Há Dois Mil Anos

Chico Xavier · Capítulo 16 de 21

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Há Dois Mil Anos

V Nas catacumbas da fé e no circo do martírio

 

No dia im ediato à cena que acabam os de descrever, vam os encontrar, j untas, as duas grandes am igas que, longe de serem a senhora e a serva, eram duas alm as unidas pelos m esm os ideais, ligadas pelos elos m ais santos do coração.

Ana acabava de chegar a casa, depois de cum prir algum as obrigações no Fórum Olitorium , (1) quando, encontrando Lívia m ais a sós, lhe disse confidencialm ente:

__________

(1) Mercado de legum es. - Nota de Em m anuel.

- Senhora, hoj e à noite um a nova voz se levantará no santuário das catacum bas, para as pregações da nossa fé. Am igos nossos m e avisaram , esta m anhã, que, j á há alguns dias, se encontra na cidade um em issário da igrej a de Antioquia, cham ado João de Cleofas, portador de significativas revelações para nós outros, os cristãos desta cidade...

Lívia deixou transparecer um clarão de íntim o contentam ento nos olhos, exclam ando:

- Ah! sim ... havem os de ir hoj e às catacum bas. Tenho necessidade de com ungar com os nossos irm ãos de crença, nas m esm as vibrações da nossa fé! Além disso, preciso agradecer ao Senhor a m isericórdia das suas graças im ensas...

E elevando um pouco a voz, com o se desej asse com unicar à am iga o santo j úbilo de suas esperanças m ais íntim as, exclam ou com terno sorriso a lhe irradiar no sem blante calm o:

- Ana, desde a m orte de Calpúrnia, noto que Públio está m ais sereno e m ais esclarecido... Nestes últim os dias, tem -m e dirigido a palavra com a ternura de outros tem pos, havendo-m e afirm ado, ainda ontem , que seu coração m e reserva doce surpresa para am anhã, depois da sua vitória suprem a na vida pública. Sinto que é m uito tarde para que sej a novam ente feliz neste m undo, m as, em sum a, estou intim am ente satisfeita, porque nunca desej ei m orrer em desarm onia com o com panheiro que Deus m e concedeu para as lutas e alegrias da vida. Acredito que nunca m e perdoará o crim e de infidelidade que j ulga haver eu praticado há vinte e cinco anos, m as choro de contentam ento ao reconhecer que Públio m e sente redim ida, ante a severidade de seus olhos!...

E chorava, com ovida, enquanto a velha criada lhe afiançava com ternura:

- Sim , m inha senhora, talvez tenha ele reconhecido as suas abnegações santificantes no lar, nestes longos anos de sacrifícios abençoados.

- Agradeço a Jesus tam anha m isericórdia - revidou Lívia, sensibilizada. -Suponho m esm o que não estou longe de partir para o m undo das realidades celestes, onde todos os sofredores hão-de ser consolados...

E depois de ligeira pausa, continuou:

- Ainda ontem , quando orava j unto à cruz singela, lá no quarto, ouvi um a voz que m e anunciava o Reino de Jesus para m uito breve.

Ouvindo-a, Ana lem brou-se subitam ente de Sim eão e das horas que antecederam os seus sacrifícios, m ergulhando-se em dolorosas cism as. Suas recordações rem ontavam ao passado longínquo, quando a voz de Lívia novam ente a despertou nestes term os:

- Ana - dizia com as heróicas decisões da sua fé -, não sei com o serei cham ada pelo Messias, m as, na hipótese da m inha breve partida, peço-te continuares nesta casa, no teu apostolado de trabalho e sacrifícios, porque Jesus há-de abençoar-te os labores santificantes.

A antiga serva dos Lentulus queria dar novo rum o à conversação pungente e exclam ou com a serenidade criteriosa que lhe conhecem os:

- Senhora, sabe Deus qual de nós partirá prim eiro. Esqueçam os, hoj e, este assunto para pensar tão som ente nas suas santificadas alegrias.

E, com o para encerrar a angustiada im pressão daquela palestra íntim a, rem atou perguntando, confidencialm ente:

- Então, irem os hoj e, de fato, às catacum bas?

- Sim . Fica com binado. À noitinha, partirem os para as nossas orações e carinhosas lem branças do Messias Nazareno. Tenho necessidade desse desafogo espiritual, após os longos m eses que estive retida j unto da m inha nobre Calpúrnia; além disso, desej o pedir aos nossos irm ãos que orem com igo por ela, testem unhando ao m esm o tem po, ao Senhor, m eu sincero agradecim ento pelas suas graças divinas...

Ao partirm os, peço-te m e atives a m em ória, pois quero levar ao novo apóstolo um a espórtula destinada à igrej a de Antioquia.

Se, am anhã, Públio vai receber o suprem o galardão do hom em do m undo, quero rogar a Jesus não lhe abandone o coração intrépido e generoso, para que as vaidades da Terra não o inibam de buscar, algum dia, o reino m aravilhoso do céu!

Assim entendidas, separaram -se na azáfam a dos m isteres dom ésticos. E enquanto o senador, durante todo o dia, tom ava providências num erosas para que nada faltasse ao brilho pessoal do seu grande triunfo no dia im ediato, Lívia passava as horas, de alm a voltada para o Cristo, em preces fervorosas.

À noitinha, consoante com binaram , lá se foram à secreta reunião das práticas prim itivas do Cristianism o

Todos os servos graduados do palácio viram -nas sair, sem preocupação nem surpresa. Em todo o longo período da m oléstia de Calpúrnia, Lívia e Ana nunca m ais haviam fixado a sua presença no interior do lar e não seria de estranhar que am bas houvessem deliberado buscar a residência dos Severus, naquela noite, de onde, possivelm ente, não voltariam senão no dia seguinte, depois de confortarem o espírito abatido de Flávia, no desdobram ento de seus fadigosos encargos dom ésticos.

Foi assim que as horas passaram , tranquilas e descuidadas; e quando o senador se aproxim ou dos aposentos da esposa, antegozando as profundas alegrias esperadas para o dia seguinte, presum iu, no pesado silêncio ali reinante, a significação do seu calm o repouso, nas asas leves e cariciosas do sono. Im aginando que Lívia descansava na paz soberana da noite, Públio Lentulus recolheu-se ao seu gabinete particular, com o cérebro referto de radiosas esperanças, no propósito de se penitenciar de todos os seus erros do passado.

Lívia, porém , em com panhia de Ana, aproveitara-se das prim eiras som bras da noite para atingir as catacum bas.

Passava das dezenove horas, quando am bas se ocultavam entre as pedras abandonadas que davam acesso aos subterrâneos, onde se am ontoava a velha poeira dos m ortos.

Num vasto espaço abobadado, que servira outrora às assem bléias das cooperativas funerárias, reunia-se grande núm ero de pessoas em torno da figura sim pática e generosa do culto pregador, que chegara da Síria distante. A um canto, erguia-se im provisada tribuna, para onde, dai a m inutos, subia João de Cleofas, dentro do halo de doçura que lhe aureolava a singular individualidade.

O apóstolo de Antioquia trazia à cabeça os prim eiros cabelos brancos e toda a sua figura estava saturada de forte m agnetism o pessoal, que ligava intim am ente a sua personalidade a quantos se lhe aproxim avam , levados pela doce afinidade da crença e dos sentim entos profundos.

Todos os presentes pareciam em polgados por sua palavra sedutora e im pressionante, que se fez ouvir por quase duas horas sucessivas, caindo no coração do auditório com o orvalho sublim e da eloquência celeste. Conceitos elevados e proféticas observações ressoavam pelas arcadas silenciosas e som brias, fracam ente ilum inadas pela claridade de algum as tochas.

De fato, a assem bléia tinha razão de se eletrizar com aquele doloroso e sublim e profetism o, porque João de Cleofas pronunciava profunda alocução, m ais ou m enos nestes term os:

- Irm ãos, sej a convosco a paz do Cordeiro de Deus, Nosso Senhor Jesus-Cristo, na intim idade da vossa consciência e no santuário do vosso coração!...

O santo patriarca de Antioquia, nas suas preces e m editações de cada dia, recebeu num erosas revelações do Messias, ordenando a vinda de um m ensageiro ao am biente de vossos trabalhos na capital do m undo, a fim de anunciar-vos grandes coisas...

Pelas revelações do Espírito Santo, os cristãos desta cidade im piedosa foram escolhidos pelo Cordeiro para o grande sacrifício. E eu vos venho anunciar nossa breve entrada no Reino de Jesus, em nom e dos seus apóstolos bem -am ados!...

Sim , porque aqui, onde todas as glórias divinas foram escarnecidas e hum ilhadas pela im penitência das criaturas, se hão-de travar os prim eiros grandes em bates das forças do bem e do m al, preludiando o estabelecim ento definitivo, no m undo, da divina e eterna m ensagem do Evangelho do Senhor!

Na últim a reunião geral dos crentes de Antioquia, m anifestaram -se as vozes do céu, em línguas de fogo, com o aconteceu nos dias gloriosos do cenáculo dos apóstolos, depois da divina ressurreição do nosso Salvador; e o vosso servo, aqui presente, foi escolhido para em issário dessas noticias confortadoras, porque as vozes celestes nos prom etem o Reino do Senhor, em breves dias...

Am ados, acredito que estam os em vésperas dos m ais atrozes testem unhos da nossa fé, pelos sofrim entos rem issores, m as a cruz do Calvário deverá ilum inar a penosa noite dos nossos padecim entos...

Eu tam bém tive a felicidade de ouvir a palavra do Senhor, nas horas derradeiras da sua dolorosa agonia, à face deste m undo. E que pedia ele, m eus queridos, senão o perdão infinito do Pai para os algozes im placáveis que o atorm entavam ? Sim , não duvidem os das revelações do céu... Verdugos inflexíveis rondam nossos passos e eu vos trago a m ensagem do am or e da fortaleza em Nosso Senhor Jesus-Cristo!

