Há Dois Mil Anos

Chico Xavier · Capítulo 11 de 21

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Há Dois Mil Anos

X O Apóstolo da Samaria

 

No dia seguinte, Públio Lentulus incentivou as pesquisas do filhinho, entre quantos peregrinavam nas festas da Páscoa, em Jerusalém , instituindo o prêm io de um Grande Sestércio (1), ou sej am dois m il e quinhentos asses, para quem apresentasse aos seus servos a criança desaparecida.

__________

(1) Mil sestércios.

Não devem os esquecer que a criada Sêm ele, bem com o suas com panheiras de serviço foram subm etidas ao m ais rigoroso inquérito, por ocasião do castigo aos servos im previdentes, encarregados da vigilância noturna em casa do senador.

Públio não adm itia castigos físicos às m ulheres, m as, no caso m isterioso do desaparecim ento do filhinho, subm eteu as criadas a um interrogatório francam ente im piedoso.

Inútil declarar que Sêm ele protestara a m ais absoluta inocência, nada deixando transparecer que pudesse com prom eter sua conduta.

Entretanto, as três servas que m ais diretam ente cuidavam do pequeno, entre as quais estava ela incluída, foram obrigadas a colaborar com os escravos na procura de Marcus, pelas praças e ruas de Jerusalém , em bora tivessem suas horas diárias consagradas ao descanso. Essas horas, aproveitava-as Sêm ele para visitar ou rever relações am igas, passando a m aior parte do tem po no sítio onde André cultivava as suas oliveiras e vinhedos frondosos, a pouca distância da estrada para os centros principais.

Nesse dia, vam os encontrá-la ai em anim ada palestra com o raptor e sua m ulher, enquanto a criança dorm itava ao canto de um com partim ento.

- Com quê então, o senador instituiu o prêm io de um Grande Sestércio a quem lhe devolva a criancinha? - pergunta André de Gioras, adm irado.

- É verdade - exclam ou Sêm ele, pensativa. E, na realidade, trata-se de grande som a em dinheiro rom ano, que facilm ente ninguém ganhará neste m undo.

- Se não fosse o m eu j usto e ardente desej o de vingança - replicou o raptor com o seu m alicioso sorriso -, era o caso de irm os abocanhar essa respeitável quantia. Mas, deixa estar que não precisam os de sem elhante dinheiro. Nada necessitam os desses m alditos patrícios!

Sêm ele escutava-o indiferente e quase com pletam ente alheia à conversa; entretanto, o interlocutor não perdia de vista as características fisionôm icas de sua cúm plice, com o se tentasse descobrir no seu m odo sim ples e hum ilde algum pensam ento reservado.

Foi assim que, no intuito de lhe sondar a atitude psicológica, disse em tom aparentem ente calm o e despreocupado, com o a inquirir dos seus propósitos m ais secretos:

- Sêm ele, quais são as últim as noticias de Benj am im ? - Ora, Benj am im -respondeu ela, aludindo ao noivo - ainda não se resolveu a m arcar o casam ento, em definitivo, atento às nossas inúm eras dificuldades.

Com o não ignora, todo o m eu desej o no trabalho se resum e na consecução do nosso ideal de adquirir aquela casinha de Betânia, j á sua conhecida, e tão logo venham os a conseguir nosso intento estarem os unidos para sem pre.

- Ainda bem - disse André, com a atitude psicológica de quem encontrara a chave de um enigm a -, com tem po haverão de conseguir todo o necessário à ventura de am bos. Da m inha parte, pode ficar descansada, porque tudo farei por auxiliá-la paternalm ente.

- Muito grata! - exclam ou a m oça, reconhecida. - Agora há-de perm itir que volte ao trabalho, porque as horas parecem adiantadas.

- Ainda não - falou André resolutam ente -, espere um m om ento. Quero dar-lhe a provar do nosso vinho velho, aberto hoj e som ente para com em orar a circunstância feliz de nos acharm os com vida, depois do m edonho tem poral de ontem !

E, correndo ao interior, penetrou na adega, onde tom ou de um a bilha de vinho espum ante e claro, deitando-o, com fartura, num a taça antiga. Em seguida, foi a um quarto contíguo, de onde trouxe um tubo pequenino, deixando cair na taça algum as gotas do conteúdo, m onologando baixinho:

- Ah! Sêm ele, bem poderias viver, se não surgisse esse prêm io m aldito, que te condena à m orte!... Benj am im ... o casam ento é um a situação de am argurosa pobreza. - Um a som a de m il sestércios constitui tentação a que não poderia resistir o espírito m ais bem intencionado e m ais puro... Enquanto foram as aperturas e outros castigos, estava certo, m as agora é o dinheiro e o dinheiro costum a condenar as criaturas hum anas à m orte!...

E, m isturando o tóxico violento no vinho que espum ava, continuou resm ungando:

- Daqui a seis horas m inha pobre am iga estará penetrando o reino das som bras... Que fazer? Nada m e resta senão desej ar-lhe boa viagem ! E nunca m ais alguém saberá, neste m undo, que em m inha casa existe um escravo com o sangue nobre dos aristocratas do Im pério Rom ano!...

Em dois m inutos a desventurada serva do senador ingeria satisfeita o conteúdo da taça, agradecendo a sinistra gentileza com palavras com ovidas.

Da porta de sua vivenda em pedrada, observou André os passos derradeiros da sua cúm plice, nas derradeiras curvas do cam inho.

Ninguém m ais pleitearia o Grande Sestércio oferecido pela desesperação de Lentulus, porque, precisam ente à noitinha, quase às dezenove horas, Sêm ele experim entou um a sensação de súbito m al-estar, recolhendo-se ao leito im ediatam ente.

Suores abundantes e frios lavaram -lhe as faces j á descoradas, onde se notava o palor característico da m orte.

Ana, que j á havia regressado, com pungida, aos afazeres dom ésticos, foi cham ada à pressa, a fim de m inistrar-lhe os socorros precisos, encontrando-a, porém , no auge da aflição que assinala os m oribundos prestes a se desvencilharem do cárcere da m atéria.

- Ana... - exclam ou a agonizante, com voz sum ida -, eu m orro... m as tenho a... consciência... pesada... intranquila...

- Sêm ele, que é isso? - replicou a outra, fundam ente com ovida. Confiem os em Deus, nosso Pai Celestial, e confiem os em Jesus, que ainda ontem nos contem plava da cruz dos seus sofrim entos, com um olhar de infinita piedade!

- Sinto... que é... tarde... - m urm urou a agonizante, nas ânsias da m orte -, eu... apenas... queria... um perdão...

Todavia, a voz entrecortada e rouca não pôde continuar. Um soluço m ais forte abafara as últim as palavras, enquanto o rosto se cobria de tons violáceos, com o se o coração houvesse parado instantaneam ente, estringido por incontrastável força.

Ana com preendeu que era o fim e suplicou a Jesus recebesse em seu reino m isericordioso a alm a da com panheira, perdoando-lhe as faltas graves que, por certo, haviam dado m otivo às palavras angustiosas dos últim os m om entos.

Cham ado um m édico ao exam e cadavérico, verificou, no em pirism o da sua ciência, que Sêm ele expirara por deficiência do sistem a cardíaco e, longe de se descobrir a verdadeira causa daquele fato inesperado, o segredo de André de Gioras se envolvia nas som bras espessas do túm ulo.

Ana e Lívia tiveram ensej o de trocar im pressões sobre o doloroso acontecim ento, m as am bas, em bora a funda im pressão que lhes causavam as derradeiras palavras da m orta, encaravam a sua passagem para a outra vida, na conta dessas fatalidades irrem ediáveis.

Públio Lentulus, em seguida a esse fato, apressou o regresso à vivenda de Cafarnaum , que adquirira ao antigo dono, em caráter definitivo, prevendo a possibilidade de longa perm anência em tais lugares. O regresso foi triste, j ornada trabalhosa e sem esperanças.

Os servos num erosos não chegaram a perceber a profunda divergência agora existente entre ele e a esposa, e foi assim que, verdadeiram ente separados pelo coração, continuaram no lar a m esm a tradição de respeito perante os subordinados.

Depois de alguns dias de sua segunda instalação na cidade próspera e alegre onde Jesus tantas vezes fizera soar doces e divinas palavras, o senador preparou copioso expediente para o am igo FIam ínio, bem com o para outros elem entos do Senado, enviando Com ênio a Rom a, com o portador de sua inteira confiança.

Odiando a Palestina, que tantas e tão am argas provações lhe reservara, m as preso a ela pelo desaparecim ento m isterioso do pequenino Marcus, o senador solicitava a Flam ínio a sua intervenção particular para que seu tio Sálvio regressasse à sede dos seus serviços na Capital do Im pério, tentando livrar-se da presença de Fúlvia naqueles lugares, porquanto lhe dizia o coração, na intim idade do pensam ento, que aquela m ulher tinha um a influência nefasta no seu destino e no de sua fam ília. Ao m esm o tem po, saturado de terrível aversão pela personalidade de Pôncio Pilatos, punha o am igo distante a par de num erosos escândalos adm inistrativos que ele, após o incidente da Páscoa, resolvera corrigir com o m áxim o de severidade. Prom etia, então, a Flam ínio Severus, conhecer m ais de perto as necessidades da província, a fim de que as autoridades rom anas ficassem cientes de graves ocorrências na adm inistração, de m odo que, em tem po oportuno, fosse o governador rem ovido para outro setor do Im pério, e prom etendo relacionar, sem dem ora, todas as inj ustiças da atuação de Pilatos na vida pública, em vista das reclam ações reiteradas e consecutivas que lhe chegavam aos ouvidos, de todos os recantos da província.

Nessas cartas particulares pedia ainda, ao am igo, as providências precisas, a fim de que lhe fosse enviado um professor para a filhinha, abatendo-se, contudo, de referir-se aos dolorosos dram as da vida privada, com exceção do caso do filhinho, por ele citado nesses docum entos com o causa única da sua dem ora indefinita, em tais lugares.

Com ênio partiu de Jope, com o m áxim o de precaução, obedecendo rigorosam ente às suas ordens e atingindo Rom a daí a algum tem po, onde faria chegar aquelas notícias às m ãos dos seus legítim os destinatários.

Em Cafarnaum , a vida corria triste e silenciosa.

Públio apegara-se ao seu arquivo volum oso, aos seus processos, aos seus estudos e às suas m editações, preparando os planos educativos da filha ou organizando proj etos concernentes às suas atividades futuras, fazendo o possível para reerguer-se do abatim ento m oral em que m ergulhara com os dolorosos sucessos de Jerusalém .

Quanto a Lívia, esta, conhecendo a inflexibilidade do caráter orgulhoso do m arido, e sabendo que todas as circunstâncias aparentavam a sua culpa, encontrara na alm a dedicada da serva um a confidente extrem osa no afeto, vivendo quase perm anentem ente m ergulhada em orações sucessivas e fervorosas. Os sofrim entos experim entados patentearam -se-lhe no rosto, revelando profundos vestígios nos sulcos da face descorada. Os olhos, todavia, dem onstrando a têm pera e o vigor da fé, clareavam -lhe as expressões fisionôm icas de brilho singular, apesar do seu visível abatim ento.

