Há Dois Mil Anos

Chico Xavier · Capítulo 10 de 21

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Há Dois Mil Anos

IX A calúnia vitoriosa

 

Se Jesus de Nazaré havia sido abandonado por seus discípulos e seguidores m ais diretos, o m esm o não se verificara quanto ao grande núm ero de criaturas hum ildes que o acom panhavam com devoção purificada e sincera.

É verdade que essas alm as, raras, não revelaram francam ente as suas sim patias perante a turba desvairada, tem endo-lhe as sanhas destruidoras, m as, m uitos espíritos piedosos, com o Ana e Sim eão, contem plaram de perto os m artírios do Senhor sob o açoite infam ante, cheios de lágrim as angustiosas e esperando que, a cada m om ento, se pudesse m anifestar a j ustiça de Deus contra a perversidade dos hom ens, a favor do Messias.

Contudo, esvaeceram -se-lhes as derradeiras esperanças, quando, sob o peso da cruz, o supliciado cam inhou a passos cam baleantes, para o m onte da últim a inj úria, depois de confirm ada a ignóbil sentença.

Foi assim que Ana e seu tio, reconhecendo inevitável o m artírio da crucificação, deliberaram seguir para a residência de Públio, para suplicar o patrocínio de Lívia, j unto ao governador.

Enquanto o cortej o sinistro e im pressionante se punha em m archa nos seus m ovim entos vagarosos, am bos se desviaram da m assa, encam inhando-se por um a viela ensolarada, em busca do alm ej ado socorro.

Penetrando na residência, enquanto Sim eão a esperava, pacientem ente, num a calçada próxim a, dirige-se Ana à esposa do senador, que a recebeu surpresa e angustiada.

- Senhora - diz, m al ocultando as lágrim as -, o profeta de Nazaré j á está a cam inho da m orte ignom iniosa na cruz, entre os ladrões!...

Um a em oção m ais forte em bargara-lhe a voz, sufocada de pranto. - Com o? -respondeu Lívia, penosam ente surpreendida - se a prisão data de tão poucas horas?

- Mas é a verdade... - revidou a serva, com pungida. - E em nom e daqueles m esm os sofredores que vistes consolados pela sua palavra carinhosa e am iga, Junto às águas do Tiberíades, eu e m eu tio Sim eão vim os im plorar o vosso auxílio pessoal perante o governador, a fim de fazerm os um esforço derradeiro pelo Messias!...

- Mas, um a condenação com o essa, sem estudo, sem exam e, é lá possível? Vive, então, aqui este povo sem outra lei que não a da barbaria? - exclam ou a senhora, visivelm ente revoltada com a inopinada notícia.

Com o se desej asse arrancá-la a qualquer divagação incom patível com o m om ento, a serva insistiu com decisão e am argura:

- Entretanto, senhora, não podem os perder um m inuto. - Antes de tudo, porém , eu precisava consultar m eu m arido sobre o assunto... m onologou a esposa do senador, recordando-se, repentinam ente, dos seus deveres conj ugais.

Onde estaria Públio naquele instante? Desde a m anhã, não regressara a casa, após o cham ado insistente de Pilatos. Teria colaborado na condenação do Messias? Num relance, a pobre senhora exam inou toda a situação nos seus m ínim os detalhes, recordando, igualm ente, os bens infinitos que o seu coração havia recebido das m ãos caridosas e com placentes do Mestre Nazareno, e, com o se estivesse ilum inada por um a força superior que lhe fazia esquecer todas as questões transitórias da Terra, exclam ou com heróica resolução:

- Está bem , Ana, irei em tua com panhia pedir a proteção de Pilatos para o profeta.

Esperar-m e-ás um m om ento, enquanto vou retom ar aqueles traj es galileus que m e serviram naquela tarde de Cafarnaum , dirigindo-m e, deste m odo, ao governador, sem provocar a atenção da turbam ulta desenfreada.

Em poucos m inutos, sem refletir nas consequências da sua desesperada atitude, Lívia estava na rua, novam ente enfiada nos traj es sim ples da gente pobre da Galileia, trocando am arguradas im pressões com o ancião de Sam aria e sua sobrinha, acerca dos dolorosos acontecim entos.

Aproxim ando-se da sede do governo provincial, seu coração palpitou com m ais força, obrigando-a a m ais dem orados pensam entos.

Não seria um a tem eridade da sua parte procurar o governador, sem prévio conhecim ento do m arido? Mas, tudo não fizera ela, em vão, para aproxim ar-se do esposo arredio e irritado, de m aneira a reerguer sua antiga confiança? E Pilatos? Na sua im aginação, guardava ainda os porm enores das am argas com oções daquela noite em que lhe fôra ele m ais franco, quanto aos sentim entos inconfessáveis que a sua figura de m ulher lhe havia inspirado

Lívia hesitou ao penetrar num dos ângulos da grande praça, agora adorm ecida por um sol causticante, de brasas vivas.

