Há Dois Mil Anos
II Um escravo
Desde os prim eiros tem pos do Im pério, a m ulher rom ana havia-se entregado à dissipação e ao luxo excessivo, em detrim ento das obrigações santificadoras do lar e da fam ília.
A facilidade na aquisição de escravos em pregados nos serviços m ais grosseiros, com o nos m ais elevados m isteres de ordem dom éstica, inclusive os da própria educação e instrução, havia determ inado grande queda m oral no equilíbrio das fam ílias patrícias, porquanto a dissem inação dos artigos de luxo, vindos do Oriente, aliada à ociosidade, am olecera as fibras de energia e de trabalho das m atronas rom anas, encam inhando-as para as frivolidades da indum enta, para as intrigas am orosas, a preludiar a m ais com pleta desorganização da fam ília, no esquecim ento de suas tradições m ais apreciáveis.
Contudo, algum as casas haviam resistido heroicam ente a essa invasão de forças perversoras e crim inosas.
Mulheres havia, ao tem po, que se orgulhavam do padrão das antigas virtudes fam iliares, de quantas as tinham antecedido no labor construtivo das gerações de tantas alm as sensíveis e nobres.
As esposas de Públio e Flam ínio eram desse núm ero. Criaturas inteligentes e valorosas, am bas fugiam da onda corruptora da época, representando dois sím bolos de bom -senso e sim plicidade.
As últim as expressões do inverno j á haviam desaparecido, no ano de 32, entornando pela terra, prim averil e alegre, um a taça im ensa de flores e perfum es...
Num dia claro e ensolarado, vam os encontrar Lívia e Calpúrnia, na residência da prim eira, em am ável palestra, enquanto dois rapazinhos desenham , distraidam ente, a um canto da sala.
As duas senhoras organizam aprestos de viagem , corrigindo defeitos de algum as peças de lã e trocando im pressões íntim as, à m eia voz, em tom am igo e discreto.
Em dado m om ento, os dois m eninos alcançam um dos quartos contíguos, enquanto Lívia cham a a atenção da am iga, nestes term os:
- Teus pequenos não têm hoj e os exercícios habituais? - Não, m inha boa Lívia -respondeu Calpúrnia, com delicadeza fraternal, adivinhando-lhe as intenções -, não só Plínio, m as, tam bém , Agripa, consagraram o dia de hoj e à doentinha. Adivinho as suas vacilações e escrúpulos m aternos, considerando a boa saúde dos nossos filhinhos; m as, os teus receios são infundados...
- Sabem os deuses, todavia, com o tenho vivido nestes últim os tem pos, desde que ouvi a opinião franca e sincera do m édico de Tibur. Bem sabes que para ele o caso de m inha filha é m al doloroso e sem cura. Desde então, toda a m inha vida tem sido um a série de preocupações e m artírios. Tom ei todas as providências para que a pequena fosse isolada do círculo de nossas relações, atendendo aos im perativos da higiene e à necessidade de circunscrever, com o nosso próprio esforço, a m oléstia terrível.
- Mas, quem te diz que o m al é incurável? Acaso sem elhante opinião provej o da palavra infalível dos deuses? Não sabes quanto é enganosa a ciência dos hom ens?
Há tem pos, am bos os m eus fílhinhos adoeceram com febre insidiosa e destruidora. Cham ados os m édicos, observei que eles se revezavam no m ister de salvar os dois enferm os, sem resultados apreciáveis. Depois, refleti m elhor na providência dos céus e, im ediatam ente, ofereci um sacrifício no tem plo de Castor e Pólux, salvando-os de m orte certa. Graças a essa providência, hoj e os vej o sorridentes e felizes.
Agora que não tens som ente a pequena Flávia, m as tam bém o pequenino Marcus, aconselho-te fazeres o m esm o, recorrendo aos deuses gêm eos.
- É verdade, m inha boa Calpúrnia, assim farei antes de nossa partida próxim a.
- E por falar na viagem , com o te sentes em face desta m udança im prevista?
