Há Dois Mil Anos

Chico Xavier · Capítulo 4 de 21

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Há Dois Mil Anos

III Em casa de Pilatos

 

A secura da natureza, onde se ergue Jerusalém , proporciona à célebre cidade um a beleza m elancólica, tocada de pungente m onotonia.

Ao tem po do Cristo, seu aspecto era quase igual ao que hoj e se observa. Apenas a colina de Mizpa, com as suas tradições suaves e lindas, representava um recanto verde e alegre, onde repousavam os olhos do forasteiro, longe da aridez e da ingratidão das paisagens.

Todavia, devem os registrar que, na época da perm anência de Públio Lentulus e de sua fam ília, Jerusalém acusava novidades e esplendores da vida nova. As construções herodianas pululavam nos seus arredores, revelando novo senso estético por parte de Israel. A predileção pelos m onólitos talhados na rocha viva, característica do antigo povo israelita, fora substituída pelas adaptações do gosto j udeu às norm as gregas, renovando as paisagens interiores da fam osa cidade. A j óia m aravilhosa era, porém , o Tem plo, todo novo na época de Jesus. Sua reconstrução fôra determ inada por Herodes, no ano de 21, notando-se que os pórticos levaram oito anos a edificar-se, e considerando-se, ainda, que os planos da obra grandiosa, continuados vagarosam ente no curso do tem po, som ente ficaram concluídos pouco antes de sua com pleta destruição.

Nos pátios im ensos, reunia-se diariam ente a aristocracia do pensam ento israelita, localizando-se ali o fórum , a universidade, o tribunal e o tem plo suprem o de toda um a raça.

Os próprios processos civis, além das discussões engenhosas de ordem teológica, ali recebiam as decisões derradeiras, resum indo-se no tem plo im ponente e grandioso todas as am bições e atividades de um a pátria.

Os rom anos, respeitando a filosofia religiosa dos povos estranhos, não participavam das teses sutis e dos sofism as debatidos e exam inados todos os dias, m as a Torre Antônia, onde se aquartelavam as forças arm adas do Im pério, dom inava o recinto. facilitando a fiscalização constante de todos os m ovim entos dos sacerdotes e das m assas populares.

Públio Lentulus, após o incidente do prisioneiro, que continuava a considerar com o episódio sem im portância, retom ava certa serenidade para o desem penho de suas obrigações consuetudinárias. Os aspectos áridos de Jerusalém tinham , para seus olhos cansados, encanto novo, no qual o pensam ento repousava das num erosas e intensas fadigas de Rom a.

Quanto a Lívia, esta guardava o coração voltado para os seus afetos distantes, analisando a aridez dos espíritos ao alcance do seu convívio. Com o por m ilagre, a pequena Flávia havia m elhorado, observando-se notável transform ação das feridas que lhe cobriam a epiderm e. Mas, as atitudes hostis de Fúlvia, que lhe não perdoava a sim plicidade encantadora e os dotes preciosos de inteligência, sem perder ensej o para j ogar-lhe em rosto pequeninas indiretas, por vezes irônicas e m ordentes, deixavam -lhe o espírito aturdido num turbilhão de expectativas alucinantes. Sem elhantes acontecim entos eram desconhecidos do m arido, a quem a pobre senhora se abstinha de relatar os seus m ais íntim os desgostos.

Esses fatos, porém , não eram os elem entos que m ais contribuíam para acabrunhá-la naquele am biente de penosas incertezas.

Fazia um a sem ana que se encontravam na cidade e notava-se que, contrariando talvez seus hábitos, Pôncio Pilatos com parecia diariam ente à residência do pretor, a pretexto de predileção pela palestra com os patrícios recém -chegados da Corte. Horas a fio eram em pregadas nesse m ister, m as Lívia, com as secretas intuições da sua alm a, com preendia os pensam entos inconfessáveis do governador a seu respeito, recebendo de espírito prevenido os seus am áveis m adrigais e alusões m enos diretas.

