Há Dois Mil Anos

Chico Xavier · Capítulo 14 de 21

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Há Dois Mil Anos

III Planos da treva

 

Depois das solenidades do casam ento de Plínio, contrariam ente ao que se podia esperar, o liberto j udeu não regressou a Massília, pretextando num erosos negócios que o retinham na Capital do Im pério.

Instalado no palacete dos Severus, para onde se haviam transferido os j ovens nubentes, j unto de Calpúrnia, Saul teve oportunidades num erosas de se avistar com o senador Públio Lentulus, m antendo am bos várias palestras sobre a Judeia e as suas regiões im portantes.

Intrigado com aquele olhar ardente e aqueles traços fisionôm icos, que lhe não eram totalm ente estranhos, e lem brando-se perfeitam ente daquele pai que o procurara ansioso e aflito, em Jerusalém , acom panhem os o senador em um a de suas palestras íntim as com o interessante desconhecido, na qual o abordou com esta pergunta inesperada:

- Senhor Saul, j á que sois filho das cercanias de Jerusalém , vosso pai, porventura, não se cham aria André de Gioras?

O liberto m ordeu os lábios, diante daquele ataque direto ao assunto m ais delicado da sua existência, respondendo dissim uladam ente:

Não, senador. Meu pai não tem esse nom e. Ao tem po em que fui escravizado por m ãos im piedosas e cruéis, porquanto eu não era senão um a criança m al educada e irresponsável - acentuou com profunda ironia , m eu pai era um agricultor m iserável que não possuía outra coisa além dos seus braços para o trabalho de cada dia... Tive, contudo, a felicidade de encontrar as m ãos generosas de Flam ínio Severus, que m e guiaram para a liberdade e para a fortuna e, hoj e, o m eu genitor, com o pouco que lhe forneci, aum entou as suas possibilidades de trabalho, desfrutando não som ente certa im portância social em Jerusalém , com o tam bém funções superiores no Tem plo.

Mas, porque m o perguntais?

O senador franziu o sobrolho, em face de tanta desenvoltura na resposta, m as, sentindo-se aliviado, por lhe parecer que não se tratava, de fato, do Saul de suas penosas lem branças, respondeu com m ais desafogo de consciência:

- É que eu conheci, ligeiram ente, um agricultor israelita, por nom e André de Gioras, cuj os traços fisionôm icos não eram m uito diversos dos vossos...

E a conversação seguia o ritm o norm al das conversações sem im portância nos am bientes de convencionalism o da vida social.

Saul, entretanto, deixava transparecer fulgor estranho no olhar, com o quem se encontrava extrem am ente satisfeito com o destino, à espera de um ensej o para executar seus tenebrosos planos de vingança.

Um m óvel oculto e inconfessável o retinha em Rom a, quando num erosas operações com erciais requeriam sua presença em Massília, onde seu nom e se radicara a grandes interesses de ordem financeira e m aterial. Esse m óvel era o intenso desej o de se fazer notado pela j ovem esposa de Plínio, cuj o olhar parecia atrai-lo para um abism o de am or violento e irreprim ível.

Desde o instante em que a vira com os adornos do noivado, no dia venturoso de seu enlace, parecia haver lobrigado a criatura ideal dos seus sonhos m ais íntim os e rem otos.

Na realidade, os filhos de seus antigos senhores m ereciam o seu respeito e o m aior acatam ento; todavia, um a força m aior que todos os seus sentim entos de gratidão o levava a desej ar a posse de Flávia Lentúlia, a qualquer preço, ainda que fosse o da própria vida.

Aqueles olhos form osos e cism adores, a graça am orosa e espontânea, a inteligência lúcida e delicada, todos os seus predicados físicos e espirituais, que observara agudam ente, nos poucos dias de perm anência na cidade, o autorizavam a crer que aquela m ulher era bem o tipo das suas idealizações.

E foi engolfado nesse turbilhão de pensam entos som brios que dois m eses se passaram , de expectativas inconfessáveis e angustiosas, sem que perdesse a m ais ligeira oportunidade para dem onstrar a Flávia o grau do seu afeto, da sua adm iração e estim a, sob as vistas am igas e confiantes de Plínio.

