o Carcará foi melhorando e começou a poder circular pela casa, passou a vir se sentar ao lado de Eronildes, bebericando o uísque White Horse que o médico mandava vir de barca, lá de Salvador. No início, o Dr. Eronildes ficava fazendo mil perguntas ao seu paciente sobre ervas medicinais. O cangaceiro ia desfiando o nome de uma série de remédios que o médico anotava furiosamente, esquecendo por algum tempo a sua pálida noiva.
Logo as conversas dos dois deixaram de se limitar a cascas de árvores e chás. Luzia ficava costurando ali por perto e acabava se distraindo; vira e mexe espetava o dedo com a agulha de bordar que o médico tinha lhe dado. A sua preocupação era que os homens pudessem discutir, que o Carcará perdesse a cabeça e o Dr. Eronildes parasse de cuidar dele. Mas quem perdia a cabeça com mais frequência era o doutor, ao passo que o cangaceiro só fazia sorrir e tomar o seu uísque. Olhava o seu anfitrião com uma admiração divertida, como se olha para um cachorrinho ou um irmão caçula: algo doce e inofensivo, embora decidido a fazer as coisas do seu jeito. Eronildes se indignava com essa atitude, mas acabava aceitando, pois também respeitava o Carcará. Luzia não saberia dizer se o médico admirava o homem em si ou simplesmente aquele corpo resistente e a capacidade que ele tinha de aturar as cutucadas e os curativos diários. Eronildes o chamava de Antônio e não de Carcará, ou capitão, ou mesmo de senhor. Para grande surpresa da moça, o Carcará não o corrigia. O médico não era coronel, fazendeiro ou vaqueiro; era uma criatura inteiramente diferente, imune às regras da caatinga.
– Você é como um padre – disse o Carcará, fazendo o Dr. Eronildes franzir o cenho. Diante dessa expressão de desagrado, o cangaceiro acrescentou: – Ambos salvam vidas.
– Não, Antônio – retrucou o médico. – Padres não salvam nada. Só alimentam medos. Desconfio de quem serve a mestres invisíveis. Eu sirvo aos corpos. Sirvo a algo real, tangível. Algo que pode ser provado.
– Nada pode ser provado – obstou o Carcará, brincando com um espinho de mandacaru entre os dentes. – A não ser a morte.
Luzia ergueu os olhos da costura. Pálido e encurvado, Eronildes fumava um cigarro com ar de impaciência. Ao seu lado, o Carcará palitava os dentes. A perna curta e forte estava apoiada num banquinho de madeira. O seu rosto continuava bronzeado, apesar do tempo passado longe do sol da caatinga. Entre ambos, de olhos baixos, lá do seu retrato, a noiva do médico parecia lânguida e entediada, como se estivesse cansada daquelas discussões.
Aqueles fins de tarde ficavam mais animados quando o Dr. Eronildes recebia os seus jornais. Uma vez por mês, o médico descia o rio para buscar as encomendas vindas de Salvador. Já que não podiam ser entregues diariamente, os jornais se acumulavam e chegavam em grandes pacotes, amarrados com barbante, com as páginas úmidas e rasgadas, e algumas seções surrupiadas na barca por um capitão curioso. Mesmo assim, o Dr. Eronildes levava dias para ler todos os jornais. O Carcará, sentado ali perto, ia lendo o que o médico deixava de lado. Ou fingia ler. Mais tarde, no silêncio do seu quarto, pedia a Luzia que passasse os olhos novamente pelas notícias, para ver se porventura não teria deixado escapar alguma coisa. A moça gostava de ficar sentada ao seu lado, a sós naquele quartinho mal-iluminado, sem as interrupções de Eronildes. Gostava de vê-lo desperto e alerta, mas, no fundo, tinha saudades do tempo em que ele estava com febre, sonolento e ela podia fitá-lo tranquilamente. Depois que o Carcará sarou, era raro o Dr. Eronildes deixá-los sozinhos, pois passava o tempo todo crivando-os de perguntas.