Nessas aproxim ações de sentim entos que prenunciam a pream ar das paixões, via-se tam bém a contrariedade de Fúlvia, tocada de venenoso ciúm e em face da situação que a atitude de Pilatos ia criando. Por detrás daqueles bastidores brilhantes do cenário da am izade artificial, com que foram recebidos, Públio e Lívia deveriam com preender que existia um m am ei de paixões inferiores, que, certo, haveria de tisnar a tranquilidade de suas alm as. Não entenderam , todavia, os detalhes da situação e penetraram de espírito confiante e ingênuo no cam inho escuro e doloroso das provações que Jerusalém lhes reservava.

Reafirm ando incessantes obséquios e m ultiplicando gentilezas, Pilatos fez questão de oferecer um j antar, no qual toda a fam ília se reconfortasse e a fraternidade e a alegria fossem perfeitas

No dia aprazado, Sálvio e Públio, acom panhados pelos seus, com pareciam à residência senhorial do governador, onde Cláudia igualm ente os esperava com um sorriso bondoso e acolhedor.

Lívia estava pálida, no seu traj e sim ples e despretensioso, sendo de notar que, contra toda a expectativa do esposo, fizera questão de levar a filhinha doente, no pressuposto de que o seu cuidado m aterno representasse algum a coisa contra as pretensões do conquistador que o seu coração de m ulher adivinhava, através das atitudes indiscretas e atrevidas do anfitrião daquela noite.

O j antar servia-se em condições essencialíssim as, segundo os hábitos m ais rigorosos e elegantes da Corte.

Lívia estava aturdida com aquelas solenidades a se desdobrarem nos m ais altos requintes da etiqueta rom ana, costum es esses oriundos de um m eio do qual ela e Calpúrnia sem pre se haviam afastado, na sua sim plicidade de coração. Num erosa falange d escravos se m ovim entava em todas as direções, com o verdadeiro exército de servidores, em face de tão reduzido núm ero de com ensais.

Depois dos pratos preparados, chegam os vocadores recitando os nom es dos convivas, enquanto os infertores trazem os pratos dispostos com singular sim etria. Os convidados recostam -se então no triclínio, forrado de penugens cetinosas e pétalas de flores. As carnes são trazidas em pratos de ouro e os pães em açafates de prata, m ultiplicando-se os servos para todos os m isteres, inclusive aqueles que deviam provar as iguarias, a fim de se certificar do seu paladar, para que fossem servidas com a m áxim a confiança. Os copeiros servem um falerno precioso e antigo, m isturado de arom as, em taças incrustadas de pedras preciosas, enquanto outros servos os acom panham apresentando, em galhetas de prata, a água tépida ou fria, ao sabor dos convidados. Junto dos leitos, onde cada com ensal deve recostar-se m olem ente, conservam -se escravos j ovens, traj ados com apuro e ostentando na fronte gracioso turbante, braços e pernas sem inus, cada qual com a sua função definida. Alguns agitam nas m ãos longos ram os de m irto, afugentando as m oscas, enquanto outros, curvados aos pés dos convivas, são obrigados a lim par discretam ente os sinais da sua gula e intem perança.

Quinze serviços diferentes sucederam -se através dos esforços dos escravos dedicados e hum ildes, quando, após o repasto, brilham os salões com centenas de tochas, ouvindo-se agradáveis sinfonias. Servos j ovens e bem postos executam danças apaixonadas e voluptuosas em hom enagem aos seus senhores, m im oseando-lhes os sentim entos inferiores com a sua arte exótica e espontânea, e, som ente não foi levado a efeito um núm ero de gladiadores, segundo o costum e nos grandes banquetes da Corte, porque Lívia, de olhos súplices, pedira que poupassem naquela festa o doloroso espetáculo do sangue hum ano.

A noite era das m ais cálidas de Jerusalém , m otivo por que, findos o j antar e as cerim ônias com plem entares, a caravana de am igos, acom panhada agora de Sulpício Tarquinius, se dirigia para o am plo e bem posto terraço, onde j ovens escravas faziam deliciosa m úsica do Oriente.

