Helmintologia
Capítulo 1907
Observação de uma cutia
infeccionada com * Echinococcus
O cisticerco da Taenia echinococcus não é inteiramente desconhecido na patologia humana de São Paulo, mas os indivíduos doentes que quase sempre mostravam a localização no fígado eram todos de raça italiana, tendo vivido no Rio da Prata ou na Itália, e a infecção pode ser atribuída a este fato, visto não ter sido notificado o parasita em pessoas que nunca saíram de São Paulo.
Quanto aos animais, a Taenia echinococcus, aliás muito pequena e difícil de perceber, nunca foi encontrada em cães; também faltam observações certas para provar a existência do cisticerco, tão grande e característico, entre os animais domésticos, onde todavia se observa o Cisticercus tenuicollis, que pode ser confundido com acefalccystos.
Por isso não deixei de ser bastante surpreendido quando tive ocasião de constatar a presença desse parasita numa das regiões mais afastadas deste estado e em circunstâncias bastante singulares. Recebi para exame uma parte das vísceras de uma cotia (Dasyprocta agutí) que tinha sido caçada em Jacutinga, perto de Bauru. Observou-se, tanto nos pulmões, como no fígado e no baço, grande aglomeração de pequenas vesículas hialinas, no interior das quais se percebiam numerosos pontos esbranquiçados.
O exame microscópico destes últimos mostrou claramente tratar-se de vesículas secundárias ou terciárias, cheias de pequenas cabeças de tênias, com os caracteres dos encontrados nas vesículas de Echinococcus polymorphus. A menos que pense tratar-se de algum parasita aliado, mas ainda desconhecido, cuja tênia podia viver nas espécies indígenas do gênero Canis, era forçoso concluir que nesta região existem cães domésticos infeccionados, o que indicava outra vez a presença de animais domésticos portadores de quistos de Echinococcus e podendo infeccionar os cães, aos quais se deixava comer os órgãos infeccionados. O hospedador principal entre os animais domésticos e o mais responsável pela existência de focos endêmicos da moléstia é, em toda parte, o carneiro, e com efeito tive mais tarde ocasião de saber que nessa região se fazia bastante criação de carneiros. Quanto à cotia, tinha sido morta bastante perto de uma casa onde havia cães, que podem facilmente ter infeccionado o terreno vizinho.
Se até hoje o Echinococcus não tem feito muitas vítimas entre nós, este fato explica-se facilmente pelo pouco desenvolvimento da criação de carneiros. Entretanto, a observação referida indica que o elemento infeccionante já existe entre nós e merece a atenção das autoridades e dos criadores.
Quanto à ocorrência do Echinococcus numa cotia, não deixa de ser interessante por ser talvez o primeiro caso observado. Todavia, não tem nada de extraordinário porque esse parasita acomoda-se perfeitamente em muitas espécies de mamíferos de várias ordens e tem sido encontrado às vezes em animais muito pequenos, como o esquilo europeu.
As preparações macro e microscópicas completamente evidentes foram apresentadas numa das sessões da Sociedade Científica de São Paulo.
* Trabalho concluído no Instituto Bacteriológico de São Paulo, em julho de 1907, e publicado em agosto do mesmo ano na Revista da Sociedade Scientífica de São Paulo, ano 2, n.8, p.113-4. A sede da Sociedade ficava na Avenida Brig. Luiz Antônio, 12. [N.E.]