Há Dois Mil Anos

Chico Xavier · Capítulo 2 de 21

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Há Dois Mil Anos

I Dois amigos

PRIMEIRA PARTE

 

Os últim os clarões da tarde haviam caído sobre o casario rom ano. As águas do Tibre, ladeando o Aventino, deixavam retratados os derradeiros reflexos do crepúsculo, enquanto nas ruas estreitas passavam liteiras apressadas, sustidas por escravos m usculosos e lépidos.

Nuvens pesadas am ontoavam -se na atm osfera, anunciando aguaceiros próxim os, e as últim as j anelas das residências particulares e coletivas fechavam -se com estrépito, ao sopro dos prim eiros ventos da noite.

Entre as construções elegantes e sóbrias, que exibiam m árm ores preciosos, no sopé da colina, um edifício havia que reclam ava a atenção do forasteiro pela singularidade das suas colunas severas e m aj estosas. Um a vista de olhos ao seu exterior indicava a posição do proprietário, dado o aspecto artístico e im ponente.

Era, de fato, a residência do senador Públio Lentulus Cornelius, hom em ainda m oço, que, à m aneira da época, exercia no Senado funções legislativas e j udiciais, de acordo com os direitos que lhe com petiam , com o descendente de antiga fam ília de senadores e cônsules da República.

O Im pério, fundado com Augusto, havia lim itado os poderes senatoriais, cuj os detentores j á não exerciam nenhum a influência direta nos assuntos privativos do governo im perial, m as m antivera a hereditariedade dos títulos e dignidades das fam ílias patrícias, estabelecendo as m ais nítidas linhas de separação das classes, na hierarquia social.

Eram dezenove horas de um dia de m aio de 31 da nossa era. Públio Lentulus, em com panhia do seu am igo Flam ínio Severus, reclinado no triclínio, term inava o j antar, enquanto Lívia, a esposa, expedia ordens dom ésticas a um a j ovem escrava etrusca.

O anfitrião era um hom em relativam ente j ovem , aparentando m enos de trinta anos não obstante o seu perfil orgulhoso e austero, aliado à túnica de am pla barra purpúrea, que im punha certo respeito a quantos se lhe aproxim avam , contrastando com o am igo que, revestindo a m esm a indum entária de senador, deixava entrever idade m adura, ilum inada de cãs precoces, em penhor de bondade e experiência da vida.

Deixando a j ovem senhora entregue aos cuidados dom ésticos, am bos se dirigiram ao peristilo, por buscarem um pouco de oxigênio da noite cálida, em bora o aspecto am eaçador do firm am ento prenunciasse chuva im inente.

- A verdade, m eu caro Públio - exclam ava Flam ínio, pensativo -, é que te consom es a olhos vistos. Trata-se de um a situação que precisa m odificar-se sem perda de tem po. Já recorreste a todos os facultativos no caso de tua filhinha?

- Infelizm ente - retorquia o patrício com am argura - j á lancei m ão de todos os recursos ao nosso alcance. Ainda nestes últim os dias, m inha pobre Lívia levou-a a distrair-se em nossa vivenda de Tibur (1), procurando um dos m elhores m édicos da cidade, que afirm ou tratar-se de um caso sem rem édio na ciência dos nossos dias. O facultativo não chegou a positivar o diagnóstico, certam ente em razão da sua com iseração pela doentinha e pelo nosso paternal desespero; m as, segundo nossas observações, acreditam os que o m édico de Tibur presum e tratar-se de um caso de lepra.

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(1) Hoj e Tivoli. (Nota da Editora.)

- É um a presunção atrevida e absurda!

- Entretanto, se não podem os adm itir qualquer dúvida com relação aos nossos antepassados, sabes que Rom a está cheia de escravos de todas as regiões do m undo e são eles o instrum ento de nossos trabalhos de cada dia.

