Há Dois Mil Anos
IX Lembranças amargas
Logo após os penosos acontecim entos de 70 e de conform idade com os desej os de Flávia, o senador passou a residir na vivenda confortável que ele possuía em Pom peia, longe dos bulícios da Capital. Ali poderia entregar-se m elhor às suas m editações.
Para lá transportara então, o velho político, todo o seu volum oso arquivo, bem com o as lem branças m ais carinhosas e m ais im portantes da sua vida.
Dois libertos gregos, extrem am ente cultos, foram contratados para os trabalhos de escrita e leitura, e assim é que, no seu retiro, se m antinha ao corrente de todas as novidades políticas e literárias de Rom a.
Nesses tem pos recuados, quando o hom em se encontrava ainda longe dos benefícios preciosos da invenção de Gutenberg, os m anuscritos rom anos eram raros e sum am ente disputados pelas elites intelectuais da época. Um a casa editora dispunha, quase sem pre, de um a centena de escravos calígrafos, inteligentes, que confeccionavam m ais ou m enos m il livros por ano.
Públio, além disso possuía em Rom a sinceras e num erosas am izades ao seu serviço, recebendo em Pom peia todos os ecos dos acontecim entos da cidade que lhe absorvera as m elhores energias da vida.
Am iudadam ente, recebia tam bém notícias de Plínio Severus, por interm édio de am igos desvelados, confortando-se com as inform ações sobre sua conduta, agora digna, porquanto, pelos m éritos conquistados nas Gálias, fôra transferido, depois de 73, para Rom a, onde, pela correção do proceder, em bora tardiam ente, conquistara posição respeitável e brilhante, prosseguindo nas tradições da probidade paterna, nos cargos adm inistrativos do Im pério.
Plínio, todavia, não m ais voltara a procurar a esposa nem aquele que o destino o com pelia a considerar com o um pai dedicado e carinhoso, em bora não ignorasse o suprem o infortúnio dos seus fam iliares. No íntim o, o antigo oficial rom ano não desdenhava a idéia de regressar ao seio dos entes queridos; contudo, desej ava fazê-lo em condições de dissipar todas as dúvidas quanto no considerável esforço próprio, de sua regeneração. Galgando postos de confiança na adm inistração dos Flavianos, queria um a posição de m aiores vantagens m orais, de m aneira a levar aos seus íntim os a certeza da sua reabilitação espiritual.
Corria o ano de 78, na placidez das paisagens form osas da Cam pânia. Enquanto Tibur representava um a estação de cura e descanso regenerador para os rom anos m ais ricos, Pom peia era bem a cidade dos rom anos m ais sadios e m ais felizes. Em suas vias públicas encontravam -se, a cada passo, os m árm ores soberbos e o bom gosto das m ais belas construções da capital aristocrática do Im pério. Em seus tem plos suntuosos, aglom eravam -se assem bléias brilhantes, de patrícios educados e cultos, que se instalavam na linda cidade, povoada de cantores e poetas, ao pé do Vesúvio, e ilum inada por um céu de m aravilhas, cheio de ridente sol ou bordado de estrelas cintilantes.
Públio Lentulus, agora, sobrem aneira apreciava a palavra sim ples e convincente de Ana, que envelhecera ao lado de Flávia, qual bela figura de m arfim antigo. Era de lhe ver o interesse, a com oção, a alegria ao ouvi-la sobre a excelência dos princípios cristãos, quando se entretinham em recordações da Judeia distante.
Nessas am áveis palestras, entre os três, logo após o j antar, discutia-se a figura do Cristo e as sublim adas ilações da sua doutrina, conseguindo o senador, pela força das circunstâncias, m editar m elhor os grandiosos postulados do Evangelho, ainda fragm entário e quase desconhecido, para ligar os princípios generosos e santos do Cristianism o à personalidade do seu divino fundador.
Longas horas ficavam ali, no terraço am plo, sob a luz branda das estrelas e usufruindo a carícia das brisas da noite, que eram com o que bafej os de inspirações celestes, aquelas três criaturas, em cuj as frontes se vincavam as experiências dos anos.
