Entre irmãs
Capítulo 6
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Lamentavelmente, em sua primeira ida ao clube, a misteriosa Sra. Emília Coelho saiu mais cedo. Seu marido, o Sr. Degas Coelho, alegou
cansaço para justificar o desaparecimento da jovem esposa. Não é de espantar que uma moça do interior tenha dificuldades em se
aclimatar aos nossos horários cosmopolitas! No entanto, o episódio não abalou em nada o Sr. Degas Coelho, que permaneceu no baile e se
divertiu acompanhado do Sr. Felipe Pereira, seu colega da faculdade de direito.
Luzia rasgou a notinha.
– Alguma coisa importante? – perguntou o Carcará, dando-lhe um susto.
Estivera ali por perto, espionando-a.
– Não – respondeu ela. – Só uma nota.
– Sobre o quê?
– Uma festa – disse a moça.
Devia ter dito que era um obituário ou uma propaganda de cinema; só meninas tolas recortam notícias sobre festas. Dobrou o jornal de qualquer jeito. Odiava quando ele a vigiava. A cada dia passado nas terras do coronel o Carcará estava ficando mais paranoico. Recusava-se a comer o que quer que fosse, a menos que tivesse sido feito por Canjica. Ficava andando o tempo todo. Falava com Baiano aos cochichos. Estava com olheiras por não dormir direito. E Luzia se perguntava por que permaneciam ali se o Carcará não confiava no coronel.
– Vamos dar uma volta – disse ele. – Deixe o jornal aí.
Luzia se levantou. Enfiou o recorte no bornal. Se ele lhe perguntasse por que estava guardando aquilo, mentiria. Embora o cangaceiro tivesse conhecido Emília em Taquaritinga, a moça não podia garantir que ele se lembrasse do nome da sua irmã. Mas, se por acaso lembrasse, não queria que soubesse que ela estava casada com um homem rico da sociedade. Sentia que precisava proteger a irmã, apesar de não saber muito bem contra o quê. E não havia provas de que a mulher citada pelo jornal fosse a sua Emília. Mas o nome de Felipe Pereira, filho do coronel lá da sua terra, também era mencionado. A moça intuía que não se tratava de simples coincidência. A tal Emília Coelho só podia ser a sua irmã.
Enquanto caminhavam, o Carcará não mencionou o artigo do jornal. Aliás, não falou de nada. Pegaram uma estrada comprida, depois do curral das cabras. Os animais que ficavam soltos haviam devastado aquele trecho, devorando cada folhinha, cada trepadeira, deixando tudo absolutamente nu. Ao longe, via-se um ipê florido. A árvore reluzia, toda amarela. O capitão parou a poucos metros do seu tronco. Abriu o coldre que trazia no ombro e tirou um revólver. Com um ligeiro movimento do dedo, abriu o tambor e o examinou. Pegou duas balas pequenas na cartucheira e enfiou-as nos furos vazios. Havia seis balas ali dentro. Luzia recuou. O Carcará voltou a fechar o tambor e apontou a arma para o chão. Depois, entregou-a a Luzia, pela coronha.
– Não é bom ter uma arma e não saber usá-la – disse ele.
– Mas não tenho arma nenhuma.
– Agora tem – retrucou o Carcará, vindo postar-se ao seu lado.
Pegou então o braço bom da moça e pôs o revólver na sua mão. Tinha os dedos quentes. Ergueu o braço de Luzia. O revólver era mais pesado do que ela imaginava. O seu punho se curvou com aquele peso. O cangaceiro o segurou bem firme.
– Mantenha a munheca firme, rija como madeira – disse ele, pegando em seguida o seu braço aleijado. – Use o braço torto para dar apoio ao outro, para que ele não trema. Com mais prática, vai ter força o bastante para atirar com uma mão só.
Luzia podia sentir o hálito do Carcará no pescoço. As suas mãos suavam. A coronha do revólver estava escorregadia.
– Quando for atirar, prenda a respiração – disse o cangaceiro. – Não se esqueça disso porque, senão, as balas não vão atingir o ponto que você pretende acertar.
Ela assentiu. Ele destravou a arma.
– Olhe para aquele tronco – sussurrou o Carcará. – Atire.
O tronco cinzento com as suas flores amarelas não passava de um borrão. Luzia fechou os olhos. Ele cheirava a brilhantina e cravo. E a suor. A mão que segurava o seu punho se afrouxou.
– Atire – repetiu o Carcará, desta vez mais alto.
Chegou mais perto, encostando o peito nas costas da moça.
Luzia apertou o gatilho. Ouviu-se um estampido. Sentiu um solavanco na mão que lhe subiu pelo braço todo. Recuou sem querer.
– Você respirou – disse o Carcará em tom severo. – Não desperdice balas com erros bobos. Elas são preciosas. Atire de novo.
Luzia destravou a arma. Com o braço aleijado, agarrou o outro com mais força ainda. Mesmo assim, o coice do revólver fez a sua mão se mover para cima. O Carcará suspirou.
– O revólver tem de ser como um amigo – disse ele. – Precisa conhecê-lo como conhece a si mesma. Saber a que distância ele atira. Qual o impacto que provoca, como faz o seu braço se mover. O seu revólver salva a sua vida, mas só se você o conhecer. – Afastou-se um pouco, mantendo-se ainda ao seu lado. – Isso vem com o tempo – acrescentou, sorrindo – Por enquanto, temos de trabalhar a sua pontaria.
Luzia apontou a arma para o chão. O Carcará remexeu no cinturão e pegou o estilingue de couro que usava para matar rolinhas e outros pássaros. Agachou-se para apanhar umas pedrinhas.
– Por que está me ensinando isso? – indagou Luzia.
– É sempre útil. Principalmente agora – respondeu ele, dando de ombros e escolhendo as pedrinhas mais redondas.
– Por que agora?
– As tropas logo vão estar por aqui.
– Quando? Como sabe? – perguntou ela, mais alto do que gostaria.
O cangaceiro suspirou. Deixou as pedras caírem no chão.
– Na primeira noite que passamos aqui, a de santa Luzia, Marcos saiu – disse ele. – Foi até a cidade mandar um telegrama para a capital. “O rebanho está no pasto”, foi o que ele escreveu, achando que estava sendo muito esperto.