Rom a batizará sua nova fé com o sangue dos j ustos e dos inocentes; m as, tam bém im porta considerar que o Cordeiro im áculo de Deus Todo-Poderoso se im olou no m adeiro infam ante, para resgatar os pecados e aviltam entos do m undo!...

Andarem os, talvez, nestas vias suntuosas, com o em novas ruas de um a Jerusalém apodrecida, cheia de desolação e de am argura... Clam am as vozes celestes que, aqui, serem os desprezados, hum ilhados, vilipendiados e vencidos; m as, a vitória suprem a do Senhor nos espera além das palm as espinhosas do m artírio, nas claridades doces do seu reino, inacessível ao sofrim ento e à m orte!...

Lavarem os com o nosso sangue e as nossas lágrim as a iniquidade destes m árm ores preciosos, m as, um dia, irm ãos m eus, toda esta Babilônia de inquietação e de pecado ruirá, fragorosam ente, ao peso de suas m isérias ignóbeis... Um furacão destruidor derrubará os falsos ídolos e confundirá as pretensiosas m entiras dos seus altares... Torm entas dolorosas do exterm ínio e do tem po farão chover sobre este Im pério poderoso as ruínas da pobreza e do m ais triste esquecim ento... Os circos da im piedade hão-de desaparecer sob um punhado de cinzas, o Fórum e o Senado dos im penitentes hão-de ser confundidos pela suprem a j ustiça divina, e os guerreiros orgulhosos desta cidade pecadora rastej arão um dia, com o verm es, pelas m argens do m esm o Tibre que lhes carreia a iniquidade!...

Então, novos Jerem ias hão-de chorar sobre os m árm ores, à piedosa luz da noite... os suntuosos palácios destas colinas soberbas e donosas cairão em penoso torvelinho de assom bros e, sobre os seus m onum entos de orgulho, de egoísm o e vaidade, gem erão os ventos tristes das noites silenciosas e desertas...

Felizes todos aqueles que chorarem agora, por am or ao Divino Mestre; venturosos todos os que derram arem seu sangue pelas sublim es verdades do Cordeiro, porque no céu existem as m oradas divinas para os bem -aventurados de Jesus...

Falava a voz suave e terrível do em issário da igrej a de Antioquia e suas palavras ressoavam no profundo silêncio das abóbadas erm as.

Cerca de duas centenas de pessoas ali se encontravam , ouvindo-o atentam ente.

Quase todos os cristãos presentes choravam , em bevecidos. No íntim o das alm as pairava um a exaltação suave e m ística, fazendo-lhes sentir as doces em oções de todos aqueles apóstolos anônim os, que tom baram nas arenas ignom iniosas dos circos, para cim entar com sangue e lágrim a a edificação da nova fé.

Depois das profecias singulares e dolorosas, que encheram todos os olhares de clarões indefiníveis de alegria interior, na antevisão do glorioso Reino de Jesus, João foi consultado por num erosos confrades a respeito de vários assuntos de interesse geral para a m archa e desenvolvim ento da nova doutrina, tal com o acontecia nas prim itivas assem bléias do Cristianism o nascente, e a todos atendia com as m ais francas expressões de bondade fraterna.

Interpelado, por um dos presentes, quanto ao m otivo de sua alegria radiosa, quando as revelações do Espírito Santo anunciavam tão grandes provações e tantos padecim entos, o generoso em issário respondeu com sublim ado otim ism o:

- Sim , m eus am igos, não podem os esperar senão o sagrado cum prim ento das profecias anunciadas, m as devem os considerar com j úbilo que se Jesus perm ite aos ím pios a realização de m onum entos m aravilhosos, com o os desta cidade suntuosa e apodrecida, que não reservará ele, na sua infinita m isericórdia, aos hom ens bons e j ustos, nas claridades do seu Reino?

Aquelas respostas consoladoras caiam na alm a da num erosa assem bléia, com o bálsam o dulcificante.

Palavras de am or e saudações afetuosas eram trocadas entre todos, com as m ais doces dem onstrações de j úbilo e fraternidade.

Lívia e Ana tinham um clarão de alegria íntim a a lhes brilhar nos olhos calm os.

Ao fim da reunião, todos se levantaram para as preces singelas e espontâneas das prim itivas lições do Cristianism o, em fontes puras.

A voz do em issário de Antioquia, ainda um a vez, se fez ouvir, brilhante e clara:

- Pai Nosso, que estais nos céus, santificado sej a o vosso nom e, venha a nós o vosso Reino de m isericórdia, sej a feita a vossa vontade, assim na Terra, com o nos Céus...

Todavia, nesse instante, a palavra m eiga e com ovedora foi abafada por sinistro tinir de arm aduras.

- É aqui, Luculo!... - gritava a voz estentórica do centurião Clódio Varrus, que avançava, com os seus num erosos pretorianos, para a m assa atônita dos cristãos indefesos, constituída, na sua m aioria, de m ulheres.

Alguns crentes m ais inflam ados com eçaram então a apagar as tochas, provocando as trevas para a confusão e o tum ulto, m as João de Cleofas descera da tribuna com a sua figura radiosa e im pressionante.

- Irm ãos - gritou com voz estranha e vibrante no seu apelo, com o que saturado de extraordinário m agnetism o -, recom endou o Senhor que j am ais colocássem os a luz sob o alqueire! Não apagueis a claridade que deve ilum inar o nosso exem plo de coragem e de fé!...

A esse tem po, os dois centuriões presentes j á haviam articulado as suas forças, em com um , organizando os cinquenta hom ens que tinham vindo, sob suas ordens, para a hipótese de um a resistência.

Viu-se, então, o apóstolo de Antioquia cam inhar com desassom bro, sob o pasm o silencioso dos presentes, dirigindo-se a Luculo Quintilius, estendendo-lhe os braços pacificam ente e solicitando com em penho:

- Centurião, cum pre a tua tarefa sem receio, porque eu não vim a Rom a senão para as glórias do sacrifício.

O preposto do Im pério não se com oveu com essas palavras e, depois de brandir ao rosto do m issionário os copos de sua espada, em dois tem pos am arrou-lhe os braços, im possibilitando-lhe os m ovim entos.

Dois j ovens crentes, dando largas ao seu tem peram ento ardoroso e sincero, revoltados com a crueldade, desem bainharam as arm as, que reluziram à claridade pálida daquele interior de penum bra, avançando para os soldados num gesto suprem o de defesa e resistência, m as João de Cleofas advertiu ainda um a vez, com a sua palavra m agnética e profunda:

- Meus filhos, não repitais neste recinto a cena dolorosa da prisão do Messias. Lem brai-vos de Malcus e guardai a vossa espada na bainha, porque os que ferem com o ferro, com o ferro serão feridos...

Houve, então, na assem bléia, um m ovim ento de quietude e de assom bro. A coragem serena do apóstolo contagiara todos os corações.

Nos grandes m ovim entos da vida, há sem pre um a vibração espiritual que flui doutros m undos, para conforto dos m íseros viaj ores da j ornada terrestre.

Observou-se, desse m odo, o inaudito e inesperado. Todos os presentes im itaram o apóstolo valoroso, entregando os braços inerm es para o sacrifício.

No seu doloroso m om ento, Lívia enchera-se de um a coragem que nunca havia possuído. Diante da sua figura nobre e da sua indum entária de patrícia detiveram -se, longam ente, os olhares significativos dos verdugos. Naquela assem bléia, era ela a única m ulher que ostentava as insígnias do patriciado rom ano.

Clódio Varrus cum pria sua tarefa algo respeitoso e, daí a m inutos, a pesada caravana estava a cam inho da prisão, dentro das som bras espessas da m eia-noite.

O cárcere onde os cristãos iam passar tantas horas ao relento, em angustiosa prom iscuidade, que.. de algum m odo, representava para eles suave consolo, ficava anexo ao grande circo, sobre cuj as proporções gigantescas som os obrigados a deter nossas vistas, dando ao leitor um a fraca idéia da sua grandeza.

O Circo Máxim o ficava situado j ustam ente no vale que separa o Palatino do Aventino, erguendo-se, ali, com o um a das m ais belas m aravilhas da cidade invicta. Edificado nos prim órdios da organização rom ana, suas proporções grandiosas se haviam desenvolvido com a cidade e, ao tem po de Dom ício Nero, tal era a sua extensão, que ocupava 2190 pés de com prim ento, por 960 de largura, term inando em sem icírculo, com capacidade para trezentos m il espectadores com odam ente instalados. De am bos os lados, corriam duas ordens de pórticos, superpostos, ornados de colunas preciosas e coroadas de terraços confortáveis. Naquele luxo de construções e dem asia de ornam entos, viam -se tascas num erosas e inúm eros lugares de devassidão, a cuj a som bra dorm iam os m iseráveis e repousava a m aioria do povo, em briagado e am olecido nos prazeres m ais hediondos. Seis torres quadradas, denotando as m ais avançadas expressões de bom gosto da arquitetura da época, dom inavam os terraços, servindo de cam arotes luxuosos às personalidades m ais distintas, nos espetáculos de grande gala. Largos bancos de pedra, dispostos em anfiteatro, corriam por três lados, localizando-se, em seguida, em linha reta, o espaço ocupado pelos cárceres, de onde saíam os cavalos e carros, bem com o escravos e prisioneiros, feras e gladiadores, para os divertim entos preferidos da sociedade rom ana. Sobre os cárceres, erguia-se o suntuoso pavilhão do Im perador, de onde as m ais altas autoridades e áulicos acom panhavam o César nos seus entretenim entos. A arena era dividida longitudinalm ente por um a m uralha de seis pés de altura, por doze de largura, erguendo-se sobre ela altares e estátuas preciosas, que ostentavam bronzes finos e dourados. Bem no centro dessa m uralha, im prim indo um traço m aj estoso de grandeza ao am biente, levantava-se, à altura de cento e vinte pés, o fam oso obelisco de Augusto, dom inando a arena colorida de verm elho e de verde, dando a im pressão de relva deliciosa que se tingisse subitam ente de flores de sangue.

