Há Dois Mil Anos
IV Tragédias e esperanças
A vida real sem pre é prosaica, sem fantasia nem sonhos. Assim decorre a existência das personagens deste livro, na tela viva das realidades nuas e dolorosas do am biente terrestre.
Os que atingem determ inadas posições sociais, bem com o os que se aproxim am do crepúsculo da vida fragm entária da Terra, poucas novidades têm a contar, com respeito ao curso de cada dia.
Há um período na existência do hom em , em que lhe parece não m ais haver a precisa pressão psíquica do coração, a fim de que se lhe renovem os sonhos e as aspirações prim eiras, figurando-se a sua situação espiritual cristalizada ou estacionaria. No íntim o, não há m ais espaço para novas ilusões ou reflorescim ento de velhas esperanças, e a alm a, com o que em doloroso período de expectação e forçado silêncio, queda-se no cam inho, contem plando os que passam , presa aos cordéis da rotina, das sem anas uniform es e indiferentes.
Estam os vivendo, agora, o ano 57, e a vida dos atores deste dram a doloroso apresenta-se quase invariável no desdobram ento infindo dos seus episódios com uns e angustiosos.
Apenas um a grande m odificação se fizera na residência de Calpúrnia.
Plínio Severus, nas suas radiosas expressões de vitalidade física, j á havia recebido as m aiores distinções por parte das organizações m ilitares que garantiam a estabilidade do Im pério. Longas e periódicas perm anências nas Gálias e na Espanha lhe haviam angariado honrosíssim as condecorações, m as, no seu íntim o, a vaidade e o orgulho haviam proliferado intensam ente, não obstante a generosidade do seu coração.
Os prim eiros ciúm es ásperos da esposa fizeram -se acom panhar de consequências nefastas e dolorosas.
Aos crim inosos propósitos de Saul j untaram -se as pérfidas confidências das am igas m entirosas, e Flávia Lentúlia, longe de gozar a ventura conj ugal a que tinha direito pelos seus elevados dotes de coração, descera, sem sentir, dados os seus ciúm es desm esurados, aos tenebrosos abism os do sofrim ento e da provação.
Para um hom em da condição de Plínio, era m uito fácil a substituição do am biente dom éstico pelas festividades ruidosas do circo, na com panhia de m ulheres alegres, que não faltavam em todos os lugares da m etrópole do pecado.
Em breve, o carinho da esposa foi substituído pelo falso am or de num erosas am antes.
Debalde procurou Calpúrnia interpor seus bons ofícios e carinhosos conselhos, e, em vão, prosseguia a j ovem esposa do oficial rom ano no seu m artírio im perturbável e silencioso.
As raras queixas de Flávia eram guardadas pelo coração generoso da m ãe do seu m arido, ou, então, confiadas ao espírito do pai, em confidências am arguradas e penosas.
Públio Lentulus, com preendendo a im portância da cooperação fem inina na regeneração dos costum es e no reerguim ento do lar e da fam ília, incitava a filha ao m áxim o de resignação e tolerância, fazendo-lhe sentir que a esposa de um hom em é a honra do seu nom e e o alim ento da sua vida e que, enquanto um m arido se perverte no torvelinho das paixões desenfreadas, escarnecendo de todos os bens da vida, basta, às vezes, um a lágrim a da m ulher para que a paz conj ugal volte a brilhar no céu sem nuvens do afeto puro e recíproco.
Para o espírito de Flávia, a palavra paterna tinha foros de realidade insofism ável e ela buscava am parar-se nas suas prom essas e nos seus conselhos, j ulgados preciosos, esperando que o esposo voltasse, um dia, ao seu am or, entre as bênçãos do cam inho.
Enquanto isso, Plínio Severus dissipava no j ogo e nas folganças um a verdadeira fortuna. Sua prodigalidade com as m ulheres tornara-se proverbial nos centros m ais elegantes da cidade, e poucas vezes buscava o am biente fam iliar, onde, aliás, todos os afetos se conj ugavam para esclarecer-lhe docem ente o espírito desviado do bom cam inho.
A m orte do velho pretor Sálvio Lentulus, antes do ano 50, obrigara a fam ília de Públio e os rem anescentes de Flam ínio aos protocolos sociais j unto de Fúlvia e da filha, por ocasião das hom enagens prestadas às cinzas do m orto que, envolto no m istério da sua passividade resignada e incom preensível, havia passado pelo m undo.
Bastou esse ensej o para que Aurélia retom asse a oportunidade perdida. Um olhar, um encontro, um a palavra e o filho m ais m oço de Flam ínio, enam orado das belezas pecam inosas, restabeleceu o laço afetivo que um am or santificado e puro havia destruído anteriorm ente.
Em breve, am bos eram vistos com olhares significativos pelos teatros, pelos circos ou pelas grandes reuniões esportivas da época.
De todas essas dores, fizera Flávia Lentúlia o seu calvário de agonias silenciosas, dentro do lar que a sua fidelidade dignificava. Nas suas m editações silenciosas, m uitas vezes deplorou os antigos desabafos de ciúm e inj ustificável, que constituíram a prim eira porta para que o m arido se desviasse dos sagrados deveres em fam ília; m as, no seu orgulho de patrícia, ponderava que era m uito tarde para qualquer arrependim ento dela, considerando, intim am ente, que o único recurso era aguardar a volta do esposo ao seu coração fiel e dedicado, com o m áxim o de hum ildade e paciência. Nos seus instantes de contristação, escrevia páginas am arguradas e lum inosas, pelos elevados conceitos que traduziam , ora im plorando a piedade dos deuses, em súplicas fervorosas, ora estereotipando as íntim as angústias em versos com ovedores, lidos tão som ente pelos olhos de seu genitor que, a chorar de em oção, considerava, m uitas vezes, se a desventura conj ugal da pobre filha não era igualm ente um a herança singular e dolorosa.
Por volta do ano 53, desaparecia em trágicas circunstâncias, nos escuros braços da m orte, um a das figuras m ais fortes desta história.
Referim o-nos a Fúlvia que, dois anos após o falecim ento do com panheiro, acusava as m ais sérias perturbações m entais, além de inquietantes fenôm enos orgânicos, provenientes de passados desvarios.
