Há Dois Mil Anos

Chico Xavier · Capítulo 5 de 21

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Há Dois Mil Anos

IV Na Galileia

IV Na G alileia

 

No dia im ediato a esses acontecim entos, às prim eiras horas da m anhã, Públio Lentulus foi procurado, na intim idade do seu gabinete particular, por Fúlvia, que se lhe dirigiu, crim inosam ente, nestes term os:

- Senador, o ascendente de nossas ligações fam iliares obriga-m e a procurar-vos para tratar de um assunto desagradável e doloroso, m as, nas m inhas experiências de m ulher, cum pre-m e aconselhá-lo a resguardar sua esposa da insídia dos próprios am igos, pois que, ainda ontem , tive oportunidade de surpreendê-la em íntim o colóquio com o governador...

O interpelado estranhou aquela atitude insólita, grosseira, contrária a todos os seus m étodos de hom em de bem .

Repeliu dignam ente a investida, encarecendo a nobreza m oral de sua esposa, passando Fúlvia a relatar-lhe, com os m ais exaltados floreios de sua im aginação doentia, a cena da véspera, nas suas m ínim as m inudências.

O senador ficou pensativo, m as sentiu-se com a precisa coragem m oral para repelir a insinuação caluniosa.

- Pois bem - disse ela, term inando a denúncia -, m uito longe levais a vossa confiança e boa fé. Um hom em nunca perde por ouvir os conselhos da experiência fem inina. A prova de que Lívia cam inha na estrada larga da prevaricação tê-la-eis m uito breve, porquanto ela há-de preferir a partida im ediata para Nazaré, onde o governador buscará encontrá-la.

E, dizendo-o, retirou-se apressadam ente, deixando o senador algo desalentado e com pungido, pensando nos corações m esquinhos que o rodeavam , porque, no tribunal da consciência, não se sentia disposto a aceitar idéia que viesse conspurcar a valorosa nobreza de sua m ulher.

Im enso véu de som bras cobriu-lhe o espírito sensível e afetuoso. Sentiu que, em Jerusalém , conspiravam contra ele todas as forças tenebrosas do seu destino, experim entando vasto deserto no coração.

Ali, não encontraria a palavra prudente e generosa de um am igo com o Flam ínio, com quem pudesse desabafar as suas profundas m ágoas.

Absorto nessas m editações angustiosas, não viu que as pétalas das horas rodopiavam incessantes, nos torvelinhos do tem po. Só m uito depois percebeu o vozerio de um dos serviçais de confiança, vindo a saber que Sulpício Tarquinius lhe solicitava o obséquio de um a entrevista particular, pedido a que atendeu com o m áxim o de atenção.

Adm itido ao interior do gabinete, o lictor referiu-se, sem preâm bulos, aos fins da visita, explicando com desem baraço:

- Senador, honrado com a vossa confiança no caso de vossa transferência para um a estação de repouso, venho sugerir-vos o arrendam ento de rica propriedade pertencente a um nosso com patrício, nos arredores de Cafarnaum , encantadora cidade da Galiléia, situada no cam inho de Dam asco. É verdade que j á escolhestes Nazaré, m as, ao longo da planície de Esdrelon, as casas confortáveis são m uito raras, acrescendo que seríeis obrigado a enorm es dispêndios em serviços de rem odelação e benfeitorias. Em Cafarnaum , porém , o caso é diferente. Tenho ali um am igo, Caio Gratus, decidido a arrendar por tem po ir determ inado a sua esplêndida vila, que é um a herdade provida de todo o conforto, com pom ares preciosos, num am biente de absoluto sossego.

O senador ouvia o preposto de Pilatos com o se o espírito lhe pairasse noutra parte; m as, com o se tivesse a atenção subitam ente despertada, exclam ou, na atitude de quem argum enta consigo m esm o:

- De Jerusalém a Nazaré, tem os setenta m ilhas... Onde fica Cafarnaum ?...

- Muito distante de Nazaré - obtem perou o lictor, com segunda intenção.

