Há Dois Mil Anos

Chico Xavier · Capítulo 7 de 21

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Há Dois Mil Anos

VI O rapto

 

Ao tem po do Cristo, a Galileia era um vasto celeiro que abastecia quase toda a Palestina.

Nessa época, o form oso lago de Genesaré não apresentava nível tão baixo, com o na atualidade. Todo o terreno circunvizinho era de regadio, em vista das fontes num erosas, dos canais e do serviço das noras que elevavam as águas, dando origem a um a vegetação luxuriante que enfeitava de frutos e enchia de perfum es aquelas paisagens paradisíacas.

O trigo, a cevada, as abóboras, as lentilhas, os figos e as uvas eram elem entos de sem eadura e colheita em todo o ano, dando à vida satisfação e abundância. Nas em inências da terra, m isturando-se aos extensos vinhedos e olivais, elevavam -se palm eiras e tam areiras preciosas, cuj os frutos eram os m ais ricos da Palestina.

Em Cafarnaum , além dessas riquezas, prosperava a indústria da pesca, dada a abundância do peixe no então cham ado "Mar da Galileia", o que resum ia um a vida sim ples e tranquila. Dentre todos os outros povos dos centros galileus, o de Cafarnaum se distinguia por sua beleza espiritual, despretensiosa e singela. Consciencioso e crente, aceitava a Lei de Moisés, m as estava m uito longe das m anifestações hipócritas do farisaísm o de Jerusalém . Foi em virtude dessa sim plicidade natural e dessa fé espontânea e sincera que a paisagem de Cafarnaum serviu de palco às prim eiras lições inesquecíveis e im ortais do Cristianism o, em sua prim itiva pureza. Ali encontrou Jesus o carinho de corações devotados e valorosos, e foi ali que o m undo espiritual encontrou os m elhores elem entos para a form ação da escola inolvidável, onde o Divino Mestre exem plificaria os seus ensinos.

Em todas as cidades da região havia sinagogas, para que as lições da Lei fossem m inistradas aos sábados, dia que todos os indivíduos deveriam dedicar exclusivam ente ao descanso do corpo e às atividades do espírito. Nessas pequenas sinagogas, franqueava-se a palavra a quantos desej assem utilizá-la, m as Jesus preferia o tem plo suave da Natureza para a difusão dos seus ensinos.

Todas as classes hum ildes acorriam às suas prédicas ao ar livre, cuj a extraordinária beleza seduzia os corações m ais em pedernidos.

Antiga convenção, entre os senhores, determ inava o repouso dos servos no dia consagrado aos estudos da Lei, e os próprios rom anos procuravam cultivar aquelas tradições regionais, buscando a sim patia do povo conquistado.

Nessa época, grande era a afluência dos escravos às pregações consoladoras do Messias de Nazaré.

Um a sem ana havia decorrido após o recebim ento das notícias de Rom a e, nesse sábado, às prim eiras horas da tarde, vam os encontrar Lívia e Ana em conversação íntim a e carinhosa.

- Sim - dizia a j ovem patrícia à serva, que se encontrava em traj es de sair -, se te for possível, hoj e, agradecerás de viva voz ao profeta, em m eu nom e, j á que m e sinto tão feliz, graças à sua infinita bondade. E dize-lhe que, se eu puder, nas vésperas de partir para Rom a procurarei conhecê-lo, a fim de lhe beij ar as m ãos generosas, em testem unho do m eu reconhecim ento!...

- Não esquecerei vossas ordens e espero que possais ir até à casa de Sim ão para visitá-lo, antes de vos retirardes destes lugares... Ainda hoj e - prosseguiu em tom confidencial - devo encontrar na cidade o velho tio Sim eão, que veio de Sam aria especialm ente para receber a sua bênção e os seus ensinos. Não sei se a senhora sabe que entre os sam aritanos e os galileus há rixas m uito antigas; m as o Mestre, m uitas vezes, nas suas lições de am or e fraternidade, tem louvado os prim eiros pela sua caridade leal e sincera. Num erosos m ilagres j á foram efetuados por ele, na Sam aria, e m eu tio é um desses beneficiados que hoj e virá receber a bênção de suas m ãos consoladoras!...

Um a doce e com ovente fé ungia a alm a daquela m ulher do povo, intensificando em Lívia o desej o de conhecer aquele hom em extraordinário que sabia ilum inar, com as suas graças, os corações m ais ignorantes e m ais singelos.