- Não j ulgava encontrar em Jerusalém um a noite patrícia com o esta exclam ou Públio, sensibilizado, dirigindo-se ao governador com respeitosa cortesia. - Devo à vossa bondade fidalga e generosa a satisfação de reviver o am biente e a vida inesquecíveis da Corte, onde os rom anos distantes guardam o coração e o pensam ento.

- Senador, esta casa vos pertence - replicou Pilatos com intim idade. Ignoro se a m inha sugestão ser-vos-á agradável, m as só teríam os razão para agradecer aos deuses, se nos concedêsseis a honrosa alegria de vos hospedar aqui, com os vossos dignos fam iliares. Acredito que a residência do pretor Sálvio não vos oferece o necessário conforto, e, acrescendo a circunstância do íntim o parentesco que liga m inha m ulher à esposa de vosso tio, sinto-m e à vontade para fazer este oferecim ento, sem quebra de nossos costum es, em sociedade.

- Lá isso não, exclam ou por sua vez o pretor, que acom panhara atento a gentileza da oferta. - Eu e Fúlvia nos opom os à realização dessa m edida - e, acenando confiante para a consorte, term inava a sua ponderação -, não é verdade, m inha querida?

Fúlvia, porém , deixando transparecer um a ponta de contrariedade, redarguiu, com surpresa de todos os presentes:

- De pleno acordo. Públio e Lívia são nossos hóspedes efetivos; contudo, não podem os esquecer que o obj etivo de sua viagem se prende à saúde da filhinha, obj eto de todas as nossas preocupações no m om ento, sendo j usto que os não privem os de qualquer recurso que se venha a verificar, a favor da pequena enferm a...

E dirigindo-se instintivam ente para o banco de m árm ore, onde descansava a doentinha, exclam ou com escândalo geral:

- Aliás, esta m enina representa um a séria preocupação para todos nós. Sua epiderm e dilacerada acusa sintom as invulgares, recordando..

Mas, não conseguiu term inar a exposição de seus receios escrupulosos, porque Cláudia, alm a nobre e digna, constituindo um a antítese da irm ã que o destino lhe havia dado, com preendendo a situação penosa que os seus conceitos iam criando, adiantou-se-lhe redarguindo:

- Não vej o razões que j ustifiquem esses tem ores; suponho a pequena Flávia m uito m elhor e m ais forte. Quero crer, até, que bastará o clim a de Jerusalém para a sua cura com pleta.

E avançando para a doentinha, com o quem desej asse desfazer a dolorosa im pressão daquelas observações indelicadas, tom ou-a nos braços, osculando-lhe o rosto infantil, coberto de tons violáceos de m al disfarçadas feridas.

Lívia, que trazia o sem blante afogueado pela hum ilhação das palavras de Fúlvia, recebeu a gentileza com o bálsam o precioso para as suas inquietações m aternas; quanto a Públio, este, am argam ente surpreendido, considerou a necessidade de reaver a sua serenidade e energia m áscula, dissim ulando o desgosto que o episódio lhe causara, retom ando a direção da palestra, sobrem aneira com ovido:

- É verdade, am igos. A saúde da m inha pobre Flávia representa o obj eto prim ordial da nossa longa viagem até aqui. Resolvidos os problem as do Estado, que m e trouxeram a Jerusalém , há alguns dias que exam ino a possibilidade de m e localizar em qualquer região do interior, de m odo que a filhinha possa recuperar o precioso equilíbrio orgânico, aspirando um ar m ais puro.