Luzia era grata ao doutor, mas, apesar de toda a sua generosidade e boa vontade, não conseguia gostar dele. Já estava ficando cansada daqueles rabiscos e anotações constantes, como se os seus atos e as suas observações fossem temas de alguma experiência que ela ignorava. Na véspera de São João, quando Eronildes distribuiu milho para todos os seus empregados e permitiu que eles acendessem fogueiras e tocassem sanfona, Luzia sentou na varanda, junto com o Carcará e o médico, para assistir de longe às festividades. A moça estreitava os olhos. Só conseguia ver o brilho das chamas e as sombras dos casais dançando. Quando se virou, viu que era para ela que Eronildes estava olhando, e não para a fogueira. No dia seguinte, quando o Carcará estava descansando, o médico a convidou para ir até o seu escritório. Ali dentro, havia pilhas de livros, uma lupa e um grande quadro-negro pendurado na parede. O quadro estava cheio de poeira de giz. De um lado a outro daquela superfície, Eronildes tinha escrito umas letras em ordem decrescente. Pediu então que a moça ficasse na outra ponta do aposento e lesse aquelas letras em voz alta.
– Conheço as letras – disse ela, cruzando os braços, de má vontade.
– Então, prove – retrucou ele, sorrindo.
Luzia se postou do outro lado do escritório e leu as letras maiores, que ficavam em cima; as de baixo, porém, não passavam de borrões.
– Tudo bem – observou o médico. – Sem os óculos, não leio nenhuma delas.
A moça assentiu e ficou olhando enquanto ele escrevia no tal bloquinho. O Carcará chamava Eronildes de “alma caridosa” e, a despeito das suas desavenças, respeitava o médico, pois preferia um homem convicto das suas opiniões a outro que não tivesse opinião alguma. Luzia concordava: o Dr. Eronildes era um homem bom. Pura e simplesmente bom. Convidou-os a comer com ele à mesa, jamais erguia a voz, nunca a tinha tratado como uma criada. Só que receber a sua bondade era como estar sob uma luz radiosa: a princípio, o calor era reconfortante, mas logo se tornava sufocante, ofuscante, com tudo exposto e posto a nu. Preferia a presença do Carcará. Gostava de entrar naquele quartinho escuro e fresco, ao lado da cozinha. Os seus olhos custavam um pouco a se acostumar, e, mesmo depois, quando já conseguia distinguir os contornos do catre de vaqueiro, do chapéu meio disforme pendurado num prego na parede, o seu peito subindo e descendo, ainda havia sombras. E, lá da cama, ele também não conseguia vê-la inteiramente. Via apenas os seus contornos, e teria de imaginar o resto.
De manhãzinha, quando o sol ainda estava fresco, passeavam pelas margens do rio, para o Carcará exercitar a perna. De início, o médico desencorajou tais passeios, dizendo que a poeira e a areia sujariam o ferimento, que poderia voltar a infeccionar. Era melhor repousar, dizia Eronildes, ficar de cama. Mas o cangaceiro não aguentaria isso.
– Não tenho medo de morrer de pé, na caatinga – objetou ele. – Mas Deus me livre de morrer numa cama.
Com alguma relutância, Eronildes lhe arranjou um par de muletas de madeira. O Carcará ia balançando o corpo entre ambas. Às vezes tentava apoiar o peso na perna ferida, mas desistia por causa da dor. Luzia andava bem pertinho dele, segurando-o sempre que os passos saíam maiores e ele perdia o equilíbrio. Mas o cangaceiro a afastava. Fitava-a irritado quando interferia, como se preferisse cair.
Quando já estavam longe o bastante da casa do médico, praticavam tiro. Todas as aulas começavam com o estilingue, mirando lagartos, rolinhas, borboletas e besouros. Estreitando bem os olhos, Luzia conseguia acertar o alvo. Depois desses exercícios, o Carcará lhe entregava o revólver. A moça admirava a arma. Gostava de examinar o tambor, soltar a trava de segurança e saber que qualquer um daqueles pedacinhos pequenos e aparentemente desprovidos de significado podia paralisar o revólver inteiro. Começou a gostar do estampido do tiro e, mais tarde, até da força do coice. Achava bom ser empurrada pela arma, mas o Carcará não gostava nada daquilo.
– Ponha isso na cabeça – dizia ele. – Atirar sem pretender matar pode matar do mesmo jeito. Portanto, é melhor mirar direito.