- É verdade... - concordou Flam ínio, com am argura. Um laivo de perspectivas som brias transparecia na fronte dos dois am igos, enquanto as prim eiras gotas de chuva satisfaziam a sede das roseiras floridas que enfeitavam as colunas graciosas e claras.

- E o pequeno Plínio? - perguntou Públio, com o desej oso de proporcionar novo rum o a conversação.

- Esse, com o sabes, continua sadio, dem onstrando ótim as disposições Calpúrnia atrapalha-se, a cada m om ento, para satisfazer-lhe os caprichos dos doze anos incom pletos. Às vezes, é voluntarioso e rebelde, contrariando as observações do velho Parm ênides, só se entregando aos exercícios da ginástica quando m uito bem lhe apraz; no entanto, tem grande predileção pelos cavalos. Im agina que, num m om ento de irreflexão própria da idade, burlando toda a vigilância do irm ão, concorreu a um a tirada de bigas realizada nos treinos com uns de um estabelecim ento esportivo do Cam po de Marte, obtendo um dos lugares de m aior destaque. Quando contem plo m eus dois filhos, lem bro-m e sem pre da tua pequena Flávia Lentúlia, porque bem sabes dos m eus propósitos para o futuro, no sentido de estreitar os antigos laços que prendem as nossas fam ílias.

Públio ouvia o am igo, calado, com o se a invej a lhe espicaçasse o coração carinhoso de pai.

- Todavia - revidou -, apesar de nossos proj etos, os áugures não favorecem nossas esperanças, porque a verdade é que m inha pobre filha, com todos os nossos cuidados, m ais parece um a dessas infelizes criaturinhas atiradas ao Velabro (1).

__________

(1) Bairro da antiga Rom a e que se localizava sobre um pântano.

- Contudo, confiem os na m agnanim idade dos deuses - Dos deuses? - repetiu Públio, com m al disfarçado desalento. - A propósito desse recurso im ponderável, tenho excogitado m il teorias no cérebro fervilhante. Há tem pos, em visita a tua casa, tive ocasião de conhecer m ais intim am ente o teu velho liberto grego. Parm ênides falou-m e da sua m ocidade e perm anência na Índia, dando-m e conta das crenças hindus, com as suas coisas m isteriosas da alm a. Acreditas que cada um de nós possa regressar, depois da m orte, ao teatro da vida, em outros corpos?

- De m odo algum - replicou Flam ínio, energicam ente. - Parm ênides, não obstante o seu caráter precioso, leva m uito longe as suas divagações espirituais.

- Entretanto, m eu am igo, com eço a pensar que ele tem razão. Com o poderíam os explicar a diversidade da sorte neste m undo? Porque a opulência dos nossos bairros aristocráticos e as m isérias do Esquilino? A fé no poder dos deuses não consegue elucidar esses problem as torturantes. Vendo m inha desventurada filhinha com a carne dilacerada e apodrecida, sinto que o teu escravo está com a verdade. Que teria feito a pequena Flávia, nos seus sete anos incom pletos, para m erecer tão horrendo castigo das potestades celestiais? Que alegria poderiam encontrar as nossas divindades nos soluços de um a criança e nas lágrim as dolorosas que nos calcinam o coração? Não será m ais com preensível e aceitável que tenham os vindo de longe com as nossas dividas para com os poderes do Céu?

Flam ínio Severus m eneou a cabeça, com o quem desej a afastar um a dúvida, m as, retom ando o seu aspecto habitual, obtem perou com firm eza:

- Fazes m al em alim entar sem elhantes conj eturas no teu foro íntim o. Nos m eus quarenta e cinco anos de existência, não conheço crenças m ais preciosas do que as nossas, no culto venerável dos antepassados. É preciso considerares que a diversidade das posições sociais é um problem a oriundo da nossa arregim entação política, a única que estabeleceu um a divisão nítida entre os valores e os esforços de cada um ; quanto à questão dos sofrim entos, convém lem brar que os deuses podem experim entar nossas virtudes m orais, com as m aiores am eaças à enfibratura do nosso ânim o, sem que necessitem os adotar os absurdos princípios dos egípcios e dos gregos, princípios, aliás, que j á os reduziram ao aniquilam ento e ao cativeiro. Já ofereceste algum sacrifício no tem plo, depois de tão angustiosas dúvidas?