Seu raciocínio contrariava a atitude que assum ira aos apelos da serva, que representava, aos seus olhos, a súplica angustiada de inúm eros espíritos desvalidos; seu coração, porém , sancionava plenam ente aquele derradeiro esforço em favor do em issário celeste que lhe havia curado as chagas da filhinha, enchendo de tranquilidade inalterável o seu coração atorm entado de esposa e m ãe, tantas vezes incom preendido. Além disso, nesse conflito interior da razão e do sentim ento, este últim o lhe fazia lem brar que Jesus, nas m argens do lago, lhe falara de am argurados sacrifícios pela sua grande causa, e não seria aquela a hora sagrada da gratidão de sua fé ardente e do seu testem unho de reconhecim ento? Aliviada pela íntim a satisfação do cum prim ento do seu carinhoso dever, avançou então, desassom bradam ente, deixando os dois com panheiros à sua espera, num dos largos recantos da praça, enquanto procurava ganhar as adj acências do edifício, com ligeiro desem baraço.

Batia-lhe o coração descom passadam ente.

Com o encontrar o governador da Judeia àquela hora? Um sol ardente concentrava, em tudo, calor intolerável e sufocante.

O cortej o, em dem anda do Gólgota, partira havia quase um a hora e o palácio parecia agora m ergulhado num a atm osfera de silêncio e de sono, após as penosas confusões daquele dia.

Apenas alguns centuriões m ontavam guarda ao edifício e, quando Lívia alcançou m enor distância das portas principais de acesso ao interior, eis que se lhe depara a figura de Sulpício, a quem se dirigiu com o m áxim o de confiança e de inocência, pedindo-lhe o obséquio de solicitar um a audiência privada e im ediata ao governador, em seu nom e. a fim de falar-lhe quanto à dolorosa situação de Jesus de Nazaré.

O lictor m irou-a de alto a baixo com o olhar de lascívia e cupidez que lhe eram características e, crendo piam ente nas relações ilícitas daquela m ulher com o Procurador da Judeia, em virtude de suas observações pessoais, por coincidências que se lhe figuravam a realidade perfeita daquela suposta prevaricação, presum iu, naquele ato insólito, não o m otivo apresentado, que lhe pareceu ótim o pretexto para afastar quaisquer desconfianças, m as o obj etivo de se encontrar com o hom em de suas preferências.

Criatura ignóbil, de que se utilizava o governador para instrum ento de suas paixões m alignas, entendeu que sem elhante entrevista deveria ser levada a efeito na m aior intim idade, e, sabendo que Públio Lentulus ainda lá se encontrava em anim ada palestra com os com panheiros, conduziu Lívia a um gabinete perfum ado, onde se alinhavam preciosos vasos de arom as do Oriente, saturados de fluidos sutis e entontecedores, e onde Pilatos recebia, por vezes, a visita furtiva das m ulheres de conduta equívoca, convidadas a participar dos seus licenciosos prazeres.

Ignorando, por com pleto, o m ecanism o de circunstâncias que a conduziam a um a penosíssim a situação, Lívia acom panhou o lictor ao gabinete aludido, onde, em bora estranhando a suntuosidade extravagante do am biente, se dem orou alguns m inutos, a sós, aguardando ansiosam ente o instante de im plorar, de viva voz, ao procurador da Judeia a sua prestigiosa interferência a favor do generoso Messias de Nazaré.

Nem ela, nem Sulpício, todavia, chegaram a perceber que uns olhos perscrutadores os acom panharam com profundo interesse, desde o exterior do edifício ao gabinete privado a que nos referim os.

Era Fúlvia, que, conhecendo sem elhante apartam ento do palácio, surpreendera a esposa do senador, sob o disfarce daquela túnica hum ilde, da vida rural, enchendo-se-lhe o coração de pavorosos ciúm es, ao verificar aquela visita inesperada.

Enquanto Sulpício Tarquinius fazia um sinal fam iliar ao governador, a que este atendeu de pronto, indo im ediatam ente ao seu encontro num vasto corredor, onde m urm uraram am bos algum as palavras em tom discreto, cientificando-se Pilatos da alm ej ada entrevista em particular, aquela m aliciosa criatura dem andava alcovas do seu íntim o conhecim ento, de m aneira a certificar-se, positivam ente, através dos reposteiros, da presença de Lívia na câm ara privada do governador, destinada às suas expansões licenciosas.

Certificada, em absoluto, do acontecim ento, a caluniadora antegozou o instante em que tom aria Públio pelas m ãos, a fim de conduzi-lo à visão direta do suposto adultério de sua m ulher e, quando regressava ao vasto salão, deixando transparecer levem ente a satisfação sinistra da sua alm a, ainda ouviu Pilatos exclam ar com delicadeza para os seus convidados:

- Meus am igos, espero m e concedam alguns m inutos para atender a um a entrevista privada e urgente, que eu não esperava neste m om ento. Acredito que, consum ada a condenação do Messias de Nazaré, batem j á a estas portas os que não tiveram coragem para defendê-lo publicam ente, no m om ento oportuno!. . Vam os ver!

E retirando-se com o assentim ento unânim e dos presentes, o governador atingia o gabinete reservado, onde, em inentem ente surpreendido, encontrou o vulto nobre de Lívia, m ais bela e m ais sedutora naqueles traj es despretensiosos e sim ples, e que lhe falou nestes term os:

- Senhor governador, em bora sem o consentim ento prévio de m eu m arido, resolvi chegar até aqui, em virtude da urgência do assunto, a suplicar o vosso am paro político para a absolvição do profeta de Nazaré. Hom em hum ilde e bom , caridoso e j usto, que m al teria praticado para m orrer assim , de m orte aviltante, entre dois ladrões? É por isso que, conhecendo-o pessoalm ente e tendo-o na conta de um inspirado do céu, ouso invocar as vossas qualidades de hom em público, em favor do acusado!...