As palavras eram assustadoras, mas a voz dele não. O tom era sério, mas nunca zangado. Sempre que ajeitava o revólver em sua mão, era carinhoso, pondo os dedos dela em torno da coronha, como se a preparasse para rezar. No fim de cada aula, no caminho de volta para a casa de Eronildes, Luzia o deixava ir andando mais à frente, balançando o corpo com determinação entre as duas muletas. Observava-o, vendo-o oscilar e saltitar. Às vezes, ele parava junto a uma árvore cinzenta e desfolhada como toda a vegetação da caatinga que não ficava nas margens do rio. Arrancava um raminho e, ao ver que a polpa interior estava verde, assentia, mais tranquilo.
Nesse dia, quando voltaram para o sítio, Eronildes estava à sua espera, brandindo um jornal. A nova remessa tinha chegado recentemente e o médico vinha lendo tudo nos últimos dias. O Carcará ergueu as muletas e, depois, deu impulso no corpo para subir até a varanda. Eronildes lhe estendeu o tal jornal.
– Acho que escreveram a seu respeito – disse ele. – Nada de bom, claro.
O Carcará se apoderou do jornal, quase perdendo o equilíbrio. Luzia o escorou e começou a ler por cima do seu ombro. Era um número antigo, publicado havia quase um mês.
Diário de Pernambuco – Recife 23, de junho de 1929.
Cangace iros insole nte s conse gue m e scapar ao ce rco das tropas.
A perversidade impera no sertão.
O capitão Higino Ribeiro, um dos poucos sobreviventes de uma emboscada armada pelos cangaceiros perto de São Tomé, no último mês
de abril, chegou finalmente ao Recife. Apesar de todas as baixas, o capitão afirma que não se deixará intimidar. “O Urubu é um bandido
da pior espécie”, declarou ele, “e estou empenhado na sua captura”.
O Urubu, como é popularmente conhecido no sertão, invadiu a fazenda do coronel Clóvis Lucena em dezembro. Segundo o Sr. Marcos
Lucena, os cangaceiros já estavam ocupando a propriedade há quatro meses quando chegou ajuda. Procurado pelas atrocidades que
cometeu anteriormente em Fidalga – entre as quais o assassinato brutal de sete inocentes, deixando a população da cidade aterrorizada –,
o Urubu foi buscar abrigo em São Tomé. Lá chegando, a sua ousadia e a sua ferocidade não se abrandaram. Lançando mão de táticas
perversas, conseguiu enganar as tropas pernambucanas, que caíram em sua armadilha. De acordo com os relatos, os cangaceiros usavam
roupas coloridas e enfeitadas, e estavam acompanhados por uma mulher.
As condições que propiciaram o surgimento de bandidagem desse calibre podem se resumir facilmente a dois fatos: 1) a administração
deficiente por parte de nossos governantes e 2) a existência de esconderijos convenientes. É difícil de aceitar, mas esses malfeitores são
festejados pelos moradores das fazendas mais longínquas, afastadas das regiões civilizadas. Como pernambucanos, não podemos prestigiar
ou acolher esses bandos de criminosos populares, homens sem escrúpulos e sem fé.
As nossas autoridades estão empreendendo uma campanha débil contra a bandidagem. Só as eleições poderão mudar o atual estado
de coisas? Quando terá fim o martírio de nossos bons rapazes uniformizados? Por que, pergunta este repórter, temos de continuar a perdê-
los nesse sertão ingrato?
12
O Carcará parou com os passeios matinais. De tardinha, já não discutia com o Dr. Eronildes. À noite, deitada no quarto de hóspedes, Luzia ouvia o ruído das muletas, batendo no chão de madeira, seguido de um outro barulho meio surdo, como se um animal de três pernas estivesse andando de um lado para outro ali no quartinho junto da cozinha.
Quando ele enfim falou, foi para dizer ao médico que já tinha passado tempo suficiente se recuperando. Ia ao encontro dos seus homens. O Dr. Eronildes objetou que a perna ferida ainda não tinha sarado por completo e que, se ele fosse embora, todo o trabalho feito teria sido em vão. Mas, diante da determinação do cangaceiro, o seu anfitrião se sentou na varanda sozinho e fumou vários cigarros antes de voltar ao quartinho ao lado da cozinha.
– Mande os seus homens virem para cá – disse, em voz baixa. – Mas diga-lhes que têm de se comportar.