Os m íseros prisioneiros daquela caçada hum ana foram atirados a um a larga dependência dos cárceres, nas prim eiras horas da m adrugada.

Os soldados os despoj aram , um a um , dos obj etos de valor, ou das pequenas im portâncias em dinheiro que traziam consigo. As próprias senhoras não escaparam ao esbulho hum ilhante, sendo roubadas nas suas j óias m ais preciosas. Apenas Lívia, pelo respeito que inspiravam suas vestes, foi poupada ao exam e infam ante.

Num gabinete privado, Clódio Varrus dava ciência ao seu superior, Cornélio Rufus, do êxito da diligência que lhe fôra com etida aquela noite.

- Sim - exclam ava Cornélio, satisfeito -, pelo que vej o, a festa de am anhã correrá a inteiro contento do Im perador. Esta prim eira caçada de cristãos era essencial ao glorioso feito das grandes hom enagens aos senadores.

Mas, escuta - continuava ele m ais discretam ente, referindo-se a Lívia -, quem é essa m ulher que traz a toga das m atronas da m ais alta classe social?

- Ignoro - respondeu o centurião, assaz pensativo. Aliás, m uito m e adm irei de encontrá-la em tal am biente, m as cum pri severam ente as vossas ordens.

- Fizeste bem .

Todavia, com o se estivesse adotando intim am ente um a providência nova, Cornélio Rufus sentenciou:

- Deixá-la-em os aqui até am anhã, até o m om ento do espetáculo, quando, então, poderá ser posta em liberdade.

- E porque não a libertam os desde j á?

- Ela poderia, na sua condição de nobreza, provocar algum m ovim ento de protesto contra a decisão de César e isso nos colocaria em péssim a situação. E com o essas m iseráveis criaturas serão atiradas às feras, na qualidade de escravos e condenados à últim a pena, nos derradeiros divertirm entos da tarde, não convém nos com prom eterm os perante a sua fam ília. Retendo-a aqui, satisfazem os os caprichos de Nero e, soltando-a em seguida, não nos incom patibilizarem os com os que gozam dos favores da situação.

- É verdade; essa é a solução m ais razoável. Contudo, por que m otivo essas criaturas serão condenadas com o escravos, quando deveriam m orrer com o cristãos, pois tão som ente essa é a causa de sua j usta condenação? A razão de sua m orte não está na hum ilhante doutrina que professam ?

- Sim , m as tem os de ponderar que o Im perador não se sente ainda com bastante força para enfrentar a opinião dos senadores, dos edis e de várias outras autoridades, que, certam ente, desej ariam advogar a causa destes infelizes, em desprestígio dele e no de seus m ais íntim os conselheiros... Mas, não duvido de que essa perseguição aos adeptos da odiosa doutrina do Crucificado será oficializada em breves dias (1), tão logo os poderes im periais estej am m ais fortem ente centralizados.

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(1) A m aioria dos historiadores do Im pério Rom ano assinala as prim eiras perseguições ao Cristianism o som ente no ano de 64; entretanto, desde 58 alguns dos favoritos de Nero conseguiram iniciar o crim inoso m ovim ento, salientando-se que os cristãos da época, antes do grande incêndio da cidade, eram levados aos sacrifícios, na qualidade de escravos m isérrim os, para divertim ento do povo.- Nota de Em m anuel.

Esperem os, pois, m ais algum tem po e, até lá, fortifiquem os o prestigio de Nero, porque o detentor do poder deve representar sem pre o m elhor dos am igos.

Enquanto isso ocorria, todos os cristãos se dividiam em grupos, no interior do cárcere, trocando as m ais íntim as im pressões sobre o angustioso transe.

Em dado m om ento, todavia, abriu-se um a porta, por onde surgiu a figura detestável de Clódio, exclam ando, ironicam ente:

- Cristãos, não há dem ência de César para os que professam as perigosas doutrinas do Nazareno. Se tendes alguns negócios m ateriais a resolver, lem brai-vos de que é m uito tarde, porquanto poucas horas vos separam das feras da arena, no circo.

Novam ente, a pesada porta se fechou sobre a sua figura, enquanto os m íseros condenados se surpreendiam am argam ente com a notícia inquietante e dolorosa.

Através das grades reforçadas, podiam observar os m ovim entos dos num erosos soldados que os guardavam , dando guarida, nos prim eiros instantes, às m ais angustiosas conj eturas. Depressa, porém , voltara-lhes a calm a e os prisioneiros se aquietaram com hum ildade. Alguns faziam preces fervorosas, enquanto outros trocavam pensam entos em voz baixa.

Os carcereiros não tardaram a separar as m ulheres, instalando-as em dependência contígua, onde cada grupo de crentes ficou de alm a voltada para Jesus, nos instantes suprem os em que aguardavam a m orte.

De m anhãzinha, m al o Sol havia surgido de todo nas am plitudes do form oso firm am ento rom ano, vam os encontrar Ana e Lívia em conversação quase serena, a sós, num a espécie de biom bo dos m uitos existentes na espaçosa sala reservada às m ulheres, enquanto num erosas com panheiras aparentavam descansar, estrem unhadas.

- Senhora - exclam ava a serva, algo preocupada -, noto que vos tratam aqui com sim patia e deferência. Porque não pleiteardes im ediatam ente a vossa liberdade? Não sabem os o que de sinistro e terrível nos ocorrerá nas horas penosas deste dia!...

- Não, m inha boa Ana - respondeu Lívia, tranquila -, deves ficar certa de que m inhalm a está convenientem ente preparada para o sacrifício. E ainda que m e não sentisse confortada, não deverias apresentar-m e sem elhante alvitre, porque Jesus, sendo em bora o Mestre de todos os m estres e Senhor do reino dos céus, não pleiteou sua liberdade j unto aos algozes que o atorm entavam e oprim iam ...

- Isso é verdade, senhora. Mas, acredito que Jesus saberia com preender o vosso gesto, porque tendes ainda um esposo e um a filha... - acentuou a velha em pregada, com o a lhe recordar as obrigações hum anas.

- Um esposo? - retrucou a nobre m atrona, com heróica serenidade. Sim , agradeço a Deus a paz que m e concedeu, perm itindo que Públio m e dem onstrasse a sua contrição nestes últim os dias. Para m im , só essa tranquilidade era essencial e necessária, porque o esposo, na sua feição hum ana, eu o perdi há longos vinte e cinco anos... Debalde sacrifiquei todos os im pulsos de m inha m ocidade para lhe provar o m eu am or e a m inha inocência, em contraposição à calúnia com que hum ilharam m eu nom e. Por um quarto de século tenho vivido com as m inhas orações e as m inhas lágrim as... Angustiosa tem sido a m inha saudade e dolorosíssim o o triste degredo espiritual a que fui relegada, no plano dos m eus afetos m ais puros.

Não creio possa reviver para m im , no coração do velho com panheiro, a confiança antiga, cheia de felicidade e ternura...

Quanto à filha, entreguei-a a Jesus, desde os dias de sua infância, quando m e vi obrigada à terrível separação do seu afeto. Afastada de sua alm a por im posição de Públio, tive de sufocar os m ais doces entusiasm os do coração m aterno. Sabe o Senhor de m inhas ansiosas angústias, nas noites silenciosas e tristes em que lhe confiava m eus am argurosos padecim entos. Além disso, Flávia tem hoj e um m arido que procurou isolá-la ainda m ais do m eu pobre espírito, receoso da m inha fé, qualificada por todos de dem ência...

E depois de ligeira pausa, na sua confiança dolorosa, acentuou com serena tristeza:

- Para m im , não pode haver o reflorescim ento das esperanças aqui na Terra... Só aspiro, agora, a m orrer em paz confortadora com a m inha consciência.

- Mas, senhora - tornou a criada com veem ência -, hoj e é o dia da m aior vitória do vosso esposo...

- Não m e esqueci dessa circunstância. Faz, porém , vinte e cinco anos que Públio segue rum o oposto ao m eu cam inho e não será dem ais que, buscando ele hoj e a suprem a recom pensa do m undo, com o triunfo final dos seus desej os, busque eu tam bém não a vitória do céu, que não m ereci, m as a possibilidade de m ostrar ao Senhor a sinceridade da m inha fé, ansiosa pelas bênçãos lucificantes da sua infinita m isericórdia.

Depois, m inha querida Ana, é m uito grato ao coração sonhar com o seu reino santificado e m isericordioso... Verm os, de novo, as m ãos suaves do Messias abençoando-nos o espírito, com os seus gestos am plos de caridade e de ternura!...

Lívia tinha um clarão divino nos olhos, que se m olhavam em lágrim as espontâneas, com o se houvesse caído sobre o seu coração o orvalho do Paraíso.

Via-se, claram ente, que suas idéias não estavam na Terra, m as, sim , flutuando num m undo de radiosidades suavíssim as, cheio de recordações carinhosas do passado e saturado de ternas esperanças no am or de Jesus-Cristo.

- Sim - continuava falando, com o se fôra tão som ente para a sua própria alm a, na intim idade do coração -, ultim am ente, m uito m e tenho lem brado do Divino Mestre e de suas palavras inesquecíveis... Naquela tarde inolvidável de suas pregações, ainda era crepúsculo e o céu estava recam ado de estrelas, com o se as luzes do firm am ento desej assem tam bém ouvi-lo... As ondas do Tiberíades, que se apresentavam , frequentem ente, tão rum orosas ao fustigo do vento, vinham , silenciosas, desfazer-se num leque de espum as, de encontro às barcas da praia, num a doce expressão de respeito, quando se faziam ouvir na paisagem os seus divinos ensinam entos! Tudo se aquietava de m anso; era de ver-se o sorriso angelical das criancinhas, à claridade terna dos seus olhos de pastor dos hom ens e da Natureza...

Nos m eus anseios, m inha boa Ana, desej ava adotar todos aqueles petizes m altrapilhos e fam intos, que surgiam nas assem bléias populares de Cafarnaum ; m as, m eu propósito m aterno de am parar aquelas m ulheres desprezadas e aquelas crianças andraj osas, que viviam ao desam paro, não podia realizar-se neste m undo... Todavia, suponho que hei-de realizar os ideais de m inha alm a, se Jesus m e acolher nas claridades do seu Reino...

