Há Dois Mil Anos
VI Alvoradas do Reino do Senhor
Reportando-nos à dolorosa e com ovedora cena do sacrifício dos m ártires cristãos, na arena do circo, som os com pelido a acom panhar a entidade de Lívia na sua augusta traj etória para o Reino de Jesus.
Nunca os horizontes da Terra foram brindados com paisagens de tanta beleza, com o as que se abriram nas esferas m ais próxim as do planeta, quando da partida em m assa dos prim eiros apóstolos do Cristianism o, exterm inados pela im piedade hum ana, nos tem pos áureos e gloriosos da consoladora doutrina do Nazareno.
Naquele dia, quando as feras fam intas estraçalhavam os indefesos adeptos das idéias novas, toda um a legião de espíritos sábios e benevolentes, sob a égide do Divino Mestre, lhes rodeava os corações dilacerados no m artírio, saturando-os de força, resignação e coragem para o suprem o testem unho de sua fé.
Sobre as nefastas paixões desencadeadas naquela assistência ignorante e im piedosa, desdobravam os poderes do céu o m anto infinito de sua m isericórdia, e além daquele vozerio sinistro e ensurdecedor havia vozes que abençoavam , proporcionando aos m ártires do Senhor um a fonte de suaves e ditosas consolações.
Entardecia j á, quando tom bavam as últim as vítim as ao choque brutal dos leões furiosos e im placáveis.
Abrindo os olhos entre os braços carinhosos do seu velho e generoso am igo, Lívia com preendera, im ediatam ente, a consum ação do angustioso transe. Sim eão tinha nos lábios um sorriso divino e lhe acariciava os cabelos, paternalm ente, com m eiguice e doçura. Estranha em oção vibrava, porém , na alm a liberta da esposa do senador, que se viu presa de lágrim as dolorosas. A seu lado notou, com penosa surpresa, os despoj os sangrentos do corpo dilacerado e entendeu, em bora o seu espanto, o doce m istério da ressurreição espiritual, de que falava Jesus nas suas lições divinas. Desej ou falar, de m odo a traduzir seus pensam entos m ais íntim os e, todavia, tinha o coração repleto de em oções indefiníveis e angustiosas. Aos poucos, notou que, da arena ensanguentada, se erguiam entidades, qual a sua própria, ensaiando passos vacilantes, am paradas, porém , por criaturas etéreas, aureoladas de graça incom parável, com o j am ais contem plara em qualquer circunstância da vida. Aos seus olhos desapareceu o cenário colorido e tum ultuoso do circo da ignom ínia e aos ouvidos não m ais ressoaram as gargalhadas irônicas e perversas dos espectadores im piedosos. Notou que, do firm am ento constelado, fluía um a luz m isericordiosa e com passiva, afigurando-se-lhe que nova claridade, desconhecida na Terra, se acendera m aravilhosam ente dentro da noite. Im ensa m ultidão de seres, que lhe pareciam alados, cercava-os a todos, enchendo o am biente de vibrações divinas.
Deslum brada, viu, então, que entre a Terra e o Céu se form ava radioso cam inho...
Através de um a esteira de luz intraduzível, que não chegara a ofuscar o brilho caricioso e terno das estrelas que bordavam , cintilando, o azul m acio do firm am ento, observou novas legiões espirituais que desciam , celerem ente, das m aravilhosas regiões do Infinito...
Em polgados com as sonoridades delicadas daquele am biente indescritível, seus ouvidos escutaram , então, sublim es m elodias do plano invisível, com o se, de envolta com liras e flautas, harpas e alaúdes, cantassem no Alto as divinas toutinegras do Paraíso, proj etando as alegrias siderais nas paisagens escuras e tristes da Terra...
Seu espírito, com o que im pulsado por energia m isteriosa, conseguiu, então. m anifestar as em oções m ais íntim as e m ais queridas.
Abraçando-se ao velho e generoso am igo de Sam aria, pôde m urm urar, banhada em lágrim as:
- Sim eão, m eu benfeitor e m estre, roga com igo a Jesus para que esta hora m e sej a m enos dolorosa...