- Está bem , Sulpício - respondeu Públio, com ares de quem tom ou um a resolução íntim a -, estou m uito agradecido pela tua gentileza, que não esquecerei de recom pensar em tem po oportuno. Aceito a tua sugestão que reputo sensata, m esm o porque, de fato, não m e pode interessar a aquisição definitiva de qualquer im óvel na Galileia, atenta a necessidade de regressar a Rom a, dentro em breve. Ficas autorizado a concluir o negócio, porquanto m e louvo nas tuas inform ações, descansando, confiadam ente, no teu conhecim ento do assunto.

Secreta satisfação transpareceu nos olhos de Sulpício, que se despediu com fingido reconhecim ento.

Públio Lentulus descansou novam ente os cotovelos na m esa de trabalho, subm erso em profundas cism as.

Aquela sugestão de Sulpício chegava no instante psicológico de suas angustiosas cogitações, porque, em face dessa nova providência, conseguiria instalar a fam ília longe de qualquer influência da casa do procurador da Judeia, salvando, assim , a sua reputação dos salpicos ignom iniosos da m aledicência.

A denúncia de Fúlvia, todavia, desdobrava sucessivas preocupações no seu íntim o. Fosse pelo inopinado da calúnia, ou pelo espírito de perversidade com que a m esm a fôra urdida, seu pensam ento m ergulhou em ansiosas expectativas.

À noite daquele m esm o dia, após o j antar, vam os encontrá-lo a sós com Lívia, no terraço da residência do pretor, que, por sua vez, se ausentara de casa por algum as horas, em com panhia dos seus fam iliares, para atender a im perativos de certas pragm áticas.

Notando-lhe no rosto os sinais evidentes de profunda contrariedade, rom peu a esposa com a encantadora intim idade do seu coração fem inino:

- Querido, pesa-m e ver-te assim , dobrado ao j ugo de tam anhos desgostos, quando esta longa viagem deveria restituir-nos a tranquilidade necessária ao desenvolvim ento dos teus encargos... Ouso pedir que apresses a nossa m udança de Jerusalém para um am biente m ais calm o, onde nos sintam os m ais a sós, fora deste círculo de criaturas cuj os hábitos não são os nossos, e cuj os sentim entos desconhecem os. Quando partirem os para Nazaré?...

- Para Nazaré? - repetiu o senador, com voz irritada e som bria, com o se o tocasse o espírito venenoso do ciúm e, lem brando, involuntariam ente, as acusações infundadas de Fúlvia.

- Sim - prosseguiu Lívia, súplice e carinhosa -, pois não foram essas as providências ontem aventadas?

- É verdade, querida! - exclam ou Públio, j á pesaroso, voltando a si dos m aus pensam entos que havia abrigado por um instante - m as resolvi depois instalarm o-nos em Cafarnaum , contrariando as últim as decisões...

E tom ando a m ão da com panheira, com o se buscasse um bálsam o para a alm a ferida, sussurrou-lhe de m anso:

- Lívia, és tudo que m e resta neste m undo!... Nossos filhos são flores da tua alm a, que os deuses nos deram para m inha alegria!... Perdoa-m e, querida... Há quanto tem po tenho vivido absorto e taciturno, esquecendo o teu coração sensível e carinhoso! Parece-m e estar despertando agora de um sono m uito doloroso e m uito profundo, m as despertando com a alm a receosa e oprim ida. Andam -m e, no íntim o, am argurados vaticínios... Tem o perder-te, quando quisera encerrar-te no peito, guardando-te no coração eternam ente... Perdoa-m e...

Enquanto ela o contem plava, surpresa, seus lábios sequiosos lhe cobriam as m ãos de beij os ardentes. E não foram apenas os ósculos afetuosos que brotaram nesse transbordam ento de carinhos. Um a lágrim a lhe gotej ou dos olhos cansados, m isturando-se às flores da sua afeição.

- Que é isso, Públio? Choras? - exclam ou Lívia, enternecida e angustiada.