Feridas cancerosas devoravam -lhe os centros vitais e, por dois anos a fio, o corpo em agrecido era forçado às m ais penosas e incôm odas posições de repouso, enquanto os olhos inquietos e arregalados dançavam nas órbitas, com o se nas suas alucinações fosse com pelida à vidência dos quadros m ais sinistros e tenebrosos.
Nessas ocasiões, não encontrava a dedicação da filha, que não soubera educar, sem pre atarefada nos seus constantes com prom issos de festas, encontros e representações sociais num erosas.
Mas a m isericórdia divina, que não abandona os seres m ais desditosos, dera-lhe um filho carinhoso e com passivo para as dores expiatórias.
Em iliano Lúcios, o m arido de Aurélia, era desses hom ens dignos e valorosos, raros na paciência e nas m ais elevadas virtudes dom ésticas.
Noites e noites sucessivas, velava pela velhinha infeliz, que as dores físicas castigavam im piedosam ente com o azorrague de suplícios atrozes.
Nos seus últim os dias, vam os ouvir-lhe as palavras desconexas e dolorosas. Noite alta, quando as próprias escravas descansavam , subj ugadas pela fadiga e pelo sono, parecia que seus ouvidos de louca se aguçavam , espantosam ente, para ouvir os ruídos do invisível, dirigindo im propérios às suas antigas vitim as, que voltavam das m ais baixas esferas espirituais para rodear-lhe o leito de sofrim ento e m orte. Olhos desm esuradam ente abertos, com o se fixassem visões fatídicas e horrorosas, exclam ava a pobre velhinha abraçando-se ao genro, no auge das suas frequentes crises de m edo e desesperação inconsciente:
- Em iliano!... - exclam ava em atitudes de pavor suprem o. - Este quarto está cheio de seres tenebrosos!... Não percebes? Ouve bem ... Ouço-lhes os im propérios rij os e as sinistras gargalhadas!... Conheceste Sulpício Tarquinius, o grande lictor de Pilatos?... Ei-lo que chega com os seus legionários m ascarados de treva!... Falam -m e da m orte, falam -m e da m orte!... Socorre-m e, filho m eu!... Sulpício Tarquinius tem um corpo de dragão que m e apavora!...
Crises de soluço e lágrim as sucediam -se a essas observações angustiosas.
- Acalm a-te, m ãe! - exclam ava o m ilitar, consternado até às lágrim as. -Tenham os confiança na bondade infinita dos deuses!...
- Ah!... os deuses! - gritava agora a infeliz, em histéricas gargalhadas - os deuses... - onde estariam os deuses desta casa infam e? Em iliano, Em iliano, nós é que criam os os deuses para j ustificar os desvarios de nossa vida! O Olim po de Júpiter é um a m entira necessária ao Estado... Som os um a caveira enfeitada na Terra com um punhado de pó!... O único lugar que deve existir, de fato, é o inferno, onde se conservam os dem ônios com os seus tridentes no braseiro!... Ei-los que chegam em falanges escuras!...
E, apegando-se fortem ente ao peito do oficial, gritava disparatadam ente, com o se buscasse ocultar o rosto, de som bras am eaçadoras:
- Nunca m e levareis, m alditos!... Para trás, canalhas!... Tenho um filho que m e defende de vossas investidas tenebrosas!...
Em iliano Lúcios acariciava bondosam ente os cabelos brancos da desventurada senhora, incitando-a a im plorar a m isericórdia dos deuses, de m odo a balsam izarem -se-lhe os rudes padecim entos.
De outras vezes, Fúlvia Prócula, com o se tivesse a consciência despertada por um raio divino, dizia, m ais calm a, ao filho que o destino lhe havia dado:
- Em iliano, estou aproxim ando-m e da m orte e preciso confessar-te as m inhas faltas e grandes deslizes! Perdoa-m e, filho, se tam anhos trabalhos te hei proporcionado! Minha existência m isérrim a foi um a longa esteira de crim es, cuj as m anchas horrorosas não poderão ser lavadas pelas próprias lágrim as da enferm idade que ora m e conduz aos im penetráveis segredos da outra vida! Nunca, porém , consegui ponderar as am arguras terríveis que m e esperavam . Hoj e, nas pesadas som bras dalm a, sinto que m inha consciência se tisna do carvão apagado do fogo das paixões nefastas que m e devoraram o penoso destino!... Fui esposa desleal, im piedosa, e m ãe desnaturada...
Quem se apiedará de m im , se houver um a claridade espiritual após as cinzas do túm ulo? Deste leito de loucura e agonia desesperada, vej o o desfile incessante de fantasm as hediondos, que parecem esperar-m e no pórtico do sepulcro!... Todos profligam m eus crim es passados e m ostram -se j ubilosos com os padecim entos que m e arrastam à sepultura!
Sem um a crença sincera, sinto-m e entregue a esses dragões do im ponderável, que m e fazem evocar o passado crim inoso e som brio!...
Um a torrente de lágrim as de com punção e arrependim ento seguia-se a esses instantes vertiginosos, de raciocínio e lucidez.
Em iliano Lúcios afagava-lhe, com carinho, a face rugosa, im ergindo-se ele m esm o em cism as dolorosas.
Aquele quadro lancinante era bem o fim tem pestuoso de um a existência de deslizes clam orosos.
Sim ... ele tudo com preendia agora. A rebeldia da esposa, a sua incom preensão, os atritos dom ésticos, aquela sede insaciável de festas ruidosas em com panhia de afetos que não eram os dele, deviam ser os frutos am argos de educação viciada e deficiente. Mas, seu coração estava cheio de generosidade sem lim ites. Espírito valoroso, com preendia a situação, e quem com preende perdoa sem pre.
Um a noite em que a doente m anifestava crises acentuadas e profundas, o bondoso oficial ordenou que as servas se recolhessem .
A pobre louca falava sem pre, com o se fôra tocada de energia inesgotável e incom preensível.
Copioso suor inundava-lhe a fronte, tom ada de febre alta e constante.
- Em iliano - gritava ela desesperadam ente -, onde está Aurélia, que não busca velar à m inha cabeceira nas vésperas da m orte? Com o as falsas am izades de m inha vida, terá ela tam bém horror do m eu corpo?