Por vezes, Flávia fazia um pouco de m úsica, que lhe saía da harpa com o vibrante gem ido de dor e de saudade, alcançando o coração paterno m ergulhado no abism o das rem iniscências dolorosas. É que a m úsica dos cegos é sem pre m ais espiritualizada e m ais pura, porque, na sua arte, fala a alm a profundam ente, sem as em oções dispersas dos sentidos m ateriais.
Um a noite, obedecendo ao hábito de m uitos anos, vam os encontrar aquelas três criaturas no espaçoso terraço da vila de Pom peia, em doces rem em orações.
Havia m ais de sete anos que quase todas as palestras versavam , ali, sobre a personalidade do Messias e a excelsa pureza da sua doutrina, observada, antes de tudo, a precisa discrição, porquanto os adeptos do Cristianism o continuavam perseguidos, em bora com m enos crueldade.
Em todo caso, invariavelm ente, a conversação era de enferm os e de velhos, sem provocar o interesse dos am igos m ais m oços e m ais felizes.
Depois de algum as lem branças e com entários de Ana, a respeito da angustiosa tarde do Calvário, exclam ava o velho senador em tom convencido:
- De m im para com igo, tenho a certeza de que Jesus ficará para sem pre no m undo, com o o m ais elevado sím bolo de consolação e fortaleza m oral para todos os sofredores e para todos os tristes!...
Desde os prim eiros dias de m inha cegueira m aterial procuro, intim am ente, com preender-lhe n grandeza e não consigo apreender toda a extensão da sua excelsitude e dos seus ensinos.
Lem bro-m e, com o se fosse ontem , do crepúsculo form oso em que o vi pela prim eira vez, ao longo das m argens do Tiberíades...
- Eu tam bém - m urm urou Ana - não consigo olvidar aquelas tardes deliciosas e claras em que todos os servos e sofredores de Cafarnaum nos reuníam os à m argem do grande lago, esperando o suave enlevo das suas palavras.
E com o se estivesse contem plando o desfile de suas recordações m ais queridas, com os olhos da im aginação, a velha serva continuava:
- O Mestre apreciava a com panhia de Sim ão e dos filhos de Zebedeu e, quase sem pre, era em um a de suas barcas que ele vinha, solicito, atender às nossas rogativas...
- O que m ais m e assom brava - dizia Públio Lentulus, im pressionado - é que Jesus não era, que se soubesse, um doutor da Lei ou sacerdote form ado pelas escolas hum anas. Sua palavra, entretanto, estava com o que ungida de um a graça divina. O olhar sereno e indefinível penetrava o fundo da alm a e o sorriso generoso tinha a com placência de quem , possuindo toda a verdade, sabia com preender e perdoar os erros hum anos. Seus ensinos, diariam ente m editados por m im , nestes últim os anos, são revolucionários e novos, pois arrasam todos os preconceitos de raça e de fam ília, unindo as alm as num grande am plexo espiritual de fraternidade e tolerância. A filosofia hum ana j am ais nos disse que os aflitos e pacíficos são bem -aventurados no céu; entretanto, com as suas lições renovadoras, m odificam os o conceito de virtude, que, para o Deus soberano e m isericordioso das Alturas, não está no hom em m ais rico e poderoso do m undo, m as no m ais j usto e m ais puro, em bora hum ilde e pobre.
Sua palavra com passiva e carinhosa espalhou ensinam entos que som ente hoj e posso com preender, na som bra espessa e triste dos m eus sofrim entos..
- Meu pai - perguntou Flávia Lentúlia, extrem am ente interessada na conversação -, chegastes a ver o profeta m uitas vezes?...
- Não, filha. Antes do dia nefasto de sua m orte infam ante na cruz, som ente o vi um a vez, ao tem po em que eras pequenina e doente. Isso bastou, contudo, para que eu recebesse, nas suas palavras sublim es, lum inosas lições para toda a vida. Só hoj e entendo as suas exortações am igas, com preendendo que a m inha existência foi bem um a oportunidade perdida!... Aliás, j á naquele tem po, sua profunda palavra m e dizia que eu defrontava, no m inuto do nosso encontro, o m aravilhoso ensej o de todos os m eus dias, acrescentando, na sua extraordinária benevolência, que eu poderia aproveitá-lo naquela época ou daí a m ilênios, sem que m e fosse possível apreender o sentido sim bólico de suas palavras...
