Há Dois Mil Anos

Chico Xavier · Capítulo 6 de 21

Páginas do PDF

Há Dois Mil Anos

V O Messias de Nazaré

 

O dia seguinte am anheceu trazendo as m ais sérias preocupações a Públio e sua fam ília.

Ainda cedo, vam os encontrá-lo em íntim o colóquio com a esposa, que se lhe dirige em voz súplice e afetuosa:

- Considero, querido, que devias atenuar um pouco os rigores da posição em que o destino nos colocou, procurando esse hom em generoso, para benefício de nossa filha. Todos se referem às suas ações, em polgados por sua bondade edificadora, e eu acredito que o seu coração se apiedará da nossa desditosa situação.

O senador ouviu-a apreensivo e incerto, exclam ando afinal: - Pois bem , Lívia; acederei aos teus desej os, m as só a angústia que nos vai nalm a m e faz transigir, de m aneira tão rude, com os m eus princípios.

Não procederei, todavia, conform e sugeres. Irei sozinho à cidade, com o se m e encontrasse em hora de sim ples entretenim ento, passando pelo trecho do cam inho que nos conduz às m argens do lago, sem chegar ao cúm ulo de abordar pessoalm ente o profeta, de m odo a não descer da m inha dignidade social e política, e, no caso de sobrevir algum a circunstância favorável, far-lhe-ei sentir o prazer que nos causaria a sua visita, com o fim de reanim ar a nossa doentinha.

- Muito bem ! - disse Lívia, entre confortada e agradecida - guardo nalm a a m ais sincera e profunda fé. Vai sim , querido!... Ficarei rogando a bênção dos céus para a nossa iniciativa. O profeta, que agora surge com o verdadeiro m édico das alm as, saberá que atrás da tua posição de senador do Im pério, há corações que sofrem e choram !...

Públio notou que a esposa se exaltava nas suas considerações, deixando-se conduzir pelo que j ulgava um excesso de fraqueza e pieguism o; entretanto, nada lhe adm oestou a respeito, em face das am arguras do m om ento, suscetível de desvairar o cérebro m ais forte.

Deixou que as horas m ovim entadas do dia se escoassem com as claridades do poente e, quando o crepúsculo entornava as suas m eias-tintas na paisagem m aravilhosa, saiu, fingindo distração e alheam ento, com o se desej asse conhecer de perto a antiga fonte da cidade, m otivo de atração para todos os forasteiros.

Após haver percorrido uns trezentos m etros de cam inho, encontrou transeuntes e pescadores, que se recolhiam e o encaravam com m al disfarçada curiosidade.

Um a hora passou sobre as suas am argas cogitações íntim as. Um velário im enso de som bras invadia toda a região, cheia de vitalidade e de perfum es.

Onde estaria o profeta de Nazaré naquele instante? Não seria um a ilusão a história dos seus m ilagres e da sua encantadora m agia sobre as alm as? Não seria um absurdo procurá-lo ao longo dos cam inhos, abstraindo-se dos im perativos da hierarquia social? Em todo caso, deveria tratar-se de hom em sim ples e ignorante, dada a sua preferência por Cafarnaum e pelos pescadores.

Dando curso às idéias que lhe fluíam da m ente incendiada e abatida, Públio Lentulus considerou dificílim a a hipótese do seu encontro com o m estre de Nazaré.

Com o se entenderiam ?

Não lhe interessara o conhecim ento m inucioso dos dialetos do povo e, certam ente, Jesus lhe falaria no aram aico com um ente usado na bacia de Tiberíades.

Profundas cism as entornavam -lhe do cérebro para o coração, com o as som bras do crepúsculo que precediam a noite.

O céu, porém , àquela hora, era de um azul m aravilhoso, enquanto as claridades opalinas do luar não haviam esperado o fecham ento absoluto do leque im enso da noite.

O senador sentiu o coração perdido num abism o de cogitações infinitas, ouvindo-lhe o palpitar descom passado no peito opresso. Dolorosa em oção lhe com pungia agora as fibras m ais íntim as do espírito. Apoiara-se, insensivelm ente, num banco de pedras enfeitado de silvas, e deixara-se ali ficar, sondando o ilim itado do pensam ento.