Em Cafarnaum , os seguidores do Mestre de Nazaré organizaram im ediatam ente um a grande com unidade de crentes do Messias, tornando-se m uitos em apóstolos abnegados de sua doutrina de renúncia, de sacrifício e de redenção. Alguns pregavam , com o Ele, na praça pública, enquanto outros curavam os enferm os em seu nom e. Criaturas rústicas haviam sido tom adas, estranham ente, do m ais alto sopro de inteligência e inspiração celeste, porque ensinavam com a m aior clareza as tradições de Jesus, organizando-se com a palavra desses apóstolos os pródrom os do Evangelho escrito, que ficaria m ais tarde no m undo com o a m ensagem do Salvador da Terra a todas as raças, povos e nações do planeta, qual lum inoso roteiro das alm as para o Céu.

Todos quantos se convertiam à idéia nova, confessavam na praça pública os erros da sua vida, em sinal da hum ildade que lhes era exigida, portas a dentro da com unidade cristã. E para que o m eigo profeta de Nazaré j am ais fosse esquecido em seus m artírios redentores no Calvário, o povo sim ples e hum ilde, de então, organizou o culto da cruz, crendo fosse essa a m elhor hom enagem à m em ória de Jesus Nazareno.

Lívia e Ana, no seu profundo am or ao Messias, não escaparam a essa adesão natural às tradições populares. A cruz era obj eto de toda a sua veneração e absoluto respeito, não obstante representar. naquele tem po, o instrum ento de punição para todos os crim inosos e celerados.

Ana continuou a frequentar as m argens do lago, onde alguns apóstolos do Senhor prosseguiam cultivando as suas lições divinas, j unto dos sofredores deserdados da sorte. E era com um verem -se esses antigos com panheiros e ouvintes do Messias, com o pegureiros hum ildes, atravessando estradas agrestes, no m ais absoluto desconforto, a fim de levarem a todos os hom ens as palavras consoladoras da Boa Nova. Tipos im pressionantes de hom ens sim ples e abnegados percorriam os m ais longos e escabrosos cam inhos, de vestes rotas e calçando alpercatas grosseiras, pregando, porém , com perfeição e sentim ento, as verdades de Jesus, com o se as suas frontes hum ildes estivessem tocadas da graça divina. Para m uitos deles, o m undo não passava da Judeia ou da Síria; m as a realidade é que as suas palavras desassom bradas e serenas iam perm anecer no m undo para todos os séculos.

Mais de um m ês decorrera sobre a Páscoa de 33, quando o senador, por um a tarde form osa e quente da Galileia, se aproxim ou da esposa para lhe dizer dos seus novos propósitos:

- Lívia - com eçou ele, reservado -, tenho a com unicar-lhe que pretendo viaj ar algum tem po, afastando-m e desta casa talvez por dois m eses, em cum prim ento dos m eus deveres de em issário do Im perador, em condições especiais nesta província.

Com o esta viagem se verificará através de pontos num erosos, porquanto tenciono estacionar um pouco em todas as cidades do itinerário, até Jerusalém , não m e é possível levá-la em m inha com panhia, deixando-a, neste caso, com o guardiã de m inha filha.

Com o sabe, nada m ais existe entre nós que lhe outorgue o direito de conhecer m inhas preocupações m ais íntim as; todavia, renovo m inhas palavras do dia fatal do nosso rom pim ento afetivo. Conservada nesta casa, apenas pela sua tarefa m aternal, confio-lhe durante m inha ausência a guarda de Flávia, até que chegue de Rom a o velho professor que pedi a Flam ínio.

Desej o firm em ente acredite na confiança que deponho no seu propósito de regeneração, com o m ãe de fam ília, e que procure restabelecer sua idoneidade que, outrora, não lhe negaria em tais circunstâncias, e espero, assim , se abstenha de qualquer ato indigno, que venha a perder m inha pobre filha para sem pre.

- Públio!... - pode ainda exclam ar a esposa do senador, aflitam ente, tentando aproveitar aquele rápido m inuto de serenidade do m arido, a fim de se defender das calúnias que lhe eram assacadas pelas m ais com plicadas circunstâncias; m as, afastando-se repentinam ente, fechado na sua severidade orgulhosa, o senador não lhe deu tem po de continuar, integrando-a, cada vez m ais, no conhecim ento da sua am argurada situação dentro do lar.

Passada um a sem ana, partia ele para a sua viagem aventurosa. Anim avam -no, acim a de tudo, o desej o de aliviar o coração de tantos pesares, a tentativa da procura do filhinho desaparecido e o obj etivo de catalogar os erros e inj ustiças da adm inistração de Pilatos, de m odo a alij á-lo dos poderes públicos na Palestina, em tem po oportuno.

Na sua resolução, todavia, pairava um erro grave, cuj as consequências dolorosas não conseguira ou não pudera prever no seu íntim o atribulado. A circunstância de deixar esposa e filha expostas aos perigos de um a região, onde eram consideradas com o intrusas, devia ser exam inada m ais detidam ente pela sua visão de hom em prático Além disso, ele não podia contar, nessa ausência, com a dedicação vigilante de Com ênio, em viagem com destino a Rom a, onde o conduziam as determ inações do patrão e leal am igo.

Todas essas preocupações andavam no espírito de Lívia, dotada, com o m ulher, de sentim ento m ais apurado e m ais j usto, no plano das conj eturas e previsões.

Foi assim , de alm a aflita, que viu partir o m arido, em bora houvesse ele recom endado a num erosos servos o m áxim o de vigilância nos trabalhos da casa, j unto aos seus fam iliares.

Festividades solenes foram determ inadas por Herodes, em Tiberíades, previam ente avisado pelo senador, a respeito de sua visita pessoal àquela cidade, que representava a prim eira etapa da sua longa excursão. Todas as localidades de m aior destaque constavam com o pontos de parada da caravana, recebendo Públio, em todas elas, as m ais expressivas hom enagens das adm inistrações e contingentes de escolta e servos inúm eros, que lhe auxiliavam os serviços, naquela dem orada excursão através das unidades políticas de m enor im portância, na Palestina.

Devem os consignar, porém , que Sulpício Tarquinius se encontrava j ustam ente em m issão j unto de Ântipas, quando da festiva chegada de Públio Lentulus à grande cidade da Galileia. Procurou, todavia, não se fazer notado pelo senador, regressando no m esm o dia a Jerusalém , onde vam os encontrá-lo em conferência íntim a com o governador, nestes term os:

- Sabeis que o senador Lentulus - dizia Sulpício, com o prazer de quem dá um a notícia desej ada e interessante - dispôs-se a efetuar longa viagem por toda a província?

- Quê? - fez Pilatos grandem ente surpreendido.

- Pois é verdade. Deixei-o em Tiberíades, de onde se dirigirá para Sebaste em breves dias, crendo m esm o, segundo o program a da viagem , que pude conhecer graças ao concurso de um am igo, que não voltará a Cafarnaum nestes quarenta dias.

- Que intuito terá o senador com viagem tão incôm oda e sem atrativo? Algum a determ inação secreta da sede do Im pério? - inquiriu Pilatos, receoso de algum a punição aos seus atos inj ustos na adm inistração política da província.

Mas, após alguns segundos de m editação, com o se o hom em privado sobrepuj asse as cogitações do hom em público, perguntou ao lictor, com interesse:

- E a esposa? Não o acom panhou? Teria o senador a coragem de deixá-la só, entregue às surpresas deste pais, onde se aninham tantos m alfeitores?

- Reconhecendo que teríeis interesse em tais inform es - tornou Sulpício, com fingida dedicação e satisfeita m alícia -, busquei inteirar-m e do assunto com um am igo que segue o viaj ante, com o elem ento de sua guarda pessoal, vindo a saber que a senhora Lívia ficou em Cafarnaum , na com panhia da filha, e ali aguardará o regresso do esposo.

- Sulpício - exclam ou Pilatos, pensativo -, suponho não ignoras m inha sim patia pela adorável criatura a que nos referim os...

- Bem o sei, m esm o porque, fui eu próprio, com o deveis estar lem brado, que a introduzi no vosso gabinete particular, não há m uito tem po.

- É verdade!

- Porque não aproveitais este ensej o para um a visita pessoal a Cafarnaum ? -perguntou o lictor, com segundas intenções, m as sem ferir diretam ente o m elindroso assunto.

- Por Júpiter! - redarguiu Pilatos, satisfeito. - Tenho um convite de Cusa e outros funcionários graduados de Ântipas, naquela cidade, que m e autoriza a pensar nisso. Mas, a que vem a tua sugestão neste sentido?

- Senhor - exclam ou Sulpício Tarquinius, com hipócrita m odéstia -, antes de tudo, trata-se da vossa alegria pessoal com a realização desse proj eto e, depois, tenho igualm ente grande sim patia por um a j ovem serva da casa, de nom e Ana. cuj a beleza adm irável e sim ples é das m ais sedutoras que hei visto nas m ulheres nascidas em Sam aria.

- Que é isso? Nunca te observei apaixonado. Acho que j á passaste a época dos arrebatam entos da m ocidade. Em todo caso, isso quer dizer que não m e encontro sozinho na satisfação que m e traz a idéia dessa viagem im prevista - replicou Pilatos, com visível bom hum or.

E, com o se naquele m esm o instante houvesse elaborado todos os detalhes do seu plano, exclam ou para o lictor, que o ouvia entre satisfeito e envaidecido:

- Sulpício, ficarás aqui em Jerusalém apenas o tem po preciso ao teu descanso ligeiro e im ediato, regressando, depois de am anhã, para a Galileia, onde irás diretam ente a Cafarnaum avisar Cusa dos m eus propósitos de visitar a cidade e, feito isso, irás até à residência do senador Lentulus, onde avisarás sua esposa da m inha decisão, em tom discreto, cientificando-a do dia previsto para a m inha partida e chegada até lá. Espero que, com a atitude inconsiderada do m arido, deixando-a tão só em tais regiões, venha ela pessoalm ente a Cafarnaum encontrar-se com igo, de m odo a distrair-se da com panhia dos galileus grosseiros e ignorantes, e recordar por algum as horas os seus dias felizes da Corte, j unto de m inha conversação e de m inha am izade.

- Muito bem - redarguiu o lictor, não cabendo em si de contente. Vossas ordens serão rigorosam ente cum pridas.

Sulpício Tarquinius saiu alegre e confortado nos seus sentim entos inferiores, antegozando o instante em que se aproxim aria novam ente da j ovem sam aritana, que despertara a cobiça dos seus sentidos m ateriais, cobiça que não tivera tem po de m anifestar quando da sua perm anência no serviço pessoal de Públio Lentulus.