- Todas as concessões de Jesus se esteavam na Verdade santificada e consoladora - acrescentou Ana, agora gozando de toda a intim idade com os seus senhores.
- Sim - exclam ou Públio Lentulus, concentrado nas suas rem iniscências -, m inhas observações pessoais autorizam -m e a crer da m esm a form a.
Se eu tivesse aproveitado a exortação de Jesus naquele dia, talvez houvesse alij ado m ais de m etade das provações am argas que a Terra m e reserva... Se houvesse buscado com preender sua lição de am or e hum ildade, teria procurado André de Gioras, pessoalm ente, reparando o m al que lhe havia feito, com a prisão do filho ignorante, dem onstrando-lhe o m eu interesse individual, sem confiar tão som ente nos funcionários irresponsáveis que se encontravam a m eu serviço... Guiado por esse interesse, teria encontrado Saul facilm ente, pois Flam ínio Severus seria, em Rom a, o confidente dos m eus desej os de reparação, evitando dessa m aneira a dolorosa tragédia da m inha vida paternal.
Se houvesse entendido bastante a sua caridade, na cura de m inha filha, teria conhecido m elhor o tesouro espiritual do coração de Lívia, vibrando com o seu espírito na m esm a fé, ou caindo j untam ente com ela na arena ignom iniosa do circo, o que seria suave, em com paração com as lentas agonias do m eu destino; teria sido m enos vaidoso e m ais hum ano, se lhe houvesse entendido a preceito a lição de fraternidade...
- Meu pai - exclam ava, porém , a filha, de m olde a confortar-lhe as agruras do coração -, se Jesus é a sabedoria e a verdade, de qualquer m odo ele saberia com preender as razões da vossa atitude, sabendo que fostes forçado pelas circunstâncias a m anter esse ou aquele princípio em vossa vida.
- Minha filha, nestes últim os anos - revidou Públio ponderadam ente tenho a presunção de haver chegado as m ais seguras conclusões a respeito dos problem as da dor e do destino...
Acredito hoj e, com a experiência própria que as atividades penosas do m undo m e ofertaram , que nós contribuím os, sobretudo, para agravar ou atenuar os rigores da situação espiritual, nas tarefas desta vida. Adm itindo, agora, a existência de um Deus Todo-Poderoso, fonte de toda a m isericórdia e todo o am or, creio que a Sua Lei é a do bem suprem o para todas as criaturas. Esse código de solidariedade e de am or deve reger todos os seres e, dentro dos seus dispositivos divinos, a felicidade é o determ inism o do céu para todas as alm as. Toda vez que caím os ao longo do cam inho, favorecendo o m al ou praticando-o, efetuam os um a intervenção indébita na Lei de Deus, com a nossa liberdade relativa, contraindo um a dívida com o peso dos infortúnios...
Não m e referindo aos m eus atos pessoais, que agravaram as m inhas angustiosas dores íntim as, e considerando Jesus com o m edianeiro entre nós e Aquele a quem a sua profunda palavra cham ava Pai-Nosso, fico hoj e a pensar se não com eti um erro, forçando a sua m isericórdia com a m inha súplica paternal, a fim de que continuasses a viver neste m undo, para o nosso am or em fam ília, quando eras pequenina!...
Flávia Lentúlia e Ana, que acom panhavam os raciocínios do senador, desde m uitos anos, lhe seguiam as conclusões m orais, cheias de surpresa, em face da facilidade íntim a com que sabia aliar as lições penosas do seu destino aos princípios pregados pelo profeta Nazareno.
- Na verdade, m eu pai - disse Flávia Lentúlia, depois de longa pausa , tenho a im pressão de que as forças divinas haviam deliberado arrebatar-m e do m undo, considerando as dores penosas que m e esperavam na estrada escabrosa do m eu destino desventurado...
