Há Dois Mil Anos
VII As pregações do Tiberíades
Alguns dias haviam decorrido sobre os fatos que acabam os de narrar.
Em Cafarnaum , não som ente o cenário, m as tam bém os atores, guardavam a m esm a fisionom ia.
Com pelido pela atitude irrevogável e enérgica do senador, Sulpício Tarquinius regressara a Jerusalém , obedecendo às ordens de Pilatos que, por sua vez, recebera a notificação de Públio Lentulus, referente à dispensa do lictor.
Não devem os esquecer que Públio perm anecia na Palestina com poderes am plos, na qualidade de em issário de César e do Senado, e a quem todas as autoridades da província, inclusive o governador, eram obrigados a acatar com especial atenção e m áxim o respeito.
O procurador da Judeia não se esquecera, portanto, de substituir Sulpício, do m elhor m odo possível, buscando conhecer, com interesse, os m otivos do seu afastam ento, assunto que o senador solucionou com o m ais largo espírito de superioridade, do ponto de vista político. Pilatos coadj uvou, com a m elhor boa vontade, o serviço de pesquisa, quanto ao paradeiro do pequeno Marcus, m ovim entando funcionários de sua inteira confiança, e vindo pessoalm ente a Cafarnaum , a fim de conhecer na sua intim idade as diligências efetuadas.
O senador recebeu-lhe a visita com as m ais altas m ostras de consideração e aceitou-lhe a cooperação, sinceram ente confortado, em vista de os acontecim entos desm entirem , perante o seu foro íntim o, as caluniosas acusações de que era vítim a a esposa.
Sua vida dom éstica, porém , sofrera as m ais profundas alterações. Não sabia m ais viver aquelas horas de colóquio feliz com a esposa, da qual o separava um véu de dúvidas am argas e infinitas.
Várias vezes tentou, im proficuam ente, readquirir a antiga confiança e a sua espontaneidade afetiva.
Rugas de pesar vincaram -lhe então o sem blante, ordinariam ente altivo e orgulhoso, esfum ando-lhe os traços fisionôm icos num nevoeiro de preocupações angustiosas.
Todos os seus íntim os, inclusive a esposa, atribuíam ao desaparecim ento do filhinho tão singular m etam orfose.
Nas horas habituais das refeições, notava-se-lhe o esforço para desanuviar a fisionom ia.
Dirigia-se, então, à m ulher ou respondia às suas perguntas carinhosas com m onossílabos apressados, acentuando as palavras com laconism o incom preensível.
Sofrendo am argam ente com aquela situação, Lívia apresentava-se cada vez m ais abatida, tentando em vão decifrar o m otivo de tantas provações e infortúnios.
Muitas vezes procurou sondar o espírito de Públio, de m odo a levar-lhe um pouco de carinho e consolação, m as ele evitava as expansões afetuosas, com pretextos decisivos. Quase que lhe aparecia tão som ente no triclínio e, feita a refeição costum eira, retirava-se, abruptam ente, para o grande salão do arquivo, onde passava todas as suas horas de inquietadoras m editações.
De Marcus, nenhum a notícia havia, que lhe proporcionasse a m ais ligeira som bra de esperança.
Por um a form osa m anhã da Galileia, vam os encontrar Lívia em palestra íntim a com a serva dedicada e am iga fiel, a quem replica nestes term os, depois de carinhosam ente inquirida, acerca do seu estado de saúde:
- Sinto-m e bem m al, m inha boa Ana!... À noite, o coração bate-m e descom passadam ente e, hora a hora, vej o crescer-m e no íntim o dolorosa im pressão de am argura. Não poderia bem definir m eu estado, ainda que o quisesse... O desaparecim ento do pequeno enche-m e a alm a de lúgubres presságios, m ultiplicando o peso das m inhas aflições m aternas quando não posso vislum brar, nem de leve, a causa de tam anhos padecim entos...