Nunca experim entara sensação idêntica, senão no sonho m em orável, relatado unicam ente a Flam ínio.

Recordava-se dos m enores feitos da sua vida terrestre, afigurando-se-lhe haver abandonado, tem porariam ente, o cárcere do corpo m aterial. Sentia profundo êxtase, diante da Natureza e das suas m aravilhas, sem saber com o expressar a adm iração e reconhecim ento aos poderes celestes, tal a clausura em que sem pre m antivera o coração insubm isso e orgulhoso.

Das águas m ansas do lago de Genesaré parecia-lhe em anarem suavíssim os perfum es, casando-se deliciosam ente ao arom a agreste da folhagem .

Foi nesse instante que, com o espírito com o se estivesse sob o im pério de estranho e suave m agnetism o, ouviu passos brandos de alguém que buscava aquele sítio.

Diante de seus olhos ansiosos, estacara personalidade inconfundível e única. Tratava-se de um hom em ainda m oço, que deixava transparecer nos olhos, profundam ente m isericordiosos, um a beleza suave e indefinível. Longos e sedosos cabelos m olduravam -lhe o sem blante com passivo, com o se fossem fios castanhos, levem ente dourados por luz desconhecida. Sorriso divino, revelando ao m esm o tem po bondade im ensa e singular energia, irradiava da sua m elancólica e m aj estosa figura um a fascinação irresistível.

Públio Lentulus não teve dificuldade em identificar aquela criatura im pressionante, m as, no seu coração m arulhavam ondas de sentim entos que, até então, lhe eram ignorados. Nem a sua apresentação a Tíbério, nas m agnificências de Capri, lhe havia im prim ido tal em otividade ao coração. Lágrim as ardentes rolaram -lhe dos olhos, que raras vezes haviam chorado, e força m isteriosa e invencível fê-lo aj oelhar-se na relva lavada em luar. Desej ou falar, m as tinha o peito sufocado e opresso. Foi quando, então, num gesto de doce e soberana bondade, o m eigo Nazareno cam inhou para ele, qual visão concretizada de um dos deuses de suas antigas crenças, e, pousando carinhosam ente a destra em sua fronte, exclam ou em linguagem encantadora, que Públio entendeu perfeitam ente, com o se ouvisse o idiom a patrício, dando-lhe a inesquecível im pressão de que a palavra era de espírito para espírito, de coração para coração:

- Senador, porque m e procuras? - e, espraiando o olhar profundo na paisagem , com o se desej asse que a sua voz fosse ouvida por todos os hom ens do planeta, rem atou com serena nobreza: - Fôra m elhor que m e procurasses publicam ente e na hora m ais clara do dia, para que pudesses adquirir, de um a só vez e para toda a vida, a lição sublim e da fé e da hum ildade... Mas, eu não vim ao m undo para derrogar as leis suprem as da Natureza e venho ao encontro do teu coração desfalecido!...

Públio Lentulus nada pôde exprim ir, além das suas lágrim as copiosas, pensando am argam ente na filhinha; m as o profeta, com o se prescindisse das suas palavras articuladas, continuou:

- Sim ... não venho buscar o hom em de Estado, superficial e orgulhoso, que só os séculos de sofrim ento podem encam inhar ao regaço de m eu Pai; venho atender às súplicas de um coração desditoso e oprim ido e, ainda assim , m eu am igo, não é o teu sentim ento que salva a filhinha leprosa e desvalida pela ciência do m undo, porque tens ainda a razão egoística e hum ana; é, sim , a fé e o am or de tua m ulher, porque a fé é divina... Basta um raio só de suas energias poderosas para que se pulverizem todos os m onum entos das vaidades da Terra...

Com ovido e m agnetizado, o senador considerou, intim am ente, que seu espírito pairava num a atm osfera de sonho, tais as com oções desconhecidas e im previstas que se lhe represavam no coração, querendo crer que os seus sentidos reais se achavam travados num j ogo incom preensível de com pleta ilusão.

