Helmintologia
Prefácios/Prefaces
Prefácio/Preface
Adolpho Lutz, helmintologista
Como médico e naturalista, Adolpho Lutz interessava-se por tudo à sua volta que dissesse respeito à biologia e patologia, e, naturalmente, interessava-se muito pelos helmintos e pelas helmintíases, tanto humanas como de animais.
Entre 1885 e 1901, suas publicações referem-se, sobretudo, à ancilostomíase, à ascaríase e às teníases, além de alguns parasitos de animais domésticos.
A partir de 1917 e até 1934, preocupou-se principalmente com Schistosomaansoni e a esquistossomíase, sem que deixasse de publicar artigos e notas sobre os mais diversos assuntos e sobre várias outras espécies de helmintos parasitos do homem ou dos animais.
Em relação à ancilostomíase, publicou artigos sobre temas específicos e um estudo muito completo, caracterizado pela minúcia e precisão com que descreve todos os aspectos do parasito e da doença (1887-1889).
Convém lembrar que, até meados do século XIX, a relação entre os ancilostomídeos e a anemia dos pacientes era assunto polêmico, só superado quando se demonstrou que o tratamento anti-helmíntico podia curar a anemia, pois se encontravam pacientes parasitados e sem anemia (ver adiante), bem como casos de anemia sem parasitos.
Lutz não só fazia uma revisão completa da literatura, comentando as contribuições de cada autor, como descrevia detalhadamente cada etapa evolutiva dos helmintos, desde a formação das células germinativas e sua fecundação, depois as etapas do ovo até a infecção de novos hospedeiros.
Os vermes adultos foram apresentados com grande riqueza de detalhes. Lutz também explicou a ação patológica, o quadro clínico, o diagnóstico e tratamento, a epidemiologia e as formas de controle.
Tudo com a maior precisão, até mesmo nas ilustrações que acompanhavam suas publicações, para o que contribuíam suas observações pessoais, as autópsias e os experimentos que fazia, e com os quais inovava ou comprovava o que outros autores haviam dito.
Nas autópsias, pôde verificar como os ancilostomídeos se fixavam à mucosa intestinal, a lesavam e se nutriam de sangue. Chegou a medir a espoliação sanguínea devida a cada verme e, pela contagem dos ovos eliminados com as fezes, calculou a carga helmíntica dos pacientes.
Até hoje, denomina-se “método de Lutz” a técnica de exame fecal baseada na diluição e sedimentação de uma amostra para pesquisa de ovos de helmintos. A maneira de quantificar a expulsão de ovos foi assim por ele demonstrada.
A leitura dos artigos ora republicados, muitos inéditos no Brasil, mostra o valor atual das informações neles contidas.
Entretanto, alguns fatos eram desconhecidos, na época, e passaram despercebidos a Lutz, como o aparecimento da anemia ancilostomótica só após o esgotamento das reservas hepáticas de ferro do paciente (ao fim de alguns meses) e o fato de depender o seu nível da relação entre a ingestão de ferro e proteínas na dieta e a espoliação parasitária, em indivíduos geralmente mal nutridos.
Desconhecia-se, também, que as larvas dos ancilostomídeos penetravam por via cutânea. Lutz descreve a infecção como se ela ocorresse apenas por via oral, ao se beber água contaminada, ou através das mãos sujas levadas à boca, sobretudo pelas crianças, com barro de onde havia poluição fecal.
As medidas preventivas que Lutz recomendava eram nunca defecar no chão, mas sim em latrinas, e só beber água filtrada, fervida ou que tivesse sedimentado por largo tempo.
No caso da esquistossomíase, a transmissão percutânea já era conhecida e Lutz descreveu-a muito bem, a partir de experiências com animais de laboratório.
Ele refere que a carga parasitária é adquirida em contato com as águas superficiais dos focos endêmicos, e aumenta com a freqüência desse contato, ou com a extensão da superfície corpórea exposta (sobretudo no banho e natação). Também indica as horas do dia de maior risco, visto que as cercárias começam a ser eliminadas algum tempo depois de clarear o dia (o que coincide com as horas mais quentes do dia).
As medidas preventivas devem, pois, levar em consideração esses fatos, bem como promover as campanhas educativas e os programas sanitários que impeçam a poluição fecal do solo e das águas.