– Eles não são animais – retrucou o Carcará. – Você é um amigo e tratamos os amigos com todo o respeito. Quanto antes eles chegarem, mais depressa você se verá livre de mim. De nós – acrescentou, olhando para Luzia e, depois, voltando a fitar o médico.
Pediu então um cartão e uma caneta-tinteiro. Com traços lerdos e desajeitados, rabiscou ali a própria assinatura, capitão Antônio, e envolveu o bilhete no lenço verde que usava ao pescoço. Luzia costurou o embrulhinho na aba de um bornal liso que pertencia ao vaqueiro de Eronildes. O homem pôs a bolsa a tiracolo e partiu para a capela do Marimbondo.
Algumas semanas depois, nove homens chegaram com o vaqueiro: Baiano, Canjica, Inteligente, Orelhinha, Fala Mansa, Meia-Lua, Caju, Sabiá e Ponta Fina. Os outros tinham morrido ou desertado. Os remanescentes estavam em petição de miséria. Os seus trajes estavam manchados e esfarrapados. Ponta Fina tinha o braço numa tipoia. Todos tinham o rosto, o pescoço e as mãos cobertos de calombos vermelhos. Apesar de armarem o acampamento a certa distância da capela, os marimbondos os atacaram. Os homens cercaram o Carcará. Ele os observou, um por um, examinando cada corte, cada arranhão, cada entorse, cada picada de marimbondo, parecendo um pai orgulhoso. Depois, deu em cada um deles um abraço bem apertado. Eronildes ficou parado na varanda. Quando o Carcará apontou na sua direção, o médico enfiou as mãos brancas e grandes nos bolsos do paletó.
– Aquele ali é o Dr. Eronildes – disse o cangaceiro. – É nosso grande aliado e amigo. Eu lhe devo a vida.
Até esse momento, Luzia estava feliz. Quem conseguiu que atravessassem o rio? Quem encontrou o Dr. Eronildes? Olhou para aquele vestido largo e esmolambado. Queria as suas calças de volta. Depois de lavá-las, a velha criada as tinha escondido. Assim que os homens montaram o acampamento, a moça decidiu ir procurá-las.
Os homens foram bem-alimentados. Rasparam as tigelas. Lamberam as colheres de pau. A empregada ficou circulando em meio ao grupo, distribuindo mais feijão. Mancando, o Carcará se aproximou de cada um deles, agachando-se ao seu lado e falando-lhes com um ar de preocupação. A presença dos seus homens o tinha revigorado, tornando-o mais ágil com as muletas. De boca cheia, todos assentiam e lhe sorriam. De quando em quando, olhavam para Luzia, mas logo voltavam a se concentrar na comida. Tinham montado o acampamento perto da casa, pendurando todas as redes de caroá disponíveis. Depois de ajudar Canjica a fazer uma fogueira, o capitão chamou todos para rezar. Luzia se ajoelhou ao lado de Ponta Fina, que a olhou de um jeito nervoso e, em seguida, baixou os olhos, fitando as palmas das próprias mãos. Mais tarde, a moça puxou conversa com ele.
– O que aconteceu com o seu braço?
– Tiro – respondeu o menino, dando de ombros.
– A bala ainda está aí dentro?
– Não – murmurou ele. – Entrou por um lado e saiu pelo outro.
– Você perdeu o seu bornal – prosseguiu ela. – Temos de fazer um novo. – Sentia falta da máquina de costura e ficou furiosa quando lhe ocorreu que as empregadas do coronel Clóvis certamente a tinham deixado no mato, enferrujando.
– Não quero um bornal novo – exclamou Ponta. – Não feito por você.
Luzia recuou. Sentia-se como se tivesse levado uma ferroada.
– O capitão levou um tiro – disse o garoto, retorcendo o rosto numa careta severa. – Perdemos metade do bando. Isso nunca tinha acontecido antes de você aparecer. O lugar das mulheres não é o cangaço.
Calou-se por um instante, fitando atentamente as mãos, como se estivesse lendo ali a sua fala seguinte:
– Mulheres dão azar.