Cum prindo as determ inações recebidas, vam os encontrá-lo daí a quatro dias em Cafarnaum , onde os avisos do governador foram recebidos com grande contentam ento por parte das autoridades políticas.

O m esm o, porém , não aconteceu na residência de Públio, onde sua presença foi recebida com reservas pelos em pregados e escravos da casa. Ao seu cham ado, apresentou-se-lhe Maxim us, substituto de Com ênio na chefia dos serviços usuais, m as que estava longe de possuir a sua energia e experiência.

Atendido, solicitam ente, pelo antigo servo, que era seu conhecido pessoal, solicitou-lhe o lictor a presença de Ana, de quem dizia ele precisar de um a entrevista pessoal para a solução de determ inado assunto.

O velho criado de Lentulus não hesitou em cham á-la à presença de Sulpício, que a envolveu de olhares cúpidos e ardentes.

A criada perguntou-lhe, entre intrigada e respeitosa, a razão da visita inesperada, ao que Tarquinius esclareceu tratar-se da necessidade de se avistar, por um m om ento, com Lívia, em particular, tentando ao m esm o tem po colocar a pobre m oça ao corrente de suas pretensões inconfessáveis, dirigindo-lhe as propostas m ais indignas e insolentes.

Após alguns m inutos, em que se fazia ouvir nas suas expressões insultuosas, em voz abafada, que Ana escutava extrem am ente pálida, com o m áxim o de cuidado e paciência para evitar qualquer nota escandalosa a seu respeito, respondeu a digna serva com voz austera e valorosa:

- Senhor lictor, cham arei m inha senhora para atender-vos, dentro de poucos instantes. Quanto a m im , devo afirm ar-vos que estais enganado, porquanto não sou a pessoa que supondes.

E, encam inhando-se resolutam ente para o Interior, cientificou a senhora do persistente propósito de Sulpício em lhe falar pessoalm ente, surpreendendo-se Lívia não só com o acontecim ento inesperado, senão tam bém com a expressão fisionôm ica da serva, presa da m ais extrem a palidez, depois do choque sofrido. Ana tratou de não a inteirar de pronto, do sucedido, enquanto m urm urava:

- Senhora, o lictor Sulpício parece apressado. Presum o que não tendes tem po a perder.

Todavia, sem se deixar em polgar pelas circunstâncias, Lívia buscou atender ao m ensageiro com o m áxim o de sua habitual atenção.

Ante a sua presença, inclinou-se o lictor com profunda reverência, dirigindo-se-lhe respeitoso, no cum prim ento dos deveres que o traziam :

- Senhora, venho da parte do Senhor Procurador da Judeia, que tem a honra de vos com unicar a sua vinda a Cafarnaum nos prim eiros dias da próxim a sem ana...

Os olhos de Lívia brilharam de j ustificada indignação, enquanto inúm eras conj eturas lhe assaltaram o espírito; m ovim entando, porém , as suas energias, teve a precisa coragem para responder à altura das circunstâncias:

- Senhor lictor, agradeço a gentileza de vossas palavras; todavia, cum pre-m e esclarecer que m eu m arido se encontra em viagem , neste m om ento, e a nossa casa a ninguém recebe na sua ausência.

E, com leve sinal, fez-lhe sentir que era tem po de se retirar, o que Sulpício com preendeu, intim am ente encolerizado. Despediu-se com reverências respeitosas.

Surpreendido com aquela atitude, porquanto ao espírito do lictor a prevaricação de Lívia representava um fato inconteste, retirou-se sum am ente desapontado, m as não sem conj eturar os acontecim entos na sua depravada m alícia.

Foi assim que, encontrando-se com um dos soldados de guarda à residência, seu conhecido e am igo pessoal, observou-lhe com fingido interesse:

- Otávio, antes de um a sem ana talvez aqui estej a de volta e desej aria encontrar de novo, nesta casa, a j óia rara de m inha felicidade e de m inhas esperanças...

- Que j óia é essa? - perguntou, curioso, o interpelado. - Ana...

- Está bem . Fácil é o trabalho que m e pedes.

- Mas, ouve-m e bem - exclam ou o lictor, pressentindo, j á, que a presa tudo faria por fugir-lhe das m ãos. - Ana costum a ausentar-se frequentem ente e, caso isso se verifique, espero que a tua am izade não m e falte com os inform es necessários, no instante oportuno...

- Pode contar com a m inha dedicação.

Acabando de ouvir o porm enor m ais im portante desse diálogo, voltem os ao interior, onde Lívia, de alm a opressa, confia à serva am iga e devotada as conj eturas dolorosas que lhe pesavam no coração. Depois de externar-lhe os seus j ustificados tem ores, plenam ente adm itidos por Ana que, por sua vez, a colocou ao corrente das insolências de Sulpício, a pobre senhora desfiou à sua confidente, sim ples e generosa, o rosário infindo de suas am arguras, relatando-lhe todos os sofrim entos que lhe dilaceravam a alm a carinhosa e sensibilíssim a, desde o prim eiro dia em que a calúnia encontrara guarida no espírito orgulhoso do com panheiro. As lágrim as da serva, ante a singular narrativa, eram bem o reflexo da sua alta com preensão das angústias da senhora, perdida naqueles rincões quase selvagens, considerando-se a sua educação e a nobreza de sua origem .

Ao finalizar o penoso relato de suas desditas, a nobre Lívia acentuou com indisfarçável am argura:

- Na verdade, tudo tenho feito por evitar os escândalos inj ustificáveis e incom preensíveis. Agora, porém , sinto que a situação se agrava cada vez m ais, à vista da insistência dos m eus algozes e da displicência de m eu m arido em face dos acontecim entos, perdendo-se o m eu espírito em conj eturas am argas e dolorosas.

Se m ando cham á-lo por um m ensageiro, pondo-o ao corrente do que se passa, a fim de que nos protej a com as suas providências im ediatas, talvez não com preenda a m archa dos fatos na sua intim idade, encarando os m eus receios com o sintom a de culpas anteriores, ou tom ando os m eus escrúpulos com o desej o de regeneração por faltas que não com eti, em virtude de suas enérgicas reprim endas e penosas am eaças; se não o aviso dessas ocorrências graves, do m esm o m odo se produziria o escândalo, com a vinda do governador a Cafarnaum , aproveitando o ensej o da sua ausência.

Tom o, unicam ente, a Jesus por m eu j uiz nesta causa dolorosa, em que as únicas testem unhas devem ser o m eu coração e a m inha consciência!...

O que m ais m e preocupa, agora, m inha boa Ana, não é tão som ente a obrigação de velar por m im , que j á experim entei o fel am aríssim o da desilusão e da calúnia im piedosa. É, j ustam ente, por m inha pobre filha, porque tenho a im pressão de que aqui na Palestina os m alfeitores estão nos lugares onde deveriam perm anecer os hom ens de sentim entos puros e incorruptíveis...

Com o não ignoras, m eu desventurado filhinho j á se foi, arrebatado nesse turbilhão de perigos, talvez assassinado por m ãos indiferentes e crim inosas... Fala-m e o coração m aternal que o m eu desgraçado Marcus ainda vive, m as onde e com o? Debalde tem os procurado sabê-lo, em todos os recantos, sem o m ais leve sinal da sua presença ou passagem ... Agora, m anda a consciência que resguarde a filhinha contra as ciladas tenebrosas!...

- Senhora - exclam ou a serva, com fulgor estranho no olhar, com o se houvera encontrado um a solução repentina e apreciável para o assunto -, o que dissestes revela o m áxim o bom -senso e prudência... Tam bém eu participo dos vossos tem ores e suponho que deverem os fazer tudo por salvar a m enina e a vós m esm a das garras desses lobos assassinos... Porque não nos refugiarm os nalgum local de nossa inteira confiança, até que os m alditos abandonem estas paragens?!

- Mas considero que seria inútil procurarm os abrigo em Cafarnaum , em tais circunstâncias.

- Iríam os a outra parte.

- Aonde? - indagou Lívia, com ansiedade.

- Tenho um proj eto - disse Ana esperançosa. - Caso assentísseis na sua plena realização, sairíam os am bas daqui, com a pequenina, refugiando-nos na própria Sam aria da Judeia, em casa de Sim eão, cuj a idade respeitável nos resguardaria de qualquer perigo.

- Mas, a Sam aria - replicou Lívia, algo desalentada - fica m uito distante...

- A realidade, contudo, m inha senhora, é que necessitam os de um sítio dessa natureza. Concordo em que a viagem não será tão curta, m as partiríam os com urgência, alugando anim ais descansados, tão logo repousássem os um pouco, na passagem por Naim . Com um dia ou dois de m archa, atingiríam os o vale de Siquém , onde se ergue a velha propriedade de m eu tio. Maxim us seria cientificado da vossa deliberação, sem outro pretexto que não sej a o da necessidade de vossas decisões no m om ento e, na hipótese do regresso im ediato do senador, estaria o vosso esposo integrado no conhecim ento direto da situação, procurando inteirar-se, por si m esm o, quanto à vossa honestidade.

- De fato, essa idéia é o recurso m ais viável que nos resta - exclam ou Lívia m ais ou m enos confortada. - Além do m ais, confio no Mestre, que não nos abandonará em provas tão rudes.

Hoj e m esm o, farem os nossos aprestos de viagem e irás à cidade providenciar, não só quanto aos anim ais que nos devam conduzir até Naim , com o tam bém quanto à partida de um dos teus fam iliares conosco, de m odo a seguirm os com a m aior sim plicidade, sem provocar a atenção dos curiosos, m as igualm ente bem acom panhadas contra os dissabores de qualquer eventualidade.

Não te preocupes com despesas, porque estou provida dos necessários recursos financeiros.

Assim foi feito.

Na véspera da partida, Lívia cham ou o servo que então desem penhava as funções de m ordom o da casa, esclarecendo-o nestes term os:

- Maxim us, m otivos im periosos m e lavam am anhã a Sam aria da Judeia, onde m e dem orarei alguns dias, j unto de m inha filha. Levarei Ana em m inha com panhia e espero do teu esforço a m esm a dedicação de sem pre aos teus senhores.

O interpelado fez um a reverência, com o quem se surpreendesse com sem elhante atitude da patroa, pouco afeita aos am bientes exteriores do lar, m as entendendo que não lhe assistia o direito de analisar as suas decisões, aventou, respeitoso:

- Senhora, espero designeis os servos que deverão acom panhar-vos.

- Não, Maxim us. Não quero as solenidades do costum e nas excursões dessa natureza. Irei com pessoas am igas, de Cafarnaum , e pretendo viaj ar com m uita sim plicidade. Interessa-m e avisar-te dos m eus propósitos, tão som ente pela necessidade de redobrar os serviços de vigilância na m inha ausência, e considerando a possibilidade do regresso inopinado do teu am o, a quem cientificarás da m inha resolução, nos term os em que m e estou exprim indo.

E, enquanto o criado se inclinava respeitoso, Lívia regressava aos aposentos, solucionando todos os problem as relativos à sua tranquilidade.