- Ana, espera um pouco disse, sensibilizada, dirigindo-se aos seus aposentos. E voltando com a fisionom ia radiante, satisfeita por com eçar ali m esm o a sua fraternização cristã, deu à em pregada algum as m oedas, exclam ando com a m aior alegria:

- Leva este dinheiro ao tio Sim eão, em m eu nom e... Ele veio de longe para ver o Messias e tem necessidade de recursos!

Ana recebeu a im portância, que era de alguns denários, agradeceu, radiante, aquela dádiva considerada com o verdadeira fortuna e, daí a m inutos, com Sêm ele e outras com panheiras dirigiu-se pela estrada de Cafarnaum , em dem anda do lago, onde aguardariam o cair da tarde, quando a barca de Sim ão Barj ona trouxesse o Messias para as pregações costum eiras.

Na cidade, seu prim eiro cuidado foi correr a um a choupana pobre e antiga, onde o velho Sim eão a estreitou carinhosam ente nos braços, chorando de alegria. Grande j úbilo alvoroçou em seguida aqueles corações desprotegidos da sorte, em face da generosa oferta de Lívia, a qual significava para eles um pequeno tesouro.

Deixando as com panheiras no local do costum e, em virtude daquela circunstância, Ana não pôde reparar que, logo após a sua ausência, Sêm ele se retirou apressadam ente em dem anda de um a casa oculta entre oliveiras num erosas, ao fim de um a viela quase com pletam ente abandonada.

Algum as pancadas na porta e um a senhora de boa aparência veio atendê-la, solícita.

- Chegou o nosso am igo? - perguntou a em pregada, fingindo despreocupação.

- Sim , o senhor André aqui está desde ontem . à sua espera. Faça o favor de esperar um pouco.

Daí a m inutos, um a personagem de nosso conhecim ento vinha ter com Sêm ele, num dos ângulos da sala, abraçando-a com efusão, corno se fosse pessoa de sua profunda estim a.

Era André de Gioras, que vinha a Cafarnaum para o golpe de represália, favorecido por um a aliada que a sua sede de vindita conseguira colocar, em Jerusalém , na casa de Públio Lentulus, através de um a sagacidade cruel

Depois de longa palestra em voz m uito baixa, ouçam os a serva do senador, que lhe fala nestes term os:

- Não há dúvida... Já consegui captar toda a confiança dos patrões e a sim patia do pequeno. Pode, pois, ficar tranquilo, porque o m om ento é oportuno, visto que o senador pretende voltar para Rom a em breves dias!

- Infam e! - exclam ou André, cheio de cólera - j á pensa, então, no regresso? Muito bem !... Aquele m aldito rom ano conseguiu escravizar para sem pre o m eu pobre filho, desatendendo às m inhas súplicas paternas, m as há-de pagar m uito caro a sua ousadia de conquistador, porque seu filho há-de ser um servo da m inha casa! Um dia, hei-de m ostrar-lhe a m inha desforra, provando-lhe que tam bém sou um hom em !.

Estas palavras ele as disse entre dentes, em voz soturna, de olhos parados e brilhantes, com o que se apostrofasse seres invisíveis.

- Então, tudo pronto? perguntou a Sêm ele, denunciando um a resolução definitiva.

- Perfeitam ente - respondeu a serva, com a m aior serenidade. - Pois bem ; de hoj e a três dias irei até lá, a cavalo, nas prim eiras horas da m adrugada.

E entregando-lhe um frasco m inúsculo, que ela ocultou cuidadosam ente nas próprias vestes, continuou em voz abafada:

- Bastam vinte gotas para que a criança adorm eça e não desperte senão ao fim de doze horas... Quando for noite alta, aplique-lhe a beberagem num pouco de água levem ente m isturada de vinho fraco e espere o m eu sinal. Estarei nas proxim idades da casa, que desde ontem fiquei conhecendo, a aguardar a preciosa carga. Abrigará você a criança adorm ecida, de tal m aneira que o volum e não denuncie o conteúdo, visto a algum a distância, e, com o em assuntos dessa natureza há-de contar com a possibilidade do testem unho de olhos estranhos, irei traj ado à rom ana, esperando que você consiga vestir um a das túnicas da patroa, de m odo a evitarm os que a culpa deste rapto venha a recair sobre alguém da nossa raça, caso surj a algum a testem unha inoportuna e im prevista... Dado o sinal de m inha presença na estrada que m argina o pom ar, virá você ter com igo, entregando-m e o precioso fardo.