- Tenho sacrificado aos deuses, segundo os nossos hábitos respondeu Públio, com pungida m ente - e ninguém m ais que eu se orgulha das gloriosas virtudes de nossas tradições fam iliares. Entretanto, m inhas observações não surgem tão som ente a propósito da filhinha. Há m uitos dias, ando torturado com o espantoso enigm a de um sonho.

- Um sonho? Com o pode a fantasia abalar, desse m odo, a fibra de um patrício?

Públio Lentulus recebeu a pergunta m ergulhado em profundas cism as. Seus olhos parados presum iam devorar um a paisagem que o tem po distanciara no transcurso dos anos.

A chuva, agora em bátegas pesadas, caía continuadam ente, fazendo os m ais fortes transbordam entos do im plúvio e represando-se na piscina que enfeitava o pátio do peristilo.

Os dois am igos haviam -se recolhido a um largo banco de m árm ore, reclinando-se nos estofos orientais que o forravam , prosseguindo na palestra am istosa.

- Sonhos há - prosseguiu Públio - que se distinguem da fantasia, tal a sua expressão de realidade irretorquível. Voltava eu de um a reunião no Senado, onde havíam os discutido um problem a de profunda delicadeza m oral, quando m e senti presa de inexplicável abatim ento.

Recolhi-m e cedo e, quando parecia divisar j unto de m im a im agem de Têm is, que guardam os no altar dom éstico, considerando as singulares obrigações de quem exerce as funções da j ustiça, senti que um a força extraordinária m e selava as pálpebras cansadas e doloridas. No entanto, via outros lugares, reconhecendo paisagens fam iliares ao m eu espírito, das quais m e havia esquecido inteiram ente.

Realidade ou sonho, não o sei dizer, m as vi-m e revestido das insígnias de cônsul, ao tem po da República. Parecia-m e haver retrocedido à época de Lúcio Sergius Catilina, pois o via a m eu lado, bem com o a Cícero, que se m e figuravam duas personificações, do m al e do bem . Sentia-m e ligado ao prim eiro por laços fortes e indestrutíveis, com o se estivesse vivendo a época tenebrosa da sua conspiração contra o Senado, e participando, com ele, da tram a ignom iniosa que visava à m ais intim a organização da República. Prestigiava-lhe as intenções crim inosas, aderindo a todos os seus proj etos com a m inha autoridade adm inistrativa, assum indo a direção de reuniões secretas, onde decretei assassínios nefandos... Num relâm pago, revivi toda a tragédia, sentindo que m inhas m ãos estavam nodoadas do sangue e das lágrim as dos inocentes.

Contem plei, atem orizado, com o se estivesse regressando a um pretérito obscuro e doloroso, a rede de infâm ias perpetradas com a revolução, em boa hora esm agada pela influência de Cícero; e o detalhe m ais terrível é que eu havia assum ido um dos papéis m ais im portantes e salientes na ignom ínia... Todos os quadros hediondos do tem po passaram , então, à frente dos m eus olhos espantados...

Todavia, o que m ais m e hum ilhava nessas visões do passado culposo, com o se a m inha personalidade atual se envergonhasse de sem elhantes rem iniscências, é que m e prevalecia da autoridade e do poder para, aproveitando a situação, exercer as m ais acerbas vinganças contra inim igos pessoais, contra quem expedia ordens de prisão, sob as m ais terríveis acusações. E ao m eu coração desalm ado não bastava o recolhim ento dos inim igos aos calabouços infectos, com a consequente separação dos afetos m ais caros e m ais doces, da fam ília. Ordenei a execução de m uitos, na escuridão da noite, acrescendo a circunstância de que a m uitos adversários políticos m andei arrancar os olhos, na m inha presença, contem plando-lhes os torm entos com a frieza brutal das vinditas cruéis!... Ai de m im que espalhava a desolação e a desventura em tantas alm as, porque, um dia, se lem braram de elim inar o verdugo cruel!