- Sim ! Sinto os gênios do m al cercando-m e o coração e a m ente. Meu íntim o está povoado de visões som brias, prenunciando o fim da nossa felicidade; m as eu sou um hom em e sou forte... Querida, não m e negues a tua m ão para atravessarm os j untos o cam inho da vida, porque, contigo, vencerei o próprio im possível!...

Ela estrem eceu em face dessas observações, que lhe não eram fam iliares.

Num relance, retrocedeu à noite anterior, considerando o atrevim ento do governador, que dignam ente repelira, experim entando, ao lado da aflição pelo com panheiro, soberana tranquilidade de consciência e, tom ando ligeiram ente as m ãos do esposo, levou-o a um canto do terraço, onde se postou à frente de um a harpa harm oniosa e antiga, cantando baixinho, com o se a sua voz, naquela noite, fosse o gorj eio de um a cotovia apunhalada:

"Alm a gêm ea da m inhalm a, Flor de luz da m inha vida, Sublim e estrela caída Das belezas da am plidão!... Quando eu errava no m undo Triste e só, no m eu cam inho, Chegaste, devagarinho, E encheste-m e o coração.

Vinhas na bênção dos deuses, Na divina claridade,

Tecer-m e a felicidade, Em sorrisos de esplendor!... És m eu tesouro infinito, Juro-te eterna aliança,

Porque eu sou tua esperança, Com o és todo o m eu am or!"

Tratava-se de um a com posição dele, na m ocidade, tão ao gosto da j uventude rom ana, dedicada a ela própria, e que o seu talento m usical guardava sem pre, para circunstâncias especiais do seu sentim ento.

Naquele instante, porém , sua voz tinha tonalidades diferentes, com o se houvera encerrado na garganta um a toutinegra divina, exilada dos prados brilhantes do Paraíso.

Na últim a nota, tocada de tristeza e angústia indefiníveis, Públio tom ou-a brandam ente de encontro ao peito, forte e resoluto, com o se quisesse reter para sem pre, no coração, a sua j óia de inim aginável pureza.

Agora, era Lívia a chorar copiosam ente nos braços do com panheiro, e este a beij á-la nos transportes de sua alm a leal e, por vezes, im pulsiva.

Depois daquele arroubo em otivo, Públio sentiu-se desanuviado e satisfeito.

- Porque não regressarm os a Rom a quanto antes? - perguntou Lívia, com o se o seu espírito estivesse clarificado por luzes proféticas, com relação aos dias futuros. - Junto dos filhinhos retom aríam os nossas obrigações habituais, cientes de que a luta e o sofrim ento estão em todos os lugares e de que toda alegria significa, neste m undo, um a bênção dos deuses!..

O senador ponderou a proposta da com panheira, estabelecendo a análise de toda a situação no seu íntim o, obtem perando, por fim :

- Tua observação é j usta e providencial, m inha querida, m as, que diriam os nossos am igos quando soubessem que, depois de tantos sacrifícios com a viagem , havíam os resolvido a perm anência de apenas um a sem ana em região tão distante? E a nossa doentinha? Seu organism o não tem reagido de m odo eficaz, em contato com o novo clim a? Estej am os confiantes e tranquilos. Apressarei a partida para Cafarnaum e, em breves dias, estarem os em novo am biente, segundo os nossos desej os.

Assim aconteceu, efetivam ente.

Reagindo às vibrações perniciosas do m eio, Públio Lentulus providenciou a solução de todos os problem as atinentes à m udança, fazendo ouvidos m oucos às indiretas de Fúlvia, enquanto Lívia, escudando-se na superioridade de sua alm a, buscava insular-se dentro do pequeno m undo de am or dos dois filhinhos, fugindo à presença do governador, que não desistira dos seus assédios, e j unto de quem a figura nobre de Cláudia sabia despertar em todos a m ais sincera sim patia.