– Como é que você sabe?
– O Baiano conversou com o empregado do telégrafo. Essas malditas máquinas são uma praga. O tal empregado é apenas um menino. Contou tudo. Mas, mesmo que isso não tivesse acontecido, eu teria desconfiado. Clóvis passa o tempo todo nos dizendo para ficar. Em geral, fica louco para me ver pelas costas. Sempre me paga antes mesmo que o algodão seja embarcado. Desta vez, disse que está sem dinheiro. Que precisamos esperar esses meses todos.
Luzia sentiu a boca seca. O revólver pendia pesado em sua mão.
– Vai ficar esperando até ele lhe pagar? – perguntou a moça. – Vai arriscar a vida dos homens por dinheiro?
O Carcará ergueu os olhos. A sobrancelha do lado bom do rosto estava franzida. O olho defeituoso estava meio vidrado, parecendo maior e infantil. Luzia percebeu um lampejo de tristeza, de mágoa, atravessar aquele rosto. Então, ele respirou fundo e fechou os olhos. Quando voltou a abri-los, parecia velho e cansado, como se jamais houvesse sido criança na vida.
– O dinheiro é coisa útil – disse ele. – É o que Clóvis mais ama. Vou ficar com o máximo que puder. Se ele gostasse tanto assim do seu gado ou das suas cabras, eu ficaria com eles. Ele fez um trato qualquer. Tenho certeza. Só não sei com quem: se com Machado ou com os políticos. Seja com quem for, isso é o de menos. Vamos ficar aqui e supreendê-los. Quero que vejam que sei de tudo. Que sempre soube.
– Mas você só tem vinte homens – observou Luzia.
– Sabemos como lutar aqui. Eles vão entrar pelo portão principal. Até onde eles sabem, esta fazenda só tem uma entrada. E um lugar assim é uma verdadeira sepultura. Estou lhe dizendo isso porque se eles a encontrarem... – Calou-se e baixou os olhos. Quando voltou a fitá-la, a sua fala assumiu um tom enérgico. – Eles não podem encontrá-la. Você sabe o que fazem com as mulheres. Portanto, vai ter de atirar. Ou então pode ir embora agora mesmo.
Luzia apertou a coronha do revólver com mais força. Respirou fundo, mas não conseguiu se impedir de tremer. Ele queria atenção. Queria aparecer na primeira página do Diário de Pernambuco. Ela tinha deixado a própria família. Tinha destruído os seus pés, as suas mãos, a sua reputação. E para quê? Para fugir, claro. Para correr mundo. Para deixar de ser a Vitrola. Foi isso que repetiu para si mesma durante todos esses meses, durante as caminhadas intermináveis e as noites frias. Agora, porém, compreendia que tinha se juntado ao bando pela mais idiota das razões: ele. Para ficar perto dele. Nunca esqueceu a própria altura, nem o braço torto. Nunca se permitiu ter ambições românticas. Não esperava despertar o seu amor e nem mesmo o seu interesse. Queria simplesmente vê-lo. Ouvi-lo dizer o seu nome, o seu nome de verdade, e fazê-lo soar poderoso e adorável. E ele vinha lhe dizer que podia ir embora... Que ela não tinha valor algum como amuleto ou como mulher...
– Vou embora – disse ela, e o Carcará se levantou.
– Para onde? – perguntou ele.
– Para casa.
– Não pode fazer isso. Nenhum homem vai se casar com você.
– Não quero me casar.
– E vai viver de quê?
– Da costura.
– Ninguém vai querer uma cangaceira para fazer as suas roupas.
– Não sou uma cangaceira.
– Você poderia me matar – disse ele, apontando com o queixo o revólver que ela tinha nas mãos. – Entregue-me para os soldados.
Luzia balançou a cabeça.
– Por que não? – perguntou ele, chegando mais perto.
A voz dela entalou na garganta. Fechou os olhos, furiosa com o próprio corpo, que a estava traindo.
– Por que não? – repetiu ele, quase num sussurro.
– Se você morrer, vai ser pelas mãos de Deus. Não pelas minhas – disse ela. – Posso não ter condições de me casar ou de ser costureira. Mas você não vai me levar à perdição. Não vou permitir que faça isso.
O Carcará recuou. Fitou-a como fitara os montinhos de sal da santa, como fitava os seus papeizinhos com orações, ou as cruzes improvisadas que se viam pelas paredes das capelas na caatinga: não com medo, nem com desejo, mas com reverência.
Luzia lhe entregou o revólver e saiu correndo.
5
Três anos mais tarde, Luzia tinha se tornado uma atiradora melhor que o próprio Carcará. O presidente Getúlio Vargas tinha começado a construir a rodovia Transnordestina através da caatinga e a seca já tinha atingido o seu quarto mês consecutivo. Quando as pernas de Luzia doíam e os seus pés estavam inchados com o peso do terceiro e último filho, era comum que ela se perguntasse o que teria acontecido se tivesse ido embora quando o Carcará lhe dera essa oportunidade. Se tivesse corrido em direção ao rio e não de volta ao acampamento. Se tivesse pegado uma balsa e rumado para o Recife, para a residência da jovem Sra. Emília dos Santos Coelho. Chegara a pensar em ir até o rio São Francisco, mas não tinha dinheiro para pagar a passagem da balsa. Não tinha nenhum vestido, nem vontade de usar um. Queria provar a ele que não estava com medo. Não queria ir embora simplesmente por causa do seu alerta. E estava curiosa. Queria ver se ele tinha razão, se as tropas viriam mesmo e, se viessem, como seriam derrotadas.
Dois dias depois daquela aula de tiro, um dos vaqueiros do coronel veio finalmente avisá-los da chegada do capitão Higino. O coronel Clóvis e Marcos tinham viajado na véspera, para tratar da venda do algodão. O vaqueiro estava pastoreando o gado quando viu a brigada: as linhas de um amarelo brilhante ainda eram visíveis nos uniformes agora surrados. Eram um punhado de homens desolados, com o rosto encovado, avançando a passo lento e hesitante. O comandante, segundo o vaqueiro, era um sujeito baixinho, o único que andava depressa.