- Bem sabes que tudo farei pela tranquilidade de Públio e pela nossa paz dom éstica. Há m uito noto Públio abatido e doente, em razão de suas lutas exaustivas ao serviço do Estado. Jovial e expansivo, de tem pos a esta parte tornou-se taciturno e irritadiço. Enerva-se com tudo e por tudo, acreditando eu que a saúde precária de nossa filhinha contribua decisivam ente para a sua m isantropia e m au hum or.
Considerando essas razões disponho-m e, com satisfação, a acom panhá-lo à Palestina, pesando-m e apenas no íntim o a circunstância de ser obrigada, ainda que tem porariam ente, a afastar-m e da tua intim idade e dos teus conselhos.
- Folgo de assim te ouvir, porque a nós nos com pete exam inar a situação daqueles que o nosso coração elegeu para com panheiros de toda a vida, tudo envidando por suavizar-lhes os aborrecim entos do m undo.
Públio é um bom coração, generoso e idealista, m as, com o patrício descendente de fam ília das m ais ilustres da República, é vaidoso em dem asia. Hom ens dessa natureza requerem grande senso psicológico da m ulher, sendo j usto e necessário que aparentes igualdade absoluta de sentim entos, de m odo a poderes conduzi-lo sem pre pelo m elhor cam inho.
Flam ínio deu-m e a conhecer todas as circunstâncias da tua perm anência na Judeia, m as, alguns porm enores existem que eu ainda desconheço. Ficarás, de fato, em Jerusalém ?
- Sim . Públio desej a que nos fixem os na m esm a residência do seu tio Sálvio, em Jerusalém , até que possam os eleger o m elhor clim a do país, de m aneira a beneficiar a saúde de nossa filhinha.
- Está bem - exclam ou Calpúrnia, assum indo ares da m aior discrição -, em face da tua inexperiência, sou obrigada a esclarecer o teu espírito, considerando a possibilidade de quaisquer com plicações futuras.
Lívia surpreendeu-se com a observação da am iga, m as, toda ouvidos, revidou im pressionada:
- Mas, que queres dizer?
- Sei que não tens um conhecim ento m ais acurado dos parentes de teu m arido, que há tanto tem po se conservam ausentes de Rom a m urm urou Calpúrnia, com as m inudências características do espírito fem inino - e constituí um dever de am izade aclarar o teu espírito, a fim de não te conduzires com dem asiada confiança por onde passares.
O pretor Sálvio Lentulus, que há m uitos anos foi destituído do governo das províncias, e agora tem sim ples atribuições de funcionário j unto do atual Procurador da Judeia, não é bem um hom em idêntico a teu m arido, que, se tem certos defeitos de fam ília, é um espírito m uito franco e sincero. Eras m uito j ovem quando se verificaram acontecim entos deploráveis em nosso am biente social, com referência às criaturas com quem agora vais conviver.
A esposa de Sálvio, que ainda deve ser um a m ulher m oça e bem cuidada, é irm ã de Cláudia, m ulher de Pilatos, a quem teu m arido vai recom endado, em cam inho da alta adm inistração da província.
Em Jerusalém vais encontrar toda essa gente, de costum es bem diferentes dos nossos, e precisas pensar que vais conviver com criaturas dissim uladas e perigosas.
Não tem os o direito de reprovar os atos de ninguém , a não ser em presença daqueles que consideram os culpados ou passíveis de recrim inações, m as devo prevenir-te de que o Im perador foi com pelido a designar essa gente para serviços no exterior, considerando graves assuntos de fam ília, na intim idade da Corte.
Que os deuses m e perdoem as observações da ausência, m as é que, na tua condição de rom ana e m ulher de senador ainda j ovem , serás hom enageada pelos nossos conterrâneos distantes, hom enagens que receberás em sociedade com o ram alhetes de rosas cheios de perfum e, m as tam bém cheios de espinhos...
Lívia ouviu a am iga, entre espantada e pensativa, exclam ando em voz discreta, com o quem quisesse desfazer um a dúvida: - Mas, o pretor Sálvio não é hom em idoso?
- Estás enganada. É pouco m ais m oço que Flam ínio, m as os seus apuros de cavalheiro fazem da sua personalidade um tipo de soberba aparência.
