Há Dois Mil Anos
X Nos derradeiros minutos de Pompeia
Em radiosa m anhã do ano de 79, toda a Pom peia despertou em rum ores festivos.
A cidade havia recebido a visita de um ilustre questor do Im pério e, naquele dia, todas as ruas se m ovim entavam em alacridade barulhenta, aguardando-se, para breves horas, as festas deslum brantes do anfiteatro, com que a adm inistração desej ava celebrar o evento, em m eio da alegria geral.
Para o velho senador Públio Lentulus, o acontecim ento se revestia de im portância especial, porquanto o distinto hóspede de Pom peia lhe trazia significativa m ensagem , bem com o honrosas deferências de Tito Flavius Vespasiano, então im perador, na sucessão de seu pai.
Ainda m ais.
No séquito do questor ilustre vinha, igualm ente, Plínio Severus, em plenitude de m aturidade, totalm ente regenerado e j ulgando-se agora redim ido no conceito da esposa e daquele que seu coração considerava com o pai.
Nesse dia, enquanto Ana com andava, verbalm ente, as atividades dom ésticas nos preparativos da recepção, m obilizando escravos e servos num erosos, Públio e filha se abraçavam com ovidos, em face da surpresa que o destino lhes reservara, em bora tardiam ente. Avisados por m ensageiros da caravana de patrícios ilustres, davam larga às em oções m ais gratas do espírito, na doce perspectiva de acolherem o filho pródigo, tantos anos distante de seus braços am igos.
Antes do m eio-dia, um deslum bram ento de viaturas, de cavalos aj aezados e de j óias faiscantes sobre vestiduras reluzentes se deparava às portas da vila plácida e graciosa, provocando a adm iração e o interesse curioso das vizinhanças. E, em seguida, foi um turbilhão de abraços, carinhos, palavras confortadoras e generosas.
Quase todos os patrícios, em excursão pela Cam pânia, conheciam o senador e sua fam ília, representando esse acontecim ento um suave encontro de corações.
Públio Lentulus abraçou Plínio, dem oradam ente, com o se fizesse a um filho bem -am ado, que voltasse de longe e cuj a ausência houvera sido excessivam ente prolongada. Experim entava no íntim o im pulsos de extravasão de afeto, que o seu coração dom inou, para não provocar a adm iração inj ustificada dos circunstantes.
- Meu pai, m eu pai! - disse o filho de FIam ínio em tom discreto e quase im perceptível aos seus ouvidos, quando lhe beij ava a fronte encanecida - j á m e perdoastes?
Ó filho, com o tardaste tanto?!... Quero-te com o sem pre e que o céu te abençoe!... - respondeu o velho cego, em ocionado.
Daí a instante, após o doce encontro de Plínio e sua m ulher, exclam ou o questor em m eio do silêncio geral:
- Senador, honro-m e em trazer-vos preciosa lem brança de César, acom panhada de um a m ensagem de reconhecim ento da alta adm inistração política do Im pério, um dos m ais fortes e m ais j ustos m otivos de m inha perm anência em Pom peia, e incum bo o nosso am igo Plínio Severus de vos entregar, neste m om ento, estas relíquias que representam um a das m ais significativas hom enagens do Im pério ao esforço de um dos seus m ais dedicados servidores!...
Públio Lentulus sentia bem a suprem a em oção daquela hora. A hom enagem do im perador, a carinhosa presença dos am igos, a volta do genro aos seus braços paternos, representavam para o seu coração um a alegria entontecedora.
Seus olhos, entretanto, nada podiam ver. Do seio da sua noite, ouvia aqueles apelos generosos, com o um desterrado da luz, de quem se exum assem as recordações m ais queridas e m ais doces.
- Am igos - disse, enxugando um a lágrim a furtiva nos olhos apagados -, tudo isso é para m im a m aior recom pensa de um a vida inteira. Nosso im perador é um espírito excessivam ente generoso, porque a verdade é que nada fiz para m erecer o reconhecim ento da pátria. Minhalm a, todavia, exulta convosco, m eus patrícios, porque a nossa reunião nesta casa é sím bolo de união e trabalho, nos elevados encargos do Im pério!...
