Helmintologia

Adolpho Lutz · Capítulo 51 de 71

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Helmintologia

Sobre a ocorrência da Fasciola hepatica no Estado do Rio de Janeiro

Sobre a ocorrência da Fasciola

hepatica * no Estado do Rio de Janeiro

 

Tendo me ocupado, há mais de trinta anos, com a Fasciola hepatica, trematódeo, parasito do fígado do boi e do carneiro, ocasionalmente verificado em outros animais e assinalado em alguns casos no homem, não sendo, pois, rigorosamente especializado na escolha do hospedeiro, e a sua transmissão experimental, por ocasião de uma endemia, observada perto de Honolulu, era natural que depois da minha volta procurasse continuar as minhas investigações no Brasil. Todavia, não consegui nem material, nem observações certas durante o tempo em que residi na capital de São Paulo, e só depois de mudar-me para a Capital Federal tive a ocasião de fazer alguns estudos ligeiros, sobre os quais me refiro aqui na esperança de que chamem mais a atenção sobre o assunto.

A evolução da Fasciola hepatica ficou completamente elucidada pelos trabalhos, mais ou menos simultâneos, de Leuckart e Thomas, e por umas contribuições posteriores do autor, de modo que não se compreende como, ainda muitos anos depois, helmintologistas conhecidos procurassem obter a infecção por modos que eram incompatíveis com essa orientação e predestinados a ficar sem resultado. Recapitularemos brevemente os fatos principais.

Os ovos da Fasciola hepatica, que habita as vias biliares, são eliminados pela bile e podem ser obtidos, em grande número e sem mistura com outros corpos sólidos, lavando e decantando o conteúdo da vesícula biliar. No intestino misturam-se com as fezes volumosas dos herbívoros, de modo que a sua procura para fins diagnósticos ou de cultura torna-se muito mais difícil. Durante a incubação dos ovos, com pouca água ou em câmara úmida, a célula germinal forma, no espaço de dez ou mais dias, um embrião ciliado com mancha ocular em forma de X, à custa das células vitelinas cujos restos liquefeitos são bem visíveis. A saída do embrião maduro se obtém pela ação combinada de uma temperatura bastante alta e de luz ativa.

Tanto os ovos (que têm cerca de 0,1 mm de comprimento) como os miracídios podem ser percebidos a olho nu. Os movimentos destes são bastante vivos e característicos. Nadam rapidamente, descrevendo curvas, e podem ser observados facilmente na margem dos vidros de relógio que se usam nas experiências, porque lá ficam detidos como os insetos numa vidraça de janela.

O primeiro hospedeiro intermediário é algum pequeno caramujo aquático do gênero Limnaea (Limnaeus). Foi verificado que na Europa a espécie minuta (truncatula) se presta a esse papel. Em Honolulu achei a L. oahuensis intensamente infectada. Há na América, tanto na do Norte como na do Sul, espécies semelhantes, já suspeitadas por Leuckart. Chamam-se L. humilis e viatrix (viator). A sua presença pode explicar a existência da infecção em certos lugares. Do outro lado, a Fasciola hepatica que, com carneiros e bois de raça, tem sido levada a todas as partes do mundo, nunca se propagou em lugares onde não se conhecem pequenas espécies de Limnaea.

O desenvolvimento dos ovos e a infecção dos moluscos só se dão na água, razão por que a infecção nunca é observada em terrenos completamente secos.

Os caramujos, todavia, podem ocorrer tanto em água estagnada, como em regatos com bastante correnteza. Podem mesmo sair da água, e diz-se que a L. truncatula tem uma tendência a afastar-se dela, mas o fato me parece de pouca importância, porque não se verifica nas outras espécies transmissoras por mim observadas.