- Com o poderei levar a bom term o os m eus deveres, no caso de m e cercarem as perfídias sociais, tão com uns em nosso tem po, sem agravar o estado espiritual de m eu esposo?
- Confiem os na providência dos deuses - m urm urou Calpúrnia, deixando transparecer a fé m agnífica do seu coração m aternal.
Mas, as duas não conseguiram prosseguir na conversação. Um ruído m ais forte denunciava a aproxim ação de Públio e Flam ínio, que atravessavam o vestíbulo, procurando-as.
- Então? - exclam ou Flam ínio, bem hum orado, assom ando à porta, com m alicioso sorriso. - Entre a costura e a palestra, deve sofrer a reputação de alguém nesta sala, porque j á dizia m eu pai que m ulher sozinha pensa sem pre na fam ília; m as, se está com outra, pensa logo nos... outros.
Um riso sadio e geral coroou as suas palavras alegres, enquanto Públio exclam ava contente:
- Estej am os sossegados, m inha Lívia, porque tudo está pronto e a nosso inteiro contento. O Im perador prontificou-se a auxiliar-nos generosam ente com as suas ordens diretas, e, daqui a três dias, um a galera nos esperará nas cercanias de Óstia, de m odo a viaj arm os tranquilam ente.
Lívia sorriu satisfeita e confortada, enquanto do apartam ento da pequena Flávia assom avam duas cabeças risonhas, preparando-se Flam ínio para receber nos braços, de um a só vez, os dois filhinhos.
- Venham cá, ilustres m arotos! Porque fugiram ontem das aulas? Hoj e recebi queixa do ginásio, nesse sentido, e estou m uito contrariado com esse procedim ento...
Plínio e Agripa ouviram a reprim enda paterna. desapontados, respondendo o m ais velho, com hum ildade:
- Mas, papai, eu não sou culpado. Com o o senhor sabe, o Plínio fugiu dos exercícios, obrigando-m e a sair para procurá-lo.
- Isso é um a vergonha para você, Agripa - exclam ou Flam ínio, paternalm ente-, sua idade não perm ite m ais a participação nas traquinadas de seu irm ão.
Ia a cena nessa altura, quando Calpúrnia interveio apaziguando: - Tudo está m uito certo, m as terem os de resolver o assunto em casa, porque a hora não com porta discussões entre pai e filhos.
Am bos os m eninos foram beij ar a m ão m aterna, com o se lhe agradecessem a intervenção carinhosa, e, daí a m inutos, despediam -se as duas fam ílias, com a prom essa de Flam ínio, no sentido de acom panhar os am igos até Óstia, nas proxim idades da foz do Tibre, no dia do em barque.
Decorridas aquelas setenta e duas horas de azáfam a e preparativos, vam os encontrar nossas personagens num a galera confortável e elegante, nas águas de Óstia, onde ainda não existiam as construções do porto, ali edificadas m ais tarde por Cláudio.
Plínio e Agripa aj udavam a acom odar a pequena enferm a no interior, instigados pelos pais, que os preparavam desde cedo para as delicadezas da vida social, enquanto Calpúrnia e Lívia instruíam um a serva, a respeito da instalação do pequenino Marcus. Públio e Flam ínio trocavam im pressões, a distância, ouvindo-se a recom endação do segundo, que elucidava o am igo confidencialm ente:
- Sabes que os súditos conquistados pelo Im pério m uitas vezes nos olham com invej a e despeito, tornando-se preciso nunca desm erecerm os da nossa posição de patrícios.
Algum as regiões da Palestina, segundo os m eus próprios conhecim entos, estão infestadas de m alfeitores e é necessário estej as precavido contra eles, principalm ente na tua m archa em dem anda de Jerusalém . Leva contigo, tão logo aportes com a fam ília, o m aior núm ero de escravos para a tua garantia e dos teus, e, na hipótese de ataques, não hesites em castigar com severidade e aspereza.
Públio recebeu a exortação, atenciosam ente, e, daí a m inutos, m ovim entavam -se am bos no interior da nave, onde o viaj ante interpelava o chefe dos serviços:
- Então, Áulus, tudo está pronto?