E agora é, sobretudo, o estado de Públio o que m ais m e acabrunha. Ele foi sem pre um hom em puro, leal e generoso; m as, de algum tem po a esta parte, noto-lhe singulares diferenças no tem peram ento, agravando-se-lhe os sintom as doentios com m aior intensidade, após o incom preensível desaparecim ento do nosso filhinho.
A m im se m e figura que ele vem sofrendo os m ais fortes distúrbios sentim entais, com sérios prej uízos para a saúde...
- Bem vej o, senhora, quanto sofreis! - aventou a serva carinhosa. Sei que sou um a criatura hum ilde e sem nenhum valor, m as pedirei a Deus que vos protej a incessantem ente, restabelecendo a paz do vosso coração.
- Criatura hum ilde e sem valor? - diz a pobre senhora, buscando dem onstrar-lhe o grau de sua estim a sincera. - Não digas isso, m esm o porque não sou dessas alm as que aferem o valor de cada um pelas posições que desfruta ou pelas honras que recebe.
Filha única de pais que m e legaram considerável fortuna, cidadã rom ana, com as prerrogativas de m ulher de um senador, vês quanto sofro nos trabalhos am argos deste m undo.
Os títulos que o berço m e outorgou não conseguiram elim inar as provações que o destino tam bém m e trouxe, com a m ocidade e a fortuna fácil.
Reconhece, pois, que, sendo eu patrícia e tu um a serva, não possuím os um coração diverso, m as sim o m elhor sentim ento de fraternidade, que nos abre a porta de um a com preensão carinhosa, a valer por asilo suave nos dias tristes da vida.
De m im para com igo, sem pre supus, contrariam ente à educação recebida, que todas as criaturas são irm ãs, filhas de um a origem com um , sem conseguir atinar com as linhas divisórias entre aqueles que possuem m uitos haveres e m uitos títulos e os que nada possuem neste m undo além do coração, onde costum o localizar os valores de cada um , nesta vida.
- Senhora - exclam ou a serva, tocada da m ais grata surpresa -, vossas palavras m e com ovem , não som ente por partirem dos vossos lábios, dos quais m e habituei a ouvir-vos sem pre com carinho e veneração, m as tam bém porque o profeta de Nazaré nos tem dito a m esm a coisa em suas prédicas.
- Jesus?!... - perguntou Lívia, de olhos brilhantes, com o se aquela referência lhe lem brasse um a fonte de consolação, da qual se houvesse m om entaneam ente esquecido.
- Sim , m inha senhora, e por falar nele, porque não buscardes um pouco de conforto nas suas divinas palavras? Juro-vos que as suas expressões, sábias e am orosas, vos consolariam no m eio de todos os pesares, proporcionando-vos sensações de vida nova!... Se quisésseis, eu poderia conduzir-vos à casa de Sim eão, discretam ente, a fim de receberdes o benefício de suas lições carinhosas. Receberíeis, assim , a alegria da sua bênção, sem vos expordes às críticas alheias, nutrindo o vosso coração dos seus lum inosos ensinam entos.
Lívia pensou intensam ente naquele alvitre, que se lhe figurava providência salvadora, respondendo, por fim :
- Os sofrim entos da vida m uitas vezes m e têm dilacerado o coração, renovando os m eus raciocínios acerca dos princípios que m e foram ensinados desde o berço, e é por isso que, acolhendo a tua idéia, acho de m eu dever procurar a Jesus publicam ente, com o o fazem outras m ulheres destes lugares
Era m inha intenção procurá-lo antes do nosso regresso a Rom a, para lhe m anifestar m eu reconhecim ento pela cura de Flávia, fato que m e deixou profundam ente im pressionada, m as que não nos foi possível com entar, em razão da atitude hostil de m eu m arido; agora, novam ente desam parada, no estuar das m inhas dores, recorrerei ao profeta para obter um lenitivo ao coração opresso e torturado.
