Há Dois Mil Anos

Chico Xavier · Capítulo 12 de 21

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Há Dois Mil Anos

I A morte de Flamínio

SEG UNDA PARTE

 

O ano de 46 corria calm o.

Em Cafarnaum , vam os encontrar, de novo, as nossas personagens m ergulhadas num a serenidade relativa.

As autoridades adm inistrativas, em Rom a, não eram as m esm as. Entretanto, apoiado no prestígio do seu nom e e nas consideráveis influências políticas de Flam ínio Severus, perante o Senado, Públio Lentulus continuava com issionado na Palestina, onde gozava de todos os direitos e regalos políticos, na adm inistração provincial.

Debalde continuara ali o senador, a despeito de todo o seu im enso desej o de voltar à sede do governo im perial, esperando o ensej o de reaver o filho, que o tem po continuava a reter no dom ínio das som bras m isteriosas. Nos últim os anos, perdera por com pleto a esperança de atingir o seu desiderato, m esm o porque, considerava, a esse tem po Marcus Lentulus deveria estar no seu prim eiro período de j uventude, tornando-se irreconhecível aos olhos paternos.

Outras vezes, ponderava o orgulhoso patrício que o filho não m ais vivia; que, certam ente, as forças perversas e crim inosas que o haviam arrebatado do lar teriam exterm inado, igualm ente, o gracioso m enino sob a foice da m orte, tem endo um a punição inexorável. Lá dentro, porém , no im o dalm a, latej ava a intuição de que Marcus ainda vivia, razão por que, entre as indecisões e alternativas, de todos os dias, resolvera, antes de tudo, ouvir a voz do dever paternal. lançando m ão de todos os recursos para reencontrá-lo, perm anecendo ali indefinidam ente, contra os seus proj etos m ais decididos e m ais sinceros.

A esse tem po, vam os encontrá-lo com os traços fisionôm icos ligeiram ente alterados, em bora treze anos houvessem dobado sobre os dolorosos acontecim entos de 33. Seus cabelos ainda guardavam integralm ente a cor natural e apenas algum as rugas, quase im perceptíveis, tinham vindo acentuar a sua facies de profunda austeridade. Serena tristeza lhe pairava no sem blante, invariavelm ente, levando-o a isolar-se quase da vida com um , para m ergulhar tão som ente no oceano dos seus papéis e dos seus estudos, com a única preocupação de m aior vulto, que era a educação da filha, buscando dotá-la das m ais elevadas qualidades intelectivas e sentim entais. Sua vida no lar continuava a m esm a, em bora o coração m uitas vezes lhe pedisse reatar o laço conj ugal, atendendo àqueles treze anos de separação íntim a, com a m ais absoluta renúncia de Lívia a todas e quaisquer distrações que não fossem as da vida dom éstica e da sua crença. fervorosa e sincera. A sós com as suas m editações, Públio Lentulus deixava divagar o pensam ento pelas recordações m ais doces e m ais distantes e, nessas horas de introspecção, ouvia a voz da consciência que subia do coração ao cérebro, com o um apelo à razão inflexível, tentando destruir-lhe os preconceitos, m as o orgulho vencia sem pre, com a sua rigidez inquebrantável. Algo lhe dizia no íntim o que sua m ulher estava isenta de toda m ácula, m as o espírito de vaidade preconceituosa lhe fazia ver, im ediatam ente, a cena inesquecível da esposa ao deixar o gabinete privado de Pilatos, em vestes de disfarce, ouvindo ainda, sinistram ente, as palavras escarninhas de Fúlvia Prócula, nas suas calúnias estranhas e om inosas...

Lívia, porém , se insulara, envolta num véu de triste resignação, com o quem espera as providencias sobrenaturais, que nunca aparecem no inquieto decurso de um a existência hum ana. O esposo a conservava j unto da filha, atendendo sim plesm ente à condição de m ãe, não lhe perm itindo, porém , de m odo algum , interferir nos seus planos e trabalhos educativos.

Para Lívia, aquele golpe rude fôra o m aior sofrim ento da sua vida. A própria calúnia não lhe doera tanto; m as, o reconhecer-se com o dispensável j unto da filha do seu coração, constituía a seus olhos a m ais dolorosa hum ilhação da sua existência. Era por esse m otivo que m ais se abroquelava na fé, procurando enriquecer a alm a sofredora, com as luzes da crença fervorosa e sincera.

Longe de conservar as energias orgânicas, tal com o acontecera ao m arido, seu rosto testem unhava as inj úrias do tem po, com a sua pesada bagagem de sofrim entos e am arguras. Na sua fronte, que as dores haviam santificado, pendiam j á alguns fios prateados, enquanto os olhos profundos se tocavam de brilho m isterioso, com o se houvessem intensificado o próprio fulgor, de tanto se fixarem no infinito dos céus. Seus traços fisionôm icos, em bora atestassem velhice prem atura, revelavam ainda a antiga beleza, agora transform ada em indefinível e nobre expressão de m artírio e de virtude. Um único pedido fizera ao esposo, quando se viu isolada dos seus afetos m ais queridos, no am biente dom éstico, longe do próprio contato espiritual com a filha, circunstância que ainda m ais lhe afligia o coração am argurado: - foi apenas que lhe perm itisse continuar nas suas práticas cristãs, em com panhia de Ana, que tanto se lhe afeiçoara, com aquele espírito de dedicação que lhe conhecem os, a ponto de desprezar as oportunidades que se lhe ofereceram para constituir fam ília. O senador deu-lhe am pla perm issão em tal sentido, chegando a facultar-lhe recursos financeiros para atender aos num erosos operários da doutrina que a procuravam , discretam ente, am parando-se nas suas possibilidades m ateriais para iniciativas renovadoras.

