Há Dois Mil Anos

Chico Xavier · Capítulo 19 de 21

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Há Dois Mil Anos

VIII Na destruição de Jerusalém

 

Mais de dez anos correram , silenciosam ente am argurados, depois de 58, sobre a vida com um das personagens desta história.

Som ente em 68, conseguira a política conciliatória de grande núm ero de patrícios, entre os quais Públio Lentulus, o definitivo afastam ento de Dom ício Nero e suas nefandas crueldades. Todavia, a ascensão de Galba durara poucos m eses e aquele ano de 69 ia definir grandes acontecim entos na vida do im pério.

Lutas num erosas encheram a cidade de pavor e sangue. A terrível contenda entre Otão e Vitélio dividira todas as classes da fam ília rom ana em facções hostis, que se odiavam ao extrem o.

Afinal, a fam osa batalha de Bedriaco dava o trono a Vitélio, que instaurou novo círculo de crueldades em todos os setores políticos.

A diplom acia interna, porém , vigiava na som bra, exam inando atentam ente a situação, de m odo a não perm itir a continuidade de novo surto de exterm ínio e de infâm ia.

Vitélio apenas conservou o governo por oito m eses e dias. porque, no m esm o ano de 69, as legiões do território africano, trabalhadas pela orientação sutil dos que haviam derribado Nero e seus asseclas, proclam aram Vespasiano para a suprem a investidura do Im pério. O novo im perador, que ainda se encontrava no cam po de seus feitos de arm as, em penhado na pacificação da Judeia distante satisfazia as exigências m ais avançadas de todas as classes civis e m ilitares, sendo recebido em triunfo para o posto suprem o, iniciando-se, assim , a era prestigiosa dos Flávios.

Vespasiano integrava aquele grupo de patrícios operosos que contribuíra, sem alardes, para a queda dos tiranos.

Am igo pessoal de Públio Lentulus, o im perador se tornara fam oso, não só por suas vitórias m ilitares, m as tam bém por seu criterioso tirocínio político, evidenciado em Rom a desde os dias turbulentos de Calígula.

Sob a sua orientação adm inistrativa, ia abrir-se um a trégua nas im oralidades governam entais, inaugurar-se-ia novo período de com preensão das necessidades populares e, na rota dos seus planos econôm ico-financeiros, o Im pério ia cam inhar para os dias regeneradores de um a era nova.

Públio recebeu todos os acontecim entos com a velada alegria possível aos seus 67 anos de lutas e fortes experiências da vida. Sob a claridade serena da velhice, todavia, sua fibra m oral e resistência física eram as m esm as de sem pre.

Dentro da perspectiva de m elhores dias para as realizações patrióticas, considerava, agora, com o bem em pregado, todo o tem po que roubara à filha cega, para atender ao trabalho do bem coletivo; e foi nesse estado de espírito, com a consciência satisfeita pelo dever cum prido, de conform idade com as suas concepções, que se dirigiu a palácio para atender a cham ado especial do im perador, que, m uitas vezes, não deixou de recorrer ao conselho dos seus m ais antigos com panheiros de ideal.

- Senador - disse-lhe Vespasiano, na intim idade tranquila de um dos m agníficos gabinetes da residência im perial -, m andei cham á-lo para m e am parar com a sua tradicional dedicação ao Im pério, na solução de assunto que j ulgo de sum a im portância. (1)

__________

(1) Vespasiano esteve em Rom a logo após a sua proclam ação - Nota de Em m anuel.

- Dizei, Augusto!... - respondeu Públio, com ovido. Mas o im perador, gentil, cortou-lhe a palavra:

- Não, m eu caro, entendam o-nos com a velha intim idade de outros tem pos. Deixem os, por um instante, os protocolos.

E, vendo que o senador esboçava um sorriso de reconhecim ento à sua palavra fluente e generosa, continuou a expor a questão que o interessava:

- Cham ado a Rom a para o cargo suprem o, não ousei desobedecer às sagradas inj unções que m e im peliam ao cum prim ento desse grande dever, em bora obrigado a deixar m eu filho na obra de pacificação da Judeia am otinada, trabalho esse que considerarei, em toda a vida, o m eu m elhor esforço pela vitalidade do Im pério, no desdobram ento de suas gloriosas tradições.

Acontece, todavia, que o cerco de Jerusalém se vai prolongando dem asiado, acarretando as m ais sérias consequências para m eus proj etos econôm icos, no program a restaurador que m e propus realizar no governo.

Suponho que o m eu valoroso Tito estej a necessitando de um conselho de civis, além dos assistentes m ilitares que o acom panham na arroj ada em presa, e lem brei-m e de organizá-lo tão som ente com os am igos m ais íntim os, que conheçam Jerusalém e suas cercanias.

Quando das m inhas prim eiras incursões na edilidade, tive conhecim ento dos seus processos na reform a adm inistrativa da Judeia, sabendo, portanto, da sua perm anência em Jerusalém há m ais de vinte anos.

Era, pois, m eu desej o que aceitasse, com outros poucos com panheiros nossos, a incum bência de orientar m elhor a tática m ilitar de m eu filho. Tito está necessitando da cooperação política de quem conheça a cidade nos seus m enores recantos, bem com o os seus idiom as populares, de m aneira a vencer a situação que se vai tornando cada vez m ais penosa.

Públio Lentulus pensou na filha doente, um instante, m as, recordando-se da dedicação absoluta de Ana, que poderia perfeitam ente substituir seus zelos por algum tem po, respondeu com decisão e energia:

- Meu nobre im perador, vossa palavra augusta é a palavra do im pério. O Im pério m anda e eu obedeço, honrando-m e em cum prir vossas determ inações e correspondendo aos im pulsos generosos da vossa confiança.

- Muito agradecido! - falou Vespasiano, estendendo-lhe a m ão, extrem am ente satisfeito. Tudo estará pronto, de m odo que sua partida, e de m ais dois ou três am igos nossos, se verifique dentro de duas sem anas, o m ais tardar.

Assim aconteceu.

Depois das dolorosas despedidas da filha, que ficara aos cuidados da serva dedicada, no palácio do Aventino, o senador tom ava. a suntuosa galera que, largando de Óstia, penetrou depressa o m ar largo, rum o à Judeia.