Sua voz era trêm ula, indicando as em oções que lhe iam nalm a. - Senhora -respondeu Pilatos, fazendo o possível para sensibilizar e seduzir-lhe o coração com a fingida ternura de suas palavras -, tudo fiz para evitar a Jesus a m orte no m adeiro infam ante, vencendo todos os m eus escrúpulos de hom em de governo, m as, infelizm ente, tudo está consum ado. Nossa legislação foi vencida pelas iras da m ultidão delinquente, nas explosões inj ustificadas do seu ódio incom preensível.

- Então, não é licito esperarm os nenhum a providência m ais a beneficio desse hom em caridoso e j usto, condenado com o vulgar m alfeitor? Será ele, então, crucificado pelo crim e de praticar a caridade e plantar a fé no coração dos seus sem elhantes, que ainda não sabem adquiri-la por si próprios?

- Infelizm ente, assim é... - replicou Pilatos, contrafeito. - Tudo fizem os a fim de evitar os desatinos da plebe am otinada, m as os m eus escrúpulos não conseguiram vencer, sendo obrigado a confirm ar a pena de Jesus, a contragosto.

Por um m om ento, entregou-se Lívia às suas m editações dolorosas, com o se estivesse inquirindo, a si m esm a, qualquer providência nova a adotar sem perda de um m inuto.

Quanto ao governador, depois de im prim ir um a pausa às suas palavras, deixou que os instintos do hom em surgissem , plenam ente, naquelas circunstâncias.

Aquele dia havia sido de lutas penosas e intensas. Singular abatim ento físico lhe dom inava os centros m ais poderosos da força orgânica, m as, diante dos seus olhos habituados à conquista e, m uitas vezes, aos recursos da própria crueldade, estava aquela m ulher, que lhe resistira... Poderosa algem a parecia im antá-lo à sua personalidade sim ples e carinhosa, e ele, m ais que nunca, desej ou possuí-la, tornando-a, com o as outras, um instrum ento de suas transitórias paixões. O am biente, sobretudo, conturbava-lhe as fontes m ais puras do raciocínio. Aquele gabinete era destinado, exclusivam ente, às suas extravagâncias noturnas, e fluidos entontecedores pairavam em todos os seus escaninhos, em botando os m ais nobres pensam entos.

Via a m ulher am bicionada, perdida por alguns segundos em graciosas cism as, diante da sua presença dom inadora.

Aquela graça sim ples, saturada de generosidade quase infantil e aliada aos olhos lím pidos e profundos de m adona do lar, obscureceu-lhe o cavalheirism o que, por vezes, aflorava no m odo brusco das suas inj ustiças e crueldades de hom em da vida particular e da vida pública.

Avançando com o tom ado por força incoercível, exclam ou inopinadam ente, fazendo-lhe sentir o perigo da posição em que se colocara:

- Nobre Lívia - com eçou ele, na inquietação de seus im puros pensam entos -, nunca m ais olvidei aquela noite, cheia de m úsicas e de estrelas, em que vos revelei pela prim eira vez a ardência do m eu coração apaixonado... Esquecei, por um m om ento, esses j udeus incom preensíveis e ouvi, ainda um a vez, a palavra sincera dos profundos sentim entos que m e inspirastes com as vossas virtudes e peregrina beleza!.

- Senhor!... - teve forças para exclam ar a pobre senhora, procurando aliviar-se da afronta.

Mas, o governador, com a ousadia dos hom ens im petuosos, não teve outro gesto senão o de obedecer aos seus caprichos im pulsivos, tom ando-lhe as m ãos, atrevidam ente.

Lívia, todavia, m ovim entando todas as suas energias, alcançou recursos para se desvencilhar dos seus braços longos e fortes, redarguindo, intrépida:

- Para trás, senhor! Acaso será esse o tratam ento de um hom em de Estado para com um a cidadã rom ana e esposa de um senador ilustre do Im pério? E, ainda que m e faltassem todos esses títulos, que m e deveriam dignificar aos vossos olhos cúpidos e desum anos, suponho que não deveríeis faltar, neste m om ento, com o com ezinho dever de cavalheirism o respeitoso, que qualquer hom em é obrigado a dispensar a um a m ulher!

O governador estacou ante aquele gesto heróico e im previsto, tão habituado estava ele aos m ais avançados processos de sedução.

A resistência daquela m ulher espicaçava os desej os de vencer-lhe o orgulho nobre e a virtude incorruptível.

Tinha ím petos de se atirar àquela criatura delicada e frágil, no turbilhão de lascívia e voluptuosidade que lhe obum bravam o raciocínio; no entanto, força incoercível parecia im por-se aos seus caprichos perigosos de apaixonado, inutilizando-lhe as forças necessárias à execução de sem elhante com etim ento.