A moça sentiu a garganta seca. Cruzou os braços diante do peito, tentando se firmar. Se chorasse, Ponta Fina acharia que acreditava naquilo. Acharia que tinha razão, que ela era como aquelas pedras que as pessoas elegem quando estão doentes ou perturbadas. Ficam conversando com essas pedras, falando-lhes dos seus sofrimentos e dos seus temores e, depois, lhes dão um beijo e as atiram longe, acreditando que a tal pedra vai levar consigo o fardo da sua infelicidade e elas ficarão curadas.
– Foi o seu capitão que decidiu atacar a tropa, não eu – disse Luzia, com severidade, reproduzindo o tom que tia Sofia adotava quando ela ainda era criança. – Os homens de verdade assumem a responsabilidade pelo que fazem. Não ficam botando a culpa na sorte. Ou nas mulheres.
Com descanso, comida e os tratamentos do Dr. Eronildes, à base de chás e higiene adequada, os homens foram aos poucos se recuperando. Sem alarde, Luzia se tornou indispensável, remendando as suas roupas rasgadas, servindo-lhes o jantar, ralhando com eles quando se esqueciam de trocar os curativos. O Carcará continuava dormindo no quartinho pegado à cozinha, mas passava menos tempo dentro da casa. Não havia mais aulas de tiro. Nem as discussões noturnas. Muitas vezes, Eronildes procurava Luzia com suas perguntas e o bloquinho nas mãos.
O médico queria saber sobre as orações matinais do bando. Ela acreditava no cristal de rocha? Acreditava que a oração do corpo fechado realmente protegia o corpo contra qualquer malefício? Luzia não sabia como responder a essas perguntas. Não era ignorante: o cristal de rocha era uma pedra; os santos no seu velho quartinho eram de madeira e barro; o Jesus crucificado do altar do padre Otto era de gesso e arame. Não era diante dessas coisas que se ajoelhava. Não era na madeira, no barro ou no arame que depositava a sua fé. Depois que o Carcará ficou às voltas com os seus homens, toda tarde ela passeava sozinha pelas margens do rio. Ficava vendo os pescadores estenderem as velas de lona no chão para secar. Os meninos se equilibrando na popa de uns barcos estreitinhos, conduzindo-os rio abaixo com o auxílio de uns paus retorcidos. Via os altares caiados que se erguiam na beira da água. Via os rostos assustadores das carrancas esculpidas no topo dos mastros para espantar os demônios do rio. Aquela era uma vida que ela nunca tinha imaginado. Os pescadores tinham as suas superstições, os seus demônios, os seus santos favoritos. E, sob as águas barrentas do Velho Chico, existia um outro mundo. Um lugar habitado pelos surubins listrados e outras criaturas que estavam além da sua imaginação. Um mundo em que seria incapaz de viver, e que não poderia explicar, mas sabia que existia.
Ao chegar de um desses passeios, Luzia viu o Dr. Eronildes voltando de uma viagem rio abaixo, cavalgando a sua égua. O vaqueiro vinha montado ao seu lado, numa mula de carga. Nos cestos que trazia presos ao lombo, o animal transportava vários embrulhos, duas latas de querosene e uma pilha de jornais. A velha criada veio recebê-lo na varanda. O médico desmontou meio sem jeito e acenou para Luzia.
– Tenho uma coisa para você! – gritou ele, e veio caminhando na sua direção.
Procurou nos bolsos do paletó e tirou de um deles um estojo escuro.
– É um presente – disse o doutor.
Luzia pegou o estojo com alguma hesitação. Era feito de couro duro, com um fecho de pressão. Abriu a tampa. A forração era macia. Veludo. Enfiado ali dentro, como uma fava na sua vagem, estava um par de óculos de aro metálico.
– Mandei vir lá de Salvador – disse Eronildes, animado. – Examinei a sua vista não faz muito tempo, lembra? Não foi um exame dos mais acurados, mas acho que os óculos vão lhe servir. Você é míope, como eu. Essas lentes vão corrigir a sua visão.
Os óculos pesavam praticamente nada em suas mãos. Luzia ficou com medo de desdobrá-los. Atrapalhou-se toda com aquelas hastes fininhas. Eronildes veio ajudá-la a encaixar as pontas arredondadas atrás das orelhas. O metal era frio. Fazia cócegas no seu nariz. Por trás do médico, a moça conseguia enxergar cada trinca das paredes caiadas da casa. Via os desenhos tortuosos nas vigas de madeira da varanda, todas as folhas ovaladas do juazeiro que ficava perto da janela e o Carcará, parado junto à parede branca da casa. Ele tinha vindo ver os jornais, mas se deteve. Apoiou aquela mão de dedos grossos na parede e ficou olhando para os dois. Luzia tirou os óculos.