Na soledade de suas preocupações íntim as, considerava Saul que, se ela o am asse, se correspondesse à afeição violenta do seu espírito im petuoso e egoísta, j am ais se lem braria de exercer a planej ada vingança sobre o coração de seu pai, indo buscar o j ovem Marcus Lentulus para o lar paterno e liquidando o pretérito de visões tenebrosas; contudo, se acontecesse o contrário, executaria os seus diabólicos proj etos, deixando-se em briagar pelo vinho odiento da m orte.

Nessa época, corria j á o ano de 47, e sem nos esquecerm os de Fúlvia e sua filha, vam os encontrá-las, de novo, sob o dom ínio dos m esm os sentim entos cruéis e tenebrosos.

Em vão desposara Aurélia a Em iliano Lúcios, que, para ela, não representava de m odo algum o tipo do hom em que o seu tem peram ento supunha haver encontrado no filho m ais m oço de Flam ínio.

E foi assim que, depois dos prim eiros desencantos e atritos no am biente dom éstico, a conselho da m ãe e na sua própria com panhia, procurou recorrer às ciências estranhas de Araxes, célebre feiticeiro egípcio, que tinha um a loj a de m ercadorias exóticas nas proxim idades do Esquilino.

Araxes, cuj o com ércio crim inoso todos conheciam com o fonte inesgotável de filtros m ilagrosos do am or, da enferm idade e da m orte, era um iniciado do antigo Egito, desviado, porém , da m issão sacrossanta da caridade e da paz, na sua violenta paixão pelo dinheiro da num erosa clientela rom ana, então em pletora de vícios clam orosos e na dissolução dos m ais belos costum es do sagrado instituto da fam ília.

Explorando-lhe as paixões inferiores e os hábitos viciosos, o m ago egípcio em pregava quase toda a sua ciência espiritual na execução de todos os m alefícios e crim es, m otivando enorm es danos com as suas drogas venenosas e seus estranhos conselhos.

Procurado, discretam ente, por Fúlvia e a filha, inteirou-se dos fins da visita e ali m esm o, entre grandes retortas e pacotes de plantas e substâncias diversas. m ergulhou a cabeça nas m ãos, com o se o seu espírito estivesse devassando os m enores segredos do m undo invisível, ante um a trípode e outros petrechos de ciências ocultas, com que ele, psicólogo profundo, buscava im pressionar a m ente sugestionável dos consulentes num erosos que lhe solicitavam a solução dos problem as da vida.

Ao cabo de longos m inutos de concentração, com os olhos a brilhar estranham ente, o m ago egípcio dirigiu-se a Aurélia, afirm ando-lhe em palavras im pressionantes:

- Senhora, vej o à m inha frente dolorosos quadros da sua vida espiritual, no passado longínquo!... Vej o Delfos, nos dias gloriosos do seu oráculo e contem plo a sua personalidade buscando seduzir um hom em que lhe não pertencia... Esse hom em é o m esm o da atualidade... As m esm as alm as peram bulam agora em outros corpos e a senhora deve pensar na realidade dos dias que se passam , conform ando-se com a nítida separação das linhas do destino!...

Aurélia ouvia, entre surpresa e assom brada, enquanto a alm a arguta de sua m ãe acom panhava a palestra, tocada de im pressão indefinível.

- Que m e dizeis? - replicou a j ovem senhora, no auge da sua sensibilidade ferida. - Outras vidas? Um hom em que não m e pertencia?... Que vem a ser tudo isso?

- Sim , nosso espírito, neste m undo - redarguiu o feiticeiro, com im perturbável serenidade -, tem longa série de existências, que enriquecem o nosso íntim o com o m áxim o de conhecim ento sobre os deveres que nos com petem na vida!

A senhora j á viveu em Atenas e em Delfos, num a grande fase de profundas irreflexões em m atéria de am or, e, sentindo-se hoj e próxim a do obj eto de suas ardentes e pecam inosas paixões de outrora, j ulga-se com as m esm as possibilidades de satisfazer seus desej os violentos e indignos!...