- Sim , filha - respondeu o venerável apóstolo aconchegando-a ao coração, com o se o fizesse a um a criança -, o Senhor, na sua infinita m isericórdia, reserva o seu carinho a quantos lhe recorrem a m agnanim idade, com a fé ardente e sincera do coração!... Acalm a o teu espírito porque estás, agora, a cam inho do Reino do Senhor, destinado aos corações que m uito am aram !...
Naquele instante, porém , um a força incom preensível parecia im pelir para as Alturas quantos ali se conservavam sem a pesada indum entária da Terra...
Lívia sentiu que o terreno lhe faltava e que todo o seu ser volitava em pleno espaço, experim entando estranhas sensações, em bora fortem ente am parada pelos braços generosos do venerando am igo.
Era, de fato, um a radiosa caravana de entidades puríssim as, que se elevava em conj unto, através daquele cintilante cam inho traçado de luz, em pleno éter!...
Experim entando singulares sensações de leveza, a esposa do senador sentiu-se m ergulhada num oceano de vibrações suavíssim as.
Todos os com panheiros lhe sorriam e, contem plando-os, igualm ente am parados pelos m ensageiros divinos, ela identificava, um a um , quantos lhe haviam sido irm ãos no cárcere, no m artírio e na m orte infam ante. Em dado instante, todavia, com o se a m em ória fosse cham ada a todos os porm enores da realidade am biente, lem brou-se de Ana, sentindo-lhe a falta naquela j ornada de glorificação em Jesus-Cristo.
Bastou que a recordação lhe aflorasse no íntim o, para que a voz de Sim eão esclarecesse com a proverbial bondade:
- Filha, m ais tarde poderás saber tudo... Na tua saudade, porém , inclina-te sem pre aos desígnios divinos, inspirados em toda a sabedoria e m isericórdia... Não te im pressiones com a ausência de Ana neste banquete de alegrias celestiais, porque aprouve a Jesus conservá-la ainda algum tem po na oficina de suas bênçãos, entre as som bras do degredo terrestre...
Lívia ouviu e resignou-se, silenciosa.
Reconheceu que seguiam sem pre pela m esm a estrada m aravilhosa, que, a seus olhos, parecia ligar o Céu e a Terra num fraternal am plexo de luz, afigurando-se-lhe que todos os divinos com ponentes da lum inosa caravana flutuavam num m ovim ento de ascensão, em pleno espaço, dem andando regiões gloriosas e desconhecidas. No seio dos elem entos aéreos, adm irava-se de conservar todo o m ecanism o de suas sensações físicas, através do eterizado e radioso cam inho.
Ao longe, nos abism os do ilim itado, parecia divisar novos firm am entos estrelados, que se m ultiplicavam m aravilhosam ente no seio do Infinito, e observava radiações fulgurantes que, por vezes, lhe ofuscavam os olhos deslum brados...
De outras vezes, olhando furtivam ente para trás, via um acervo de som bras com pactas e m ovediças, onde se localizavam as esferas de vida na Terra distante.
Em am bas as m argens do cam inho verificou a existência de flores graciosas e perfum adas, com o se os lírios terrestres, com expressões m ais delicadas, se houvessem transportado aos j ardins do Paraíso.
A eternidade apresentava-se-lhe com encantos e venturas indizíveis!...
Sim eão falava carinhosam ente da sua adaptação à vida nova e das belezas sublim adas do reino de Jesus, recordando com alegria as penosas angústias da vida na Terra, quando aos seus ouvidos ecoaram vozes argentinas e harm ônicas dos rouxinóis siderais que festej avam , nas Alturas, a redenção dos m ártires do Cristianism o, com o se estivessem chegando às cercanias de um a nova Galileia, saturada de m elodias e perfum es deliciosos, erguida à luz plena do Infinito, com o se fosse um ninho de alm as santificadas e puras balouçando, aos ventos perfum ados de interm inável Prim avera, na árvore m aravilhosa e sem fim da Criação...