No primeiro hospedeiro o miracídio se transforma em esporocisto que dá origem a uma ou mais gerações de rédias grandes e bonitas, encontradas no fígado e na glândula genital. As cercárias são muito características por serem comparativamente largas e dotadas de duas espécies de glândulas cistoplásticas. Não emigram do caramujo, mas acumulam-se dentro do ápice da casca, esperando a morte do hospedeiro, consecutiva à hiperinfecção prolongada. Logo que o corpo deste se desprende da casca (ou quando se quebra o ápice da mesma), as cercárias saem em grande número, sendo muito ativas, mas não tardam a enquistar-se sobre os primeiros objetos sólidos que se apresentam. A casca exterior granulosa é formada à custa das células que contêm grânulos; bastante tempo depois, forma-se outra camada interior mais transparente pela secreção de numerosas células que contêm bastonetes transparentes, lembrando bactérias. O quisto completo é bastante opaco, de cor branca; pode ser conservado muito tempo em estado vivo quando molhado. Os animais infectam-se pastando na água ou tragando esta junto com o depósito do fundo. Se os quistos conservam-se vivos durante algum tempo, estando fora da água, a infecção poderia dar-se também com forragens procedendo de lugares que já foram inundados. Essa hipótese, todavia, carece de uma demonstração experimental. Outros autores pensam que os caramujos, afastando-se da água, possam ser engolidos pelo gado que pasta. Não acredito que as cercárias introduzidas desse modo possam infectar. apenas os quistos que se encontram freqüentemente nas cascas poderiam estar em condições boas. Todavia, com material abundante (que infelizmente ainda não consegui), essas questões poderiam ser facilmente resolvidas. Nos lugares onde observei, não há necessidade de recorrer a essas hipóteses para explicar a infecção.

Demonstrei experimentalmente que os quistos maduros, engolidos

por cobaias em estado úmido, dão saída a dístomos1 novos. Depois de alguns dias as cobaias morrem com uma peritonite soro-hemorrágica e os dístomos podem ser encontrados no fígado e na cavidade peritoneal.

Para determinar os focos endêmicos da Fasciola hepatica procura-se saber, nos matadouros, se aparecem fígados de carneiros e bois alterados em conseqüência do parasitismo da Fasciola. Em caso positivo, indaga-se a procedência dos animais infectados. Assim é fácil saber que o parasito é freqüente nos carneiros comprados no Rio da Prata, o que, aliás, é bem conhecido. É provável que o parasito se ache com a mesma freqüência no vizinho estado do Rio Grande do Sul, mas o gado de lá não vem para o Norte.

De São Paulo para o Norte a Fasciola hepatica e os caramujos do gênero Limnaea parecem raros. As informações recebidas limitam-se a uma zona que acompanha as margens do Paraíba, de Barra do Piraí para baixo. Nessa zona o parasito existe tanto nos bois como nos carneiros e há também uma espécie de Limnaea.

Tenho exemplares de Santa Mónica, de Massambará, perto da estação de Comércio, e da Fazenda da Floresta, do sr. Emílio Barboza, perto de Entre Rios. A Fasciola foi observada tanto nesta fazenda como em Santa Mónica.

É geralmente bastante difícil obter maior número desses caramujos e ainda mais conservá-los em estado vivo. Resistem muito mal ao transporte pela estrada de ferro e também a criação de ovos é muito difícil. Assim se explica que ainda não me foi possível obter a infecção experimental. Quanto à infecção natural, só a observei em dois exemplares da Fazenda da Floresta. Ambos os caramujos estavam mortos, como também as rédias e as cercárias neles contidas, de modo que não foi possível fazer uma infecção artificial. A julgar pelo grande número desses caramujos que examinei em meia dúzia de lotes, a porcentagem geral da infecção natural parece muito baixa, mas a descoberta de um foco de infecção depende muito do acaso. Os caramujos que vivem em águas não completamente estagnadas são muito sujeitos a serem levados pelas enxurradas, o que explica por que nunca são encontrados em maior número. Só uma única vez encontrei maior número de Limnaea numa represa, onde procurava uma espécie de Hydrocleis humboldtii cujas folhas flutuavam na superfície da água. Hoje essa represa já não existe mais. Essas Limnaea pertenciam a uma espécie (ou variedade) diferente, caracterizada pela cor alaranjada do rim, que se percebe distintamente através da casca do animal vivo em forma de estria, razão por que proponho o nome ochrostigma. Os indivíduos eram de cor mais clara e tinham a casca mais transparente que os da espécie comum colhidos em outros lugares. O comprimento maior que observei era de 12 mm, mas esse tamanho era excepcional.