Duas servas foram adm itidas ao serviço do casal, na perspectiva de sua transferência para Cafarnaum ; não que fossem indispensáveis ao desdobram ento das atividades dom ésticas, em face dos servos num erosos trazidos de Rom a; contudo, o senador exam inara a utilidade dessa providência, considerando que ele e a fam ília viriam a necessitar de um contato m ais direto com os costum es e dialetos do povo, reconhecida a circunstância de que am bas conheciam a Galileia.

Ana e Sêm ele, recom endadas por am igos do pretor, foram recebidas ao serviço de Lívia, que as acolheu com bondade e sim patia.

Trinta dias se passaram nos preparativos da proj etada viagem . Sulpício Tarquinius, estim ulado pelas vantagens dos próprios interesses m ateriais, não perdeu ensanchas de captar a plena confiança do senador, organizando a propriedade com m inúcias de atenção e gentileza, provocando o contentam ento e o elogio de todos.

Nas vésperas da partida, Públio Lentulus com pareceu ao gabinete de Pilatos, para o agradecim ento das despedidas.

Depois de saudá-lo cordialm ente, exclam ou o governador, com forçada j ovialidade:

- É pena, caro am igo, que as circunstâncias o conduzam para Cafarnaum , quando esperava ter a satisfação de retê-lo nas vizinhanças de nossa casa, em Nazaré.

Mas, enquanto perm anecer na Galileia, em vez de m inhas habituais visitas a Tiberíades, procurarei o norte para nos avistarm os.

Públio m anifestou-lhe sua gratidão e reconhecim ento e, quando se preparava para sair, o procurador da Judeia continuou, em tom afetuoso e conselheiral:

- Senador, não só com o responsável pela situação dos patrícios na província, com o tam bém na qualidade de am igo sincero, não posso deixá-lo partir à m ercê do acaso, tão som ente na com panhia de escravos e servos de confiança. Acabo de designar Sulpício, hom em que m e m erece inteira confiança, para dirigir os serviços de segurança que vos são devidos. Além dele, m ais um lictor e alguns centuriões partirão para Cafarnaum , onde perm anecerão às suas ordens.

Públio agradeceu cortesm ente, sentindo-se confortado com o oferecim ento, em bora a pessoa do governador lhe causasse pouca sim patia íntim a.

Afinal, term inados os aprestos de viagem , a com pacta caravana se pôs em m ovim ento, atravessando os territórios de Judá e as m ontanhas verdes da Sam aria, em dem anda da sua estação de destino.

Alguns dias foram gastos através das estradas que contornam m uitas vezes as águas leves e lím pidas do Jordão.

Prestes a chegar a Cafarnaum , à distância de m eio quilôm etro de cam inho, entre árvores frondosas, j unto ao lago de Genesaré, um a herdade im ponente aguardava as nossas personagens para a sua estação de repouso.

Sulpício Tarquinius desvelara-se nas m ais íntim as m inudências, no que dizia com o bom gosto da época.

A propriedade estava situada em pequena elevação de terreno, rodeada de árvores frutíferas dos clim as frios, pois, há dois m il anos, a Galileia, hoj e transform ada em poeirento deserto, era um paraíso de verdura. Nas suas paisagens m aravilhosas, desabrochavam flores de todos os clim as. Seu lago im enso, form ado pelas águas cristalinas do rio sagrado do Cristianism o, era talvez a m ais piscosa bacia em todo o m undo, descansando as suas vagas m ansas e preguiçosas ao pé dos arbustos ricos de seiva, cuj as raízes se tocavam do perfum e agreste dos eloendros e das flores silvestres. Nuvens de aves cariciosas cobriam , em bandos com pactos, aquelas águas feitas de um prodigioso azul celeste, hoj e encarceradas entre rochedos adustos e ardentes.

Ao norte, as em inências nevosas do Herm on figuravam -se em linhas alegres e brancas, divisando-se ao ocidente as alevantadas planícies da Gaulanítida e da Pereia, envolvidas de sol, form ando, j untas, um grande socalco que se alonga de Cesareia de Filipe para o sul.

