Helmintologia
Sobre a questão da invasão da Taenia elliptica e do Ascaris lumbricoides
Sobre a questão da invasão da Taenia
elliptica * e do Ascaris lumbricoides
Com referência às interessantes pesquisas de Grassi sobre o
desenvolvimento de certas tênias, 1 permito-me comunicar a observação abaixo, cuja explicação por meio das opiniões correntes nunca me satisfez, conquanto seja adequada para dar suporte aos dados de Grassi.
Um cão, que chegou bem jovem às minhas mãos, começou a expelir uma quantidade tão impressionante de proglótides de Taenia elliptica que se teve de supor a existência de um número muito grande de solitárias. Para espanto meu, no entanto, não foi possível descobrir - apesar de repetidas e meticulosas buscas -um único
exemplar de 2 Trichodectes no cão. Sendo improvável que tivesse engolido várias vezes Trichodectes (n. b. contendo cisticercóides) de outros, sem contrair esses parasitas, ou que um único piolho de cachorro abrigasse tal quantidade de cisticercos, tive a idéia de procurar por outro hospedeiro intermediário. O único que ainda me parecia poder interessar era a pulga, da qual o cão abrigava numerosos exemplares; contudo, certa quantidade de exames nesse sentido deu resultado completamente negativo. Se eu não tivesse ousado, com base nessa experiência isolada, abalar o conceito vigente sobre o modo de infestação da Taenia elliptica, pelo menos pessoalmente me teria restado a convicção de que o nosso conhecimento a esse respeito é deficiente; por isso fiquei satisfeito ao encontrar nos dados de Grassi a confirmação de minhas dúvidas, e uma explicação dos fatos.
Nesta ocasião, não posso deixar de evocar mais um assunto aparentado, a invasão dos ascarídeos humanos. Há uma série de anos submeti cada caso de ascarídeos múltiplos a um exame rigoroso, com a sólida convicção de que pela via puramente clínica deveria ser possível chegar, pelo menos, perto da solução do problema. Realmente, consegui coligir algumas observações que praticamente tinham o valor de experiências. Todas indicavam que a infecção acontece através de embriões desenvolvidos ao ar livre (dentro e fora da membrana ovular) no local de seu desenvolvimento. Ao mesmo tempo estive bem consciente do alcance de muitas tentativas negativas (sobretudo aquelas realizadas por Leuckart), porém só podia concluir que alguma fonte de erro ainda desconhecida estaria prevalecendo na cultura e na alimentação. Por outro lado, algumas observações de Leuckart (sobre Ascaris mystax, em gatinhos) seguiam justamente no mesmo sentido.
Posso resumir os resultados de minhas observações da seguinte maneira:
Não se pode pensar em nenhum hospedeiro intermediário cujo consumo parcial ou total explicasse todos os casos de Ascaris no ser humano; muito menos isso acontece pela ingestão acidental, relativamente rara, de pequenos insetos, crustáceos, moluscos, vermes etc., cuja probabilidade não é condizente com a propagação dos ascarídeos. (A única possibilidade razoavelmente plausível seria a simples passagem de um hospedeiro intermediário vivendo no lugar do desenvolvimento dos ovos, sendo que, no entanto, o embrião - talvez após a perda das cascas dos ovos enquanto larva jovem - à maneira dos parasitas, fosse introduzido com os estágios prévios livremente desenvolvidos. Contudo, essa opinião, seguida durante algum tempo, tornou-se completamente improvável para mim). A ascaridíase está vinculada, de modo predominante, a certas condições e hábitos locais; ela surge apenas pela manipulação de terra, lodo, areia etc., ou pela ingestão de água impura, enquanto que à própria alimentação só cabe uma importância secundária. Crianças pequenas que nunca saem de casa se prestam melhor para averiguar as condições da invasão; nelas, a infecção começa apenas quando principiam a engatinhar, e é mais freqüente nos anos em que andam com insegurança. Ascarídeos nunca são encontrados em crianças que vivem em condições urbanas, as quais são sempre mantidas em casa e não podem brincar com terra (pressupondo-se água potável insuspeita); na verdade, até a procura por solitárias isoladas geralmente será infrutífera. No adulto, a doença por vezes é suficientemente comum para que se possa excluir a existência de uma imunidade ampla; a ocorrência, contudo, está mais vinculada a certas condições profissionais e higiênicas. O tratamento correto dos excrementos dos hospedeiros de Ascaris (não apenas do homem) e a manutenção da pureza da água potável impedem o surgimento de endemias; sempre é possível provar a violação de uma ou outra dessas exigências (geralmente das duas), quando acontecem adoecimentos múltiplos num determinado lugar. As mesmas condições favorecem a invasão de outros helmintos com desenvolvimento parcial ao ar livre, daí a combinação freqüente com os mesmos.