- Sim , Ilustríssim o. Apenas aguardam os as vossas ordens para a partida. Quanto aos nossos trabalhos, podeis ficar tranquilo, porque escolhi a dedo os m elhores cartagineses para o serviço de rem os.
Com efeito, com eçaram ali as últim as despedidas. As duas senhoras abraçavam -se com lágrim as enternecidas e afetuosas, enquanto se expressavam prom essas de perene lem brança e votos aos deuses pela tranquilidade geral.
Derradeiros abraços com ovidos e largava a galera suntuosa, onde a bandeira da águia rom ana trem ulava orgulhosa, ao sopro suave das virações m arinhas. Os ventos e os deuses eram favoráveis, porque, em breve, ao esforço hercúleo dos escravos no ritm o dos rem os poderosos, os viaj antes contem plavam de longe a fita esverdeada da costa italiana, com o se avançassem na m assa liquida para as vastidões insondáveis do Infinito.
Transcorria a viagem com o m áxim o de serenidade e calm a. Públio Lentulus, não obstante a beleza da paisagem na travessia do
Mediterrâneo e a novidade dos aspectos exteriores, considerada a m onotonia dos seus afazeres na vida rom ana, j unto dos num erosos processos do Estado, tinha o coração cheio de som bras. Debalde a esposa procurara aproxim ar-se do seu espírito irritado, buscando tanger assuntos delicados de fam ília, com o fim de conhecer e suavizar-lhe os íntim os dissabores. Experim entava ele a im pressão de que cam inhava para em oções decisivas do desenrolar de sua existência. Conhecera parte da Ásia, porque, na prim eira m ocidade, havia servido um ano na adm inistração de Esm irna, de m odo a integrar-se, da m elhor m aneira, no m ecanism o dos trabalhos do Estado, m as não conhecia Jerusalém , onde o esperavam com o legado do Im perador, para a solução de vários problem as adm inistrativos de que fôra incum bido j unto ao governo da Palestina.
Com o encontraria o tio Sálvio, m ais m oço que seu pai? Há m uitos anos não o via pessoalm ente; entretanto, era pouco m ais velho do que ele próprio. E aquela Fúlvia, leviana e caprichosa, que lhe desposara o tio no torvelinho dos seus num erosos escândalos sociais, tornando-se quase indesej ável no seio da fam ília? Recordava m ais íntim os porm enores do passado, abstendo-se, todavia, de com unicar à m ulher as m ais penosas expectativas. Refletindo, igualm ente, na situação da esposa e dos dois filhinhos, encarava com ansiedade os prim eiros obstáculos à sua perm anência na Judeia, na qualidade de patrícios, m as tam bém com o estrangeiros, considerando que as am izades que os aguardavam eram problem áticas.
Entre as suas cism as e as preces da esposa, estava a term inar a travessia do Mediterrâneo, quando cham ou a atenção do seu servo de confiança, nestes term os:
- Com ênio, dentro em pouco estarem os às portas de Jerusalém ; m as, antes que isso se verifique, tem os de realizar pequena m archa, depois do ponto de desem barque, reclam ando-se m uito cuidado de m inha parte, com relação ao transporte da fam ília. Esperam -se alguns representantes da adm inistração da Judeia, m as certam ente estarem os acom panhados dos teus cuidados, pois vam os aportar a região para m im desconhecida e estrangeira. Reúne todos os servos sob as tuas ordens, de m odo a garantirm os absoluta segurança pelo cam inho.
- Senhor, contai com o nosso desvelo e dedicação - respondeu o servidor, entre respeitoso e com ovido.
No dia im ediato Públio Lentulus e com itiva desem barcavam em pequeno porto da Palestina, sem incidentes dignos de m enção.
Esperavam -no, além do legado do Procurador, alguns lictores e num erosos soldados pretorianos, com andados por Sulpício Tarquinius, m unido de todos os aprestos e elem entos exigidos para um a viagem tranquila e confortável, pelas estradas de Jerusalém .
