Há Dois Mil Anos

Chico Xavier · Capítulo 1 de 21

Páginas do PDF

Há Dois Mil Anos

Na intimidade de Emmanuel

 

Ao Leitor

Leitor, antes de penetrares o lim iar desta história, é j usto apresentem os à tua curiosidade algum as observações de Em m anuel, o ex-senador Públio Lentulus, descendente da orgulhosa "gens Cornelia", recebidas desse generoso Espírito, na intim idade do grupo de estudos espiritualistas de Pedro Leopoldo, Estado de Minas Gerais.

Através destas observações ficarás conhecendo as prim eiras palavras do Autor, a respeito desta obra, e suas im pressões m ais profundas, no curso do trabalho, que foi levado a efeito de 24 de outubro de 1938 a 9 de fevereiro de 1939, segundo as possibilidades de tem po do seu m édium e sem perturbar outras atividades do próprio Em m anuel, j unto aos sofredores que frequentem ente o procuram , e j unto ao esforço de propaganda do Espiritism o cristão na Pátria do Cruzeiro.

Em 7 de setem bro de 1938, afirm ava ele em pequena m ensagem endereçada aos seus am igos encarnados:

- "Algum dia, se Deus m o perm itir, falar-vos-ei do orgulhoso patrício Públio Lentulus, a fim de algo aprenderdes nas dolorosas experiências de um a alm a indiferente e ingrata.

"Esperem os o tem po e a perm issão de Jesus."

Em m anuel não esqueceu a prom essa. Com efeito, em 21 de outubro do m esm o ano, voltava a recordar, noutro com unicado fam iliar:

- "Se a bondade de Jesus nos perm itir, iniciarem os o nosso esforço, dentro de alguns dias, esperando eu a possibilidade de grafarm os as nossas lem branças do tem po em que se verificou a passagem do Divino Mestre sobre a face da Terra.

"Não sei se conseguirem os realizar tão bem , quanto desej am os, sem elhante intento. De antem ão, todavia, quero assinalar m inha confiança na Misericórdia do Nosso Pai de Infinita Bondade."

De fato, em 24 de outubro referido, recebia o m édium Xavier a prim eira página deste livro e, no dia seguinte, Em m anuel voltava a dizer:

- "Iniciam os, com o am paro de Jesus, m ais um despretensioso trabalho. Perm ita Deus que possam os levá-lo a bom term o.

"Agora verificareis a extensão de m inhas fraquezas no passado, sentindo-m e, porém , confortado em aparecer com toda a sinceridade do m eu coração, ante o plenário de vossas consciências. Orai com igo, pedindo a Jesus para que eu possa com pletar esse esforço, de m odo que o plenário se dilate, além do vosso m eio, a fim de que a m inha confissão sej a um roteiro para todos."

Durante todo o esforço de psicografia, o Autor deste livro não perdeu ensej o de ensinar a hum ildade e a fé a quantos o acom panham . Em 30 de dezem bro de 1938, com entava, em nova m ensagem afetuosa:

- "Agradeço, m eus filhos, o precioso concurso que m e vindes prestando. Tenho-m e esforçado, quanto possível, para adaptar um a história tão antiga ao sabor das expressões do m undo m oderno, m as, em relatando a verdade, som os levados a penetrar, antes de tudo, na essência das coisas, dos fatos e dos ensinam entos.

"Para m im essas recordações têm sido m uito suaves, m as tam bém m uito am argas. Suaves pela rem em oração das lem branças am igas, m as profundam ente dolorosas, considerando o m eu coração em pedernido, que não soube aproveitar o m inuto radioso que soara no relógio da m inha vida de Espírito, há dois m il anos.

"Perm ita Jesus que eu possa atingir os fins a que m e propus, apresentando, nesse trabalho, não um a lem brança interessante acerca de m inha pobre personalidade, m as, tão som ente, urna experiência para os que hoj e trabalham na sem eadura e na seara do Nosso Divino Mestre."

De outras vezes, Em m anuel ensinava aos seus com panheiros encarnados a necessidade de nossa ligação espiritual com Jesus, no desem penho de todos os trabalhos. No dia 4 de j aneiro de 1939, grafava ele esta prece, ainda com respeito as m em órias do passado rem oto:

"Jesus, Cordeiro Misericordioso do Pai de todas as graças, são passados dois m il anos e m inha pobre alm a ainda revive os seus dias am argurados e tristes!...

"Que são dois m ilênios, Senhor, no relógio da Eternidade? "Sinto que a tua m isericórdia nos responde em suas ignotas profundezas... Sim , o tem po é o grande tesouro do hom em e vinte séculos, com o vinte existências diversas, podem ser vinte dias de provas, de experiências e de lutas redentoras.

"Só a tua bondade é infinita! Som ente tua m isericórdia pode abranger todos os séculos e todos os seres, porque em Ti vive a gloriosa síntese de toda a evolução terrestre, ferm ento divino de todas as culturas, alm a sublim e de todos os pensam entos.