Falta-nos, agora, apresentar Flávia Lentúlia aos que a viram na infância, doente e tím ida.

No esplendor dos seus vinte e dois anos, ostentava o fruto da educação que o pai lhe dera, com a forte expressão pessoal do seu caráter e da sua form ação espiritual.

A filha do senador era Lívia, na encantadora graça dos seus dotes físicos, e era Públio Lentulus, pelo coração. Educada por professores em inentes, que se sucederam no curso dos anos, sob a escolha dos Severus, que j am ais se descuidaram dos seus am igos distantes, sabia o idiom a pátrio a fundo, m anej ando o grego com a m esm a facilidade e m antendo-se em contato com os autores m ais célebres, em virtude do seu constante convívio com a intelectualidade paterna.

A educação intelectual de um a j ovem rom ana, nessa época, era sem dúvida secundária e deficiente. Os espetáculos em polgantes dos anfiteatros, bem com o a ausência de um a ocupação séria, para as m ulheres do tem po, em face da incessante m ultiplicação e barateam ento dos escravos, prej udicaram sensivelm ente a cultura da m ulher rom ana, no fastígio do Im pério, quando o espírito fem inino rastej ava no escândalo, na depravação m oral e na vida dissoluta.

O senador, porém , fazia questão de ser um hom em antigo. Não perdera de vista as virtudes heróicas e sublim adas das m atronas inesquecíveis, das suas tradições fam iliares, e foi por isso que, fugindo à época, buscou aparelhar a filha para a vida social, com a cultura m ais aprim orada possível, em bora lhe enchesse igualm ente o coração de orgulho e vaidade, com todos os preconceitos do tem po.

A j ovem am ava a m ãe com extrem a ternura, m as à vista das ordens do pai, que a conservava invariavelm ente j unto dele, nos seus gabinetes de estudo ou nas pequenas viagens costum eiras. não fazia m istério da sua predileção pelo espírito paterno, de quem presum ia haver herdado as qualidades m ais fulgurantes e m ais nobres. sem conseguir entender a doce hum ildade e a resignação heróica da m ãe, tão digna e tão desventurada.

O senador buscara desenvolver-lhe as tendências literárias, possibilitando-lhe as m elhores aquisições de ordem intelectual, adm irando-lhe a facilidade de expressão, principalm ente na arte poética, tão exaltada naquela época.

O tem po transcorria com relativa calm a para todos os corações. De vez em quando, falava-se na possibilidade de regressar a Rom a, plano esse cuj a realização era sem pre procrastinada, em vista da esperança de reencontrar o desaparecido.

Num dia suave do m ês de m arço, quando as árvores frondosas se cobriam de flores, vam os encontrar na casa do senador um m ensageiro que chegava de Rom a a toda pressa.

Tratava-se de um em issário de Flam ínio Severus, que em longa carta com unicava ao am igo o seu precário estado de saúde, acrescentando que desej ava abraçá-lo antes de m orrer. Com ovedores apelos constavam desse docum ento privado, suscitando ao espírito de Públio as m ais acurada ponderações. Todavia, a leitura de um a carta assinada por Calpúrnia, que viera em separado, era decisiva. Nesse desabafo, a veneranda senhora o inform ou do estado de saúde do m arido, que, a seu ver, era precaríssim o, acentuando os penosos dissabores e angustiosas preocupações que am bos experim entavam acerca dos filhos, que, em plena m ocidade, se entregavam às m aiores dissipações, seguindo a corrente de desvarios sociais da época. Term inava a carta com ovedora, pedindo ao am igo que voltasse, que os assistisse naquele transe, de m odo que a sua am izade e paternal interesse representassem um a força m oderadora j unto de Plínio e de Agripa, que, hom ens feitos, se deixavam levar no turbilhão dos prazeres m ais nefastos.

Públio Lentulus não hesitou um instante.

Mostrou à filha os docum entos recebidos e, depois de exam inarem , j untos, os porm enores do seu conteúdo, com unicou a Lívia o seu propósito de voltar a Rom a na prim eira oportunidade.

A nobre senhora lem brou-se, então, de quão diversa lhe seria a vida na grande cidade dos césares, com as idéias que agora possuía, e pediu a Jesus não lhe faltasse a coragem necessária para vencer em todos os em bates que houvesse de sustentar na sociedade rom ana, para conservar íntegra a sua fé.

A volta a Rom a não reclam ou, desse m odo, grande dem ora. O m esm o em issário levou as instruções do senador para os seus am igos da Capital do Im pério e, daí a pouco, um a galera os esperava em Cesareia, reconduzindo a fam ília Lentulus, de regresso, depois da perm anência de quinze anos na Palestina.

Desnecessário dizer dos pequeninos incidentes do retorno, tal a vulgaridade das viagens antigas, com a sua m onotonia, aliada às vagarosas perspectivas e ao doloroso espetáculo do m artírio dos escravos.

Cum pre-nos, entretanto, acrescentar que, nas vésperas da chegada, o senador cham ou a filha e a m ulher, dirigindo-lhes a palavra em tom discreto:

- Antes de aportarm os, convém lhes explique a m inha resolução a respeito do nosso pobre Marcus.