- Aurélia - explicou generosam ente o oficial - precisava desobrigar-se hoj e de um com prom isso com as am igas, na organização de alguns serviços sociais!
- Ah! - exclam ou a dem ente, em sinistras gargalhadas - os serviços sociais... os serviços sociais!... Com o pudeste crer nisso, filho m eu? Tua m ulher, a estas horas, deve estar ao lado de Plínio Severus, seu antigo am ante, em algum lugar suspeito desta cidade m iserável!...
Em iliano Lúcios fez o possível para que a infeliz dem entada não prosseguisse em suas revelações terríveis e im pressionantes; m as Fúlvia continuava o libelo trem endo e doloroso:
- Não, não m e prives de continuar... - prosseguia desesperadam ente. - Ouve-m e ainda! Todas as m inhas acusações representam a crim inosa realidade... Muitas vezes, a verdade está com aqueles que enlouqueceram !... Fui eu própria que induzi m inha infeliz filha aos desvios conj ugais... Plínio Severus era o inim igo que ela precisava vencer, na qualidade de m ulher... Facilitei-lhe o adultério, que se consum ou sob este teto!... Certifica-te, filho m eu, da enorm idade das m inhas faltas!... Horroriza-te, m as perdoa!... E vigia tua m ulher para que não continue a trair-te com as suas perfídias torpes, e não venha um dia a apodrecer, lam entavelm ente, com o eu, num leito de sedas perfum osas!...
O generoso m ilitar acom panhava, boquiaberto e aflito, aquelas revelações assom brosas.
Então a esposa, além de não o com preender no seu idealism o, ainda o traia vergonhosam ente, no próprio am biente sacrossanto do lar? Em oções dolorosas represavam -se-lhe no coração, m as, possivelm ente, todas aquelas palavras não passavam de sim ples delírio febril, na dem ência incurável. Um a dúvida horrível e im piedosa aninharas-lhe no coração angustiado. Algum as lágrim as um edeceram -lhe os grandes olhos tristes, enquanto a enferm a dava um a trégua às penosas revelações.
Dai a m inutos, porém , com voz estentórica, continuava: - E Aurélia? Que é feito de Aurélia que não vem ? Por onde andará m inha pobre filha crim inosa e infiel? Am anhã, m eu filho, hei-de confiar-te os infam es segredos da nossa existência desventurada.
Alguém , todavia, penetrara no aposento contíguo, cautelosa e silenciosam ente. Era Aurélia, que voltava de um a festividade ruidosa, onde o vinho e os prazeres haviam j orrado em abundância.
Depois de atravessar a porta próxim a, ainda ouviu as últim as palavras da m ãe, no auge da febre e da desesperação doentia. Ela, que ouvira as tristes revelações de pouco antes, considerou que a doente, no dia im ediato, haveria de cum prir a terrível prom essa e, num relance, exam inou todas as probabilidades de execução da idéia tenebrosa que lhe passara pela m ente crim inosa e infeliz. Seus olhos pareciam vidrados de cólera, sob o azorrague de um pensam ento m órbido, que lhe aflorara repentinam ente no coração frio e im piedoso.
Despiu os traj es da festa, reintegrando-se nos aspectos interiores do lar, e abriu um a nova porta, dirigindo-se ao leito m aterno, onde acariciou a m ãe fingidam ente, enquanto o esposo incom preendido a contem plava, de cérebro fervilhante e dolorido, sob o dom ínio das dúvidas m ais acerbas.
- Mãe, que é isso? - perguntou, afetando um a preocupação im aginária. - Estás cansada... precisas repousar um pouco.
Fúlvia fitou-a profundam ente, com o se um clarão de lucidez lhe houvesse clareado repentinam ente o espírito abatido. A presença da filha tranquilizava de algum m odo o seu coração dorido e a consciência dilacerada. Sentou-se com esforço, no leito, afagou os cabelos da filha, com o sem pre costum ava fazer na intim idade, deitando-se em seguida e parecendo com boa disposição de repousar.
Em iliano Lúcios retirou-se da cena, considerando que sua presença j á não era necessária.
Mas Aurélia continuava a falar com o seu fingido carinho:
- Queres, m ãe, um a dose do calm ante para o repouso preciso? A pobre louca, na sua inconsciência espiritual, fez um sinal afirm ativo com a cabeça.
A j ovem encam inhou-se ao seu aposento privado e, retirando m inúsculo tubo de um dos m óveis prediletos, deixou pingar algum as gotas num a pequena taça de sedativo, m onologando: - "Sim !... um segredo é sem pre um segredo... e só a m orte pode guardá-lo convenientem ente!..."
Cam inhou, sem hesitação, para o leito m aterno, onde, por m ais de dois anos, j azia a infeliz, devorada pelo câncer e atorm entada pelas visões m ais sinistras e tenebrosas.
Num relance, o horrível envenenam ento estava consum ado. Ministrada a poção corrosiva e violenta, Aurélia determ inou, então, que duas escravas velassem o sono da enferm a, com o de costum e, ao regressar das noitadas ruidosas, esperando o resultado da ação crim inosa e inj ustificável.
Em duas horas, a enferm a apresentava os m ais evidentes sinais de sufocação sob a ação do corrosivo, que constituía m ais um daqueles filtros m isteriosos e hom icidas da época.
Ao cham am ento aflito das servas, todas as pessoas da casa se colocaram a postos, dado o penoso estado da enferm a.
Em iliano Lúcios contem plou-lhe os olhos, que se iam apagando no véu da m orte, e debalde procurou fazer que a agonizante lhe dissesse ainda um a palavra. Seus m em bros frios foram -se enrij ando devagarinho e da boca com eçou a escapar-lhe espum a rósea.
Em vão foram cham ados os entendidos da m edicina, naqueles derradeiros instantes. Naquela época, nem os esculápios conheciam os segredos anatôm icos do organism o, nem havia polícia técnica para averiguar as causas profundas das m ortes m isteriosas. O envenenam ento de Fúlvia correu por conta das m oléstias incom preensíveis que, durante m uitos m eses, lhe haviam m inado todos os centros de vitalidade.
Contudo, aquela agonia rápida não passou despercebida a Em iliano, que j untou m ais um a dúvida penosa aos am argos pensam entos que lhe negrej avam o foro íntim o.