Naturalmente, ascarídeos isolados podem ocorrer ocasionalmente em todas as circunstâncias; porém são raros em camadas inteiras da população. (O que é demonstrado pela importância secundária das frutas, saladas etc., como portadoras de infecção.) Muito mais ubíquo, nesse caso, é o tricocéfalo, conforme posso concluir pelos inúmeros exames fecais; raramente ele é encontrado em grande quantidade, porém encontra-se de forma isolada em pessoas que não apresentam outros helmintos e nas quais nada, a priori, leva a crer em sua presença (o que, provavelmente, se deve a uma resistência maior e à conseqüente protelação mais fácil de todos os estágios prévios; nas culturas constata-se, com suficiência, que os ovos de Ascaris extinguem-se com facilidade). Por intermédio da simples anamnese das condições e dos hábitos higiênicos, pode-se excluir, com a maior probabilidade, a existência de Ascaris; quase nunca me enganei a esse respeito. Antes isso seria possível no caso contrário, uma vez que, apesar das condições não higiênicas, pode não haver infecção por falta de hospedeiros do verme. Naturalmente, quanto aos ovos, o exame das fezes é da maior importância, pois através dele pode-se determinar com facilidade até mesmo a existência de uma única solitária fêmea adulta, conforme me convenci muitas vezes. A seguir descreverei duas observações que ilustram a vantagem de inspeções e levantamentos locais:
1) Numa família alemã com muitos filhos, os mais jovens desenvolvem regularmente inúmeros ascarídeos (amiúde já antes do término do primeiro ano de vida), os quais reaparecem sempre no decorrer dos primeiros anos, apesar da administração bem-sucedida de medicamentos muito eficazes. Mas raramente, ou nunca, são observados nas crianças mais velhas e nos adultos, embora o alimento seja idêntico para todos. As crianças mais jovens nunca se afastam de casa e, por conseguinte, devem infectar-se no domicílio. Uma observação minuciosa e mais demorada resultou no seguinte. A água potável é insuspeita (poço bem fechado). Os excrementos humanos vão para uma latrina, a partir da qual não há alastramento. As condições da casa, habitada pela família desde a sua construção (ou seja, há uma série de anos), são as seguintes:
As dependências, situadas numa cidade rural do Brasil, compreendem uma venda, a moradia, um galpão e currais, rodeados por pequeno quintal e um jardim (juntos, cerca de 150 m2). O chão da cozinha, que dá para o quintal, é de barro, os cômodos restantes, situados ao rés-do-chão, assoalhados com madeira. A varanda, mais usada pelas crianças, abre-se para o quintal por uma porta que só é fechada em caso de chuva. As crianças permanecem continuamente no quintal, cuja terra, além do mais, sempre é carregada para dentro de casa com os sapatos. Há vários anos abatem-se regularmente nesse quintal (em média uma vez por semana) porcos, cujos intestinos estão abarrotados de ascarídeos, conforme verifiquei repetidamente. Estes, como também seu conteúdo, muitas vezes são jogados em grande quantidade à terra, onde, sendo o nível plano, durante muito tempo permanecem e se espalham aos poucos em função das chuvas fortes. Um exame microscópico de amostras do fundo do rego, que recolhe a água da chuva do quintal, evidenciou vários ovos de Ascaris no início da sulcagem, caracterizados pelo invólucro de albumina bem conservado e tingidos de castanho pela bile; outros ovos com sulcagem avançada e sem invólucro também se assemelhavam às formas que são obtidas em culturas artificiais. (Além disso, foram encontradas numerosas larvas não identificáveis e algumas formas púberes do tipo rabditídio, como também são encontradas provavelmente em terra úmida.) É claro que as crianças tiveram farta oportunidade de se infeccionar com ovos de Ascaris, em parte mesmo no chão dos quartos, e mais especialmente no quintal, enquanto ainda engatinhavam ou tocavam muito o chão com as mãos. Um exame superficial não teria dado nenhum indício nessa família, limpa segundo os conceitos correntes, da razão pela qual essas crianças sofriam mais dos vermes do que as de alguns vizinhos que viviam em condições bem piores e menos asseadas.
2) A esposa de um pedreiro sofre de vários desarranjos digestivos e sintomas nervosos; um exame microscópico das fezes evidencia quantidade colossal de ovos de Ascaris, junto aos de Ancylostoma e de Trichocephalus em quantidades menores, e, além disso, larvas
de 3 Rhabdonema (Anguillula) . O Santonin é mal tolerado e provoca leves sintomas de intoxicação; apesar disso, nem todos os ascarídeos são evacuados, sendo preciso terminar o tratamento
com timol.4 Até o desaparecimento dos ovos das fezes, foram eliminados: cerca de 100 ascarídeos, em parte ainda não púberes (um de cerca de 15, outro de cerca de 50 mm), alguns tricocéfalos e vários ancilóstomos. Apesar disso, a mulher (que continua inacessível a uma instrução higiênica, por causa de opiniões costumeiras no país sobre a geração de vermes etc.) abriga novamente, já após poucos meses, numerosos ascarídeos (cerca de 30). O marido, que de hábito se alimenta em casa, mas que trabalha em vários lugares durante a maior parte do dia, está completamente livre dos mesmos. (Segundo o costume brasileiro, a mulher quase não sai de casa.)