A velha serva chorava em ocionada, ouvindo estas expansões tocantes, com ovedoras.

Depois de longa pausa, continuou com o se desej asse bem aproveitar as derradeiras horas:

- Ana - disse com enérgica tranquilidade -, am bas fom os cham adas ao testem unho sagrado da fé, nas horas que passam e que devem ser gloriosas para o nosso espírito. Perdoa-m e, querida, se algum dia te ofendi o coração com algum a palavra m enos digna. Antes que Sim eão te entregasse à m inha guarda, j á eu te am ava ternam ente, com o se fôras m inha irm ã ou m inha própria filha!...

A serva chorava, em ocionada, enquanto Lívia, carinhosa, continuava:

- Agora, querida, tenho um derradeiro pedido a fazer-te... - Dizei, senhora -sussurrou a serva, com os olhos rasos de lágrim as

-, antes de tudo, sou vossa escrava.

- Ana, se é verdade que tem os de testem unhar ainda hoj e a nossa fé, eu desej ava com parecer ao sacrifício com o aquelas criaturas desam paradas, que ouviam as consolações divinas j unto do Tiberíades. Se puderes atender-m e, troca hoj e com igo a toga da senhora pela túnica da serva! Desej ava participar do sacrifício com as vestes hum ildes e pobres da plebe, não porque m e sinta hum ilhada perante as pessoas da m inha condição, no m om ento ditoso do testem unho, m as porque, arrancando para sem pre os derradeiros preconceitos do m eu nascim ento, daria à m inha consciência cristã o conforto do últim o ato de hum ildade... Eu, que nasci entre as púrpuras da nobreza, desej ava buscar o Reino de Jesus com as vestiduras singelas dos que passaram pelo m undo no torvelinho doloroso das provações e dos trabalhos!...

- Senhora!... - obtem perou a serva, hesitante...

- Não vaciles, se queres proporcionar-m e a satisfação derradeira. Ana não pôde recusar, ante os piedosos propósitos da generosa criatura e, num instante, na penum bra daquele im provisado recanto que as separava das dem ais com panheiras, trocaram a toga e a túnica, que eram tão som ente um a espécie de m anto, sobre a com plicada indum entária da época, tendo Lívia adornado a toga de lã finíssim a, agora no corpo da serva, com as j óias discretas que trazia usualm ente consigo. Depois de entregar-lhe dois anéis preciosos e um gracioso bracelete, apenas um adorno de valor lhe restava, m as Lívia, passando a m ão pelo pescoço e acariciando um pequeno colar, com im ensa ternura, exclam ou com decisão para a com panheira:

- Está bem , Ana, fica-m e apenas este pequeno colar, em que trago o cam afeu com o perfil de Públio, em alto relevo, e que é um presente dele no dia longínquo das nossas núpcias. Morrerei com esta j óia, com o se ela fôra um sím bolo de união entre os m eus dois am ores, que são m eu m arido e Jesus-Cristo...

Ana aceitou, sem protesto, todas as piedosas im posições da senhora e, em breves instantes, na sua antiga beleza virginal, o porte da serva hum ilde estava tocado de im ponente nobreza, com o se ela fosse um a soberana figura de m arfim velho.

Para todos os prisioneiros, na terrível inquietação que os oprim ia, em bora as doces claridades interiores da prece que os integrava na precisa coragem m oral para o sacrifício, as horas do dia passavam pesadas e vagarosas. João de Cleofas, com o resignado heroísm o do seu fervor religioso, conseguiu m anter aceso o calor da fé em todos os corações: não faltaram os com panheiros m ais anim osos que, na exaltação de sua confiança na Providência Divina, ensaiaram os próprios cânticos de glória espiritual, para o instante suprem o do m artírio.

No palácio do Aventino, todos os dom ésticos m ais íntim os acreditavam na perm anência de Lívia em casa da filha; m as, um pouco antes do m eio-dia, Flávia Lentúlia veio ter com o pai, a fim de beij á-lo antes do triunfo.

Inform ada pelo senador, quanto aos seus proj etos de restabelecer a antiga felicidade dom éstica, com as m ais expressivas dem onstrações públicas de confiança e de am or pela esposa, Flávia, com grande surpresa para o pai, procurava a m ãe para as m anifestações de sua j ustificada alegria.

Angustiosa interrogação se estam pou, desse m odo, em todos os sem blantes.

Depois de vinte e cinco anos, era a prim eira vez que Lívia e Ana se ausentavam de casa, de um dia para outro, provocando os m ais j ustificados receios.

O senador sentiu o coração ferido de presságios angustiosos, m as os escravos j á se encontravam preparados para conduzi-lo ao Senado, onde as prim eiras cerim ônias teriam início depois do m eio-dia, com a presença de César. Observando-lhe a aflição e os olhares ansiosos e inquietos, Flávia Lentúlia buscou tranquilizá-lo com estas palavras, que dissim ulavam as suas próprias aflições:

- Vai tranquilo, m eu pai. Voltarei agora a casa, m as não m e descuidarei das providências necessárias, porque, quando regressares, de tarde, com a auréola do triunfo, quero abraçar-te com a m am ãe, entre as flores do vestíbulo, a fim de poderm os am bas receber-te com as pétalas do nosso am or desvelado de todos os dias.

- Sim , filha - respondeu o senador com um a som bra de angústia -, perm itam os deuses que assim sej a, porque as rosas do lar serão para m im as m elhores recom pensas!...

E tom ando a liteira, saudado por am igos num erosos que o esperavam , Públio Lentulus dem andou o Senado, onde m ultidões entusiásticas esfuziavam de alegria, em sinal de agradecim ento pela farta distribuição de trigo com que as autoridades rom anas haviam com em orado aquele evento, aplaudindo os hom enageados com a gritaria ensurdecedora das grande m anifestações populares.

Da nobre casa política, onde os m ais elegantes torneios de oratória foram proferidos para enaltecim ento da personalidade do Im perador e antecedidos pela figura im pressionante do César, que nunca desdenhou o fausto retum bante dos grandes espetáculos, na sua feição de antigo com ediante, dirigiram -se os senadores para o fam oso Tem plo de Júpiter, onde os hom enageados receberiam a auréola de m irto e rosas, com o os triunfadores, obedecendo à inspiração de Sêneca, que tudo envidava por desfazer a penosa im pressão do governo cruel do seu ex-discípulo, que, afinal, decretaria tam bém a sua m orte no ano 66. No Tem plo de Júpiter, o grande artista que era Dom ício Nero coroou a fronte de m ais de cem senadores do Im pério, sob a bênção convencional dos sacerdotes, dem orando-se as cerim ônias na sua com plicada feição religiosa, por algum as horas sucessivas. Som ente depois das 15 horas, saía do tem plo, em direção ao Circo Máxim o, o grosso e desm esurado cortej o. A com pacta procissão, tocada de aspecto solene, poucas vezes observado em Rom a nos séculos posteriores, dirigiu-se prim eiram ente ao Fórum , atravessando pela m assa form idável de povo, com o m áxim o respeito.

Para esclarecim ento dos leitores, passem os a dar pálida idéia do m aravilhoso cortej o, de conform idade com as grandes cerim ônias públicas da época.

Na frente, vai um carro, soberba e m agnificam ente ornam entado, onde se instala m olem ente o Im perador, seguindo-se-lhe num erosos carros nos quais se aboletam os senadores hom enageados, bem com o os seus áulicos preferidos.

Dom ício Nero, j unto de um dos favoritos m ais caros, passa sobranceiro no seu traj e verm elho de triunfador, com o luxo espalhafatoso que lhe caracterizava as atitudes.

Em seguida, num eroso grupo de j ovens de quinze anos passa, a cavalo e a pé, escoltando as carruagens de honra e abrindo a m archa.

Passam , depois, os cocheiros guiando as bigas, as quadrigas, as séj uges, que eram carros a dois, a quatro e a seis cavalos, para as loucas em oções das corridas tradicionais.

Seguindo-se aos aurigas, quase em com pleta nudez, surgem os atletas, que farão os núm eros de todos os grandes e pequenos j ogos da tarde; após eles, vão os três coros clássicos de dançarm os, o prim eiro constituído por adultos, o segundo dos adolescentes insinuantes, e o terceiro por graciosas crianças, todos ostentando a túnica escarlate apertada com um a cinta de cobre, espada ao lado e lança na m ão, salientando-se o capacete de bronze enfeitado de penachos e cocares, que lhes com pletam a indum entária extravagante. Esses bailarinos passam , seguidos pelos m úsicos, exibindo m ovim entos rítm icos e executando bailados guerreiros, ao som de harpas de m arfim , flautas curtas e num erosos alaúdes.

Depois dos m úsicos, qual bando de sinistros histriões, surgem os Sátiros e os Silenos, personagens estranhas, que apresentam m áscaras horripilantes, cobertos de peles de bode, sob as quais fazem os gestos m ais horrendos, provocando o riso frenético dos espectadores, com as suas contorções ridículas e estranhas. Sucedem -se novos grupos m usicais, que se fazem acom panhar de vários m inistros secundários do culto de Júpiter e outros deuses, levando nas m ãos grandes recipientes à guisa de turíbulos de ouro e de prata, de onde espiralam inebriantes nuvens de incenso.

Seguindo os m inistros, com adornos de ouro e pedras preciosas, passam as estátuas das num erosas divindades arrancadas, por um m om ento, dos seus tem plos suntuosos e sossegados. Cada estátua, na sua expressão sim bólica, faz-se acom panhar de seus devotos ou dos seus variados colégios sacerdotais. Todas as im agens, em grande aparato, são conduzidas em carros de m arfim ou de prata, puxados por cavalos im ponentes, guiados delicadam ente por m eninos pobres de dez a doze anos, que tenham pai e m ãe vivos, e escoltados, com atenção, pelos patrícios m ais em evidência na grande cidade.