Por aqui, hão passado inúm eras criaturas. A m uitas aconselhei perseverança nos propósitos, por vezes inj ustificáveis e inferiores; m as, para o seu caso, há um a voz que fala m ais alto à m inha consciência. Se a sua irreflexão for ao ponto de provocar esse hom em , em consciência honesto até agora, é possível que o seu coração tam bém inquieto venha a corresponder aos seus caprichos; contudo, busque não se entregar ao desvario dessa provocação, porque o destino o reuniu, agora, à alm a gêm ea da sua e um cam inho áspero de provações am argas os espera no futuro, para a consolidação da sua confiança m útua, da sua afeição e da sua grandeza espiritual!... Não se interponha no cam inho dessa m ulher considerada pelo seu espírito com o poderosa rival!... Interpor-se entre ela e o esposo seria agravar a senhora as suas próprias penas, porque a verdade é que o seu coração não se encontra preparado para as grandes renúncias santificantes, e aquilo que supõe ser profundo e sublim ado am or, nada m ais é que capricho prej udicial do seu coração de m ulher voluntariosa e pouco disposta a sacrificar-se pelo carinho de com panheiro am oroso e leal, m as, sim , a m ultiplicar os am antes pelo núm ero de suas vontades artificiais...

Aurélia estava lívida, ouvindo essas palavras, que considerava atrevidas e inj uriosas.

Desej ava defender-se, m as um a força poderosa parecia com prim ir-lhe a garganta, anulando-lhe o esforço das cordas vocais.

Fúlvia, porém , tom ada de rancor pelas expressões insultuosas daquele hom em , tom ou a defesa da filha, arguindo-o com energia:

- Araxes, feiticeiro im pudico, que queres dizer com estas palavras? Insultas-nos? Poderem os fazer cair sobre tua cabeça o peso da j ustiça do Im pério, conduzindo-te ao cárcere e revelando à sociedade os teus sinistros segredos!.

- E porventura não os tereis tam bém , nobre senhora? - revidou ele im perturbavelm ente -; estaríeis, assim , tão sem culpa, para não vacilar em condenar-m e?

Fúlvia m ordeu os lábios, trem endo de ódio e exclam ando com fúria: - Cala-te, infam e! Não sabes que tens diante dos olhos a esposa de um pretor?

- Não m e parece - m urm urou o feiticeiro, com serena ironia -, pois as nobres m atronas dessa estirpe não viriam a esta casa solicitar m inha cooperação para um crim e... E, ao dem ais, que diriam em Rom a de um a patrícia, que descesse ao extrem o de procurar, na intim idade, um velho feiticeiro do Esquilino?

É verdade que m uitos m ales tenho praticado na m inha vida, m as, sabem -no todos que assim procedo e não busco a som bra das boas situações sociais para acobertar a hediondez da m inha m iserável existência!... Ainda assim , quero salvar a m ocidade de tua filha do lôbrego cam inho de tuas perversidades, porque na hipótese de seguir-te ela os coleios de víbora, na senda de esposa crim inosa e infiel, seu único fim será a prostituição e o infortúnio, rem atados com a m orte ignom iniosa na ponta de um a espada...

Fúlvia desej ou revidar energicam ente aos insultos de Araxes, repelindo aquelas expressões inj uriosas, recebidas com o atrevim ento suprem o, m as Aurélia, receosa de novas com plicações e com preendendo a culpabilidade de sua m ãe, tom ou-lhe do braço, retirando-se am bas silenciosam ente, sob o olhar zom beteiro do velho egípcio, que voltara a em pilhar pacotes de plantas entre num erosos vasos de substâncias estranhas.

Pouco tem po, contudo, pôde ele em pregar na sua faina solitária e silenciosa.

Dentro de duas horas, nova personagem lhe batia à porta. Araxes surpreendeu-se à vista daquele j udeu insinuante que o procurava. O brilho dos olhos, o nariz característico, a harm onia dos traços israelitas, faziam daquele hom em , ainda j ovem , um a figura singular e sugestiva.

Era Saul, que recorria aos m esm os processos m isteriosos, na ânsia de possuir, a qualquer preço, a esposa de Plínio, buscando o talism ã ou o elixir m iraculoso do feiticeiro, a serviço de suas pretensões descabidas.

Recebido nas m esm as circunstâncias em que o foram as duas personagens do nosso penoso dram a, Saul expunha ao adivinho as suas torturas am orosas, j unto daquela m ulher honesta e digna.