Depois de toda a série de escândalos que m e afastaram do Consulado, senti o térm ino dos m eus atos infam es e m isérrim os, diante de carrascos inflexíveis que m e condenaram ao terrível suplício do estrangulam ento, experim entando, então, todos os torm entos e angústias da m orte.

O m ais interessante, porém , é que revi o inenarrável instante da m inha passagem pelas águas escuras do Aqueronte, quando m e parecia haver descido aos lugares som brios do Averno, onde não penetram as claridades dos deuses. A grande m ultidão de vítim as acercou-se, então, de m inhalm a angustiada e sofredora, reclam ando j ustiça e reparação e rebentando em clam ores e soluços, que m e pereciam no recôndito do coração.

Por quanto tem po estive, assim , prisioneiro desse m artírio indefinível? Não sei dizê-lo. Apenas m e recordo de haver lobrigado a figura celeste de Lívia, que, no m eio desse vórtice de pavores, estendia-m e as m ãos fúlgidas e carinhosas.

Afigurava-se-m e que m inha esposa m e era fam iliar de épocas rem otíssim as, porque não hesitei um instante em lhe tom ar as m ãos suaves, que m e conduziram a um tribunal, onde se alinhavam figuras estranhas e venerandas. Cãs respeitáveis aureolavam o sem blante sereno desses j uízes do Céu, em issários dos deuses para j ulgam ento dos hom ens da Terra. A atm osfera caracterizava-se por estranha leveza, cheia de luzes cariciosas que ilum inavam , perante todos os presentes, os m eus pensam entos m ais secretos.

Lívia devia ser o m eu anj o-tutelar nesse conselho de m agistrados intangíveis, porque sua destra pairava sobre m inha cabeça, com o a im por-m e resignação e serenidade, a fim de ouvir as sentenças suprem as.

Desnecessário será dizer-te do m eu espanto e do m eu receio, diante desse tribunal que eu desconhecia, quando a figura daquele que m e pareceu a sua autoridade central m e dirigiu a palavra, exclam ando:

- Públio Lentulus, a j ustiça dos deuses, na sua m isericórdia, determ ina tua volta ao turbilhão das lutas do m undo, para que laves as nódoas de tuas culpas nos prantos rem issores. Viverás num a época de m aravilhosos fulgores espirituais, lutando com todas as situações e dificuldades, não obstante o berço de ouro que te receberá ao renasceres, a fim de que edifiques tua consciência denegrida, nas do res que purificam e regeneram !... Feliz de ti se bem souberes aproveitar a oportunidade bendita da reabilitação pela renúncia e pela hum ildade... Determ inou-se que sej as poderoso e rico, a fim de que, com o teu desprendim ento dos cam inhos hum anos, no instante preciso, possas ser elem ento valioso para os teus m entores espirituais. Terás a inteligência e a saúde, a fortuna e a autoridade, com o ensanchas à regeneração integral de tua alm a, porque chegará um m om ento em que serás com pelido a desprezar todas as riquezas e todos os valores sociais, se bem souberes preparar o coração para a nova senda de am or e hum ildade, de tolerância e perdão, que será rasgada, em breves anos, à face escura da Terra!... A vida é um j ogo de circunstâncias que todo espírito deve entrosar para o bem , no m ecanism o do seu destino. Aproveita, pois, essas possibilidades que a m isericórdia dos deuses coloca ao serviço da tua redenção. Não desprezes o cham am ento da verdade, quando soar a hora do testem unho e das renúncias santificadoras... Lívia seguirá contigo pela via dolorosa do aperfeiçoam ento, e nela encontrarás o braço am igo e protetor para os dias de provações ríspidas e acerbas. O essencial é a tua firm eza de ânim o no cam inho escabroso, purificando tua fé e tuas obras, na reparação do passado delituoso e obscuro!...