Nesse instante, contudo, alguém lhe tom ava as m ãos encarquilhadas, levando-as aos lábios úm idos, deixando, porém , nas pequeninas conchas das rugas, duas lágrim as ardentes.
Plínio Severus, num gesto espontâneo, aj oelhara-se e, osculando-lhe as m ãos, dava expansão ao seu afeto e reconhecim ento, ao m esm o tem po que lhe fazia entrega da m ensagem im perial que o velho senador não m ais podia ler.
Públio Lentulus chorava, sem poder pronunciar um a única palavra, tal a em oção que lhe oprim ia o íntim o, enquanto os circunstantes lhe acom panhavam as atitudes com os olhos rociados de pranto.
Nesse ínterim , o filho de Flam ínio não m ais se conteve e, consagrando a sua regeneração espiritual, exclam ava enternecido:
- Meu querido pai, não choreis, se aqui nos acham os todos para com partilhar vossa alegria! Diante de todos os nossos am igos rom anos, com a hom enagem do Im pério, eu vos entrego o m eu coração regenerado para sem pre!... Se estais agora cego, m eu pai, não o estais pelo espírito que sem pre procurou dissipar as som bras e rem over tropeços do nosso cam inho!... Continuareis guiando os m eus, ou, m elhor, os nossos passos, com as vossas antigas tradições de sinceridade e de esforço, na retidão do proceder!... Voltareis com igo para Rom a e, j unto de vosso filho reabilitado, organizareis novam ente o palácio do Aventino... Serei, então, para todo o sem pre, um a sentinela do vosso espírito, para vos am ar e proteger!... Tom arei m inha esposa a m eu inteiro cuidado e, dia a dia, tecerei para nós três um a auréola de venturas novas e indefiníveis, com os m ilagres da m inha afeição im orredoura! Em nossa casa do Aventino florescerá um a alegria nova, porque hei-de prover todas as vossas horas com o am or grande e santo de quem , conhecendo todas as duras experiências da vida, sabe agora valorizar seus próprios tesouros!...
O velho senador, alquebrado pelos anos e pelos m ais rudes sofrim entos, conservava-se de pé, acariciando os cabelos do genro, igualm ente prateados pelos invernos da vida, enquanto pesadas lágrim as rom piam a m uralha da sua noite para enternecer o coração de todos, num a angustiosa e indefinível em otividade. Flávia Lentúlia chorava, igualm ente, dom inada por íntim as sensações de felicidade, ao cabo de tão longas e desalentadas esperanças!... Alguns am igos desej avam quebrar a solenidade dolorosa daquele quadro im previsto, m as o próprio questor, que chefiava a caravana de patrícios ilustres, se ocultara num recanto, sensibilizado até às lágrim as.
Públio Lentulus, contudo, com preendendo que som ente ele próprio poderia m odificar as disposições daquela paisagem sentim ental, reagiu às em oções, exclam ando:
- Levanta-te, m eu filho!... Nada fiz para m e agradeceres de j oelhos... Porque m e falas deste m odo?... Voltarem os para Rom a, sim , em breves dias, pois todos os teus desej os são os nossos... regressarem os à nossa casa do Aventino, onde, j untos, viverem os para relem brar o pretérito e venerar a m em ória dos nossos antepassados!
E, depois de um a pausa, continuou, em exclam ações quase otim istas:
- Meus am igos, sinto-m e com ovido e grato pela gentileza e afeto de todos vós! Mas, que é isso? Todos silenciosos? Lem brai-vos de que não vos vej o senão através das palavras. E a festa de hoj e?...
As exclam ações do senador quebraram o silêncio geral, voltando-se aos intensos ruídos de m inutos antes. A torrente das palestras casava-se ao tinir das taças de vinho, em seus pesados estilos da época.
Enquanto as visitas se reuniam no triclínio espaçoso para libações ligeiras, Plínio Severus e a esposa trocavam confidências ternas, ora sobre os proj etos em perspectiva para os anos que ainda lhes restavam no m undo, ora quanto às recordações dos dias lentos e am argurados do passado distante.
Insistentes cham ados, porém , requeriam a presença do questor e com itiva, no local dos festej os.
O circo fôra preparado a rigor e não se perdera nenhum a oportunidade para a realização das m enores m inudências próprias das grandes festividades rom anas.