Aurélia buscou representar, do m elhor m odo, a com édia da sentim entalidade em tais circunstâncias, e depois das cerim ônias sim plificadas e rápidas, em vista da im ediata decom posição cadavérica, que forçou a incineração em breves horas, o antigo lar do pretor Sálvio Lentulus tornou-se o abrigo de dois corações que se odiavam m utuam ente.
Se a esposa infiel, logo após os prim eiros dias de luto, retornava à sua existência de regalados prazeres, Em iliano Lúcios nunca pôde esquecer as revelações de Fúlvia, nas vésperas do seu desprendim ento, envolvendo-se, então, num véu de tristeza que lhe cobriu o coração por m ais de dois anos.
Em 54, subia Dom ício Nero ao poder, fazendo-se acom panhar de um a depravada corte de áulicos perversos e de concubinas tão num erosas quão desalm adas.
Muito tarde, reconheceu Agripina a inconveniência de sua atitude m aternal obrigando o im perador Cláudio a anuir ao casam ento de sua filha Otávia com aquele que, m ais tarde, iria elim inar-lhe a própria vida com os m aiores requintes de perversidade.
O Fórum e o Senado receberam , trem endo, a som bria notícia da proclam ação do novo César pelas legiões pretorianas, não tanto por ele, m as porque sabiam , de antem ão, que aquele príncipe ignorante e cruel ia tornar-se um fácil j oguete dos espíritos m ais am biciosos e m ais perversos da corte rom ana.
Ninguém , todavia, ousou protestar, tal a série de crim es tenebrosos, perpetrados im punentem ente, para que Dom ício Nero atingisse os bastidores do suprem o poder.
No ano 56, o envenenam ento do j ovem Britanicus punha arrepios de terror em todos os patrícios.
Medidas ignom iniosas foram postas em prática para hum ilhar os senadores do Im pério, que não conseguiram efetivar os seus protestos form ais. Todas as fam ílias m ais im portantes da cidade conheciam que, diante de si, tinham os filtros venenosos de um a Locusta, a tirania e a perversidade de um Tigelinus, ou o punhal de um Aniceto.
A m orte inesperada de Britanicus, porém , provocara certo descontentam ento, dando azo a que se m anifestassem alguns espíritos m ais valorosos.
Entre esses, encontrava-se Em íliano Lúcios, que se viu logo em sérias perspectivas de banim ento, tornando-se vigiado pelos inúm eros esbirros do Im perador.
O generoso oficial buscou recolher-se o m ais que lhe era possível, evitando a possibilidade de conflitos. Recrudesceram as suas angústias íntim as e as suas m editações tornaram -se m ais profundas e dolorosas...
E, assim , certa vez, às prim eiras horas de um a noite tranquila, quando se recolhia ao lar, contrariam ente aos seus hábitos m ais antigos, notou que o aposento da esposa estava cheio de vozes anim adas e alegres. Observou que Aurélia e Plínio se em briagavam no vinho de seus venenosos prazeres e, olhos traduzindo incoercível espanto, viu que a esposa o traía no próprio tálam o conj ugal.
Em iliano Lúcios sentiu que espinho m ais agudo lhe penetrava o coração sensível e generoso, ao verificar, por si m esm o, aquela realidade cruel. Teve ím petos de cham ar o am ante ao cam po da honra para m orrer ou elim inar-lhe a vida, m as considerou, sim ultaneam ente, que Aurélia não m erecia tal sacrifício.
Enoj ado de tudo que se referia à sua época e sentindo-se vencido nas desventuras do seu penoso destino, o nobre oficial retirou-se para o antigo gabinete do pretor Sálvio, onde estabelecera a sede de seus trabalhos diurnos e, tom ado de sinistra e dolorosa resolução, abriu velho arm ário onde se alinhavam pequenos frascos, retirando um deles, de configuração especial, a fim de satisfazer os am argos propósitos do seu espírito exausto.
Diante da taça de cicuta, o cérebro dorido perdeu-se, por m inutos, em pungentes conj eturas, m as, estudando intim am ente todas as suas probabilidades de ventura, ponderou, no auge do desespero, que, à traição da m ulher, às am eaças de proscrição e de banim ento ou à possibilidade de um ataque nas som bras, era preferível o que ele considerava o consolo derradeiro da m orte.
Num instante, sem que os am igos espirituais pudessem dem ovê-lo do intento terrível, tal a subitaneidade do gesto desesperado e irrefletido, sorveu o conteúdo de pequena taça, descansando depois a j ovem cabeça sobre os braços, estirado num leito próprio do triclínio, m as adaptado ao seu gabinete antigo, abarrotado de m árm ores e pergam inhos preciosos.
A m orte horrível não se fez esperar m uito, e, no círculo num eroso de suas relações de am izade, enquanto Aurélia representava nova farsa de pesares im aginários, com entava-se o suicídio de Em iliano, não com o consequência direta de suas profundas desilusões dom ésticas, m as com o fruto da tirania política do novo im perador, sob cuj o reinado tantos crim es foram com etidos, diariam ente, nas som bras.
Sozinha, agora, no seu cam po de ação, Aurélia entregou-se livrem ente aos seus desvarios, am plificando as suas inclinações nocivas e procurando reter, cada vez m ais, j unto de si o hom em de suas preferências, obj eto de suas desenfreadas am bições.
Em casa dos Lentulus e dos Severus, a vida continuava a desfiar o rosário das desventuras.
Havia m ais de cinco anos, em 57, que Saul de Gioras se encontrava definitivam ente instalado em Rom a, sem haver desistido dos seus desej os e propósitos a respeito da esposa do am igo e benfeitor. Consolidada a sua fortuna no com ércio de peles do Oriente, não perdia ele as m ínim as oportunidades para evidenciar a excelência de sua situação m aterial à m ulher cobiçada de longos anos; Flávia Lentúlia, porém , fizera da existência um calvário de resignação, com ovedora e silenciosa.