- Não, m eu am igo, não estás sonhando... - exclam ou m eigo e enérgico o Mestre, adivinhando-lhe os pensam entos. - Depois de longos anos de desvio do bom cam inho, pelo sendal dos erros clam orosos, encontras, hoj e, um ponto de referência para a regeneração de toda a tua vida.

Está, porém , no teu querer o aproveitá-lo agora, ou daqui a alguns m ilênios... Se o desdobram ento da vida hum ana está subordinado às circunstâncias, és obrigado a considerar que elas existem de toda a natureza, cum prindo às criaturas a obrigação de exercitar o poder da vontade e do sentim ento, buscando aproxim ar seus destinos das correntes do bem e do am or aos sem elhantes.

Soa para teu espírito, neste m om ento, um m inuto glorioso, se conseguires utilizar tua liberdade para que sej a ele, em teu coração, doravante, um cântico de am or, de hum ildade e de fé, na hora indeterm inável da redenção, dentro da eternidade...

Mas, ninguém poderá agir contra a tua própria consciência, se quiseres desprezar indefinidam ente este m inuto ditoso!

Pastor das alm as hum anas, desde a form ação deste planeta, há m uitos m ilênios venho procurando reunir as ovelhas tresm alhadas, tentando trazer-lhes ao coração as alegrias eternas do reinado de Deus e de sua j ustiça!

Públio fitou aquele hom em extraordinário, cuj o desassom bro provocava adm iração e espanto.

Hum ildade? que credenciais lhe apresentava o profeta para lhe falar assim , a ele senador do Im pério, revestido de todos os poderes diante de um vassalo?

Num m inuto, lem brou a cidade dos césares, coberta de triunfos e glórias, cuj os m onum entos e poderes acreditava, naquele m om ento, fossem im ortais.

- Todos os poderes do teu im pério são bem fracos e todas as suas riquezas bem m iseráveis.

As m agnificências dos césares são ilusões efêm eras de um dia, porque todos os sábios, com o todos os guerreiros, são cham ados no m om ento oportuno aos tribunais da j ustiça de m eu Pai que está no Céu. Um dia, deixarão de existir as suas águias poderosas, sob um punhado de cinzas m isérrim as. Suas ciências se transform arão ao sopro dos esforços de outros trabalhadores m ais dignos do progresso, suas leis iníquas serão tragadas no abism o tenebroso destes séculos de im piedade, porque só um a lei existe e sobreviverá aos escom bros da inquietação do hom em - a lei do am or, instituída por m eu Pai, desde o princípio da criação...

Agora, volta ao lar, consciente das responsabilidades do teu destino...

Se a fé instituiu na tua casa o que consideras a alegria com o restabelecim ento de tua filha, não te esqueças que isso representa um agravo de deveres para o teu coração, diante de nosso Pai, Todo Poderoso!...

O senador quis falar, m as a voz tornara-se-lhe em bargada de com oção e de profundos sentim entos.

Desej ou retirar-se, porém , nesse m om ento, notou que o profeta de Nazaré se transfigurava, de olhos fitos no céu...

Aquele sítio deveria ser um santuário de suas m editações e de suas preces, no coração perfum ado da Natureza, porque Públio adivinhou que ele orava intensam ente, observando que lágrim as copiosas lhe lavavam o rosto, banhado então por um a claridade branda, evidenciando a sua beleza serena e indefinível m elancolia..

Nesse instante, contudo, suave torpor paralisou as faculdades de observação do patrício, que se aquietou estarrecido.

Deviam ser vinte e um a horas, quando o senador sentiu que despertava.

Leve aragem acariciava-lhe os cabelos e a Lua entornava seus raios argênteos no espelho carinhoso e im enso das águas.

Guardando na m em ória os m ínim os porm enores daquele m inuto inesquecível, Públio sentiu-se hum ilhado e dim inuído, em face da fraqueza de que dera testem unho diante daquele hom em extraordinário.

Um a torrente de idéias antagônicas represava-se-lhe no cérebro, acerca de suas adm oestações e daquelas palavras agora arquivadas para sem pre no âm ago da sua consciência.