A anamnese e a inspeção das dependências resulta no seguinte:
O terreno, situado numa rua fechada de uma cidadezinha rural, consta de uma casa pequena e de um jardim de cerca de 200 m2, bem cultivado, em grande parte cuidado pela mulher. A água potável, é sem suspeita (poço bem fechado). A latrina comporta um assento, abaixo do qual se introduz palha por uma abertura lateral; quando a mesma está coberta de excrementos, é retirada e espalhada no jardim como adubo. Desse modo, todos os ovos evacuados (os quais nem chegam a sofrer com essa disposição - ao contrário do que ocorre nos verdadeiros escoadouros) chegam a uma área bem restrita, de modo que, passado um ano, para cada m2 de superfície haverá um bom número de ovos, conforme se pode calcular facilmente. Por conseguinte, não deve ter faltado a oportunidade de infecção por ocasião do plantio, da extração e lavagem de vegetais etc.
Em outros casos, é claro que a probabilidade ainda é maior, já que as latrinas são completamente desconhecidas fora das cidades, ou seja, onde todos os arredores das casas (e, de preferência, os mais chegados) servem de depósitos para as fezes; conforme o costume, a água potável tampouco é coberta. Em vez de apresentar maiores detalhes, indico a descrição que fiz das condições correspondentes no meu trabalho sobre ancilostomíase (Volkmann's Sammlung
klinischer Vortr 5 ä ge , n.255, 256 e 265); com as diferenças que resultam do longo tempo de desenvolvimento e da falta de movimentação ativa nos estágios prévios dos ascarídeos, as mesmas condições também são determinantes para a invasão destes vermes, de acordo com minhas experiências; em conseqüência, as minhas observações levam à seguinte conclusão:
A tão citada freqüência maior dos ascarídeos nos trópicos, a qual posso confirmar até certo ponto, não se explica apenas pelas condições climáticas. Contudo, numa temperatura mais elevada, o desenvolvimento dos embriões far-se-á com maior rapidez -circunstância propícia sob alguns aspectos -, mas muitos ovos também se extinguirão por ressecamento. No entanto, o peso maior recai sobre o descaso geral das exigências higiênicas primárias nos países quentes (abastecimento de água potável e esgoto), com as quais sofre, sobretudo, a população carente (colonos, escravos etc.); a mesma freqüência é observada em zonas mais moderadas e frias, nas quais reinam deficiências semelhantes. Com certeza chegar-se-á a uma diminuição rápida dos helmintos com estágios prévios livres, até ao desaparecimento quase total, inclusive nos trópicos, mediante o cumprimento das exigências citadas.
* Trabalho realizado por Adolpho Lutz quando residia em São Paulo, publicado com o título “Zur Frage der Invasion von Taenia elliptica und Ascaris lumbricoides,” em Centralblatt für Bakteriologie und Parasitenkunde [Folha Central de Bacteriologia e Parasitologia] (Jena), ano I, v.2, n. 24, p.713-8, 1887. Na mesma edição do periódico saiu um “pós-escrito” ao artigo de Lutz assinado por Rudolph Leuckart, que reproduzimos em anexo: “Die Uebergangsweise der Ascaris lumbricoides und der Taenia elliptica” (p.718-22). O periódico semestral impresso em Jena, pela editora de Gustav Fischer, tinha como principal responsável o dr. O. Uhlworm, de Kassel, e como editores associados os drs. Friedrich Loeffler, médico do Estado-Maior, em Leipzig, docente de Higiene, em Berlim, e ainda Rudolph Leuckart, grande parasitologista de Leipzig que figura no expediente do jornal como “Conselheiro Áulico”. [N.E.]
1 Centralblatt für Bakteriologie und Parasitenkunde, v.II, 1887. [N.A.] Refere-se provavelmente ao trabalho de Giovanni Battista Grassi (1887), “Entwicklungsyclus der Taenia nana,” publicado em 1887 em Centralblatt fur Bacteriologie und Parasitologie (v.2, p.305-12). [N.E.]
2 Trichodectes canis - espécie de piolho que pode servir como hospedeiro intermediário da tênia Dipylidium caninum, de cães, gatos e outros animais. [N.T.]
3 Santonin - anti-helmíntico extraído do absinto Artemisia absinthium ou derivado do naftaleno. [N.T.]
4 Timol, ácido tímico (isopropilmetanesol - C H O), obtido do óleo 10 14 da planta do gênero Thymus. [N.E.]
5 Coletânea de conferências clínicas de Volkmann. [N.T.]