Há m uitos anos, guardo o m aior silêncio em torno do assunto, para com os m eus afeiçoados de Rom a e não desej o ser considerado m au pai, em nosso am biente social. Som ente um a circunstância, com o a que nos im põe esta viagem , m e levaria a regressar, porquanto não se j ustifica que um pai abandone o filho em tais paragens, ainda m esm o torturado pela incerteza da continuidade de sua existência.

Assim , resolvi com unicar, a quantos m o perguntem , que o filho está m orto há m ais de dez anos, com o, de fato, deverá estar para nós outros, visto a im possibilidade de o reconhecerm os, na hipótese do seu reaparecim ento.

Se soubessem de nossas m ágoas, não faltariam em busteiros que desej assem ludibriar nossa boa fé, explorando o sentim entalism o fam iliar.

Am bas assentiram na decisão, que lhes parecia a m ais acertada, e, dai a m inutos, o porto de Óstia estava à vista, agora lindam ente aparelhado pelo zelo do Im perador Cláudio, que ali m andara executar obras interessantes e m onum entais.

Nessa hora, não se observava o contentam ento, natural em tais circunstâncias.

A partida, quinze anos antes, havia sido um cântico de esperança nas expectativas suaves do futuro, m as o regresso estava cheio do silêncio am argo das m ais penosas realidades.

Além do desencanto da vida conj ugal, Públio e Lívia não viam ali, entre os rostos am igos que os esperavam , as silhuetas de Flam ínio e Calpúrnia, que consideravam irm ãos m uito am ados.

Contudo, dois rapazes sim páticos e fortes, de gestos desem baraçados, nas suas togas irrepreensíveis, dirigiram -se a eles im ediatam ente, em escaleres confortáveis, m al a em barcação havia ancorado, rapazes esses que o senador e esposa reconheceram de pronto, num afetuoso e com ovido abraço.

Tratava-se de Plínio e seu irm ão que, incum bidos pelos pais, vinham receber os queridos ausentes.

Apresentados a Flávia, am bos fizeram um m ovim ento instintivo de adm iração, recordando o dia da partida, quando a haviam acom odado no beliche, entre os seus gem idos e caretas de criança doente.

A j ovem im pressionara-se, tam bém , com a figura de am bos, de quem possuía apagadas rem iniscências, entre as recordações rem otas da sua infância. Principalm ente Plínio Severus, o m ais m oço, a havia im pressionado profundam ente, com os seus vinte seis anos com pletos, do m esm o porte elegante e distinto com que ela havia idealizado o herói da sua im aginação fem inina.

Notava-se, igualm ente, num relance, que o rapaz não ficara indiferente àquelas m esm as em oções, porque, trocadas as prim eiras im pressões da viagem e exam inada a situação da saúde de FIam ínio Severus, considerada pelos filhos com o excessivam ente grave, Plínio ofereceu o braço à j ovem , enquanto Agripa lhe observava num leve tom de ciúm e:

- Mas que é isso, Plínio? Flávia pode suscetibilizar-se com a tua intim idade excessiva!...

- Ora, Agripa - respondeu ele, com um franco sorriso -, estás m uito prej udicado pelos form alism os da vida pública. Flávia não pode estranhar os nossos costum es, na sua condição de patrícia pelo nascim ento e, ao dem ais, não nasci para as disciplinas do Estado, tão do teu gosto!...

A essas palavras, ditas com visível bom hum or, acrescentou Públio Lentulus, confortado pelo am biente da sua predileção:

- Vam os, m eus filhos!

E dando o braço à esposa, para desem penhar a com édia da sua felicidade conj ugal na vida com um da grande cidade, seguido de Plínio, que am parava a j ovem no seu braço forte e conquistador em assuntos do coração, desem barcaram j unto de Agripa, a fim de descansarem um pouco, antes de seguirem diretam ente para Rom a, e, para o que, todas as providências haviam sido tom adas pelos irm ãos Severus, com o m áxim o de carinho e espontânea dedicação.

Lívia não se esqueceu de Ana, providenciando para o seu conforto j unto aos dem ais servos da casa, em todo o percurso de cam inho que os separava da residência.

Em direção à cidade, pensou então o senador que, finalm ente, ia rever o am igo m uito am ado. Há longos anos acariciava a idéia de confessar-lhe, de viva voz, todos os seus desgostos na vida conj ugal, expondo lhe com franqueza e sinceridade as suas preocupações, acerca dos fatos que o separavam da esposa, na intim idade do lar. Tinha sede de suas palavras afetuosas e de explicações consoladoras, porque sentia que am ava a m ulher acim a de tudo, apesar de todos os dissabores experim entados. Não crendo sinceram ente na sua queda, apenas seu orgulho de hom em o afastava de um a reconciliação que cada dia se tornava m ais im periosa e necessária.

Em breve defrontavam a antiga residência, lindam ente ornam entada para recebê-los. Num erosos servos se m ovim entavam , enquanto os recém -vindos faziam o reconhecim ento dos lugares m ais íntim os e m ais fam iliares.

Havia quinze anos que o palácio do Aventino aguardava os donos, sob o carinho de escravos dedicados e dignos.

Logo se servia um a refeição frugal no triclínio enquanto os irm ãos Severus, que participavam desse ligeiro repasto, esperavam os seus am igos, a fim de seguirem todos j untos para a residência de Flam ínio, onde o enferm o os aguardava ansiosam ente.