O velho patrício reviveu, com penosa serenidade, as peripécias da viagem dos seus tem pos de j uventude venturosa, quando a felicidade era para ele incom preensível, em com panhia da esposa e dos dois filhinhos.

Sim , a pequenina figura de Marcus, o filho desaparecido, parecia surgir novam ente a seus olhos, sob um a auréola de radioso e santificado enlevo.

Um dia, em Cafarnaum , levado pelas palavras caluniosas de Sulpício Tarquinius, duvidou da honorabilidade da m ulher, acreditando, m ais tarde, que o rapto da criança fosse um a consequência da sua infidelidade. Mas Lívia agora estava redim ida de todas as culpas, no tribunal da sua consciência. Seus sacrifícios dom ésticos e a m orte heróica no circo constituíam a prova m áxim a da sublim ada pureza do seu coração. Naqueles instantes de m editação, figurava-se-lhe que voltava ao passado com os seus sofrim entos interm ináveis, esbarrando sem pre na som bra pesada do m istério, quando tentava reler as páginas desse doloroso capítulo da sua existência.

A que abism os insondáveis e desconhecidos teria sido levado o pequenino que lhe perpetuaria a estirpe nobre?

Suas em oções paternais pareciam alarm ar-se de novo, depois de tantos anos e tantos padecim entos em fam ília.

Mas, em bora lhe flutuassem no íntim o as m ais penosas dúvidas, o senador, na rigidez da sua enfibratura m oral, preferia crer, consigo m esm o, que Marcus Lentulus havia sido assassinado por m alfeitores vulgares, dados ao roubo e ao terrorism o, para nunca m ais requisitar os seus desvelos paternais.

Assim quereria crer, m as aquela viagem afigurava-se-lhe um a análise de suas lem branças m ais queridas e m ais pungentes.

De tarde, ao suave clarão do crepúsculo no Mediterrâneo, parecia-lhe ver ainda o vulto de Lívia acalentando o pequenino, ou falando-lhe ao coração em term os afetuosos de consolação, supondo lobrigar, igualm ente, a figura de Com ênio, o servo de confiança, entre os subalternos e escravos.

Em com panhia de três outros conselheiros civis, chegou sem m aior dificuldade ao destino, colocando-se esse reduzido conselho de íntim os do im perador à im ediata disposição de Tito, que lhe aproveitou os pareceres, utilizando com grande êxito as suas opiniões, filhas de larga experiência da região e dos costum es.

O filho do im perador era generoso e leal para com todos os com patriotas, que o consideravam com o benfeitor e am igo. Mas, para os adversários, Tito era de um a crueldade sem nom e.

Em torno da sua figura ardente e desassom brada, desdobravam -se legiões num erosas de soldados que com batiam encarniçadam ente.

O cerco de Jerusalém , term inado em 70, foi um dos m ais im pressionantes da história da hum anidade.

A cidade foi sitiada, j ustam ente quando interm ináveis m ultidões de peregrinos, vindos de todos os pontos da província, se haviam reunido j unto ao tem plo fam oso, para as festas dos pães ázim os. Daí, o excessivo núm ero de vítim as e as lutas acérrim as da célebre resistência.

O núm ero de m ortos nos terríveis recontros elevou-se a m ais de um m ilhão, fazendo os rom anos quase cem m il prisioneiros, dos quais onze m il foram m assacrados pelas legiões vitoriosas, depois da escolha dos hom ens válidos, entre cenas penosas de sangue e de selvageria por parte dos soldados.

O velho senador sentia-se am argurado com aqueles pavorosos espetáculos de carnificina, m as cum pria-lhe desem penhar a palavra dada e era com o m elhor espírito de coragem que dava pleno cum prim ento ao seu m andato.

Seus pareceres e conhecim entos foram , m uitas vezes, utilizados com êxito, tornando-se íntim o conselheiro do filho do im perador.

Diariam ente, em com panhia de um am igo, o senador Pom pílio Crasso, visitava os postos m ais avançados das forças atacantes, verificando a eficácia da nova orientação observada pela estratégia m ilitar dos seus patrícios Os chefes de operações várias vezes lhes cham aram a atenção, para não avançarem m uito em suas atitudes de desassom bro, m as, Públio Lentulus não m anifestava o m enor receio, realizando, na sua idade, m inuciosos serviços de reconhecim ento topográfico da fam osa cidade.

Afinal, na véspera da queda de Jerusalém , j á se lutava quase corpo a corpo em todos os pontos de penetração, havendo incursões de parte a parte nos cam pos inim igos, com reciprocas crueldades contra todos os que tivessem a infelicidade de cair prisioneiros.

Apesar do zelo de que eram cercados, Públio e o am igo, em virtude da coragem de que davam testem unho, caíram nas m ãos de alguns adversários que, ao lhes observarem a indum entária de altos dignitários da Corte Im perial, os conduziram im ediatam ente a um dos chefes da desesperada resistência, instalado num casarão à guisa de quartel, próxim o da Torre Antônia.

Públio Lentulus, observando as cenas de selvaj aria e sangue da plebe anônim a e am otinada, que exterm inava num erosos cidadãos rom anos sob as suas vistas, lem brou a tarde dolorosa do Calvário, em que o piedoso profeta de Nazaré sucum bira na cruz, sob a vozeada terrificante das m ultidões enfurecidas. Enquanto cam inhava tangido com brutalidade e aspereza, o velho senador considerava, igualm ente, que, se aquele m om ento assinalasse a sua m orte, devia m orrer heroicam ente, com o sua própria m ulher, em holocausto aos seus princípios, em bora houvesse fundam ental diferença entre o reino de Jesus e o im pério de César. A idéia de deixar Flávia Lentúlia órfã do seu afeto preocupava-lhe o íntim o; todavia, ponderava que a filha teria no m undo a dedicação generosa e assídua de Ana, bem com o o am paro m aterial da sua fortuna.

Foi nesse estado de espírito, surpreso com a sucessão dos acontecim entos, que atravessou longas ruas cheias de m ovim ento, de gritos, de im propérios e de sangue.

Jerusalém , tom ada de assom bro, m obilizava as derradeiras energias para evitar a ruína com pleta.

Ao cabo de algum as horas, extenuados de fadiga e sede, Públio e o am igo foram introduzidos no som brio gabinete de um chefe j udeu, que expedia as m ais im piedosas ordens de suplício e m orte para todos os rom anos presos, revidando às atrocidades do inim igo.