E ao m esm o tem po que todos se despediam do senador e de sua filha, num deslum bram ento de felicidade m undana, Plínio Severus dirigia-se a Públio nestes term os, depois de abraçar ternam ente a com panheira:
- Meu pai, levado pelas circunstâncias, sou com pelido a acom panhar o questor nas festividades populares, m as estarei de regresso em breves horas, para ficar convosco um m ês, de m odo a tratarm os do nosso regresso a Rom a.
- Muito bem , m eu filho - respondia o velho senador, sum am ente confortado -, acom panha os nossos am igos e representa-m e j unto das autoridades. Dize a todos da m inha em oção e do m eu agradecim ento sincero.
A sós novam ente, o senador sentiu que aquelas com oções cariciosas e alegres eram , talvez, as últim as da sua vida. No velho peito, o coração batia-lhe descom passado, com o se pesada nuvem de pensam entos tristes o envolvesse. Sim , a volta de Plínio aos seus braços paternos era a alegria suprem a da sua velhice desalentada. Sabia, agora, que a filha poderia contar com o esposo, nas estradas do seu torm entoso destino, e que a ele, Públio, som ente com petia aguardar a m orte, resignado. Ponderando as palavras afetuosas do filho de FIam ínio e os seus apelos ao passado rem oto, Públio Lentulus considerou, intim am ente, que era m uito tarde para regressar ao Aventino e que a volta a Rom a apenas devia significar, para o seu espírito precito, o sím bolo da sepultura.
Em pleno espetáculo, Plínio Severus, j á no outono da vida, arquitetava os planos de futuro. Procuraria resgatar todas as faltas antigas, perante os seus parentes afetuosos e queridos; assum iria a direção de todos os negócios do velho pai pelo coração, aliviando-o de todas as angustiosas preocupações da vida m aterial.
De vez em quando, os aplausos da m ultidão lhe interrom piam os devaneios. A m aioria da população de Pom peia ali estava em plena festa, ovacionando os triunfadores. Gente de toda a redondeza e m uito particularm ente de Herculanum , acorrera pressurosa ao divertim ento predileto daquelas épocas recuadas. De perm eio com os atletas e gladiadores, estavam os m úsicos, os cantores e os dançarinos. Tudo era um farfalhar de sedas, um delicioso chocalhar de alegrias ruidosas, ao som de flautas e alaúdes.
Em dado instante, porém , a atenção geral foi solicitada por um fato estranho e incom preensível. Do cim o do Vesúvio elevava-se grossa pirâm ide de fum o, sem que ninguém atinasse com a causa do fenôm eno insólito.
Continuavam os j ogos anim adam ente, m as agora, no seio da coluna fum arenta que se elevava em caprichosos rolos para o alto, surgiam im pressionantes labaredas...
Plínio Severus, com o todos os presentes, se surpreendia com o fenôm eno estranho e inexplicável.
Em m inutos breves, no entanto, estabeleciam -se no anfiteatro a confusão e o terror.
Em m eio da perturbação geral e im prevista, o filho de Flam ínio ainda teve tem po de se aproxim ar do questor, então rodeado dos seus fam iliares que residiam na cidade, o qual lhe falou com otim ism o, em bora não conseguisse dissim ular de todo as Íntim as inquietações:
- Meu am igo, tenham os calm a! Pelas barbas de Júpiter!... Então, por onde andarão a nossa coragem e a nossa fibra?
Mas, em breves instantes a terra lhes trem ia sob os pés, em vibrações desconhecidas e sinistras. Algum as colunas tom bavam ao solo, pesadam ente, enquanto num erosas estátuas rolavam dos nichos im provisados, recam ados de ouro e pedrarias.
Abraçando-se, então, à filha e cercado de num erosas senhoras, o questor disse altam ente preocupado:
- Plínio, dem andem os as galeras, sem dem ora!...
Mas, o oficial rom ano não m ais ouviu os apelos. Ansiosam ente, atirou-se à faina de rom per a m ultidão, que desej ava retirar-se em m assa do circo, m otivando o esm agam ento de crianças e pessoas m ais idosas.
Ao cabo de sobre-hum ano esforço, conseguiu alcançar a rua, m as todos os lugares estavam tom ados por gente que saía de casa, desarvorada, aos gritos de "Fogo, Fogo!... O Vesúvio..."
