Helmintologia
Observações sobre as solitárias do homem conhecidas como Taenia nana e flavopunctata
Observações sobre as solitárias do
homem conhecidas como Taenia nana
e flavopunctata *
À casuística ainda bastante limitada dos cestódeos antigamente conhecidos como Taenia flavopunctata e nana quero, nesta comunicação preliminar, aduzir algumas observações novas, que ao mesmo tempo representam, para meu âmbito de atuação (Brasil), os primeiros casos conhecidos. Já que observações mais amplas podem se fazer esperar, parece-me de melhor alvitre não hesitar por mais tempo com esta publicação. Permito-me, porém, retornar mais tarde a vários pontos da história natural desses cestódeos.
O grupo de solitárias ao qual as duas espécies de que nos ocuparemos pertencem foi por Weinland separado sob o nome de Hymenolepis, tendo recebido recentemente um estudo bastante
minucioso de Raphael Blanchard. 1 Já que contém uma relação da literatura e dos respectivos casos até o ano de 1891, e comunicações mais novas não me são conhecidas, referir-me-ei exclusivamente a essa monografia.
Blanchard assinala apenas quatro casos de Taenia flavopunctata. São eles:
1) O caso de Ezra Palmer 1842. Tratava-se de seis vermes sem
cabeça, cada qual com 20-30 cm de comprimento. Foram
descritos e denominados por Weinland; também Leuckart
examinou fragmentos deles.
2) Caso de Leidy. Fragmentos de três vermes coletados por W.
Pepper que foram evacuados por uma criança de três anos na
Filadélfia, após administração de santonina.
3) Caso de Parona. Quatro vermes com cabeça eliminados por
uma criança de três anos em Varese (Itália), após terem sido
verificados antes seus ovos na defecação.
4) Caso de Grassi. Após ingestão de um vermífugo para
solitárias, uma menina de 12 anos eliminou, além de uma
Taenia solium, dois Hymenolepis de 25-30 cm de comprimento,
dos quais um com cabeça.
Finalmente, deve ser mencionado que um experimento helmintológico de Grassi resultou no desenvolvimento de um grande
número de solitárias aqui afiliadas. 2 A esta breve casuística tenho a acrescentar o seguinte caso:
Em maio de 1893 foi enviada por um médico local, Dr. Faria Rocha, para identificação no Instituto Bacteriológico de São Paulo, cuja direção eu assumira pouco antes, uma Taenia, a qual fora evacuada por uma criança de dois anos, de um português aqui radicado, após a utilização de santonina.
O exemplar conservado em álcool, que havia se tornado bastante friável, revelou ser a cadeia de cabeça e anéis de uma pequena espécie de solitária. A primeira permitia que se reconhecessem, sem dificuldade, quatro grandes ventosas; localizado entre elas, um rostelo pouco desenvolvido, sem coroa de acúleos, era menos conspícuo, podendo contudo ser reconhecido com segurança. O número de anéis alcançava cerca de 960, dos quais alguns chamavam logo a atenção por serem estéreis. Os últimos proglótides, que haviam se destacado como uma pequena cadeia, estavam totalmente repletos de ovos.
Poder-se-ia tratar aqui ou de uma espécie nova ou de uma forma já descrita, porém mais rara. Como tal só a espécie T. flavopunctata de Weinland poderia ser cogitada, como já indicava um exame superficial. Um estudo mais minudente revelou que se tratava indubitavelmente de uma Hymenolepis, a qual, de um modo geral, coincidia bem com o parasito descrito por Weinland. As diferenças em relação às descrições dadas podem ser explicadas pela diferente conservação dos exemplares e pelas condições diversas de exame.
Após termos acomodado a nossa solitária com sucesso entre os parasitos humanos, restou-nos resolver ainda um ponto. Grassi, aliás, ponderando que um parasito tão raramente encontrado no homem não poderia depender exclusivamente deste como seu hospedeiro regular, procurou um parasito idêntico em outros hospedeiros. Achou que uma espécie descrita por Creplin, em 1825, como T. leptocephala, ocorrente em roedores, sobretudo ratos, seria idêntica à T. flavopunctata, tendo que ser, por isso, designada por esse nome. Segundo R. Blanchard esse verme, porém, já teria recebido de Rudolphi, em 1819, o nome de T. diminuta, o qual, por
força da lei de prioridade,3 teria de ser mantido.
Embora os dados de Grassi parecessem absolutamente fidedignos, achei que uma verificação seria indicada. Desejava, sobretudo, verificar se aqui em São Paulo encontrar-se-ia com mais freqüência em ratos um cestódeo semelhante a aquele por mim observado.