No dia im ediato, antes da aurora, saia de Cafarnaum um a caravana hum ilde. Com punham -na Lívia, a filhinha, Ana e um dos seus velhos e respeitáveis fam iliares, que se dirigiam pela estrada que contornava o grande lago, quase em caprichoso sem icírculo, acom panhando o curso das águas do Jordão a descerem sussurrantes e tranquilas para o Mar Morto.

Num a breve parada em Naim , trocaram -se os anim ais, seguindo os viaj antes o m esm o roteiro em direção do vale de Siquém , onde, à tardinha, apearam à frente da casa em pedrada de Sim eão, que recebeu os hóspedes, chorando de alegria.

O ancião de Sam aria parecia tocado de um , a graça divina, tal o m ovim ento notável que desenvolvera em toda a região, não obstante a sua idade avançada, espalhando os consoladores ensinam entos do profeta de Nazaré.

Entre oliveiras um brosas e frondej antes, erguera um a grande cruz, pesada e tosca, colocando nas suas proxim idades am pla m esa rústica, em torno da qual se assentavam os crentes, em pobres bancos im provisados, para lhe ouvirem a palavra am iga e confortadora.

Cinco dias venturosos decorreram ali para as duas m ulheres, que se encontravam à vontade naquele am biente sim ples.

De tarde, sob as carícias da Natureza livre e sadia, no seio verde da paisagem harm oniosa, reunia-se a assem bléia hum ilde dos sam aritanos, inclinados a aceitar os pensam entos de am or e de m isericórdia sublim e do Messias Nazareno.

Sim eão, que ali vivia sem a com panheira que Deus j á havia levado e sem os filhos que, por sua vez, j á haviam constituído fam ília, em aldeias distantes, assum ia a direção de todos, com o patriarca venerável na sua calm a senectude, relatando os fatos da vida de Jesus com o se a inspiração divina o bafej asse em tais instantes, tal a profunda beleza filosófica dos com entários e das preces im provisadas com a am orosa sinceridade do seu coração.

Quase todos os presentes, naquela m esm a poesia sim ples da Natureza, com o se estivessem ainda bebendo as palavras do Mestre j unto do Gerizim , choravam de com oção e deslum bram ento espiritual, tocados pela sua palavra profunda e carinhosa, m agnetizados pela form osura das suas evocações saturadas de ensinam entos raros, de caridade e m eiguice.

Nessa época, os cristãos não possuíam os evangelhos escritos, que som ente um pouco depois apareciam no m undo grafados pelos Apóstolos, razão pela qual todos os pregadores da Boa Nova colecionavam as m áxim as e as lições do Mestre, de próprio punho ou com a cooperação dos escribas do tem po, catalogando-se, desse m odo, os ensinam entos de Jesus para o estudo necessário nas assem bléias públicas das sinagogas.

Sim eão, que não possuía um a sinagoga. seguia, porém , o m esm o m étodo.

Com a paciência que o caracterizava, escreveu tudo que sabia do Mestre de Nazaré, para recordá-lo nas suas reuniões hum ildes e despretensiosas, prontificando-se do m elhor grado a registrar todas as lições novas do acervo de lem branças dos seus com panheiros, ou daqueles apóstolos anônim os do Cristianism o nascente, que, de passagem por sua velha aldeia, cruzavam a Palestina em todas as direções.

Fazia seis dias que as hóspedes se retem peravam naquele am biente caricioso, quando o respeitável ancião, naquela tarde, em suas costum eiras evocações do Messias, se afigurava tocado de influências espirituais das m ais excelsas.

As derradeiras m eias-tintas do crepúsculo entornavam na paisagem um tom de esm eraldas e topázios, eterizados sob um céu azul indefinível.

No seio da assem bléia heterogênea, notava-se a presença de criaturas sofredoras, de todos os m atizes, que ao espírito de Lívia lem bravam a tarde m em orável de Cafarnaum , quando ouvira o Senhor pela prim eira vez. Hom ens esfarrapados e m ulheres m altrapilhas acotovelavam -se com crianças esquálidas, fitando, ansiosam ente, o ancião que explicava, com ovido, com a sua palavra sim ples e sincera:

- Irm ãos, era de ver-se a suave resignação do Senhor, no derradeiro instante!...

Olhar fixo no céu, com o se j á estivesse gozando a contem plação das beatitudes celestes, no reino de nosso Pai, vi que o Mestre perdoava caridosam ente todas as inj úrias! Apenas um dos seus discípulos m ais queridos se conservava ao pé da cruz, am parando a sua m ãe no angustioso transe!... Dos seus habituais seguidores, poucos estavam presentes na hora dolorosa, certam ente porque nós, os que tanto o am ávam os, não podíam os externar nossos sentim entos diante da turba enfurecida, sem graves perigos para a nossa segurança pessoal. Não obstante, desej aríam os, todos, experim entar os m esm os padecim entos!...

De vez em quando, um que outro m ais atrevido de seus verdugos se aproxim ava do corpo chagado no m artírio, dilacerando-lhe o peito com a ponta das lanças im piedosas!...

Um a vez por outra, o generoso ancião lim pava o suor da fronte, para continuar com os olhos úm idos:

- Notei, em dado instante, que Jesus desviara os olhos calm os e lúcidos do firm am ento, contem plando a m ultidão am otinada em crim inosa fúria!... Alguns soldados ébrios açoitaram -no, m ais um a vez, sem que do seu peito opresso, na angústia da agonia, escapasse um único gem ido!... Seus olhos suaves e m isericordiosos se espraiaram , então, do m onte do sacrifício para o casario da cidade m aldita! Quando o vi olhando ansiosam ente, com a ternura carinhosa de um pai, para quantos o insultavam nos suplícios extrem os da m orte, chorei de vergonha pelas nossas im piedades e fraquezas...

A m assa m ovim entava-se, então, em altercações num erosas... Gritos ensurdecedores e im propérios revoltantes o cercavam na cruz, onde se lhe notava o copioso suor do instante suprem o!.. Mas o Messias, com o se visualizasse profundam ente os segredos dos destinos hum anos, lendo no livro do futuro, fitou de novo as Alturas, exclam ando com infinita bondade: "Perdoa-lhes, m eu Pai, porque não sabem o que fazem !"

O velho Sim eão tinha a voz em bargada de lágrim as, ao evocar aquelas lem branças, enquanto a assem bléia se com ovia profundam ente com a narrativa.

Outros irm ãos da com unidade tom aram a palavra, descansando o ancião dos seus esforços.

Um deles, porém , contrariam ente aos tem as versados naquele dia, exclam ou, com surpresa para todos os circunstantes:

- Meus irm ãos, antes de nos retirarm os, lem brem os que o Messias repetia sem pre aos seus discípulos a necessidade da vigilância e da oração, porque os lobos rondam , neste m undo, o rebanho das ovelhas!...

Sim eão ouviu a advertência e pôs-se em atitude de profunda m editação, de olhos fitos na grande cruz que se elevava a poucos m etros do seu banco hum ilde.

Ao cabo de alguns m inutos de espontânea concentração, tinha os olhos transbordando de lágrim as, fixos no m adeiro tosco, com o se no seu topo vagasse algum a visão desconhecida de quantos o observavam ...

Depois, encerrando as preleções da tarde, falou com ovido: - Filhos, não é sem j usto m otivo que o nosso irm ão se refere hoj e ao ensino da vigilância e da prece! Algum a coisa, que não sei definir, fala-m e ao coração que o instante do nosso testem unho está m uito próxim o... Vej o com a m inha vista espiritual que a nossa cruz está hoj e ilum inada, anunciando, talvez, o glorioso m inuto dos nossos sacrifícios... Meus pobres olhos se enchem de pranto, porque, entre as claridades do m adeiro, ouço um a voz suave que m e penetra os ouvidos num a entonação branda e am iga, exclam ando: "Sim eão, ensina ao teu rebanho a lição da renúncia e da hum ildade, com o exem plo da tua dedicação e do teu próprio sacrifício! Ora e vigia, porque não está longe o instante ditoso de tua entrada no Reino, m as preserva as ovelhas do teu aprisco das arrem etidas tenebrosas dos lobos fam ulentos da im piedade, soltos na Terra, ao longo de todos os cam inhos, consciente, porém , de que, se a cada um se dará segundo as próprias obras, os m aus terão, igualm ente, seu dia de lição e castigo, de conform idade com os próprios erros!..."

O velho sam aritano tinha o rosto lavado em lágrim as, m as doce serenidade irradiava do seu olhar carinhoso e com passivo, dem onstrando-lhe as energias inquebrantáveis e valorosas.

Foi então que, alçando as m ãos em agrecidas e longas ao firm am ento, onde brilhavam j á as prim eiras estrelas, dirigiu-se a Jesus, em prece ardente:

- Senhor, perdoai nossas fraquezas e vacilações nas lutas da vida hum ana, onde os nossos sentim entos são bem precários e m iseráveis!... Abençoai nosso esforço de cada dia e relevai as nossas faltas, se algum de nós, que aqui nos reunim os, vem à vossa presença com o coração saturado de pensam entos que não sej am os do bem e do am or que nos ensinastes!... E, se chegada é a hora dos sacrifícios, auxiliai-nos com a vossa m isericórdia infinita, a fim de que não vacilem os em nossa fé, nos dolorosos m om entos do testem unho!...

A oração com ovedora assinalou o fim da reunião, dispersando-se os assistentes, que regressavam , im pressionados, às suas choupanas hum ildes e pobres.

O ancião, todavia, conseguiu repousar m uito pouco naquela noite, tom ado de preocupação por Lívia e pela sobrinha, que o haviam cientificado das graves ocorrências que as levaram a solicitar a sua proteção. Figurava-se-lhe que apelos carinhosos do m undo invisível lhe enchiam o espírito de ansiedade indefinível e de singulares im pressões, que lhe não era possível alij ar do raciocínio para os necessários m inutos de repouso.

Contudo, enquanto ocorriam esses fatos no vale de Siquém , voltem os a Cafarnaum , onde. na m esm a tarde, chegara o governador com grande aparato.

No burburinho das festanças num erosas, organizadas pelos prepostos de Herodes Ântipas, o prim eiro pensam ento do viaj ante ilustre não nos pode ser olvidado.

Sulpício, porém , após palestrar longam ente com o seu am igo Otávio, nas proxim idades da residência do senador, onde foi posto ao corrente de todos os fatos, voltou a inform á-lo de que am bas as presas cobiçadas haviam fugido com o aves viaj oras, para os bosques da Sam aria.

O governador surpreendeu-se com a resistência daquela m ulher, tão acostum ado estava ele às conquistas fáceis, adm irando-lhe, intim am ente, o nobre heroísm o e pensando que, afinal, constituía atitude inj ustificável da sua parte tal obstinação no assédio, m esm o porque, não lhe faltariam m ulheres tentadoras e form osas, desej osas de captarem a sua estim a, no cam inho da sua alta posição social na Palestina.