E, de olhos perdidos na visão antecipada da sua vingança, André de Gioras exclam ou, cerrando os punhos:

- Se os m alditos rom anos nos escravizam os filhos, sem piedade, podem os tam bém escravizar os seus desgraçados descendentes!... Os hom ens nasceram com iguais direitos neste m undo...

Ouvindo-lhe as palavras, atenciosam ente, obj etou Sêm ele, algo am edrontada:

- Mas, e eu? Não acom panharei o pequenino Marcus na m esm a noite?

- Seria grande im prudência. Você deverá ficar em Cafarnaum todo o tem po necessário, até que se percam todas as pistas do futuro senador, que não passará, aliás, de futuro escravo. Sua fuga seria indício seguro, agora ou m ais tarde, e nós precisam os obstruir esse cam inho certo.

Com o sabe, tenho parentes afortunados na Judeia, e não é dem ais esperar que um golpe da sorte m e conceda o lugar preem inente a que aspiro, no tem plo de Jerusalém . Não podem os, portanto, m anter com plicações com a j ustiça, podendo você ficar tranquila, pois, m ais tarde, o seu esforço de hoj e será largam ente recom pensado.

A serva suspirou resignada, acedendo a todas as sugestões daquele espírito vingativo.

Daí a horas, ao cair da noite, voltavam à herdade os servos de Públio, em palestra anim ada e alegre, com entando os pequeninos incidentes e preocupações do dia.

Sêm ele não parecia preocupada, m esm o porque, havia m uito, vinha sendo instruída pacientem ente por André, de m odo a colaborar decididam ente naquele plano de vingança. Num erosos laços ligavam -na à fam ília de Gioras, e, cooperando naquela tram a sinistra em favor da desforra, m ais não fazia, segundo supunha, que resgatar num erosas dívidas de ordem m aterial.

Afinal, pensava ela consigo, liquidando o caso do pequenino, regressaria a Jerusalém quando m uito bem lhe aprouvesse, consciente de haver cum prido um dever, obedecendo as trem endas exigências de André.

No dia seguinte, calculou todas as possibilidades de êxito do com etim ento, e, na data aprazada, tom ou todas as providências precisas.

A obtenção de um a túnica do uso particular de Lívia não lhe era difícil. A senhora as possuía em grande núm ero e quase que diariam ente Ana se incum bia de preparar as que se encontravam fora de seus apartam entos privados, para o necessário serviço de higiene; e foi assim que, burlando a dedicação e vigilância da colega, conseguiu Sêm ele um a túnica elegante e discreta, da senhora, de m odo a observar, integralm ente, as advertências daquele de quem se fizera cúm plice.

Em casa, nunca o senador e sua m ulher haviam vivido m om entos de tanta paz e tantas esperanças, desde que chegaram à Palestina. A cura da filha era a doce felicidade de cada instante, ensej ando os m ais carinhosos planos de ventura para os dias do porvir.

Lívia j á organizava todos os seus apetrechos de viagem , considerando que em poucos dias estariam no antigo porto de Jope, de regresso à m etrópole querida.

Um a serenidade, que parecia im perturbável, descansava agora sobre o casal, fazendo-lhe os corações tranquilos e ditosos.

Públio havia esquecido totalm ente as advertências do sonho, que considerava tão som ente resultado da sua palestra im pressionante com o profeta de Nazaré, e o coração se lhe desanuviara, ponderando o valor dos poderes hum anos, dentro da vaidade orgulhosa que lhe abafava todas as preocupações de ordem espiritual. Um pensam ento único lhe dom inava o coração - voltar a Rom a, dentro de poucos dias.

Nessa noite, porém , iam desm oronar-se todas as suas esperanças e m odificar-se, para sem pre, as linhas do seu destino na Terra.

Quem conhecesse a tram a urdida na som bra pelo espírito vingativo de André, depois da m eia-noite poderia ouvir um longo silvo que se repetiu por três vezes, no soturno silêncio do arvoredo.