Bastou que Públio fitasse aquele velho israelita de traços característicos, para procurar, sofregam ente, um a figura sem elhante no acervo de suas lem branças m ais íntim as e m ais rem otas.

Não pôde, porém , de pronto, identificar aquela personagem . O velho chefe, contudo, pousou nele o olhar astuto e, fazendo um gesto de satisfação, exclam ou com um a chispa de ódio a lhe transparecer de cada palavra:

- Ilustríssim os senadores - enfatizou com ironia e desprezo -, eu vos conheço de longos anos...

E, fixando Públio, acentuou com m alícia:

- Sobretudo, honro-m e com a presença do orgulhoso senador Públio Lentulus, antigo legado de Tíbério e de seus sucessores nesta província perseguida e flagelada pelas pragas rom anas. Ainda bem que as forças do destino não m e perm itiram partir para a outra vida, na m inha velhice trabalhosa, sem m e desafrontar de um a inj úria inolvidável.

Avançando para o velho patrício que o contem plava supinam ente surpreendido, repetia com insistência irritante:

- Não m e reconheceis?...

O senador, porém , tinha o sem blante a evidenciar o seu penoso abatim ento físico, em face daquela rude provação da sua vida; debalde, encarava a figura franzina e m aquiavélica de André de Gioras, agora com elevado ascendente nos trabalhos do tem plo fam oso, em vista da fortuna que Conseguira am ealhar.

Verificando a im possibilidade de ser identificado pelo prisioneiro, cuj a presença, ali, m ais o interessava e que lhe respondera a todas as perguntas com silencioso gesto negativo, o velho j udeu retornou com sarcasm o:

- Públio Lentulus, sou André de Gioras, o pai a quem insultaste um dia com o excesso da tua autoridade orgulhosa. Lem bras-te agora?

O prisioneiro fez um sinal afirm ativo com a cabeça.

Vendo, porém , que o seu atrevim ento não o intim idava, o chefe de Jerusalém insistia exasperado:

- E porque não te hum ilhas neste m om ento, diante de m inha autoridade? Ignoras, porventura, que posso hoj e decidir dos teus destinos?... Qual a razão por que não m e pedes com iseração?

Públio estava exausto. Lem brou os seus prim eiros dias em Jerusalém , recordou a visita daquele agricultor inteligente e revoltado. Procurou rem em orar, intim am ente, as providências que adotara na qualidade de hom em público, a fim de que o filho do j udeu voltasse ao lar paterno, não se lem brando de haver destilado tanto fel naquele coração irresignado. Deliberara nada dizer, diante da sua figura exasperada e truculenta, atendendo às suas íntim as disposições espirituais, m as, em face da ousada insistência, sem abdicar as antigas tradições de orgulho e vaidade que o caracterizavam noutros tem pos, e com o se desej asse dem onstrar desassom bro em tão penosas circunstâncias, replicou, afinal, com energia:

- Se vos j ulgais aqui no cum prim ento de um a obrigação sagrada, acim a de qualquer sentim ento particular e m enos digno, não espereis que se vos peça com iseração, pelo fato de cum prirdes o vosso dever.

André de Gioras franziu o sobrolho, exasperado com a resposta im prevista, andando de um lado para outro no am plo gabinete, com o se estivesse a cogitar o m elhor m eio de executar a trem enda vingança.

Depois de alguns m om entos de som brio silêncio, com o se houvesse chegado a um a solução condigna dos seus tigrinos proj etos, cham ou com voz soturna um dos guardas num erosos, ordenando:

- Vai depressa e dize a Ítalo, de m inha parte, que deve aqui estar am anhã, às prim eiras horas, de m odo a cum prir m inhas determ inações.

E enquanto o em issário saía, dirigiu-se aos dois prisioneiros nestes term os:

- A queda de Jerusalém está im inente, m as darei a últim a gota de sangue da m inha velhice para exterm inar as víboras do vosso povo. Vossa raça m aldita veio cevar-se na cidade eleita, m as eu exulto com a m inha vingança em vós am bos, orgulhosos dignitários do im pério da im piedade e do crim e! Quando se abrirem as portas de Jerusalém , terei executado m eus im placáveis desígnios!

Calando-se, bastou um gesto para que os dois am igos fossem atirados num a enxovia escura e úm ida, onde passaram um a noite terrível de conj eturas dolorosas, trocando am arguradas confidências.

Na m anhã seguinte, eram cham ados à prova suprem a. Já se ouviam na cidade os prim eiros rum ores das forças rom anas vitoriosas, entregando-se ao terror e ao saque da população hum ilhada e inerm e.

Por toda parte, o êxodo precipitado de m ulheres e crianças em gritaria infernal e angustiosa; m as, naquele casarão de grossas paredes de pedra, refugiara-se considerável núm ero de chefes e com batentes, para a resistência suprem a.

Públio e Pom pílio foram conduzidos a um a sala am pla, de onde podiam ouvir o ruído crescente da vitória das arm as im periais, depois de lances dram áticos e cruentos, em tanto tem po de terror, de rapina e de luta; todavia, ali, naquele com partim ento espaçoso e fortificado, tinha à frente centenas de guerreiros arm ados e alguns chefes políticos da resistência israelita, que os contem plavam .

Diante do avanço vitorioso das legiões rom anas, era de notar a inquietação e o pavor que dom inavam todos os sem blantes, m as havia um interesse geral pelos dois prisioneiros im portantes do Im pério, com o se eles representassem o últim o obj eto em que se pudessem cevar o ódio e a vingança.

Modificando, todavia, aquela situação indecisa, André de Gioras tom ou a palavra em voz estranha e sinistra, que retum bou por todos os ângulos da casa:

- Senhores! estam os chegando ao fim da nossa desesperada defesa, m as tem os o consolo de guardar dois grandes chefes da am aldiçoada política de rapina do im pério Rom ano!... Um deles é Pom pílio Crasso, que com eçou a sua carreira de hom em público nesta província desventurada, inaugurando um longo período de terror entre os nossos com patriotas infelizes! O outro, senhores, é Públio Lentulus, orgulhoso legado de Tibério e de seus sucessores na Judeia hum ilhada de todos os tem pos; que escravizou nossos filhos ainda j ovens e organizou processos crim inosos em todas as zonas provinciais, fom entando o pavor de nossos irm ãos perseguidos e flagelados, lá da sua residência senhorial da Galileia!... Pois bem ! antes que os m alditos soldados da pilhagem im perial nos aprisionem e aniquilem , cum pram os nossos desígnios!...