Após a habitual concentração, j á do nosso conhecim ento, j unto da trípode em que fazia as orações costum eiras, Araxes esboçou leve e discreto sorriso, com o quem havia encontrado m ais um a estranha coincidência nos seus am plos estudos da psicologia hum ana. Sua hesitação, todavia, durou poucos instantes, porque, em breve, se fazia ouvir com voz pausada e soturna:

- Judeu! - disse ele austeram ente - louva o Deus de tuas crenças, porque tua face foi erguida do pó pelas m ãos do hom em que hoj e te em penhas em trair... Mandam as leis severas da tua pátria que não venhas a desej ar, nem m esm o por pensam entos, a m ulher do teu próxim o e m uito m enos a com panheira devotada e fiel de um dos teus m aiores benfeitores. Dá um passo atrás no teu triste e m al-aventurado cam inho! Houve tem po em que teu Espírito viveu no corpo de um sacerdote de Apolo, no tem plo glorioso de Delfos... Perseguiste um a j ovem m ulher dos m isteres sagrados, conduzindo-a à m iséria e à m orte, com os teus desvarios nefandos e dolorosos. Não ouses, agora, arrancá-la dos braços destinados ao seu am paro e proteção, à face deste m undo!... Não te introm etas no destino de duas criaturas que as forças do céu talharam um a para a outra!...

O m oço j udeu, todavia, apesar de im pressionado com aquela exortação incisiva, não seguia a orientação violenta das duas m ulheres que o precederam na m isteriosa visita.

Arrancando um a bolsa de m oedas, acariciou-a nas m ãos com o a excitar a concupiscência do adivinho, exclam ando com voz quase súplice:

- Araxes, eu tenho ouro... m uito ouro, e dar-te-ei o que quiseres, pelo valioso auxílio da tua ciência... Pelo am or de teus deuses, consegue-m e a sim patia dessa m ulher e recom pensar-te-ei generosam ente a preciosidade dos esforços despendidos...

Os olhos do m ago egípcio faiscaram ao clarão de sentim ento estranho, contem plando a bolsa em form a de cornucópia, reluzente de ouro, com o se a desej asse intensam ente, m urm urando com m ais delicadeza:

- Meu am igo, essa m ulher não é cobiçada tão som ente por ti e suponho que deverias contribuir para que ela não se afastasse da com panhia do esposo!...

- Mas, existe, então, ainda outro hom em ?

- Sim , revelam -m e os signos do destino que essa criatura é tam bém desej ada pelo irm ão do m arido.

Saul fez um gesto de enfado, com o quem se sentia am argam ente atorm entado pelos m ais acerbos ciúm es, m urm urando entre dentes:

- Ah! sim ... agora entendo m elhor a viagem precipitada de Agripa, em busca de Avênio!...

E, elevando a voz com o quem estivesse j ogando a derradeira cartada da sua am bição, falou com ansiedade:

- Araxes, peço-te ainda um a vez!... Faze tudo!... pagar-te-ei regiam ente!...

A fronte do m ago curvou-se de novo, em atitude de profunda m editação, com o se o espírito buscasse, no invisível, algum a força tenebrosa, propícia aos seus sinistros desígnios.

Ao cabo de alguns m inutos, tornou a dizer em tom benevolente e am igo:

- Parece que haverá um a oportunidade para a sua afeição, daqui a algum tem po!...

O m oço j udeu ouvia-o com angustiosa expectativa, enquanto as afirm ações continuavam :

- Dizem os signos do destino que os dois cônj uges, para consolidação de sua profunda afeição, de sua confiança recíproca e progresso espiritual, estão destinados a dolorosas provas daqui a alguns anos! Dar-se-á algum a coisa que os separará dentro do próprio lar, sem que eu possa precisar o que sej a. Sei, tão som ente, que cum pre a am bos um grande período de ascetism o e dolorosa abnegação, no instituto sagrado da fam ília... Nessa ocasião, talvez, quem sabe? poderá o m eu am igo tentar essa afeição ardentem ente cobiçada!...

- Dar-se-á, então, algum a coisa? - perguntou Saul, curioso e aflito, nas suas perquirições do assunto transcendente - m as que poderá acontecer que os separe no am biente dom éstico?

- Eu m esm o não saberia dizê-lo...

- E cada qual será obrigado a um ascetism o fiel e a um a dedicação inquebrantável?

- Manda o determ inism o do destino que assim sej a, m as não só o esposo, com o a com panheira, podem interferir nessas provas, contraindo novo débito m oral, ou resgatando o passado doloroso com o preciso valor m oral nos sofrim entos, em pregando, no determ inism o das provações purificadoras, sua boa ou m á vontade... Saiba que as tendências hum anas são m ais fortes para o m al, tornando-se possível que as suas pretensões sej am satisfeitas nessa época.