Nas horas que antecederam a chegada dos soldados, o Carcará e os outros cangaceiros saíram catando folhas secas de ouricuri. Dobravam-nas ao meio, para que ficassem parecidas com seus chapéus. Depois, puseram essas palmas nas árvores, enchendo-as de cupinzeiros. O Carcará mandou os seus homens se espalharem. Alguns ficaram dentro dos muros da propriedade do coronel; outros, do lado de fora, nos arredores do portão. Estes últimos deveriam se mover lentamente e cercar a tropa, como dizia o Carcará, pela “retroguarda”. Obrigariam os soldados de Higino a entrar no quintal da casa, prendendo-os ali. Já os homens que ficaram do lado de dentro se postariam na periferia do quintal, prontos para passar por baixo da cerca e penetrar no mato. O chefe determinou que todos atirassem entrincheirados por detrás de pedras ou de árvores, deitados de bruços. Depois, cortou a coleira de couro que prendia os sininhos de vinte e duas cabras e entregou-as ao bando. Mas deu uma também para Luzia.
– Quando eu mandar, ponha isso – disse ele. – Até lá, enfie um pano aqui dentro para o sino não tocar.
Já anoitecia quando a tropa despontou na estrada, marchando, como previra o Carcará, para o portão da fazenda. Os soldados avançavam formando várias linhas retas, rifles em punho. A casa estava silenciosa. Lá dentro, o cangaceiro tinha deixado as lamparinas acesas. Luzia e ele estavam agachados na outra ponta do quintal, perto da entrada do curral das cabras. O cangaceiro segurou firme o braço aleijado da moça.
O sol poente lançava sombras sobre a caatinga. De longe, as palmas de ouricuri dobradas pareciam cangaceiros imóveis, dezenas deles, espalhados pelo mato. Um soldado mais assustado disparou na direção das árvores. O tiro ecoou. Perto de Luzia, as cabras começaram a balir furiosamente. Mais que depressa, o Carcará abriu a porteira do curral.
Com o segundo e o terceiro tiros dos soldados, os animais apavorados foram saindo em massa do seu cercado, formando uma onda confusa. Todos empurravam e davam pinotes. Os sininhos que traziam ao pescoço soavam como uma orquestra enorme e desafinada. Ouviram-se mais tiros. Bem ao seu lado, Luzia ouviu um zumbido estridente. A bala passou raspando e foi se alojar num dos mourões do curral, com um ruído surdo. O Carcará a empurrou, fazendo-a deitar de bruços. A terra, seca e áspera, lhe entrou pela boca. O cangaceiro prendeu então a coleira com a sineta no pescoço e mandou que a moça fizesse o mesmo.
Agachados, os outros membros do bando foram contornando a cerca, junto com as cabras. Também eles tinham posto a coleira no pescoço e, nas sombras do anoitecer, com a zoada de tantas sinetas, era difícil distinguir os homens dos animais.
Os cangaceiros que tinham ficado fora do portão começaram a avançar, atirando nos soldados por todo lado e encurralando-os no quintal. Os homens do Carcará eram um inimigo invisível. Choviam balas de todos os cantos, de lugar nenhum. Ao escurecer, era fácil confundir as iscas feitas de palmas de ouricuri com gente de verdade. A tropa se dispersou freneticamente. Soldados tropeçavam uns nos outros. Alguns caíram. Quem havia sobrevivido ao primeiro tiroteio atirava nas cabras, nas árvores.
– Fodam-se todos vocês, cangaceiros! – gritou um deles.
– Vai foder a sua mãe, macaco! – retrucou Ponta Fina, rindo.
O Carcará soltou o braço de Luzia. Preparou e apontou a sua Winchester. O rifle fez um estalido e disparou. Depois do disparo, os ouvidos da moça pareciam estar cheios de água. Era como se os gritos dos homens viessem de bem longe. Outro rifle disparou e, depois, mais outro. O revólver de Luzia pendia, pesado e inútil, no coldre que o Carcará havia lhe dado. Não tinha treinado a pontaria e, no meio daquelas sinetas tocando, daquela fumaça toda, daqueles estampidos horríveis, só conseguia pensar em ficar ali, agachada ao seu lado.
Quando a noite caiu, cada vez que um homem atirava tinha o seu rosto iluminado por um brilho esverdeado que saía da arma. Estavam escondidos atrás dos mourões do curral, de pedregulhos, de troncos de ipês. Na maior rapidez, baixavam os rifles para pôr mais munição. Ali perto, Baiano praguejou, pois o cano da sua arma estava quente. Abriu as calças e se agachou, com as pernas abertas. O cano do rifle chiou. O cheiro de urina ficou pairando no escuro e na fumaça. O cangaceiro voltou a fechar as calças e pegou a Winchester agora já mais fria.
Luzia não sabia dizer há quanto tempo os homens estavam atirando e rastejando. Os seus joelhos ficaram esfolados. Os músculos das suas pernas ardiam e estremeciam sempre que ela fazia um movimento qualquer. O zumbido nos seus ouvidos era ensurdecedor. Finalmente, o Carcará soltou um assobio estridente. Tinha planejado agir assim, sabendo que não poderiam eliminar a tropa inteira. Bem devagar, os cangaceiros começaram a bater em retirada, aos pares, atravessando o rio e indo até a igreja do Marimbondo, onde todos deveriam se encontrar. Era uma capela abandonada já no lado da Bahia. Os insetos, daqueles vermelhos, tinham feito seus ninhos em todos os cantos da igrejinha, atrás do altar e debaixo dos bancos quebrados. O lugar tinha se tornado uma gigantesca casa de marimbondos. Como era raro alguém ir até lá, o mato que cercava a capela acabava sendo um esconderijo perfeito.
Como as cabras desarvoradas, os cangaceiros passaram rastejando por baixo do último arame da cerca do coronel. O Carcará arrancou a coleira com a sineta e agarrou a de Luzia. Quase não dava para vê-lo ali no escuro, em meio a toda aquela fumaça. A moça sentiu os dedos do capitão no seu pescoço, puxando a tira de couro. Quando conseguiu enfim soltá-la, Luzia ouviu um zumbido familiar. Uma cabra caiu bem ao seu lado. O Carcará ficou apavorado. Pegou o rifle. Em seguida houve outro zumbido bem próximo, mas, quando o som cessou, tudo o que se ouviu foi um ruído abafado, como um punho esmurrando um travesseiro. O cangaceiro respirou fundo. Cambaleando, segurou firme a mão de Luzia.