Era tudo um deslum bram ento de coroas de ouro, púrpuras, luxuosos tecidos do Oriente, m etais brilhantes, cintilações de pedras preciosas.

Fecha o cortej o a últim a legião de sacerdotes e m inistros do culto, seguindo-lhes a m assa interm inável do povo anônim o e desconhecido.

A gigantesca procissão penetra o Grande Circo com grande recolhim ento, em observância às m ais elevada solenidades. O silêncio é apenas cortado pelas aclam ações parciais dos diferentes grupos de cidadãos, quando passa a estátua da divindade que lhes protege as atividades e a profissão, na vida com um .

Depois de um volteio solene pelo interior do circo, as silenciosas figuras de m arfim são depostas na edícula, j unto aos cárceres, sob os fulgores radiosos do pavilhão do Im perador e onde se fazem as preces e sacrifícios de nobres e plebeus, enquanto o César e seus áulicos, em com panhia dos políticos hom enageados naquela tarde, fazem num erosas e extraordinárias libações.

Term inadas aquelas cerim ônias, desaparece, igualm ente, o silencioso recolhim ento das m ultidões.

Com eçam , então, os j ogos sob os olhares ávidos de m ais de trezentos m il espectadores, que não se circunscrevem às m assas com pactas, com prim idas nas dim ensões grandiosas do luxuoso recinto. Os palácios do Aventino e do Palatino, bem com o os elegantes terraços do Célio, servem tam bém de arquibancadas para a num erosa assistência, que não pôde ver de m ais perto o form idando espetáculo.

Rom a diverte-se e todas as suas classes estão deslum bradas. A com petição dos carros é o prim eiro núm ero a ser apresentado, m as os aplausos entusiásticos som ente se verificam quando m orrem na arena os prim eiros cocheiros e os prim eiros cavalos espatifados.

Os j ogadores distinguem -se pelas cores da túnica. Há os que se vestem de verm elho, de azul, de branco e de verde, representando vários partidos, enquanto a platéia se reparte em grupos exaltados e enlouquecidos. Gritam apaixonadam ente os adm iradores e os sócios de cada facção, traduzindo a sua alegria, o seu receio, a sua angústia ou a sua im paciência. Ao fim dos prim eiros núm eros, verificam -se desoladoras cenas de luta entre os adversários desse ou daquele partido, no seio da enorm e assistência, havendo sérios tum ultos, im ediatam ente degenerados em sanha crim inosa, de onde são retirados, em seguida, alguns cadáveres.

Após as corridas, houve um a caçada fabulosa, levando-se a efeito terríveis com bates entre hom ens e feras, nos quais alguns escravos j ovens perderam a vida em trágicas circunstâncias, ante as aclam ações delirantes das m assas inconscientes.

O Im perador sorri, satisfeito, e continua nas suas libações pessoais, vagarosam ente, j unto de alguns am igos m ais íntim os. Seis harpistas executam as m elodias prediletas no pavilhão, enquanto os alaúdes fazem ouvir, igualm ente, sons m aviosos e claros.

Outros j ogos passaram , vários, divertidos e terríveis, e, depois de algum as danças exóticas, executadas na arena, viu-se um áulico predileto de Dom ício Nero inclinar-se discretam ente, falando-lhe ao ouvido:

- Chegou o instante, ó Augusto, da grande surpresa dos j ogos desta tarde!

- Entrarão, agora, os cristãos na arena? - perguntou o Im perador em voz baixa, com o seu im piedoso e frio sorriso.

- Sim , j á foi dada ordem para que fiquem em liberdade na arena os vinte leões africanos, tão logo se apresentem em público os condenados.

- Bela hom enagem aos senadores! - glosou Nero, sarcasticam ente. Esta festividade foi um a feliz lem brança de Sêneca, porque terei oportunidade de m ostrar ao Senado que a lei é a força e toda a força deve estar com igo.

Poucos m inutos faltavam para a apresentação do núm ero surpreendente da tarde, quando Clódio Varrus aconselhava a um dos auxiliares de confiança:

- Aton - dizia ele circunspecto -, podes providenciar agora a entrada de todos os prisioneiros na arena, m as afasta com discrição um a m ulher que lá se conserva com a toga do patriciado. Deixa-a por últim o, expulsando-a em seguida para a rua, porque não desej am os com plicações com a sua fam ília.

O soldado fez sinal, com o quem havia guardado fielm ente a ordem recebida, dispondo-se a cum pri-la e, daí a m om entos, o num eroso grupo de cristãos, sob im propérios e apupos dos m ais baixos servidores do Circo, encam inhava-se, im pavidam ente, para o sacrifício...

Em prim eiro lugar, ia João de Cleofas, m urm urando intim am ente a sua derradeira prece.

No instante, porém , de se abrir a grande porta, através da qual se ouviam os rugidos am eaçadores das feras esfom eadas, Aton aproxim ou-se de Ana e, reparando-lhe a toga finíssim a de lá, as j óias discretas que lhe adornavam o porte enobrecido, bem com o a delicada rede de ouro que lhe prendia graciosam ente os cabelos, exclam ou respeitosam ente, adm irado da nobreza de sua figura:

- Senhora, ficareis aqui, até segunda ordem !

A velha criada dos Lentulus trocou significativo e angustioso olhar com a sua senhora, respondendo, todavia, com serena altivez:

- Mas, porquê? Pretendeis privar-m e da glória do sacrifício? Aton e seus colegas se surpreenderam com aquela atitude de profundo heroísm o espiritual, e aquele, depois de um gesto evasivo, que exprim ia a vacilação da resposta que lhe com petia dar, esclareceu respeitosam ente:

- Sereis a últim a!

Aquela explicação pareceu satisfazê-la, m as Lívia e Ana, nesse instante decisivo de separação, trocaram entre si um am oroso olhar, angustiado e inesquecível.

Tudo, porém , fôra obra de alguns segundos, porque a porta sinistra estava agora aberta e as arm as am eaçadoras dos prepostos de Dom ício Nero obrigavam os prisioneiros a dem andar a arena, com o um bloco de condenados ao terror da últim a pena.

O venerável apóstolo de Antioquia entestou a fileira com serenidade valorosa. Seu coração elevava-se ao infinito, em orações sinceras e fervorosas. Em poucos instantes, todos os prisioneiros se encontravam reunidos à entrada da arena, saturados de um a força m oral que, até então, lhes era desconhecida. É que, detrás daquelas púrpuras suntuosas e além daqueles risos estridentes e im propérios sinistros, estava um a legião de m ensageiros celestes fortalecendo as energias espirituais dos que iam sucum bir de m orte infam ante, para regar a sem ente do Cristianism o com as suas lágrim as fecundas. Um a estrada lum inosa, invisível aos olhos m ortais, abrira-se nas claridades do firm am ento e, por ela, descia todo um exército de arcanj os do Divino Mestre, para aureolar com as bênçãos da sua glória os valorosos trabalhadores da sua causa.

Sob os aplausos delirantes e ensurdecedores da turba num erosa, soltaram -se os leões fam intos, para a espantosa cena de im piedade, de pavor e sangue, m as nenhum dos apóstolos desconhecidos, que iam m orrer no depravado festim de Nero, sentiu as torturas angustiosas de tão horrenda m orte, porque o brando anestésico das potências divinas lhes balsam izou o coração dorido e dilacerado no torm entoso m om ento.

Fustigados pela angústia e pela aflição do instante derradeiro, ante o público sanguinário, os m íseros sacrificados não tiveram tem po de se reunir na arena dolorosa. As feras fam intas pareciam tocadas de horrível ansiedade. E enquanto se estraçalhavam corpos m isérrim os, Dom ício Nero m andava que todos os coros de dançarm os e todos os m úsicos celebrassem o espetáculo com os cânticos e bailados de Rom a vitoriosa.

Incluindo-se a considerável assistência que se aglom erava nas colinas, quase m eio m ilhão de pessoas vibrava em aplausos ensurdecedores e espantosos, enquanto duas centenas de criaturas hum anas tom bavam espostej adas...

Ingressando na arena, Lívia aj oelhara-se defronte do grande e suntuoso pavilhão do Im perador, onde buscou lobrigar o vulto do esposo, pela derradeira vez, a fim de guardar no fundo dalm a a dolorosa expressão daquele últim o quadro, j unto da im agem íntim a de Jesus Crucificado, que inundava de em oções serenas o seu pobre coração dilacerado no m inuto suprem o. Pareceu-lhe divisar, confusam ente, na doce claridade do crepúsculo, a figura ereta do senador coroado de rosas, com o os triunfadores e, quando seus lábios se entreabriram num a últim a prece m isturada de lágrim as ardentes que lhe borbulhavam dos olhos, viu-se repentinam ente envolvida pelas patas selvagens de um m onstro. Não sentira, porém , qualquer com oção violenta e rude, que assinala com um ente o m inuto obscuro da m orte. Figurou-se-lhe haver experim entado ligeiro choque, sentindo-se agora em balada nuns braços de névoa translúcida, que ela contem plou altam ente surpreendida. Buscou certificar-se da sua posição, dentro do circo, e reconheceu, a seu lado, a nobre figura de Sim eão, que lhe sorria divinam ente, dando-lhe a silenciosa e doce certeza de haver transposto o lim iar da Eternidade.

Naquele instante, dentro do cam arim de honra do Im perador, Públio Lentulus sentiu no coração inexprim ível angústia. No turbilhão daquele ensurdecedor vozerio, o senador nunca sentira tão fundo desalento e tão am argo desencanto da vida. Horrorizavam -lhe agora aqueles trem endos espetáculos hom icidas, de pavor e m orte. Sem que pudesse explicar o m otivo, seu pensam ento voltou à Galileia longínqua, figurando-se-lhe divisar, novam ente, a suave figura do Messias de Nazaré, quando lhe afirm ava: Todos os poderes do teu Im pério são bem fracos e todas as suas riquezas bem m iseráveis!.