Tam bém Rom a não possuía os seus feiticeiros? Buscou rem em orar todos os dram as m isteriosos da cidade distante, com as suas figuras im pressionantes e incom preensíveis.

Não seria aquele hom em um a cópia fiel dos m agos e adivinhos que preocupavam igualm ente a sociedade rom ana?

Deveria ele, então, abandonar as suas m ais caras tradições de pátria e fam ília para tornar-se um hom em hum ilde e irm ão de todas as criaturas? Sorria consigo m esm o, na sua presum ida superioridade, exam inando a inanidade daquelas exortações que considerava desprezíveis. Entretanto, subiam -lhe do coração ao cérebro outros apelos com ovedores. Não falara o profeta da oportunidade única e m aravilhosa? Não prom etera, com firm eza, a cura da filhinha à conta da fé ardente de Lívia?

Mergulhado nessas cogitações íntim as, abriu cautelosam ente a porta da residência, encam inhando-se ansioso ao quarto da enferm a e, oh! suave m ilagre! a filhinha repousava nos braços de Lívia, com absoluta serenidade.

Sobre-hum ana e desconhecida força m itigara-lhe os padecim entos atrozes, porque seus olhos deixavam entrever um a doce satisfação infantil, ilum inando-lhe o sem blante risonho. Lívia contou-lhe, então, cheia de j úbilo m aternal, que, em dado m om ento, a pequenina dissera experim entar na fronte o contato de m ãos carinhosas, sentando-se em seguida no leito, com o se um a energia m isteriosa lhe vitalizasse o organism o de m aneira im prevista. Alim entara-se, a febre desaparecera contra todas as expectativas; ela j á revelava atitudes de convalescente palestrando com a m ãezinha, com a graça espontânea da sua m eninice.

Term inado o relato, a j ovem senhora concluiu com entusiasm o: - Desde que saíste, eu e Ana oram os com fervor j unto da nossa doentinha, im plorando ao profeta que atendesse ao teu apelo, ouvindo os nossos rogos e, agora, eis que a nossa filhinha se restabelece!... Poderá, querido, haver felicidade m aior do que esta?... Ah! Jesus deve ser um em issário direto de Júpiter, enviado a este m undo gloriosa m issão de am or e de alegria para todas as alm as!...

Ana, porém , que escutava com ovida, interveio num gesto espontâneo e incoercível, oriundo da grata satisfação daquele m om ento.

- Não, m inha senhora!... Jesus não vem da parte de Júpiter. Ele é o Filho de Deus, seu Pai e nosso Pai que está nos céus, e cuj o coração está sem pre cheio de bondade e m isericórdia para todos os seres, conform e o Mestre nos ensina. Louvem os, pois, o Todo-Poderoso, pela graça recebida, agradecendo a Jesus com um a prece de hum ildade...

Públio Lentulus acom panhou a cena, em silêncio, intim am ente contrariado, com o verificar a intim idade estreita de sua m ulher com um a sim ples serva da casa. Observou, com profundo desagrado, não só a espontaneidade da gratidão entusiástica de Lívia, com o a introm issão de Ana na conversa, o que considerava ousadia. Num relance, m obilizou todas as reservas do seu orgulho para restabelecer a disciplina interna da sua casa, e, retom ando o aspecto altivo da sua expressão fisionôm ica, dirigiu-se secam ente à esposa.

- Lívia, torna-se preciso que te coíbas destes arrebatam entos! Afinal, não vej o nada de extraordinário no que acaba de ocorrer. Nada tem faltado à nossa doente, no tocante ao tratam ento e cuidados necessários, e era lógico que esperássem os um a reação salutar do organism o, em face da nossa continuada assistência.

Quanto a ti, Ana - disse, voltando-se com arrogância para a serva intim idada -, acredito j á cum prida a m issão que te fazia dem orar neste quarto, porquanto, considerando as m elhoras da m enina, não vej o necessidade da tua perm anência j unto da patroa, que trouxe de Rom a as servas do seu serviço pessoal.