6
Um emaranhado de galhos quebradiços se espalhava por todo o caminho. Cipós ressecados se enroscavam nas árvores, parecendo cobras escuras. O Carcará se apoiava nela enquanto os dois iam avançando no meio do mato. O suor reluzia no seu rosto. Tinha a respiração rápida e entrecortada. Caminhavam devagar. O céu ficou da cor do estanho. Os pássaros soltavam piados breves, hesitantes, como que para se certificar de que ainda tinham voz. Quando o sol nasceu, já tinham voltado a se calar.
Luzia descobriu uma sombra debaixo de um juazeiro mirrado. Pouco antes, o Carcará tinha se livrado do bornal e amarrado bem o gibão na perna ferida. O tecido estava encharcado de sangue que escorria também para a alpercata, manchando o couro e sujando o seu pé. A moça se ajoelhou ao seu lado. Desabotoou o próprio gibão. Ficou sem graça por causa da blusa que estava usando por baixo dele: tinha cortado a saia da velha camisola de dormir, mas continuava usando a parte de cima, amarelada e puída. Resolveu esquecer esse detalhe; não era hora de pensar em vaidade. Desamarrou o gibão ensanguentado e endurecido da perna do cangaceiro, substituindo-o pelo seu. O Carcará estremeceu quando ela amarrou as mangas com bastante força.
– Tome – disse ele, desembainhando uma peixeira curta. – Use isso para enterrar o paletó com sangue.
A moça pegou a faca e começou a cavar. O Carcará tossiu. O seu lábio superior brilhava de suor. Ela quis passar o dedo ali, mas se conteve.
– Não estamos longe do rio – prosseguiu ele. – Uns duzentos metros, talvez. Precisamos atravessá-lo. Na Bahia, estaremos a salvo.
Dava para ouvir o São Francisco. Dava para sentir o seu cheiro. Tinham passado a noite inteira acompanhando o curso do rio, evitando se aproximar dele por precaução, pois poderiam topar com o que restava da tropa. Seguiram em direção à foz, até o Carcará achar que o local era seguro para a travessia. Quando Luzia terminou de enterrar o paletó, os dois dividiram um naco de carne-seca. Com as mãos trêmulas, ele a ensinou a abrir um cacto coroa-de-frade e comer a sua polpa suculenta. A moça quis limpar o ferimento; ainda tinha, no bornal, o mercuriocromo dos primeiros meses que passara na caatinga. O Carcará, porém, balançou a cabeça, insistindo para que continuassem andando.
Durante o dia todo, ele tinha se apoiado nela. Às vezes, a pele dele estava ardendo. Outras vezes, quando Luzia punha a mão no seu pescoço, sentia-o úmido e pegajoso, parecendo até a pele de um sapo. Mais para o fim da tarde, o cangaceiro não tinha condições de se ajoelhar; mesmo assim, rezou, recostando-se no tronco liso de uma árvore, segurando nas mãos as medalhas dos seus santos. Quando terminou, desabou no chão. Luzia levou o próprio cantil aos lábios do Carcará. A febre lhe dava sede. Ele bebeu e fechou os olhos. Os seus lábios se moveram numa prece ou, talvez, por delírio. A moça não conseguiu distinguir. O capitão engoliu com dificuldade e disse:
– Quando eu era criança, antes de me fazerem isso – ele apontou para o rosto desfigurado –, joguei uma pedra numa colmeia. Foi a maior besteira. Eram abelhas italianas, não simples uruçus, e tinham ferrão. Ouvi o zumbido. Senti as asas roçando nas orelhas, no nariz. No corpo inteiro. Depois veio a queimação. Ardia tanto... Comecei a dar tapas nos braços, no pescoço. Podia senti-las sendo esmagadas pelas minhas mãos, como se aquela pele não fosse mais minha. Era outra coisa. Uma pele feita de abelhas. As pessoas atiraram água em mim. Me levaram para casa. A minha mãe prometeu a minha alma a todos os santos possíveis. A água, os vizinhos, as orações, não lembro de nada disso. Só ouvia o tal zumbido. Aquele zumbido pavoroso. Estou ouvindo ele agora.
A cada palavra, a sua voz ia ficando mais fraca. Assustada, Luzia se inclinou para chegar mais perto. O olho congestionado estava com umas crostas e lacrimejava. Ela o enxugou com um lenço. Quando, de repente, o Carcará entreabriu as pálpebras, Luzia recuou. Ele agarrou a sua mão com força.
– Sabe por que resolvi trazê-la conosco? – perguntou o cangaceiro.
A mão dele já não tinha a mesma força de antes, quando a bala o atingiu e ele a puxou para dentro do mato. Agora, segurava frouxamente os seus dedos. Luzia ficou imaginando se era por fraqueza ou afeição.
– Para ter sorte – murmurou ela.
– Que Deus me proteja... – disse ele, abrindo um ligeiro sorriso meio de esguelha. – Foi o que pensei quando a vi naquele morro. Que Deus me proteja...
Desviou os olhos, fitando agora a mão da moça que segurava entre as suas.
– Antes de subir o morro até Taquaritinga, andava sentindo esse... essa coisa dentro de mim – prosseguiu. – Uma coisa sombria. Amarga. Como se eu tivesse comido um monte de cajus. Era cansaço, apenas isso. Todos com quem cruzava pareciam querer algo de mim. Mas você não. Você me olhou lá no alto do morro e não quis nada. Nem piedade. Nem dinheiro. Nem proteção. “Deus me proteja”, eu pensei. Então resolvi que não queria voltar a vê-la. Mandei que fosse embora e meti a faca naqueles macacos e naqueles capangas. Fui à casa daquele maldito coronel. Comi e bebi. Toquei sanfona. Nada disso ajudou. Estava me sentindo pior que antes. Agitado, como se as abelhas estivessem me picando novamente. Correndo atrás de mim. Me ferroando. Fazendo a minha pele arder. Naquela noite, não consegui pegar no sono. Tinha uma cama com colchão de penas e não conseguia dormir. Fiquei parado na varanda, olhando para a cidade. Nada parecia estar como deveria. Até aquelas malditas buganvílias. Já vi essas flores centenas de vezes na vida, mas, naquela noite, elas eram diferentes. Não dava para explicar. A única coisa que me passava pela cabeça era: onde andará ela? Onde está aquela costureira? Está por aí, em algum lugar, dormindo, e não sei onde. Não sei se é numa rede ou numa cama. Se está sozinha. Se tem um travesseiro sob a cabeça. Não sei nada disso. E não saber estava me deixando de péssimo humor. Queria saber. Precisava saber. E não só naquela noite, mas em todas as outras. Por isso eu raptei você.