Aquele hino suave e claro, ora se elevava às Alturas em sonoridades prodigiosas, com o se fôra um incenso sutil das alm as procurando o sólio do Sem piterno em hosanas de am or, de alegria e de reconhecim ento, ora descia em m elodias arrebatadoras, dem andando as som bras da Terra, com o se fosse um brado de fé e esperança em Jesus-Cristo, destinado a acordar no m undo os corações m ais perversos e m ais em pedernidos...
A linguagem hum ana não traduz fielm ente as harm oniosas vibrações das m elodias do Invisível, m as aquele cântico de glória, ao m enos palidam ente, deve ser lem brado por nós outros com o suave rem iniscência do Paraíso:
- Glória a Ti, Senhor do Universo, Criador de todas as m aravilhas!... "É por tua sabedoria inacessível que se acendem as constelações nos abism os do Infinito e é por tua bondade que se desenvolve a erva tenra na crosta escura da Terra!...
"Por tua grandeza inapreciável e por tua j ustiça m isericordiosa, abre o Tem po os seus ilim itados tesouros para as alm as!...
"Por teu am or, sacrossanto e sublim e, florescem todos os risos e todas as lágrim as no coração das criaturas!...
"Abençoa, Senhor do Universo, as sagradas esperanças deste Reino. Jesus é para nós o teu Verbo de am or, de paz, de caridade e beleza!... Fortalece as nossas aspirações de cooperar em sua Seara Santa!...
"Multiplica as nossas energias e faze chover sobre nós o fogo sagrado da fé, para espalharm os na Terra as divinas sem entes do am or de teu Filho!...
"Basta um a gota do orvalho divino de tua m isericórdia para que se purifiquem todos os corações, m ergulhados no lodo dos crim es e das im penitências terrestres, e basta um raio só do teu poder para que todos os Espíritos se convertam ao bem suprem o!..
"E agora, ó Jesus, Cordeiro de Deus, que tira o pecado do m undo, recebe as nossas súplicas ardentes e fervorosas!
"Abençoa, ó Divino Mestre, os que chegam redim idos com o anélito criador de tuas bênçãos sacratíssim as!...
"Vítim as da perversidade hum ana, cum priram , valorosam ente, os teus m issionários, todas as obrigações que os prendiam ao cárcere do penoso degredo!...
"O m undo, no torvelinho de suas inquietações e iniquidades, não lhes com preendeu o coração am antíssim o, m as, na tua bondade e m isericórdia, abres aos m ártires da verdade as portas divinas do teu reino de luz..."
Estrofes de profunda beleza espalhavam nas estradas claras e sublim adas do éter universal as bênçãos da paz e das alegrias harm oniosas!
Os seres inferiores, das esferas espirituais m ais próxim as do planeta, recebiam aqueles eflúvios sacrossantos do celeste banquete reservado por Jesus aos m ártires da sua doutrina de redenção, com o se fossem tam bém convidados pela m isericórdia do Divino Mestre, e m uitos deles, recebendo no íntim o aquelas vibrações m aravilhosas, se converteram para sem pre ao am or e ao bem suprem os.
Harm onias suavíssim as saturavam todas as atm osferas espirituais, derram ando sobre a Terra claridades augustas e soberanas.
Naquela região de belezas ignotas e prodigiosas, intraduzíveis na pobreza da linguagem hum ana, Lívia retem perou as forças m orais, depois do austero cum prim ento de sua m issão divina.
Ali, com preendeu a extensão do conceito de "m uitas m oradas", dos ensinam entos de Jesus, contem plando j unto de Sim eão as m ais diversas esferas de trabalho, localizadas nas cercanias da Terra, ou estudando a grandeza dos m undos dissem inados pela sabedoria divina no oceano im ensurável do éter, na im ortalidade. Obedecendo às tendências do seu coração, não se esqueceu das antigas am izades nos círculos espirituais, colocados nas zonas terrestres.
Depois de alguns dias de em oções suaves e carinhosas, todos os Espíritos, reunidos naquela paisagem lum inosa, se prepararam para receber a visita do Senhor, com o quando da sua divina presença na bucólica m oldura da Galileia.