Plínio verificou que todas as vias públicas estavam repletas de gente desesperada, de viaturas e de anim ais espavoridos.
Com enorm e dificuldade, vencia todos os obstáculos, m as o Vesúvio lançava agora, para o céu, um a fogueira indescritível e im ensa, com o se a própria Terra houvera incendiado as entranhas m ais profundas.
Um a chuva de cinza, a princípio quase im perceptível, com eçou a cair, enquanto o solo continuava a trem er com ruídos surdos, aterradores.
De instante a instante, ouvia-se o estrondo pavoroso de colunas derribadas ou de edifícios desm oronados pelos abalos sísm icos, ao m esm o tem po que o fum o do vulcão ia eclipsando a confortadora claridade solar.
Mergulhada em penum bra espessa e tom ada de terror indizível, Pom peia assistia aos seus últim os instantes, num a aflição desesperada... (1)
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(1) Este trecho desperta interesse e atenção do leitor curioso e inteligente, pela sim ilitude que oferece com a descritiva de outro rom ance m ediúnico e tam bém precioso, qual o Herculanum , do Conde de Rochester. - Nota da Editora.
Na vila de Lentulus, os escravos perceberam im ediatam ente o perigo próxim o. Nos prim eiros m om entos, os cavalos relinchavam estranham ente e as aves inquietas fugiam em desespero.
Após a queda das prim eiras colunas que sustentavam o edifício, todos os servos do senador abandonaram precipitadam ente os postos, desej osos de conservar noutra parte os bens preciosos da vida. Som ente Ana ficara j unto dos am os, dando-lhes conhecim ento dos horrores do am biente.
Os três, num a j ustificada inquietude, escutaram o rum or horrível da inolvidável catástrofe do Im pério. A própria vila estava j á m eio destruída, penetrando as cinzas pelos desvãos abertos pela queda dos telhados e com eçando a sua obra de lenta sufocação. Ansiavam todos pelo regresso im ediato de Plínio, a fim de resolverem as providências a adotar, m as o velho senador, cuj o coração não se iludia nos seus am argurados pressentim entos, exclam ou em tom quase resignado:
- Ana, traze a cruz de Sim eão e vam os à prece que te foi ensinada pelos discípulos do Messias!... Diz-m e o coração que é chegado o fim da nossa rom agem pela Terra!
Enquanto a serva buscava apressadam ente a relíquia do ancião de Sam aria, afrontando o perigo das paredes oscilantes, Públio Lentulus ouvia o surdo rum or da terra dilacerada e os gritos apavorantes e sinistros do povo, m isturados ao barulho trem endo do vulcão que, transform ado em fornalha im ensa e indescritível, enchia toda a cidade de cinzas e lavas ferventes. Lem brou-se, então, o senador, das afirm ativas do Cristo nos dias idos da Galileia, quando lhe asseverava que toda a grandeza rom ana era bem m iserável e num m inuto breve poderia o Im pério ser reduzido a um punhado de pó. O coração batia-lhe descom passado naquele m inuto extrem o, m as a velha serva havia regressado e aj oelhara-se, serena, guardando nas m ãos a lem brança de Sim eão e de Lívia, orando em voz com ovedora e profunda:
"Pai Nosso, que estais no céu... santificado sej a o vosso nom e... venha a nós o vosso reino... sej a feita a vossa vontade... assim na Terra com o nos céus..."
Nesse instante, porém , a voz da serva em udeceu subitam ente, enquanto seu corpo rolava sob novos escom bros, sentindo-se ela am parada, espiritualm ente, pelo venerável sam aritano que a conduziu, im ediatam ente, às m ais elevadas esferas espirituais, tal a natureza do seu coração ilum inado nas dores e testem unhos m ais angustiosos do aprendizado terrestre.
- Ana!... Ana!... - exclam avam Públio e Flávia, soluçantes, sentindo am bos pela prim eira vez o infortúnio do insulam ento suprem o, sem um a luz e sem um guia, em pleno desam paro!
Alguém , contudo, rom pera todos os destroços e chegava, rápido, até àquela câm ara interior, e, abraçando Públio e sua filha gritava em voz opressa: -"Flávia! m eu pai! aqui estou..."