Neste com enos, a esposa do senador, lançando-lhe um olhar doloroso onde se podia ler toda a. extensão do seu sofrim ento e do seu desprezo em face do ultraj e recebido, retirou-se profundam ente em ocionada, com o cérebro fervilhante dos m ais desencontrados pensam entos.

Antes, porém , que a vej am os sair do gabinete, som os obrigados a retroceder alguns m inutos, quando Fúlvia solicitou ao sobrinho de seu m arido o obséquio de um a palavra em particular, pondo-o ao corrente de tudo o que se passava.

O senador experim entou um choque terrível no coração, pressentindo que a prevaricação da m ulher estava prestes a confirm ar-se diante dos seus próprios olhos, e, contudo, hesitou ainda acreditar em sem elhante vilania.

- Lívia, aqui? - perguntou soturnam ente à esposa do tio, dando a entender, pela inflexão da voz, que tudo não passava de crim inosa calúnia.

- Sim - exclam ou Fúlvia, ansiosa por fornecer-lhe a prova tangível de suas asserções -, ela está em colóquio com o governador, no seu com partim ento privado, sem aj uizar da situação e das circunstâncias em que se verifica tal encontro, porque, afinal, Cláudia ainda está nesta casa e, perante a lei, m inha irm ã é a esposa legitim a de Pilatos, m al habituado com os costum es dissolutos da Corte, de onde foi enviado para cá em virtude de sérios incidentes desta m esm a natureza!

Públio Lentulus arregalou os olhos, na sua ingenuidade, dando guarida aos m ais horríveis sentim entos, intoxicando-se com o veneno da m ais acerba desconfiança, em vista de todas as circunstâncias operarem contra sua m ulher, em bora j ogasse ele no assunto com os m ais vastos cabedais da sua tolerância e liberalidade.

Sua atitude de expectativa revelava ainda o m áxim o de incredulidade, com respeito às acusações que ouvira, m as, observando a caluniadora o seu angustiado silêncio, acudiu ansiosa, exclam ando:

- Senador, acom panhai-m e através destas salas e vos entregarei a chave do enigm a, porquanto verificareis a leviandade de vossa esposa, com os vossos próprios olhos.

- Desvairais? - perguntou ele, com serenidade terrível. - Um chefe de fam ília da nossa estirpe social, a m enos que um a confiança m ais forte lhe outorgue esse direito, não deve conhecer as intim idades dom ésticas de um a casa que não sej a a sua própria.

Percebendo que o golpe falhara, voltou Fúlvia a exclam ar com a m esm a firm eza:

- Está bem , j á que não desej ais fugir aos vossos princípios, aproxim em o-nos de um a dessas j anelas. Daqui m esm o, podereis observar a veracidade de m inhas palavras, com a retirada de Lívia dos apartam entos privados deste palácio.

E quase a tom ar o interlocutor pelas m ãos, tal o abatim ento m oral que se apossara dele, a m ulher do pretor aproxim ou-se do parapeito de um a j anela próxim a, seguida pelo senador, que a acom panhava, cam baleante.

Não foram necessários outros argum entos que m elhor o convencessem .

Chegados ao local preferido de Fúlvia, com o posto de observação, em poucos segundos viram abrir-se a porta do gabinete indicado, ao m esm o tem po que Lívia se retirava, nos seus disfarces galileus, deixando transparecer na fisionom ia os sinais evidentes da sua em oção, com o se quisesse fugir de situação que a acabrunhava penosam ente.

Públio Lentulus sentiu a alm a dilacerada para sem pre. Considerou, num relance, que havia perdido todos os patrim ônios de nobreza social e política, de envolta com as aspirações m ais sagradas do seu coração. Diante da atitude de sua m ulher, considerada por ele com o indelével ignom inia que lhe infam ava o nom e para sem pre, supôs-se o m ais desventurado dos hom ens. Todos os seus sonhos estavam agora m ortos, e perdidas, terrivelm ente, todas as esperanças. Para o hom em , a m ulher escolhida representa a base sagrada de todas as realizações da sua personalidade nos em bates da vida, e ele experim entou que essa base lhe fugia desequilibrando-lhe o cérebro e o coração.

Contudo, nesse turbilhão de fantasm as da sua im aginação superexcitada, que escarneciam de suas m entirosas venturas, lobrigou o vulto suave e doce dos filhinhos, que o fitavam silenciosos e com ovidos. Um deles vagava no desconhecido, m as a filha esperava-lhe o carinho paternal e deveria ser, doravante, a razão da sua vida e a força de todas as suas esperanças.

- Que dizeis, agora - exclam ou Fúlvia, triunfante, arrancando-o do seu doloroso silêncio.

- Vencestes! - respondeu secam ente, com a voz em bargada de em oção.

E, dando à expressão fisionôm ica o m áxim o de energia, voltou ao salão extenso, a passos pesados e soturnos, despedindo-se heroicam ente dos am igos, a pretexto de leve enxaqueca.

- Senador, esperai um m om ento. O governador ainda não voltou dos seus aposentos particulares - exclam ou um dos patrícios presentes.

- Muito agradecido! - disse Públio, gravem ente. Mas os prezados am igos hão-de desculpar a insistência, apresentando m inhas despedidas e agradecim entos ao nosso generoso anfitrião.