Ana fitou com pungidam ente a senhora, que m ostrava no rosto os sinais evidentes da sua am argura pelo im previsto daquelas palavras intem pes, e, fazendo ligeira e respeitosa m esura, saiu do aposento onde havia em pregado as m elhores energias da sua fraternal abnegação.

- Que é isso, Públio? - perguntou Lívia, fundam ente com ovida. Justam ente agora, quando deveríam os m ostrar à dedicada serva a alegria do nosso reconhecim ento, procedes com sem elhante aspereza?

- Tuas infantilidades obrigam -m e a fazê-lo. Que dirão da m atrona que se dá de alm a aberta às suas escravas m ais hum ildes? Com o se haverá o teu coração com estes excessos de confiança? Noto com desgosto que entre nós existem , agora, profundas divergências. Porque essa dem asiada confiança no profeta de Nazaré, quando ele não é superior aos m agos e feiticeiros de Rom a? E, além disso, onde colocas as tradições de nossas divindades fam iliares, se não sabes guardar a fé em torno do altar dom éstico?

- Não concordo contigo, querido, nestas ponderações. Tenho plena convicção de que a nossa Flávia foi curada por esse hom em extraordinário... No instante de sua m elhora súbita, quando ela nos falava das m ãos sublim adas que a acariciavam , vi, com os m eus olhos, que o leito da doentinha estava saturado de luz diferente, com o nunca havia visto, até então...

- Luz diferente? Certo desvairas, depois de tantas fadigas; ou então estás contagiada das alucinações deste povo de fanáticos, em cuj o seio tivem os a pouca sorte de cair...

- Não, m eu am igo, não se trata de desvario. Não obstante as tuas palavras, que reconheço partidas do coração que m ais adoro e adm iro na Terra, tenho a certeza de que o Mestre de Nazaré acaba de curar nossa filhinha; e, quanto a Ana, querido, acho inj usta a tua atitude, aliás, em desacordo com a tua proverbial generosidade com os servos de nossa casa. Não podem os nem devem os esquecer que ela tem sido de um a dedicação a toda prova, j unto de m im e de nossa filha, nestes lugares erm os. Outras podem ser as suas crenças, m as presum o que a sua conduta honesta e santificante só pode honrar o serviço de nossa casa.

O senador considerou a elevação dos conceitos da m ulher, sentindo-se arrependido do seu ato de im pulsividade, e capitulou diante do bom -senso daquelas palavras.

- Está bem , Lívia, aprecio-te a nobreza do coração e estim arei a continuidade de Ana nos teus serviços privados; m as, não transij o no caso da cura de nossa filhinha. Não adm ito que se atribua ao m ago de Nazaré o restabelecim ento da m esm a. Quanto ao m ais, deverás lem brar, sem pre, que m e apraz saber só a m im reservada a tua confiança e intim idade. A servos ou desconhecidos não deve o patrício, e com especialidade a m atrona rom ana abrir as portas do coração.

- Sabes com o acato as tuas ordens - disse-lhe a esposa, m ais confortada, dirigindo-lhe um olhar carinhoso e agradecido - e peço-te perdoar-m e se te ofendi a alm a generosa e sensível!...

- Não, m inha querida, se existe aqui um problem a de perdão, sou eu quem devo pedi-lo, m as não desconheces que esta região m e atorm enta e apavora. Sinto-m e confortado, reconhecendo a reação benéfica da natureza orgânica da nossa filhinha, porque isto significa o nosso regresso a Rom a em tem po breve. Esperarem os, apenas, m ais alguns dias, e am anhã m esm o pedirei a Sulpício iniciar as providências para a nossa volta.

Lívia concordou com as observações do m arido, acariciando a filhinha reanim ada e refeita do abatim ento profundo que a prostrara por espaço de m uitos dias. Intim am ente, agradecia, satisfeita, a Jesus, pois falava-lhe o coração que o acontecim ento era um a bênção que o Pai dos Céus lhe enviara ao espírito m aternal, através das m ãos caridosas e santas do Mestre.