Um a vegetação m aravilhosa e única, operando a em anação incessante do ar m ais puro, tem perava o calor da região, onde o lago se localiza, m uito abaixo do nível do Mediterrâneo.

Públio e sua m ulher sentiram um a onda de vida nova, que seus pulm ões aspiravam a longos haustos.

Entretanto, o m esm o não acontecia à pequenina Flávia, cuj o estado geral piorava ao extrem o, contra todas as previsões.

Agravaram -se as feridas que lhe cobriam o corpo m agrinho e a pobre criança não conseguia m ais arredar pé do leito, onde se conservava em profunda prostração.

Acentuava-se, desse m odo, a angústia paterna que, em balde, recorreu a todos os m eios para m elhorar as condições da doentinha.

Um m ês havia transcorrido em Cafarnaum , onde, m ais em contato com os dialetos do povo, j á não lhes era desconhecida a fam a das obras e das pregações de Jesus.

Vezes inúm eras, pensou Públio em dirigir-se ao taum aturgo, a fim de solicitar a sua intervenção a favor da filhinha, atendendo a um apelo secreto do coração. Reconhecia no íntim o, porém , que sem elhante atitude representava hum ilhação para a sua posição política e social, aos olhos dos plebeus e vassalos do Im pério, exam inando as consequências que poderiam advir de tal procedim ento.

Não obstante essas ponderações, perm itia que num erosos servos de sua casa assistissem , aos sábados, às pregações do profeta de Nazaré, inclusive Ana, que se tom ara de respeitosa veneração por aquele a quem os hum ildes cham avam Mestre.

Dele teciam os escravos as m ais encantadoras histórias, nas quais o senador nada via, além dos arrebatam entos instintivos da alm a popular, se bem não deixasse de o surpreender a opinião lisonj eira de um hom em com o Sulpício.

Um a tarde, porém , os padecim entos da pequenina haviam atingido o auge. Além das feridas que, de m uitos anos, se haviam m ultiplicado no corpinho gracioso, outras úlceras surgiram nas regiões da epiderm e, antes violáceas, transform ando-lhe os órgãos delicados num a pústula viva.

Públio e Lívia, intim am ente consternados, aguardavam um fim próxim o.

Nesse dia, após o j antar m uito sim ples, Sulpício dem orou-se até m ais tarde, a pretexto de confortar o senador com a sua presença.

É assim que vam os encontrá-los am bos no terraço espaçoso, onde Públio lhe fala nestes term os:

- Meu am igo, que m e diz desses rum ores aqui propalados acerca do profeta de Nazaré? Habituado a não dar ouvidos à palavra ignorante do povo, gostaria de ouvir novam ente as suas im pressões sobre esse hom em extraordinário.

- Ah! sim - diz Sulpício, com o quem se esforça por se lem brar de algum a coisa -, intrigado com aquela cena que há tem pos presenciei e que tive ocasião de relatar na residência do governador, tenho procurado seguir as atividades desse hom em , na m edida das m inhas possibilidades de tem po.

Alguns com patrícios nossos o têm na conta de visionário, opinião que com partilho no que se refere às suas prédicas, cheias de parábolas incom preensíveis, m as não no que respeita às suas obras, que nos tocam o coração.

O povo de Cafarnaum anda m aravilhado com os seus m ilagres e posso assegurar-vos que, em torno dele, j á se form ou um a com unidade de discípulos dedicados, que se dispõem a segui-lo por toda parte.

- Mas, afinal, que ensina ele às m ultidões? - perguntou Públio, interessado.

- Prega alguns princípios que ferem as nossas m ais antigas tradições, com o, por exem plo, a doutrina do am or aos próprios inim igos e a fraternidade absoluta entre todos os hom ens. Exorta os ouvintes a buscarem o reino de Deus e a sua j ustiça, m as não se trata de Júpiter, o senhor de nossas divindades; ao contrário, fala de um Pai m isericordioso e com passivo, que nos segue do Olim po e para quem estão patentes as nossas idéias m ais secretas. De outras vezes, o profeta de Nazaré se expressa acerca desse reino do céu com apólogos interessantes e incom preensíveis, nos quais há reis e príncipes criados pela sua im aginação sonhadora, que nunca poderiam ter existido.