E, sem m ais delongas, m andou preparar a liteira que o conduziria de regresso ao lar, pelas m ãos fortes dos escravos, de m odo a proporcionar algum repouso ao coração supliciado por em oções dolorosas e inesquecíveis.

Enquanto o senador se retira profundam ente contrariado, acom panhem os Lívia, de volta à praça, a fim de notificar aos dois am igos o resultado im profícuo da sua tentativa.

Profundas am arguras lhe pungiam o coração.

Jam ais pensara, na sua generosidade sim ples e confiante, que o procurador da Judeia pudesse receber-lhe a súplica com tam anha dem onstração de indiferença e im piedade pela sua situação de m ulher.

Procurou refazer-se daquelas em oções, em se aproxim ando de Ana e do tio, porquanto lhe com petia ocultar aquele desgosto no m ais íntim o do coração.

Junto de am bos os com panheiros hum ildes, da m esm a crença, deixou expandir a sua angústia, exclam ando pesarosa:

- Ana, infelizm ente tudo está perdido! A sentença foi consum ada e não há m ais nenhum recurso!... O profeta carinhoso de Nazaré nunca m ais voltará a Cafarnaum para nos levar as suas consolações brandas e am igas!... A cruz de hoj e será o prêm io, deste m undo, à sua bondade sem lim ites!...

Todos os três tinham os olhos orvalhados de lágrim as.

- Faça-se, então, a vontade do Pai que está nos céus - exclam ou a serva, prorrom pendo em soluços.

- Filhas - disse, porém , o ancião de Sam aria, com o olhar profundo e lím pido, fito no céu, onde fulguravam as irradiações do sol ardente -, o Messias nunca nos ocultou a verdade dos seus sacrifícios, dos m artírios que o aguardavam nestes sítios, a fim de nos ensinar que o seu reino não está neste m undo! Nas som bras da m inha velhice, estou apto a reconhecer a grande realidade das suas palavras, porque honras e vanglórias, m ocidade e fortuna, bem com o as alegrias passageiras do plano terrestre, de nada valem , pois tudo aqui vem a ser ilusão que desaparece nos abism os da dor e do tem po... A única realidade tangível é a de nossa alm a a cam inho desse reino m aravilhoso, cuj a beleza e cuj a luz nos foram trazidas por suas lições inesquecíveis e carinhosas...

- Mas - obtem perou Ana, entre lágrim as -nunca m ais verem os a Jesus de Nazaré, confortando-nos o coração!...

- Que dizes, filha - exclam ou Sim eão, com firm eza. - Não sabes, então, que o Mestre afiançou que a sua presença consoladora é sem pre inalterável entre os que se reúnem e se reunirão, neste m undo, em seu nom e? Regressando, agora, a Sam aria, erguerei um a cruz à porta da nossa choupana e reunirei, ali, a com unidade dos crentes que desej arem continuar as am orosas tradições do Messias.

E, depois de um a pausa em que parecia despertar sob o peso de pungentes preocupações, acentuou:

- Mas, não tem os tem po a perder... Sigam os para o Gólgota... Vam os receber, ainda um a vez, as bênçãos de Jesus!

- Muito grato m e seria acom panhá-los retrucou Lívia, im pressionada -; entretanto, urge volte a casa, onde m e esperam os cuidados com a filha. Sei que hão-de relevar m inha ausência, porque a verdade é que estou, em pensam ento, j unto à cruz do Mestre, m editando nos seus m artírios e inom ináveis padecim entos... Meu coração acom panhará essa agonia indescritível, e que o Pai dos céus nos conceda a força precisa para suportarm os coraj osam ente o angustioso transe!...

- Ide, senhora, que os vossos deveres de esposa e m ãe são tam bém m ais que sagrados - exclam ou Sim eão, carinhosam ente.

E enquanto o velho e a sobrinha se dirigiam para o Calvário, escalando as vias públicas que dem andavam a colina, Lívia regressava ao lar, apressadam ente, buscando os cam inhos m ais curtos, através das vicias estreitas, de m odo a voltar, quanto antes, não só pela circunstância inesperada de sair à rua em traj es diferentes, com pelida pelos im perativos do m om ento, m as tam bém porque inexplicável angústia lhe azorragava o coração, fazendo-lhe experim entar um a necessidade m ais forte de preces e m editações.

Chegando ao lar, seu prim eiro cuidado foi retom ar a túnica habitual, buscando um recanto m ais silencioso dos seus apartam entos, para orar com fervor ao Pai de infinita m isericórdia.

Daí a m inutos, ouviu os ruídos indicativos da volta do esposo, que, notou, se recolhia ao gabinete particular, fechando a porta com estrépito.

Lem brou-se, então, que de sua casa era possível avistar ao longe os m ovim entos do Gólgota, procurando um ângulo de j anela, de onde conseguisse contem plar os penosos sacrifícios do Mestre de Nazaré. Bastou buscasse fazê-lo, para que enxergasse nas em inências do m onte o grande aj untam ento de povo, enquanto levantavam as três cruzes fam osas, daquele dia inesquecível.

A colina era estéril, sem beleza, e através da distância podiam seus olhos lobrigar os cam inhos poeirentos e a paisagem desolada e árida, sob um sol causticante.