Um hom em traj ado à rom ana apeara de fogoso corcel, a alguns m etros da casa, no largo cam inho que separava a vegetação do cam po das árvores frutíferas. Em seguida, um a porta abriu-se furtivam ente e um a m ulher traj ada à m oda patrícia veio ter com o cavaleiro que a esperava ansioso, depondo-lhe nas m ãos, com o m áxim o cuidado, um em brulho volum oso.

- Sêm ele - exclam ou ele baixinho -, esta hora é decisiva em nossos destinos!

A serva de Lentulus nada pôde responder, sentindo o peito opresso. Nesse instante, os atores de cena não observaram a aproxim ação de um hom em que estacara, à distância de alguns passos, na espessura das ram agens som brias.

- Agora - tornou a dizer o cavaleiro, antes de partir em desabalada carreira não se esqueça que o silêncio é ouro e que, se algum dia você for ingrata, pode pagar com a vida a descoberta do nosso segredo!...

Dito isso, André de Gioras partiu precipitadam ente, a largo trote, pelos cam inhos ensom brados, levando consigo o volum e para ele tão precioso.

A serva ainda o acom panhou com a vista por alguns instantes, entre assustada e com pungida, recolhendo-se a passos cam baleantes.

Am bos não sabiam que os olhos de um caluniador são piores que os braços de um ladrão e que esses olhos os espreitavam na solidão da noite.

Era Sulpício que, por coincidência, se recolhia tarde naquela noite, surpreendendo a cena palidam ente ilum inada pelos raios da Lua.

Observando, de longe, que um hom em e um a m ulher, traj ados à rom ana, se encontravam na estrada em hora tão im própria, am orteceu os passos de felino, entre as árvores, com o fim de identificá-los m ais de perto.

A cena fôra, todavia, m uito rápida, chegando-lhe tão som ente aos ouvidos as últim as palavras "nosso segredo", proferidas por André, na sua prom essa odiosa e am eaçadora.

Em seguida, observou que a m ulher, com a retirada do cavaleiro, regressava ao interior a passos vacilantes, com o que presa de incoercível abatim ento. Estugou então os passos para surpreendê-la, reparando-lhe o vulto a poucos m etros de distância. Mas, não se atreveu a aproxim ar-se, apenas identificando as características da vestim enta, à luz fraca da noite. Aquela túnica era-lhe conhecida. Aquela m ulher, a seu ver, era Lívia, a única que podia traj ar de tal m odo, naquelas cercanias.

Num instante, suas idéias rápidas de hom em experim entado nas piores ações do m undo, associaram fatos, personalidades e coisas. Lem brou, em seus íntim os porm enores, a cena que tivera ocasião de presenciar no j ardim de Pilatos, crendo que a esposa de Públio se fizera am ada pelo governador, cuj o coração ela avassalara em poucos m inutos, em virtude da sua peregrina beleza; recordou, por últim o, a estada do procurador da Judeia, em Nazaré, e concluiu, m onologando:

- Um governador, na sua alta posição, não deixará, por isso, de ser um hom em , e um hom em é m uito capaz de cobrir toda a noite, em boa m ontaria, um a distância com o a que vai de Cafarnaum a Nazaré, para se encontrar com a m ulher am ada... Ora esta!... tem os agora de prosseguir, observando um casal de apaixonados... O único acontecim ento estranhável é a facilidade com que essa m ulher, aparentem ente tão austera, se deixou dom inar dessa m aneira! Mas, com o tenho os m eus interesses com Fúlvia, vam os exam inar o m elhor m odo de cientificar esse pobre hom em que, senador, tão j ovem e tão rico, é um m arido tão desventurado!...

E depois de assim m onologar cautelosam ente, Sulpício recolheu-se intim am ente satisfeito, por se ver dono da situação, j á antegozando o instante em que faria Públio conhecedor do seu segredo, a fim de exigir m ais tarde, em Jerusalém , o preço ignom inioso da sua perversidade, segundo as prom essas de Fúlvia.

O dia im ediato constituiu dolorosa surpresa para o senador e sua m ulher, aturdidos com o inopinado acontecim ento.

Ninguém conhecia as circunstâncias em que se verificara o rapto da criança, no silêncio da noite.