Plínio, em dado instante, com o quem traz à baila um a notícia interessante e agradável, exclam ou, dirigindo-se ao senador:

- Há bem tem po, ficam os conhecendo vosso tio Sálvio Lentulus e sua fam ília, que residem perto do Fórum .

- Meu tio? - perguntou Públio, im pressionado, com o se as lem branças de Fúlvia lhe trouxessem ao íntim o um a aluvião de fantasm as. Mas, ao m esm o tem po, com o se estivesse fazendo o possível por adorm entar as próprias m ágoas, acentuou com suposta serenidade:

- Ah! é verdade! Faz m ais de doze anos que ele regressou da Palestina...

Foi neste com enos que Agripa interveio com o a vingar-se da atitude do irm ão, quando ainda não havia desem barcado, exclam ando intencionalm ente:

- E por sinal que Plínio parece inclinado a desposar-lhe a filha, de nom e Aurélia, com quem m antém as m elhores relações afetivas, de m uito tem po.

Ao ouvir essas palavras, Flávia Lentulus fitou o interpelado, com o se entre o seu coração e o filho m ais m oço de Flam ínio j á houvesse os m ais fortes laços de com prom issos sentim entais, dentro das leis m isteriosas das afinidades psíquicas.

Enquanto se passava esse duelo de em oções, Plínio fitou o irm ão quase com ódio, dando a entender a im pulsividade do seu espírito e respondendo com ênfase, com o a defender-se de um a acusação inj ustificável, perante a m ulher das suas preferências:

- Ainda desta vez, Agripa, estás enganado. Minhas relações com Aurélia não têm outro fundam ento, além do da pura am izade reciproca, m esm o porque considero m uito rem ota qualquer possibilidade de casam ento, na fase atual da m inha vida.

Agripa esboçou um sorriso brej eiro, enquanto o senador, com preendendo a situação, acalm ava os ânim os, exclam ando com bondade:

- Está bem , filhos; m as falarem os depois sobre m eu tio. Sinto-m e ansioso por abraçar o querido enferm o e não tem os tem po a perder.

Em breves m inutos um grupo de liteiras encam inhava-se para a nobre residência dos Severus, onde Flam ínio aguardava o am igo, ansiosam ente.

Sua fisionom ia não acusava m ais aquela m obilidade antiga e a em polgante expressão de energia que a caracterizava, m as, em com pensação, grande placidez se lhe irradiava dos olhos, sensibilizando a quantos o visitavam nos seus derradeiros dias de lutas terrestres. A expressão do sem blante era a do lutador derribado e abatido, exausto de com bater as forças m isteriosas da m orte. Os m édicos não tinham a m enor esperança de cura, considerando o profundo desequilíbrio físico, aliado a m ui forte desorganização do sistem a cardíaco. As m enores em oções determ inavam alterações no seu estado, ensej ando as m ais am plas apreensões da fam ília.

De vez em quando, os olhos serenos e tranquilos se fixavam detidam ente na porta de entrada, com o se esperassem alguém com o m áxim o interesse, até que rum ores m ais fortes, vindos do vestíbulo, anunciaram ao seu coração que ia cessar um a ausência de quinze anos consecutivos, entre ele e os am igos sem pre lem brados.

Calpúrnia, igualm ente m uito abatida, abraçou Lívia e Públio, derram ada em lágrim as e apertando Flávia nos braços, com o se recebesse um a filha.

Ali m esm o, no vestíbulo, trocaram im pressões e falaram das suas saudades intensas e das preocupações num erosas, até que Públio deliberou deixar as duas am igas em franca expansão afetiva e se encam inhou com Agripa a um dos com partim entos próxim os do tablino, onde abraçou o grande am igo, com lágrim as de alegria.

Flam ínio Severus estava m agríssim o e suas palavras, por vezes, eram cortadas pela dispnéia im pressionante, dando a perceber que m uito pouco tem po lhe restava de vida.

Sabendo da satisfação do pai na com panhia íntim a do leal am igo, Agripa retirou-se do vasto aposento, onde as som bras do crepúsculo com eçavam a penetrar caprichosam ente, com o se o fizessem no silêncio sagrado das naves religiosas.

Públio Lentulus se surpreendeu, encontrando o velho com panheiro em tal estado. Não supunha revê-lo tão depauperado. Agora, certificava-se de que era a ele, sim , que com petia auxiliá-lo com os seus conselhos, levantando-lhe as forças orgânicas e espirituais, com as suas exortações am igas e carinhosas.

Um a vez a sós, contem plou o am igo e m entor, com o se estivesse a m irar um a criança enferm a.

Flam ínio, por sua vez, olhou-o face a face e, olhos rasos dágua, tom ou-lhe as m ãos nas suas, dando-lhe a entender que recebia ali, naquele m om ento, um filho m uito am ado.

Num gesto brando e delicado, procurou sentar-se m ais com odam ente e, am parando-se nos om bros de Lentulus, m urm urou com ovidam ente ao seu ouvido:

- Públio, aqui j á te não recebe o com panheiro enérgico e resoluto doutros tem pos. Sinto que apenas te esperava para poder entregar a alm a aos deuses, tranquilam ente, supondo j á cum prida a m issão que m e com petia na Terra, com a m inha consciência retilínea e os m eus honestos pensam entos.