Ao m esm o tem po que dava curso a esses pensam entos, o espírito perverso do lictor, antegozando a trabalhosa conquista da sua vítim a, m urm urava-lhe ao ouvido:

- Senhor governador, se consentirdes, irei a Sam aria da Judeia inform ar-m e do assunto. Daqui ao vale de Siquém deve m ediar pouco m ais de trinta m ilhas, o que vem a ser um salto para os nossos cavalos. Levaria com igo seis soldados, bastando esses hom ens para m anter a ordem em qualquer lugar destas paragens.

- Sulpício, por m im , não vej o m ais necessidade de sem elhantes providências exclam ou Pilatos, resignado.

- Mas, agora - explicou o lictor, com interesse -, se não é por vós, deve ser por m im , porque m e sinto escravizado a um a m ulher que devo possuir de qualquer m aneira.

Sou eu agora quem vos pede, hum ildem ente, a concessão dessas providências- acentuou ele, desesperado, no auge dos seus pensam entos im puros.

- Está bem - m urm urou Pilatos, com displicência, com o quem faz um favor a servo de confiança -, concedo-te o que m e pedes. Acho que o am or de um rom ano deve superar qualquer afeição dos escravos deste país.

Podes partir, levando contigo os elem entos da tua am izade, sem te esqueceres, porém . de que devem os regressar a Nazaré, de hoj e a três dias. Não te bastarão dois dias para esse com etim ento?

- Mas continuou o lictor, m aliciosam ente -, e se houver algum a resistência?

- Para isso levas os teus hom ens, autorizando-te eu a tom ar as iniciativas necessárias aos teus propósitos. Em qualquer m issão, j am ais te esqueças prestar aos patrícios os favores da nossa consideração, m as, aos que o não sej am , faze a j ustiça do nosso dom ínio e da nossa força im placáveis.

Na m esm a noite, Sulpício Tarquinius escolheu os hom ens de m ais confiança, e, pela m adrugada, sete cavaleiros audaciosos puseram -se a cam inho, trocando os ginetes fogosos. nas paradas m ais im portantes, em dem anda de Sam aria.

O lictor encam inhava-se para a sua aventura, com o quem segue para o desconhecido, com o propósito firm e de atingir os fins sem cogitar dos m eios. Turbilhonavam -lhe no cérebro pensam entos condenáveis, afogando o coração inquieto e louco num a onda de anseios crim inosos e indefiníveis.

Voltando, todavia, nossa atenção para a casa hum ilde do vale, vam os encontrar Sim eão em grandes atividades, naquela m anhã inolvidável de sua vida.

Após o alm oço frugal, organizadas todas as suas anotações e pergam inhos, depois de m ais de um a hora de m editação e preces fervorosas, e quando o Sol j á declinava, reuniu as hóspedas, falando-lhes gravem ente:

- Filhas, a visão de m eus pobres olhos, em nossas preces de ontem , representa um a séria advertência para o m eu coração. Ainda esta noite e hoj e, durante o dia, tenho ouvido apelos suaves que m e cham am e, sem explicar a j usta razão deles, tenho o íntim o saturado de branda serenidade, na suposição de que não deve tardar m uito a m inha ida para o Reino... Algo, porém , m e fala ao espírito que ainda não soou a hora da vossa partida e, considerando o ensinam ento do nosso Mestre de bondade e m isericórdia, sobre os lobos e as ovelhas, devo resguardar-vos de qualquer perigo. É por isso que vos peço acom panhar-m e.

Assim dizendo, o respeitável ancião pôs-se de pé e, cam inhando para o seu casebre, deslocou blocos de pedra dum a abertura na parede em pedrada, exclam ando im perativam ente, na sua serena sim plicidade:

- Entrem os.

- Mas, m eu tio - obtem perou Ana, com certa estranheza -, serão necessárias tais providências?

- Filha, nunca discutas o conselho daqueles que envelheceram no trabalho e no sofrim ento. O dia de hoj e é decisivo e Jesus não m e poderia enganar o coração.

- Oh! m as será possível, então, que o Mestre nos vá privar de vossa presença carinhosa e consoladora? - exclam ou a pobre rapariga banhada em pranto, enquanto Lívia os acom panhava sensibilizada, trazendo pela m ão a filha estrem ecida.

- Sim , para nós - revidou Sim eão, com serena coragem , m irando o azul do céu-, deve existir um a só vontade, que é a de Deus. Cum pram -se, pois, nos escravos os desígnios do Senhor.

Neste com enos, penetraram os quatro num a galeria que, à distância de poucos m etros, ia dar num m odesto refúgio talhado em pedras rústicas, afirm ando o ancião em tom solene:

- Ha m ais de vinte anos não abro este subterrâneo a pessoa algum a... Recordações sagradas de m inha esposa fizeram -m e encerrá-lo para sem pre, com o túm ulo de m inhas ilusões m ais queridas; m as, hoj e de m anhã, o reabri resolutam ente, retirei os tropeços do cam inho, coloquei aqui os apetrechos necessários ao descanso de um dia, pensando na vossa segurança até à noite. Este abrigo está oculto nas rochas que, j unto das oliveiras, fazem o ornam ento do nosso recanto de orações e, não obstante parecer abafado, o am biente recebe o ar puro e fresco do vale, com o a nossa própria casa.

Ficai aqui tranquilas. Algum a coisa m e diz ao coração que estam os atravessando horas decisivas. Trouxe o alim ento preciso para as três, durante as horas da tarde, e caso eu não volte até à noitinha, j á sabem com o devem m over a porta em pedrada que dá para m eu quarto. Daqui, ouvem -se os rum ores das cercanias, o que vos possibilitará a com preensão de qualquer perigo.

- E m ais ninguém conhece este refúgio? -perguntou Ana, ansiosa. - Ninguém , a não ser Deus e os m eus filhos ausentes. Lívia, profundam ente com ovida, ergueu então a voz do seu sincero agradecim ento:

- Sim eão - disse ela -, eu, que conheço a têm pera do inim igo, j ustifico os vossos tem ores. Jam ais esquecerei vosso gesto paternal, salvando-m e do verdugo im piedoso e im placável.

- Senhora, não agradeçais a m im , que nada valho. Agradeçam os a Jesus os seus desígnios preciosos, no m om ento am argo das nossas provas...

Arrancando um a pequena cruz de m adeira tosca das dobras da túnica hum ilde, entregou-a à esposa do senador, exclam ando com voz serena:

- Só Deus conhece o m inuto que se aproxim a, e esta hora pode assinalar os derradeiros m om entos do nosso convívio na Terra. Se assim for, guardai esta cruz com o recordação de um servo hum ilde... Ela traduz a gratidão do m eu espírito sincero...

Com o Lívia e Ana com eçassem a chorar com as suas palavras com ovedoras, continuou o ancião com voz pausada:

- Não choreis, se este m inuto constitui o instante suprem o! Se Jesus nos cham a ao seu trabalho, uns antes dos outros, lem brem o-nos de que, um dia, nos reunirem os todos nas luzes cariciosas do seu reino de am or e m isericórdia, onde todos os aflitos hão-de ser consolados..

E, com o se o seu espírito estivesse na plena contem plação de outras esferas, cuj as claridades o enchessem de intuições divinatórias, prosseguiu, dirigindo-se à Lívia, com ovidam ente:

- Estej am os confiantes na Providência Divina! Caso o m eu testem unho estej a previsto para breves horas, confio-vos a m inha pobre Ana, com o vos entregaria a m inha recordação m ais querida!... Depois que abracei as lições do Messias, todos os filhos do m eu sangue m e desam pararam , sem m e com preenderem os propósitos m ais santos do coração... Ana, porém , apesar da sua j uventude, entendeu, com igo, o doce Crucificado de Jerusalém !...

- Quanto a ti, Ana - disse pousando a destra na fronte da sobrinha -, am a a tua patroa com o se fosses a m ais hum ilde das suas escravas!

Nesse instante, porém , um ruído m ais forte penetrou no recinto, com o se um barulho incom preensível proviesse das rochas, parecendo m ais um tropel de num erosos cavalos que se iam aproxim ando.

O ancião fez um gesto de despedida, enquanto Lívia e Ana se aj oelharam diante da sua figura austera e carinhosa; am bas, entre lágrim as, tom aram -lhe as m ãos encarquilhadas, que cobriam de beij os afetuosos.

Num relance, Sim eão transpôs a pequena galeria, reaj ustando as pedras na parede com o m áxim o cuidado.

Em poucos m inutos, abria as portas da casa hum ilde e generosa a Sulpício Tarquinius e seus com panheiros, com preendendo, afinal, que as advertências de Jesus, no silêncio de suas orações fervorosas, não haviam falhado.

O lictor dirigiu-lhe a palavra sem qualquer cerim ônia, fazendo o possível por elim inar a im pressão que lhe causava a m aj estosa aparência do ancião, com os seus olhos altivos e serenos e as longas barbas encanecidas.

- Meu velho - exclam ou desabridam ente -, por interm édio de teus conhecidos j á sei que te cham as Sim eão, e igualm ente que hospedas aqui um a nobre senhora de Cafarnaum , com a sua serva de confiança. Venho da parte das m ais altas autoridades para falar particularm ente com essas senhoras, na m aior intim idade possível..

Enganais-vos, lictor - m urm urou Sim eão, com hum ildade. - De fato, a esposa do senador Lentulus passou por estas paragens; todavia, apenas pela circunstância de se fazer acom panhar por um a de m inhas sobrinhas-netas, deu-m e a honra de repousar nesta casa algum as horas.

- Mas deves saber onde se encontram neste m om ento. - Não posso dizê-lo.

- Ignoras, porventura?

- Sem pre entendi - replicou o ancião coraj osam ente - que devo ignorar todas as coisas que venham a ser conhecidas para o m al de m eus sem elhantes.

- Isso é outra coisa - redarguiu Sulpício, encolerizado, com o um m entiroso de quem se descobrissem os pensam entos m ais secretos. Quer dizer, então, que m e ocultas o paradeiro dessas m ulheres, por sim ples caprichos da tua velhice caduca?

- Não é isso. Conhecendo que no m undo som os todos irm ãos, sinto-m e no dever de am parar os m ais fracos contra a perversidade dos m ais fortes.

- Mas, eu não as procuro para fazer m al algum e cham o-te a atenção para estas insinuações insultuosas, que m erecem a punição da j ustiça.

- Lictor - revidou Sim eão, com grande serenidade -, se podeis enganar os hom ens, não enganais a Deus com os vossos sentim entos inconfessáveis e im puros. Sei dos propósitos que vos trazem a estes sítios e lam ento a vossa im pulsividade crim inosa...Vossa consciência está obscurecida por pensam entos delituosos e im puros, m as todo m om ento é um ensej o de redenção, que Deus nos concede na Sua infinita bondade... Voltai atrás da insídia que vos trouxe e ide noutros cam inhos, porque assim com o o hom em deve salvar-se pelo bem que pratica, pode tam bém m orrer pelo fogo devastador das paixões que o arrastam aos crim es m ais hediondos...