Após o necessário repouso, a caravana pôs-se a cam inho, parecendo antes expedição m ilitar que transporte de sim ples fam ília, através das estações periódicas de descanso.
As arm aduras dos cavalos, os capacetes rom anos reluzindo ao Sol, os traj es extravagantes, palanquins enfeitados, anim ais de tração e os carros pesados da bagagem davam idéia de expedição triunfal, em bora azafam ada e silenciosa.
Ia a caravana a bom term o, quando, nas proxim idades de Jerusalém , ocorre um im previsto. Um corpo sibilante cortou o ar fino e claro, aloj ando-se no palanquim do senador, ouvindo-se ao m esm o tem po um grito estridente e lam entoso. Minúscula pedra ferira levem ente o rosto de Lívia, determ inando grande alarm e na m assa enorm e de servos e cavaleiros. Entre os carros e os anim ais que pararam assustados, num erosos escravos rodeiam os senhores, buscando, com precipitação, inteirar-se do fato. Sulpício Tarquinius, num golpe de vista, dá largas ao galope da m ontada, buscando prender um j ovem que se afastava, receoso, das m argens do cam inho. E, culpado ou não, foi um rapaz dos seus dezoito anos apresentado aos viaj antes, para a punição necessária.
Públio Lentulus recordou a recom endação de Flam ínio, m om entos antes da partida, e, sopitando os seus m elhores sentim entos de tolerância e generosidade, resolveu prestigiar a sua posição e autoridade aos olhos de quantos houvessem de lhe seguir a perm anência naquele país estrangeiro.
Ordenou providências im ediatas aos lictores que o acom panhavam , e ali m esm o, ante as claridades m ordentes do Sol a pino e sob o olhar espantado de algum as dezenas de escravos e centuriões num erosos, determ inou que vergastassem sem com iseração o rapaz, pela sua leviandade.
A cena era desagradável e dolorosa.
Todos os servos acom panhavam , com pungidos, o estalar do chicote no dorso sem inu daquele hom em ainda m oço, que gem ia, em soluços dolorosos, sob o látego despótico e cruel. Ninguém ousou com as ordens im piedosas, até que Lívia, não conseguindo contem plar por m ais tem po a rudeza do espetáculo, pediu ao esposo, em voz súplice:
- Basta, Públio, porque os direitos da nossa condição não traduzem deveres de im piedade...
O senador considerou, então, a sua severidade excessiva e rigorosa, ordenou a suspensão do castigo doloroso, m as, a um a pergunta de Sulpício, quanto ao novo destino do infeliz, falou em tom rude e irritado:
- Para as galeras!...
Os presentes estrem eceram , porque as galeras significavam a m orte ou a escravidão para sem pre.
O desventurado am parava-se, exânim e, nas m ãos dos centuriões que o rodeavam , porém , ao ouvir as três palavras da sentença condenatória, deitou ao seu orgulhoso j uiz um olhar de ódio suprem o e de suprem o desprezo No âm ago de sua alm a coriscavam relâm pagos de vingança e de cólera, m as a caravana pôs-se novam ente a cam inho, entre o ruído dos carros pesados e o tilintar das arm aduras, ao m ovim ento dos cavalos fogosos e irrequietos.
A chegada a Jerusalém ocorreu sem outros fatos dignos de nota. A novidade dos aspectos e a diversidade das criaturas é que im pressionaram os viaj antes no seu prim eiro contato com a cidade, cuj a fisionom ia, com raras m udanças, no decurso de todos os séculos, foi sem pre a m esm a, triste e desolada, preludiando as paisagens ressequidas do deserto.
Pilatos e sua m ulher encontravam -se nas solenidades de recepção ao senador, que ia, com o legado de Tibério, j unto da adm inistração da província, encarnando o princípio da lei e da autoridade.