"Diante de m eus pobres olhos, desenha-se a velha Rom a dos m eus pesares e das m inhas quedas dolorosas... Sinto-m e ainda envolto na m iséria de m inhas fraquezas e contem plo os m onum entos das vaidades hum anas... Expressões políticas, variando nas suas características de liberdade e de força, detentores da autoridade e do poder, senhores da fortuna e da inteligência, grandezas efêm eras que perduram apenas por um dia fugaz!... Tronos e púrpuras, m antos preciosos das honrarias terrestres, togas da falha j ustiça hum ana, parlam entos e decretos supostos irrevogáveis!... Em silêncio, Senhor, viste a confusão que se estabelecera entre os hom ens inquietos e, com o m esm o desvelado am or, salvaste sem pre as criaturas no instante doloroso das ruínas suprem as... Deste a m ão m isericordiosa e im aculada aos povos m ais hum ildes e m ais frágeis, confundiste a ciência m entirosa de todos os tem pos, hum ilhaste os que se consideravam grandes e poderosos!...

"Sob o teu olhar com passivo, a m orte abriu suas portas de som bra e as falsas glórias do m undo foram derruídas no torvelinho das am bições, reduzindo-se todas as vaidades a um acervo de cinzas!...

"Ante m inhalm a surgem as rem iniscências das construções elegantes das colinas célebres; vej o o Tibre que passa, recolhendo os detritos da grande Babilônia im perial, os aquedutos, os m árm ores preciosos, as term as que pareciam indestrutíveis... Vej o ainda as ruas m ovim entadas, onde um a plebe m iserável espera as graças dos grandes senhores, as esm olas de trigo, os fragm entos de pano para resguardarem do frio a nudez da carne.

"Regurgitam os circos... Há um a aristocracia do patriciado observando as provas elegantes do Cam po de Marte e, em tudo, das vias m ais hum ildes até os palácios m ais suntuosos, fala-se de César, o Augusto!...

"Dentro dessas recordações, eu passo, Senhor, entre farraparias e esplendores, com o m eu orgulho m iserável! Dos véus espessos de m inhas som bras, tam bém eu não te podia ver, no Alto, onde guardas o teu sólio de graças inesgotáveis...

"Enquanto o grande Im pério se desfazia em suas lutas inquietantes, trazias o teu coração no silêncio e, com o os outros, eu não percebia que vigiavas!

"Perm itiste que a Babel rom ana se levantasse m uito alto, m as, quando viste que se am eaçava a própria estabilidade da vida no planeta, disseste: - "Basta! São vindos os tem pos de operar-se na seara da Verdade!" E os grandes m onum entos, com as estátuas dos deuses antigos, rolaram de seus pedestais m aravilhosos! Um sopro de m orte varreu as regiões infestadas pelo vírus da am bição e do egoísm o desenfreado, despovoando-se, então, a grande m etrópole do pecado. Ruíram os circos form idandos, caíram os palácios, enegreceram -se os m árm ores luxuosos...

"Bastou um a palavra tua, Senhor, para que os grandes senhores voltassem às m argens do Tibre, com o escravos m isérrim os!... Peram bulam os, assim , dentro da nossa noite, até o dia em que nova luz brotara em nossa consciência. Foi preciso que os séculos passassem , para aprenderm os as prim eiras letras de tua ciência infinita, de perdão e de am or!

"E aqui estam os, Jesus, para louvar-te a grandeza! Dá que possam os recordar-te em cada passo, ouvir-te a voz em cada som distraído do cam inho, para fugirm os da som bra dolorosa!... Estende-nos tuas m ãos e fala-nos ainda do teu Tem os sede im ensa daquela água eterna da vida, que figuraste no ensinam ento à Sam aritana...

"Exército de operários do teu Evangelho, nós nos m ovem os sob as tuas determ inações suaves e sacrossantas! Am para-nos, Senhor, e não nos retires dos om bros a cruz lum inosa e redentora, m as aj uda-nos a sentir, nos trabalhos de cada dia, a luz eterna e im ensa do teu Reino de paz, de concórdia e de sabedoria, em nossa estrada de luta, de solidariedade e de esperança!..."

Em 8 de fevereiro últim o, véspera do térm ino da recepção deste livro, agradecia Em m anuel o concurso de seus com panheiros encarnados, em com unicado fam iliar, do qual destacam os algum as frases:

- "Meus am igos, Deus vos auxilie e recom pense. Nosso m odesto trabalho está a term inar. Poucas páginas lhe restam e eu vos agradeço de coração.

"Reencontrando os Espíritos am igos das épocas m ortas, sinto o coração satisfeito e confortado ao verificar a dedicação de todos ao firm e pensam ento de evolução, para a frente e para o alto, pois não é sem razão de ser que hoj e laboram os na m esm a oficina de esforço e boa vontade.

"Jesus há-de recom pensar a cota de esforço am igo e sincero que m e prestastes e que a sua infinita m isericórdia vos abençoe é a m inha oração de sem pre."

Aqui ficam algum as das anotações íntim as de Em m anuel, fornecidas na recepção deste livro. A hum ildade desse generoso Espírito vem dem onstrar que no plano invisível há, tam bém , necessidade de esforço próprio, de paciência e de fé para as realizações.

As notas fam iliares do Autor são um convite para que todos nós saibam os orar, trabalhar e esperar em Jesus-Cristo, sem desfalecim entos na luta que a bondade divina nos oferece para o nosso resgate, no cam inho da redenção.

Pedro Leopoldo, 2 de m arço de 1939.

A EDITORA