Inclinando-se para o seu am igo Eufanilo Drusus, Públio desabafou a penosa im pressão, discretam ente:

- Meu am igo, este espetáculo de hoj e m e apavora!... Sinto, aqui, em oções de angústia, com o j am ais experim entei em toda a vida... Serão escravos destinados à últim a pena os que ora sucum bem , sob a crueldade das feras violentas e rudes?

- Não creio - respondeu o senador Eufanilo, segredando-lhe ao ouvido. - Corre o boato de que estes m íseros condenados são pobres cristãos inofensivos, aprisionados nas catacum bas!...

Sem saber explicar a razão do seu profundo desgosto, Públio Lentulus lem brou-se repentinam ente de Lívia, m ergulhando-se, aflito, nas m ais penosas conj eturas.

Enquanto ocorriam esses fatos, voltem os a exam inar a situação de Ana, logo após a entrada dos com panheiros na arena do sacrifício. Certa de que Jesus lhe havia reservado o últim o lugar no penoso m om ento do m artírio, a antiga serva m antinha o espírito valoroso em orações sinceras e ardentes. Seus olhos, porém , não abandonaram a figura de Lívia, que se afastava para um recanto da arena, onde se aj oelhara, chegando a fixar o grande leão africano que lhe desferira um golpe fatal à altura do peito. Nesse instante, a pobre criatura sentiu algo de enfraquecim ento, ante as trem endas perspectivas do testem unho, m as, num relance, antes que suas idéias tom assem novo curso, Aton e m ais um dos colegas acercaram -se, exclam ando:

- Senhora, acom panhai-nos!

Observando que os soldados a faziam voltar ao interior, protestou com energia:

- Soldados, eu nada m ais desej o, senão m orrer igualm ente, nesta hora, pela fé em Jesus-Cristo!

Mas, reparando-lhe a coragem indom ável, o preposto do Im pério agarrou-a fortem ente pelo braço, e, trazendo-a para um a passagem do interior dos cárceres, que com unicava com a via pública, Aton dirigiu-lhe a palavra, quase am eaçadora.

- Retirai-vos, m ulher! Fugi sem dem ora, pois não desej am os com plicações com a vossa fam ília!

E, dizendo-o, fechava a porta am pla, enquanto a antiga criada de Lívia tudo com preendia agora. Angustiada, chegou im ediatam ente à conclusão de que a indum entária da senhora lhe salvara a vida, no am argurado transe. Sentiu que o pranto lhe borbotava abundante dos olhos. Suas lágrim as eram bem um m isto de inenarráveis sofrim entos m orais e no íntim o inquiria a si m esm a a razão pela qual não a adm itira o Senhor à glorificação dos sacrifícios daquela tarde m em orável e dolorosa.

Percebia o confuso rum or de m ais de trezentas m il vozes, que se concentravam em gritos retum bantes de aplauso, aclam ando a corrida sinistra das feras na sua caçada hum ana, e, passo a passo, carregando consigo o peso torturante de um a angústia sem term os, buscou o palácio do Aventino, que não distava m uito do circo ignom inioso, lá penetrando desalentada e silenciosa.

Apenas alguns escravos m ais íntim os faziam a guarda da residência dos Lentulus, com o de costum e nos grandes dias de festas populares, das quais participavam quase todos os servos. Ninguém percebeu o retorno da serva, que conseguiu despoj ar-se da toga com a calm a precisa. Alij ou as j óias preciosas do vestuário, das m ãos e dos cabelos e, aj oelhando-se no aposento, deixou que as lágrim as dolorosas corressem livrem ente, ao influxo das orações am argas que elevava a Jesus, sob o peso de suas angustiosas m ágoas.

Não chegou a saber quantos m inutos infindos perm aneceu naquela atitude súplice e dolorosa, entre rogativas ardentes e am arguradas conj eturas sobre o seu inesperado afastam ento das torturas do circo, sentindo-se indigna de testem unhar ao Salvador a sua fé profunda e sincera, até que um rum or m ais pronunciado lhe denunciava o regresso do senador.

Era quase noite e as prim eiras estrelas brilhavam no azul do form oso céu rom ano.

Penetrando no lar com o espírito inquieto e desalentado, Públio Lentulus atingiu o vestíbulo vazio, de alm a opressa, sendo, porém , im ediatam ente procurado pelo servo Fábio Túlio, que, havia m uitos anos, substituíra Com ênio, arrebatado pela m orte naquele cargo de confiança.

Acercando-se do senador que entrara só, dispensando a com panhia dos am igos sob a alegação de que a esposa se encontrava gravem ente enferm a, exclam ou o antigo serviçal com atencioso respeito:

- Senhor, vossa filha m anda com unicar, por um m ensageiro, que continua providenciando, a fim de que tenhais notícias da senhora, dentro do m enor prazo possível.

O senador agradeceu com leve sinal de cabeça, acentuando suas penosas preocupações íntim as.

Ana, contudo, na soledade de suas preces, no côm odo que lhe era reservado, verificando o regresso do am o, com preendeu o triste dever que lhe corria naquele instante inesquecível, de m odo a cientificá-lo de todas as ocorrências e, em breves m inutos, Fábio voltava a procurá-lo nos seus apartam entos, a fim de participar-lhe que Ana lhe pedia um a entrevista em particular. O senador atendeu im ediatam ente à velha serva de sua casa, tom ado de indefinível surpresa.

Olhos inchados de chorar e com a voz frequentem ente entrecortada por em oções rudes e penosas, Ana expôs todos os fatos, sem om itir nenhum detalhe dos trágicos incidentes, enquanto o senador, de olhos arregalados, tudo fazia por com preender aquelas confidências dolorosas, na sua incredulidade e no seu pavoroso espanto.

Ao fim do terrível depoim ento, álgido suor lhe corria da fronte atorm entada, enquanto as têm poras lhe batiam assustadoram ente.

A princípio, desej ou esm agar a criada hum ilde, com o se o fizesse a um a víbora venenosa, tom ado das prim eiras com oções de revolta do seu orgulho e da sua vaidade. Não queria acreditar naquela confissão horrível e angustiosa, m as o coração lhe batia apressadam ente e seus nervos se exaltavam em vibrações lancinantes.

Públio Lentulus experim entou a dor m ais terrível de sua m isérrim a existência. Todos os seus sonhos, todas as suas aspirações e carinhosas esperanças esboroavam -se penosam ente, irrem ediavelm ente, para todo o sem pre, sob a m aré som bria das realidades tenebrosas.

Sentindo-se o m ais desventurado réu da j ustiça dos deuses, no m om ento em que presum ia efetivar a sua suprem a ventura, nada m ais enxergou à frente dos olhos, senão a realidade esm agadora da sua dor sem lim ites.

Sob os olhares com ovidos de Ana, que o observava receosa, levantou-se rígido e sem um a lágrim a, com os olhos raiando pela loucura, tal a sua fixidez estranha e dolorosa, e com o se fôra um fantasm a de revolta, de dor, de vingança e sofrim ento indefiníveis, sem nada responder à serva atônita, que rogava silenciosam ente a Jesus lhe serenasse as angustiosas m ágoas, deu alguns passos com o um autôm ato em direção à porta, que abriu de par em par e por onde entraram as brisas suaves e refrigerantes da noite...

Cam baleando de dor selvagem através do peristilo, cam inhou, depois, resoluto, com o se fosse disputar um duelo com as som bras, para defender a esposa caluniada e traída, m artirizada pelos crim inosos daquela corte de infâm ia, dirigindo-se com rapidez, sem observar o desalinho de suas vestes, para o circo, onde a plebe rem atava as paixões im piedosas do seu César desalm ado.

Todavia, um espetáculo m ais terrível se lhe deparou aos olhos agoniados, no insulam ento da sua suprem a angústia m oral.

Em briagados nos baixos instintos da sua perversa m aterialidade, os soldados e o povo colocaram os restos sinistros do m onstruoso banquete das feras, naquela tarde inesquecível, nas em inências de postes e colunas im provisados à m aneira de tochas, e ilum inavam todo o exterior do grande recinto com o incêndio tétrico dos fragm entos de carne hum ana.

Públio Lentulus sentiu toda a extensão da sua im potência diante daquela dem onstração suprem a de horror e crueldade, m as avançou, cam baleante de dor, com o ébrio ou louco, com espanto dos que o viam a pé, em tais lugares, contem plando boquiaberto as tochas sinistras, feitas de cabeças disform es e com bustas.

Dava largas aos pensam entos doridos de angústia e de revolta, com o se o seu espírito não passasse de um tigre encarcerado no arcabouço do peito envelhecido, quando notou a presença de dois soldados ébrios, em luta por causa de um delicado obj eto, que lhe cham ou repentinam ente a atenção, sem que conseguisse explicar o m otivo do seu inesperado interesse por algum a coisa.

Era um pequeno colar de pérolas, do qual pendia precioso cam afeu antigo. Seus olhos fixaram aquele obj eto estranho e o coração adivinhou o resto. Ele o reconhecera. Aquela j óia fôra o presente de núpcias, feito à esposa idolatrada e som ente agora se lem brava do apego carinhoso da m ulher ao cam afeu que lhe guardava o próprio perfil da j uventude, recordando a única afeição da sua m ocidade.

Postou-se à frente dos contendores, que se form alizaram im ediatam ente em atitude respeitosa, devida à sua presença.

Interpelado com severidade, um dos soldados esclareceu hum ilde e trêm ulo:

- Ilustríssim o, esta j óia pertenceu a um a das m ulheres condenadas às feras, no espetáculo de hoj e...

- Quanto quereis pelo achado? - perguntou Públio Lentulus,som briam ente.

- Com prei-a de um com panheiro por dois sestércios. - Entregai-m a! - replicou o senador, em tom am eaçador e im perativo.

Os soldados entregaram -lhe o colar, hum ildem ente, e o senador, revolvendo as vestes, retirou pesada bolsa de m oedas de ouro, j ogando-a aos contendores num gesto de noj o e de suprem o desprezo.

Públio Lentulus afastou-se do am biente nefando, m al contendo as lágrim as que, agora, lhe subiam em torrente, do coração oprim ido e dilacerado.