- E quanto tem po deverei esperar para que isso aconteça? - perguntou o liberto, fundam ente preocupado.

- Alguns anos.

- E será inútil tentar qualquer esforço antes disso?

- Perfeitam ente inútil. Sei que o nobre cliente tem num erosos interesses num a cidade distante e é j usto que, neste intervalo, cuide dos seus negócios m ateriais.

Saul fixou detidam ente aquele hom em que parecia conhecer os m ais recônditos segredos da sua vida, passando as suas observações pelo crivo da consciência.

Deu-lhe a bolsa recheada, agradecendo a atenção e prom etendo voltar em tem po oportuno.

Daí a alguns dias, o m oço j udeu, nas vésperas da despedida, aproveitando alguns m inutos de pura e sim ples intim idade com a j ovem Flávia, dirigia-lhe a palavra nestes term os:

- Nobre senhora - com eçou em voz quase tím ida, m as com o m esm o clarão estranho de sentim entos inferiores a lhe irradiar dos olhos -, ignoro a razão do fato íntim o que vos vou revelar, m as a realidade é que vou partir para Massília, guardando a vossa im agem no m ais recôndito escaninho do m eu pensam ento!...

- Senhor - disse-lhe Flávia Lentúlia, corando, acabrunhada -, devo viver tão só no pensam ento daquele com quem os deuses ilum inaram o m eu destino!...

- Nobre Flávia - revidou o j udeu arguto, percebendo que o golpe era prem aturo e inoportuno -, m inha adm iração não se prende a qualquer sentim ento m enos digno. Para m im , sois duplam ente respeitável, não som ente pela vossa alta condição de patrícia, com o tam bém pela circunstância de serdes a com panheira de um dos m aiores benfeitores de m inha vida.

Ficai tranquila quanto às m inhas palavras, porque em m eu coração só existe o m ais leal interesse pela vossa felicidade pessoal, j unto do digno esposo que escolhestes.

Sinto por vós o que um escravo deve sentir por um a benfeitora de sua existência, j á que, na m inha triste condição de liberto, não posso apresentar-m e à vossa generosidade com as credenciais de irm ão que m uito vos venera e estim a.

- Está bem , senhor Saul - disse a j ovem , m ais aliviada -, m eu m arido vos considera com o irm ão m uito caro e eu m e honro de associar-m e aos seus sentim entos.

- Muito vos agradeço - exclam ou Saul, fingidam ente -, e j á que m e entendeis tão bem o pensam ento fraterno, é com o interesse de irm ão que m e dirij o à vossa alm a generosa para prevenir-vos de um perigo...

- Um perigo?... - perguntou Flávia, aflita.

- Sim . Falo-vos confidencialm ente, solicitando que guardeis o m áxim o segredo desta confidência fraternal.

E, enquanto a j ovem o escutava com a m aior atenção, Saul continuou com as suas pérfidas insinuações.

- Sabeis que Plínio foi quase noivo da filha do pretor Sálvio Lentulus, vosso tio, hoj e casada com Em iliano Lúcios?

- Sim ... - replicou a pobre senhora, de alm a oprim ida. - Pois devo avisar, com o irm ão, que vossa prim a Aurélia, a despeito dos seus austeros com prom issos m atrim oniais, não renunciou ao hom em de suas antigas preferências; hoj e fui cientificado, por um am igo, de que ela tem recorrido a diversos feiticeiros de Rom a, com o fim de reaver o seu afeto de outrora, a qualquer preço!...

Ouvindo essas pérfidas palavras, Flávia Lentúlia experim entou o prim eiro espinho da sua vida conj ugal, sentindo-se intim am ente torturada pelo m ais acerbo ciúm e.

Plínio resum ia todo o seu idealism o e toda a sua felicidade de m ulher j ovem . Depositara no seu coração todos os sonhos fem ininos, todas as suas m elhores e m ais florentes esperanças. Assaltada pela prim eira contrariedade da sua vida social, na grande cidade de seus pais, sentia, naquele instante, a sede devoradora de um esclarecim ento am igo, de um a palavra carinhosa que viesse restabelecer o equilíbrio do coração, agora turbado pelos prim eiros dissabores. Faltava-lhe algum a coisa que pudesse com pletar as nobres qualidades do seu coração de m ulher, algum a coisa que devia ser a atuação m aterna na sua educação, porque Públio Lentulus, na sua cegueira espiritual, lhe m oldara o caráter no orgulho da estirpe, nas tradições vaidosas dos antepassados, sem desenvolver as suas qualidades de ponderação, que a influência de Lívia criaria, certo, para notáveis florações do sentim ento.