Com o louco, Públio Lentulus tom ou todas as providências possíveis, j unto às autoridades de Cafarnaum , sem lograr resultado favorável. Num erosos servos de sua confiança foram expedidos a fim de bater os arredores, im proficuam ente, e, enquanto o m arido se m ultiplicava em ordens e providências, Lívia recolhia-se ao leito, tom ada de indefinível angústia.

Sêm ele, que fingia a m ais profunda consternação, auxiliava os desvelos de Ana, j unto da senhora, sucum bida de dor.

Naquela m esm a tarde, Públio ordenou a Com ênio, então com as honras de capataz de todos os trabalhos da herdade, a reunião geral dos servos da casa, a fim de que aprendessem no castigo severo, infligido aos escravos incum bidos do serviço noturno de vigilância, e, durante todas as horas do crepúsculo, trabalhou o açoite na carne de três hom ens robustos, que debalde im ploravam clem ência e m isericórdia, protestando a sua inocência. Som ente diante daquelas criaturas inj ustam ente castigadas, considerou Sêm ele a extensão do seu procedim ento, m as, intim am ente apavorada com as consequências que poderiam advir do delito, cobrou ânim o para ocultar, ainda m ais, a culpa e o terrível segredo.

Prosseguiam as ações punitivas, até que Lívia, atorm entada por aqueles gritos lancinantes e com ovedores, se levantou com extrem a dificuldade e, cham ando o esposo a um canto da varanda, de onde ele assistia im passível ao horrível sacrifício daquelas m íseras criaturas, falou-lhe súplice:

- Públio, basta de castigo para esses hom ens fracos e infelizes!... Não seria um excesso de rigor da nossa parte para com os nossos servos a causa de tão dolorosa punição dos deuses para conosco? Esses escravos não são tam bém filhos de criaturas que m uitos os am aram neste m undo? Na m inha angústia m aterna, considero que ainda possuím os direitos e recursos para m anter j unto de nós os filhinhos idolatrados; m as, com o será torturante o m artírio da m ãe de um desventurado, e que o vê arrebatado de seus braços carinhosos para ser vendido por ignóbeis m ercadores de consciências hum anas!...

- Lívia, o sofrim ento sugeriu-te singulares desvarios do coração exclam ou o senador, com serena energia.

Com o poderias pensar num a igualdade absurda de direitos, entre a cidadã rom ana e a serva m iserável? Não vês que entre ti e a m ãe de um cativo existem consideráveis diferenças de sentim ento?

- Penso que te enganas am argura instintos, em se tratando de m aternidade... -revidou a esposa, com intraduzível -, porque os próprios anim ais possuem os m ais elevados

E ainda assim , querido, m esm o que eu não tivesse nenhum a razão, m anda o raciocínio que exam inem os a nossa posição de pais, para considerarm os que ninguém , m ais que nós próprios, é passível de culpa pelo acontecido, visto que os filhos são um depósito sagrado dos deuses, que no-los confiam ao coração, im pondo-nos com o dever de cada m inuto a m ultiplicação do carinho e vigilância necessários; se sofro am argam ente, é por considerar o am or sublim e que nos une aos filhos, sem poder atinar com a causa deste crim e m isterioso, sem poder im putar aos nossos servos a culpa desse tenebroso acontecim ento...

A voz de Lívia, porém , extinguia-se rapidam ente. Um delíquio foi o resultado de suas palavras veem entes, ao findar daquele dia de tantas e tão am arguradas em oções. Am parada pelas m ãos carinhosas e desveladas de Ana, a pobre senhora recolheu-se ao leito com febre alta. Quanto a Públio, este, porque sentia que as verdades am argas da m ulher lhe doíam fundo no coração, m andou cessar im ediatam ente o castigo, com alívio geral, recolhendo-se ao gabinete para m editar a situação.

Naquela m esm a noite, recebeu a visita de Sulpício, que lhe veio trazer o infrutífero resultado de suas indagações, na pista do pequeno Marcus.

Ao despedir-se, exclam ou o lictor, com grande surpresa de Públio, que lhe observara o tom enigm ático das palavras:

- Senador, eu não posso decifrar esse doloroso enigm a do desaparecim ento do vosso filhinho, m as talvez possa orientar-vos nalgum a pista segura, com as m inhas observações pessoais, relativas ao assunto.

- Mas, se tens sem elhantes elem entos, abre-te sem receios - exclam ou Públio, com o m áxim o interesse.