Públio, contudo, obedecendo ao im pulso de suas vaidades pessoais, não desej ava recordar a figura extraordinária que tivera ante os olhos deslum brados. Arquitetava castelos de teorias na sua im aginação superexcitada, para afastar a interferência direta daquele hom em no caso da cura da filhinha, respondendo, assim , às obj eções do seu próprio espírito de observador e analista m eticuloso.

Não podia esquecer que o profeta o envolvera em . forças ignoradas, em udecendo-lhe a voz e fazendo-o aj oelhar-se, doendo-lhe ao orgulho despótico essa circunstância, considerada com o dolorosa hum ilhação.

Idéias m artirizantes povoavam -lhe o cérebro exausto de tantas lutas interiores e, depois de um a invocação aos gênios protetores da fam ília, no altar dom éstico, buscou repousar das am argas fadigas íntim as.

Naquela noite, todavia, sua alm a experim entava as m esm as recordações da existência pregressa, nas asas em baladoras do sonho.

Viu-se vestido com as m esm as insígnias de Cônsul ao tem po de Cícero, reviu as atrocidades praticadas por Públio Lentulus Sura, sua expulsão do Consulado, as reuniões secretas de Lúcio Sergius Catilina, as perversidades revolucionárias, sentindo-se de novo levado à presença daquele m esm o tribunal de j uízes austeros e venerandos, que no sonho anterior lhe haviam notificado o seu renascim ento na Terra, em época de grandes claridades espirituais.

Diante daqueles m agistrados veneráveis, ostentando togas alvas de neve, experim entou am arga sensação de angústia, batendo-lhe descom passadam ente o coração.

O m esm o j uiz respeitável levantou-se, no am biente sublim ado de luzes espirituais, exclam ando:

- Públio Lentulus, porque desprezaste o m inuto glorioso, com o qual poderias ter com prado a hora interm inável e radiosa da tua redenção na eternidade?

Estiveste, esta noite, entre dois cam inhos - o do servo de Jesus e o do servo do m undo. No prim eiro, o j ugo seria suave e o fardo leve; m as, escolheste o segundo, no qual não existe am or bastante para lavar toda a iniquidade... Prepara-te, pois, para trilhá-lo com destem or, porque preferiste o cam inho m ais escabroso, em que faltam as flores da hum ildade, para atenuar o rigor dos espinhos venenosos!...

Sofrerás m uito, porque nessa estrada o j ugo é inflexível e o fardo pesadíssim o; m as agiste com liberdade de consciência, no j ogo am plo das circunstâncias de tua vida... Conduzido a um a oportunidade m aravilhosa, perseveraste no propósito de percorrer a via am arga e dolorosa das provações m ais ríspidas e m ais agudas.

Não te condenam os, para tão som ente lam entar o endurecim ento do teu espírito em face da verdade e da luz! Retem pera todas as fibras do teu "eu", pois enorm e há-de ser, doravante, a tua luta!...

Ouvia, atento, aquelas exortações com ovedoras, m as, nesse instante, despertou para a" sensações da vida m aterial, experim entando singular abatim ento psíquico, a par de tristeza indefinível.

Ainda cedo, sua atenção foi reclam ada por Lívia, que lhe apresentava a pequena Flávia, convalescente e feliz. A epiderm e com o que se alisara, subm etida a processo terapêutico desconhecido e m aravilhoso, desaparecendo os tons violáceos que, anteriorm ente, precediam as rosas de chaga viva.

O senador recuperou algum a coisa da sua serenidade íntim a, com o verificar as m elhoras positivas da filhinha, que apertou am orosam ente de encontro ao coração, exclam ando m ais tranquilo:

- Lívia, é bem verdade que ontem , à noite, estive com o cham ado m estre de Nazaré, m as, com a lógica da m inha educação e dos m eus conhecim entos, não posso adm itir sej a ele o autor do restabelecim ento de nossa filha.

E, de seguida, passou a relatar de m odo superficial os acontecim entos que j á conhecem os, sem referir. todavia, os porm enores que m ais o im pressionaram .