Luzia soltou a mão dele. Nunca tinha ouvido o Carcará dizer tantas coisas e estava encabulada por ter escutado com tanta ansiedade.
– Você não me raptou – disse ela, secamente. – Saí de casa por conta própria.
O Carcará soltou o ar pelo nariz. Engoliu com dificuldade e fechou os olhos.
– Já tive mulheres mais bonitas querendo vir embora comigo – disse ele. – Deus sabe que é verdade.
Luzia teve vontade de sacudi-lo para mantê-lo acordado. Era sempre assim: ele lhe dava uma pontinha de esperança, deixava-a pronta para acreditar e, depois, a desapontava.
Desatou o gibão da perna do Carcará. O ferimento já não sangrava, mas o local estava tão inchado que as calças tinham grudado ali como uma segunda pele. Remexendo nos bornais dele, encontrou o estojo de barbear. Pegou a navalha e, com todo o cuidado, desfez a costura da calça. Conseguiu desgrudar o pano, usando um pouco de água, e o retirou. Uma crosta marrom e amarelada recobria o ferimento. Raios vermelhos, parecendo veias, se espalhavam por todo lado. Dali vinha um cheiro acre. Era uma mistura de ferrugem com um toque doce inebriante, como o cheiro de um mercado de carnes à tarde, depois que todos os pesos de qualidade haviam sido vendidos e só restavam aqueles descorados e cobertos de moscas. Voltou a remexer no bornal. Encontrou sal e pimenta-malagueta, sobras dos dias passados na fazenda de Clóvis, quando o Carcará não confiava em ninguém para temperar a sua comida. Lembrou então que Lia tinha feito uma pasta com cinzas, malagueta e sal para tratar do umbigo de um cabrito recém-nascido. Ali não havia cinzas, mas Luzia mastigou as pimentas e o sal. As malaguetas deixaram os seus olhos lacrimejando. Quando a mistura virou uma pasta, despejou mercuriocromo no ferimento. O Carcará acordou sobressaltado. Soltou uma exclamação abafada. A moça segurou firme a perna ferida. O lado esquerdo do rosto dele se contorcia de forma descontrolada. O remédio fez a tal crosta se soltar e Luzia a retirou. O buraco era grande e redondo como um carretel de linha. Tinha umas bordas rosadas bem inchadas. Lá no fundo, debaixo da pele rasgada, via-se um calombo considerável. Ela derramou mais mercuriocromo ali dentro. O cangaceiro praguejou e estremeceu. Luzia recobriu o ferimento com a pasta de pimenta e sal e o envolveu com um pedaço de pano. O Carcará se deixou cair novamente, exausto.
No bornal, junto com o estojo de barbear dourado, a moça encontrou o binóculo, os papeizinhos com as orações e inúmeros rolinhos de notas de mil-réis. O bastante para comprar umas dez Singers movidas a pedal; o bastante para comprar um automóvel, para pagar uma excelente refeição, para pagar um tratamento médico. Ali na caatinga, porém, aquele dinheiro não tinha qualquer serventia. Nem todos os anéis de ouro, todas as medalhas de santos ou estojos de barbear podiam salvá-los. Luzia pôs uma cabaça com água ao lado dele. Penteou o cabelo com os dedos e refez a trança. As suas mãos estavam manchadas de mercuriocromo, mas não tinha como limpá-las. Botou o reluzente revólver de cano longo no coldre que levava no ombro, apanhou um daqueles rolinhos de dinheiro e saiu andando na direção do rio.
7
Havia várias propriedades grandes ao longo do São Francisco. Fazendeiros ricos valorizavam aquelas terras porque sempre havia água disponível. Luzia não queria pôr os pés nessas fazendas, temendo que estivessem abrigando os soldados. Também havia cabanas de pescadores por todo lado. Diante de uma delas, estava um burro. O animal mascava cacto-palma num pequeno estábulo com telhado de zinco. Dois botes estavam parados junto ao casebre de barro: uma canoa comprida e uma balsa de fundo chato, ambas em terra. Perto da balsa, uma mulher corpulenta batia roupa nas pedras do rio. Tinha os pés mergulhados na água até os tornozelos e esfregava furiosamente.
Luzia ficou espiando ali do mato, como faziam os cangaceiros, à procura de qualquer sinal da presença de soldados. Não viu nada. Olhou as manchas rosadas nas mãos, a camisa suja de sangue, as calças. Por um instante, ficou preocupada com a impressão que poderia causar naquela lavadeira. Mas balançou a cabeça: não tinha tempo para timidez ou vergonha. O sol logo ia se pôr, e ficaria difícil achar o caminho de volta. Enfiou o coldre para debaixo do braço, tentando esconder o revólver. E lá foi ela. A mulher ergueu os olhos da roupa que lavava. Quando viu Luzia, a camisa que estava esfregando lhe escapou das mãos e caiu na água. Ficou paralisada. A expressão do seu rosto era um misto de surpresa e medo, como se uma onça-pintada tivesse acabado de sair do mato. A mulher abriu a boca. Luzia se aproximou, erguendo as mãos.
– Por favor – disse ela. – Preciso de ajuda. – Tratou de manter as costas aprumadas e a voz firme. – O meu... marido está ferido. Não consigo carregá-lo sozinha.
A lavadeira gritou um nome de homem. A sua voz saiu alta e estridente. O sujeito que surgiu da casa de pau a pique era um típico nativo do interior: baixinho e atarracado, de pele morena e cabelo bem preto. A mulher se pôs ao seu lado. Luzia repetiu o seu pedido. Ele a fitou por um bom momento, de cara séria.