- Pois bem - replicou Pilatos, com segurança -, em assuntos de clim a, sou aqui um hom em entendido. Há seis anos que m e encontro nestas paragens em função do cargo e tenho visitado quase todos os recantos da província e das regiões vizinhas, tendo m otivos para afiançar que a Galileia está em prim eiro plano. Sem pre que posso repousar dos labores intensos que aqui m e prendem , busco im ediatam ente a nossa vila dos arredores de Nazaré, para gozar a serenidade da paisagem e as brisas deliciosas do seu lago im enso. Concordo em que a distância é m uito longa, m as a verdade é que, se perm anecesse nas cercanias da cidade, nas m inhas estações de repouso, perderia o tem po, atendendo às solicitações incessantes dos rabinos do tem plo, sem pre a braços com inum eráveis pendências. Ainda agora, Sulpício terá de partir, a fim de superintender alguns trabalhos de reparação da nossa residência, pois tencionam os seguir para ali dentro de pouco tem po, a refazer as energias esgotadas na luta cotidiana.

Já que a m inha hospedagem não vos será necessária em Jerusalém , quem sabe terem os o prazer de hospedar-vos, m ais tarde, na vila a que m e refiro?

- Nobre am igo - exclam ou o senador, agradecido -, devo poupar-vos tanto trabalho, m as, ficar-vos-ei im ensam ente grato se o vosso am igo Sulpício providenciar em Nazaré a aquisição de um a casa confortável e sim ples, que m e sirva, reform ando-a de conform idade com os nossos hábitos fam iliares, e onde possam os residir despreocupadam ente por alguns m eses.

- Com o m áxim o prazer.

- Muito bem - atalhou Cláudia, com bondade, enquanto Fúlvia m al dissim ulava venenoso despeito -, ficarei incum bida de adaptar a nossa boa Lívia à vida cam pestre, onde a gente se sente tão bem em contato direto com a Natureza.

- Desde que se não transform em em j udias... - disse o senador, bem hum orado, enquanto todos sorriam alegrem ente.

Neste com enos, ouvido sobre os detalhes dos serviços que lhe seriam confiados em dias próxim os, Sulpício Tarquinius, hom em da confiança do governador, sentiu-se com a liberdade de intervir no assunto, exclam ando, com surpresa para quantos o ouviam :

- Sim realizando grandes coisas. - E por falar de Nazaré, j á ouvistes falar do seu profeta?

- continuou -, Nazaré possui agora um profeta que vem

- Que é isso, Sulpício? - perguntou Pilatos, ironicam ente - pois não sabes que dos j udeus nascem profetas todos os dias? Acaso as lutas no tem plo de Jerusalém se verificam por outra coisa? Todos os doutores da Lei se consideram inspirados pelo Céu e cada qual é dono de um a nova revelação.

- Mas, esse, senhor, é bem diferente. - Estarás, acaso, convertido a um a nova fé?

- De m odo algum , m esm o porque com preendo o fanatism o e a obcecação dessas m iseráveis criaturas; m as fiquei realm ente intrigado com a figura im pressionante de um Galileu ainda m oço, quando passava, há alguns dias, por Cafarnaum .

Ao centro de um a praça, acom odada em bancos im provisados, feitos de pedra e de areia, vi considerável m ultidão que lhe ouvia a palavra, em êxtase de adm iração e com oção...

Eu tam bém , com o se fôra tocado de força m isteriosa e invisível, sentei-m e para ouvi-lo.

De sua personalidade, extraordinária de beleza sim ples, vinha um "não sei quê", dom inando a turba que se aquietava, de leve, ouvindo-lhe as prom essas de um eterno reinado... Seus cabelos esvoaçavam às brisas da tarde m ansa, com o se fossem fios de luz desconhecida nas claridades serenas do crepúsculo; e de seus olhos com passivos parecia nascer um a onda de piedade e com iseração infinitas. Descalço e pobre, notava-se-lhe a lim peza da túnica, cuj a brancura se casava à leveza dos seus traços delicados. Sua palavra era com o um cântico de esperança para todos os sofredores do m undo, suspenso entre o céu e a terra, renovando os pensam entos de quantos o escutavam ... Falava de nossas grandezas e conquistas com o se fossem coisas bem m iseráveis, fazia am argas afirm ativas acerca das obras m onum entais de Herodes, em Sebasto, asseverando que acim a de César está um Deus Todo-Poderoso, providência de todos os desesperados e de todos os aflitos... No seu ensinam ento de hum ildade e am or, considera todos os hom ens com o irm ãos bem -am ados, filhos desse Pai de m isericórdia e j ustiça, que nós não conhecem os...

