Helmintologia

Adolpho Lutz · Capítulo 44 de 71 · parte 1/3

Páginas do PDF

Helmintologia

Capítulo 1919

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

O Schistosomum mansoni e a

esquistossomatose segundo

observações feitas no Brasil*

 

Introdução 1

A biologia e a evolução dos trematódeos do gênero Schistosomum, até há pouco, eram muito mal conhecidas, mas desde 1911 apareceram várias memórias, anunciando a solução dos problemas mais importantes para quatro espécies desse gênero. Nos estudos que vão aqui expostos, tratarei em primeiro lugar de repetir e controlar as experiências recentes, referindo-se à única espécie que se observa no Brasil; em segundo lugar, de investigar as condições locais da infecção e determinar entre nós o hospedador intermediário do parasito. Com o fim de dar mais valor prático a este trabalho e facilitar a orientação, resolvi, enfim, recordar brevemente os fatos mais importantes que se referem ao parasitismo dos esquistossomos em geral e da espécie mansoni em particular. Da literatura só mencionarei os trabalhos fundamentais ou aqueles que mais estreitamente se referem ao meu assunto; para os outros recomendo a bibliografia de Leiper, que é facilmente acessível e muito rica, contendo 521 números.

Tratarei em primeiro lugar do capítulo que se refere à parte histórica e geográfica dos nossos conhecimentos a respeito do gênero Schistosomum e das moléstias por ele produzidas.

 

A esquistossomatose ou bilharziose na África

As lesões produzidas pelos esquistossomos eram conhecidas muito tempo antes do causador e existiam no Egito já em tempos muitos remotos, como se verificou pelo exame das múmias. Foram observadas com grande freqüência ao tempo da invasão de Napoleão e até os últimos anos. Nesse terreno clássico Bilharz descobriu em 1851 os parasitos causadores, dando-lhes o nome Distoma haematobium, por causa do seu habitat intravascular. Bem preparado para esses estudos, ele reconheceu que se tratava de um trematódeo muito especial, caracterizado pela separação dos sexos e seu bimorfismo, tão novo como inesperado. O nome

Schistosoma2 Weinland, hoje geralmente latinizado em Schistosomum, deve referir-se ao macho cujo corpo parece

fendido. 3 A fissura aparente dá entrada para um canal, que serve para carregar a fêmea, o que explica o nome Gynaccophorns dado por Diesing em 1859.

No mesmo ano Cobbold, em honra ao descobridor, introduziu o nome Bilharzia que (com os seus derivados Bilharziosis e Bilharziasis) foi muito usado.

Segundo Blanchard, o nome de Weinland foi publicado em 5 de agosto de 1858; o de Diesing, proposto em sessão da Academia de Ciências em Viena, só foi publicado em 21 de outubro, e o nome de Cobbold dataria de 20 de janeiro de 1859; por isso conclui Blanchard que o nome de Weinland deve ser aceito (Laveran & Blanchard, Les Hématozoaires, p.2, p.40). De fato, o uso do nome Schistosomum, antigamente pouco conhecido, tem se generalizado

nas últimas publicações. 4

Já as primeiras observações, feitas no Egito, mostravam sintomas, localizados ora nas vias urinárias, ora no intestino, e, às vezes, combinados; ligavam-se à eliminação de ovos com espinho ora apical, ora lateral.

Sendo ambos os processos muito comuns, combinavam-se freqüentemente num doente, que então eliminava as duas qualidades de ovos. Por isso a opinião geral continuou a considerar os dois processos como dependentes do mesmo parasito, posto que a idéia da duplicidade já muito cedo fosse discutida. Esse resultado foi em razão principalmente de algumas observações que eram sempre citadas nas discussões e pareciam conclusivas.

Hoje, todavia, não se pode duvidar de que seja na observação, seja na interpretação, houve erros, aliás, bastante naturais. Por essa fatalidade o conhecimento das referidas infecções sofreu grande atraso.

A primeira observação em um foco, onde existiam apenas ovos de espinho terminal, foi feita no sul da África por Harley, que julgou tratar-se de um parasito diferente chamando-o Distoma capense. (Este nome, a meu modo de ver, deveria ter sido conservado para a forma designada.) Em 1912, Bour encontrou, na ilha Maurício, 33 meninos com ovos de Schistosomum na urina. Não falou de ovos nas fezes, nem mencionou a posição do espículo no ovo. Em Tunis, as duas localizações e ambas as formas de ovos foram encontradas por muitos observadores; no Sudão, na região dos lagos e, geralmente, em zonas quentes e ricas em águas, mais ou menos dormentes, observa-se com freqüência a moléstia que acomete as vias urinárias. Existe também nas ilhas Madagascar, Nossi-Bé e Reunião. A forma intestinal, freqüentemente associada à outra, encontra-se isolada no Congo Belga.