– Tenha piedade – disse a moça, sem conseguir impedir que a voz soasse embargada.
– Deixe-me pegar a mula – respondeu o pescador, assentindo com um aceno de cabeça. Passou um arreio de corda pelo focinho do animal e seguiu Luzia mato adentro. Quando chegaram aonde estava o Carcará, ele continuava recostado no tronco da árvore. Tinha a pele amarelada e macilenta, da cor de um ovo estragado. O pescador examinou o corpo do cangaceiro, a perna enfaixada.
– Ele está vivo, só está ferido – disse a moça. – Precisamos atravessar o rio.
O pescador olhou para o céu, como se pedindo inspiração, e suspirou.
– Vai ter de me ajudar a botá-lo no lombo da mula – disse ele.
Juntos, ergueram o Carcará e o puseram sobre o animal. Ele só entreabriu os olhos uma única vez, quando, sem querer, Luzia esbarrou na perna ferida. Deitaram-no de bruços. Como a mula era baixa, os seus pés quase roçavam o chão. O pescador foi puxando o animal bem devagar, com Luzia ao seu lado, segurando firme no braço do cangaceiro que ia escorregando para a frente e para trás ali em cima. A certa altura, tiveram de parar para ajeitá-lo. Já na margem do rio, levaram-no para a balsa de fundo chato e o envolveram com uma manta. Luzia não conseguia ver a outra margem: tudo estava turvo. O pescador os transportou para o outro lado, usando uma vara bem grande que ia mergulhando na água e retirando logo a seguir.
O sol poente ainda brilhava, fazendo o rio reluzir como a seda amarela do coronel Clóvis. A balsa balançava e sacolejava, deixando Luzia enjoada. A água respingava nas suas calças. Do lado da Bahia, a margem era rochosa e irregular. Assim que encostaram o barco, o pescador assobiou. Um rapaz saiu de um casebre isolado. Luzia se empertigou toda, para parecer mais alta ainda. Ficou parada ali, com as pernas bem afastadas, como faria um homem, e não baixou os olhos quando o jovem se aproximou deles.
– Ele precisa ser tratado – disse, apontando para o corpo envolto na manta que jazia no fundo da balsa.
– Há um sítio aqui perto – falou o moço, baixinho, sem erguer os olhos. – Lá tem um médico, um médico de verdade. Posso lhe mostrar o caminho.
Puseram o Carcará no lombo da égua do rapaz e o pescador voltou para a sua balsa. Luzia o deteve. Tirou do bornal o rolinho de notas de mil-réis e ofereceu a ele.
– Ajudei vocês porque sou um homem de Deus – disse ele, balançando a cabeça. – Não quero confusão para o meu lado. Quem aceita dinheiro roubado não é melhor que o próprio ladrão.
Virou-se, então, e foi empurrando o barco de volta para o rio.
8
Luzia esperava ver um veterinário ou um curandeiro morando num casebre repleto de plantas secas e cascas de árvore. Quando o rapaz a levou até o portão de um sítio com uma casa branca, ficou desconfiada. Não entrou.
– Chame ele aqui fora – disse ela, segurando as rédeas da égua. – Só entro depois que o vir.
Ficou parada ali, junto às pilastras do portão, perguntando-se, aflita, se o animal aguentaria o seu peso e o do Carcará. Ele estava deitado de bruços no lombo da égua, como um cadáver. Um homem de meia-idade veio saindo da casa, trazendo nas mãos uma lamparina de querosene. Não parecia um coronel, nem um soldado. Era bem magro, de ombros caídos e pescoço recurvado, como se o peso da cabeça fosse maior do que o corpo conseguia suportar. O cabelo estava molhado e lhe cobria as orelhas. O sujeito usava uma camisa bem-passada e óculos de aro dourado, que brilhavam como uma joia no seu rosto. As lentes aumentavam o tamanho dos seus olhos, fazendo-os parecer redondos e saltados como os de um passarinho recém-nascido.
– Você interrompeu o meu jantar – disse ele, erguendo a lamparina e dirigindo-se a Luzia.
– Ele levou um tiro – retrucou a moça, apontando para a égua às suas costas.
– Sinto muito, mas não cuido de animais – retrucou o homem.
– Ele não é um animal – exclamou Luzia, zangada ao ver que o sujeito se mostrava impaciente.
Pegou a lamparina das mãos dele para iluminar o lombo da égua. Quando viu o corpo envolto na manta, o médico abriu o portão e mandou que entrassem.
Deitaram o Carcará numa mesa de madeira comprida que ficava na cozinha. Uma criada já idosa pôs um caldeirão com água no fogo. Quando a água já estava fervendo, o médico jogou ali dentro uma série de instrumentos de metal. Depois, encheu outra vasilha, arregaçou as mangas e lavou as mãos. Assim como a sua cabeça, suas mãos eram excepcionalmente grandes e brancas. Ele retirou as ataduras da perna do Carcará. A bandagem velha tinha grudado no ferimento. Com todo o cuidado, o médico a soltou e a puxou com firmeza para arrancá-la. O cangaceiro estremeceu. Abriu os olhos, tentando se sentar, mas o outro o obrigou a deitar novamente.
– A sua perna está infeccionada – disse ele, aproximando-se do rosto do Carcará. – Vou limpá-la e retirar o que quer que esteja alojado aí dentro.
O cangaceiro olhou o cômodo à sua volta. Quando avistou Luzia, relaxou. O médico abriu uma garrafa de cachaça e a aproximou da boca do Carcará, dizendo:
– Tome, beba isso.
O lado esquerdo da boca do cangaceiro se retorceu.
– Beba você primeiro – disse ele, com voz rouca e fraca.
– Não ganho nada envenenando você – retrucou o outro, aproximando ainda mais a garrafa da sua boca. – Se eu não fizer nada você vai morrer do mesmo jeito. Agora beba.
O Carcará o fitou. Depois, voltou os olhos para Luzia. Engoliu a cachaça até o líquido começar a escorrer pelos cantos dos lábios. Então, tossiu e se deitou novamente.
– Vou virá-lo – disse o médico. – Precisamos amarrar os braços e as pernas dele.