Mulher de um hom em que, por força da sua carreira política, ocupa agora o m ais alto cargo desta província, irei a Jesus com o criatura deserdada da sorte, em busca de am paro e consolação.
- Senhora, e vosso esposo? - perguntou Ana, antevendo as consequências daquela atitude.
- Procurarei cientificá-lo da m inha resolução; m as, se Públio esquivar-se, ainda um a vez, à m inha presença para um entendim ento m ais íntim o, irei m esm o sem ouvi-lo, com respeito ao assunto. Vestirei os traj es hum ildes desta região de criaturas sim ples, irei a Cafarnaum , hospedando-m e com os teus parentes, nas horas necessárias, e, no m om ento das práticas, quero ouvir a palavra do Messias, de coração contrito e alm a com padecida pelos infortúnios dos m eus sem elhantes...
Sinto-m e profundam ente insulada nestes últim os dias e tenho necessidade de conforto espiritual para o m eu coração com balido nas provas ásperas.
- Senhora, Deus abençoe os vossos bons propósitos. Em Cafarnaum , os m eus parentes são m uito pobres e m uito hum ildes, m as vossa figura está ali no santuário da gratidão de todos, bastando um a palavra vossa para que se ponham à vossa disposição, com o escravos.
- Para m im não existe fortuna que se iguale a essa, da paz e do sentim ento.
Não procurarei o profeta para solicitar-lhe atenções especiais, porque basta a sua caridade, no caso de m inha filha, hoj e sadia e forte, graças à sua piedade de j usto, m as tão som ente para buscar conforto ao m eu coração dilacerado.
Pressinto que, em lhe ouvindo as exortações carinhosas e am igas, alcançarei energias novas para enfrentar as provações m ais am argas e rudes.
Sei que ele m e conhecerá nos traj es pobres da Galileia; todavia, na sua intuição divinatória, com preenderá que, dentro do peito da rom ana, pulsa um coração am argurado e infeliz.
As duas com binaram , então, ir j untas à cidade, na tarde do prim eiro sábado.
Em balde, procurou Lívia um a oportunidade para solicitar a am bicionada perm issão do m arido, a favor da sua pretensão. Inúm eras vezes buscou, im proficuam ente, sondar o espírito de Públio, cuj a frieza lhe afugentava a coragem para a necessária consulta.
Ela, porém , havia resolvido procurar o Mestre, de qualquer m aneira. Abandonada num a região em que som ente o m arido podia com preendê-la integralm ente, dentro da sua esfera de educação, e rudem ente provada nas fibras m ais sensíveis da sua alm a fem inina, de esposa e m ãe, a pobre senhora assim deliberou com pleno assentim ento da sua consciência honesta e pura.
Talhou um a roupa nova, de conform idade com os usos galileus, de m aneira a não se fazer notada na m ultidão com um nas prédicas do lago, e, cientificando a Com ênio da necessidade que tinha de sair naquele dia, a fim de que o m arido fosse avisado à hora do j antar, dirigiu-se, na data previam ente determ inada, pelos cam inhos que j á conhecem os, em com panhia da serva de confiança.
Na residência hum ilde de pescadores, onde se abrigavam os fam iliares de Ana, Lívia sentiu-se envolvida em radiosas vibrações de serenidade am iga e doce. Era com o se o seu coração desalentado encontrasse um a claridade nova naquele am biente de pobreza, de hum ildade e ternura.
A figura patriarcal do velho Sim eão, da Sam aria, porém , destacava-se a seus olhos entre todos os que a receberam com as m ais elevadas dem onstrações de carinhosa bondade. Do seu olhar profundo e das cãs veneráveis em anavam as doces irradiações da m aravilhosa sim plicidade do antigo povo hebreu, e a sua palavra, ungida de fé, sabia tocar os corações nas cordas m ais sensíveis, quando narrava as ações prodigiosas do Messias de Nazaré.