Num dia de rara e indefinível beleza, em que um a claridade de cam biantes divinos entornava saboroso m el de alegria em todos os corações, descia o Cordeiro de Deus da esfera superior de suas glórias sublim es e, tom ando a palavra naquele cenáculo de m aravilhas, recordava as suas inesquecíveis pregações j unto às águas tranquilas do pequeno 'm ar" da Galileia. De m odo algum se poderia traduzir fielm ente, na Terra, a beleza nova da sua palavra eterna, substância de todo o am or, de toda a verdade e de toda a vida, m as constitui para nós um dever, neste escorço, lem brar a sua ilim itada sabedoria, ousando reproduzir, im perfeitam ente e de leve, a essência de sua lição divina naquele m om ento inesquecível.
Figurava-se, a todos os presentes, a cópia fiel dos quadros graciosos e claros do Tiberíades. A palavra do Mestre derram ava-se no ádito das alm as, com sonoridades profundas e m isteriosas, enquanto de seus olhos vinha a m esm a vibração de m isericórdia e de serena m aj estade.
- Vinde a m im , vós todos que sem eastes, com lágrim as e sangue, na vinha celeste do m eu reino de am or e verdade!...
"Nas m oradas infinitas do Pai, há luz bastante para dissipar todas as trevas, consolar todas as dores, redim ir todas as iniquidades...
"Glorificai-vos, pois, na sabedoria e no am or de Deus Todo Poderoso, vós que j á sacudistes o pó das sandálias m iseráveis da carne, nos sacrifícios purificadores da Terra! Um a paz soberana vos aguarda, para sem pre, no reino dilatado e sem fim , prom etido pelas divinas aleluias da Boa Nova, porque não alim entastes outra aspiração no m undo, senão a de procurar o reino de Deus e de sua j ustiça.
"Entre a Manj edoura e o Calvário, tracei para as m inhas ovelhas o eterno e lum inoso cam inho... O Evangelho floresce, agora, com o a seara im ortal e inesgotável das bênçãos divinas. Não descansem os, contudo, m eus am ados, porque tem po virá na Terra, em que todas as suas lições hão-de ser espezinhadas e esquecidas... Depois de longa era de sacrifícios para consolidar-se nas alm as, a doutrina da redenção será cham ada a esclarecer o governo transitório dos povos; m as o orgulho e a am bição, o despotism o e a crueldade hão-de reviver os abusos nefandos de sua liberdade! O culto antigo, com as suas ruínas pom posas, buscará restaurar os tem plos abom ináveis do bezerro de ouro. Os preconceitos religiosos, as castas clericais e os falsos sacerdotes restabelecerão novam ente o m ercado das coisas sagradas, ofendendo o am or e a sabedoria de Nosso Pai, que acalm a a onda m inúscula no deserto do m ar, com o enxuga a m ais recôndita lágrim a da criatura, vertida no silêncio de suas orações ou na dolorosa serenidade de sua am argura indizível!...
"Soterrando o Evangelho na abom inação dos lugares santos, os abusos religiosos não poderão, todavia, sepultar o clarão de m inhas verdades, roubando-as ao coração dos hom ens de boa vontade!...
"Quando se verificar este eclipse da evolução de m eus ensinam entos, nem por isso deixarei de am ar intensam ente o rebanho das m inhas ovelhas tresm alhadas do aprisco!...
"Das esferas de luz que dom inam todos os círculos das atividades terrestres, cam inharei com os m eus rebeldes tutelados, com o outrora entre os corações im piedosos e em pedernidos de Israel, que escolhi, um dia, para m ensageiro das verdades divinas entre as tribos desgarradas da im ensa fam ília hum ana!...
"Em nom e de Deus Todo-Poderoso, m eu Pai e vosso Pai, regozij o-m e aqui convosco, pelos galardões espirituais que conquistastes no m eu reino de paz, com os vossos sacrifícios abençoados e com as vossas renúncias purificadoras! Num erosos m issionários de m inha doutrina ainda tom barão, exânim es, na arena da im piedade, m as hão-de constituir convosco a caravana apostólica, que nunca m ais se dissolverá, am parando todos os trabalhadores que perseverarem até ao fim , no longo cam inho da salvação das alm as!...