A vida pública do m arido era, para o seu espírito, um prolongado e doloroso suplício m oral. Sobre o assunto, fazia Saul, de vez em quando, referências indiretas, no intuito de cham ar-lhe a atenção para o seu afeto, m as a pobre senhora nele não via outra individualidade, além de um am igo, ou irm ão. Debalde, o m oço j udeu testem unhava-lhe sua adm iração pessoal, em gestos de extrem a gentileza, buscando oferecer-lhe a sua com panhia; m as, a verdade é que os apelos de sua alm a im petuosa e apaixonada não encontravam . ressonância no coração daquela m ulher, que enfeitava com a dor a dignidade do m atrim ônio.
Tocado pelas expressões do seu dinheiro, Araxes anim ava-lhe as esperanças sem o deixar esm orecer nos seus perigosos instintos.
Plínio Severus só vinha ao lar de vez em quando, alegando serviços ou viagens num erosas para j ustificar a continuidade de sua ausência. Mal se precatava ele de que as despesas astronôm icas lhe arruinavam , pouco a pouco, as possibilidades financeiras, conduzindo igualm ente os seus fam iliares ao esgotam ento de todos os recursos.
Algum as vezes, m antinha colóquios afetuosos com a esposa, a quem se sentia preso pelos laços de afeição eterna e profunda, m as as seduções do m undo eram j á m uito fortes no seu coração, para serem extirpadas. No íntim o, desej ava voltar à calm a do lar, à vida carinhosa e tranquila; m as, o vinho, as m ulheres e os am bientes ostentosos eram a perm anente obsessão do seu espírito com balido; outras vezes, em bora am ando a esposa ternam ente, não lhe perdoava a circunstância da sua superioridade m oral, irritando-se contra a própria hum ildade que ela testem unhava em face dos seus desatinos, e regressava novam ente aos braços de Aurélia, com o vítim a indecisa entre as forças do bem e do m al.
No ano 57, a saúde de Calpúrnia, abalada em extrem o, obrigara a fam ília a reunir-se em torno do leito da m atrona generosa. Pela prim eira vez, após o casam ento do irm ão, voltou Agripa Severus de suas longas aventuras em Massília e em Avênio, para j unto de sua m ãe enferm a e abatida, atendendo-lhe os sentidos apelos. Reencontrar Flávia Lentúlia e participar com ela das claridades do am biente dom éstico, foi o m esm o que reavivar velho vulcão adorm ecido.
A um golpe de vista, com preendeu a situação conj ugal de Plínio, procurando substituir-lhe o afeto j unto da esposa desvelada e m eiga. Desej ava confessar-lhe todo o seu am or ardente e infeliz, m as guardava no coração sublim e respeito fraternal por aquela m ulher, que confiava nele com o irm ão m uito am ado.
Foi assim que, nas alternativas de m elhora da velha enferm a, Flávia lhe aceitou a com panhia para distrair-se nalguns espetáculos da rum orosa cidade da época.
Tanto bastou para que Saul envenenasse os acontecim entos, supondo nessas expansões inocentes um a ligação m enos digna, que lhe enchia de pavorosos ciúm es o coração violento e irascível.
Na prim eira oportunidade, insinuou a Plínio Severus todas as suas cavilosas suspeitas, arquitetando, com a sua im aginação doentia, situações e acontecim entos que j am ais se verificaram . O esposo de Flávia era desses hom ens caprichosos, que, organizando um circulo de liberdade ilim itada para si próprio, nada concedem à m ulher, nem m esm o no terreno das afeições desinteressadas e puras. Dessa form a, Plínio Severus com eçou a acatar a palavra de Saul, concedendo-lhe aos conceitos insensatos o m ais largo crédito, no seu foro íntim o. Ele, que deixara a com panheira afetuosa ao abandono e que, por largos anos, dera azo às m ais penosas am arguras dom ésticas, sentiu-se, então, ralado de ciúm es acerbos e inconcebíveis, passando a espionar os m enores gestos do irm ão e a desconfiar dos m ais secretos pensam entos da esposa, esperando que a m oléstia irrem ediável de sua m ãe tivesse um a solução na m orte, que se presum ia para breve, a fim de se pronunciar com m ais força na reivindicação dos seus direitos conj ugais.
Entrava o ano de 58, com am arguradas perspectivas para as nossas personagens.
Um fato, porém , com eçava ferir a atenção de todas as personagens desta história real e dolorosa.
A dedicação de Lívia à sua velha am iga doente era um exem plo raro de am or fraterno, de carinho e bondade indefiníveis. Oito m eses a fio, sua figura franzina e silenciosa esteve a postos dia e noite, sem descanso, j unto ao leito de Calpúrnia, provando-lhe com exem plos a excelência dos seus princípios religiosos
Muitas vezes, a nobre m atrona considerou, intim am ente, a superioridade m oral daquela doutrina generosa, que estava no m undo para levantar os caídos, confortar os enferm os e os tristes, dissem inando as m ais form osas esperanças com os desiludidos da sorte, em confronto com os seus velhos deuses que am avam os m ais ricos e os que oferecessem os m elhores sacrifícios nos tem plos, e aquele Jesus hum ilde e pobre, descalço e crucificado, de que lhe falava Lívia em suas palestras íntim as e carinhosas.
Calpúrnia estava plenam ente m odificada, às vésperas da m orte. A convivência contínua da velha am iga renovara-lhe todos os pensam entos e crenças m ais radicadas. Tratava m elhor as escravas que lhe beiravam o leito e pedira a Lívia lhe ensinasse as preces do profeta crucificado em Jerusalém , o que am bas faziam de m ãos postas, quando os aposentos da enferm a ficavam silenciosos e desertos. Nesses instantes, a viúva de Flam ínio Severus sentia que as dores abrandavam , com o se bálsam o suave lhe refrescasse os centros íntim os de força; cessavam as dispneias dolorosas e a respiração quase se norm alizava, com o se profundas energias do plano invisível lhe reanim assem o coração escleroso e fatigado.
Ao espírito de Públio não passavam despercebidos esses sintom as de m odificação m oral da velha m atrona, nem tam pouco o nobre procedim ento da esposa, que nunca m ais repousou, desde o instante em que a vira inerm e e exausta. Os sofrim entos da vida haviam igualm ente m odificado m uito a estrutura da sua organização espiritual e, com o nunca, sentia o senador a necessidade de se reconciliar com a esposa, para enfrentar os invernos penosos da velhice que se aproxim ava.
