Helmintologia

Adolpho Lutz · Capítulo 14 de 71

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Helmintologia

O modo de transmissão do Ascaris lumbricoides e da Taenia elliptica

O modo de transmissão do Ascaris

lumbricoides * e da Taenia elliptica

 

Rudolph Leuckart

No artigo precedente, o senhor Dr. Lutz evocou um assunto do maior interesse, tanto do ponto de vista científico, quanto pelo lado prático. Porém, o fato de adicionar a esse artigo um curto pós-escrito e de manifestar minha posição pessoal sobre ele não acontece apenas pela importância da questão, mas sobretudo porque estou envolvido nela em virtude de minhas experiências e comunicações.

Em primeiro lugar, abordarei a questão da transmissão do Ascaris lumbricoides. Creio que ninguém duvidará de que a hipótese de esta se realizar por meio de ovos providos de embriões, portanto do mesmo modo que vigora para os oxiúros e os tricocéfalos, para os quais isto também foi comprovado experimentalmente, seja bem mais evidente do que a conjectura da importação através de um hospedeiro intermediário. Conforme demonstram novamente as observações de nosso autor, não apenas a ocorrência e, muitas vezes, o surgimento maciço de solitárias encontra explicação fácil e natural através de uma suposição deste tipo, como também concorda com ela, pela observação direta, o fato por mim averiguado de que os embriões do Ascaris mystax, espécie que tem vários pontos comuns com a solitária ordinária, ainda possuam exatamente a formação embrionária anterior quando imigram em seu futuro portador (Parasiten, v.II, p.125 e em outras); ou seja, no portador intermediário, se houvesse, não teriam sofrido a menor modificação, o que normalmente não costuma ser o caso. Contudo, as questões helmintológicas só podem ser decididas pela experiência, consoante o nível atual de nossa ciência. A experiência, no entanto, até hoje não confirmou o desenvolvimento direto do Ascaris lumbricoides. Para decidir a questão, a experiência é aplicada reiteradamente em adultos, crianças e animais (compare meus Parasiten, v.II, p.221 ss.), mas sempre com resultado negativo, fato que é tanto mais estranho quanto os resultados fornecidos pela experiência costumam ser concludentes, e que a solitária é, de longe, o mais freqüente de todos os vermes do intestino humano. Nessas circunstâncias, é compreensível que se tenha pensado na possibilidade de outro modo de transmissão. Porém, toda essa procura pelo eventual hospedeiro intermediário da solitária foi em vão, mas apenas isso não poderia determinar nossos conceitos, tanto mais que outras espécies de ascarídeos, até as de mamíferos (focas) e pássaros (aves de rapina), com certeza habitam, no seu estado jovem, um hospedeiro intermediário.

Qualquer pessoa que, na minha obra, ler o trecho indicado acima sobre os parasitas, e que trata do modo de transmissão da solitária, terá a impressão de que só com relutância declarei-me a favor da opinião de que o Ascaris lumbricoides passa para o homem através de um hospedeiro intermediário ainda desconhecido, porém, provavelmente, pertencente aos animais inferiores.

Desde que escrevi o que precede, passaram-se bem uns dez anos, os quais não foram destituídos de valor para que se decantassem as nossas concepções sobre as modalidades da vida parasitária. Confesso que durante esse tempo, minha opinião sobre o modo de transmissão da solitária também se modificou, pelo menos de tal modo que não posso mais atribuir a antiga ênfase comprobatória aos resultados negativos de tantas experiências realizadas (e não só por mim, por outros também). Afinal, é bem possível que os resultados negativos tenham sido determinados por certas circunstâncias colaterais; em outras palavras, que o êxito dependa de certas condições, mesmo que por ora desconhecidas, as quais não foram realizadas por ocasião das experiências anteriores. Pois até hoje ainda não sabemos por que duas formas de animais, normalmente aparentadas, como, por exemplo, a ovelha e a cabra, comportam-se de maneira tão diferente nas experiências de criação do T. coenurus; além do que, em geral, apenas a ovelha jovem, e não a velha, se deixa infeccionar pela Taenia coenurus. Até mesmo a hipótese de que as condições de desenvolvimento de um verme intestinal muitas vezes oscilam, de acordo com as circunstâncias, no mesmo objeto de pesquisa não pode mais ser descartada, depois que acabamos por conhecer algo semelhante, por exemplo, à contaminação com o bacilo do cólera.

Além disso, acrescenta-se a circunstância de que, até agora, foi em vão todo o empenho em encontrar o problemático hospedeiro intermediário da solitária comum. Isso também é válido para a hipótese de Linstow, de que é uma espécie de Julus que a transfere para o homem (Centralblatt f. Bakteriol. und Parasitenk., v.I, 1887, n.2, p.49).