De fato, não tardei a descobrir que em São Paulo o Mus decumanus muitas vezes abriga uma solitária que concorda perfeitamente, por um lado, com as descrições de H. diminuta (T. leptocephala), por outro lado, com os exemplares provenientes do homem, fazendo-se abstração de modificações ocasionadas pela conservação. Junto-me, portanto, a Grassi, quando considera os ratos os hospedeiros comuns de H. flavopunctata.
No material obtido destes animais tive a oportunidade de prosseguir com o estudo do verme, também em estado fresco. Os resultados destarte obtidos serão discutidos futuramente.
Enquanto ainda estava ocupado com este assunto, descobri, em um exame microscópico de fezes, ovos de solitária, que logo suspeitei pertencerem a Taenia nana. Uma comparação com as descrições de que disponho tornaram isso ainda mais provável, especialmente porque os sintomas observados no portador também o corroboravam. Tratava-se de uma menina de 2½ anos, de pais estrangeiros, mas criada em São Paulo, que um ano antes, por causa de sintomas de uma afecção intestinal, havia sido tratada por período mais longo, apresentando inclusive variados sintomas nervosos. Em especial manifestavam-se várias vezes acessos febris irregulares ao lado de outros sintomas como os que costumam aparecer no período da dentição; contudo, não pareciam ter conexão com ele. (Algumas vezes também lombrigas foram eliminadas.) Num desses acessos febris sem motivos, vi a paciente e examinei suas dejeções. Além de numerosos cistos de flagelados e ovos de Trichocephalus, encontravam-se os ovos da solitária em número bastante reduzido. Foi então iniciado um tratamento com Extractum aethereum Filicis maris, logo que sobreveio um intervalo na febre. Embora tivesse mandado procurar especialmente por Taenia nana, nenhum fragmento seu pôde ser encontrado; em contrapartida pôde-se excluir com segurança qualquer espécie maior de solitária. Já que o Extractum filicis aqui no país é normalmente pouco eficaz, mandei vir uma amostra de Carlo Erba, de Milão. Com esta foi feita uma segunda tentativa. Antes as fezes foram novamente examinadas: os ovos de Hymenolepis eram tão escassos que só puderam ser verificados pelo método de sedimentação. Após a primeira dose tomada, provavelmente algo reduzida (0,3 Extr. fili), seguiu-se uma defecação que continha cinco cadeias de uma pequena Taenia; outras duas doses iguais com duas horas de intervalo não trouxeram nada à luz do dia. Embora nenhures se encontrasse uma cabeça, mas antes o pescoço inarticulado aparentava sempre ter sido rompido próximo à extremidade cefálica, pude verificar com segurança tratar-se de Taenia nana. O número dos anéis alcançava em média 190, no máximo duzentos; os ovos, de forma oval e tamanho algo variável, apresentavam nítidas papilas nos pólos ou cutícula interna; eles concordavam com os evacuados.
Também a Taenia nana foi declarada por Grassi como idêntica a uma Hymenolepis do rato e do camundongo, H. murina Dujardin. A respeito desta espécie, ele comprovou que passa também seu estado cisticercóide na mucosa intestinal do hospedeiro definitivo. Logicamente, a infestação seria provocada também no homem pela deglutição de ovos, que devem provir, pelo menos primariamente, de um outro homem ou animal infectado, enquanto mais tarde o hospedeiro pode se infestar com os ovos de suas próprias solitárias. Sendo a identidade das tênias humana e dos ratos factual, então o homem poderia infestar-se com os ovos desta última; sendo porém a T. nana uma espécie independente adaptada ao homem e apenas
aparentada a 4 H. murina , ter-se-ia então que admitir também nesta um desenvolvimento sem troca de hospedeiro. A intervenção de um hospedeiro intermediário da classe dos insetos, o que vale para H. diminuta e outras espécies, não explicaria, de fato, a infestação por milhares de exemplares freqüentemente observada, mesmo pressupondo-se uma multiplicação dos cisticercóides por brotamento.
Sabidamente, só na Itália a Hymenolepis nana foi observada com mais freqüência; além disso, foi encontrada no Egito uma vez em 1851 por seu descobridor Bilharz, e em 1885 por Walter Innes. Ademais, ovos a ela pertencentes foram reiteradas vezes encontrados por Ransome nas fezes de uma menina de nove anos em Nottingham.