– No começo, ficamos bem atrapalhados – disse o médico –, mas acabamos nos acostumando.
– Obrigada – retrucou a moça.
O Carcará continuava parado ali; mas agora era uma figura turva, uma sombra.
– Luzia – chamou Eronildes. Calou-se por um instante e juntou as pontas dos dedos brancos. – Os homens, os cangaceiros, estão planejando ir embora logo, assim que todos se recuperarem.
Ela assentiu. O médico a fitava atentamente.
– Meu pai me ensinou outro ditado útil – prosseguiu ele. – “Quem vive das armas morre pelas armas.” Conhecia esse?
– Sim.
– Se quiser ficar quando os homens forem embora, saiba que é bem-vinda. Há um lugar para você aqui. Espero que saiba disso.
– Está bem – disse Luzia, brincando com os óculos e devolvendo-os ao estojo. – Obrigada.
O seu quarto estava escuro. Os dias eram mais curtos. O sol já tinha se escondido por trás das colinas das margens do rio. Luzia não acendeu vela alguma. Parou diante do espelho e abriu o estojo de couro. Tia Sofia sempre lhe dizia para não olhar no espelho depois que escurecia. Se olhasse, veria a própria morte. Mas ainda não estava tão escuro assim. Prendeu as hastes atrás das orelhas. As lentes eram muito mais finas que as de Eronildes. O aro metálico era perfeitamente redondo, como moedas ocas. E reluzia em torno dos seus olhos.
Talvez ficasse ali, pensou. Talvez telegrafasse para Emília. Talvez fosse para a capital e se tornasse uma modista famosa.
Às suas costas, a porta se abriu. Pelo espelho, Luzia viu o Carcará. Enxergava cada vinco do lado bom do seu rosto, cada fio do cabelo preso num rabo de cavalo desalinhado, cada uma das medalhas dos santos que ele usava. Virou-se para fitá-lo.
– O que é isso? – perguntou ele, cerrando bem os lábios.
– Óculos – respondeu a moça.
O Carcará se aproximou. Fez um gesto brusco com a mão. Luzia sentiu o deslocamento de ar no peito, como se uma mariposa tivesse ficado presa ali. Esperou um tapa, mas eram os óculos que aqueles dedos visavam. A moça se esquivou. Tirou os óculos. As pontas recurvadas engancharam em seu cabelo.
– O que está pretendendo? – gritou ela.
– Não quero esse sujeito lhe dando joias.
– Isso não é uma joia – retrucou Luzia, segurando firme os óculos na mão. – É como um remédio. Para os meus olhos. Para corrigir a minha visão.
O Carcará agarrou a sua mão com força. Os óculos penetraram na sua pele.
– Você não precisa corrigir nada – disse ele.
Os seus olhos brilhavam no escuro. O lado bom do seu rosto estava todo contraído, erguendo-se e baixando como se não conseguisse decidir que expressão adotar. Finalmente, Luzia o tocou, para que ficasse quieto.
Já o conhecia. Conhecia cada ruga, cada músculo, cada marca escura e reluzente. E esse conhecimento lhe permitia ousar. Fitou aqueles lábios retorcidos. Eles lhe pareciam estranhos e inacessíveis, mas as cicatrizes não. Antes que o cangaceiro pudesse se afastar, ela colou a boca na marca que havia no seu pescoço, nas picadas circulares que ele tinha nas mãos, no talho longo e torto do seu braço. O gosto era de sal e de cravos. Ele afastou a sua trança e se inclinou para o seu pescoço. Não a beijou, mas respirou fundo e foi subindo em direção à sua orelha, como se a inalasse. A voz dele soou baixa e ansiosa. Luzia não conseguiu ouvir o que ele dizia, não conseguiu distinguir se eram pragas ou orações.
