Helmintologia
Sobre o encontro de Eustrongylus gigas em um novo hospedeiro
Sobre o encontro de Eustrongylus
gigas * em um novo hospedeiro
Em 9 de dezembro, recebi para exame, através do Dr. Vital Brazil,
um exemplar feminino de 1 Galictis vittata recém-abatido, o qual foi morto a duas horas de São Paulo na margem selvosa do Rio Grande. O animal não é, de maneira alguma, comum aqui no país, sendo, por isso, desconhecido tanto para o caçador, quanto para o portador; eu mesmo já havia visto tanto exemplares vivos como empalhados, considerando o presente como inteiramente adulto. Ele media do focinho até a raiz da cauda 36 cm e até o ápice da cauda 50,5 cm, sendo esta ainda ultrapassada em 5,5 cm por pêlos.
Como o animal deveria ser taxidermizado, mandei que retirassem suas partes internas; viu-se que um tiro de chumbo miúdo dado de regular proximidade havia perfurado ventre e dorso, ocasionando forte hemorragia.
Ao lado do estômago tornaram-se visíveis filamentos brancos que pareciam provir de um fragmento do intestino, os quais, em um exame mais minudente, revelaram-se como ovaríolos de um verme evidentemente muito grande. Os ovos apinhados em massa na parte mais grossa correspondente ao útero lembraram-me imediatamente as figuras do Eustrongylus gigas, que me eram bastante familiares, e pelo qual eu já vinha procurando havia muito tempo, em vão. Empenhei-me, por isso, em examinar o conteúdo abdominal tão minuciosamente quanto possível nas condições dadas.
Logo encontrei entre as vísceras numerosos fragmentos de uma estrutura tubuliforme, ordenáveis em dois grupos diferentes segundo sua espessura. Pelas bem conservadas extremidades do corpo depreendia-se claramente a existência de dois exemplares, um feminino, outro masculino, e consegui, sem grandes dificuldades, recompor quase completamente os parasitos dilacerados pelo chumbo miúdo, a ponto de ser possível tomar medidas com precisão bastante aproximada. Assim obtive os seguintes resultados:
A. Fêmea. Oito fragmentos, o maior com a extremidade cefálica, só pouco danificada, 36 cm, os outros conjuntamente 22 cm de comprimento; total 56 cm. Maior largura do verme algo achatado 8 mm; na extremidade cefálica, onde se apresentava mais roliço, não aluída, 5-6 mm. Do útero procidente foram retirados, para fins de cultura, numerosos ovos.
B. Macho. Três fragmentos. Comprimento total 17 cm, largura ao longo de todo o comprimento 4,5 mm.
A bursa copulatrix de posicionamento apical é bem nitidamente reconhecível.
A cor dos fragmentos era em ambos os vermes de um vermelho lacre escuro, dando decididamente a impressão de uma coloração própria. As linhas laterais muito conspícuas são pigmentadas de negro, do mesmo modo que o intestino, nitidamente transluzente.
O exame das vísceras abdominais revelou a total ausência de um rim; obviamente ele foi tão integralmente desorganizado pelos vermes, cujo volume ultrapassava amplamente o do outro rim, que nem mesmo os restos, ao que tudo indica fortemente encarquilhados, do saco fendido puderam ser reconhecidos com segurança. Que os vermes já há muito se encontravam livres na cavidade abdominal concluí a partir do encontro de numerosos depósitos achatados na superfície do fígado. Eles tinham um tamanho algo maior que uma lentilha, lembrando tubérculos, e continham em seu interior os ovos do verme em grande número.
O modo de vida da Galictis vittata, que é uma criatura muito graciosa e facilmente domesticável, certamente coincide com o da marta. Embora nada seja conhecido sobre isto, pode-se admitir que coma ocasionalmente também peixes quando os pode capturar, por exemplo, após enchentes.
São Paulo, 11 de dezembro de 1900
Aditamento
Por um curioso acaso, recebi novamente em 29 de dezembro exemplares de Galictis vittata, três deles, a saber, uma fêmea adulta e dois jovens quase adultos. Foram mortos com porretes, por operários cantoneiros, bem nas proximidades do instituto.
Os jovens não tinham parasitos; no animal idoso, ao contrário, ocorrera uma infecção com Eustrongylus gigas. O rim direito estava bem preservado, o esquerdo, em compensação, estava transformado em um grande saco de igual tamanho, de paredes delgadas, ossificado pela metade. Em seu interior encontravam-se duas estruturas tubuliformes, as quais representavam inequivocamente o integumento de dois exemplares de E. gigas, do qual haviam desaparecido por maceração os demais órgãos. Elas mediam 46 e 24 cm, não estavam, aliás, de todo completas e eram tão laceráveis que não ousei submetê-las à manipulação necessária para um exame minucioso. Foram, porém, encontrados ovos bem conservados, um indício de que pelo menos uma fêmea adulta estava presente.
Os animais foram mortos desta vez a cerca de uma milha da outra procedência e do próximo grande curso d’água. Mas o encontro de uma larva de Ligula na fêmea adulta indicava ter ela vivido perto d’água.
Desta nova observação pode-se concluir que o parasitismo de E. gigas em Galictis vittata deve ocorrer com freqüência.
São Paulo, 31 de dezembro de 1900.
* Trabalho concluído em 11.12.1900, quando Lutz era diretor do Instituto Bacteriológico de São Paulo, com um “Nachtrag” (acréscimo) datado de 31.12.1900. Foi publicado no ano seguinte com o título “Uber einen Befund von Eustrongylus gigas bei einem neuen Wirte,” em CentralBlatt für Bakteriologie, Parasitenkunde und Infektionskrankheiten, v.29, n.6, p.256-7. Uma resenha deste artigo foi publicada em Münchener medizinische Wochenschrift, n.48, p.434, 1901. [N.E.]
1 Vulgarmente conhecido como furão ou cachorro-do-mato. São animais de porte pequeno, ágeis e rápidos, o corpo alongado, pernas curtas, com grande capacidade para escalar e nadar. G. vittata é um pouco maior que G. cuja. A distribuição geográfica das duas espécies ainda é confusa. A primeira ocorre principalmente na região norte do Brasil, não estando determinado ainda seu limite ao sul. G. cuja ocorre na porção centro-sul do continente e nordeste do Brasil. [N.E.]