A essa altura, a voz altiva do patrício ia-se tornando angustiada e dolorosa. Am argas com oções íntim as represavam -se-lhe no coração, atorm entado por incoercível desalento.

Flam ínio Severus ouvia-o com interesse e atenção, rebuscando o m eio m ais fácil de lhe desvanecer im pressões tão penosas. Sentia ím petos de desviar-lhe o curso dos pensam entos, arrancando-lhe o espírito daquele m undo de em oções im próprias da sua form ação intelectual, apelando para sua educação e para o seu orgulho; m as, ao m esm o tem po, não conseguia sopitar as próprias dúvidas íntim as, em face daquele sonho, cuj a nitidez e aspecto de realidade o deixavam aturdido. Com preendia que era necessário prim eiro restabelecer sua própria fortaleza de ânim o, entendendo que a lógica da brandura deveria ser o escudo de suas palavras, para esclarecim ento do am igo que ele m ais considerava irm ão.

Foi assim que, pousando a m ão esguia e branca nos seus om bros, perguntou com am ável doçura:

- E depois, que m ais viste?

Públio Lentulus, sentindo-se com preendido, recobrou energias novas e continuou:

- Depois das exortações daquele j uiz severo e venerando, não m ais lobriguei o vulto de Lívia a m eu lado, m as outras criaturas graciosas, envolvidas em peplos que m e pareciam de neve translúcida, confortavam -m e o coração com os seus sorrisos acolhedores e bondosos.

Atendendo-lhes ao apelo carinhoso, senti que m eu Espírito regressava à Terra.

Observei Rom a, que j á não era bem a cidade do m eu tem po; um sopro de beleza estava reconstituindo a sua parte antiga, porque notei a existência de novos circos, teatros suntuosos, term as elegantes e palácios encantadores, que m eus olhos não haviam conhecido antes.

Tive ocasião de ver m eu pai entre os seus papiros e pergam inhos, estudando os processos do Senado, tal qual se verifica hoj e conosco, e, depois de im plorar a bênção dos deuses, no altar dom éstico de nossa casa, experim entei um a sensação de angústia no recesso de m inhalm a. Pareceu-m e haver sofrido dolorosa com oção cerebral e fiquei adorm entado num a vertigem indefinível...

Não sei descrever literalm ente o que se passou, m as despertei com febre alta, com o se aquela digressão do pensam ento, pelos m undos de Morfeu, m e houvesse trazido ao corpo dolorosa sensação de cansaço.

Ignoro o teu j ulgam ento, em face desta confidência am argurada e penosa, m as desej aria m e explicasses algo a respeito.

- Explicar-te? - obtem perou Flam ínio, tentando im prim ir à voz um a tonalidade de convicção enérgica. - Bem sabes do respeito que m e inspiram os áugures do tem plo, m as, afinal, o que te ocorreu não pode passar, sim plesm ente, de um sonho, e tu não ignoras com o devem os tem er a im aginação dentro de nossas perspectivas de hom ens práticos. Por sonharem excessivam ente, os atenienses ilustres transform aram -se em escravos m isérrim os, constituindo obrigação de nossa parte o reconhecim ento da bondade dos deuses que nos concederam o senso da realidade, necessário às nossas conquistas e triunfos. Seria lícito renunciasses ao am or de ti m esm o e à posição de tua fam ília, tão som ente levado pela fantasia?

Públio deixou que o am igo discorresse abundantem ente sobre o assunto, recebendo-lhe as exortações e conselhos, m as, depois, tom ando-lhe as m ãos generosas, exclam ou angustiado:

- Meu am igo, eu seria indigno da m agnanim idade dos deuses se m e deixasse conduzir ao sabor dos acontecim entos. Um sim ples sonho não m e daria m argem a tão dolorosas conj eturas, m as a verdade é que ainda te não disse tudo.