Quanto à outra espécie (que possuo de três lugares diferentes e que é evidentemente mais espalhada), estive a princípio disposto a incluí-la naquela que d'Orbigny chamou Limnaeus viator e que me parece ser a única descrita da América do Sul. Dá o comprimento de 8 mm, e diz que se parece muito com a L. truncatula (minuta). Os seus exemplares procediam de Montevidéu, mas ele diz que em Callao encontrava os mesmos mais alongados. Aqui, todavia, há bastante probabilidade de tratar-se de outra espécie.

O maior número de exemplares dessa espécie eram tão pequenos que bem se podiam comparar com a L. truncatula. Todavia, verifiquei que em todos os lugares se podem encontrar exemplares maiores que mais se parecem com a peregra. Alcançam 17 mm de comprimento por 8 de grossura.

Quando o ápice é bem conservado, pode haver cinco giros, mas geralmente não se conta mais de quatro. Todos são muito pequenos, com exceção do último, que é grande e largo.

Os moluscos aquáticos são de determinação difícil e variam bastante na forma e no tamanho da casca. Também a cor do animal nem sempre parece constante. Assim é, que, só com muito mais material e com um estudo minucioso, a questão das espécies sul-americanas poderá ser resolvida. Parece-me, todavia, difícil conciliar a nossa espécie com a descrição de d'Orbigny, tampouco com as espécies européias; será provavelmente necessário dar-lhe um nome novo.

 

* Trabalho publicado pelo “prof. Adolpho Lutz, do Instituto Oswaldo Cruz” em A Folha Medica, v.2, n.11, p.81-2 (Sua filha, Bertha Lutz, era secretária de redação desse periódico). Reimpresso com o mesmo título no Boletim do Instituto Oswaldo Cruz. Supplemento das Memórias, ano I, t.I, fasc.1, p.9-13. Na Introdução ao Boletim, lê-se que foi criado para dar “mais pronta publicação” aos trabalhos científicos de Manguinhos, uma vez que, “devido a condições irremovíveis,” não era possível publicar as Memórias com a “desejável regularidade”. Na página 27 do Boletim saiu nota intitulada “Motucas da Guaratuba,” em que Lutz acusa o recebimento de uma coleção de 170 motucas capturadas pelo Dr. Ruy Tibiriçá naquela cidade paranaense. Dessa coleção resultaria o artigo publicado com o mesmo título em outro livro da Obra Completa de Adolpho Lutz. Entomologia -Tabanídeos, v.2, livro 2, p.617-24. Em outras páginas do Boletim (29, 34, 44, 48, 65, 66 e 73), constam resumos elaborados por Lutz das seguintes obras. “Dados sobre os princípios e métodos modernos para a demonstração das espiroquetas no tecido e especialmente nos centros nervosos,” de Jahel, no Munch. Med. Woch., n.32, 6.VIII.1920; “Sobre a verificação de espiroquetas em gânglios linfáticos,” de Ricardo Fruehauf, em Wien Klin. Woch., v.33, n.46; “Sobre a biologia dos bacilos da influenza,” de Tacunaga (Jamaguti), Deutsche Med. Wochenschr., v.46, n.49, p.1357; “Novas pesquisas sobre a natureza da febre biliosa hemoglobinúrica,” de A. Plehn, em Arch. für Schiffs- und Tropenhygiene, v.24, n.11, 1920, p.321; “Pesquisas sobre as anofelinas em algumas estações de Java em conexão com a ocorrência de malária,” de N. H. & J. M. H. Swellengrebel, em Mededeelingen van den b. Geneesk. Dienst in Nederlandsch - Indie, v.X, ano 1919; “Sobre encefalite epidêmica (letargia),” de Moritz, em Muenchener Med. Wochenschr., v.67, n.25, 18.6.1920; “Sobre parasitos dos camundongos campestres da espécie Pitymis savii,” de A. Splendore, em Annali dlgiene, ano XXX, n.8-9, set. 1920; “O tratamento da paralisia por infecção pela malária ou a febre recorrente,” de Mueller, Weygandt e Kirschbaum, em Muenchener Med. Wochenschr., ano 67, n.29, 16.7.1920, p.831; e, por último, “Contribuição à casuística da encefalite da influenza,” de Roberto Wartenberg, em Medizinische Klinik., v.XVI, n.48, p.1234. [N.E.]

1 No original, Lutz usa o termo “distomulos”. [N.E.]