- Meus elem entos de observação não são pontos de aclaram ento positivo, e, com o existem alguns rem édios que em vez de curarem um a ferida produzem outras úlceras incuráveis, acho m elhor adiar para am anhã à noite as m inhas im pressões individuais sobre os fatos.

Gozando com a atitude de estupefação do interlocutor profundam ente im pressionado com as suas insinuações crim inosas, Sulpício rem atou as despedidas, acrescentando intencionalm ente:

- Am anhã aqui estarei a estas m esm as horas e, se hoj e não vos satisfaço ao desej o, aqui perm anecendo até m ais tarde, é que m e esperam alguns afazeres no m eu gabinete de trabalho, em vista de alguns pedidos de inform ações das nossas autoridades adm inistrativas.

Dom inado pelas expressões daquele enigm a, Públio Lentulus apresentou-lhe as despedidas da noite, tendo forças para m urm urar:

- Então, até am anhã. Esperarei o cum prim ento da tua prom essa, de m odo a aliviarem -se-m e os receios do coração.

Ficando a sós, o senador subm ergiu-se no m ar profundo de suas inquietações e receios.

Justam ente quando contava regressar a Rom a, eis que surge o inesperado, com piores características que a própria m oléstia da filha, tantos anos suportada com serenidade e resignação, porque, agora, era o rapto inexplicável de um a criança, envolvendo sérias questões da m oralidade de sua casa, e a própria honra da fam ília.

No íntim o, sentia-se com o um hom em sem inim igos na Palestina, porquanto, com exceção do j ovem Saul, filho de André, que, a seu ver, deveria estar tranquilo no lar paterno, nunca hum ilhara os brios de nenhum israelita, visto que a todos dispensava o m áxim o de sua pessoal atenção.

Onde a causa daquele crim e m isterioso?

Em suas rem iniscências aflorou a palavra segura de Flam ínio Severus, quando lhe aconselhou m uita prudência e valor individual, na Palestina, em razão de certos m alfeitores que infestavam a região; m as, por outro lado, recordava o sonho sim bólico e, com os olhos da im aginação, parecia lobrigar o vulto venerando daquele j uiz austero e incorrupto, que lhe profetizara existência fértil de am arguras, dado o seu desprezo e indiferença pelas verdades salvadoras de Jesus de Nazaré.

Trabalhado pela dor de angustiados pensam entos, debruçou-se à m esa de trabalho e deixou que o orgulho ferido chorasse copiosam ente, considerando a sua im potência para conj urar as forças ocultas e im piedosas que conspiravam contra a sua ventura, nos cam inhos ensom brados do seu doloroso destino.

Alta noite, procurou desabafar o coração, j unto à carinhosa solicitude da esposa, trocando am bos as suas lam entações e as suas lágrim as.

- Públio - exclam ava ela, com a ternura característica do seu coração -, procurem os reanim ar nossas energias em favor de nós m esm os... Nem tudo está perdido!... Com os direitos que nos com petem , podem os determ inar todas as providências precisas, em busca do nosso anj inho. Adiarem os o regresso a Rom a, indefinidam ente, se tanto for necessário, e o resto os deuses farão por nós, reconhecendo nossa angústia e abnegação.

O que não é j usto é que nos entreguem os, irrem ediavelm ente, ao nosso desespero, inutilizando as derradeiras forças para a luta.

A pobre senhora m obilizava os últim os recursos de suas energias m aternas no proferir aquelas palavras de esperança e consolação. Sabia Deus, porém , das suas inenarráveis torturas íntim as, naqueles m om entos angustiosos, e apenas o seu sentim ento acrisolado, de renúncia e de am or, transform aria em forças as fragilidades da m ulher, para poder confortar o coração angustiado do esposo, em tão penosas conj unturas.

- Sim , m inha querida, farei tudo que estiver ao m eu alcance para esperar a providência dos deuses - disse o senador, m ais ou m enos reanim ado em face do valor de que lhe dava ela testem unho.

O dia seguinte decorreu nas m esm as expectativas angustiosas, com os m esm os m ovim entos incertos de buscas infrutíferas.

À noite, segundo prom etera, lá estava Sulpício Tarquinius esperando o seu m om ento decisivo.

Após o j antar, a que Lívia não pôde com parecer, em virtude do seu profundo abatim ento físico, Públio recebeu o lictor com toda a intim idade, ali m esm o no triclínio, em cuj os leitos m acios am bos se estiraram para a palestra costum eira.