Lívia, acolhida por todos com sim patia franca, parecia devassar um m undo novo, até então desconhecido, na sua existência. Confortava-lhe, sobrem aneira, a expressão de sinceridade e candura, daquela vida sim ples e hum ilde, sem atavios nem artifícios sociais, m as tam bém sem preconceitos nem fingim entos perniciosos.
À tardinha, confundida com os pobres e os doentes que iam receber as bênçãos do Senhor, vam os encontrá-la de coração aliviado e sereno, esperando o m om ento ditoso de ouvir do Mestre um a palavra de am or e consolação.
O crepúsculo de um dia claro e quente em prestava um reflexo de luz dourada a todas as coisas e a todos os contornos suaves da paisagem . Encrespavam -se as águas m ansas de Tiberíades ao sopro carinhoso dos favônios da tarde, que se im pregnavam do perfum e das flores e das árvores. Brisas frescas elim inavam o calor am biente, espalhando sensações agradáveis de vida livre, no seio robusto e farto da Natureza.
Afinal, todos os olhares se dirigiam para um ponto escuro que se desenhava no espelho cristalino das águas, m uito ao longe, no horizonte.
Era a barca de Sim ão, que trazia o Mestre para as dissertações costum eiras.
Um sorriso de ansiedade e de esperança clareou, então, todos aqueles sem blantes que o aguardavam , no desconforto de seus sofrim entos.
Lívia reparou aquela turba que, por sua vez, tam bém lhe notara a estranha presença. Operários hum ildes, pescadores rudes, m ães num erosas em cuj os rostos m acerados se podiam ler as histórias am argas dos m ais incríveis padecim entos, criaturas da plebe anônim a e sofredora, m ulheres adúlteras, publicanos gozadores da vida, enferm os desesperados e crianças num erosas, que traziam consigo os estigm as do m ais doloroso desam paro.
Conservava-se Lívia ao lado do velho Sim eão, cuj a expressão fisionôm ica de firm eza e doçura inspirava o m ais profundo respeito aos que se lhe aproxim avam ; e quantos lhe notavam o delicado perfil rom ano, enfiada na sim plicidade do traj e galileu, presum iam na sua figura algum a j ovem de Sam aria da Judeia, que tivesse vindo igualm ente de longe, atraída pela fam a do Messias.
A barca de Sim ão acostara brandam ente à m argem , ensej ando a que o Mestre se dirigisse ao local costum eiro de suas lições divinas. Sua fisionom ia parecia transfigurada em resplendente beleza. Os cabelos, com o de costum e, caíam -lhe aos om bros, à m oda dos nazarenos, esvoaçando levem ente aos ósculos cariciosos dos ventos brandos da tarde.
A esposa do senador não pôde m ais despregar os olhos deslum brados, daquela figura sim ples e m aravilhosa.
Com eçara o Mestre um serm ão de beleza inconfundível e suas palavras pareciam tocar os espíritos m ais em pedernidos, figurando-se que os ensinam entos ressoavam nas devesas de toda a Galileia, ecoando pelo m undo inteiro, previam ente m odelados para cam inhar no m undo com a própria eternidade.
"Bem -aventurados os hum ildes de espírito, porque a eles pertencerá o reino de m eu Pai que está nos céus!...
"Bem -aventurados os pacíficos, porque possuirão a Terra!... "Bem -aventurados os sedentos de j ustiça, porque serão saciados!... "Bem -aventurados os que sofrem e choram , porque serão consolados nas alegrias eternas do reino de Deus!..."
E a sua palavra enérgica e branda disse da m isericórdia do Pai Celestial; dos bens terrestres e celestes; do valor das inquietações e angústias hum anas, acrescentando que viera ao m undo não para os m ais ricos e m ais felizes, m as para consolar os m ais pobres e deserdados da sorte.
A assem bléia heterogênea escutava-o em bevecida nos seus transportes de esperança e gozo espiritual.