Conforme eu disse, tudo isso me levou de volta à hipótese de um hospedeiro intermediário. De nenhuma forma ocultei isso, e, tanto nas minhas preleções quanto em conversas com colegas com os quais mantenho relações de amizade (entre os quais citarei aqui apenas Grassi), inúmeras vezes pronunciei-me abertamente neste sentido. Por conseguinte, agora são meus também, em substância, os conceitos que Lutz defende no artigo precedente sobre o Ascaris lumbricoides.

Contudo, não acontece o mesmo no que diz respeito à Taenia elliptica, para a qual Lutz advoga, em concordância com Grassi, analogias com a solitária.

Sabe-se que Metnikoff, quando pesquisou há um quarto de século, no meu laboratório, o desenvolvimento do piolho do cachorro, encontrou um parasita no celoma desse animal (comparar com minha obra sobre parasitas, 2a edição, v.I, p.874), no qual reconheci, após exame pormenorizado, com toda certeza, a cisticercóide, forma jovem da Taenia elliptica. Ainda hoje possuo, em preparado bem conservado, um dos animais então encontrados, e coloco-o à disposição de qualquer pessoa que queira examinar o achado ou sua determinação. Aliás, tanto esta última é certa que também foi possível infectar o piolho do cão com embriões da solitária.

Assim sendo, em minha opinião, não pode haver dúvida de que o piolho restitui a esta solitária um hospedeiro intermediário. Naturalmente não se sabe se é o único.

Apesar disso, Lutz presume, assim como Grassi (Centralblatt f. Bakter. u. Parasitenk., v.II, 1887, n.11, p.311), que a T. elliptica possui um desenvolvimento direto. Como não duvida da realidade desta observação, terá de estabelecer um modo de desenvolvimento duplo para a solitária em questão.

Como se sabe, afirma-se com freqüência que as solitárias desenvolvem-se diretamente, ou seja, sem hospedeiro intermediário, a partir de ovos importados. Esta opinião era quase geral antes de Küchenmeister, e mesmo depois foi reiterada muitas vezes (Gerlach, Megnin, entre outros). Contudo, tal suposição só foi fundamen-tada pelas pesquisas de Grassi sobre a Taenia nana.

Essas pesquisas são tão interessantes quanto importantes. Em todo caso, fornecem a prova de que provém diretamente de ovos com embriões a Taenia nana em ratos, pelo menos em ratos brancos de 1 a 3 meses (animais com outras idades são menos apropriados). Grassi qualifica este desenvolvimento de direto, e o compara ao oxiúro. Não creio que, com isso, tenha acertado. É certo que o desenvolvimento da solitária em causa acontece a partir do embrião de seis ganchos no interior do mesmo animal, mas o verme atravessa um estágio de cisticerco, o qual normalmente transcorre no hospedeiro intermediário, mas este estágio não se passa no intestino, o qual, no entanto, acolheu o embrião e, mais tarde, abrigará também a solitária, mas sim no interior da parede intestinal, em condições, portanto, similares às condições de vida dos estados cisticercóticos comuns. O paralelo com o oxiúro, que atravessa todos os seus estágios de desenvolvimento, desde o embrião, sem mudança de habitat, e sem interrupção de sua atividade, parece-me tão pouco concludente quanto qualificar de direto o desenvolvimento. No meu modo de ver, a Taenia nana também tem um estágio intermediário cisticercóide em tudo similar ao que normalmente transcorre em outros animais. A única diferença reside no fato de que, no caso de nossa T. nana, hospedeiro intermediário e portador definitivo são os mesmos. Nessas circunstâncias, o ciclo do desenvolvimento dela apresenta condições semelhantes às das triquinas, nas quais o hospedeiro intermediário e o portador definitivo também estão representados no mesmo indivíduo. Em nada modifica os fatos que na triquina o estado sexual desenvolvido anteceda o estado intermediário no seu portador, ao passo que na T. nana, ele o suceda, ou seja, que, na primeira, a imigração aconteça no estágio larval, mas na outra, durante a vida embrionária. E este fato, não observado até hoje, só prova que nossas experiências sobre o processo da vida parasitária ainda não chegaram a seu termo, apesar da abundância das descobertas que nos trouxeram as últimas décadas.