Há m ais de um ano pressinto o instante irrem ediável e fatal, que, agora, satisfeito o m eu ardente desej o, deve estar avizinhando-se com a velocidade do relâm pago. Não desej ava, pois, partir sem te apertar em m eus braços, fazendo-te as últim as confidências neste leito de m orte...

- Mas, Flam ínio - respondeu-lhe o am igo, com serenidade dolorosa -, tudo m e autoriza a crer nas tuas m elhoras im ediatas, e todos nós aguardam os a bênção dos deuses, de m aneira que possam os contar com a tua com panhia indispensável, por m uito tem po ainda, neste m undo.

- Não, m eu bom am igo, não te iludas com essas suposições e pensam entos. Nossa alm a j am ais se engana quando se avizinha das som bras do sepulcro... Não m e dem orarei em penetrar o m istério da grande noite, m as acredito, firm em ente, que os deuses m e saudarão com as luzes de suas auroras!...

E, deixando o olhar, profundo e sereno, divagar pelo aposento, com o se as paredes m arm orizadas se dilatassem ao infinito, Flam ínio Severus concentrou-se um m inuto em m editações íntim as, continuando a falar, com o se desej asse im prim ir à conversação um novo rum o:

- Lem bras-te daquela noite em que m e confiaste os porm enores de um sonho m isterioso, no auge da tua em otividade dolorosa?

- Oh! se m e lem bro!... - revidou Públio Lentulus recordando, de m odo inexplicável, não só a palestra rem ota que resolvera a viagem à Palestina, m as tam bém outro sonho, no qual testem unhara os m esm os fenôm enos intraduzíveis, na noite do seu encontro com Jesus de Nazaré. Ao lem brar-se daquela personalidade m aravilhosa, estrem eceu-lhe o coração, m as tudo fez por evitar ao am igo um a im pressão m ais forte e dolorosa, acrescentando com aparente serenidade: - Mas, a que vem tua pergunta, se hoj e estou m ais que convicto, de acordo contigo m esm o, que tudo aquilo não passava de sim ples im pressões de um a fantasia sem im portância?

- Fantasia? - replicou Flam ínio, com o se houvesse encontrado um a nova fórm ula da verdade. - Já m odifiquei por com pleto as m inhas idéias. A enferm idade tem , igualm ente, os seus belos e grandiosos beneficios. Retido no leito há m uitos m eses, habituei-m e a invocar a proteção de Têm is, de m odo que não chegasse a ver nos m eus padecim entos m ais que o resultado penoso dos m eus próprios m éritos, perante a incorruptível j ustiça dos deuses, até que um a noite tive im pressões iguais às tuas.

Não m e recordo de haver guardado qualquer preocupação com a tua narrativa, m as o certo é que, há cerca de dois m eses, m e senti levado em sonho à m esm a época da revolução de Catilina, e observei a veracidade de todos os fatos que m e relataste há dezesseis anos, chegando a ver o teu próprio ascendente, Públio Lentulus Sura, que era com o que o teu retrato, tal a sua profunda sem elhança contigo, m orm ente agora que te encontras nos teus quarenta e quatro anos, em plena fixação de traços fisionôm icos.

Interessante é que m e encontrava a teu lado, cam inhando contigo na m esm a estrada de clam orosas iniquidades. Lem bro-m e de nos verm os assinando sentenças iníquas e im piedosas, determ inando o suplício de m uitos dos nossos sem elhantes... Todavia, o que m ais m e atorm entava era observar-te a terrível atitude, determ inando a cegueira de m uitos dos nossos adversários políticos e assistindo, pessoalm ente, ao desenrolar das flagelações do ferro em brasa, queim ando num erosas pupilas para todo o sem pre, aos gritos dolorosos das vitim as indefesas!...

Públio Lentulus arregalou os olhos, de espanto, participando, igualm ente, daquelas recordações que dorm itavam fundo na sua alm a ensom brada, e replicou, por fim :

- Meu bom am igo, tranquiliza o coração... Sem elhantes im pressões parecem reflexos de algum a em oção m ais forte que perdurasse no âm ago da tua m em ória, por m inhas narrativas naquela noite de há tantos anos!...

Flam ínio Severus esboçou, porém , um leve sorriso, com o quem com preendia a intenção generosa e consoladora, redarguindo com serena bondade:

- Devo dizer-te, Públio, que esses quadros não m e apavoraram e apenas te falo desse com plexo de em oções, porque tenho a certeza de que vou partir desta vida e ainda ficarás, talvez por m uito tem po, na crosta deste m undo. É possível que as recordações do teu espírito aflorem novam ente e, então, quero que aceites a verdade religiosa dos gregos e dos egípcios. Acredito, agora, que tem os vidas num erosas, através de corpos diversos. Sinto que m eu pobre organism o está prestes a desfazer-se; entretanto, m eu pensam ento está vivaz com o nunca e só em tais circunstâncias presum o entender o grande m istério de nossas existências. Pesa-m e, no íntim o, haver praticado o m al no pretérito tenebroso, em bora haj a decorrido m ais de um século sobre os tristes acontecim entos de nossas visões espirituais; todavia, aqui estou diante dos deuses, com a consciência tranquila.

Públio ouvia-o atentam ente, entre penalizado e com ovido. Procurava dirigir-lhe palavras confortadoras, m as a voz parecia m orrer-lhe na garganta, em bargada pelas em oções daquele doloroso m om ento.