Em Belgrado, em 1885, o Dr. Holez fez expelir por cinco vezes, e a cada vez cinqüenta exemplares, de uma menina de sete anos. Além disso, o verme foi observado por Spooner em 1872 na Filadélfia em um jovem homem, enquanto Wernicke encontrou em Buenos Aires (1890?) 30-40 exemplares dele na autópsia de um marítimo argentino. Na Sicília, segundo Grassi e Calandruccio, o verme é bastante freqüente. Também na própria Itália ele foi encontrado
reiteradas vezes. 5
Posto que a emigração da Itália para a América do Sul é sabidamente bem considerável, pode-se supor que o parasito tenha sido introduzido na Argentina e no Brasil por meio dela. Porém, é possível que se encontrasse amiúde em roedores, e que estes constituíssem a fonte de infestação para as pessoas. Por isso
procurei esse verme em ratazanas,6 realmente o encontrando após várias tentativas em vão.
Com vistas ao estudo da H. diminuta, provi-me várias vezes de ratos de uma mesma localidade, os quais quase sempre continham os mesmos parasitos. Porém, como eles muitas vezes ainda não se haviam desenvolvido até a formação de ovos maduros, como também na maioria das vezes apenas animais mais jovens entravam na armadilha, vi-me obrigado a manter alguns ratos vivos por período mais longo, e, de tempos em tempos examinar os excrementos à procura de ovos. Um deles foi encontrado morto na gaiola após várias semanas de cativeiro, tendo sido usado também para um experimento bacteriológico. Na autópsia, o estômago apresentou-se preenchido com uma massa que tinha nitidamente um caráter fecal. No exame microscópico, encontrou-se aí forte adensamento de ovos de H. diminuta, permeado por ovos algo mais raros, os quais coincidiam com os de T. nana, o que comprovava claramente estar-se aqui diante de um caso de íleo. No intestino delgado encontraram-se dois exemplares adultos de H. diminuta e um grande número de pequenas solitárias que se assemelhavam inteiramente à H. nana, além de um macho de Strongylus, provavelmente indescrito. No fígado, encontravam-se numerosos ovos de Trichosoma, que nos ratos daqui constitui um achado constante. Não tendo sido observadas outras lesões, acredito que se deva atribuir a morte do animal à helmintíase, devendo-se explicar o íleo através da H. diminuta.
Até o presente, não me foi possível achar uma diferença entre a espécie menor de Hymenolepis do homem e do rato, de modo que tenho, também nisso, de concordar com Grassi. Com o achado de um novo caso de H. murina na espécie humana, pude estender a comparação também aos escólex.
Desta vez tratava-se de uma menina de quatro anos, igualmente nascida em São Paulo de pais estrangeiros, sofrendo havia pelo menos dois anos de constantes diarréias e acessos febris intermitentes. Nem uma dieta cuidadosamente escolhida, nem um tratamento na Europa produziram qualquer melhora. Havia, como no primeiro caso, sintomas de um apetite perverso em que, por exemplo, a cal das paredes era comida, enquanto sintomas nervosos eram pouco manifestos. A alimentação também não sofrera na medida esperável no caso de avanço da doença, o que provavelmente pode ser atribuído aos bons cuidados despendidos. A semelhança dos sintomas com os do caso supracitado levou os pais a uma consulta. Nas evacuações inteiramente fluidas encontrei ovos bastante numerosos com a forma dos de H. nana. Foi administrado em emulsão 4,0 Extr. Filicis maris aether. de Carlo Erba. Seguiram-se a isso duas evacuações que trouxeram à luz do dia quantidade enorme de pequenas tênias. Destas isolei 850, e contei muito além de 2 mil, mas por motivos alheios à minha vontade não pude levar a contagem a cabo. À maioria das cadeias das solitárias faltava a cabeça; apenas em cerca de 10 por cento ela foi encontrada. Esta já é facilmente reconhecível macroscopicamente por sua considerável espessura em relação ao fino pescoço. O exame microscópico revelou que a cabeça freqüentemente estava quase despegada, de maneira a admitir-se que às vezes ela só havia se separado após a evacuação. Mui freqüentemente encontravam-se também pequenas cadeias constituídas somente de anéis mais maduros.
Enquanto nas tênias dos ratos, mortas lentamente, o rostro na maioria das vezes estava distendido, nos exemplares eliminados por humanos encontrei-o sempre retraído. Por aquecimento à temperatura do sangue não consegui provocar nestes últimos nenhum sinal de vida.
Com este segundo caso torna-se provável que, observando condições patológicas semelhantes, ainda se localizem aqui mais casos de T. nana. Não posso, porém, considerá-la como um parasito comum, já que em cerca de quinhentos exames fecais feitos por causa de sintomas de helmintíase ou afecções intestinais encontrei somente uma vez um ovo semelhante de solitária.