Além da boa formação médica que recebera na Suíça, dos estágios em laboratórios da França, da Alemanha e da Inglaterra, Lutz exerceu a clínica durante seis anos em Limeira e em seus escritos mostra uma preocupação com o quadro clínico das doenças, analisando detalhadamente cada sintoma, para um diagnóstico diferencial com outras entidades nosológicas. Mas enfatiza a importância dos exames laboratoriais para a confirmação do diagnóstico das helmintíases intestinais, mediante o exame parasitológico das fezes.
A distribuição geográfica das endemias também o preocupava.
Inicialmente, registrou como áreas endêmicas da esquistossomíase os estados do Nordeste, depois a Bahia (onde Pirajá da Silva descobre a doença em 1908), fazendo-as depender da presença de Biomphalaria glabrata (então denominada Planorbis olivaceus Spix) como hospedeiro intermediário. E comprovou experimentalmente (1917) o desenvolvimento das formas larvárias do Schistosoma mansoni, desde miracídio até a eliminação das cercárias, nessa espécie de molusco de água doce.
O extenso trabalho publicado em 1918 foi muito abrangente, expondo desde os antecedentes históricos até as publicações científicas daquele ano.
Lutz relatou com riqueza de detalhes e desenhos ilustrativos a morfologia do Schistosoma mansoni, em todas as fases evolutivas, distin-guindo-se das de S. haematobium. Também foi exaustivo ao descrever o processo da infecção dos moluscos e a evolução através dos hospedeiros invertebrados e vertebrados, que comprovou experimentalmente.
Nesse trabalho expôs, ainda com a mesma minúcia, a patogenia da esquistossomíase, os quadros clínicos, as complicações eventuais etc.
Quanto à anatomia patológica, baseou-se no que observara na autópsia de casos humanos e nas autópsias de animais, que infetara no laboratório e sacrificara com intervalos de tempo diferentes. Mas não deixou de comparar seus dados com os encontrados na literatura médica, inclusive os referentes ao S. japonicum.
No trabalho publicado em 1919, trata até mesmo de prognóstico, terapêutica e profilaxia da esquistossomíase.
Mais tarde, durante estudos de campo em Minas Gerais (1933), confirmou que a área endêmica estendia-se para o sul, e que outro molusco, B. straminea (então chamado Planorbis centimetralis) podia ser responsável pela transmissão.
Tentou em vão infectar B. tenagophila (= P. tenagophilus) e outros moluscos de água doce.
Em relação à ascaridíase, de que se ocupou desde 1888, e cujo estudo já era bastante completo, sua preocupação consistiu em divulgar entre os clínicos aquilo que se sabia.
Para isso, fez uso de sua experiência clínica, tendo analisado um caso de perfuração intestinal autopsiado logo após a morte do paciente, ocorrida em uma fazenda onde os escravos estavam fortemente parasitados.
Analisou, então, os movimentos desenvolvidos pelos Ascaris, suas migrações eventuais, as complicações e os quadros clínicos resultantes.
Com o mesmo propósito, reviu a patologia da estrongiloidíase, da tricocefalíase, da oxiuríase e das teníases.
Os tratamentos anti-helmínticos disponíveis na época (depois substituídos pelas drogas modernas) foram por ele experimentados e avaliados, devendo-se a Lutz a introdução do timol no tratamento das teníases, ainda em 1888.
Não há como deixar de admirar a riqueza das informações reunidas por este cientista no campo da helmintologia, e por ele publicadas em revistas nacionais ou internacionais, tanto mais que os recursos técnicos para a investigação, naqueles tempos, eram ainda muito limitados.
Lutz faleceu em 1940.
As técnicas inovadoras para a investigação científica, como a microscopia eletrônica, a microscopia eletrônica de varredura, a bioquímica e a biologia molecular só aparecem na década de 1970 do século XX, ou posteriormente.
Os instrumentos de trabalho mais eficientes empregados por Adolpho Lutz eram sua mente extraordinária e criativa - a serviço de extrema curiosidade, forte interesse pelos fenômenos naturais e pelas questões médicas, para as quais sempre procurou soluções práticas -, e sua tremenda capacidade de trabalho.
Sem dúvida, trata-se de uma das maiores figuras da ciência brasileira e um modelo de pesquisador para as novas gerações de médicos e biólogos. Recomendamos, por isso, a leitura de suas publicações.
Luís Rey
Fundação Oswaldo Cruz/Instituto Oswaldo Cruz
Departamento de Medicina Tropical