Todos os presentes ouviram -lhe a palavra, com o se fôra a ordem suprem a de um chefe a quem se devesse obedecer cegam ente.

Os dois senadores foram , então, am arrados com pesadas peças de ferro aos postes do suplício, sem liberdade para qualquer m ovim ento, restringindo suas expressões de m obilidade aos olhos silenciosos e serenos no sacrifício.

- Nossa vingança - voltava o odiento israelita a explicar - deve obedecer ao critério da antiguidade. Prim eiram ente, deverá m orrer Pom pílio Crasso, por ser o m ais velho e para que o vaidoso senador Públio Lentulus com preenda o nosso esforço para elim inar a vitalidade do seu im pério m aldito.

Pom pílio fitou longam ente o am igo, com o se estivesse fazendo suas despedidas angustiosas e m udas, na hora extrem a.

- Nicandro, este trabalho te com pete - exclam ou André, voltando-se para um dos com panheiros.

E dando ao vigoroso soldado um a espada sinistra, acrescentou com profunda ironia:

- Tira-lhe o coração para o am igo, que deverá conservar a cena de hoj e na sua m em ória, para sem pre.

Os olhos do condenado brilharam de intensa angústia, enquanto as faces descoravam ao extrem o, acusando as em oções dolorosas que lhe iam na alm a. Entre ele e o com panheiro de am argura, foi trocado, então, um olhar inesquecível.

Em m inutos rápidos, Públio Lentulus assistiu ao desenrolar da operação nefanda.

A cabeça branca do supliciado pendeu ao prim eiro golpe de espada e do seu tórax encarquilhado foi arrancado violentam ente o coração palpitante, sangrento.

Entretanto, o senador sobrevivente ouvia j á o rum or dos patrícios vitoriosos que se aproxim avam afigurando-se-lhe que j á se lutava corpo a corpo, às portas daquela turbulenta assem bléia da vindita e do crim e. A m onstruosa cena estarrecia-lhe o ânim o, sem pre otim ista e decidido, m as não perdeu a com postura altiva e rígida que ele a si m esm o se im punha, naquele angustioso transe.

Term inada a execução de Pom pílio, feita à pressa, porquanto todos os presentes tinham consciência da horrorosa situação que os esperava diante dos triunfadores, André de Gioras levantou novam ente a voz:

- Meus am igos - afirm ou soturnam ente -, ao m ais velho, a penalidade m isericordiosa da m orte; m as, a este patrício infam e que nos ouve, concederem os a pena am arga da vida, dentro do sepulcro das suas ilusões desvairadas, de vaidade e orgulho!... Públio Lentulus, o antigo em issário dos im peradores, deverá viver!... Sim , m as sem os olhos que lhe clarearam o cam inho do egoísm o suprem o sobre os nossos grandes infortúnios!... Deixá-lo-em os com vida, para que nas trevas da sua noite busque ver com os olhos dos escravos que ele espezinhou no curso da vida.

Havia um penoso silêncio interior, em bora se ouvisse, lá fora, o patear dos cavalos e o tinir das arm aduras, aliados ao rum or sinistro de vozes praguej antes no ataque e na resistência desesperada do últim o reduto.

André de Gioras parecia, porém , em briagado com a volúpia de sua vingança e, m antendo o equilíbrio da assistência naquela hora trágica do destino que a todos aguardava, com a palavra m agnética e persuasiva exclam ou energicam ente:

- Ítalo, com pete ás tuas m ãos a tarefa deste m om ento. Da assistência com pacta e inquieta destacou-se um hom em , aparentando quase quarenta anos de idade, surpreendendo o senador pelos seus traços finos de patrício. Seus olhares encontraram -se e ele supôs descobrir naquela alm a um laço de afinidade estranha e incom preensível.

Ítalo? Aquele nom e não lhe recordava algum a coisa das proxim idades da sua Rom a inesquecida? Por que m otivo estaria ali aquele hom em , evidentem ente de sangue nobre, com batendo ao lado dos j udeus am otinados e intoxicados de ódio? Por sua vez, o verdugo, indicado pela voz soberana de André, parecia inclinado à ternura e à piedade por aquele hom em velho e sereno, de m ãos e pés am arrados ao poste da inj úria, com o que hesitava sobre se devia cum prir o sinistro e despiedado desígnio do seu chefe.

Daí a m inutos, surgia, de um a porta larga e som bria, um guerreiro israelita, trazendo em am pla bandej a de bronze um a lâm ina de ferro incandescente, cuj a ponta aguçada repousava entre brasas vivas.

Contem plando com interesse a enigm ática figura de Ítalo, na vitalidade da idade adulta, o senador, silencioso, não podia dissim ular a curiosidade em face do seu vulto ereto e delicado.

André, porém , gozando o quadro e percebendo a acurada atenção do condenado, arrancou-o daquele estado de conj etura e surpresa, ironizando:

- Então, senador, estais adm irando o porte nobre de Ítalo?... Lem brai-vos de que se os patrícios se dão ao luxo de possuir escravos israelitas, os senhores da Judeia tam bém apreciam os servos de tipo rom ano. Aliás, sou obrigado a considerar que é sem pre perigoso guardarm os um escravo com o este, na cidade, em vista da praga do patriciado, hoj e excessivo por toda a parte; m as eu consegui m anter este hom em de trabalho no am biente rural, até agora...

Públio Lentulus m al poderia decifrar o sentido oculto daquelas irônicas palavras, não lhe sobrando tem po, ali, para qualquer introspecção. Observou que André se calara, atendendo à urgência com que devia ser levada a efeito a operação em perspectiva, de m odo a não se perder o verm elho incandescente da lâm ina fatídica. Diante de m uitos olhares atônitos e desesperados, que não sabiam se fixavam a cena m acabra ou se atentavam para a ruidosa penetração das forças de Tito a quebrarem naquele instante os obstáculos do últim o reduto, o algoz im placável entregou a Ítalo o terrível instrum ento do sacrifício.