Lívia ouviu atenciosam ente a narrativa, m as, notando-lhe as íntim as disposições para com o profeta, que ela considerava criatura superior e venerável, não quis externar seu pensam ento em torno do assunto, receosa de um atrito de opiniões, inoportuno e inj ustificável. No seu coração, agradecia àquele Jesus carinhoso e com passivo, que lhe atendera às angustiosas súplicas m aternais e, no im o dalm a, acariciava a esperança de beij ar-lhe a fím bria da túnica, com hum ildade, em testem unho do seu sincero reconhecim ento, antes de regressar a Rom a.

Quatro dias decorridos, a enferm a apresentava sinais evidentes de seguro restabelecim ento físico, dando m otivo ao m ais am plo j úbilo de todos os corações.

Em radiosa m anhã, vam os encontrar a j ovem Lívia acalentando o filhinho, prestes a com pletar um ano, e instruindo a criada de nom e Sêm ele, de origem j udia, designada para velar pela criancinha, tal o interesse que dem onstrara pelo pequenino Marcus, desde o instante de sua adm issão ao serviço. Em dado m om ento, exclam a a serva, apontando para o largo cam inho em pedrado:

- Senhora, lá vêm dois cavaleiros desconhecidos, a todo galope. Ouvindo-lhe a observação, Lívia pôde vê-los, igualm ente, ao longo da estrada am pla, e logo se foi para o interior, a fim de prevenir o m arido.

Efetivam ente, daí a m inutos estacavam à porta dois cavalos suados e ofegantes. Um hom em traj ado à rom ana, em com panhia de um guia j udeu, apeava rápido e bem disposto.

Tratava-se de Quirilius, liberto de confiança de Flam ínio Severus, que vinha, em nom e do patrão, trazer a Públio e fam ília algum as noticias e num erosas lem branças.

Essa surpresa am ável encheu o dia de gratas recordações e sadios prazeres, m otivando horas das m ais inefáveis alegrias. O nobre patrício não esquecera os am igos distantes, e, entre as notícias confortadoras e considerável rem essa de dinheiro, vieram doces lem branças de Calpúrnia, endereçadas a Lívia e aos dois fílhinhos.

Naquele dia, Públio Lentulus ocupou-se tão som ente de encher num erosos rolos de pergam inho, para m andar ao com panheiro de luta notícias m inuciosas de todas as ocorrências. Entre elas estava a boa-nova do restabelecim ento da filhinha, atribuído ao clim a adorável da Galileia. Mas, com o possuía naquele valoroso descendente dos Severus um a alm a de irm ão dedicado e fiel, a cuj o coração j am ais deixara de confiar as m ais recônditas em oções do seu espírito, escreveu-lhe longa carta, em suplem ento. com vistas ao Senado Rom ano, sobre a personalidade de Jesus-Cristo, encarando-a serenam ente, sob o estrito ponto de vista hum ano sem nenhum arrebatam ento sentim ental. E, por fim , Públio e Lívia anunciavam alegrem ente, aos seus am igos distantes, que retornariam a Rom a possivelm ente dentro de um m ês, dado o perfeito restabelecim ento da pequena Flávia.

Term inado o longo expediente, j á era tarde; m as, nesse m esm o dia, ao cair da noite, quando os dois esposos se entretinham no triclínio a reler as doces palavras dos queridos ausentes, tecendo as esperanças risonhas do breve regresso, eis que Sulpício se faz anunciar em com panhia de um m ensageiro de Pilatos.

Atendendo-os no gabinete particular, o senador recebe a visita do em issário, que se lhe dirige, respeitosam ente, nestes term os:

- Ilustríssim o, o senhor governador da Judeia participa-vos haver chegado à sua residência dos arredores de Nazaré, onde espera o grato prazer de vossas ordens e notícias.

- Agradecido! - replicou Públio, bem hum orado, acrescentando: Ainda bem que o senhor procurador não está distante, ensej ando-m e pouca dem ora em Jerusalém , no m eu regresso a Rom a em breves dias!...

Algum as expressões protocolares foram trocadas, m as Públio Lentulus não reparou nas atitudes de Sulpício, que lhe deitava olhares significativos.