Sobre o decurso clínico subseqüente dos casos de Taenia nana tenho o seguinte a acrescentar:
A segunda criança, que em 22 de março eliminou cerca de 2 mil vermes, foi submetida em 10 de abril de 1894 a novo tratamento com 2,5 g do mesmo extrato. Desta vez foram expelidas apenas 25 cadeias, das quais a metade apresentava uma cabeça.
A pequena paciente pode ser agora considerada como praticamente curada, já que todos os incômodos desapareceram. Enquanto antes, apesar da mais cuidadosa dieta, a defecação era sempre diarréica, ela tornou-se sólida embora a criança agora coma de tudo.
Não tão sem dificuldades decorreu o primeiro caso. Ainda que após os dois primeiros tratamentos, dos quais o último trouxe à luz apenas seis cadeias, tivesse ocorrido uma nítida melhora depois que as seqüelas do próprio tratamento foram superadas, não se seguiu uma cura definitiva. No começo de maio deste ano, os velhos sintomas reapareceram: dores abdominais, diarréia, sono agitado, semblante de sofrimento. Foi recomeçado um novo tratamento, administrando-se de uma só vez 3 g do extrato de Erba. O resultado foi a eliminação de cerca de cem cadeias, das quais 10-20 com cabeça, além de duas fêmeas de Trichocephalus. Hoje, duas semanas mais tarde, os sintomas, embora algo atenuados, ainda não desapareceram.
Devo assinalar que em dois casos de Taenia saginata que haviam resistido, algumas vezes, a 4-5 tratamentos, o mesmo extrato comprovou-se de excelente eficácia, já que em ambos a cabeça foi expulsa. (Um dos casos referia-se à mãe da primeira paciente.)
Vemos, portanto, que, mesmo quando se usa um bom preparado, o verme é freqüentemente evacuado sem a cabeça. Também os anéis mais maduros comumente se destacaram da cadeia propriamente dita, formando um ou mais fragmentos. Esta solitária menor comporta-se, portanto, do mesmo modo que as grandes tênias. Por isso, torna-se mais estranho que os autores, sem exceção, nos dêem a impressão de que em todos os seus casos o verme tenha sempre sido eliminado com a cabeça. Aliás, nos meus casos obviamente não só todas as cadeias foram evacuadas, como também, mesmo quando a cabeça não foi encontrada ligada à cadeia, o êxito foi em geral radical, já que, por exemplo no segundo caso, apenas cerca de 1 por cento dos vermes se regenerara. O paradoxo de que no primeiro caso, através do segundo tratamento com o mesmo preparado, apenas seis, e no terceiro tratamento, por outro lado, cem cadeias tenham sido evacuadas, explica-se pela reinfestação que se dá muito facilmente, por motivos que serão discutidos mais tarde. Por isso seguia-se também ao segundo tratamento um longo período em que todos os sintomas cessavam. Daí ser recomendável em todos os casos desta espécie repetir o tratamento tantas vezes quanto necessário, até que nenhuma cadeia seja mais eliminada, parecendo um intervalo de duas semanas o mais adequado. Somente em fundo negro, por exemplo, em uma tigela fotográfica, todos os vermes podem ser rápida e seguramente detectados; em um recipiente branco isso é quase impossível. Deve-se atentar bastante a isto no controle dos resultados, o qual deve ser levado a cabo, se possível, pelo próprio médico.
* Trabalho realizado em São Paulo e publicado em 1894 com o título “Beobachtungen über die als Taenia nana und flavopunctata bekannten Bandwürmer des Menschen von dr. Adolph Lutz in St. Paulo (Brasilien),” em CentralBlatt für Bakteriologie und Parasitenkunde, v.16, n.2, p.61-7. Foi objeto de resenha, (“Taenia nana und flavopunctata (abstract of Lutz, 1894),” publicada em Journal of the Royal Microscopical Society, London, 2s., v.14, n.6, Dec. 1894, p.687. [N.E.]
1 Raphael Blanchard, Historie zoologique et médicale des Féniades du genre Hymenolepis Weinland. v.4. Paris (Société d’éditions scientifiques, R. Antoine Dubois), 1891. [N.A.]
2 Contudo, em apenas uma de duas pessoas de experimentação. [N.A.]
3 Demais sinônimos são T. varesina, E. parona e T. mínima Grassi. [N.A.]
4 Essa suspeita foi levantada por Moniez, e R. Blanchard a ele se associa. Os motivos que este último apresenta para tanto não são de modo algum convincentes, como demonstrarei mais tarde. [N.A.]
5 Para mais pormenores ver R. Blanchard, do qual também foram extraídos estes dados. [N.A.]
6 Rattus norvegicus. [N.T.]