"Quando a escuridão se fizer m ais profunda nos corações da Terra, determ inando a utilização de todos os progressos hum anos para o exterm ínio, para a m iséria e para a m orte, derram arei m inha luz sobre toda a carne e todos os que vibrarem com o m eu reino e confiarem nas m inhas prom essas, ouvirão as nossas vozes e apelos santificadores!...
"Pela sabedoria e pela verdade, dentro das suaves revelações do Consolador, m eu verbo se m anifestará novam ente no m undo, para as criaturas desnorteadas no cam inho escabroso, através de vossas lições, que se perpetuarão nas páginas im ensas dos séculos do porvir!...
"Sim ! am ados m eus, porque o dia chegará no qual todas as m entiras hum anas hão de ser confundidas pela claridade das revelações do céu. Um sopro poderoso de verdade e vida varrerá toda a Terra, que pagará, então, à evolução dos seus institutos, os m ais pesados tributos de sofrim entos e de sangue... Exausto de receber os fluidos venenosos da ignom ínia e da iniquidade de seus habitantes, o próprio planeta protestará contra a im penitência dos hom ens, rasgando as entranhas em dolorosos cataclism os. .. As im piedades terrestres form arão pesadas nuvens de dor que rebentarão, no instante oportuno, em tem pestades de lágrim as na face escura da Terra e, então, das claridades da m inha m isericórdia, contem plarei m eu rebanho desditoso e direi com o os m eus em issários: "Ó Jerusalém , Jerusalém ?..."
"Mas Nosso Pai, que é a sagrada expressão de todo o am or e sabedoria, não quer se perca um a só de suas criaturas, transviadas nas tenebrosas sendas da im piedade!...
"Trabalharem os com am or, na oficina dos séculos porvindouros, reorganizarem os todos os elem entos destruídos, exam inarem os detidam ente todas as ruínas buscando o m aterial passível de novo aproveitam ento e, quando as instituições terrestres reaj ustarem a sua vida na fraternidade e no bem , na paz e na j ustiça, depois da seleção natural dos Espíritos e dentro das convulsões renovadoras da vida planetária, organizarem os para o m undo um novo ciclo evolutivo, consolidando, com as divinas verdades do Consolador, os progressos definitivos do hom em espiritual".
A voz do Mestre parecia encher os âm bitos do próprio Infinito, com o se Ele a lançasse, qual baliza divina do seu am or, no ilim itado do espaço e do tem po, no seio radioso da Eternidade.
Term inando a exposição de suas profecias augustas, sua figura sublim ada elevava-se às Alturas, enquanto um oceano de luz azulada, de m istura aos sons de m elodias divinas e incom paráveis, invadia aqueles dom ínios espirituais, com as tonalidades cariciosas das safiras terrestres.
Todos os presentes, genuflexos na sua doce em oção, choravam de reconhecim ento e alegria, enchendo-se de santificada coragem para as elevadas tarefas que lhes com petia levar a efeito, no curso incessante dos séculos. Flores de m aravilhoso azul-celeste choviam do Alto sobre todas as frontes, desfazendo-se, todavia, ao tocarem nas delicadas substâncias que form avam o solo daquela paisagem ; de soberana harm onia, com o se fossem lírios fluidicos, de perfum ada neblina.
Lívia chorava de com oção indefinível, enquanto Sim eão, com seus generosos ensinam entos, a instruía das novas m issões de trabalho santificante, que lhe aguardavam a dedicação no plano espiritual.
- Meu am igo - disse ela, entre lágrim as as agonias terrestres são um preço m isérrim o para estas recom pensas radiosas e im ortais!... Se todos os hom ens tivessem conhecim ento direto de sem elhantes venturas, não possuiriam outra preocupação além da de buscar o glorioso reino de Deus e de sua j ustiça.