Flam ínio, porém , apertou-o de encontro ao coração, com os olhos rasos de pranto, sussurrando-lhe ao ouvido:

- Meu am igo, não tenhas dúvidas sobre as m inhas palavras... Quero crer que estas horas sej am as últim as... No m eu escritório estão todos os teus docum entos e o m em orial dos negócios de ordem m aterial que m ovim entei em teu nom e, na tua ausência e no concernente aos nossos problem as de ordem política e financeira. Não encontrarás dificuldade para catalogar, convenientem ente, todos os papéis a que m e refiro...

- Mas, Flam ínio - replicou Públio, com enérgica serenidade -, acredito que terem os m uito tem po para cuidar disso.

Nesse m om ento, Lívia e a filha, Calpúrnia e os rapazes, acercaram -se do nobre enferm o, trazendo-lhe sorriso am igo e palavras consoladoras.

O doente deu m ostras de ânim o e alegria para cada um deles, encarecendo o abatim ento de Lívia e a beleza exuberante de Flávia, com palavras m eigas e quentes.

Ficando a sós, novam ente, o generoso senador que a m oléstia desfigurara, entre os linhos claros do leito, exclam ou com bondade:

- Eis, m eu am igo, as borboletas risonhas do am or e da m ocidade, que o tem po faz desaparecer, célere, no seu torvelinho de im piedades.

E baixando a voz, com o se quisesse transm itir ao am igo um a delicada confidência dalm a, continuou a falar pausadam ente:

- Levo com igo, para o túm ulo, num erosas preocupações pelos m eus pobres filhos. Dei-lhes tudo que m e era possível, em m atéria educativa, e, em bora reconhecendo que am bos possuem sentim entos generosos e sinceros, noto que os seus corações são vítim as das penosas transições dos tem pos que passam , nos quais tem os o desgosto de observar os m ais aviltantes rebaixam entos da dignidade do lar e da fam ília.

Agripa vem fazendo o possível por se adaptar aos m eus conselhos, entregando-se aos labores do Estado; m as Plínio teve a pouca sorte de se deixar seduzir por am igos pérfidos e desleais, que não desej am senão a sua ruína e o arrastam aos m aiores desregram entos, nos am bientes suspeitos de nossas m ais altas cam adas sociais, levando m uito longe o seu espírito de aventuras.

Am bos m e proporcionam os m aiores dissabores com os atos que praticam , testem unhando reduzidas noções de responsabilidade individual. Esbanj ando grande parte da nossa fortuna própria, não sei que futuro será o da m inha pobre Calpúrnia se os deuses não m e perm itirem a graça de buscá-la, em breve, no exílio de sua saudade e da sua am argura, depois da m inha m orte!...

- Mas a m im - respondeu com interesse o interpelado - eles se m e afiguram dignos do pai que os deuses lhes concederam , com a sua gentileza generosa e com a fidalguia de suas atitudes.

- Em todo caso, m eu am igo, não podes esquecer que tua ausência de Rom a foi m uito longa e que m uitas inovações se processaram nesse período.

Parecem os cam inhar vertiginosam ente para um nível de absoluta decadência dos nossos costum es fam iliares, bem com o os nossos processos educativos, a m eu ver, desm antelados em dolorosa falência!...

E com o se desej asse trazer de novo a conversação para os assuntos de ordem im ediata, da vida prática, acentuou

- Agora que vej o tua filha esplendente de m ocidade e de energia, renovo, intim am ente, m eus antigos proj etos de trazê-la para o círculo da nossa com unidade fam iliar.

Era m eu desej o que Plínio a desposasse, m as m eu filho m ais m oço parece inclinado a com prom eter-se com a filha de Sálvio, não obstante a oposição de Calpúrnia a esse proj eto; não por teu tio, sem pre digno e respeitável aos nossos olhos, m as por sua m ulher que não parece disposta a abandonar as antigas idéias e iniciativas do passado. Devo, porém , considerar que m e resta ainda Agripa, a fim de concretizarm os as m inhas futurosas esperanças.

Se puderes, algum dia, não te esqueças desta m inha recom endação in extrem is !...

- Está bem , Flam ínio, m as não te canses. Dá tem po ao tem po, porque não faltará ocasião para discutir o assunto - replicou Públio Lentulus, com ovido.

Neste com enos, Agripa entrou na alcova, dirigindo-se ao pai, afetuosam ente:

- Meu pai, o m ensageiro enviado a Massília (1) acaba de chegar, trazendo as desej adas inform ações a respeito de Saul.

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(1) Nota da Editora: atualm ente, Marselha.

- E ele nada nos m anda dizer sobre a sua vinda? - perguntou o enferm o, com bondoso interesse.

- Não. O portador apenas com unica que Saul partiu para a Palestina, logo depois de alcançar a consolidação da sua fortuna com os últim os lucros com erciais, acrescentando haver deliberado ir à Judeia, para rever o pai que reside nas cercanias de Jerusalém .

- Pois sim - disse o enferm o, resignado -, a vista disso, recom pensa o m ensageiro e não te preocupes m ais com os m eus anteriores desej os.

Ao ouvi-los, Públio deu tratos ao cérebro para se recordar de algum a coisa que não podia definir com precisão. O nom e de Saul não lhe era estranho. Com a circunstância de se localizar a residência do pai nas proxim idades de Jerusalém , lem brou-se, finalm ente, das personagens de suas recordações, com fidelidade absoluta. Rem em orou o incidente em que fôra obrigado a castigar um j ovem j udeu desse nom e, nas cercanias da cidade, rem etendo-o às galeras com o punição do seu ato irrefletido, e recordando, igualm ente, o instante em que um agricultor israelita fôra reclam ar a liberdade do prisioneiro, dando-o com o seu filho. Experim entando um anseio vago no coração, exclam ou intencionalm ente:

- Saul? Não é um nom e característico da Judeia?