Apertando de encontro ao peito aquele adereço m inúsculo, parecia tom ado de força m isteriosa. Afigurava-se-lhe que, conservando aquele últim o vestígio da "toilette" de sua m ulher, arquivara, j unto de si próprio e para sem pre, algum a coisa da sua personalidade e do seu coração.

Longe das luzes sinistras que ilum inavam m acabram ente em toda a extensão a via pública, o senador penetrou por um a viela cheia de som bras.

Depois de alguns passos, notou que à sua frente se elevava para o céu um a árvore gigantesca, que poetizava todo o am biente, com a vetustez de sua m aj estade frondej ante. Cam baleando, encostou-se ao tronco anoso, ávido de repouso e consolação. Contem plou as estrelas que m atizavam de cintilações cariciosas todo o firm am ento rom ano e lem brou-se de que, por certo, em tal m om ento, a alm a puríssim a da com panheira deveria repousar na paz sublim e das claridades celestes, sob a bênção dos deuses...

Num gesto espontâneo, beij ou o colar m inúsculo, apertou-o com delicado enlevo de encontro ao coração e, considerando o deserto árido da sua vida, chorou, com o nunca o fizera em qualquer outra circunstância dolorosa da sua atribulada existência.

Num retrospecto profundo de todo o passado am arguroso, considerava que todas as suas nobres aspirações haviam recebido o escárnio dos deuses e dos hom ens. No seu orgulho desventurado, pagara ao m undo os m ais pesados tributos de angústia e de lágrim as dolorosas e, na sua vaidade de hom em , recebera as m ais penosas hum ilhações do destino. Ponderava, tardiam ente, que Lívia tudo fizera por torná-lo venturoso, num a vida de am or risonho, sim ples e despretensiosa. Recordou os m ínim os incidentes do passado doloroso, com o se o seu espírito estivesse procedendo a m eticulosa autópsia de todos os seus sonhos, esperanças e ilusões, na caligem do tem po.

Com o hom em , vivera unido aos processos do Estado, que lhe roubavam os m ais encantadores entretenim entos da vida dom éstica e, com o esposo, não tivera energia bastante para arm ar-se contra as calúnias insidiosas. Com o pai, considerava-se o m ais desgraçado de todos. De que lhe valia, então, a auréola do triunfo, se ela lhe chegava com o intragável cálice de am argura? De que lhe valiam , agora, as vitórias políticas e a significação social dos títulos de nobreza, bem com o a vultosa expressão da sua fortuna, sob a m ão im placável do seu im piedoso destino neste m undo?

Perdiam -se as suas m editações em profundos abism os de som bra e de dúvidas acerbas, quando lhe surgiu na m ente atorm entada a figura suave e doce do sublim e profeta de Nazaré, com a riqueza indestrutível da sua paz e da sua hum ildade.

Na plenitude de suas lem branças, pareceu ouvir ainda as extraordinárias advertências que lhe dirigira com a voz carinhosa e com passiva, j unto às águas m arulhentas do Tiberíades. Recordando-se intensam ente de Jesus, sentiu-se tom ado por um a vertigem de lágrim as dolorosas, as quais, de algum a form a, lhe balsam izavam o deserto do coração. Aj oelhando-se sob a fronde opulenta e generosa, qual o fizera um dia na Palestina, exclam ou para os céus, com os olhos m arej ados de pranto, lem brando-se da força m oral que a doutrina cristã havia proporcionado ao coração da esposa, nutrindo-a espiritualm ente para receber com dignidade e heroísm o todos os sofrim entos:

- Jesus de Nazaré! disse com voz súplice e dolorosa - foi preciso perdesse eu o m elhor e o m ais querido de todos os m eus tesouros, para recordar a concisão e a doçura de tuas palavras!... Não sei com preender a tua cruz e ainda não sei aceitar a tua hum ildade dentro da m inha sinceridade de hom em , m as, se podes ver a enorm idade de m inhas chagas, vem socorrer, ainda um a vez, m eu coração m iserável e infeliz!...

Penosa crise de lágrim as sobreveio a essa invocação tocada de um a franqueza rude, agressiva e dolorosa.

Figurou-se-lhe, todavia, que um a energia indefinível e im ponderável o aj udava, agora, a atravessar o angustioso transe.

Term inada a súplica que lhe fluía do im o da alm a lacerada, o orgulhoso patrício observou que a presença de inexplicável força m odificava, naquele m om ento inesquecível, todas as disposições m ais íntim as do seu coração e, conservando-se genuflexo, notou, com a visão interior do seu espírito, que a seu lado com eçava a surgir um ponto lum inoso, que se desenvolveu prodigiosam ente, na dolorosa serenidade daquele penoso instante de sua vida, surpreendendo-se com o fenôm eno que lhe sugeria ao pensam ento as conj eturas m ais inesperadas.

Por fim , aquele núcleo de luz tom ava form a e, diante de si, viu a figura radiosa de Flam ínio Severus, que lhe vinha falar na torm entosa noite da sua infinita am argura.

Públio reconheceu-lhe a presença, surpreendido e espantado, identificando-lhe os traços fisionôm icos e as saudações acolhedoras, com o quando se dirigia a ele, na Terra. Seu sem blante era o m esm o, na doce expressão de serenidade, agora tocada de triste e am argurado sorriso. Ostentava a m esm a toga de barra purpurina, m as não apresentava o aspecto m arcial e im ponente dos dias terrestres. Flam ínio contem plou-o com o se estivesse assom ado de piedade infinita e de ilim itada am argura. Seu olhar penetrante de espírito lhe devassava os m ais recônditos refolhos da consciência, enquanto o senador se aquietava, reverente, sensibilizado e surpreendido.

- Públio - disse-lhe carinhosam ente a voz am iga do duende -, não te revoltes com a execução dos desígnios divinos, que hoj e m odificou todos os roteiros da tua vida!... Ouve-m e bem ! Falo-te com a m esm a sinceridade e am or que nos une os corações, de há longos séculos!... Diante da m orte, todas as nossas vaidades desaparecem ... nas suas claridades sublim adas; nossos poderes terrenos são de um a fragilidade m isérrim a!... O orgulho, am igo m eu, abre-nos além do túm ulo um a porta de trevas densas, nas quais nos perdem os em nosso egoísm o e im penitência!... Volta a tua casa e sorve o conteúdo da taça travosa das provas rudes, com serenidade e valor espiritual, porque ainda estás longe de esgotar o cálice de tuas purificadoras am arguras, dentro das expiações redentoras e suprem as... As grandes dores, sem rem édio no m undo, hão-de abrir para o teu raciocínio um cam inho novo, nos eternos horizontes da crença!... Nossos deuses são expressões de fé respeitável e pura, m as Jesus de Nazaré é o Cam inho, a Verdade e a Vida!... Enquanto nossas ilusões sobre Júpiter nos levam a render culto aos m ais poderosos e aos m ais fortes, considerados com o prediletos de nossas divindades, pela expressão valiosa dos seus ricos sacrifícios, os ensinos preciosos do Messias Nazareno nos levam a ponderar a m iserabilidade de nossos falsos poderes à face do m undo, abraçando os m ais pobres e os m ais desventurados da sorte, com o a im pelir todas as criaturas a cam inho do seu Reino, conquistado com o sacrifício e o esforço de cada um , em dem anda da única vida real, que é a vida do Espírito... Hoj e sei que perdeste, um dia, a tua sublim e oportunidade, m as o Filho de Deus Todo-Poderoso, na sua piedade infinita e infinito am or, atende agora ao teu apelo, perm itindo que a m inha velha afeição venha balsam izar as feridas dolorosas do teu coração atorm entado!...

O senador deixou que todo o seu pensam ento se perdesse na tem pestade das m ais abençoadas lágrim as de sua vida. Arfando nos soluços de sua com punção, suplicava, m entalm ente:

- Sim , m eu am igo e m eu m estre, eu quero com preender a verdade e alm ej o o perdão das m inhas faltas enorm es!... Flam ínio, inspiração de m inha alm a dilacerada, sê o m eu guia na torm entosa noite do m eu triste destino!... Vale-m e com a tua ponderação e bondade!... Tom a-m e, de novo, pelas m ãos e esclarece-m e o coração no tenebroso cam inho!... Que fazer para alcançar do céu o esquecim ento de m inhas faltas?!...

A serena visão, com o se se houvera com ovido intensam ente ao receber aquele apelo, tinha agora os olhos ilum inados por piedosa e divina lágrim a.

Aos poucos, sem que Públio pudesse com preender o m ecanism o daquele fenôm eno insólito, observou que a silhueta do am igo se diluía levem ente na som bra, afastando-se da tela de suas contem plações espirituais; m as, ainda assim , percebeu que seus lábios m urm uravam , piedosam ente, um a palavra: -Perdoa!...

Aquela suave recom endação caiu-lhe nalm a com o bálsam o dulcificante. Sentiu, então, que seus olhos estavam agora abertos para as realidades m ateriais que o rodeavam , com o se houvera acordado de sonho edificante.

Sentiu-se algo aliviado de suas profundas dores e levantou-se para retom ar, com decidido valor, o fardo penoso da existência terrena.

Regressando a casa, por volta das vinte e duas horas, ali encontrou Plínio e Flávia, que o esperavam aflitos.

Vendo-lhe a fisionom ia fundam ente abatida e transfigurada, a filha, ansiosa, o abraçou, num transporte de ternura indefinível, exclam ando em lágrim as:

- Meu pai, m eu querido pai, até agora não nos foi possível obter qualquer notícia.

Públio Lentulus, porém , fixou nos filhos o olhar triste e desalentado, enlaçando-os silenciosam ente.

Em seguida, cham ou-os ao gabinete particular, para onde determ inou, igualm ente, a vinda de Ana, e os quatro, em conselho de fam ília, exam inaram , em ocionadam ente, os inolvidáveis sucessos daquele dia de provações aspérrim as.