Lívia orava com toda a intensidade em otiva do seu espírito, dom inada por angustiosos pensam entos.

À sua visão espiritual, surgiram ainda os quadros suaves e encantadores do "m ar" da Galileia, conhecendo que à m em ória lhe revinha aquele crepúsculo inolvidável, quando, entre criaturas hum ildes e sofredoras, aguardava o doce m om ento de ouvir a confortadora palavra do Messias, pela prim eira vez. Via ainda a tosca barca de Sim ão, encostando-se às flores m im osas das m argens, enquanto a renda branca das espum as lam bia os seixos claros da praia... Jesus ali estava, j unto da m ultidão dos desesperados e desiludidos, com seus grandes olhos ternos e profundos...

Todavia, aquela cruz que se levantava, no m onte da Caveira, trazia-lhe o coração em am argosas cism as.

Depois de orar e m editar longam ente, exam inou de longe os três m adeiros, presum indo escutar o vozeio da m ultidão crim inosa, que se acotovelava j unto à cruz do Mestre, em terríveis im propérios.

De repente, sentiu-se tocada por um a onda de consolações indefiníveis. Figurava-se-lhe que o ar sufocante de Jerusalém se havia povoado de vibrações m elodiosas e intraduzíveis. Extasiada, observou, na retina espiritual, que a grande cruz do Calvário estava cercada de luzes num erosas.

Ao calor invulgar daquele dia, nuvens escuras se haviam concentrado na atm osfera, prenunciando tem pestade. Em poucos m inutos, toda a abóbada celeste perm anecia represada de som bras espessas. No entanto, naquele m om ento, Lívia notara que se havia rasgado um longo cam inho entre o Céu e a Terra, por onde desciam ao Gólgota legiões de seres graciosos e alados. Concentrando-se, aos m ilhares, ao redor do m adeiro, pareciam transform ar a cruz do Mestre em fonte de claridades perenes e radiosas.

Atraída por aquele im enso foco de luz resplandecente, sentiu que sua alm a desligada do corpo carnal se transportava ao cum e do Calvário, a fim de prestar a Jesus o últim o preito do seu devotam ento. Sim ! via, agora, o Messias de Nazaré rodeado dos seus lúcidos m ensageiros e das legiões poderosas de seus anj os. Jam ais supusera vê-lo tão divinizado e tão belo, de olhos voltados para o firm am ento, com o em visão de gloriosas beatitudes.

Ela o contem plou, por sua vez, tocada de sua m aravilhosa luz, alheia a todos os rum ores que a rodeavam , im plorando-lhe fortaleza, resignação, esperança e m isericórdia.

Em dado instante, seu espírito sentiu-se banhado de consolação indefinível. Com o se estivesse em polgada pela m aior em oção de sua vida. notou que o Mestre desviara levem ente o olhar, pousando-o nela, num a onda de am or intraduzível e de lum inosa ternura. Aqueles olhos serenos e m isericordiosos, nos torm entos extrem os da agonia, pareciam dizer-lhe: "Filha, aguarda as claridades eternas do m eu reino, porque, na Terra, é assim que todos nós deverem os m orrer!..."

Desej ava responder às exortações suaves do Messias, m as seu coração estava sufocado num a onda de radiosa espiritualidade. Todavia, no íntim o, afirm ou, com o se estivesse falando para si m esm a: - "Sim , é desse m odo que deverem os m orrer!... Jesus, concedei-m e alento, resignação e esperança para cum prir os vossos ensinam entos, para alcançar um dia o vosso reino de am or e de j ustiça!..."

Lágrim as copiosas banhavam -lhe o rosto, naquela visão beatífica e m aravilhosa.

Nesse m om ento, porém , a porta abriu-se com estrépito e a voz soturna e desesperada do m arido vibrou no ar abafado, despertando-a bruscam ente, arrancando-a de suas visões consoladoras.

- Lívia! - bradou ele, com o se estivesse tocado por com oções decisivas e desesperadas.

Públio Lentulus, regressando ao lar, encam inhou-se im ediatam ente ao gabinete, onde se deixou ficar por m uito tem po, engolfado em atrozes pensam entos. Depois de sentir o cérebro trabalhado pelas m ais antagônicas resoluções, lem brou-se de que deveria suplicar a piedade dos deuses para os seus penosos transes. Dirigiu-se ao altar dom éstico onde repousavam os sím bolos inanim ados de suas divindades fam iliares, m as, enquanto Lívia alcançara o precioso conforto, aceitando no coração os ensinos de Jesus com o perdão, a hum ildade e a prática do bem , debalde o senador procurou esclarecim ento e consolo, elevando as suas orações aos pés da estátua de Júpiter, im passível e orgulhoso. Debalde suplicou a inspiração de suas divindades dom ésticas, porque esses deuses eram a tradição corporificada do im perialism o da sua raça, tradição que se constituía de vaidade e de orgulho, de egoísm o e de am bição.

Foi assim que, intoxicado pelo ciúm e, procurou a esposa, sem m ais delongas, a fim de cuspir-lhe em rosto todo o desprezo da sua am argurada desesperação.