Um a luz serena e caridosa parecia vir do Hebron, clarificando a paisagem em tonalidade de opalas e safiras eterizadas.
A hora ia adiantada e alguns apóstolos do Senhor resolveram trazer alguns pães aos m ais necessitados de alim ento. Dois grandes cestos de m erenda frugal foram trazidos, m as os ouvintes eram em dem asia num erosos. Jesus, porém , abençoou-lhes o conteúdo e, com o num suave m ilagre, a escassa provisão foi partida em pequenos pedaços, que foram religiosam ente distribuídos por centenas de pessoas.
Lívia recebeu igualm ente a sua parte e, ao ingeri-la, sentiu um sabor diferente, com o se houvera sorvido um rem édio apto a lhe curar todos os m ales da alm a e do corpo, porque um a certa tranquilidade lhe anestesiou o coração flagelado e desiludido. Com ovida até às lágrim as, viu que o Mestre atendia, caridosam ente, a num erosas m ulheres, entre as quais m uitas, segundo o conhecim ento do povo de Cafarnaum , eram de vida dissoluta e crim inosa.
O velho Sim eão quis tam bém aproxim ar-se do Senhor, naquela hora m em orável da sua passagem pelo planeta. Lívia acom panhou-o autom aticam ente, e, em poucos m inutos, achavam -se am bos diante do Mestre, que os acolheu com o seu generoso e profundo sorriso.
- Senhor - exclam ou, respeitosam ente, o ancião de Sam aria -, que deverei fazer para entrar, um dia, no vosso reino?
- Em verdade te digo - replicou-lhe Jesus, carinhosam ente - que m uitos virão do Ocidente e do Oriente, procurando as portas do Céu, m as som ente encontrarão o reino de Deus e de sua j ustiça aqueles que am arem profundam ente, acim a de todas as coisas da Terra, ao nosso Pai que está nos Céus, am ando o próxim o com o a si m esm os.
E espraiando o olhar com passivo e m isericordioso por sobre a assem bléia vasta, continuou com doçura:
- Muitos, tam bém , dos que foram aqui cham ados, serão escolhidos para o grande sacrifício que se aproxim a!... Esses m e encontrarão no reino celestial, porque as suas renúncias hão-de ser o sal da Terra e o sol de um novo dia!...
- Senhor - aventurou o ancião, com os olhos rasos de lágrim as -, tudo faria eu por ser um dos vossos escolhidos!...
Mas Jesus, fitando fixam ente o patriarca de Sam aria, m urm urou com infinita ternura:
- Sim eão, vai em paz e não tenhas pressa, porque, em verdade, aceitarei o teu sacrifício no m om ento oportuno...
E estendendo o raio de luz dos seus olhos até à figura de Lívia, que lhe devorava as palavras com a sede ardente da sua atenção, exclam ou com as claridades proféticas de suas exortações:
- Quanto a ti, regozij a-te em Nosso Pai, porque as m inhas palavras e ensinam entos te tocaram para sem pre o coração. Vai e não descreias, porque tem po virá em que saberei aceitar as tuas abnegações santificantes!
Essas palavras foram ditas num a tal atitude, que a esposa do senador não teve dificuldade em lhes apreender o sentido profundo, para um futuro distante.
Aos poucos, dispersou-se a grande assem bléia dos pobres, dos enferm os e dos aflitos.
Era noite quando Lívia e Ana regressaram à casa solarenga, confortadas pelas graças recebidas das m ãos caridosas do Messias.