- Velho infam e... - exclam ou Sulpício Tarquinius, rubro de cólera, enquanto os soldados observavam , adm irados, a serena coragem do valoroso ancião da Sam aria -, bem m e disseram teus vizinhos, ao m e inform arem a teu respeito, que és o m aior feiticeiro destas paragens!...

Adivinho m aldito, com o ousas afrontar deste m odo os m andatários do Im pério, quando te posso pulverizar com um a sim ples palavra? Com que direito escarneces do poder?

- Com o direito das verdades de Deus, que nos m andam am ar o próxim o com o a nós m esm os... Se sois prepostos de um Im pério que outra lei não possui além da violência im piedosa na execução de todos os crim es, sinto que estou subordinado a um poder m ais soberano do que o vosso, cheio de m isericórdia e bondade! Esse poder e esse Im pério são de Deus, cuj a j ustiça m isericordiosa está acim a dos hom ens e das nações!...

Com preendendo-lhe a coragem e a energia m oral inquebrantáveis, o lictor, em bora frem ente de ódio, revidou em tom fingido:

- Está bem , m as eu não vim aqui para conhecer as tuas bruxarias e o teu fanatism o religioso. De um a vez por todas: queres ou não prestar-m e as inform ações precisas, acerca das tuas hóspedas?

- Não posso - replicou Sim eão coraj osam ente -, m inha palavra é um a só.

- Então, prendei-o! - disse, dirigindo-se aos seus auxiliares, pálido de cólera ao se ver derrotado naquele duelo de palavras.

O velho cristão da Sam aria foi subm etido aos prim eiros vexam es, por parte dos soldados, entregando-se, porém , sem a m ínim a resistência.

Aos prim eiros golpes de espada, exclam ou Sulpício sarcasticam ente:

- Então, onde se encontram as forças do teu Deus, que te não defende? Seu Im pério é assim tão precário? Porque não te socorrem os poderes celestiais, elim inando-nos com a m orte, em teu beneficio?

Um a gargalhada geral seguiu-se a essas palavras, partida dos soldados que acom panhavam , gostosam ente, os ím petos crim inosos do seu chefe.

Sim eão, todavia, tinha as energias preparadas para o testem unho da sua fé ardente e sincera. De m ãos am arradas, pôde ainda revidar, com a serenidade habitual:

- Lictor, ainda que eu fosse um hom em poderoso com o o teu César, nunca ergueria a voz para ordenar a m orte de quem quer que fosse, à face da Terra. Sou dos que negam o próprio direito da cham ada legítim a defesa, porque está escrito na Lei que "Não Matarás", sem nenhum a cláusula que autorize o hom em a elim inar o seu irm ão, nessa ou naquela circunstância... Toda a nossa defesa, neste m undo, está em Deus, porque só ele é o Criador de toda a vida e som ente ele pode pôr e dispor de nossos destinos.

Sulpício experim entou o apogeu do seu ódio em face daquela coragem indom ável e esclarecida e, avançando para um dos prepostos, exclam ou enraivecido:

- Mércio, tom a à tua conta este velho im becil e feiticeiro. Guarda-o com atenção e não te descuides. Caso tente fugir, m ete-lhe o chanfalho!

O venerável ancião, consciente de que atravessava as suas horas suprem as, encarou o agressor com heróica hum ildade.

Sulpício e os com panheiros invadiram -lhe a casa e o quintal, expulsando-lhe um a velha serva, a palavrões e pedradas. No seu quarto encontraram as anotações evangélicas e os pergam inhos am arelecidos, além de pequenas lem branças que guardava em m em ória dos seus afetos m ais queridos.

Todos os obj etos de suas recordações m ais sagradas foram trazidos à sua presença, onde foram quebrados sem piedade. Perante seus olhos, serenos e bons, dilaceraram -se túnicas e papiros antigos, entre sarcasm os e ironias revoltantes.

Term inada a devassa, o lictor, de m ãos nas costas, exam inando, intim am ente, a m elhor m aneira de arrancar-lhe a desej ada confissão sobre o paradeiro de suas vítim as, andou pelas adj acências m ais de duas horas, voltando à m esm a sala, onde o interpelou novam ente.

- Sim eão - disse ele, com interesse -, satisfaze os m eus desej os e te concederei a liberdade.

- Por esse preço, toda a liberdade m e seria penosa. Deve preferir-se a m orte a transigir com o m al - respondeu o ancião com a m esm a coragem .

Sulpício Tarquinius rilhou os dentes de fúria, ao m esm o tem po que gritava possesso:

- Miserável! saberei arrancar-te a confissão necessária. Isso dizendo, encarou fixam ente o enorm e cruzeiro que se levantava a poucos m etros da porta e, com o se houvesse escolhido o m elhor instrum ento de m artírio para arrancar-lhe a revelação desej ada, dirigiu-se aos soldados em voz soturna:

- Am arrem o-lo à cruz, com o o Mestre das suas feitiçarias. Recordando-se dos grandes m om entos do Calvário, o ancião deixou-se levar sem nenhum a relutância, agradecendo, intim am ente, a Jesus pelo seu aviso providencial, a tem po de salvar das m ãos do inim igo aquelas que considerava com o filhas m uito am adas.

Num ápice os soldados o am arraram na base do pesado m adeiro, sem que a vítim a dem onstrasse um único gesto de resistência.

Avizinhava-se o crepúsculo, e Sim eão recordou que, horas antes, sofria o Senhor com m ais intensidade. Em prece ardente, suplicou ao Pai Celestial ânim o e resignação para o angustioso transe. Lem brou-se dos filhos ausentes, rogando a Jesus que os acolhesse no m anto de sua infinita m isericórdia. Foi nesse ínterim que, am arrado à base da cruz pelos braços, pelo tronco e pelas pernas, viu que se aproxim avam alguns dos com panheiros de suas preces habituais, para as reuniões do crepúsculo, os quais foram logo detidos pelos soldados e pelo chefe im placável.

Inquiridos, quanto ao ancião que ali se encontrava, com o dorso sem inu para os torm entos do açoite, todos, sem exceção de um só, alegaram não conhecê-lo.

Mais que os ataques dos im piedosos rom anos, sem elhante ingratidão doeu-lhe fundo, no espírito generoso e sincero, com o se envenenado espinho lhe penetrasse o coração.

Todavia, recom pôs im ediatam ente as suas energias espirituais e, contem plando o Alto, m urm urou baixinho, num a prece ansiosa e ardente:

- Tam bém vós, Senhor, fostes abandonado!... Éreis o Cordeiro de Deus, inocente e puro, e sofrestes as dores m ais am argas, experim entando o fel das traições m ais penosas!... Não sej a pois o vosso servo, m ísero e pecador, que renegue os m artírios purificadores do testem unho!...

A essa hora, j á o recinto se encontrava repleto de pessoas que, de conform idade com as determ inações de Sulpício, deveriam perm anecer nos bancos grosseiros, dispostos em sem icírculo, de m odo a assistirem à cena selvagem , a titulo de escarm ento para quantos viessem a desobedecer à j ustiça do Im pério.

O prim eiro soldado, à ordem do chefe, iniciou o flagício. Todavia, da terceira vez que as suas m ãos brandiam as extrem as tiras de couro, na execranda tortura, sem que o ancião deixasse escapar o m ais ligeiro gem ido, parou, subitam ente, exclam ando para Tarquinius em voz baixa e em tom discreto:

- Senhor lictor, no alto do m adeiro há um a luz que paralisa os m eus esforços.

Encolerizado, m andou Sulpício que um novo elem ento o substituísse, m as o m esm o se repetiu com os seus algozes cham ados ao trabalho sinistro.

Foi então que, desesperado de ódio incom preensível, tom ou Sulpício dos açoites, brandindo-os ele m esm o no corpo da vítim a, que se contorcia em sofrim entos angustiosos.

Sim eão, banhado de suor e sangue, sentia o estalar dos ossos envelhecidos, que se quebravam aos pedaços, cada vez que o açoite lhe lam bia as carnes enfraquecidas. Seus lábios m urm uravam preces fervorosas, apelos a Jesus para que os torm entos não se prolongassem ao infinito. Todos os presentes, não obstante o terror que os levara à defecção para com o velho discípulo de Jesus, viam -lhe, com lágrim as, os inom ináveis padecim entos.

Em dado instante, a fronte pendeu, quase desfalecida, prenunciando o fim de toda a resistência orgânica, em face do m artírio.

Sulpício Tarquinius parou, então, por um m inuto, a sua obra nefanda e, aproxim ando-se do ancião, falou-lhe ao ouvido, com ansiedade:

- Confessas agora?

Mas o velho sam aritano, tem perado nas lutas terrestres, por m ais de setenta anos de sofrim ento, exclam ou, exausto, em voz sum ida:

- O... cristão... deve... m orrer... com Jesus... pelo... bem ... e... pela... verdade...

- Morre, então, m iserável!... - gritou Sulpício, em voz estentórica; e, tom ando da espada, enterrou-lhe a lâm ina no peito deprim ido.

Viu-se o sangue j orrar em borbotões verm elhos e abundantes. Nessa hora, cansado j á do m artírio, o ancião viu sem tem or o ato suprem o que poria term o aos seus padecim entos. Experim entou a sensação de um instrum ento estranho que lhe abria o peito dolorido, sufocado por m ortal angústia.

Num relance, porém , lobrigou duas m ãos de neve, translúcidas, que pareciam alisar-lhe carinhosam ente os cabelos em branquecidos.

Notou que o cenário se havia transform ado, enquanto fechara ligeiram ente os olhos, no m om ento doloroso.

O céu não era o m esm o, nem m ais à sua frente via traidores e verdugos. O am biente estava saturado de luz branda e reconfortante, enquanto aos seus ouvidos chegavam os ecos suaves de um a cavatina do céu, entoada, talvez, por artistas invisíveis. Ouvia cânticos esparsos, exaltando as dores de todos os desventurados, de todos os aflitos do m undo, divisando, m aravilhado, o sorriso acolhedor de entidades lúcidas e form osas.

Afigurava-se-lhe reconhecer a paisagem que o recebia. Supunha-se transportado aos deliciosos recantos de Cafarnaum , nos instantes suaves em que se preparava para receber a bênção do Messias, j urando haver aportado, por processo m isterioso, num a Galileia de flores m ais ricas e de firm am ento m ais belo. Havia aves de luz, com o lírios alados do paraíso, cantando nas árvores fartas e frondosas, que deviam ser as do éden celestial.

Buscou senhorear-se das suas em oções nas claridades dessa Terra Prom etida, que, a seus olhos, deveria ser o país encantado do "Reino do Senhor".

Por um m om ento, lem brou-se do orbe terrestre, das suas últim as preocupações e das suas dores. Um a sensação de cansaço dom inou-lhe, então, o espírito abatido, m as um a voz que seus ouvidos reconheceriam , entre m ilhares de outras vozes, falou-lhe brandam ente ao coração:

- Sim eão, chegado é o tem po do repouso!... Descansa agora das m ágoas e das dores, porque chegaste ao m eu Reino, onde desfrutarás eternam ente da m isericórdia infinita do Nosso Pai!...