Ao cham á-la, bruscam ente, observou que seus olhos sem icerrados estavam cheios de lágrim as, com o a contem plar algum a visão espiritual inacessível à sua observação. Jam ais Lívia lhe parecera tão espiritualizada e tão bela, com o naquele instante; m as o dem ônio da calúnia lhe fez sentir, im ediatam ente, que aquele pranto nada representava senão sinal de rem orso e com punção ante a falta com etida, ciente, com o deveria achar-se a esposa, da sua presença no palácio governam ental, depreendendo-se daí que ela deveria esperar a possibilidade da sua severa punição.

Arrancada ao seu êxtase pela voz vibrante do m arido, a pobre senhora observou que a sua visão se desvanecera inteiram ente, e que o céu de Jerusalém fôra invadido por intensa escuridão, ouvindo-se os ribom bos form idáveis de trovões longínquos, enquanto relâm pagos terríveis riscavam a atm osfera em todas as direções.

- Lívia - exclam ou o senador, com voz forte e pausada, dando a entender o esforço que despendia para dom inar o com plexo de suas em oções -, as lágrim as de arrependim ento são inúteis neste m om ento doloroso dos nossos destinos, porque todos os laços de afetividade com um , que nos uniam , estão agora rotos para sem pre...

- Mas, que é isso? - pôde ela dizer, revelando o pavor que tais palavras lhe produziam .

- Nem m ais um a palavra - revidou o senador, pálido de cólera, dentro de um a serenidade feroz e im placável -, observei, com os próprios olhos, o seu nefando delito e agora conheço a finalidade dos seus disfarces hum ildes de galileia... Ouvir-m e-á a senhora até ao fim , exim indo-se de qualquer j ustificativa, porque um a traição com o a sua só poderá encontrar j usto castigo no silêncio profundo da m orte.

Mas, não quero m atá-la. Minha form ação m oral não se com padece com o crim e. Não porque haj a piedade em m inha alm a, à vista do possível arrependim ento do seu coração, no tem po oportuno, m as porque tenho ainda um a filha sobre cuj a fronte recairia o m eu gesto de crueldade contra a sua felonia, que basta para nos tornar infelizes por toda a vida...

Hom em honesto e pronto a desafrontar-m e de qualquer ultraj e, tenho m uito am or ao m eu nom e e ás tradições de m inha fam ília, de m odo a m e não tornar um pai desnaturado e crim inoso.

Poderia abandoná-la para sem pre, na consideração do seu ato de extrem a deslealdade, porém os servos desta casa se alim entam igualm ente à m inha m esa, e, sem reconhecer os outros títulos que m e ligavam à senhora, na intim idade dom éstica, vej o ainda na sua pessoa a m ãe de m eus filhos desventurados. É por isso que, doravante, desprezo, em face das provas palpáveis da sua desonestidade, neste dia nefasto do m eu destino, todas as expressões m orais da sua personalidade indigna, para conservar nesta casa, tão som ente, a sua expressão de m aternidade, que m e habituei a respeitar nos irracionais m ais hum ildes.

Os olhos súplices da caluniada deixavam entrever os indizíveis m artírios que lhe dilaceravam o coração carinhoso e sensibilíssim o.

Aj oelhara-se aos pés do esposo, com hum ildade, enquanto lágrim as dolorosas lhe rolavam das faces pálidas.

Lem brava-se Lívia, então, de Jesus nos seus intraduzíveis padecim entos. Sim ... ela recordava as suas palavras e estava pronta para o sacrifício. No m eio de suas dores, parecia sentir ainda o gosto daquele pão de vida, abençoado por suas divinas m ãos, e figurava-se lavada de todas as m undanas preocupações. A idéia do reino dos céus, onde todos os aflitos são consolados, anestesiava-lhe o coração dolorido, nas suas prim eiras reflexões a respeito da calúnia de que era vítim a o seu espírito fustigado pelas provas aspérrim as.

Não obstante essa atitude de serena hum ildade, o senador continuou no auge da angústia m oral:

- Dei-lhe tudo que possuía de m ais puro e m ais sagrado neste m undo, na esperança de que correspondesse aos m eus ideais m ais sublim es; entretanto, relegando todos os deveres que lhe com petiam , não vacilou em derram ar sobre nós um punhado de lam a... Preferiu, ao convívio do m eu coração, os costum es dissolutos desta época de criaturas irresponsáveis, no capítulo da fam ília, resvalando para o desfiladeiro que conduz a m ulher aos abism os do crim e e da im piedade.

Mas ouça bem m inhas palavras que assinalam os m ais terríveis desgostos do m eu coração!

Nunca m ais se afastará dos labores dom ésticos, das obrigações diárias de m inha casa. Mais um ato, com que provoque as derradeiras reservas da m inha tolerância, não deverá esperar outra providência que não sej a a m orte.

Não m e solicite as m ãos honestas para um ato de tal natureza. Se as tradições fam iliares desapareceram no âm ago do seu espírito, continuam elas cada vez m ais vivas em m inhalm a, que as desej a cultivar incessantem ente no santuário de m inhas recordações m ais queridas. Viva com o seu pensam ento na ignom ínia, m as abstenha-se de zom bar publicam ente dos m eus sentim entos m ais sagrados, m esm o porque, a paciência e a liberdade tam bém têm os seus lim ites.