O pior, todavia - rem atou Sulpício, em prestando grave entono às palavras -, é que esse hom em singular, com esses princípios de um novo reino, avulta na m entalidade popular com o um príncipe surgido para reivindicar prerrogativas e direitos dos j udeus, dos quais, talvez, queira assum ir a direção algum dia...

- Que providência adotam as autoridades da Galileia, no exam e dessas idéias revolucionárias? - indagou o senador, com m aior interesse

- Aparecem j á os prim eiros indícios de reação, por parte dos elem entos m ais ligados a Ântipas. Há alguns dias, quando passei por Tiberíades, notei que se form avam algum as correntes de opinião, no sentido de levar o assunto à consideração das altas autoridades.

- Bem se vê - exclam ou o senador - que se trata de sim ples hom em do povo, a quem o fanatism o dos tem plos j udaicos encheu de pruridos de reivindicações inj ustificáveis. Suponho que a autoridade adm inistrativa nada tem a recear de sem elhante pregador, m estre de um a hum ildade e fraternidade incom patíveis com as conquistas contem porâneas. Por outro lado, ao ouvir de tua boca a descrição dos seus feitos, sinto que esse hom em não pode ser criatura tão vulgar, com o vim os supondo.

- Desej aríeis conhecê-lo m ais de perto? - perguntou Sulpício, atencioso.

- De m odo algum - respondeu Públio, alardeando superioridade. - Tal com etim ento de m inha parte viria quebrar a com postura dos deveres que m e com petem com o hom em de Estado, desm oralizando-se m inha autoridade perante o povo. Aliás, considero que os sacerdotes e pregadores da Palestina deveriam fazer estágios de trabalho e de estudo, na sede do governo im perial, a fim de renovar-se esse espírito de profetism o que aqui se observa em toda parte. Em contato com o progresso de Rom a, haveriam de reform ar suas concepções íntim as acerca da vida, da sociedade, da religião e da política.

Enquanto os dois m antêm essa palestra sobre a personalidade e os ensinos do m estre de Nazaré, penetrem os no interior da casa.

No quarto da doentinha, vam os encontrar Lívia e Ana pensando as feridas que cobriam a epiderm e da pequenina enferm a, agora transform adas em um a só úlcera generalizada.

Ana, coração bondoso e m eigo, pouco m ais velha que sua senhora, se havia transform ado em com panheira predileta, no círculo dos seus afazeres dom ésticos. Naquele deserto de corações, era naquela serva, inteligente e afetuosa, que a alm a sensível de Lívia encontrara um oásis para as confidências e lutas de cada dia.

- Ah! senhora - exclam ava a serva, com sincero carinho a lhe transparecer dos olhos e dos gestos -, guardo no coração profunda fé nos m ilagres do Mestre, acreditando m esm o que, se levássem os esta criança para receber a bênção de suas m ãos, sarariam as chagas e ela ressurgiria para o seu am or m aternal... Quem sabe?

- Infelizm ente - respondeu Lívia, com ponderação e tristeza - eu não m e atreveria a lem brar essa providência, consciente de que Públio haveria de recusá-la, dada a nossa posição social; m as, francam ente, desej aria ver esse hom em caridoso e extraordinário de que sem pre m e falas.

- Ainda no últim o sábado, senhora - respondeu a serva, anim ada pelas palavras de sim patia que acabava de ouvir -, o profeta de Nazaré recebeu nos braços num erosas crianças.