Não só ele, com o Lívia, j á haviam ultrapassado m eio século de existência, e agora, que tão bem conhecia a vida e os seus dolorosos m ecanism os de aperfeiçoam ento, se sentia apto a perdoar todas as faltas da esposa, no pretérito, considerando que os seus vinte e cinco anos de m artírio m oral, no sacrossanto am biente dom éstico, bastavam para redim ila das faltas que, porventura, houvesse com etido, nas ilusões da m ocidade, em terra estranha, conform e supunha em suas falsas observações, filhas ainda da calúnia que lhe destruíra a ventura e a paz de um a existência inteira.
Nos prim eiros dias do ano 58, os padecim entos de Calpúrnia foram subitam ente agravados, esperando-se a cada m om ento o penoso desenlace.
Os filhos e os m ais íntim os lhe rodeavam o leito, grandem ente com ovidos, em bora reconhecessem a necessidade de repouso para aquele corpo doente e esgotado.
Na antevéspera da m orte, a veneranda senhora pediu que a deixassem sozinha com o senador, por algum as horas, alegando a necessidade de confiar a Públio Lentulus algum as disposições "in extrem is".
Atendida, im ediatam ente, vam os encontrá-los em íntim o colóquio, com o se estivessem j untos pela últim a vez, para decisão de assuntos im portantes e suprem os.
Públio, ainda em pleno vigor de sua com pleição física, tinha os olhos rasos dágua, enquanto a velha m atrona o contem plava, deixando transparecer um clarão de viva lucidez nos olhos calm os e profundos.
- Públio - com eçou ela, gravem ente, com o se aquelas palavras fossem as suas últim as recom endações -, para os espíritos de nossa form ação não pode existir o receio da m orte, e é por esse m otivo que deliberei falar-te nas m inhas horas derradeiras...
- Mas, m inha boa am iga - respondeu o senador, franzindo a testa e esforçando-se por dissim ular a com oção que lhe ia nalm a, lem brando-se de que, nas m esm as circunstâncias, lhe falara FIam ínio pela últim a vez, entre as paredes daquele quarto -, som ente os deuses podem decidir de nossos destinos e só eles conhecem os nossos últim os instantes!...
- Não duvido dessas verdades - acudiu a valorosa patrícia -, m as, tenho a certeza de que as m inhas horas na Terra chegam a term o e não quero levar para o túm ulo o rem orso de um a falta que reconheço haver com etido há m ais de dez anos...
- Um a falta? Nunca... Vossa vida, Calpúrnia, foi sem pre um dos m ais raros exem plos de virtude nesta época de transição e degenerescência dos nossos m ais belos costum es...
- Agradeço-te, m eu grande am igo, m as tua gentileza não m e exim e da penitência perante o teu espírito, afirm ando que há m ais de dez anos errei num j ulgam ento, pedindo-te hoj e recebas a m inha retificação, talvez tardia, m as ainda a tem po de santificarm os, com o m ais j usto respeito, um a vida de sacrifícios e de abnegações!...
Públio Lentulus adivinhou que se tratava de sua m ulher e, com voz em bargada pela com oção e pelas lágrim as, deixou que a velha am iga continuasse, de olhos enxutos, m anifestando o m ais subido valor m oral em face da m orte que se aproxim ava.
- Refiro-m e a Lívia - continuou Calpúrnia, em tom com ovido -, a respeito de quem tive a infelicidade de te transm itir um a suposição errônea e inj usta, cortando-lhe a últim a possibilidade de ventura na Terra; m as, a m orte renova as nossas concepções da vida e os que estão prestes a abandonar este m undo possuem um a visão m ais clara de todos os problem as da existência.
Hoj e, m eu am igo, digo-te, de alm a serena, que tua esposa é im aculada e inocente...
O senador sentia que o pranto lhe brotava espontaneam ente dos olhos, m as estava intim am ente confortado por saber que a venerável am iga confirm ava, agora, as convicções que o tem po lhe aum entara quanto à nobilíssim a com panheira de sua existência.
- Não to digo sim plesm ente por um a questão de egoísm o pessoal, em penhor de agradecim ento pelas suprem as dedicações de Lívia para com igo no decurso desta dolorosa enferm idade - continuou ela, valorosam ente. - Um espírito do nosso estofo deve estar com a verdade acim a de tudo, e esta m inha confissão não se verifica tão som ente pelas observações da m inha fraqueza toda hum ana.
A realidade, todavia, m eu am igo, é que, desde aquela noite em que m e pediste opinasse sobre tua esposa e m inha desvelada am iga, sinto o espinho de um a dúvida cruel no m eu coração dilacerado. Lívia foi sem pre a m inha m elhor com panheira, e contribuir para a sua desventura, inj ustificadam ente, era aos m eus olhos a suprem a falta de toda a vida...
Por onze anos, orei constantem ente e ofereci num erosos sacrifícios nos tem plos, para que os deuses m e inspirassem a verdade sobre o assunto e, por todo esse tem po, tenho esperado pacientem ente a revelação do céu... Só hoj e, porém , m e foi dado obtê-la, j á nos pórticos do sepulcro!...
É possível que m inha pobre alm a, j á sem iliberta, estej a participando dos incom preendidos m istérios da vida do além -túm ulo e talvez sej a por isso que, hoj e pela m anhã, vi a figura de Flam ínio neste quarto!... Era m uito cedo e eu estava só, com as m inhas m editações e as m inhas preces!...
Nesse ínterim , a palavra da enferm a tornara-se entrecortada de profundas em oções que a dom inavam , enquanto Públio Lentulus chorava, em doloroso silêncio.
- Sim ... - prosseguiu Calpúrnia, depois de longa pausa -, no m eio de um a luz difusa e azulada, vi Flam ínio a estender-m e os braços carinhosos e com passivos... No olhar, observei-lhe a m esm a expressão habitual de ternura e, na voz, o tim bre fam iliar, inesquecível... Avisou-m e que dentro de dois dias penetrarei os m istérios indevassáveis da m orte, m as essa revelação do m eu fim próxim o não m e podia surpreender... porque, pari m im ... que há tantos anos vivo no m eu exílio de saudades e som bras... acrescido das continuadas angústias da enferm idade longa e dolorosa... a certeza da m orte constitui suprem o consolo... Confortada pelas doces prom essas da visão, as quais m e auguravam esse brando alívio para breves horas... perguntei ao espírito de Flam ínio sobre a dúvida cruel que m e dilacerava há tantos anos... Bastou que a arguísse m entalm ente, para que a radiosa entidade m e dissesse em alta voz... m eneando a cabeça num gesto delicado... com o a exprim ir infinita e dolorosa tristeza: "Calpúrnia, em m á hora duvidaste daquela a quem deverias am ar... e proteger com o a filha querida e carinhosa... porque Lívia... e um a criatura im aculada e inocente..."