A j ovem patrícia sentiu o coração despedaçado por um ciúm e quase feroz; m as, com preendendo os deveres que lhe com petiam em tais conj unturas, recobrou a precisa energia m oral para reagir naquele prim eiro em bate de provas, respondendo ao m oço j udeu e fazendo o possível por afetar o m áxim o de severa e tranquila nobreza:

- Agradeço, penhorada, o interesse de vossa com unicação; todavia, nada m e autoriza a suspeitar da consciência retilínea de m eu esposo, m esm o porque Plínio resum e todos os m eus ideais de esposa e de m ulher!

- Senhora - revidou o j udeu, m ordendo os lábios -, o espírito fem inino, na sua fertilidade de im aginação, alheio à vida prática, pode enganar-se m uitas vezes, pelas aparências...

Folgo de ouvir-vos e louvo a vossa ilim itada confiança; porém , quero fiqueis convencida de que, a qualquer tem po, encontrareis em m im um sincero defensor da vossa felicidade e das vossas virtudes!...

Isso dizendo, Saul de Gioras apresentou atenciosas despedidas, deixando a pobre m oça com as suas im pressões de surpresa e am argura.

Os prim eiros infortúnios haviam atingido a vida conj ugal de Flávia Lentúlia, sem que ela soubesse conj urar o perigo que am eaçava a sua ventura para sem pre

Nessa noite, Plínio Severus não encontrou em casa a criatura m im osa e adorável da sua dedicação e do seu am or profundo. Na intim idade da alcova, encontrou a com panheira cheia de recrim inações descabidas e im portunas, tocada de tristezas am arguradas e incom preensíveis, verificando-se entre am bos os prim eiros atritos que podem arruinar para sem pre, no curso de um a vida, a felicidade de um casal, quando seus corações não se encontram suficientem ente preparados para a com preensão espiritual, no instituto das provas rem issoras, em bora a estrada divina de suas alm as gêm eas sej a um cam inho glorioso para os m ais elevados destinos.

Em breves dias, Saul regressava a Massília, esperançoso de concretizar algum as realizações de ordem m aterial, de m odo a regressar a Rom a no m enor espaço de tem po.

E a vida das nossas personagens continuava, na Capital do Im pério, quase com a m esm a fisionom ia de sem pre.

O senador Lentulus prosseguia engolfado nas suas cogitações de ordem política, procurando, sem pre que possível, a residência da filha, onde m antinha as m ais longas palestras com Calpúrnia, sobre o passado e as necessidades do presente.

Quanto a Lívia, afastada com pulsoriam ente da filha, pela força das circunstâncias; longe de sua m elhor am iga de outros tem pos, pela incom preensão, e prosseguindo distante do esposo no am biente dos seus afetos m ais íntim os, refugiara-se na dedicada am izade de Ana, nas preces m ais fervorosas e sinceras.

Diariam ente, am bas procuravam orar, em dolorosa soledade, ao pé daquela m esm a cruz grosseira que lhes dera Sim eão no instante extrem o.

Muitas vezes, am bas, em êxtase, notavam que o pequenino m adeiro se toucava de luz tenuíssim a, ao m esm o tem po que lhes parecia ouvir longe, no santuário do coração e dos pensam entos, exortações singulares e m aravilhosas.

Afigurava-se-lhes que a voz branda e am iga do apóstolo da Sam aria voltava do Reino de Jesus para ensinar-lhes a fé, o cum prim ento do dever de caridade fraterna, a resignação e a piedade. Am bas choravam , então, com o se nas suas alm as sensíveis e carinhosas vibrassem as harm onias de um divino prelúdio da vida celeste.

Nessa época, instruída por alguns cristãos m ais hum ildes, Ana cientificou a senhora das reuniões nas catacum bas.

Som ente ali podiam reunir-se os adeptos do Cristianism o nascente, porquanto, desde os seus prim eiros eventos na sociedade rom ana, foram as suas idéias consideradas subversivas e perversoras.