Plínio chegava, afinal, para o instante derradeiro. Flávia Lentúlia apertou-o carinhosam ente nos braços, enquanto o velho senador sem iasfixiado tom ava as m ãos do filho, abraçando-se os três num am plexo derradeiro.
Flávia e Plínio quiseram falar, m as grossa cam ada de cinzas penetrava o interior, pelas fendas enorm es da vila m eio destruída...
Mais um estrem eção do solo e as colunas que ainda restavam de pé se abateram sobre os três, roubando-lhes as últim as energias e fazendo-os cair assim , enlaçados para sem pre, sob um m ontão de escom bros...
Naquelas som bras espessas, todavia, pairavam criaturas aladas e leves, em atitudes de prece, ou confortando ativam ente o coração abatido dos m íseros condenados à destruição.
Sobre os três corpos soterrados perm anecia a entidade radiosa de Lívia, j unto de num erosos com panheiros que cooperavam , com devotam ento e precisão, nos serviços de desprendim ento total dos m oribundos.
Pousando as m ãos lum inosas e puras na fronte abatida do com panheiro exausto e agonizante, Lívia elevou os olhos ao firm am ento enegrecido e orou com a suavidade da sua fé e dos seus sentim entos diam antinos.
- Jesus, m eigo e divino Mestre - esta hora angustiosa é bem um sím bolo dos nossos erros e crim es, através de avatares tenebrosos; m as, vós, Senhor, sois toda a esperança, toda a sabedoria e toda a m isericórdia!... Abençoai nossos espíritos neste m om ento ríspido e doloroso!... Suavizai os torm entos da alm a gêm ea da m inha, concedendo-lhe neste instante o alvará da liberdade!... Aliviai, m agnânim o Salvador do m undo, todas as suas m agoas pungentes, suas desoladoras am arguras!... Concedei-lhe repouso ao coração angustiado e dolorido, antes do seu novo regresso à tram a escura das reencarnações no planeta do exílio e das lágrim as dolorosas... Ele j á não é m ais, Senhor, o vaidoso déspota de outrora, m as um coração inclinado ao bem e â piedade pregados pela vossa doutrina de am or e redenção; sob o peso das provações am argas e rem issoras, seus pendores se espiritualizaram a cam inho da vossa Verdade e da vossa Vida!...
E, enquanto Lívia orava, o senador abraçado aos filhos, j á cadáveres, desferia o últim o gem ido, com pesada lágrim a a lhe cintilar nos olhos m ortos...
Num erosas legiões de seres espirituais volitaram por vários dias, nos céus caliginosos e tristes de Pom peia.
Ao cabo de longas perturbações, Públio Lentulus e filhos despertaram , ali m esm o, sobre o túm ulo nevoento da cidade m orta.
Em vão o senador invocou a presença de Ana ou de algum outro servo, na penosa ilusão da vida m aterial, persistindo em seu organism o psíquico as im pressões da cegueira m aterial, que representara o longo suplício dos seus anos derradeiros, na indum enta da carne.
Contudo, após as prim eiras lam entações, ouviu um a voz que lhe dizia brandam ente:
- Públio, m eu am igo, não apeles m ais para os recursos do planeta terreno, porque todos os teus poderes term inaram com os teus despoj os, na face escura e triste da Terra! Apela para Deus Todo-Poderoso, cuj a m isericórdia e sabedoria nos são dadas pelo am or do seu Cordeiro, que é Jesus-Cristo!...
Públio Lentulus não chegou a lobrigar o interlocutor, m as identificou a voz de Flam ínio Severus, desabafando, então, num a torrente de preces e de lágrim as fervorosas.
Em bora as dedicações constantes de Lívia, havia j á alguns dias que seu espírito se encontrava presa de pesadelos angustiosos, nos prim eiros instantes da vida do Além , assistido, porém , continuam ente por Flam ínio e outros com panheiros abnegados, que o aguardavam no plano espiritual.
Contudo, depois daquelas súplicas sinceras que lhe fluíam do m ais recôndito do coração, sentiu que seu m undo interior se desanuviara... Junto dos filhos queridos, recobrou a visão e reconheceu os entes am ados, com lágrim as de am or e reconhecim ento, nos pórticos do além -túm ulo.