Nesse instante... - continuou a enferm a, com algum a dificuldade -, tal foi a im pressão dolorosa de m inhalm a... com a surpresa da resposta... que não m ais lobriguei a visão carinhosa e consoladora... com o se fosse repentinam ente cham ada às tristes realidades da vida prática.
A velha m atrona tinha os olhos m arej ados de lágrim as, enquanto o senador se entregava silenciosam ente ao pranto de suas com oções penosas.
Longos m inutos estiveram am bos assim , na atitude de quem dava curso ao rem orso e ao sofrim ento...
Afinal, foi ainda a valorosa patrícia quem rom peu o pesado silêncio, tom ando as m ãos do am igo entre as suas m ãos descarnadas e brancas, exclam ando:
- Públio, fala-te o coração de um a velha am iga, com as verdades serenas e tristes da m orte... Acreditas piam ente nas m inhas dolorosas revelações?...
O senador fez um esforço para enxugar as lágrim as que lhe caiam copiosam ente dos olhos, e, m ovim entando o m áxim o de energias, replicou firm em ente:
- Sim , acredito.
- E que farem os agora... para reparar nossas faltas... ante o coração generoso e j usto de tua m ulher?...
Ele deixou transparecer um clarão de ternura nos olhos, e, passando as m ãos inquietas pela fronte, com o se houvera encontrado solução quase feliz, dirigiu-se à doente, com um a irradição de alegria e de tranquilidade no sem blante, dizendo confortado:
- Sabeis da grande festa do Estado, que se realizará de hoj e a poucos dias, na qual os senadores, com m ais de vinte anos de serviço ao Im pério, serão coroados de m irto e rosas, com o os triunfadores?
- Sim - respondeu a m atrona -, tanto que j á pedi a m eus filhos que... não obstante a m inha m orte próxim a... te acom panhem nessa j usta alegria... porque serás um dos agraciados pelas nossas autoridades suprem as...
- Ó, m inha grande am iga, ninguém pode esperar vossa m orte, m esm o porque, não poderem os prescindir da preciosa contribuição da vossa vida; m as, j á que cuidam os de reparar o m eu erro grave no passado doloroso, esperarei m ais um a sem ana para levar ao espírito de Lívia a expressão do m eu reconhecim ento, da m inha gratidão e do m eu profundo am or. Irei a essa festa, a realizar-se sob os auspícios de Sêneca, que tudo tem feito por dissim ular a penosa im pressão causada pela conduta cruel do Im perador, seu antigo discípulo. Depois de receber a coroa da suprem a vitória de m inha vida pública, trarei todas as condecorações aos pés de Lívia, com o preito j usto à sua angustiada existência de penosos sacrifícios dom ésticos... Aj oelhar-m e-ei ante a sua figura santificada e, retirando da fronte a auréola do Im pério, deporei as flores sim bólicas a seus pés, que beij arei hum ildem ente com o m eu arrependim ento e as m inhas lágrim as, traduzindo-lhe gratidão e am or infindos!...
- Generosa idéia, m eu filho - exclam ou a enferm a, sensibilizada -, e peço-te que a executes... no m om ento oportuno. E, no instante... em que testem unhares a Lívia o teu am or suprem o... dize-lhe que m e perdoe... porque eu chorarei de alegria... vendo am bos felizes... lá das som bras tranquilas do m eu sepulcro.
Am bos choravam , com ovidos, silenciosam ente.
Em dado instante, a velha doente apertou as m ãos do am igo, com o a dizer-lhe um suprem o adeus. Calpúrnia fixou nele os grandes olhos claros - a desprenderem irradiações m isteriosas, e, com lágrim as de em oção inexprim ível, exclam ou com ovidam ente:
- Públio... peço... não te esqueças... do prom etido... Aj oelha-te aos pés de Lívia... com o aos de um a deusa... de renúncia e de bondade... Não te im porte... a m inha partida deste m undo... Vai à festa do Senado... reparem os... nossa falta grave... e agora, m eu am igo... um últim o pedido... Vela por m eus filhos... com o se fossem teus... Ensina-lhes ainda a honradez... a fortaleza... a sinceridade e o bem ... Um dia... todos nos... nos reunirem os... na eternidade...
Públio Lentulus apertou-lhe as m ãos, sensibilizado, aj eitando-lhe, nas sedosas alm ofadas, a cabeça encanecida, enquanto lágrim as de com oção lhe em bargavam a voz.
Havia m uito que a enferm a era atacada, subitam ente, de periódicas e prolongadas dispneias.
O senador abriu as portas do largo aposento aonde Lívia acorreu, pressurosa, com o enferm eira de todos os instantes, enquanto Flávia e algum as servas acudiam com unguentos e outras panacéias da m edicina do tem po.
Calpúrnia, porém , parecia atacada pelas últim as aflições que a levariam ao túm ulo. Por vinte e quatro horas consecutivas, o peito arfou sibilante, com o se a caixa toráxica estivesse prestes a rebentar sob o im pulso de um a força indom ável e m isteriosa.
Ao fim de um dia e um a noite de azáfam a e angústias, a doente parecia haver experim entado ligeira m elhora. A respiração fazia-se m enos penosa e os olhos revelavam grande serenidade, em bora todo o corpo estivesse salteado de m anchas azuladas e violáceas, prenunciando a m orte. Apenas a afonia continuava, m as, em dado instante, fez um gesto com a m ão, cham ando Lívia à cabeceira com a terna fam iliaridade dos antigos tem pos. A esposa do senador atendeu ao apelo silencioso, aj oelhando-se, com os olhos cheios de lágrim as e com preendendo, pela intuição espiritual, que era chegado o instante doloroso da despedida. Via-se que Calpúrnia desej ava falar, inutilm ente. Foi então que cingiu Lívia, am orosam ente, contra o peito, osculando-lhe os cabelos e a fronte num esforço suprem o e, colando os lábios ao seu ouvido, balbuciou com infinita ternura: - "Lívia, perdoa-m e!" Som ente a interpelada escutara o brando cicio da agonizante. Foram essas as derradeiras palavras de Calpúrnia. Dir-se-ia que sua alm a valorosa necessitava, tão som ente, daquele últim o apelo para conseguir desvencilhar-se da Terra, elevando-se ao Paraíso.