Aliás, em outro aspecto, o desenvolvimento da Taenia nana, que conhecemos através das belas análises de Grassi, não se encontra tão isolado como parece à primeira vista. O mal-afamado Strongylus equinus, para o qual até agora se reivindicou igualmente o desenvolvimento direto - eu mesmo o fiz evidencia, só para citar aqui um exemplo verificado com toda a certeza, condições inteiramente análogas, já que passa seu estado intermediário, o mesmo que costuma ser vivido em outros animais, no interior de seu portador definitivo, contudo aqui também sob condições e em lugares que seguem, de modo inequívoco, as condições habitualmente oferecidas pelo hospedeiro intermediário.

Por meio de fatos semelhantes aos expostos aqui, processos na aparência muito diversos de certa maneira se tornam correlatos, ajustando-se as diferenças, a menos que sejam pouco compatíveis. Uma combinação destas, sem dúvida, sempre terá valor apenas teórico, referindo-se mais ao modo de concepção do que ao momento real. Por isso, no que diz respeito à Taenia nana, continuará valendo, como antes, a afirmação de Grassi: ela passa todo o seu desenvolvimento, desde o embrião, no interior do mesmo hospedeiro. Permanece em suspenso se daí podemos concluir, sem mais, que os vermes jovens crescem ao lado de seus progenitores. Grassi não diz nada que denote isso, de modo que, por ora, podemos ao menos supor que a Taenia nana, como outro verme intestinal qualquer, até onde conhecemos seu histórico de vida, reproduz-se em seqüência contínua de gerações (sem emigrar) no interior de seu portador.

As observações de Grassi aqui expostas são as mesmas que invoca Lutz, quando reivindica igualmente para a Taenia elliptica um desenvolvimento denominado direto. No entanto, como esta também atravessa indubitavelmente um estágio de cisticerco no Trichodectes, deve-se supor, partindo do ponto de vista de Lutz, que a ela cabe um modo de desenvolvimento duplo, um desenvolvimento com e um sem outro hospedeiro intermediário. Não penso que se possa, sem prova direta, admitir tal comportamento. Em todo caso, não conhecemos nada, por enquanto, que seja, nem de longe, análogo e comparável a isso. Grassi, naturalmente, não parece inclinado a supor tal coisa para a Taenia nana. Considerando a grande concordância que a Taenia nana apresenta com a Taenia murina, e o estágio cisticercóide de ambas com aquele descrito por von Stein para o cisticerco do besouro da farinha, o qual, aliás, representa o estágio jovem ativo da Taenia murina. O próprio Grassi acredita poder admitir “que o Tenebrio molitor tende a se tornar o hospedeiro intermediário da Taenia murina,” e que esta - que representaria, no máximo, uma variedade da Taenia nana, portanto também a própria Taenia nana -evidenciaria, através desse modo duplo de desenvolvimento, a intervenção de um hospedeiro intermediário e o ciclo de desenvolvimento de um verme intestinal, de certa maneira, in statu nascenti.

Se Grassi acertou ou não, deixo em suspenso. Mas, enquanto faltar a prova experimental, será permitido duvidar e nutrir a certeza de que a presente questão será decidida por outro caminho.

De resto, Grassi não hesita em transferir esta hipótese também para nossa Taenia elliptica. Sem negar a relação com o Trichodectes, tenta infectar o cão diretamente, assim como outrora fez Gerlach, alimentando-o com ovos contendo embriões. Em alguns animais assim tratados, Grassi já encontra, após alguns dias, solitárias de 12 mm e mais, porém o número destas é extremamente reduzido em todos os casos, embora os ovos tenham sido importados em quantidade considerável. Em vista destas circunstâncias, não preciso acrescentar que as experiências, por enquanto, não possuem nenhuma força comprobatória. Da mesma forma, não tem nenhum fundamento a suposição de que a Taenia saginata também possa provir diretamente de ovos engolidos. Não há dúvida de que nossa experiência helmin-tológica ainda acusa sensíveis lacunas. Longe de mim subestimar o enorme valor e o alcance que revestem as experiências de Grassi para o entendimento correto do ciclo de vida da Taenia nana, porém nada disso justifica ainda as suposições hipotéticas que contradizem o que até agora reconhecemos como evidente em virtude de outros fatores positivos.

 

* Trabalho de Rudolph Leuckart intitulado “Die Uebergangsweise der Ascaris lumbricoides und der Taenia elliptica,” publicado em Centralblatt für Bakteriologie und Parasitenkunde (Jena), ano I, v.2, n.24, p.718-22, 1887. Trata-se de um “pós-escrito ao artigo precedente,” de Adolpho Lutz, que saiu na mesma edição do periódico com o título “Zur Frage der Invasion von Taenia elliptica und Ascaris lumbricoides” (p.713-8). [N.E.]