Flam ínio Severus franziu o sobrolho, rem atando: - Ainda não disseste tudo? Que significam estas afirm ativas? No seu íntim o generoso, angustiosa dúvida fora j á im plantada com a descrição m inuciosa daquele sonho im pressionante e doloroso, e era com grande esforço que o seu coração fraternal trabalhava por ocultar ao am igo as penosas em oções que intim am ente o atorm entavam .

Públio, m udo, tom ou-lhe do braço, conduzindo-o às galerias do tablino localizado a um canto do peristilo, nas proxim idades do altar dom éstico, oficiavam os m ais puros e m ais santos afetos da fam ília.

Os dois am igos penetraram o escritório e a sala do arquivo com profundo sinal de respeitoso recolhim ento.

A um canto, dispunham -se em ordem num erosos pergam inhos e papiros, enquanto, nas galerias, avultavam retratos de cera, de antepassados e avoengos da fam ília.

Públio Lentulus tinha os olhos úm idos e a voz trêm ula, com o se profundas em oções o dom inassem naquelas circunstâncias. Aproxim ando-se de um a im agem de cera, entre as m uitas que ali se enfileiravam , cham ou a atenção de Flam ínio, com um a sim ples palavra:

- Reconheces?

- Sim - respondeu o am igo, estrem ecendo -, reconheço esta efígie. Trata-se de Públio Lentulus Sura, teu bisavó paterno, estrangulado há quase um século, na revolução de Catilina.

- Faz precisam ente noventa e quatro anos que o pai de m eu avô foi elim inado nessas trem endas circunstâncias - exclam ou Públio, com ênfase, com o quem está de posse de toda a verdade. - Repara bem os traços desta figura, para verificares a sem elhança perfeita que existe entre m im e esse longínquo antepassado. Não estaria aqui a chave do m eu sonho doloroso?

O nobre patrício observou a notável identidade de traços fisionôm icos daquela efígie m orta com o sem blante do am igo presente. Suas vacilações atingiram o auge, em face daquelas dem onstrações alucinantes. Ia elucidar o assunto, encarecendo a questão da linhagem e da hereditariedade, m as o interlocutor, com o se adivinhasse os m ínim os detalhes de suas dúvidas, antecipou o j ulgam ento, exclam ando:

- Eu tam bém participei de todas as hesitações que ferem o teu raciocínio, lutando contra a razão, antes de aceitar a tese de nossas conversações desta noite. A sem elhança pela im agem , ainda a m ais extrem a, é natural e é possível; isto, porém , não m e satisfaz plenam ente. Expedi, nestes últim os dias, um dos servos de nossa casa, a Taorm ina, em cuj as adj acências possuím os antiga habitação, onde se guardava o arquivo do extinto, que fiz transportar para aqui.

E, num m ovim ento de quem estava certo de todos os seus conceitos, revirava nas m ãos nervosas vários docum entos, exclam ando:

- Repara estes papiros! São notas de m eu bisavô, acerca dos seus proj etos no Consulado. Encontrei neste acervo de pergam inhos diversas m inutas de sentenças de m orte, as quais j á havia observado nas m inhas digressões do sonho inexplicável... Confronta estas letras! Não se parecem com as m inhas? Que desej aríam os m ais, além destas provas caligráficas? Há m uitos dias, vivo este obscuro dilem a no íntim o do coração... Serei eu Públio Lentulus Sura, reencarnado?

Flam ínio Severus deixou pender a fronte, com indisfarçável inquietação e indizível am argura.

Num erosas haviam sido as provas da lucidez e da lógica do am igo. Tudo conspirava para que o seu castelo de explicações desm oronasse, fragorosam ente, diante dos fatos consum ados, m as procuraria novas forças, a fim de salvaguardar o patrim ônio das crenças e tradições dos seus m aiores, tentando esclarecer o espírito do com panheiro de tantos anos.