A voz de Sulpício estava saturada do tom em ocional característico dos sentim entos filhos da verdade.

O auditório se contagiara da com oção de sua narrativa, escutando-lhe a palavra com o m aior interesse.

Pilatos, todavia, sem perder o fio de suas vaidades de governador, interrom peu-o, exclam ando:

- Todos irm ãos! Isso é um absurdo. A doutrina de um Deus único não é novidade para nós outros, nesta terra de ignorantes; m as, não podem os concordar com esse conceito de fraternidade irrestrita. E os escravos? E os vassalos do Im pério? Onde ficam as prerrogativas do patriciado?

O que m ais m e adm ira, porém - exclam ou com ênfase, dirigindo-se particularm ente ao narrador -, é que, sendo tu um hom em prático e decidido, te tenhas deixado levar pelas palavras loucas desse novo profeta, m isturando-te com a turba para ouvi-lo. Não sabes que a anuência de um lictor pode significar enorm e prestígio para as idéias desse hom em ?

- Senhor - respondeu Sulpício, desapontado -, eu próprio não saberia explicar a razão de m inhas observações daquela tarde. Considerei, igualm ente, de pronto, que as doutrinas por ele pregadas são subversivas e perigosas, por igualarem os servos aos senhores, m as observei, tam bém , as suas penosas condições de pobreza, consideradas por seus discípulos e seguidores com o um estado alegre e feliz. o que, de algum m odo, não constitui m otivo de receio para as autoridades provinciais.

Além disso, essas pregações não prej udicam os cam poneses, porque são feitas geralm ente nas horas de ócio e descanso, no intervalo dos trabalhos de cada dia, notando-se igualm ente que os seus com panheiros prediletos são os pescadores m ais ignorantes e m ais hum ildes do lago.

- Mas, com o te deixaste em polgar assim por esse hom em ? - retornou Pilatos, com energia.

- Enganais-vos, quanto a isso - respondeu o lictor, m ais senhor de si - não m e sinto im pressionado, com o supondes, tanto assim que, notando-lhe a originalidade sim ples e form osa, não lhe reconheço privilégios sobrenaturais e acredito que a ciência do Im pério elucidará o fato que vou narrar, respondendo à vossa arguição do m om ento.

Não sei se conheceis Copônio, velho centurião destacado na cidade a que m e referi, m as cum pre-m e cientificar-vos do fato por m im observado. Depois que a voz do profeta de Nazaré havia deixado um a doce quietude na paisagem , o m eu conhecido apresentou-lhe o filhinho m oribundo, im plorando caridade para a criança que agonizava. Vi-o elevar os olhos radiosos para o firm am ento, com o se obsecrasse a bênção dos nossos deuses e, depois, notei que suas m ãos tocavam o m enino, que, por sua vez, parecia haver experim entado um fluxo de vida nova, levantando-se de súbito, a chorar e buscando o carinho paterno, após descansar no profeta os olhinhos enternecidos...

- Mas, até centuriões j á se m etem com os j udeus nas suas perlengas? Preciso com unicar-m e com as autoridades de Tiberíades, sobre esses fatos - exclam ou o governador, visivelm ente contrariado.

- O caso é curioso - disse Públio Lentulus, intrigado com a narrativa. - A verdade, contudo, m eu am igo - obj etou Pilatos, dirigindo-se a ele

-, é que nestas paragens nascem religiões todos os dias. Este povo é m uito diverso do nosso, reconhecendo-se-lhe visível deficiência de raciocínio e senso prático. Um governador, aqui, não pode deixar-se em polgar pelas figuras e sim m anter rígidos os princípios, no sentido de salvaguardar a soberania inviolável do Estado. É por esse m otivo que, atendendo às sábias determ inações da sede do governo, não m e detenho nos casos isolados, para tão som ente ponderar as razões dos sacerdotes do Sinédrio, que representam o órgão do poder legítim o, apto a harm onizar conosco a solução de todos os problem as de ordem política e social.