Sálvio Lentulus e a esposa, Fúlvia Prócula, receberam os parentes com aparato e prodigalidade. Hom enagens num erosas foram prestadas a Públio Lentulus e sua m ulher, salientando-se que Lívia, fosse em razão das advertências de Calpúrnia, ou em vista de sua acuidade psicológica, reconheceu que naquele am biente não palpitavam os corações generosos e sinceros dos seus am igos de Rom a, experim entando, no íntim o, dolorosa sensação de am argura e ansiedade. Verificara, com satisfação, que a sua pequena Flávia havia m elhorado, não obstante a viagem exaustiva, m as, ao m esm o tem po, torturava-se percebendo que Fúlvia não possuía am plitude de coração para acolhê-los sem pre com carinho e bondade. Notara que, ao lhe apresentar a filhinha enferm a, a patrícia vaidosa fizera um m ovim ento instintivo de recuo, afastando sua pequena Aurélia, filha única do casal, do contato com a fam ília, apresentando pretextos inaceitáveis. Bastou um dia de perm anência naquele lar estranho, para que a pobre senhora com preendesse a extensão das angústias que a esperavam ali, calculando os sacrifícios que a situação exigiria do seu coração sensível e carinhoso.
E não era som ente o quadro fam iliar, nos seus detalhes im pressionantes, que lhe torturava a m ente trabalhada de expectativas pungentes. Deparando-se-lhe Pôncio Pilatos, no próprio m om ento de sua chegada, sentira, no íntim o, que havia encontrado um rude e poderoso inim igo.
Forças ignoradas do m undo intuitivo falavam ao seu coração de m ulher, com o se vozes do plano invisível lhe preparassem o espírito para as provas aspérrim as dos dias vindouros. Sim , porque a m ulher, sím bolo do santuário do lar e da fam ília, na sua espiritualidade, pode, m uitas vezes, num a sim ples reflexão, devassar m istérios insondáveis dos caracteres e das alm as, na tela espessa e som bria das reencarnações sucessivas e dolorosas.
Públio Lentulus, ao contrário, não experim entou as m esm as em oções da com panheira. A diversidade do am biente m odificara-lhe um tanto as disposições íntim as, sentindo-se m oralm ente confortado em face da tarefa que lhe com petia desem penhar no cenário novo de suas atividades de hom em de Estado.
No segundo dia de perm anência na cidade, tão logo regressara da prim eira visita às instalações da Torre Antônia, onde se aquartelavam contingentes das forças rom anas, observando o m ovim ento dos casuístas e dos doutores, no Tem plo fam oso de Jerusalém , foi procurado por um hom em hum ilde e relativam ente m oço, que apresentava com o credencial, tão som ente, o coração aflito e carinhoso de pai.
Obedecendo m ais aos im perativos de ordem política que ao sentim ento de generosidade do coração, o senador quebrou as etiquetas do m om ento, recebendo-o no seu gabinete privado, disposto a ouvi-lo.
Um j udeu, pouco m ais velho que ele próprio, em atitude de respeitosa hum ildade e expressando-se dificilm ente, de m odo a fazer-se com preendido, falou-lhe nestes term os:
- Ilustríssim o senador, sou André, filho de Gioras, operário m odesto e paupérrim o, não obstante num erosos m em bros de m inha fam ília terem atribuições im portantes no Tem plo e no exercício da Lei. Ouso vir até vós, reclam ando o m eu filho Saul, preso, há três dias, por vossa ordem e rem etido diretam ente para o cativeiro Perpétuo das galeras... Peço-vos clem ência e caridade na reparação dessa sentença de terríveis efeitos para a estabilidade da m inha casa pobre... Saul é o m eu prim ogênito e nele deponho toda a m inha esperança paternal... Reconhecendo-lhe a inexperiência da vida, não venho inocentá-lo da culpa, m as apelar para a vossa clem ência e m agnanim idade, em face da sua ignorância de rapaz, j urando-vos, pela Lei, encam inhá-lo doravante pela estrada do dever austeram ente cum prido...
Públio recordou a necessidade de fazer sentir a autoridade da sua posição, revidando com o orgulho característico das suas resoluções:
- Com o ousa discutir m inhas determ inações, quando guardo a consciência de haver praticado a j ustiça? Não posso m odificar m inhas deliberações, estranhando que um j udeu ponha em dúvida a ordem e a palavra de um senador do Im pério, form ulando reclam ações desta natureza.
- Mas, senhor, eu sou pai...