- Sim - respondeu Flam ínio com serenidade -, trata-se de um escravo liberto de m inha casa. Era um cativo j udeu, ainda j ovem , adquirido por Valério, no m ercado, para as bigas dos m eninos, ao ínfim o preço de quatro m il sestércios. Tão bem se houve, entretanto, nos afazeres que lhe eram com um ente designados, que, após levantar vários prêm ios com as suas proezas no Cam po de Marte, destinados aos m eus filhos, resolvi conceder-lhe a liberdade, dotando-o com os recursos necessários para viver e prom over em preendim entos de sua própria conta. E parece que a m ão dos deuses o abençoou no m om ento preciso, porque Saul é hoj e senhor de um a fortuna sólida, com o resultado do seu esforço e trabalho.

Públio Lentulus silenciou, intim am ente aliviado, pois o seu prisioneiro, segundo notícias recebidas pelos prepostos do governo provincial, se havia evadido para o lar paterno, fugindo, desse m odo, à escravidão hum ilhante.

As horas da noite iam j á avançadas.

O visitante lem brou-se, então, de que esperava avistar-se com Flam ínio para um a palestra substanciosa e longa, a respeito de m últiplos assuntos, com o, por exem plo, a sua penosa situação conj ugal, o desaparecim ento m isterioso do filhinho, o seu encontro com Jesus de Nazaré. Mas, observava que Flam ínio estava exausto, sendo j usto e necessário adiar suas confidências am argas e penosas.

Foi então que se retirou do aposento para aguardar o dia seguinte, cheio de esperanças consoladoras.

Os dois am igos trocaram longo e significativo olhar no instante daquelas despedidas, que agora pareciam com uns, com o as afetuosas saudações diárias doutros tem pos.

Confortadoras exortações e prom essas am igas foram trocadas, entre expressões de fraternidade e carinho, antes que Calpúrnia reconduzisse as visitas ao vestíbulo, com a sua bondade generosa e acolhedora.

Todavia, nas prim eiras horas da m anhã seguinte, um m ensageiro apressado parava à porta do palacete dos Lentulus, com a notícia alarm ante e dolorosa.

Flam ínio Sevérus piorava inesperadam ente, sem que os m édicos dessem aos seus fam iliares a m enor esperança. Todas as m elhoras fictícias haviam desaparecido. Um a força inexplicável lhe desequilibrara a harm onia orgânica, sem que rem édio algum lhe paralisasse as aflições angustiosas.

Dentro de poucas horas, Públio Lentulus e os seus se encontravam de novo na vivenda confortável dos am igos.

Enquanto penetra ele, ansioso, no quarto do velho com panheiro de lutas terrestres, Lívia, na intim idade de um apartam ento, dirige-se a Calpúrnia nestes term os:

- Minha am iga, j á ouviste falar em Jesus de Nazaré? A orgulhosa m atrona, que não perdia a linha de suas vaidades em fam ília, ainda nos m om entos das m ais angustiosas preocupações, arregalou os olhos, exclam ando:

- Porque m o perguntas?

- Porque Jesus - respondeu Lívia, hum ildem ente - é a m isericórdia de todos os que sofrem e não posso esquecer-m e da sua bondade, agora que nos vem os em provações tão ásperas e tão dolorosas.

- Suponho, querida Lívia - redarguiu Calpúrnia, gravem ente -, que esqueceste todas as recom endações que te fiz antes de partires para a Palestina, porque, pelas tuas advertências, estou deduzindo que aceitaste de boa fé as teorias absurdas da igualdade e da hum ildade, incom patíveis com as nossas tradições m ais vulgares, deixando-te levar nas águas enganosas das crenças errôneas dos escravos.

- Mas, não é isso. Refiro-m e à fé cristã, que nos anim a nas lutas da existência e consola o coração atorm entado nas provações m ais ríspidas e m ais am argosas...

- Essa crença está chegando agora à sede do Im pério e por sinal tem encontrado a repulsa geral dos nossos hom ens m ais sensatos e ilustres.

- Eu, porém , conheci Jesus de perto e a sua doutrina é de am or, de fraternidade e de perdão... Conhecendo os teus j ustos receios por Flam ínio, lem brei-m e de apelar para o profeta de Nazaré, que, na Galileia, era a providência de todos os aflitos e de todos os sofredores!

- Ora, m inha filha, sabes que a fraternidade e o perdão das faltas não se com padecem , de m odo algum , com as nossas idéias de honra, de pátria e de fam ília, e o que m ais m e adm ira é a facilidade com que Públio te perm itiu tão íntim o contato com as concepções errôneas da Judeia, a ponto de m odificares tua personalidade m oral, segundo m e deixas entrever.

- Todavia...

Ia Lívia esclarecer, da m elhor m aneira, os seus pontos de vista, com respeito ao assunto, quando Agripa entrou inopinadam ente no gabinete, exclam ando com a m ais forte em oção:

Minha m ãe, venha depressa, m uito depressa!... Meu pai parece agonizante!...

Num átim o, am bas penetraram no aposento do m oribundo, que tinha os olhos parados com o se fôra acom etido, inesperadam ente, de um delíquio irrefreável.