Públio dava-se por satisfeito com o argum ento, m as as senhoras presentes, com exceção de Fúlvia, pareciam fundam ente im pressionadas com a descrição de Sulpício, inclusive a pequenina Flávia, que lhe bebera as palavras com o m áxim o de curiosidade infantil.

Um véu de preocupações obscurecera a facécia de todos os presentes, m as o governador não se resignou com a atitude geral, exclam ando:

- Ora esta! um lictor que, em vez de fazer a j ustiça a nosso bem , age contra nós próprios, obscurecendo o nosso am biente alegre, m erece severa punição por suas narrativas inoportunas!...

Um riso geral seguiu-lhe a palavra ruidosa e leve, enquanto rem atava:

- Desçam os ao j ardim para ouvir nova m úsica, desanuviando o coração desses aborrecim entos im previstos.

A idéia foi aceita com geral agrado.

A pequena Flávia foi instalada pela dona da casa em apartam ento confortável, e, em poucos m inutos, os presentes se dividiam em três grupos distintos, através das alam edas do j ardim , aclarado de tochas brilhantes, ao som de m úsicas caprichosas e lascivas.

Públio e Cláudia falavam da paisagem e da natureza; Pilatos m ultiplicava gentilezas j unto de Lívia, enquanto Sulpício se colocava ao lado de Fúlvia, tendo o pretor Lentulus resolvido perm anecer no arquivo, exam inando algum as obras de arte.

Distanciando-se propositadam ente dos dem ais grupos, o governador notava a palidez da com panheira que, naquela noite, se lhe figurava m ais sedutora e m ais bela.

O respeito que a sua form osura discreta lhe infundia nalm a, parecia aum entar, naquela hora, o ardor do coração apaixonado.

- Nobre Lívia - exclam ou com em oção -, não posso guardar por m ais tem po os sentim entos que as vossas virtudes cheias de beleza m e inspiraram . Sei da natural repulsa de vossa alm a digna, em face de m inhas palavras, m as lam ento não m e com preendais o coração tocado dessa adm iração que m e avassala!...

- Tam bém eu - revidou a pobre senhora, com dignidade e energia espontâneas- lastim o haver inspirado ao vosso espírito sem elhante paixão. Vossas palavras m e surpreendem am arga, não só porque partem de um patrício revestido das elevadas responsabilidades de procurador do Estado, com o por considerar a am izade confiante e nobre que vos consagra o m eu esposo.

- Mas, em assuntos do coração - atalhou ele, solícito - não podem prevalecer as form alidades da convenção política, m esm o as m ais elevadas. Tenho dos m eus deveres a m ais alta com preensão e sei encarar a solução de todos os problem as do m eu cargo, m as não m e recordo onde vos teria visto antes!... a realidade é que, há um a sem ana, tenho o coração dilacerado e oprim ido... Encontrando-vos, parecia deparar-se-m e esta im agem adorada e inesquecida. Tudo fiz por evitar esta cena desagradável e penosa, m as, confesso que um a força invencível m e confunde o coração!...

- Enganais-vos, senhor! Entre nós não pode existir outro laço, além do inspirado pelo respeito à identidade de nossas condições sociais. Se tendes em tão alta conta as vossas obrigações de ordem política, não deveis olvidar que o hom em público deve cultivar as virtudes da vida privada, incentivando, em si m esm o, a veneração e a incorruptibilidade da própria consciência.

- Mas, a vossa personalidade m e faz esquecer todos esses im perativos. Onde vos teria visto, afinal, para que m e sentisse em polgado desta m aneira?

- Calai-vos, pelos deuses! - m urm urou Lívia, assustada e em palidecida. -Nunca vos vi, antes de nossa chegada a Jerusalém , e apelo para o vosso cavalheirism o de hom em , a fim de m e poupardes estas referências que m e am arguram !... Tenho razões para crer na vossa ventura conj ugal, j unto de um a m ulher digna e pura, tal com o a vej o, reputando um a loucura as propostas que vossas palavras m e deixam entrever...