Profunda sensação de alívio e conforto inundava-lhe a alm a. Penetrando, porém , nos seus aposentos, Lívia encontrou de frente a figura enérgica do m arido, que deixava, transparecer na fisionom ia carregada os m ais intensos sinais de irritação, com o acontecia nos m om entos de seu m ais ríspido m au hum or. Ela notou-lhe a exacerbação de ânim o, m as, ao contrário de outras vezes, parecia inteiram ente preparada para vencer as m ais trem endas lutas do coração, porque, com serenidade im perturbável, o encarou face a face, enfrentando-lhe o olhar suspeitoso. Afigurava-se-lhe que a flor de eterna paz espiritual lhe desabrochara no íntim o, ao suave calor das palavras do Cristo, porquanto lhe parecia haver atingido o terreno, até então desconhecido, de serenidade estranha e superior.
Depois de fitá-la de alto a baixo com o seu olhar duro e inquiridor, exclam ou Públio, m al sopitando a cólera incom preensível:
- Então, que é isso? Que poderosas razões levariam a senhora a ausentar-se de casa em horas tão im próprias para as m ães de fam ília?
- Públio - respondeu com hum ildade, estranhando aquele tratam ento cerim onioso -, por m ais que buscasse com unicar-te m inha resolução de sair na tarde de hoj e, fugiste sem pre de m inha presença, esquivando-te à m inha consulta e eu necessitava procurar o Messias de Nazaré, de m odo a acalm ar m eu coração desventurado
- E precisavas de disfarce para encontrar o profeta do povo? - atalhou o senador, com ironia.
É a prim eira vez que noto um a patrícia usando tais artifícios para consolar o coração. Vai a tanto, assim , o seu m enosprezo pelas nossas m ais sagradas tradições fam iliares?
- Supus não m e ficasse bem fazer-m e notada na m ultidão das pessoas pobres e infelizes que procuram a Jesus nas m argens do lago, e, identificando-m e com os sofredores, não presum i desacatar nossos costum es fam iliares, m as, sim , acreditei agir em favor do nosso nom e, considerando a circunstância de ocupares, no m om ento, nesta província, a m ais alta expressão política do Im pério.
- A m enos que estej a disfarçando algum outro sentim ento, com o dissim ula a posição social com a indum entária, m uito errou procurando o Messias nesses traj es, porque, afinal, estou investido de poderes para requisitar a presença de qualquer pessoa da região em m inha casa!
- Mas Jesus - revidou Lívia, coraj osam ente - deve estar para nós m uito acim a dos poderes hum anos, que sabem os tão precários, por vezes. Acho que a cura da nossa filhinha, diante da qual todos os nossos recursos foram im potentes, é o bastante para fazê-lo credor da nossa gratidão im perecível.
- Ignorava que a sua organização m ental fosse tão frágil em face dos sucessos do Mestre de Nazaré, aqui em Cafarnaum - continuou o senador, asperam ente.
A cura de nossa filha? Com o assegurar um a coisa que a sua argum entação pessoal não pode provar com dados positivos? E ainda que esse hom em , revestido de forças divinas para o espírito sim ples e ignorante dos pescadores galileus, tivesse operado essa cura com a sua intervenção sobrenatural, vindo a este m undo da parte dos deuses, poderíam os cham ar-lhe im piedoso e cruel, sarando um a m enina enferm a de tantos anos e perm itindo que os gênios do m al e da perversidade nos arrebatassem o filhinho sadio e carinhoso, em cuj a fronte colocava a m inha ternura de pai todo um futuro brilhante e prom issor!
- Cala-te, Públio! - revidou ela, tom ada de um a força superior que lhe conservava toda a serenidade do coração. - Recorda-te que os deuses podem hum ilhar-nos, com dureza, a vaidade e o orgulho absurdos... Se Jesus de Nazaré nos curou a filhinha bem -am ada, que apertávam os nos braços frágeis contra os poderes im ensos da m orte, podia perm itir que fôssem os tocados no m ais sagrado sentim ento de nossa alm a, com o incom preensível desaparecim ento do nosso Marcus, para que nos sentíssem os inclinados à piedade e à com iseração pelos nossos sem elhantes!...