À m edida que o senador transm itia aos filhos as revelações penosas de Ana, que lhe acom panhava as palavras extrem am ente com ovida, via-se que Flávia e o esposo traduziam no rosto as em oções m ais singulares e m ais fortes, sob a angustiosa im pressão daquela narrativa.

Ao fim do m inucioso relato, Plínio Severus exclam ou no seu orgulho irrefletido:

- Mas não poderíam os im putar toda a culpa dos fatos a esta m ísera criatura que há tantos anos serve indignam ente em vossa casa?

Assim se pronunciando, o oficial apontava a serva, que baixou a cabeça hum ildem ente, rogando a Jesus lhe fortalecesse o espírito para o testem unho daquele m om ento, que adivinhava penoso para os sentim entos m ais delicados do seu coração.

Públio Lentulus pareceu participar da opinião do genro; contudo, afigurou-se-lhe que as palavras de Flam ínio ainda lhe ressoavam no ádito da consciência e respondeu com firm eza:

- Filhos, esqueçam os os j ulgam entos apressados e, se bem reconheça a falta de Ana aceitando as vestes de sua senhora, quero venerar nesta serva a m em ória de Lívia, para sem pre. Com panheira fiel dos seus angustiosos m artírios de vinte e cinco anos consecutivos, ela continuará nesta casa com as m esm as regalias que lhe foram outorgadas por sua benfeitora. Apenas exij o que o seu coração saiba guardar os nossos lúgubres segredos desta noite, porque desej o honrar publicam ente a m em ória de m inha m ulher, depois do seu trem endo sacrifício naquela festividade da infâm ia.

Plínio e Flávia observaram -lhe, surpresos, a generosidade espontânea para com a criada que, por sua vez, agradecia a Jesus a graça do seu esclarecim ento.

O senador pareceu profundam ente m odificado naquele choque terrível, experim entado por suas fibras espirituais.

Neste com enos, interveio Plínio Severus, esclarecendo: - A vários am igos nossos, que aqui estiveram para cum prim entar-vos, declarei que, em vista do nosso luto por m inha m ãe, não com em oraríeis o vosso triunfo político na data de hoj e, inform ando m ais, no intuito de j ustificar vossa ausência, que a senhora Lívia se encontrava gravem ente enferm a, em Tibur, para onde fôra em busca de m elhoras, notícias essas que, aliás, eram recebidas pelos nossos íntim os com o m áxim o de naturalidade, porque a vossa consorte nunca m ais frequentou a sociedade desde a volta da Palestina, sendo com preensível que todos os nossos am igos a considerassem doente.

O senador ouviu, com interesse, essas explicações, corno se houvera encontrado solução para o angustioso problem a que o oprim ia.

Ao cabo de alguns m om entos, depois de exam inar a possibilidade da execução da idéia que lhe aflorara no cérebro dolorido, exclam ou m ais anim ado:

- Tua idéia, m eu filho, neste particular, veio trazer-m e a perspectiva de solução razoável para a angustiosa questão que m e acabrunha.

Cum pre-m e defender a m em ória de m inha m ulher - continuava o senador, de olhos úm idos -, e, se fôra possível, iria lutar corpo a corpo com a m entalidade infam e do governo cruel que atualm ente nos conspurca as m elhores conquistas sociais; m as, se eu fosse bradar pessoalm ente a m inha indignação e a m inha revolta, na praça pública, seria tachado de louco; e se fosse desafiar Dom ício Nero seria o m esm o que tentar a im obilidade das águas do Tibre com o galho de um a flor. Neste sentido, pois, saberei agir nos bastidores políticos, para derrubar o tirano e seus asseclas, ainda que isso nos custe o m áxim o de tem po e paciência.

Agora, o que m e com pete urgentem ente é prestar todas as hom enagens possíveis aos sentim entos im áculos da com panheira arrebatada nos torvelinhos da insânia e da crueldade.

Plínio e Flávia escutavam -no, silenciosos e com ovidos, sem lhe perturbarem o curso rápido das palavras, enquanto ele prosseguia sensatam ente:

- Há m ais de dez anos que a sociedade rom ana via em m inha pobre com panheira um a enferm a e um a dem ente. E j á que os nossos am igos foram avisados de que Lívia se encontrava em Tibur, talvez aguardando a m orte, partirei para lá, ainda esta noite, levando Ana em m inha com panhia...

E com o se estivesse tom ado por um a idéia fixa, com aquela preocupação de hom enagear a m orta inesquecível, Públio Lentulus continuou:

- Nossa casa em Tibur está agora desabitada porque, há m ais de vinte dias, Filopátor foi a Pom peia, obedecendo a determ inações m inhas... Chegarei lá com Ana, levando um a urna funerária que, para todos os efeitos, encerrará os restos da m inha pobre Lívia... Nossos servos devem partir am anhã, igualm ente, quando então m andarei m ensageiros a Rom a, cientificando-lhes do acontecim ento por satisfazer as pragm áticas da vida social!... Em Tibur, prestarem os à m em ória de Lívia todas as hom enagens, transladando, em seguida, publicam ente, as cinzas para aqui, onde farei celebrar as m ais solenes exéquias, na visitação pública, testem unhando, assim , em bora tardiam ente, m inha veneração pela santa criatura que se sacrificou por nós a vida inteira...

- Mas... e a incineração? - perguntou Plínio Severus, prudentem ente, ao conj eturar o êxito possível do proj eto.

O senador, porém , não hesitou, resolvendo o assunto com a habitual energia das suas decisões:

- Se essa cerim ônia requer a presença dos sacerdotes, saberei conduzir-m e j unto ao m inistro do culto, na cidade, alegando o desej o de tudo fazer no m ais reduzido círculo da m inha intim idade fam iliar.

O que resta, tão som ente, é esperar, de vocês que m e ouvem , silêncio tum ular sobre as providências dolorosas desta noite, a fim de não ferirm os as suscetibilidades do preconceito social.

Surpreso com aquela energia em tão penosas circunstâncias, Plínio Severus fez-lhe com panhia naquelas horas avançadas, para a com pra da urna m ortuária, que foi adquirida, em poucos m inutos, de um com erciante que nada indagou do estranho cliente, atendendo à circunstância da sua posição social e política, bem com o à vultosa im portância da com pra, efetuada com significativas vantagens para o seu interesse.

Naquela m esm a noite, Públio Lentulus e Ana se dirigiram com alguns escravos para a cidade de repouso dos antigos rom anos, vencendo em algum as horas as som bras espessas dos cam inhos e chegando com a possível tranquilidade. de m odo a am bientar as derradeiras hom enagens à m em ória de Lívia.

Todas as providências foram adotadas com profunda surpresa para todos os servos, que não ousavam discutir as ordens recebidas, e m esm o para os patrícios da cidade, que sabiam doente a esposa do senador, m as ignoravam o doloroso episódio da sua m orte.

Flávia e Plínio foram cham ados no dia seguinte, satisfazendo-se a todos os im perativos de ordem social, naquela penosa representação de condolências.

Um donativo m ais rico e m ais generoso de Públio Lentulus ao culto de Júpiter conquistava-lhe a plena autorização do clero tiburtino, no referente à sua decisão de incinerar o cadáver da esposa na intim idade da fam ília, sendo a m em ória de Lívia hom enageada com todos os cerim oniais do antigo culto dos deuses, invocando-se a proteção dos m anes e divindades dom ésticas.

Num erosos portadores foram expedidos a Rom a e daí a dois dias a urna funerária chegava à sede do Im pério, penetrando pom posam ente no palácio do Aventino, onde a esperava um soberbo catafalco.

Durante três dias sucessivos, as cinzas sim bólicas de Lívia estiveram expostos à visitação do povo, tendo o senador m andado distribuir vultosos donativos, em alim entos e dinheiro, à plebe que viesse prestar as últim as hom enagens à m em ória da sua m orta querida. Longas rom arias visitaram a residência, dia e noite, dando-lhe o aspecto im ponente de um tem plo aberto a todas as classes sociais. Toda a nobreza rom ana, inclusive o cruel Im perador, se fez representar nas pom pas daquelas exéquias, que eram com o que um a expressão de rem orso e um a tentativa de reparação da parte do esposo am argurado. Públio Lentulus considerava que, som ente assim , poderia agora penitenciar-se, publicam ente, a respeito de sua m ulher, que voltava a ocupar o lugar de veneração no círculo num eroso de am izades aristocráticas da sua fam ília.

Term inado o últim o núm ero daquelas cerim ônias, o senador fez questão de que a filha e o genro, bem com o Agripa, passassem a residir no palácio do Aventino, em sua com panhia, no que foi atendido, em caráter provisório, segundo asseverava Plínio à m ulher, e, naquela m esm a noite, com a alm a dilacerada de saudade e de angústias transportou, em com panhia de Ana, todos os obj etos de uso pessoal da esposa para os seus aposentos particulares.

Term inada a tarefa, Públio Lentulus exclam ou para a serva, com singular interesse:

- Tudo pronto?

Recebendo resposta afirm ativa, insistiu, com o se faltasse ainda algum a coisa, referindo-se à cruz de Sim eão, guardada cuidadosam ente pela dedicação de Ana, com o se m ais ninguém pudesse apreciar a significação especial daquele tesouro:

- Onde está um a pequena cruz de m adeira tosca, que m inha m ulher tanto venerava?

- Ah! é verdade!...- exclam ou a serva, satisfeita por observar a m odificação daquela alm a austera.

E, retirando do seu quarto a m odesta lem brança do apóstolo de Sam aria, entregou-lha com reverência afetuosa. O senador, então, colocou-a num m óvel secreto. Todavia, quem lhe acom panhasse a existência am argurada, poderia vê-lo, todas as noites, na solidão do seu aposento, j unto do precioso sím bolo das crenças da com panheira.

Quando as luzes do palácio se apagavam , de leve, e quando todos buscavam o repouso no silêncio da noite, o orgulhoso patrício retirava do cofre de suas lem branças m ais queridas a cruz de Sim eão e, aj oelhado qual o fazia Lívia, parava a m áquina do convencionalism o m undano, para m editar e chorar am argam ente.