- Se o és, porque fizeste de teu filho um vagabundo e um inútil? - Não posso com preender os m otivos que levaram m eu pobre Saul a com prom eter-se dessa m aneira, m as, j uro-vos que ele é o braço-forte dos m eus trabalhos de cada dia.
- Não m e cabe exam inar as razões do teu sentim ento, porque a m inha palavra esta dada irrevogavelm ente.
André de Gioras m irou Públio Lentulus de alto a baixo, ferido na sua em otividade de pai e no seu sentim ento de hom em , esfuziando de dor e de cólera reprim ida. Seus olhos úm idos traíam íntim a angústia, em face daquela recusa form al e inapelável, m as, desprezando todos os convencionalism os hum anos, falou com orgulhosa firm eza:
- Senador, eu desci da m inha dignidade para im plorar vossa com paixão, m as aceito a vossa recusa ignom iniosa!...
Acabais de com prar, com a dureza do coração, um inim igo eterno e im placável!... Com os vossos poderes e prerrogativas, podeis elim inar-m e para sem pre, sej a reduzindo-m e ao cativeiro ou condenando-m e a perecer de m orte infam e; m as eu prefiro afrontar a vossa soberbia orgulhosa!... Plantastes, agora, um a árvore de espinhos, cuj o fruto, um dia, am argará sem rem édio o vosso coração duro e insensível, porque a m inha vingança pode tardar, m as, com o a vossa alm a inflexível e fria, ela será tam bém indefectível e tenebrosa!...
O j udeu não esperou a resposta do seu interlocutor, am argam ente em ocionado com a veem ência daquelas palavras, saindo do recinto a passo firm e e de rosto erguido, com o se houvesse obtido os m elhores resultados da sua curta e decisiva entrevista.
Num m isto de orgulho e ansiedade, Públio Lentulus experim entou, naquele instante, as m ais variadas gam as de sentim ento a dom inar-lhe o coração Desej ou determ inar a prisão im ediata daquele hom em que lhe atirara em rosto as m ais duras verdades, experim entando, sim ultaneam ente, o desej o de cham á-lo a si, prom etendo-lhe o regresso do filho querido, a quem protegeria com o seu prestígio de hom em de Estado; m as a voz se lhe sum iu na garganta, naquele com plexo de em oções que de novo lhe roubara a paz e a serenidade. Dolorosa opressão paralisou-lhe as cordas vocais, enquanto no coração angustiado repercutiam as palavras candentes e am arguradas.
Um a série de reflexões penosas enfileirou-se no seu m undo íntim o, assinalando os m ais fortes conflitos de sentim entos. Tam bém ele não era pai e não procurava reter os filhinhos perto do coração? Aquele hom em possuía as m ais fortes razões para considerá-lo um espírito inj usto e perverso.
Recordou o sonho inexplicável que, relatado a Flam ínio, fôra a causa indireta da sua vinda para a Judeia e considerou as lágrim as de com punção que derram ara, em contato com o turbilhão de lem branças perniciosas da sua existência passada, em face de tantos crim es e desvios.
Retirou-se do gabinete com a solução m ental da questão em foco, ordenando que trouxessem o j ovem Saul à sua presença, com a urgência que o caso requeria, a fim de recam biá-lo à casa paterna, e m odificando, dessa form a, as penosas im pressões que havia causado ao pobre André. Suas ordens foram expedidas sem delongas; todavia, esperava-o desagradável surpresa, com as inform ações dos funcionários a quem com petia a providência de sem elhantes serviços.
O j ovem Saul desaparecera do cárcere, fazendo crer num a fuga desesperada e im prevista. Os inform es foram transm itidos à autoridade superior, sem que Públio Lentulus viesse a saber que os m aus servidores do Estado negociavam , m uitas vezes, os prisioneiros j ovens com os am biciosos m ercadores de escravos, que operavam nos centros m ais populosos da capital do m undo.