Públio Lentulus guardava, entre as suas, as m ãos do m oribundo, m irando-lhe ansiosam ente o fundo das pupilas.

Aos poucos, porém , o tórax de Flam ínio parecia m over-se de novo aos im pulsos de um a respiração profunda e dolorosa. Em seguida, os olhos revelaram forte clarão de vida e consciência, com o se a lâm pada do cérebro se houvesse reacendido num m ovim ento derradeiro. Contem plou, em torno, os fam iliares e am igos bem -am ados, que se debruçavam sobre ele, inquietos e ansiosos. Um m édico m uito am igo, que o assistia invariavelm ente, com preendendo a gravidade do m om ento, retirara-se para o átrio, enquanto em volta do agonizante som ente se ouvia a respiração opressa dos nossos conhecidos destas páginas.

Flam ínio passeou o olhar brilhante e indefinível por todos os rostos, com o se procurasse, m ais detidam ente, a esposa e os filhos, exclam ando em frases entrecortadas:

- Calpúrnia, estou... na hora extrem a... e dou graças aos deuses... por sentir a consciência... desanuviada e tranquila... Esperar-te-ei na eternidade... um dia... quando Júpiter... houver por bem ... cham ar-te para m eu lado...

A veneranda senhora ocultou o rosto nas m ãos, dando expansão às lágrim as, sem conseguir articular palavra.

- Não chores... - continuou ele, com o a aproveitar os m om entos derradeiros -, a m orte... é um a solução... quando a vida... j á não tem m ais rem édio... para as nossas dores...

E olhando am bos os filhos, que o contem plavam com ansiedade, de olhos lacrim ej antes, tom ou a m ão do m ais m oço, m urm urando:

- Desej aria... m eu Plínio... ver-te feliz... m uito feliz... É intenção tua... desposares a filha de Sálvio?...

Plínio com preendeu as alusões paternas naquele m om ento grave e decisivo, fazendo um leve sinal negativo com a cabeça, ao m esm o tem po que fixava os olhos grandes e ardentes em Flávia Lentúlia, com o a indicar ao pai a sua preferência.

O m oribundo, por sua vez, com a profunda lucidez espiritual dos que se aproxim am da m orte, com plena consciência da situação e dos seus deveres, entendeu a atitude silenciosa do filho estrem ecido e, tom ando a m ão da j ovem , que se inclinava afetuosam ente sobre o seu peito, apertou as m ãos de am bos de encontro ao coração, m urm urando com íntim a alegria:

- Isso é m ais... um a razão... para que eu parta... tranquilo... Tu, Agripa... hás-de ser tam bém ... m uito feliz... e tu... m eu caro... Públio... j unto de Lívia... haverás de viver...

Todavia, um soluço m ais forte escapara-se-lhe inopinadam ente e a sucessão dos singultos violentos e dolorosos obrigou-o a calar-se, enquanto Calpúrnia se aj oelhava e lhe cobria as m ãos de beij os...

Lívia, tam bém genuflexa, olhava para o alto com o se desej asse descobrir os seus arcanos. A seus olhos, apresentava-se aquela câm ara m ortuária repleta de vultos lum inosos e de outras som bras indefiníveis, que deslizavam tranquilam ente em torno do m oribundo. Orou no im o dalm a, rogando a Jesus força e paz, luz e m isericórdia para o grande am igo que partia. Nesse instante, lobrigou a radiosa figura de Sim eão, rodeada de claridade azulina e resplandecente.

Flam ínio agonizava...

À m edida que transcorriam os m inutos, os olhos se lhe tornavam vítreos e descoloridos. Todo o corpo transudava um suor abundante, que alagava o linho alvíssim o das cobertas.

Lívia notou que todas as som bras presentes se haviam tam bém aj oelhado e som ente o vulto im ponente de Sim eão ficara de pé, com o se fôra um a sentinela divina, colocando as m ãos radiosas na fronte abatida do m oribundo. Notou, então, que seus lábios se entreabriam para a oração, ao m esm o tem po que doces palavras lhe chegavam , nítidas, aos ouvidos espirituais:

- Pai Nosso que estais no céu, santificado sej a o vosso nom e, venha a nós o vosso reino de m isericórdia e sej a feita a vossa vontade, assim na Terra com o nos céus!...

Nesse instante, Flam ínio Severus deixava escapar o últim o suspiro. Marm órea palidez lhe cobriu os traços fisionôm icos, ao m esm o tem po que um a infinita serenidade se estam pava na sua m áscara cadavérica, com o se a alm a generosa houvesse partido para a m ansão dos bem -aventurados e dos j ustos.

Som ente Lívia, com a sua crença e a sua fé, pôde conservar-se de ânim o sereno, entre quantos a rodeavam no doloroso transe. Públio Lentulus, entre lágrim as com ovedoras, certificava-se de haver perdido o m elhor e o m aior dos am igos. Nunca m ais a voz de Flam ínio lhe falaria das m ais belas equações filosóficas, sobre os problem as grandiosos do destino e da dor, nas correntes interm ináveis da vida. E, enquanto se abriam as portas do palácio para as hom enagens da sociedade rom ana; e enquanto se celebravam solenes exéquias im plorando a proteção dos m anes do m orto, seu coração de am igo considerava a realidade dolorosa de se haver rasgado, para sem pre, um a das m ais belas páginas afetivas, no livro da sua vida, dentro da escuridão espessa e im penetrável dos segredos de um túm ulo.