- A senhora se com prom ete com essa dem asiada tolerância, que vai ao absurdo da fraternização com os escravos - disse Públio, com rispidez e austera severidade.
Tal atitude de sua parte m e fez pensar, seriam ente, que a sua personalidade m udou no decurso deste ano, porque as suas idéias, longe do nível social da sede do Im pério, baixaram ao terreno dos sentim entos m ais relaxados, em face da com postura que se exige da m ulher de um senador, ou da m atrona rom ana.
Lívia ouvira, angustiadam ente, as palavras inj ustificáveis do m arido. Nunca o vira tão irritado, em todo o transcurso da vida conj ugal; m as, verificara, em si própria, um a renovação singular, com o se o pão rústico, abençoado pelo Mestre, lhe transfigurasse as m ais recônditas fibras da consciência. Seus olhos se enchiam de lágrim as, não por um orgulho ferido ou pela ingratidão que aquelas adm oestações inj ustas revelavam , m as com profunda com paixão do esposo, que não a com preendia, e adivinhando a dolorosa tem pestade que lhe fustigava o coração generoso, porém arbitrário, no plano de suas resoluções. Serena e silenciosa, não se j ustificou perante as severas reprim endas.
Foi quando, então, com preendendo que aquele atrito não deveria prosseguir, dirigiu-se o senador para a porta de saída do apartam ento, abrindo-a com estrépito, a exclam ar:
- Jam ais fiz um a viagem tão penosa e tão infeliz! Gênios m alditos parecem presidir ás m inhas atividades na Palestina, porque, se curei um a filha, perdi um filhinho no desconhecido e com eço a perder a m ulher no abism o das irreflexões e da incoerência; e acabarei, tam bém , perdendo-m e para sem pre.
Dizendo-o, bateu a porta com toda a força dos seus m ovim entos instintivos, encam inhando-se ao gabinete, enquanto a esposa, de coração genuflexo, dirigia o pensam ento para aquele Jesus carinhoso e terno, que viera ao m undo para salvar todos os pecadores. Lágrim as dolorosas fluíam -lhe dos olhos, fixos ainda na paisagem do lago de Genesaré, aonde parecia haver regressado em espírito, novam ente. Lá estava o Mestre, em atitudes doces de prece, cravando nas estrelas do céu os olhos fulgurantes.
Figurou-se-lhe que Jesus tam bém lhe notara a presença naquela hora som bria da noite, porque desviara o olhar fúlgido do firm am ento constelado e estendia-lhe os braços com passivos e m isericordiosos, exclam ando com infinita doçura:
- Filha, deixa que chorem os teus olhos as im perfeições da alm a que o Nosso Pai destinou para gêm ea da tua!... Não esperes deste m undo m ais que lágrim as e padecim entos, porque é na dor que os corações se lucificam para o céu... Um m om ento chegará em que te sentirás no acum e das aflições, m as não duvides da m inha m isericórdia, porque no m om ento oportuno, quando todos te desprezarem , eu te cham arei ao m eu reino de divinas esperanças, onde poderás aguardar teu esposo, no curso incessante dos séculos!...
Pareceu-lhe que o Mestre continuaria a em balar-lhe o coração com suaves e carinhosas prom essas de bem -aventurança, m as um ruído qualquer a separara daquela visão de luz e de felicidade indefiníveis.
Quebrara-se o quadro da sua preocupação espiritual, com o se feito de tenuíssim as filigranas.
Todavia, a esposa do senador com preendeu que não fôra vítim a de um a perturbação alucinatória, e guardou, com am or, no âm ago do coração, as doces palavras do Messias. E, enquanto despia os traj es galileus, a fim de retom ar o curso de suas obrigações dom ésticas, de alm a lím pida e consolada, parecia, ainda, lobrigar o vulto sereno e am ado do Senhor, nas em inências verdej antes das m argens do Tiberíades, através da neblina suave, que lhe em baciava os olhos úm idos de pranto.