Ao sair da barca de Sim ão, nós o esperávam os em m assa, para lhe beber os ensinos consoladores. Precipitam o-nos para ele, ansiosos todos de receber ao m esm o tem po os sagrados eflúvios da sua presença confortadora, m as, nesse dia, m uitas m ães com pareceram à prédica, conduzindo os filhinhos que se confundiam em algazarra ensurdecedora, com o um bando de passarinhos inconscientes. Sim ão e m ais alguns discípulos com eçaram a repreender severam ente os m eninos, a fim de que não perdêssem os o encanto suave e doce das palavras do Mestre. Mas, quando m enos esperávam os, sentou-se Ele na pedra costum eira e exclam ou com indizível ternura: - "Deixai vir a m im os pequeninos, porque o reino do céu lhes pertence." Houve, então, prodigioso silêncio entre os ouvintes de Cafarnaum e os peregrinos que haviam chegado de Corazim e de Magdala, enquanto aqueles petizes trêfegos acorriam ao seu regaço am oroso, beij ando-lhe a túnica com indefinível alegria.

Muitas crianças eram enferm as que as m ães conduziam às pregações do lago, para que se curassem de m azelas antigas, ou de doenças consideradas incuráveis...

- O que m e contas é de um a beleza edificante - exclam ou Lívia, profundam ente em ocionada -; entretanto, possuindo à m ão todos os recursos m ateriais, sinto que não poderei receber os altos benefícios do teu Mestre.

- E é pena, senhora, porque m uitas m ulheres de posição o acom panham na cidade. Não som os apenas os m ais hum ildes que com parecem os às suas predicações, m as num erosas senhoras de destaque em Cafarnaum , esposas de funcionários de Herodes e de publicanos, assistem às lições carinhosas do lago, confundindo-se com os pobres e os escravos.

E o profeta não desdenha a ninguém . A todos convida para o reino de Deus e sua j ustiça. Contrariam ente a todos os enviados do céu, que conhecem os, ele se esquiva dos favorecidos da sorte, para m anter relações com as criaturas m ais infelizes, considerando a todos com o irm ãos m uito am ados do seu coração...

Lívia escutava a palavra da serva com atenção e em bevecim ento. A figura daquele hom em , fam oso e bom , exercia atração singular no seu espírito.

E, enquanto seus grandes olhos expressavam o m aior interesse pelas narrações encantadoras e sim ples da serva leal, não reparavam am bas que a doentinha as acom panhava com aguçada curiosidade, característica das alm as infantis, não obstante a febre alta que lhe devorava o organism o.

Neste com enos, o senador, após as despedidas de Sulpício, busca o apartam ento da pequena enferm a, satisfazendo à sua ansiedade paternal.

Diante dele, calam -se as duas m ulheres, entregando-se tão som ente aos afazeres que as retinham j unto ao leito da pequenina, agora gem endo dolorosam ente.

Públio Lentulus debruçou-se sobre o leito da filha, com os olhos rasos de pranto.

Brincou com as suas m ãozinhas m irradas e feridas, fazendo-lhe festas, com o coração tocado de infinita am argura.

- Filhinha, que queres hoj e para dorm ir m elhor? - perguntou com a voz estrangulada, arrancando lágrim as dos olhos de Lívia.

Com prar-te-ei m uitos brinquedos e m uitas novidades... Dize ao papai o que desej as...

Copioso suor em pastava as excrescências ulcerosas da doentinha, que deixava transparecer angustiosa ansiedade. Notava-se-lhe grande esforço, com o se estivesse realizando o im possível para responder à pergunta paterna.

- Fala, filhinha - m urm urava Públio, sufocado, observando-lhe o desej o de expressar qualquer resposta. Buscarei tudo que quiseres... Mandarei a Rom a um portador, especialm ente para trazer todos os teus brinquedos...

Ao cabo de visível esforço, pôde a pequenina m urm urar com voz cansada e quase im perceptível:

- Papai... eu quero... o profeta... de Nazaré...

O senador baixou os olhos, hum ilhado e confundido em face do im previsto daquela resposta, enquanto Lívia e Ana, com o se fossem tocadas por força invisível e m isteriosa, pelo inopinado da cena, escondiam o rosto inundado de pranto.