- Então, ainda ontem - exclam ou o senador, dirigindo-se ao suposto am igo -, despertaste o m eu paternal interesse, falando-m e de tuas observações pessoais, que som ente hoj e m e poderias transm itir...

- Ah! sim - redarguiu o lictor, com fingida surpresa -, é bem verdade que desej aria solicitar vossa atenção para as ocorrências m isteriosas destes últim os dias. Tendes algum inim igo, aqui na Palestina, interessado na continuidade de vossa perm anência em regiões pouco adaptáveis aos hábitos de um patrício rom ano?

- De m odo algum - revidou o senador, em inentem ente surpreendido. -Suponho encontrar-m e num am biente de am izades sinceras, em se tratando das nossas autoridades adm inistrativas, e acredito que ninguém haj a interessado na m inha ausência de Rom a. Ficaria m uito satisfeito se esclarecesses m elhor as tuas observações.

- É que na Judeia, há alguns anos, houve um caso idêntico ao vosso. Conta-se que um dos antecessores do governador atual se deixou apaixonar perdidam ente pela esposa de um patrício rom ano, que teve a pouca sorte de se fixar em Jerusalém e, conquistados seus obj etivos, tudo fez por obstar o regresso de suas vítim as à sede do Im pério. E quando notou que de nada valiam os em pecilhos de sua autoridade, com eteu o crim e de sequestrar um filhinho do casal, fazendo acom panhar o feito de outras atrocidades, que ficaram im punes, dado o seu prestígio político perante o Senado.

Públio ouviu essas observações com o pensam ento em brasa. Em razão da sua intensidade em otiva, o sangue afluiu-lhe ao cérebro, parecendo represar-se em largas correntes j unto ao dique das têm poras. Um a palidez de cera cobriu, em seguida, o seu rosto, num a facies cadavérica, sem poder definir a em oção que lhe assaltava o íntim o, em face de tais insinuações contra a sua dignidade pessoal e contra as honrosas tradições da fam ília.

Num instante, reviveu todas as acusações de Fúlvia e, j ulgando os seus sem elhantes pelo estalão dos próprios sentim entos, não podia adm itir no espírito de Sulpício um a ferocidade de tal quilate.

Enquanto m ergulhava o pensam ento em cism as atrozes, sem responder ao lictor, que o observava gozando o efeito de suas tenebrosas revelações, prosseguiu o caluniador, com fingida hum ildade:

- Bem reconheço o alcance de m inhas palavras, para as quais, aliás, suplico a benevolência de vossa discrição, m as eu não abriria o coração neste sentido, senão tocado pelo profundo interesse que a vossa am izade conseguiu inspirar à m inhalm a dedicada e sincera. Francam ente, não desej ava constituir-m e delator de quem quer que sej a, perante o vosso espírito j usto e generoso; todavia, passarei a narrar-vos o que vi com os próprios olhos, de m odo a orientar com m ais segurança o esforço de vossas pesquisas em busca do m enino.

E Sulpício Tarquinius, com a falsa m odéstia de suas palavras venenosas, desfiou um rosário longo de calúnias, entrem eando os argum entos de consecutivos goles de vinho, o que exaltava ainda m ais a fonte prodigiosa das suas fantasias.

Contou ao seu interlocutor, que o ouvia atônito. pela coincidência de suas observações com as denúncias de Fúlvia, os m ais íntim os porm enores da cena do j ardim em casa de Pilatos, e, em seguida, narrou o que observara na noite do rapto, salientando a coincidência da estada do governador em Nazaré.

O senador ouvia-lhe a narrativa, ocultando, a m uito custo, o seu espanto doloroso. A prevaricação da esposa, segundo aquela denúncia espontânea, era um fato indubitável. Entretanto, ele queria acreditar o contrário. Durante todo o tem po da vida conj ugal, Lívia m anifestara o m ais pronunciado retraim ento dos am bientes sociais, vivendo tão som ente para ele e para os filhinhos idolatrados. Era na sua palavra criteriosa e sincera que o seu espírito ia buscar as necessárias inspirações para o êxito nas lutas da vida; m as aquela denúncia lhe atordoava o coração e anulava todos os fatores da antiga confiança. Além disso, penosas coincidências vinham ferir o seu raciocínio, despertando-lhe am arguradas suspeitas no íntim o dalm a.