Os óculos lhe caíram da mão. Ela fechou os olhos e teve a sensação de estar de novo naquele açude, flutuando em águas estranhas e, de repente, perdendo o pé. Sentiu-se agarrada, abraçada, puxada para baixo. Ele estava ao seu lado, no chão duro do quarto de hóspedes. Luzia sentiu uma onda gelada de medo. Não conseguia recobrar o fôlego. Veio o movimento, depois a dor e, depois, um jorro de calor lá dentro dela, como se estivessem derramando açúcar queimado no seu ventre. Enrijeceu-se e o agarrou, respondendo aos seus estranhos murmúrios, e encerrando cada um deles não com a palavra Amém, mas com o nome Antônio.
13
Os dois se casaram em novembro, na sombra da varanda da frente da casa de Eronildes. Luzia estava usando uma blusa limpa e uma saia que a mulher de um dos peões lhe emprestou. Foi preciso aumentar o comprimento, pregando um babado de algodão mescla na barra da saia e nos punhos da blusa. Nas mãos, ela levava um buquê de flor-de-laranjeira amarrado com vime. E usava seus óculos.
Normalmente, antes da cerimônia, o noivo e seus parentes vão até a casa da noiva, que, então, se despede da família e segue até a igreja ao lado do futuro esposo. Como não havia capela na fazenda de Eronildes e Luzia não tinha nem casa, nem família, ela ficou esperando na varanda dos fundos, acompanhada da criada. A velha, que tinha deixado de lado o cachimbo, não lhe deu qualquer conselho bem-intencionado. Simplesmente prendeu o cabelo da jovem numa trança bem apertada, disse-lhe que mascasse cravo para ficar com o hálito perfumado e passou um pouco da loção Royal Briar do médico no seu pescoço e nos seus braços. O perfume da loção era bem forte e, parada ali, à espera de Antônio, Luzia cheirava a lençol engomado, como o Dr. Eronildes.
Antônio chegou, acompanhado dos seus homens. Tinha o cabelo penteado para trás, com tanta brilhantina que reluzia como um gorro de seda. As alpercatas também tinham sido engraxadas com o produto para cabelo. Ele devia ter usado a lata inteira, pensou Luzia. O lado bom do seu rosto tremia – a boca se erguia, a bochecha fazia o mesmo e a pele ao redor do olho se enrugava. Eram movimentos mínimos que teriam passado despercebidos em qualquer outra pessoa, mas, em contraste com a expressão plácida e imutável do lado desfigurado, pareciam exagerados e involuntários. Era mais fácil desviar os olhos e fitar a parte calma daquele rosto, apesar da enorme cicatriz. Mas Luzia concentrou a atenção no lado que se movia. Sabia que era para ali que devia olhar.
Quando ele subiu os degraus da varanda e lhe estendeu a mão, a moça lhe deu as costas e se ajoelhou. Rezava a tradição que ela se pusesse de joelhos para beijar a mão dos pais, num gesto de despedida. Mas a única pessoa presente era a velha criada. Luzia pegou a sua mão. Era ossuda e áspera como o pé de uma galinha.
Antônio a levou até a varanda da frente, onde o Dr. Eronildes os esperava. Não havia nenhum padre nos arredores da fazenda e não poderiam mandar vir um da cidade ribeirinha mais próxima, pois chamaria muita atenção. De início, o médico não queria celebrar a cerimônia. Não possuía nenhuma Bíblia, segundo disse. Não sabia nenhuma oração. Antônio, porém, insistiu. Queria um casamento de verdade. Apontou o diploma emoldurado, escrito numa caligrafia angulosa, que ficava pendurado na sala da frente da casa. Aquele diploma de médico fazia de Eronildes uma autoridade. Alguém quase tão bom quanto um padre.
A cerimônia foi breve. Quando chegou a hora das alianças, Luzia estendeu a mão, mas Antônio balançou a cabeça. Desabotoou o paletó e tirou um cordão de ouro que trazia no pescoço. Era uma medalha de santa Luzia – um amuleto com dois olhos de ouro bem no meio. E ele o pôs no pescoço da moça.
Os cangaceiros ficaram fora da varanda, ao sol. Todos tinham uma expressão séria, concentrada. A mesma que ostentavam quando se escondiam no mato para vigiar uma fazenda ou uma cidade a distância, avaliando as suas qualidades e os seus perigos. Mas um casamento significava festa, o que os deixava animados. Canjica e a empregada tinham assado três cordeiros e três galinhas. Abriram potes de geleia de caju e garrafas de cachaça. Os homens comeram e dançaram. Quando Luzia desmanchou o buquê e atirou as flores para o ar, todos entraram na brincadeira, empurrando-se mutuamente para apanhá-las.