- Sim - aj untou o senador, cortando-lhe a palavra -, ainda bem que m e com preendeste. A vida e o sofrim ento nos ensinam a entender m elhor o plano das determ inações de ordem divina.
Antigos iniciados das religiões m isteriosas do Egito e da Índia acreditam que voltam os várias vezes à Terra, noutros corpos!...
Nesse instante, o velho patrício fez um a pausa.
Lem brou-se dos seus antigos sonhos, quando, em se vendo com a indum entária de Cônsul nos tem pos de Catilina, infligia aos inim igos políticos o suplício da cegueira, a ferro incandescente, quando se cham ava Públio Lentulus Sura.
Nos seus pensam entos caia com o que um a torrente de ilações novas e sublim adas, com o se fossem renovadoras inspirações da sabedoria divina.
Mas, depois de alguns instantes, com o se o relógio da im aginação houvesse parado alguns m inutos. para que o coração pudesse escutar o tropel das lem branças no deserto do seu m undo subj etivo, m urm urava, confortado, na posse tardia do roteiro do seu am argurado destino:
- Hoj e creio, m inha filha, que, se as energias sábias do céu haviam decidido a tua m orte, em pequenina - determ inação essa que eu possivelm ente contrariei com a m inha súplica angustiosa de pai, descoberta em silêncio pelo Messias de Nazaré no recôndito do m eu orgulhoso e infeliz coração - e que deverias ficar livre do cárcere que te prendia, de m odo a te preparares m elhor para a resignação, para a fortaleza e para os sofrim entos. Certam ente, renascerias m ais tarde e encontrarias as m esm as circunstâncias e os m esm os inim igos, m as terias um organism o m ais forte para resistir aos em bates penosos da existência terrestre.
Reconhecem os hoj e, portanto, que há um a lei soberana e m isericordiosa a que devem os obedecer, sem interferir no seu m ecanism o feito de m isericórdia e sabedoria...
Quanto a m im , que tive organism o resistente e fibra espiritual saturada de energia, sinto que, em outras vidas, procedi m al e com eti crim es nefandos.
Minha atual existência teria de ser um im enso rosário de infinitas am arguras, m as vej o tardiam ente que, se houvesse ingressado no cam inho do bem , teria resgatado um m ontão de pecados do pretérito obscuro e delituoso. Agora entendo a lição do Cristo com o ensinam ento im ortal da hum ildade e do am or, da caridade e do perdão - cam inhos seguros para todas as conquistas do espírito, longe dos círculos tenebrosos do sofrim ento!
E lem brando o sonho que relatara a Flam ínio, nos tem pos idos, concluía:
- A expiação não seria necessária no m undo, para burilam ento da alm a, se com preendêssem os o bem , praticando-o por atos, palavras e pensam entos. Se é verdade que nasci condenado ao suplício da cegueira, em tão trágicas circunstâncias, talvez tivesse evitado a consum ação desta prova, se abandonasse o m eu orgulho para ser um hom em hum ilde e bom .
Um gesto de generosidade de m inha parte teria m odificado as íntim as disposições de André de Gioras; m as, a realidade é que, não obstante todos os preciosos alvitres do Alto, continuei com o m eu egoísm o, com a m inha vaidade e com a m inha crim inosa im penitência. Agravei, desse m odo, m eus débitos clam orosos perante a Justiça Divina, e não posso esperar m agnanim idade dos j uízes que m e aguardam ...
O velho Públio Lentulus tinha um a lágrim a dolorosa no canto dos olhos apagados, m as Ana. que ansiosa lhe escutara as palavras e conceitos, e que se regozij ava intim am ente verificando que o orgulhoso senhor atingira as m ais j ustas conclusões de ordem evangélica, ilações a que tam bém ela havia chegado nas m editações da velhice, esclarecia, bondosam ente, com o se as suas afirm ativas sim ples e incisivas chegassem no m om ento j usto para consolação de todos:
- Senador - todas as vossas observações são criteriosas e j ustas. Essa lei das vidas m últiplas, em favor do nosso aprendizado nas lutas penosas do m undo, eu a aceito plenam ente, pois, nas suas divinas lições, Jesus asseverou que ninguém poderá penetrar o reino dos céus sem renascer de novo. Presum o, todavia, apesar da vossa cegueira m aterial e dos vossos padecim entos, que sei com preender em toda a sua angustiosa intensidade, deveis trazer a alm a plena de crença e de esperanças no futuro espiritual, porque tam bém o Cristo nos afiançou que Nosso Pai não quer que se perca um a só de suas ovelhas!...