- Ítalo - recom endou com a m áxim a energia -, este m inuto é precioso... Vam os queim ar-lhe as pupilas, de m odo a lhe proporcionarm os um a sepultura de som bras eternas, dentro da vida.

O pobre hom em , todavia, sensibilizado até às lágrim as, em face do suplício que deveria infligir por suas m ãos, parecia indeciso e titubeante.

- Senhor... - disse súplice, sem conseguir form ular obj eções. - Porque hesitas?... - revidou André, tiranicam ente, cortando-lhe a palavra. - Será preciso o chicote para que m e obedeças?

Ítalo tom ou, então, da lâm ina, hum ildem ente. Aproxim ou-se de leve do condenado cheio de resignação e de fortaleza interior. Antes do instante suprem o, seus olhares se encontraram , trocando vibrações de sim patia recíproca. Públio Lentulus ainda lhe fixou o porte, tocado de incontestável nobreza, esfacelada em suas linhas m ais características pelos trabalhos m ais im piedosos e m ais rudes; e tão grande foi a atração que experim entou por aquele hom em , fixado pelos seus olhos em plena luz, pela vez derradeira, que chegou a se recordar, inexplicavelm ente, do seu pequenino Marcus, considerando que, se ele ainda vivesse num am biente tão hostil, deveria ter aquele porte e aquela idade.

As m ãos de Ítalo, trêm ulas e hesitantes, aproxim aram -se dos seus olhos exaustos, com o se o fizessem num a doce atitude de carinho; m as o ferro incandescente, com a rapidez do relâm pago, feriu-lhe as pupilas orgulhosas e claras, m ergulhando-as na treva para todo o sem pre.

Nisso, observou a vítim a que um a gritaria infernal reboava em toda a sala.

Um a dor indefinível irradiava-se da queim adura, fazendo-lhe experim entar atrozes padecim entos.

Ele nada m ais divisava, além das trevas espessas que lhe cobriam o espírito, m as adivinhava que as forças vitoriosas chegavam tardiam ente para libertá-lo.

No m eio dos ruídos ensurdecedores, André de Gioras ainda se aproxim ou do condenado, falando-lhe ao ouvido:

- Poderia m atar-te, senador infam e, m as quero que vivas. Vou revelar-te, agora, quem é Ítalo, teu algoz do últim o instante!...

Mas um golpe violento de espada, brandida por um legionário rom ano, fizera o velho israelita cair ao solo sem sentidos, enquanto certeira punhalada atingia Ítalo, indeciso na sua estupefação, que caiu pesadam ente j unto do supliciado, abraçando--lhe os pés, num gesto significativo e suprem o.

Vozes am igas rodearam , então, Públio Lentulus, naquele am biente tum ultuário. Desataram -lhe im ediatam ente os pés e as m ãos, restituindolhe a liberdade dos m ovim entos, enquanto outros legionários retiravam o cadáver de Pom pílio Crasso, com o peito vazio, num quadro pavoroso de selvaj aria sanguinosa.

Serenados os prim eiros tum ultos e guardando as m ais penosas dúvidas sobre as palavras reticenciosas do inim igo im placável, Públio Lentulus, antes de ser levado pelo braço dos com panheiros ao com ando das forças em operações, onde receberia os prim eiros socorros, recom endou que tratassem com o m áxim o respeito o cadáver de Ítalo, que j azia ao lado de um m ontão de despoj os sangrentos, no que foi atendido, obtem perando-lhe, porém , um com panheiro:

- Senador, antes de tudo, não vos esqueçais do vosso estado, que está requerendo de todos nós os m ais urgentes cuidados.

E com o se quisesse provocar um a explicação espontânea do ferido, quanto ao seu interesse pelo m orto, acentuou delicadam ente:

- Não foi esse hom em quem vos infligiu o horrendo suplício? À vista da pergunta inopinada e necessitando j ustificar sua atitude perante os com patriotas que o ouviam , Públio exclam ou com voz pungente:

- Enganais-vos, m eu am igo. Esse hom em cuj o cadáver agora não vej o, era nosso conterrâneo, prisioneiro de m uito tem po pela sanha vingativa de um poderoso senhor de Jerusalém ... Observai-lhe os traços nobres e concordareis com igo!...

E enquanto se retirava am parado pelos am igos, a fim de receber socorros im ediatos e im prescindíveis, supôs haver cum prido um dever, em pronunciando aquelas palavras, porque m isteriosas vozes lhe falavam ao coração, acerca daquele olhar generoso que pousara em seus olhos pela últim a vez.

Vários dias esteve Jerusalém entregue ao saque e à desordem , levados a efeito pela soldadesca do im pério, fam inta de prazeres e envenenada no vinho sinistro do triunfo. Todos os chefes da resistência israelita foram presos, a fim de com parecerem a Rom a para o últim o sacrifício, em hom enagem às festas com em orativas da vitória. Entre eles incluía-se André de Gioras, que, restabelecido das escoriações recebidas, representava um dos que deveriam ser exterm inados para gáudio da assistência festiva na Capital do im pério.

Depois da m atança de onze m il prisioneiros feridos ou inválidos, m assacrados pelas legiões vencedoras; depois dos pavorosos espetáculos da destruição e saque do tem plo m agnífico, no qual Israel j ulgava contem plar a sua obra eterna e divina para todas as gerações da sua posteridade prolífica, voltou a caravana com pacta dos vencidos e vencedores, cheia de riquezas ilícitas e troféus m aravilhosos, de m odo a exibir em Rom a todos os ornam entos ilustrativos da vitória, entre vibrações tum ultuárias e cânticos de triunfo.

Num a galera confortável e tranquila, viaj ou Públio Lentulus, resignado dentro da noite cerrada da sua cegueira, rodeado de am igos prestim osos que tudo faziam por m inorar-lhe os sofrim entos m orais.

Antes de chegar a Rom a, vezes m uitas cogitou da m elhor m aneira de se dirigir diretam ente a André, para arrancar-lhe a verdade e serenar as dúvidas íntim as, quanto à identidade do escravo de tipo rom ano, que o ferira para sem pre, nos preciosos dons da vista. Ele, porém , agora, estava cego, e para realizar esse desej o teria de em pregar um largo processo de providências, de colaboração estranha, e, assim , não havia atinado com a m elhor m aneira de ouvir o j udeu sem ferir as tradições de dignidade pessoal, m antida em todos os tem pos da vida pública.