O Im pério fundado com Augusto, que significou a m aior expressão de um Estado forte em todas as épocas do m undo, depois das conquistas dem ocráticas da República, não tolerava nenhum agrupam ento partidário, em m atéria de doutrinas sociais e políticas.

Verificava-se em Rom a o m esm o que hoj e com as nações m odernas, a oscilarem entre as m ais variadas form as governam entais, ao longo do eixo dos extrem ism os e dentro da ignorância do hom em , que teim a em não com preender que a reform a das instituições tem que com eçar no íntim o das criaturas.

As únicas associações adm itidas eram , então, as cooperativas funerárias, em vista de seus program as de piedade e proteção aos que j á não podiam perturbar os poderes tem porais do César.

Perseguidos pelas leis, que lhes não toleravam as idéias renovadoras; encarados com aversão pelas forças poderosas das tradições antigas, os adeptos de Jesus não ignoravam a sua futura posição de angústia e sofrim ento. Alguns editos m ais rigorosos os com peliam a ocultar a m anifestação de crença, em bora o governo de Cláudio procurasse, sem pre, o m áxim o de ordem e equilíbrio, sem grandes excessos na execução dos seus desígnios.

Alguns com panheiros m ais esclarecidos na fé advogavam publicam ente as suas teses, em epístolas ao sabor da época; m as, m uito antes dos crim es tenebrosos de Dom ício Nero, a atm osfera dos cristãos prim itivos era j á de aflição, angústia e trabalhos penosos. Desse m odo, as reuniões das catacum bas efetuavam -se periodicam ente, nada obstante o seu caráter absolutam ente secreto.

Grande núm ero de apóstolos da Palestina passavam em Rom a, trazendo aos irm ãos da m etrópole as prédicas m ais edificantes e consoladoras.

Ali, no silêncio dos grandes m aciços de pedra, em cavernas desprezadas pelo tem po, ouviam -se vozes profundas e m oralizantes, que com entavam o Evangelho do Senhor ou encareciam as sublim idades do seu Reino, acim a de todos os precários poderes da perversidade hum ana. Tochas brilhantes ilum inavam esses desvãos subterrâneos, que as heras protegiam , enquanto suas portas em pedradas davam a im pressão de angústia, tristeza e suprem o abandono.

Sem pre que um peregrino m ais dedicado aportava à cidade, havia um aviso com um a todos os conversos.

O sinal da cruz, feito de qualquer form a, era a senha silenciosa entre os irm ãos de crença, e, feito desse ou daquele m odo especial, significava um aviso, cuj o sentido era im ediatam ente com preendido.

Através dessas com unicações incessantes, Ana conhecia todo o m ovim ento das catacum bas, colocando sua senhora a par de todos os fatos que se desenrolavam em Rom a, sobre a redentora doutrina do Crucificado.

Assim é que, quando se anunciava a chegada de algum apóstolo da Galileia ou das regiões que lhe são fronteiriças, Lívia fazia questão de com parecer, fazendo-se acom panhar pela serva desvelada e fiel, atravessando os cam inhos a pé, em bora traj asse agora a sua indum entária patrícia, de conform idade com a autorização do m arido, para professar livrem ente as suas crenças. Ela estava ciente de que, perante a sociedade, sua atitude representava grave perigo, m as o sacrifício de Sim eão fôra um m arco de luz assinalando os seus destinos na Terra. Adquirira coragem , serenidade, resignação e conhecim ento de si m esm a, para nunca tergiversar em detrim ento da sua fé ardente e pura. Se as suas antigas relações de am izade, em Rom a, atribuíam suas m odificações interiores à dem ência; se o m arido não a com preendia e Calpúrnia e Plínio cavavam , ainda m ais, o grande abism o que Públio havia aberto entre ela e a filha, possuía o seu espírito, na crença, um cam inho divino para fugir de todas as terrenas am arguras, sentindo que o Divino Mestre de Nazaré lhe dulcificava as úlceras da alm a, com padecendo-se do seu coração retalhado de angústias. Era-lhe a fé com o um archote lum inoso clareando a estrada dolorosa, e do qual se irradiavam os clarões da confiança hum ana na Providência Divina, que transform a as provações penosas da Terra em antegozo das eternas alegrias do Infinito.