Saberei ressurgir desta queda em que as suas leviandades m e atiraram !...

De ora em diante, a senhora será nesta casa apenas um a serva, considerando a função m aternal que hoj e a exim e da m orte; m as, não intervenha na solução de qualquer problem a educativo de m inha filha. Saberei conduzi-la sem o seu concurso e buscarei o filhinho perdido talvez pela sua inconsciência crim inosa, até o fim de m eus dias. Concentrarei nos filhos a parcela im ensa de am or que lhe reservara, dentro da generosidade da m inha confiança, porquanto, doravante, não m e deve procurar com a intim idade da esposa, que não soube ser, pela sua inj ustificável deslealdade, m as com o respeito que um a escrava deve aos seus senhores!...

Enquanto se verificava um a ligeira pausa na palavra acrim oniosa e am argurada do senador, Lívia dirigiu-lhe um olhar de angustia suprem a.

Desej ava falar-lhe com o dantes, entregando-lhe o coração sensível e carinhoso; todavia, conhecendo-lhe o tem peram ento im pulsivo, adivinhou a inutilidade de qualquer tentativa para j ustificar-se.

Passadas as prim eiras reflexões e ouvindo, am argurada de dor, aquela terrível insinuação acerca do desaparecim ento do filhinho, deixou vagar no coração vacilações inj ustificáveis e num erosas. Ante aquelas calúnias que a faziam tão desditosa, chegava a pensar se as boas ações não seriam vistas por aquele Pai de infinita bondade, que ela acreditava velar, dos céus, por todos sofredores, de conform idade com as prom essas sublim es do Messias Nazareno. Não guardara ela um a conduta nobre e exem plar, com o m ãe dedicada e esposa carinhosa? Todo o seu coração não estava posto em tributos de esperança e de fé naquele reino de soberana j ustiça, que se localizava fora da vida m aterial? Além disso, sua ida precipitada a Pilatos, sem a audiência prévia do m arido, fôra tão som ente com o elevado propósito de salvar a Jesus de Nazaré da m orte infam ante. Onde o socorro sobrenatural que não chegava para esclarecer a penosa situação dela e m ostrar tal inj ustiça?

Lágrim as angustiosas enevoavam -lhe os olhos cansados e abatidos. Mas antes que o m arido recom eçasse as acusações, viu-se de novo defronte da cruz, em pensam ento.

Um a brisa suave parecia am enizar as úlceras que o libelo do esposo lhe abrira no coração. Um a voz, que lhe falava aos refolhos m ais íntim os da consciência, lem brou-lhe ao espírito sensível que o Mestre de Nazaré tam bém era inocente e expirara, naquele dia, na cruz, sob os insultos de algozes im piedosos. E ele era j usto, bom e com passivo. Daqueles a quem m ais havia am ado, recebera a traição e o abandono na hora extrem a do testem unho e, de quantos havia servido com a sua caridade e o seu am or, tinha recebido os espinhos envenenados da m ais acerba ingratidão. Ante a visão dos seus m artírios infinitos, Lívia consolidou a sua fé e rogou ao Pai Celestial lhe concedesse a intrepidez necessária para vencer as provações aspérrim as da vida.

Suas m editações angustiosas haviam durado um m om ento. Um m inuto apenas, após o qual, continuou Públio Lentulus com voz desesperada:

- Aguardarei m ais dois dias, nas pesquisas de m eu filhinho desventurado! Decorridas estas poucas horas, voltarei a Cafarnaum para afrontar a passagem do tem po. . Ficarei neste cenário m aldito, enquanto for necessário e, quanto à senhora, recolha-se doravante em sua própria indignidade, porque, com o m esm o ím peto generoso com que lhe poupo a existência neste m om ento, não vacilarei em lhe infligir a derradeira punição no m om ento oportuno!...

E, abrindo a porta de saída, que estrem ecera aos ribom bos do trovão, exclam ou com terrível acento:

- Lívia, este m om ento doloroso assinala a perpétua separação dos nossos destinos. Não ouse transpor a fronteira que nos isola um do outro, para sem pre, no m esm o lar e dentro da m esm a vida, porque um gesto desses pode significar a sua inapelável sentença de m orte.

Atrás dele, fechara-se a porta com estrépito, abafado pelos rum ores da tem pestade.

Jerusalém estava sob um verdadeiro ciclone de destruição, que ia deixar, após sua passagem , sinal de ruína, desolação e m orte.

Ficando só, Lívia chorou am argam ente.

Enquanto a atm osfera se lavava com a chuva torrencial que descia a cântaros no fragor das trovoadas, tam bém a sua alm a se despia das ilusões am argas e purificadoras.

Sim ... estava só e profundam ente desventurada.

Doravante, não poderia contar com o am paro do m arido, nem com o afeto suave da filhinha, m as um anj o de serenidade velava à sua cabeceira, com a doçura das sentinelas que nunca se afastam do seu posto de am or, de redenção e de piedade. E foi esse Espírito lum inoso que, fazendo gotej ar o bálsam o de esperança no cálice do seu coração angustiado, deu-lhe a sentir que ainda possuía m uito: - o tesouro da fé, que a unia a Jesus, ao Messias da renúncia e da salvação, a esperá-la em seu reino de luz e de m isericórdia.