Pareceu-lhe, afinal, que alguém o tom ara de encontro ao peito, com o m áxim o de cuidado e carinho.

Um bálsam o suave adorm entou o seu espírito exausto e am argurado. O velho servo de Jesus fechou, então, os olhos, placidam ente, acariciado por um a entidade angélica que pousou, de leve, as m ãos translúcidas sobre o seu coração desfalecido.

Voltando, porém , ao doloroso espetáculo, vam os encontrar, j unto à casa do ancião de Sam aria, regular m assa de povo que assistia, transida de pavor, à cena tenebrosa.

Am arrado ao m adeiro, o cadáver do velho Sim eão golfava sangue pela enorm e ferida aberta no coração. A fronte pendida para sem pre, com o se reclam asse o repouso da terra generosa, suas barbas veneráveis se tingiam de rubro, aos salpicos de sangue das vergastadas, porque Sulpício, em bora sabendo que o golpe de espada era o detalhe final do m onstruoso dram a, continuava a açoitar o cadáver colado à cruz infam ante do m artírio.

Dir-se-ia que as forças desencadeadas da Treva se haviam apoderado com pletam ente do espírito do lictor, que, tom ado de fúria epiléptica, intraduzível, vergastava o cadáver sem piedade, num a torrente de im propérios, para im pressionar a m assa popular que o observava estarrecida de assom bro.

- Vede - gritava ele furiosam ente -, vede com o devem m orrer os sam aritanos velhacos e os feiticeiros assassinos!... Velho m iserável!... Leva para os infernos m ais esta lem brança!...

E o açoite caía, im piedoso, sobre os despoj os destroçados da vitim a, reduzidos agora a um a pasta sangrenta.

Nisso, porém , fosse pela pouca profundidade da base da cruz, que se abalara nos m ovim entos reiterados e violentos do suplício, ou pela punição das forças poderosas do m undo invisível, viu-se que o enorm e m adeiro tom bava ao solo na vertigem de um relâm pago.

Debalde tentou o lictor exim ir-se à m orte horrível, exam inando a situação por um m ilésim o de m inuto, porque o tope da cruz lhe abateu a cabeça de um só golpe, inutilizando-lhe o prim eiro gesto de fuga. Atirado ao chão com um a rapidez espantosa, Sulpício Tarquinius não teve tem po de dar um gem ido. Pela base do crânio, esm igalhado, escorria a m assa encefálica m isturada de sangue.

Num átim o, todos acorreram ao corpo abatido do lobo, trucidado depois do sacrifício da ovelha. Um dos soldados exam inou-lhe, detidam ente, o peito, onde o coração ainda pulsava nas derradeiras expressões de autom atism o.

A boca do verdugo estava aberta, não m ais para a gritaria blasfem atória, m as da garganta descia um a espum arada de saliva e sangue, figurando a baba repelente e ignom iniosa de um m onstro. Seus olhos estavam desm esuradam ente abertos, com o se fitassem , eternam ente, nos espasm os do terror, um a interm inável falange de fantasm as tenebrosos...

Im pressionados com o acidente im previsto, no qual adivinhavam a influência da m isteriosa luz que haviam lobrigado no topo do cruzeiro, os soldados ignoravam com o providenciar naquela conj untura, igualm ente confundidos na onda de espanto e surpresa geral dos prim eiros m om entos.

Foi nesse instante que assom ou à porta a figura nobre de Lívia, pálida de am arga perplexidade.

Ela e Ana, no interior da cava onde se haviam refugiado, pressentiram o perigo, perm anecendo am bas em fervorosas preces, im plorando a piedade de Jesus naquelas horas angustiosas.

A seus ouvidos chegavam os rum ores im precisos das discussões e do vozerio do povo em altercações ruidosas, nos m inutos do incidente, encarado, por quantos a ele assistiram , com o castigo do céu.

Am bas, aflitas e ansiosas, considerando o adiantado da hora, deliberaram sair, fossem quais fossem as consequências da sua resolução.

Chegando à porta e observando o espetáculo horrendo do cadáver de Sim eão reduzido quase a um a pasta inform e, sob a base da cruz, e vendo o corpo de Sulpício estendido à distância de poucos passos, com a base do crânio esfacelada, experim entaram , naturalm ente, um pavor indefinível.

O paroxism o das em oções, contudo, poucos m inutos durou. Enquanto a serva se desfazia em soluços, Lívia, com a energia que lhe caracterizava o espírito e a fé que lhe clarificava o coração, com preendeu de relance o que se havia passado e, entendendo que a situação exigia a força de um a vontade poderosa para que o equilíbrio geral se restabelecesse, exclam ou para a serva, entregando-lhe a filha resolutam ente:

- Ana, peço-te o m áxim o de coragem neste angustioso transe, m esm o porque, cum pre-nos lem brar que a bondade de Jesus nos preparou para suportar, dignam ente, m ais esta prova aspérrim a e dolorosa! Guarda Flávia contigo, enquanto vou providenciar para que a tranquilidade se restabeleça!.

A passos rápidos, avançou para a turba que se ia aquietando à sua passagem .

Aquela m ulher, de beleza nobre e graciosa, deixava transparecer no olhar um a cham a de profunda indignação e am argura. Seu aspecto severo denunciava a presença de um anj o vingador, surgido entre aquelas criaturas ignorantes e hum ildes, no m om ento oportuno.

Aproxim ando-se da cruz, onde j aziam os dois cadáveres, cercados pela confusão, im plorou de Jesus a coragem e fortaleza necessárias para dom inar o nervosism o e a inquietação de todos os que a rodeavam . Sentiu que força sobre-hum ana se apossara da sua alm a no m om ento preciso. Por um m inuto, pensou no esposo, nas convenções sociais, no escândalo rum oroso daqueles acontecim entos, m as o sacrifício e a m orte gloriosa de Sim eão eram para ela o exem plo m ais confortador e m ais santo. Tudo olvidou para se lem brar de que Jesus pairava acim a de todas as coisas transitórias da Terra, com o o m ais alto sím bolo de verdade e de am or, para a felicidade im orredoura de toda a vida.

Um dos soldados, tom ado de veneração e conhecendo perto de quem seus olhos se encontravam , acercou-se-lhe, exclam ando com o m áxim o respeito:

- Senhora, cum pre-m e apresentar-vos nossos nom es, a fim de que possais utilizar-nos para o que j ulgardes necessário.

- Soldados - exclam ou resoluta -, não precisais declinar nom es. Agradeço a vossa dedicação espontânea, que poderia ter sido, m inutos antes, um a inconsciência crim inosa; lam entando, apenas, que seis hom ens aliados a esta m ultidão perm itissem a consum ação deste ato de infâm ia e suprem a covardia, que a j ustiça divina acaba de punir perante os vossos olhos!...

Todos se haviam calado, com o por encanto, ao ouvirem essas enérgicas palavras.

A m assa popular tem dessas versatilidades m isteriosas. Basta, às vezes, um gesto para que se despenhe nos abism os do crim e e da desordem ; um a palavra chicoteante para fazê-la regressar ao silêncio e ao equilíbrio necessários.

Lívia com preendeu que a situação era sua, e, dirigindo-se aos prepostos de Sulpício, falou coraj osam ente:

- Vam os, providenciem os o restabelecim ento da calm a, retirando esses cadáveres.

- Senhora - aventou um deles respeitosam ente -, sentim o-nos na obrigação de enviar um m ensageiro a Cafarnaum , de m odo que o senhor governador sej a avisado destes acontecim entos.

Todavia, com a m esm a expressão de serenidade, respondeu ela firm em ente:

- Soldado, eu não perm ito a retirada de nenhum de vós outros, enquanto não derdes estes corpos à sepultura. Se o vosso governador possui um coração de fera, sinto-m e agora na obrigação de proteger a paz das alm as bem form adas. Não desej o que se repita nesta casa um a nova cena de covardia e de infâm ia. Se a autoridade, neste país, atingiu o terreno das crueldades m ais absurdas, eu prefiro assum i-la, resgatando um a dívida do coração para com os despoj os deste apóstolo venerando, assassinado com a colaboração da vossa crim inosa inconsciência.

- Não desej ais consultar as autoridades de Sebaste, a respeito do assunto? -tornou um deles, tim idam ente.

- De m odo algum - respondeu ela, com audaciosa serenidade. Quando o cérebro de um governo está envenenado, o coração dos governados padecem da m esm a peçonha. Esperaríam os em vão qualquer providência a favor dos m ais hum ildes e dos m ais infelizes, porque a Judeia está sob a tirania de um hom em cruel e tenebroso. Ao m enos hoj e, quero afrontar o poder da perversidade, invocando cm m eu auxílio a m isericórdia infinita de Jesus.

Silenciaram os soldados rom anos, em face da sua atitude serena e im perturbável. E, obedecendo-lhe às ordens, colocaram os despoj os inertes de Sim eão sobre a m esa enorm e e rústica das preces costum eiras.

Foi então que os m esm os com panheiros, que haviam negado o velho m estre do Evangelho, se acercaram piedosam ente do seu cadáver, beij ando-lhe as m ãos m irradas, com enternecim ento. arrependidos da sua covardia e fraqueza, cobrindo-lhe de flores os despoj os sangrentos.

Anoitecia, m as as tênues claridades do crepúsculo, na form osa paisagem da Sam aria, ainda não haviam abandonado, de todo, o horizonte.

Um a força indefinível parecia am parar o Espírito de Lívia, alvitrando-lhe todas as providências necessárias.

Em pouco, ao esforço hercúleo de num erosos sam aritanos, foram retiradas pesadas pedras do grupo de rochas que protegia a cova, onde se haviam abrigado as três fugitivas, enquanto, às ordens de Lívia, os seis soldados abriram um a sepultura rasa, longe daquele local, para o corpo de Sulpício.

Brilhavam , j á, as prim eiras constelações do firm am ento, quando term inou a im provisação dos serviços dolorosos.

No instante de transportarem os despoj os do ancião, que Lívia envolveu, pessoalm ente, em alvo sudário de linho, ela fez questão de orar rogando ao Senhor recebesse, no seu Reino de Luz e Verdade, a alm a generosa do seu apóstolo valoroso.

Aj oelhou-se com o um a figura angélica j unto àquele banco hum ilde e tosco, onde tantas vezes se sentara o servidor de Jesus, entre as suas oliveiras frondosas e bem -am adas. Todos os presentes, inclusive os próprios soldados que se sentiam em polgados de m isterioso tem or, prostraram -se genuflexos, acom panhando-lhe a reverência, enquanto, à claridade de algum as tochas, sopravam perfum adas as brisas leves das noites form osas e estreladas da Sam aria de

- Irm ãos - com eçou ela, em ocionada, assum indo pela prim eira vez a direção de um a assem bléia de crentes -, elevem os a Jesus o coração e o pensam ento!...