Ali se conservavam num erosas personagens desta história, com o Flam ínio, Calpúrnia, Agripa, Pom pílio Crasso, Em iliano Lucius e m uitos outros; m as, em vão, os olhos angustiosos do ex-senador procuravam alguém na assem bléia afetuosa e am iga.
Depois de todas as expansões de carinho e alegria dirigiu-se-lhe Flam ínio, intencionalm ente.
- Estranhas a ausência de Lívia - dizia ele com o seu olhar com placente e generoso -, m as não poderás vê-la, enquanto não conseguires despir, pela prece e pelos bons desej os, todas as im pressões penosas e nocivas da Terra. Ela se tem conservado j unto ao teu coração, em rogativas sinceras e fervorosas pelo teu reerguim ento, m as o nosso grupo ainda é de espíritos m uito apegados ao orbe, e esperávam os o regresso dos seus últim os com ponentes, ainda na Terra, para poderm os, em conj unto, estabelecer novo roteiro às reencarnações vindouras.. Séculos de trabalho e de dor nos esperam na senda da redenção e do aperfeiçoam ento, m as precisam os, antes de tudo, buscar a fortaleza precisa em Jesus, fonte de todo o am or e de toda a fé, para as elevadas realizações do nosso pensam ento!..
Públio Lentulus chorava, tocado por em oções estranhas e indefiníveis.
- Meu am igo - continuou Flam ínio, am oroso -, pede a Jesus, por todos nós, a m isericórdia dessa claridade de um novo dia!...
Públio, então, aj oelhou-se e, banhado em lágrim as, concentrou o coração em Jesus num a rogativa ardente e silenciosa... Ali, na soledade da sua alm a intrépida e sincera, apresentava ao Cordeiro de Deus o seu arrependim ento, suas esperanças para o porvir, suas prom essas de fé e de trabalho para os séculos porvindouros!...
Todos os presentes lhe acom panharam a oração, tom ados de pranto e m ergulhados em vibrações de consolação inefável.
Viram , então, rasgar-se um cam inho lum inoso e florido nos céus escuros e tristes da Cam pânia, e, por ele, com o se descessem dos j ardins fulgurantes do Paraíso, surgiram Lívia e Ana abraçadas, com o se ainda ali enviasse Jesus um ensinam ento sim bólico àquelas alm as prisioneiras da Terra, de m odo a lhes revelar que, em qualquer posição, pode a alm a encarnada buscar o seu reino de luz e de paz, de vida e de am or, tanto na túnica hum ilde do escravo, com o na pom posa indum entária dos senhores.
O velho patrício contem plou a figura radiosa da com panheira e, extasiado, fechou os olhos banhados no pranto da com punção e do arrependim ento; m as, em breve, dois lábios de névoa pousavam -lhe na fronte, qual o leve roçar de um lírio divino. E, enquanto seu coração m aravilhado se lavava nas lágrim as da alegria e do reconhecim ento a Jesus, toda a caravana, ao im pulso poderoso das preces fervorosas daquelas duas alm as redim idas, elevava-se a esferas m ais altas, para repouso e aprendizado, antes de novas etapas de regeneração e trabalhos purificadores, a lem brar um grupo m aravilhoso de lum inosas falenas do Infinito!...
FIM
AVISO DOS EDITORES
Se lhe agradou a leitura deste livro, deverá conhecer a reencarnação de Publius, em "50 Anos Depois", outro rom ance do m esm o Autor.
Table of Contents
Na intim idade de Em m anuel
PRIMEIRA PARTE
I Dois am igos
II Um escravo
III Em casa de Pilatos
IV Na Galileia
V O Messias de Nazaré
VI O rapto
VII As pregações do Tiberíades
VIII No grande dia do Calvário
IX A calúnia vitoriosa
X O Apóstolo da Sam aria
SEGUNDA PARTE
I A m orte de Flam ínio
II Som bras e núpcias
III Planos da treva
IV Tragédias e esperanças
V Nas catacum bas da fé e no circo do m artírio
VI Alvoradas do Reino do Senhor
VII Teias do infortúnio
VIII Na destruição de Jerusalém
IX Lem branças am argas
X Nos derradeiros m inutos de Pom peia
Você terminou Há Dois Mil Anos
Chico Xavier