Fez um gesto para Luzia e os dois viraram o cangaceiro de bruços. Mais que depressa, a velha criada amarrou vários panos de prato um no outro e os entregou ao patrão, que prendeu bem firme os pulsos e os tornozelos do Carcará às pernas da mesa.
– Você – disse o médico, dirigindo-se a Luzia pela primeira vez –, segure a cabeça e os ombros dele.
Não quero que ele se mexa.
A criada trouxe para a cozinha umas dez lamparinas que estavam espalhadas pela casa. Todas chispavam e sibilavam. O cômodo ficou claríssimo. Luzia se inclinou sobre a cabeça do Carcará. O seu rosto estava virado, deixando o lado desfigurado para baixo. Tinha os olhos abertos. Por causa do defeito físico, a moça se debruçou e apoiou ambos os braços com bastante força nos seus ombros. A respiração do homem estava curta e ofegante. Cada vez que exalava, Luzia sentia o cheiro da cachaça.
O médico jogou iodo nas mãos e limpou a perna do Carcará. Quando pegou os seus instrumentos, Luzia baixou os olhos. Manteve-os fixados na camisa manchada do cangaceiro, no seu cabelo embaraçado. Ao seu redor, as lamparinas logo deixaram a cozinha bem quente. Parecia até que ela estava de novo na caatinga, ao meio-dia. O suor fazia os seus olhos arderem. O cheiro de querosene a estava deixando meio tonta. Ali, à sua frente, o corpo do Carcará se enrijeceu. Ele tentou erguer o torso. Tentou soltar os braços dos panos que os prendiam.
– Trate de distraí-lo – disse o médico, rispidamente.
O seu rosto estava corado. Os seus olhos, imensos. A camisa estava colada ao corpo.
Luzia inclinou mais o corpo, apoiando-se com mais força nas costas do Carcará. Baixou a cabeça, ficando com a boca bem próxima do cabelo dele. Não sabia o que dizer ou como lhe falar. Só conseguia pensar na dor que ele devia estar sentindo e em como, em menor escala, era capaz de compreendê-la.
– Quando eu era pequena, caí de uma árvore... – principiou.
O médico recomeçou a cutucar o ferimento. O Carcará voltou a se enrijecer. Luzia ergueu o tom de voz. Contou a história da mangueira, falou do silêncio que se seguiu ao tombo, do unguento à base de manteiga que a encanadeira a fizera usar e do cheiro azedo que ele tinha. Falou de Emília, do quartinho dos santos na cozinha de tia Sofia, da promessa que ela tinha feito a santo Expedito e das marcas que os seus joelhos deixaram no chão. O corpo do Carcará relaxou.
Ouviu-se o ruído de metal batendo na porcelana da tigela. Depois, o barulho de uma rolha, o chiado do ácido fenólico cauterizando o ferimento e o cheiro de pelos queimados. O médico suspirou. Sob os seus braços, o Carcará estremeceu e relaxou.
9
O Dr. Eronildes Epifânio era de Salvador. Estudou medicina na Universidade Federal, mas acabou abandonando a profissão e comprando uma vasta extensão de terras às margens do São Francisco.
– Foi uma desilusão de amor – sussurrou a criada.
Ela fumava um cachimbo de sabugo de milho que trocava de um lado para o outro entre as gengivas escuras. Contou que o Dr. Eronildes estava noivo em Salvador, mas a moça pegou dengue e ele não conseguiu curá-la. Depois que ela morreu, o médico deixou a cidade, desgostoso da vida. Ainda guardava um retrato bem grande da noiva em cima de um console. Luzia o tinha visto quando chegou àquela casa. Era uma moça de pescoço comprido e excepcionalmente pálida.
– Branca! – exclamou a criada, rindo. – Que nem um tapuru!
Luzia estremeceu. Não gostava muito de insetos, muito menos daqueles vermezinhos translúcidos que moravam nas goiabas. A velha lhe deu um sabonete perfumado e uma toalha. No meio do quarto de hóspedes do Dr. Eronildes, havia uma banheira metálica que a criada tinha enchido com água fervente. O aposento era escassamente mobiliado, tendo apenas uma velha cama de madeira e uma penteadeira com espelho. Naquela noite, depois da operação, haviam transportado o Carcará para um quartinho junto da cozinha. Deitaram-no num catre de vaqueiro, feito de couro de boi esticado e preso a quatro paus. Luzia tinha dormido no chão, ao seu lado. Até se deitar ali, não havia percebido como estava cansada. Cada músculo do seu corpo parecia pulsar debaixo da pele. Pegou no sono e só acordou quando o sol já tinha nascido, com a criada vindo despertá-la, dizendo que fosse tomar um banho. Era uma insistência do Dr. Eronildes.
Luzia não tinha nenhum parasita. Os cangaceiros tinham um remédio contra piolhos: uma pasta feita com caroços de pinha esmagados, misturados com óleo de pequi. Passavam o preparado na cabeça e ficavam ao sol. Mesmo assim, a moça não se opôs às ordens do médico. Havia meses que não tomava um banho de verdade. No mato, acostumara-se a se lavar furtivamente e às pressas, arregaçando as calças o máximo possível e jogando água no corpo. Depois, agachava-se, baixava as calças e repetia os mesmos gestos. Na hora de lavar a parte superior do tronco, não tirava a camisa. Por baixo dela, dava um jeito de jogar água no peito, nas costas e nas axilas. Quando não havia água suficiente, simplesmente não se lavava.
A criada idosa não saiu do quarto. Sentou-se num banquinho, de costas para a banheira, e ficou falando enquanto a moça se banhava. Estava louca para conversar com outra mulher, mesmo que fosse uma cangaceira usando calças compridas. De quando em quando, virava a cabeça para espiar. Tratava de voltar à posição anterior sempre que Luzia a pegava espreitando. A moça, porém, não se aborrecia com aquela curiosidade. Ela própria estava curiosa a seu respeito. Na parede à sua frente, ficava o espelho da penteadeira, grande e redondo. Luzia viu-se refletida nele. O espelho lhe revelou que ela parecia uma boneca de pano malfeita: mãos, pés e rosto de uma cor, o resto do corpo de outra. Uma marca vermelha cobria a parte interna das suas coxas, onde o tecido das calças ficava roçando. O cabelo estava todo embaraçado e mais claro nas pontas. As bochechas e o nariz eram cobertos de sardas nos pontos em que a pele havia queimado e descascado. Agora que o seu rosto estava mais escuro, os seus olhos pareciam ainda mais verdes. Os seios eram miúdos, com mamilos da mesma cor morena das mãos. Nos ombros, havia uns calos pequenos, por causa dos bornais e das cabaças de água. Os ossos da bacia saltavam por baixo da pele, lembrando uma cabra que tinha visto, com o couro esticado nos quadris por causa do peso das tetas. Logo abaixo do pescoço bronzeado, os ossos formavam um profundo V.