Abraçada à incansável am iga, a agonizante depôs novam ente a cabeça nas alm ofadas, para sem pre. Suor abundante transbordava de todo o seu corpo, que se aquietou de leve para a suprem a rigidez cadavérica e, dai a m inutos, seus olhos se fecharam , com o se se preparassem para um grande sono. A respiração foi-se extinguindo brandam ente, enquanto um a lágrim a pesada e branca lhe rolava nas faces enrugadas, com o um raio divino da luz que lhe clarificava a noite do túm ulo.
As portas do palácio abriram -se, então, para os tributos afetuosos da sociedade rom ana. As exéquias da valorosa m atrona com pareceu o que a cidade possuía de m ais nobre e m ais fino, em sua aristocracia espiritual, dado o elevado conceito em que eram tidas as peregrinas virtudes da m orta.
Term inadas as cerim ônias da incineração e guardadas as cinzas ilustres da nobre patrícia nas som bras do j azigo fam iliar, Flávia Lentúlia assum iu a direção da casa, enquanto seus pais voltavam à residência do Aventino, para o necessário descanso.
Faltavam som ente quatro dias para a realização das grandes festas, em que m ais de um a centena de senadores receberia a auréola do suprem o triunfo na vida pública. Públio Lentulus, que seria dos hom enageados na festa m em orável, não obstante o luto da fam ília, aguardava o grande m om ento, com ansiedade. É que, recebida a expressão suprem a da vitória de um hom em de Estado, levá-la-ia aos pés da esposa, com o sím bolo perene do seu afeto e do seu reconhecim ento da vida inteira. No seu íntim o, arquitetava a m aneira m ais doce de se dirigir novam ente à com panheira, no tim bre caricioso e suave que a sua voz havia perdido há vinte e cinco anos, e, verificando a continuidade do seu am or, cada vez m ais profundo, pela esposa, esperava ansiosam ente o instante da sua reintegração na felicidade dom éstica.
De noite, naquelas horas longas que se passavam , enquanto o velho coração se preparava para as bênçãos da ventura conj ugal, em breves dias, ia ele até às proxim idades dos apartam entos da esposa, situados bem distantes do seus, naqueles prolongados anos de am arguras infindas.
Na antevéspera das grandes festividades a que nos referim os, seriam vinte e três horas, quando a sua figura se postara em frente aos aposentos da com panheira, antegozando o ditoso m om ento da penitência, que significava para ele um a alegria suprem a.
Enquanto o pensam ento se afundava nos abism os do passado longínquo, sua atenção espiritual foi repentinam ente despertada pela m elodia suave de um a voz de m ulher, que cantava baixinho no silêncio da noite. O senador aproxim ou-se, vagarosam ente, da porta, colando o ouvido à escuta... Sim ! Lívia cantava em voz apagada e m ansa, qual cotovia abandonada, fazendo soar levem ente as cordas harm oniosas de um a lira de suas lem branças m ais queridas. Públio chorava com ovido, ouvindo-lhe as notas argentinas que se abafavam no am biente restrito do quarto, com o se Lívia estivesse cantando para si própria, adorm entando o coração hum ilde e desprezado, para encher de consolo as horas tristes e desertas da noite. Era a m esm a com posição das m usas do esposo, que lhe escapava dos lábios naquele instante em que a voz tinha tonalidades estranhas e m aravilhosas, de indefinível m elancolia, com o se todo o seu canto fosse o lam ento doloroso de rouxinol apunhalado:
Alm a gêm ea da m inhalm a, Flor de luz da m inha vida, Sublim e estrela caída Das belezas da am plidão!... Quando eu errava no m undo, Triste e só, no m eu cam inho, Chegaste, devagarinho, E encheste-m e o coração.
Vinhas na bênção dos deuses, Na divina claridade,
Tecer-m e a felicidade Em sorrisos de esplendor!... És m eu tesouro infinito, Juro-te eterna aliança, Porque sou tua esperança, Com o és todo o m eu am or!
Alm a gêm ea da m inhalm a, Se eu te perder, algum dia, Serei a escura agonia Da saudade nos seus véus... Se um dia m e abandonares, Luz terna dos m eus am ores, Hei-de esperar-te, entre as flores Da claridade dos céus...
Daí a m inutos, a voz harm oniosa calava, com o se fôra obrigada a um divino estacato. O senador retirou-se, então, com os olhos m arej ados de lágrim as, refletindo consigo m esm o: - "Sim , Lívia, de hoj e a dois dias hei de provar-te que foste sem pre a luz da m inha vida inteira... Beij arei teus pés com a m inha hum ildade agradecida e saberei entornar no teu coração o perfum e do m eu arrependim ento..."
Penetrando no aposento de Lívia, vam os encontrá-la genuflexa, depois de haver deposto, sobre um m óvel predileto, a lira das suas recordações. Aj oelha-se, com o sem pre, diante da cruz de Sim eão que, nesse dia, m ostrava a seus olhos espirituais um a claridade m ais intensa.
No curso de suas preces, ouviu a palavra do am igo invisível, cuj a tonalidade profunda parecia gravar-se, para sem pre, no im o da sua consciência: "Filha -exclam ava a voz am iga, do plano espiritual -, regozij a-te no Senhor, porque são chegadas as vésperas da tua ventura eterna e im orredoura! Eleva o pensam ento hum ilde a Jesus, porque não está longe o instante ditoso da tua gloriosa entrada no seu Reino!..."
Lívia deixou transparecer no olhar um a atitude de alegria e surpresa, m as, cheia de confiança e fé na providência divina, guardou, nos refolhos m ais íntim os do coração, o conforto daquelas palavras sacrossantas.