Não fôra ela que intercedera a favor dos escravos, no m om ento do castigo, súplice, com o se a culpa do acontecido tam bém lhe pesasse no coração?

Ainda na véspera, sugerira a continuidade da perm anência de am bos na Palestina, dem onstrando um valor pouco vulgar. Não seria isso um gesto de suposta consolação para o m arido ultraj ado, obedecendo a intuitos inconfessáveis?

Um turbilhão de idéias antagônicas entrechocava-se no m ar de suas m editações dolorosas.

Por outro lado, considerou, num relance, a sua posição de hom em de Estado, as responsabilidades austeras que lhe com petiam no organism o social.

O cargo proem inente, as severas obrigações a que se consagrara no m ecanism o das relações de cada dia, o orgulho do nom e e as tradições de fam ília, am algam aram a energia precisa para o dom ínio das em oções do m om ento, e, escondendo o hom em sentim ental que era por natureza, para tão som ente revelar o hom em público, teve forças para exclam ar:

- Sulpício, agradeço o teu interesse, desde que as tuas palavras sej am reflexo da tua generosidade sincera, m as devo considerar, perante o conceito que acabas de expender sobre m inha m ulher, que não aceito nenhum argum ento que lhe fira a dignidade e austera nobreza, predicados esses que ninguém , m ais que eu, deve conhecer.

A entrevista no j ardim de Pilatos, a que te referes, foi por m im autorizada, e as tuas observações na noite do rapto não estão bem definidas, dado o caráter positivo que se requer das nossas investigações.

Assim , pois, agradeço-te a dedicação em m eu favor, m as a tua opinião abre entre nós, doravante, um a linha divisória que a m inha confiança não m ais ousará transpor.

Ficas, assim , dispensado do serviço que te retinha j unto de m inha fam ília, m esm o porque a perspectiva da m inha volta a Rom a se desvaneceu com o desaparecim ento do pequeno. Não poderem os regressar à sede do Im pério, enquanto não lograrm os o seu reaparecim ento ou a certeza dolorosa da sua m orte.

Deste m odo, eu seria im prudente exigindo a continuidade dos teus préstim os em Cafarnaum , sacrificando decisões de teus superiores hierárquicos, razão por que serás dem itido de m inha casa sem escândalos que prej udiquem a tua carreira profissional.

Aguardarei o ensej o de m e com unicar com o governador, a teu respeito, quando então serás desligado oficialm ente do m eu serviço, sem nenhum prej uízo para o teu nom e.

Vês, assim , que, com o hom em de Estado, agradeço o teu interesse e sei apreciar a tua dedicação, m as, com o am igo, não m e é m ais possível depositar em ti o m esm o grau de confiança.

O lictor, que não esperava sem elhante resposta, ficou lívido no seu indisfarçável desapontam ento, m as atreveu-se ainda a revidar, fingidam ente:

- Senhor senador, chegará o instante em que havereis de valorizar o m eu zelo não só com o servidor de vossa casa, m as tam bém com o am igo desvelado e sincero. E j á que não tendes outra recom pensa m elhor que o desprezo inj usto para corresponder ao m eu im pulso de am izade, é com prazer que m e sinto desligado das obrigações que m e prendiam j unto de vossa autoridade.

Em seguida, Sulpício pronunciou algum as palavras de despedida, a que Públio respondeu secam ente, atorm entado pelos m ais profundos desgostos.

No silêncio do seu gabinete, exam inou o quanto de energia as circunstâncias haviam exigido do seu coração em tão penosas conj unturas. Bem reconhecia que adotara para com o lictor a atitude m ais conveniente e consentânea com a situação, m as, no íntim o, guardava angustiosa incerteza, acerca da conduta de Lívia. Tudo conspirava contra ela, tendendo a apresentá-la, ao seu coração de m arido pundonoroso, com o a personificação da falsa inocência.

Naquele tem po, ainda não se vulgarizara no m undo o "orai e vigiai" dos ensinam entos eternam ente doces do Cristo, e o senador, entregando-se quase que totalm ente ao im pério das am argas em oções que o acabrunhavam , debruçou-se sobre num erosos rolos de pergam inho, entrando a chorar convulsivam ente.