Só o Dr. Eronildes se manteve longe da comemoração. Na luz mortiça do fim de tarde, ficou sentado na varanda, lendo o que restava dos jornais. Ao seu lado, tinha uma garrafa de uísque pela metade.
– Não vamos brindar? – indagou Antônio. – Você prometeu fazer um brinde.
Eronildes ergueu os olhos. Os seus óculos estavam sujos e os seus olhos, vermelhos.
– Esta não é uma ocasião para brindes – disse ele, amassando o jornal que tinha nas mãos.
Antônio franziu o cenho. Eronildes tomou o seu uísque de um só gole. Depois, jogou um jornal para Luzia.
– Leia isto – disse, tossindo. – O mercado veio abaixo.
– Desmoronou? – indagou a moça, sem entender direito. Sem nenhum motivo palpável, pensou em Emília e ficou preocupada. – Que mercado? Onde?
– Não é um prédio – exclamou o médico, levando a mão à testa. – O mercado financeiro, nos Estados Unidos. Açúcar, algodão, café, tudo isso agora não vale nada. Estamos arruinados.
Luzia desamassou o jornal amarfanhado. Era de algumas semanas atrás, com data de fins de outubro. Os barões do café de São Paulo e de Minas formavam uma fileira, todos com ar sério e cansado. As suas colheitas não tinham valor algum. Nos Estados Unidos, chamavam essa turbulência financeira de crash, mas no Brasil ela era chamada de crise. Os produtores de açúcar dos arredores do Recife estavam queimando a cana, na esperança de, com isso, conseguir elevar os preços. A eleição presidencial havia sido adiada para março do ano seguinte. Os candidatos culpavam o partido adversário pela crise.
– Sabe Deus o que anda acontecendo desde então – disse Eronildes. – Esse jornal é velho. Preciso mandar um telegrama para Salvador amanhã mesmo, para saber se está tudo bem com a minha mãe. Deve estar a maior confusão nas capitais – prosseguiu ele, tomando mais um gole de uísque. Os seus dedos estavam trêmulos. – Agora, eleger Vargas é a nossa única salvação.
– A nossa salvação não está nesta terra – retrucou Antônio.
– Estou falando do comércio – esbravejou o médico, quase engolindo as palavras. – Querendo ou não, a modernização é a nossa única esperança.
– Nem sempre o que é novo é bom – disse Antônio.
Eronildes se serviu de mais uma dose de uísque. A bebida respingou nas suas calças.
– Você usa rifles, não usa? – perguntou ele. – Pode atirar em homens a metros de distância. Esta é uma invenção moderna.
– Os rifles são úteis – retrucou Antônio. – Admito. Mas qualquer idiota pode atirar com um deles. Matar um homem com um punhal exige mais habilidade. Esse é o problema das coisas modernas: elas encorajam os idiotas a achar que têm a mesma capacidade que os homens de verdade.
O médico soltou uma gargalhada. Uma flor de laranjeira já murcha caiu da sua lapela.
– Bom, Sra. Teixeira – disse ele, enfatizando bem cada sílaba daquele nome –, o que a senhora acha de tudo isso? Quem é o idiota e quem é o homem de verdade?
Luzia ouviu o que ele disse, mas não conseguiu falar. Tinha pegado a coluna social de um outro jornal deixado de lado. Logo abaixo do título, havia uma fotografia com a legenda “Concurso Anual de Sombrinhas da Sociedade Auxiliadora Feminina do Recife. 1929”. Uma fileira de mulheres sorridentes exibia sombrinhas ricamente decoradas. A vencedora tinha fitas penduradas nas bordas e um desenho bordado em cada um dos gomos: uma nuvem de chuva, uma espiga de milho, um sol, uma dália. A mulher que segurava a tal sombrinha usava um chapéu redondo com uma pluma rajada saindo da aba. O cabelo era cortado na altura do queixo e cacheado. Os lábios eram escuros. Os olhos estavam fechados. Mesmo assim, Luzia a reconheceu.