Foi, ainda, nesse im passe que chegou, novam ente, ao palácio do Aventino, acom panhado de num erosos com panheiros de labores políticos, surpreendendo am arguradam ente o coração da filha com a notícia trágica e dolorosa da sua cegueira.

Ana, qual anj o fraterno, valorosa irm ã de todos os infortunados, sincera discípula do Cristianism o, esperou carinhosam ente o seu senhor j unto de Flávia que exclam ava cheia de incoercível desalento:

- Meu pai, m eu pai, m as que desgraça!...

O velho patrício, todavia, no seu otim ism o, confortava-lhe o espírito, obtem perando:

- Filha, não te dês ao trabalho de conj eturar a fundo os problem as do destino. Em todos os acontecim entos da vida tem os de louvar os soberanos desígnios dos céus e espero que te encoraj es de novo, porque som ente assim viverei agora, j unto de ti, em consolação afetuosa e recíproca! Foi o próprio destino que m e afastou com pulsoriam ente das lides do Estado, a fim de viver doravante som ente por ti.

Abraçaram -se então efusivam ente, fundiram -se em beij os do m esm o infortúnio, vibrações de duas alm as presas aos m esm os padecim entos.

Públio Lentulus, porém , em bora o necessário descanso, e apesar da cegueira que lhe im possibilitava as iniciativas, não perdeu a esperança de ouvir a palavra do inim igo im placável, ainda um a vez, e, para isso, aguardou o dia ansiosam ente esperado pelo povo rom ano, das soberanas festas do triunfo.

Convém acentuar que o velho senador foi conduzido à cidade im ediatam ente, em virtude da sua especialíssim a situação; m as o vencedor e as suas legiões infindáveis entrariam em Rom a com todos os faustosos protocolos dos triunfadores, de conform idade com os num erosos regulam entos da própria antiga República.

No dia aprazado, toda a Capital, com a sua população de um m ilhão e m eio de habitantes, aproxim adam ente, aguardava as m agníficas com em orações da vitória.

Desde as prim eiras horas do dia, com eçaram a grupar-se ás portas da cidade as legiões vencedoras, desarm adas, vestindo delicadas túnicas de seda, ostentando soberbas auréolas de louro. Transpondo as portas da cidade, sob os aplausos estrondosos de m ultidões sem fim , foi-lhes oferecido esplêndido banquete, presidido pelo próprio im perador e seu filho.

Vespasiano e Tito, logo após as cerim ônias do Senado, no Pórtico de Otávia, encam inharam -se para a Porta Triunfal. Ali, ofereceram um sacrifício aos deuses e tom aram os sím bolos do triunfo nas aparatosas festividades im periais. Realizada essa cerim ônia, pôs-se em m archa o grande cortej o, ao qual Públio Lentulus não faltou, com a secreta intenção de ouvir a palavra reveladora do chefe prisioneiro, cuj o cadáver, depois dos sacrifícios daquele dia, seria atirado às águas do Tibre, de acordo com as tradições vigentes.

Todos os troféus das batalhas sanguinolentas e todos os vencidos, em núm ero considerável, eram levados igualm ente em procissão, na festa indescritível.

À frente do cortej o im enso, seguia incalculável quantidade de obras de ouro puro, enfeitadas de cores variadas e berrantes, e, logo após, pedras preciosas em núm ero incontável, não só em coroas de fulgurante beleza, com o tam bém em estofos que m aravilhavam os espectadores pela variedade, sendo de notar que todos esses tesouros eram carregados por j ovens legionários traj ando túnicas de púrpura, com graciosos ornam entos dourados.

Depois da exibição dos tesouros conquistados pelo triunfador, vinham , às centenas, as estátuas dos deuses, talhadas em m arfim , em ouro, em prata, de tam anhos prodigiosos.

Em seguida aos deuses, todo um exército de anim ais, das m ais variadas espécies, entre os quais se distinguiam num erosos drom edários e elefantes cobertos de m agníficas pedrarias.

Acom panhando os anim ais, a m ultidão com pacta e acabrunhada dos prisioneiros vulgares, exibindo sua m iséria e olhares tristes, procurando ocultar dos espectadores im piedosos e irreverentes os ferros pesados que os m anietavam .

Após os prisioneiros sucum bidos, passavam os sim ulacros das cidades vencidas e hum ilhadas, confeccionados com grande esm ero, sustentados nos om bros de soldados num erosos, sem elhantes aos m odernos carros alegóricos das festas carnavalescas. Havia representações de todas as cidades destruídas e saqueadas, de batalhas vitoriosas, sem faltar o arrasam ento dos cam pos, a queda de m uralhas e os incêndios devastadores.

Depois desses sím bolos, eram os despoj os riquíssim os dos povos vencidos e das cidades conquistadas, principalm ente os de Jerusalém , carregados com m uito desvelo pelos legionários. Sob os aplausos gritantes e irreverentes da turba que se apinhava por toda a parte, desfilaram as estátuas representando as figuras de Abraão e Sara, bem com o de todas as personalidades reais da fam ília de David, e m ais todos os obj etos sagrados do fam oso tem plo de Jerusalém , tais a m esa dos Pães de Proposição, feita de ouro m aciço, as trom betas do Jubileu, o castiçal de ouro com sete braços, o' param entos de alto valor intrínseco, os véus sagrados do Tem plo, e, por fim , a Lei dos j udeus, que seguia atrás de todos os despoj os m ateriais, pilhados pelas forças triunfadoras. Cada obj eto era carregado em andores preciosos e bem ornam entados, ao om bro dos legionários rom anos coroados de louros.

Após os textos da Lei, seguia Sim ão, o desventurado chefe suprem o de todos os m ovim entos da resistência de Jerusalém , acom panhado dos seus três auxiliares diretos, inclusive André de Gioras. Todos esses chefes da longa e desesperada resistência vestiam de preto e cam inhavam solenem ente para o sacrifício, depois de exibidos em todas as com em orações festivas do triunfo.

Em seguida, vinham os carros soberbos e m agníficos dos triunfadores. Após a passagem deslum brante de Vespasiano, desfilava Tito num oceano de púrpura, de sedas e de verm elhão, sim bolizando o próprio Júpiter, na em briaguez da sua vitória.