Pilatos ia prosseguir na sua argum entação, quando a pobre senhora, am argam ente surpreendida, sentiu-se desfalecer. Debalde m obilizou ela suas energias vitais, com o fim de evitar o delíquio.

Presa de singular abatim ento, encostou-se a um a árvore do j ardim , onde se desenrolava a palestra que acabam os de ouvir. Receando as consequências, o governador tom ou-lhe a m ão delicada e m im osa, torturado pelos seus inconfessáveis pensam entos, m as, ao seu contato ligeiro, a natureza orgânica de Lívia parecia reagir com decisão e inquebrantável firm eza.

Recobrando as forças, fez com a cabeça um leve sinal de agradecim ento, enquanto Públio e Cláudia se acercavam de am bos, renovando-se a palestra geral, com a satisfação de todos.

Todavia, a cena provocada pelas extravasões de afeto do governador não ficou circunscrita apenas aos dois atores que a viveram intensam ente.

Fúlvia e Sulpício acom panharam -na em seus m ínim os detalhes, através dos claros abertos na ram agem som bria.

- Ora esta! - exclam ou o lictor para a com panheira, observando as m inudências da palestra que acabam os de descrever. - Então, j á perdeste as boas graças do procurador da Judeia?

A essa pergunta, Fúlvia, que por sua vez não tirava os olhos da cena, estrem eceu convulsivam ente, dando guarida aos m ais largos sentim entos de ciúm e e despeito.

- Não respondes? - continuava Sulpício, gozando o espetáculo. Porque m e recusas tantas vezes, se tenho para oferecer-te um sentim ento profundo de dedicação e lealdade?

A interpelada continuou em silêncio, no seu posto de observação, rugindo de cólera íntim a, quando viu que o governador guardava, entre as suas, a m ão exânim e da com panheira, pronunciando palavras que seus ouvidos não escutavam , m as os seus sentim entos inferiores presum iam adivinhar naquele colóquio inesperado.

Tão logo, porém , Cláudia e Públio figuraram no cenário, Fúlvia voltou-se para o com panheiro, m urm urando com voz cava:

- Acederei a todos os teus desej os, se m e auxiliares num com etim ento.

- Qual?

- O de levarm os ao senador, em tem po oportuno, o conhecim ento da infidelidade de sua m ulher.

- Mas, com o?

- Prim eiram ente, evitarás a instalação de Públio em Nazaré, para levá-la m ais distante, de m odo a dificultar as relações entre Lívia e o governador, por ocasião de sua ausência de Jerusalém , porque estou adivinhando que ela desej ará transferir-se para Nazaré, em breves dias. Em seguida, procurarei interferir, pessoalm ente, de m aneira que sej as designado para proteger o senador na sua estação de repouso e, investido nesse cargo, encam inharás os acontecim entos para consecução de nossos planos. Isso feito, saberei recom pensar teus esforços e bons serviços de sem pre, com a m inha dedicação absoluta.

O lictor ouviu a proposta, silenciando, indeciso. Mas a interlocutora, com o se estivesse ansiosa por selar a aliança sinistra, interrogou em voz firm e:

- Tudo com binado?

- De pleno acordo!... - respondeu Sulpício, j á resoluto. E as duas personificações do despeito e da lascívia reuniram -se à caravana fraterna, com a m áscara das alegrias aparentes, depois de concluído o pacto tenebroso.

As últim as horas foram consagradas às despedidas, com a afabilidade exterior do convencionalism o social.

Lívia absteve-se de relatar ao esposo a cena penosa do j ardim , considerando não som ente a sua necessidade de repouso íntim o, com o tam bém a im portância social das personalidades em j ogo, prom etendo a si m esm a evitar, a todo transe, qualquer expressão m enos digna no terreno do escândalo pelas palavras.