- Meu am igo - m urm urou, abraçando-o -, concordo contigo, em face destes acontecim entos alucinantes. O fato é dos que em polgam o espírito m ais frio, m as não podem os arriscar nossas responsabilidades no rum o incerto das prim eiras im pressões. Se ele nos parece a realidade, existem as realidades im ediatas e positivas, aguardando o nosso concurso ativo. Considerando as tuas ponderações e acreditando m esm o na veracidade do fenôm eno, não acredito devam os m ergulhar o raciocínio nestes assuntos m isteriosos e transcendentes. Sou avesso a essas perquirições, certam ente em virtude das m inhas experiências da vida prática. Concordando, de m odo geral, com o teu ponto de vista, recom endo-te não estendê-lo além do círculo de nossa intim idade fraternal, m esm o porque, não obstante a propriedade de conceitos com que m e dás testem unho da tua lucidez, sinto-te cansado e abatido nesse torvelinho de trabalhos do am biente dom éstico e social.

Fez um a pausa nas suas observações com ovidas, com o quem raciocinasse procurando recurso eficaz para rem ediar a situação, e sugeriu com doçura:

- Poderias descansar um pouco na Palestina, levando a fam ília para essa estação de repouso.

Existem ali regiões de clim a adorável, que operariam , talvez, a cura de tua filhinha, restabelecendo sim ultaneam ente as. tuas forças orgânicas. Quem sabe? Esquecerias o tum ulto da cidade, regressando m ais tarde ao nosso m eio, com energias novas. O atual Procurador da Judeia é nosso am igo. Poderíam os harm onizar vários problem as do nosso interesse e de nossas funções, porquanto não m e seria difícil obter do Im perador dispensa dos teus trabalhos no Senado, de m odo a que continuasses recebendo os subsídios do Estado, enquanto perm anecesses na Judeia. Que j ulgas a respeito? Poderias partir tranquilo, pois eu tom aria a m eu cargo a direção de todos os teus negócios em Rom a, zelando pelos teus interesses e pelas tuas propriedades.

Públio deixou transparecer no olhar um a cham a de esperança, e, com o quem estivesse exam inando, intim am ente, todas as razões favoráveis ou contrárias à execução do proj eto, ponderou:

- A idéia é providencial e generosa, m as a saúde de Lívia não m e autoriza a tom ar um a resolução pronta e definitiva.

- Porquê?

- Esperam os, para breve, o segundo rebento do nosso lar. - E quando esperas esse advento?

- Dentro de seis m eses.

- Interessa-te a viagem depois do inverno próxim o? - Sim .

- Pois bem : estarás, então, na Judeia, precisam ente daqui a um ano. Os dois am igos reconheceram que a palestra havia sido longa. Cessara o aguaceiro. O firm am ento esplendia de constelações lavadas e lím pidas.

Iniciara-se j á o tráfego das carroças barulhentas, com os gritos pouco am áveis dos condutores, porque na Rom a im perial as horas do dia eram reservadas, de m odo absoluto, ao tráfego dos palanquins patrícios e ao m ovim ento dos pedestres.

Flam ínio despediu-se com ovidam ente do am igo, retom ando a liteira suntuosa, com o auxilio dos seus escravos prestos e hercúleos.

Públio Lentulus, tão logo se viu só, encam inhou-se ao terraço, onde corriam céleres as brisas da noite alta.

À claridade do luar opulento, contem plou o casario rom ano espalhado pelas colinas sagradas da cidade gloriosa. Espraiou os olhos na paisagem noturna, considerando os problem as profundos da vida e da alm a, deixando pender a fronte, entristecido. Incoercível tristeza dom inava-lhe o ânim o voluntarioso e sensível, enquanto um a onda de am or-próprio e de orgulho lhe sopitava as lágrim as íntim as do coração atorm entado por angustiosos pensam entos.