No séquito de honra, passava igualm ente o senador valetudinário e cego, não m ais pelo prazer das hom enagens, m as com o secreto desej o de ouvir a palavra de André, antes do trágico m om ento em que o seu corpo balançasse sobre as águas lodosas do Tibre, no instante da consum ação do últim o suplício, sob os aplausos delirantes do povo.

Após os carros im periais dos vencedores e seus áulicos m ais íntim os, vinha o exército com pacto, entoando os hinos da vitória, enquanto todas as ruas e praças, foros e pórticos, terraços e j anelas, se pej avam de incalculáveis m ultidões curiosas.

O cortej o m ovim entou-se solenem ente, desde a Porta Triunfal até ao Capitólio. Longas horas foram gastas no traj eto, através do sinuoso cam inho, porquanto a festividade era consum ada de m olde a levar seus esplendores pelos recantos m ais aristocráticos do patriciado rom ano.

Em dado m om ento, todavia, antes de se elevar à colina, todo o cortej o parou e os olhos ansiosos da m ultidão convergiram para Sim ão e seus três com panheiros, auxiliares diretos da sua chefia na resistência da cidade fam osa.

Públio Lentulus, em bora cego, m as afeito ao tradicionalism o daquelas com em orações, com preendeu que era chegado o instante suprem o. virtude do seu caso especialíssim o e considerando a deferência que a autoridade j ulgava dever-lhe, o im perador preocupava-se com a sua situação no cortej o, recom endando ao filho, Dom iciano, atender a quaisquer providências de que viesse a precisar em tais circunstâncias.

Naquele m om ento, debaixo das vibrações ruidosas do delírio popular, procedia-se ao flagício de Sim ão, diante de toda a Rom a em briagada e vitoriosa, enquanto André de Gioras e os dois com panheiros eram conduzidos à Prisão Mam ertina, onde aguardariam o chefe, após a flagelação, para a m orte em conj unto, de m aneira que os cadáveres pudessem ser arrastados através das Gem ônias e, sob as vistas do povo, atirados às correntes do Tibre.

De alm a ansiosa, m as disposto a realizar seus desígnios, o senador cham ou o príncipe a cuj a assistência fora recom endado, expressando-lhe o desej o de dirigir a palavra a um dos prisioneiros, em particular e em condições secretas, no que foi im ediatam ente atendido.

Dom iciano tom ou-lhe do braço com atenção e, conduzindo-o a um a dependência da prisão sinistra, determ inou a vinda de André a um cubículo isolado e secreto, conform e o desej o de Públio, aguardando o fim da entrevista num a sala próxim a, j untam ente com alguns guardas, tão logo penetrou o condenado para o interrogatório do antigo político do Senado.

Defrontando-se, os dois inim igos tiveram estranha sensação de m al-estar. Públio Lentulus não m ais podia vê-lo, m as se os seus olhos j á não tinham expressão em otiva, crestadas para sem pre as pupilas claras e enérgicas, seu perfil ereto m anifestava as em oções que o dom inavam .

- Senhor André - exclam ou o senador, profundam ente em ocionado -, contra todos os m eus hábitos provoquei este encontro secreto, de m odo a esclarecer m inhas dúvidas sobre as palavras reticenciosas em Jerusalém , no dia em que consum astes vossas im piedosas determ inações a m eu respeito. Não quero, agora, entrar em porm enores sobre a vossa atitude, m as tão som ente inform ar-vos, neste m om ento em que a j ustiça do Im pério vos tom a à sua conta, que tudo fiz por devolver-vos o filho prisioneiro, cum prindo um dever de hum anidade, ao receber as vossas súplicas. Lam ento que as m inhas providências tardias não alcançassem o efeito desej ado, ferm entando tão violenta odiosidade no vosso coração. Agora, porém , não m ais ordeno. Um cego não pode determ inar providências de qualquer natureza, em face das penosas inj unções da sua própria vida, m as solicito o vosso esclarecim ento, sobre a personalidade do escravo que m e crestou a vista para sem pre!...

André de Gioras estava igualm ente abatidíssim o na sua decrepitude enferm iça. Com ovido pela atitude daquele pai hum ilhado e infeliz e fazendo o íntim o retrospecto dos seus atos crim inosos, naquelas horas suprem as de sua vida, respondeu extrem am ente com pungido:

- Senador Lentulus, a hora da m orte é diferente de todas as outras que o destino concede à nossa existência à face deste m undo... É por isso, talvez, que sinto o m eu ódio agora transform ado em piedade, avaliando o vosso sofrim ento am argo e rude. Desde que fui preso, venho considerando os erros da m inha vida crim inosa... Trabalhando no Tem plo e vivendo para o culto da Lei de Moisés, só agora reconheço que Deus concede liberdade de ação a todos os seus filhos, m orm ente aos seus sacerdotes, tocando-lhes, porém , a consciência, no m om ento da m orte, quando nada m ais resta senão a apresentação da alm a falida, diante de um tribunal a que ninguém pode m entir ou subornar!... Sei que é tarde para reagir no cam inho percorrido, a fim de refazer os nossos atos; m as um sentim ento novo m e faz falar-vos aqui com a sinceridade do coração, que, acicatado pelo j ulgam ento divino, j á não pode enganar a ninguém .

Há quase quarenta anos, vossa austeridade orgulhosa determ inou a prisão do m eu único filho, rem etendo-o im piedosam ente para as galeras, e debalde im plorei a vossa dem ência de hom em público, para o m eu espírito desam parado... Das galeras, contudo, m eu pobre Saul foi rem etido para Rom a, onde foi vendido, m iseravelm ente, num m ercado de escravos, ao Senador Flam ínio Severus...

Nesse instante, o cego, que escutava atenta e em inentem ente em ocionado, ao identificar, naquela narrativa, o algoz da filha, interrom peu-a perguntando:

- Flam ínio Severus?