Um a sensação m ais forte parecia em bargar-lhe a voz, inundando-lhe os olhos de lágrim as doloridas...

Mas, com o se forças invisíveis e poderosas a alentassem , continuou serenam ente:

- Jesus, m eigo e divino Mestre, foi hoj e o dia glorioso em que partiu para o céu um valoroso apóstolo do teu Reino... Foi ele, aqui na Terra, Senhor, a nossa proteção, o nosso am paro e a nossa esperança!... Na sua fé, encontram os a precisa fortaleza, e foi em seu coração com passivo que conseguim os haurir o consolo necessário!... Mas j ulgaste oportuno que Sim eão fosse descansar no teu regaço am oroso e com passivo! Com o tu, sofreu ele os torm entos da cruz, revelando a m esm a confiança na Providência Divina, nos dolorosos sacrifícios do seu am argo testem unho... Recebe-o, Senhor, no teu Reino de Paz e de Misericórdia! Sim eão tornou-se bem -aventurado por suas dores, por seu denodo m oral, por suas angustiosas aflições suportadas com o valor e a fé que nos ensinaste... Am para-o nas claridades do Paraíso do teu am or inesgotável, e que nós, exilados na saudade e na am argura, aprendam os a lição lum inosa do teu valoroso apóstolo da Sam aria!... Se algum dia nos j ulgares tam bém dignos do m esm o sacrifício, fortalece-nos a energia, para que provem os ao m undo a excelência dos teus ensinam entos, aj udando-nos a m orrer com valor, pela tua paz e pela tua verdade, com o o teu m issionário carinhoso a quem prestam os, nesta hora, a hom enagem do nosso am or e do nosso reconhecim ento...

Nesse ínterim , houve na sua oração um interregno. Todavia, continuou:

- Jesus, a ti que vieste a este m undo, m ais para os desesperados da salvação, levantando os m ais doentes e os m ais infelizes, endereçam os, igualm ente, nossa súplica pelo celerado que não hesitou em tripudiar sobre tuas leis de fraternidade e am or, m artirizando um inocente, e que foi arrebatado pela m orte para o j ulgam ento da tua j ustiça. Querem os esquecer a sua infâm ia, com o perdoaste aos teus algozes do alto da cruz infam ante do m artírio... Aj uda-nos, Senhor, para que com preendam os e pratiquem os os teus ensinos!...

Levantando-se, com ovida, Lívia descobriu o cadáver do apóstolo e beij ou-lhe as m ãos pela últim a vez, exclam ando em lágrim as, carinhosa:

- Adeus, m eu m estre, m eu protetor e m eu am igo... Que Jesus te receba o espírito ilum inado e j usto no seu Reino de luzes im ortais, e que a m inha pobre alm a saiba aproveitar, neste m undo, a tua lição de fé e valoroso heroísm o!...

Repousado num a urna im provisada, o corpo inerte de Sim eão foi conduzido ao seu últim o j azigo. Num erosas tochas haviam sido acesas para o ofício am argo e doloroso.

E enquanto o cadáver do lictor Sulpício descia à terra úm ida, sem outro auxílio além da cooperação dos seus prepostos, o nobre ancião ia repousar à frente do seu tem plo e do seu ninho, entre as virações cariciosas do vale, à som bra fresca das oliveiras que lhe eram tão queridas!...

Lívia dispensou, em seguida, os soldados do governador e, guardada por hom ens valorosos e dedicados, passou o resto da noite em com panhia de Ana e da filhinha, em profundas m editações e dolorosas cism as

Ao raiar da aurora, retiravam -se definitivam ente do vale de Siquém , acom panhadas por um vizinho de Sim eão, encam inhando-se, de volta, a Cafarnaum , e levando, no íntim o, num erosas lições para toda a vida.

Sabedoras de que não se fariam esperar as represálias das autoridades adm inistrativas, regressaram por estradas diferentes, que constituíam atalhos preciosos, sem tocar em Naim para a troca de anim ais. Com algum as horas sucessivas, em m archa forçada, atingiam o solar tranquilo, onde iam descansar dos golpes sofridos.

Lívia rem unerou largam ente o seu dedicado com panheiro de viagem , retirando-se para os seus aposentos, onde fixou, em base preciosa, a pequena cruz de m adeira que lhe dera o apóstolo, algum as horas antes do cruento m artírio.

Alguns dias se passaram sobre os infaustos acontecim entos. Pôncio Pilatos, contudo, inform ado de todos os porm enores do ocorrido, rugiu de ódio selvagem . Reconhecendo que defrontava poderosos inim igos, quais Públio Lentulus e sua m ulher, buscou acionar por outro lado o m ecanism o de sinistras represálias. Recolhendo-se im ediatam ente ao seu palácio de Sam aria, fez que todos os habitantes da região pagassem m uito caro a m orte do lictor, hum ilhando-os através de m edidas aviltantes e vexatórias. Assassínios nefandos foram praticados entre os elem entos da população pacífica do vale, propagando-se por Sebaste e outros núcleos m ais adiantados a rede de crim es e crueldades da sua m entalidade vingativa e tenebrosa.

Estacionem os, todavia, em Cafarnaum e aguardem os aí a chegada de um hom em .

Ao cabo de alguns dias, com efeito, regressava o senador de sua viagem através da Palestina.

Após o seu regresso, Lívia cientificou-o de quanto ocorrera na sua ausência. Públio Lentulus ouvia-lhe o relato silenciosam ente. À m edida que se lhe tornavam conhecidas as ocorrências, sentia-se intim am ente tom ado de indignação e de revolta contra o adm inistrador da Judeia, não só pela sua incorreção política, m as tam bém pela extrem a antipatia pessoal que a sua figura lhe inspirava, resolvendo, em face do acontecido, não vacilar um segundo em processá-lo acerbam ente, com o quem j ulgava dever perseguir o m ais cruel dos inim igos.

O leitor poderá, talvez, supor que o orgulhoso rom ano teria o coração sensibilizado e m odificados os sentim entos a respeito da esposa, de quem presum ia possuir as m ais flagrantes provas de deslealdade e perj úrio, no santuário do lar e da fam ília. Mas, Públio Lentulus era hum ano, e, nessa condição precária e m iserável, tinha de ser um fruto do seu tem po, da sua educação e do seu m eio.

Ao ouvir as últim as palavras de sua m ulher, pronunciadas em tom com ovido, com o o de alguém que pede apoio e reclam a o direito de um carinho, replicou austeram ente:

- Lívia, eu m e regozij o com a tua atitude e rogo aos deuses pela tua edificação. Teus atos sim bolizam para m im a realidade da tua regeneração, depois da fragorosa queda vista com os m eus olhos. Bem sabes que para m im a esposa não m ais deve existir; contudo, louvo a m ãe de m eus filhos, sentindo-m e confortado porque, se não acordaste a tem po de seres feliz, despertaste ainda com a possibilidade de viver... Tua repulsa tardia por esse hom em cruel m e autoriza a crer na tua m aternal dedicação e isso basta!...

Essas palavras, pronunciadas em tom de superioridade e secura, dem onstraram a Lívia que a separação afetiva de am bos deveria continuar no am biente dom éstico, irrem issivelm ente.

Abalada nas com oções do seu m artírio m oral, retirou-se para o quarto, onde se prostrou diante da cruz de Sim eão, com a alm a desalentada e com balida. Ali, m editou angustiosam ente na sua penosa situação, m as, em dado instante, viu que a lem brança hum ilde do apóstolo da Sam aria irradiava um a luz caridosa e resplandecente, ao m esm o tem po que um a voz suave e branda m urm urava aos seus ouvidos:

- Filha, não esperes da Terra a felicidade que o m undo não te pode dar! Aí, todas as venturas são com o neblinas fugidias, desfeitas ao calor das paixões ou destroçadas ao sopro devastador das m ais sinistras desilusões!... Espera, porém , o Reino da m isericórdia divina, porque nas m oradas do Senhor há bastante luz para que floresçam as m ais santificadas esperanças do teu coração m aternal!... Não aguardes, pois, da Terra, m ais que a coroa de espinhos do sacrifício...

A esposa do senador não se surpreendeu com o fenôm eno. Conhecendo de oitiva a ressurreição do Senhor, tinha a convicção plena de que se tratava da alm a redim ida de Sim eão, que a seu ver voltava das luzes do Reino de Deus para lhe confortar o coração.

Por sem anas a fio, recebeu Públio Lentulus a visita de sam aritanos num erosos, que lhe vinham solicitar enérgicas providências contra os desm andos de Pôncio Pilatos, então instalado no seu palácio de Sam aria, onde perm anecia raram ente, ordenando o assassínio ou a escravidão de elem entos num erosos, em sinal de vingança pela m orte daquele que considerava com o o m elhor áulico da sua casa.

Daí a algum tem po, regressava Com ênio de sua viagem a Rom a, com um professor com petente para a pequena Flávia. Além desse preceptor notável, que lhe m andava a carinhosa solicitude de Flam ínio Severus, chegavam -lhe tam bém novas noticias, que o senador considerava confortadoras. Em virtude da sua solicitação, as altas autoridades do Im pério determ inaram a volta do pretor Sálvio Lentulus, com a fam ília, para a sede do governo im perial, pedindo-lhe o am igo, particularm ente, a rem essa de dados positivos quanto à adm inistração de Pilatos na Judeia, a fim de que o Senado pleiteasse a sua rem oção.

Em virtude dessas circunstâncias, daí a algum tem po voltava Com ênio a Rom a levando a Flam ínio um volum oso processo, relacionando todas as crueldades praticadas por Pilatos, entre os sam aritanos. Em vista das distâncias, por m uito tem po rolou o processo nos gabinetes adm inistrativos, até que no ano de 35 foi o Procurador da Judeia cham ado a Rom a, onde foi destituído de todas as funções que exercia no governo im perial, sendo banido para Viena, nas Gálias, onde se suicidou, daí a três anos, ralado de rem orsos, de privações e de am arguras.

Públio Lentulus perm aneceu com as suas esperanças de pai, na m esm a vivenda da Galileia, dedicando-se quase que exclusivam ente aos seus estudos, aos seus processos adm inistrativos e à educação da filha, que m anifestara, m uito cedo, pendores literários ao lado de apreciáveis dotes de inteligência.

Lívia conservou Ana j unto de sua tutela e am bas continuaram orando j unto à cruz que lhes dera Sim eão no instante extrem o, rogando a Jesus a necessária força para as penosas lutas da vida.

Debalde a fam ília Lentulus esperava que o destino lhe trouxesse, de novo, o sorriso encantador do pequenino Marcus e, enquanto o senador e filhinha se preparavam para o m undo, j unto de Lívia e Ana, que traziam as suas esperanças postas no Céu, deixem os passar m ais de dez anos sobre a dolorosa serenidade da vila de Cafarnaum , m ais de dez anos que passaram lentos, silenciosos, tristes.

FIM DA PRIMEIRA PARTE