Públio Lentulus sentiu que um a força inexplicável lhe brotava no íntim o, com o se fôra m anancial desconhecido, de estranho conforto, preparando-o para enfrentar dignam ente todos os am argores.
- Sim - m urm urou de leve -, sem pre Jesus!... Sem pre Jesus!... Sem ele e sem os ensinos de suas palavras que nos enchem de coragem e de fé para alcançar um reino de paz no porvir da alm a, não sei bem o que seria das criaturas hum anas, agrilhoadas ao cárcere dos sofrim entos terrestres... Sete anos de padecim entos infinitos na soledade dos m eus olhos m ortos, figuram -se-m e sete séculos de aprendizado cruel e doloroso! Som ente assim , porém , poderia chegar a entender a lição do Crucificado!
O velho patrício, todavia, ao pronunciar a palavra "crucificado", reconduziu o pensam ento a Jerusalém , na Páscoa do ano 33. Recordou que tivera em m ãos o processo do Em issário Divino e, só então, ponderou a trem enda responsabilidade em que se vira envolvido naquele dia inolvidável e doloroso, exclam ando depois de longa pausa:
- E pensar que, para um espírito com o aquele, não houve sequer um gesto decisivo de defesa, da nossa parte, no angustioso m om ento da cruz infam ante A m im , que agora vivo tão som ente das m inhas recordações am argas, parece-m e vê-lo ainda à frente dos m eus olhos, com os tristes estigm as da flagelação!...
Nele, concentrava-se todo o am or suprem o do céu para redenção das m isérias da Terra e, entretanto, não vi pessoa algum a trabalhar pela sua liberdade, ou agir efetivam ente em seu favor!...
- Menos alguém ... - exclam ou Ana, inopinadam ente.
Quem chegou a ter esse gesto nobre? - perguntou o velho cego, adm irado. -Não m e constou que alguém o defendesse.
- É porque ignorastes, até hoj e, que vossa digna consorte e m inha inesquecível benfeitora, atendendo aos nossos rogos, se dirigiu im ediatam ente a Pôncio Pilatos, tão logo o triste cortej o havia saído da corte provincial rom ana, para interceder pelo Messias de Nazaré, inj ustam ente condenado pela m ultidão enfurecida. Recebida pelo governador no seu gabinete particular, foi em vão que a nobre senhora im plorou com paixão e piedade para o Divino Mestre.
- Então Lívia chegou a dirigir-se a Pilatos para suplicar por Jesus? perguntou o senador, interessado e perplexo, recordando aquela tarde angustiosa da sua vida e rem em orando as calúnias de Fúlvia, a respeito da esposa.
- Sim - respondeu a serva -, por Jesus, seu coração m agnânim o desprezou todas as convenções e todos os preconceitos, não vacilando em atender às nossas súplicas, tudo fazendo por salvar o Messias da m orte infam ante!...
Públio Lentulus sentiu, então, grande dificuldade para externar seus pensam entos, com a garganta sufocada de em oção, dentro de suas am argas lem branças, e com os olhos m ortos, m arej ados de lágrim as...
Ana, porém , recordou todos os porm enores daquele dia doloroso, relatando suas passadas em oções, enquanto o senador e a filha lhe escutavam a palavra, tom ados de pranto no cam inho da dor, da gratidão e da saudade.
E era desse m odo que, ao fim de cada dia, sob o céu brilhante e perfum ado de Pom peia, aquelas três alm as se preparavam para as realidades consoladoras da m orte, dentro da claridade terna e triste das lições am argas do destino, na esteira das recordações am igas.