- Sim , era tam bém , com o vós, um senador do Im pério. Profundam ente em ocionado, ao ligar os fatos dolorosos de sua fam ília à pessoa do antigo liberto, m as necessitando de todas as energias m orais para dom inar-se, o senador recalcou no íntim o a sua am argura, conservando-se em atitude de expressivo silêncio, enquanto o condenado prosseguia:

- Saul, todavia, foi feliz... Abraçou a liberdade e fez fortuna, voltando de vez em quando a Jerusalém , onde m e aj udou a prosperar; m as, devo revelar-vos que, não obstante os textos da Lei por m im pregada m uitas vezes, que nos m anda desej ar ao próxim o o que desej aríam os para nós m esm os, não cruzei os braços ante a vossa arbitrariedade crim inosa, j urando vingar-m e a qualquer preço; para isto, num a noite tranquila, roubei o vosso pequenino Marcus na vossa residência de Cafarnaum , de cum plicidade com um a de vossas servas, que m ais tarde tive de envenenar, para que não viesse a revelar o segredo e tolher m eus sinistros propósitos, quando a vossa ansiedade paterna instituiu, em Jerusalém , o prêm io de um Grande Sestércio a quem descobrisse o paradeiro do pequenino... Lem brareis, por certo, da criada Sêm ele, que m orreu repentinam ente em vossa casa...

Enquanto André do Gioras se detinha na triste confissão que lhe tocava as fibras m ais íntim as da alm a, representando cada palavra um estilete de am argura a lhe retalhar o coração, Públio Lentulus chegava tardiam ente ao conhecim ento de todos os fatos, recordando os angustiosos m artírios da com panheira, com o esposa caluniada e m ãe carinhosa.

Im pressionado, porém , com o seu silêncio doloroso, André continuava:

- Pois bem , senador; obedecendo aos m eus sentim entos condenáveis, raptei vosso filhinho, que cresceu hum ilhado nos m ais rudes trabalhos da lavoura... aniquilei-lhe a inteligência... favoreci-lhe o ingresso nos vícios m ais desprezíveis, pelo prazer diabólico de hum ilhar um rom ano inim igo, até que culm inei na m inha vindita em nosso encontro inesperado! Mas, agora, estou diante da m orte e não sei enxergar m ais a nossa situação, senão com o pais desventurados... Sei que vou com parecer breve no tribunal do m ais íntegro dos j uízes, e, se vos fosse possível, eu desej ava que m e désseis um pouco de paz com o vosso perdão!

O velho senador do Im pério não saberia explicar as suas profundas dores, ouvindo aquelas revelações angustiosas e am argas. Ouvindo André, sentia ím petos de perguntar pelo filhinho em criança, por suas tendências, pelas suas aspirações da m ocidade; desej ava inteirar-se dos seus trabalhos, das suas predileções, m as cada palavra daquela confissão am argurosa era um a punhalada nos seus sentim entos m ais sagrados. Qual estátua m uda do infortúnio, ainda ouviu o prisioneiro repetir, quase em lágrim as, arrancando-o das suas divagações som brias e torm entosas:

- Senador - insistia ele, suplicando tristem ente -, perdoai-m e! Quero com preender o espírito da m inha Lei, apesar do últim o instante!... Relevai m eu crim e e dai-m e forças para com parecer diante da luz de Deus!...

Públio ouvia-lhe a voz súplice, enquanto um a lágrim a de dor indescritível rolava dos seus olhos tristes e apagados.

Perdoar? Mas, com o? Não fôra ele, Públio, o ofendido e a vítim a de um a existência inteira? Singulares em oções abalavam -lhe o íntim o, enquanto num erosos soluços lhe m orriam na garganta opressa.

Diante dele estava o inim igo im placável que procurara em vão, por consecutivos e longos anos de infelicidade. Mas, na sua introspecção, sabia entender, igualm ente, as próprias culpas, recordando os excessos da sua severidade vaidosa. Tam bém ele ali estava com o um cadáver am bulante, no seio das som bras espessas. De que valeram as honrarias e o orgulho desenfreado? Todas as suas esperanças de ventura estavam m ortas. Todos os seus sonhos aniquilados. Senhor de fortuna considerável, não viveria m ais, no m undo, senão para carregar o esquife negro das ilusões despedaçadas. Todavia, seu íntim o se recusava ao perdão da hora extrem a. Foi então que se lem brou de Jesus e da sua doutrina de am or e piedade pelos inim igos. O Mestre de Nazaré perdoara a todos os seus algozes e ensinara aos discípulos que o hom em deve perdoar setenta vezes sete vezes. Recordou, igualm ente, que, por Jesus, sua esposa im aculada m orrera nas ignom ínias do circo infam ante; por Jesus voltara FIam ínio do reino das som bras, para incliná-lo, um dia, ao perdão e à piedade...

Os ruídos de fora denunciavam que a hora derradeira de André estava próxim a. O próprio Sim ão j á cam inhava vacilante e ensanguentado, depois do açoite, para o interior da prisão, epilogando o suplício.

Foi então que Públio Lentulus, abandonando todas as tradições de orgulho e vaidade, sentiu que no íntim o dalm a brotava um a fonte de linfa cristalina. Copiosas lágrim as desceram -lhe às faces rugosas e m acilentas, das órbitas sem expressão, dos olhos m ortos e, com o se desej asse fitar o inim igo com os olhos espirituais, a fim de m ostrar-lhe a sua com iseração, exclam ou em voz firm e:

- Estais perdoado...

Voltando im ediatam ente à sala contígua e sem esperar qualquer resposta, com preendeu que era chegada a últim a hora do inim igo.

Daí a m inutos, o cadáver de André de Gioras era arrastado às Gem ônias, para ser atirado ao Tibre silencioso.

O senador nada m ais percebeu do restante das num erosas cerim ônias no Tem plo de Júpiter.

O cortej o era agora ilum inado pela claridade de m il fachos colocados pelos escravos em quarenta elefantes, por ordem de Tito, ao cair das prim eiras som bras da noite, m as o senador, acabrunhado nos seus padecim entos m orais, regressava em liteira ao palácio do Aventino, onde se fechou nos seus apartam entos particulares, alegando grande cansaço.

Tateando na sua noite, abraçou-se à cruz de Sim eão, que lhe fôra deixada pela crença da esposa, m olhando-a com as lágrim as da sua desventura.

Em m editações profundas e dolorosas, pôde então com preender que Lívia vivera para Deus e ele para César, recebendo am bos com pensações diversas na estrada do destino. E enquanto o j ugo de Jesus fôra suave e leve para sua m ulher, seu altivo coração estava preso ao terrível j ugo do m undo, sepultado nas suas dores irrem ediáveis, sem claridade e sem esperanças.