- Sim , filha - acrescentou Sim eão, com o se os seus olhos pousassem serenam ente nos quadros do futuro -, um dia, todos os seres da Terra hão-de conhecer o Evangelho do Mestre, observando-lhe os ensinos!... Para isso, haverem os de sacrificar-nos pelo Cordeiro de Deus, quantas vezes forem necessárias. Organizarem os avançados postos de trabalho entre as som bras terrestres, buscarem os acordar todos os corações adorm ecidos nas reencarnações dolorosas, para as harm onias sublim es destas divinas alvoradas!...
Se for preciso, voltarem os de novo ao m undo, em m issões santificadoras de paz e verdade... Sucum birem os na cruz infam ante, ou darem os o sangue em repasto às feras da am bição e do orgulho, do ódio e da im piedade, que dorm itam nas alm as dos nossos com panheiros da existência terrestre, convertendo todos os corações ao am or de Jesus Cristo!...
Nesse instante, todavia, Lívia notou que um grupo gracioso de entidades angélicas distribuía as graças do Senhor naquela paisagem florida do Infinito, organizada no Além com o estância de repouso, recom pensando os que haviam partido das angústias terrenas, após o cum prim ento de m issão divina.
Todos os que haviam alcançado a vitória celeste com os seus esforços, nos m artírios santificantes, retem peravam agora as forças m orais e desej avam conhecer novas esferas de gozo espiritual, novas expressões da vida noutros m undos, recebendo outros conhecim entos nos tem plos radiosos e sublim es da Eternidade e restabelecendo, ao m esm o tem po, o equilíbrio de suas em oções.
Junto à m agnanim idade dos m ensageiros de Jesus, sublim ados planos foram arquitetados. Novos cenários, novas oficinas de estudo, novas em oções no reencontro de afetos inesquecíveis, que haviam antecedido os m issionários do Senhor na noite escura e fria da m orte.
Mas, chegando-lhe a vez de externar seus m ais recônditos desej os, a nobre com panheira do senador, depois de auscultar os seus sentim entos m ais profundos, respondeu, entre lágrim as, ao em issário de Jesus que a interpelava:
- Mensageiro do Bem - as m aravilhas do reino do Senhor teriam para m im um a nova beleza, se eu pudesse penetrar-lhes a excelsitude, em com panhia do coração que é m etade do m eu, da alm a gêm ea da m inha, que a sabedoria de Deus, em seus profundos e doces m istérios, destinou ao m eu m odo de ser, desde a aurora dos tem pos!...
Não desej o m enosprezar a glória sublim e destas regiões de felicidade e de paz indizíveis, m as, no m eio de todas estas alegrias que m e rodeiam , sinto saudades da alm a que é o com plem ento da m inha própria vida!...
Dai-m e a graça de voltar às som bras da Terra e erguer, do lodaçal do orgulho e das vaidades im piedosas, o com panheiro do m eu destino!... Perm iti que possa protegê-lo em espírito, a fim de um dia trazê-lo aos pés de Jesus, igualm ente, de m odo que tam bém receba as suas divinas bênçãos!...
A entidade angélica sorriu com profunda com preensão e terna com placência, exclam ando:
- Sim - o am or é o laço de luz eterna que une todos os m undos e todos os seres da im ensidade; sem ele, a própria Criação Infinita não teria razão de ser, porque Deus é a sua expressão suprem a... As perspectivas deslum brantes das esferas felizes perderiam a divina beleza, se não guardássem os a esperança de participar, um dia, de suas ilim itadas venturas, j unto dos nossos bem -am ados, que se encontram na Terra ou noutros círculos de provação, do Universo...
E, fixando o lúcido olhar nos olhos serenos e fulgurantes de Lívia, continuou com o se lhe devassasse os pensam entos m ais secretos e m ais profundos:
- Conheço toda a tua história e sei de tuas lutas incessantes e redentoras, nas encarnações do passado, j ustificando assim os teus propósitos de prosseguir, em espírito, trabalhando na Terra pelo aperfeiçoam ento daqueles a quem m uito am aste!...