Inform ado de que o prisioneiro se evadira, o senador sentiu a consciência aliviada das acusações que lhe pesavam no intim o. Afinal, pensou, tratava-se de caso de som enos im portância, porquanto o rapaz, distante do cárcere, procuraria im ediatam ente a casa paterna; e, consolidando sua tranquilidade, expediu ordens aos dirigentes do serviço de segurança, recom endando se abstivessem de qualquer perseguição ao foragido, a quem se levaria, oportunam ente, o indulto da lei.
O cam inho de Saul, todavia, fôra bem outro.
Em quase todas as províncias rom anas funcionavam terríveis agrupam entos de m alfeitores, que, vivendo à som bra da m áquina do Estado, haviam -se transform ado em m ercadores de consciências.
O m oço j udeu, na sua j uventude prom issora e sadia, fora vítim a dessas criaturas desalm adas. Vendido clandestinam ente a poderosos escravocratas de Rom a, em com panhia de m uitos outros, foi em barcado no antigo porto de Jope, com destino à Capital do Im pério.
Antecipando-nos na cronologia de nossas narrativas, vam os encontrá-lo, daí a m eses, num grande tablado, perto do Fórum , onde se alinhavam , em penosa prom iscuidade, hom ens, m ulheres e crianças, quase todos em m íseras condições de nudez, tendo cada qual um pequeno cartaz pendurado ao pescoço. Olhos chispando sentim entos de vingança, lá se encontrava Saul, sem inu, um barrete de lã branca a cobrir-lhe a cabeça e com os pés descalços levem ente untado de gesso.
Junto daquela m assa de criaturas desventuradas, passeava um hom em de ar ignóbil e repulsivo, que exclam ava em voz gritante para a m ultidão de curiosos que o rodeava:
- Cidadãos, tende a bondade de apreciar... Com o sabeis, não tenho pressa em dispor da m ercadoria, porque não devo a ninguém , m as aqui estou para servir aos ilustres rom anos!...
E, detendo-se no exam e desse ou daquele infeliz, prosseguia na sua arenga grosseira e insultuosa:
- Vede este m ancebo!... É um exem plar soberbo de saúde, frugalidade e docilidade. Obedece ao prim eiro sinal. Atentai bem para o aprum o da sua carne firm e. Doença algum a terá força sobre o seu organism o.
Exam inai este hom em ! Sabe falar o grego corretam ente e é bem feito da cabeça aos pés!...
Nesses pruridos de negocista, continuou a propaganda individual, em face da m ultidão de com pradores que o assediava, até que tocou a vez do j ovem Saul, que deixava transparecer, no aspecto m iserável, os seus ím petos de cólera e sentim entos tigrinos:
- Atentai bem neste m ancebo! Acaba de chegar da Judeia, com o o m ais belo exem plar de sobriedade e saúde, de obediência e de força. É um a das m ais ricas am ostras deste m eu lote de hoj e. Reparai na sua m ocidade, ilustres rom anos!... Dar-vo-lo-ei ao preço reduzido de cinco m il sestércios!...
O j ovem escravo contem plou o m ercador com a alm a esfervilhante de ódio e alim entando, intim am ente, as m ais ferozes prom essas de vingança. Seu sem blante j udeu im pressionou a m ultidão que estacionava na praça, aquela m anhã, porque um intenso m ovim ento de curiosidade lhe cercou a figura interessante e originalíssim a.
Um hom em destacou-se da m ultidão, procurando o m ercador, a quem se dirigiu à m eia voz, nestes term os:
- Flacus, m eu senhor necessita de um rapaz elegante e forte para as bigas dos filhos. Esse m e interessa. Não o darias ao preço de quatro m il sestércios?
- Vá lá - m urm urou o outro em tom de negócio -, m eu interesse é bem servir à ilustre clientela.
O com prador era Valério Brutus, capataz dos serviços com uns da casa de Flam ínio Severus, que o incum bira de adquirir um escravo novo e de boa aparência, destinado ao serviço das bigas dos filhos, nos grandes dias das festas rom anas.
Foi assim que, im buído de sentim entos ignóbeis e deploráveis, Saul, o filho de André, foi introduzido, pelas forças do destino, j unto de Plínio e de Agripa, na residência da fam ília Severus, no coração de Rom a, ao preço m iserável de quatro m il sestércios.