Quando ela acabou de tomar banho, a criada lhe estendeu uma trouxa florida.
– É um vestido – disse a velha. – Não é certo uma mulher ficar andando de calças. Esta não era a intenção do Senhor.
As calças de Luzia estavam sujas e manchadas de sangue. O vestido ficou largo na cintura e curto, mas teria de servir. Mais tarde, as duas mulheres levaram uma bacia com água quente até a cama do Carcará. A criada o ergueu. Ele gemeu, mas não acordou. Havia uma crosta de sangue nas suas mãos. Uma marca de sujeira lhe descia pelo pescoço. A velha tentou tirar a camisa imunda que o cangaceiro estava usando, mas não conseguia segurá-lo sozinha.
– Não é hora de ter vergonha, menina – esbravejou ela, sempre com aquele cachimbo na boca. – Ajude aqui.
Luzia tirou a camisa do Carcará. A pele dele estava ardendo em febre. A criada pegou uma peixeira afiada para cortar o que restava das suas calças manchadas. Por baixo delas, o cangaceiro estava usando um short de lona.
– Você é que vai ter de cuidar dele – disse a velha, entregando-lhe uns trapos e um pedaço de sabão. – Tenho as minhas coisas para fazer.
Recolheu as roupas sujas e foi embora. Luzia olhou para a porta e, depois, para a bacia. A água ia esfriar se não começasse de uma vez. Ele podia pegar um resfriado. Respirou fundo. Ia lavá-lo como media os defuntos lá em Taquaritinga: de forma rápida e eficiente, olhando para cada pedaço em si e não para o todo. Começou pelas medalhas dos santos, desatando os fios vermelhos e abrindo os cordões de ouro. O Carcará se remexeu, mas não acordou. A moça passou um pano úmido nos olhos dele, no osso quebrado do seu nariz, na cicatriz branca, no pescoço moreno.
Segurava o paninho com toda a força. Não queria que ele lhe caísse das mãos. Partes do corpo dele eram escuras: as mãos, os dedos gordos, os tornozelos e os pés. Ali, a pele era grossa e enrugada como uma casca de laranja. Outras partes, porém, não ficavam expostas ao sol e aos espinhos da caatinga: o meio das costas, a parte interna das pernas e dos braços eram claras e macias, como a pele de um bebê. Os mamilos eram miúdos e redondos, com uma tonalidade arroxeada, como se tivessem posto duas framboesas no seu peito. E havia pelos, alguns alourados e fininhos, outros espessos e escuros, parecendo linha. Na cintura, no local em que ficava habitualmente a cartucheira, a pele era mais escura e calejada. O cinturão esfolara aquele trecho, formando um anel ao seu redor. Havia também outras cicatrizes. Algumas eram brilhantes e redondas como moedas. Outras tinham o formato de estrelas, com pontas aguçadas, feito a macambira. E outras tantas eram bem miudinhas, sem feitio definido: picadas de insetos que ele coçara demais, ou talvez as ferroadas das abelhas que o atacaram em criança.
Luzia deixou de lado o paninho. Com a ponta do dedo, apertou uma daquelas marcas redondas.
Uma vez, muito tempo atrás, folheara as revistas Fon Fon de Emília. Leu aquelas orações bobas, as receitas e as simpatias. Tudo no intuito de se conquistar o coração de um homem. O coração, diziam os textos, era o instrumento do amor. Luzia não acreditava em nada daquilo. Já tinha visto inúmeros corações; já os tinha segurado nas mãos. O das vacas era grande como a cabeça de um recém-nascido. O das galinhas tinha o feitio de uma lágrima, era escorregadio, do tamanho de um cajá. O das cabras ficava no meio, parecendo uma manga miúda. Independentemente do tamanho que tinham, todos eram rijos e cheios de músculos. Feitos para o trabalho, para serem eficientes, e não para amar.
Quando era pequena, tia Sofia a ensinou a limpar uma galinha. E vivia alertando-a para prestar atenção a um órgão miúdo, do tamanho de uma unha, que ficava preso aos rins. Era verde e escorregadio. A tia não sabia como o tal órgão se chamava nem para que existia. Mas, se ele não fosse retirado ou se a gente o perfurasse, a carne ficaria imprestável, inteiramente azeda. Luzia sempre se perguntou se esse órgão também existia nos seres humanos. Agora, sabia que devia existir. Que aquela coisinha – frágil, luzidia, perigosa – era o oposto do coração. E ela sim, achava a moça, era o instrumento do amor.
– Esse ferimento é impressionante.
O Dr. Eronildes estava parado no vão da porta. Luzia tirou o dedo da perna do Carcará e voltou a pegar o paninho. O médico veio entrando. Estava usando perfume, mas não era algo forte como o Fleur d’Amour, usado pelos cangaceiros. Cheirava a sabonete e a limpeza, como um lençol engomado.
– Sabe como aconteceu? – indagou o Dr. Eronildes, ajeitando os óculos no nariz.
– Foi um tiro – respondeu Luzia. – Você viu a bala.
O surgimento do médico a tinha deixado desconcertada e, sem querer, a moça se viu chamando-o de “você” e não de “senhor”, ou de “senhor doutor”.
– Não estou falando da perna – prosseguiu ele, imperturbável. – Estou falando do rosto. Dessa cicatriz – acrescentou, aproximando-se. O Carcará se remexeu no seu sono febril. – Chega quase até a orelha. Acho que o nervo facial foi parcialmente atingido, mas não de todo. É por isso que ele ainda tem alguns movimentos na sobrancelha e no lado direito da boca. Se o nervo tivesse sido seccionado, ele não conseguiria falar direito.