Tam bém o Cordeiro de Deus, por m uito am ar a Hum anidade. não desdenhou a hum ilhação, o m artírio, o sacrifício...
Vai, m inha filha. Poderás trabalhar livrem ente entre as falanges radiosas que operam na face som bria do planeta terrestre. Voltarás aqui, sem pre que necessitares de novos esclarecim entos e novas energias. Regressarás j unto de Sim eão, logo que o desej ares. Am para o teu infeliz com panheiro na longa esteira de suas expiações rudes e am argas, m esm o porque o desventurado Públio Lentulus não está longe da sua m ais angustiosa provação na atual existência, perdida, infelizm ente, pelo seu desm arcado orgulho e pela sua vaidade fria e im piedosa!...
Lívia sentiu-se tom ada de indizível em oção em face daquela revelação dolorosa, m as, sim ultaneam ente, externou todo o seu reconhecim ento à m isericórdia divina, na intim idade do seu coração sensível e am oroso.
Naquele m esm o dia. em com panhia de Sim eão, a generosa criatura voltava à Terra, afastando-se provisoriam ente daqueles dom ínios esplendorosos.
Através da sua excursão espiritual, sublim e e vertiginosa, observou as m esm as perspectivas encantadoras e deslum brantes do cam inho, recebendo, extasiada, elevados ensinam entos do venerando am igo da Sam aria.
Em pouco tem po aproxim avam -se am bos de larga m ancha escura. Já na atm osfera da Terra, Lívia sentiu a singular diversidade da natureza am biente, experim entando os m ais penosos choques fluídicos.
Num ápice, notou que se encontravam na m esm a Rom a da sua infância, da sua j uventude e das suas am argas provações.
Era m eia-noite. Todo o hem isfério estava m ergulhado nos abism os de som bra.
Am parada pelos braços e pela experiência de Sim eão, chegou ao seu antigo palácio do Aventino, identificando-lhe os m árm ores preciosos.
Em lá penetrando, Lívia e Sim eão se dirigiram im ediatam ente ao quarto do senador, então ilum inado por frouxa claridade.
Com exceção das ruas, onde se m ovim entavam ruidosam ente os escravos, nos serviços noturnos de transporte, segundo os costum es do tem po, toda a cidade repousava na som bra.
De j oelhos ante a relíquia de Sim eão, com o de seu recente costum e, Públio Lentulus m editava. Seu pensam ento descia aos abism os tenebrosos do passado, onde buscava rever, angustiadam ente as afeições inesquecíveis que o haviam precedido nas sendas tristes da m orte. Fazia m ais de um m ês que a esposa havia dem andado, igualm ente, os m istérios do túm ulo, em trágicas circunstâncias.
Mergulhado nas trevas do seu exílio de am argores e profundas saudades, o orgulhoso patrício serenava as inquietações dolorosas do dia, a fim de m elhor consultar os m istérios do ser, do sofrim ento e do destino... Em dado instante, quando m ais fundas e m elancólicas as penosas rem iniscências, notou, através do véu de suas lágrim as, que a pequena cruz de m adeira com o que em itia delicados fios de luz prateada, qual se fôra banhada de luar m isericordioso e brando.
Públio Lentulus, absorto nas vibrações pesadas e obscuras da carne, não viu a nobre silhueta de sua m ulher, que ali se encontrava j unto do venerável apóstolo da Sam aria, regozij ando-se no Senhor, ao verificar as profundas e benéficas m odificações espirituais da alm a gêm ea da sua, na peregrinação iterativa das encarnações terrenas. Tom ada de alegria e reconhecim ento para com a Providência Divina, Lívia beij ou-lhe a fronte num transporte de indefinível ternura, enquanto Sim eão erguia aos céus um a prece de am or e agradecim ento.
O senador não lhes percebeu, diretam ente, a presença suave e lum inosa, m as no íntim o dalm a sentiu-se tocado por um a força nova, ao m esm o tem po que o seu coração dilacerado se viu envolto na luz cariciosa de um a consolação inefável e até então desconhecida.