 

Esquistossomatose nos outros continentes

A esquistossomatose com localização nas vias urinárias tem sido observada em várias partes da Ásia, onde existem focos endêmicos.

Quanto ao continente americano, é bastante certo que nunca houve foco endêmico dessa forma; os raros casos observados, aparentemente, referem-se todos a pessoas que vieram ou voltaram infectados de outros continentes.

É notável que na América tropical, que recebeu tantos escravos africanos, a forma observada nas vias urinárias não conseguisse localizar-se, quando a forma intestinal (como todos os dias se torna mais evidente) é muito espalhada nas Antilhas e em vários países sul-americanos. Ambas as formas foram, sem dúvida, importadas muitas vezes, mas só uma delas conseguiu propagar-se. Esse contraste acha-se hoje perfeitamente explicado pelo fato de que nos dois casos tanto o parasito como o hospedador intermediário são diferentes, de modo que a possibilidade de localização depende da fauna de moluscos, encontrada no lugar.

 

Duplicidade do Schistosomum haematobium

Bilharz

A idéia de que o nome dado por Bilharz compreendia um conjunto de duas espécies foi de novo defendida em 1903 por Manson, beseado em observações americanas. Em 1904 a descoberta de um novo Schistosomum (japonicu) (precedida em 1876 pela observação de uma espécie bovina, o Sch. crassum Sonsino) veio apoiar essa suposição. Em 1907 Sambon introduziu para a forma americana o nome Sch. mansoni que foi aceito; realmente devia ter ficado com o nome haematobium, visto que a outra forma já foi separada com o nome capense.

A duplicidade da espécie foi combatida por vários autores, principalmente por Looss, que procurou explicar a diferença dos ovos na mesma espécie por argumentos que absolutamente não convencem. É singular que o mesmo autor, que tanto se apaixonou para defender a unidade das duas formas, em outras ocasiões seja muito inclinado a estabelecer novas espécies e até gêneros sem melhores argumentos. Hoje, todavia, essa polêmica perdeu todo o valor, porque a duplicidade do antigo Sch. haematobium já é geralmente conhecida. Conhecem-se hoje mais seis espécies de Schistosomum, todas diferenciadas pelos ovos; nenhuma tem mais

de uma forma de ovos. 5

Alguns autores declararam ter encontrado ovos das duas formas, seja no intestino, seja nas vias urinárias. Onde não houve engano, essas observações, aliás, muito raras, podem geralmente ser referidas à infecção dupla e já existem algumas explicações para a

heterotopia dos ovos nesses casos.6 Na América, nesses últimos tempos, numerosos observadores, entre milhares de ovos com espinho lateral, nunca encontraram um só com espículo terminal; mas é preciso levar em conta que o espinho lateral pode parecer terminal em certas posições, a menos que se tenha o cuidado de rolar o ovo. Como aparece nas figuras 10 e 11, os ovos podem também ter um prolongamento obtuso, bem diferente de um espinho e situado ao pólo mais distante do espinho lateral. A localização nas vias urinárias faz sintomas muito mais característicos que a outra, que facilmente passa despercebida; entretanto, já Wucherer não conseguiu encontrar os ovos na urina em casos de hematúria e isso na Bahia, onde hoje a outra forma é verificada com freqüência. Grande número de exames de urina, feitos por mim durante 36 anos, nunca me deixaram encontrar um ovo de Bilharzia (cuja forma me era bem conhecida), o que, combinado com a experiência de muitos colegas, permite excluir a existência dessa forma nas partes mais conhecidas do Brasil. Do outro lado examinei no Rio as fezes de muitos doentes de esquistossomatose intestinal, adquirida no Norte (em alguns casos durante muito tempo), sem encontrar um ovo com espinho terminal. O dr. Oswino Alvares Penna, que observou os mesmos casos e muitos outros, confirma a minha observação, que está de acordo com os resultados obtidos nas Antilhas, na Guiana Holandesa e na Venezuela.

Discutirei em outro lugar os caracteres que diferenciam as duas espécies. O nosso trabalho só se ocupa do Sch. mansoni Sambon, por ser o único observado no Brasil e mesmo em toda a América, a menos que se trate de casos importados. Nestes tem-se observado algumas vezes o Schistosomum localizado nas vias urinárias; geralmente eram de origem africana. Com a imigração asiática sempre crescente podiam facilmente aparecer infecções de origem asiática, devidas a Sch. haematobium ou mesmo japonicum, mas o transmissor destes é diferente de todos os nossos moluscos indígenas, de modo que não precisamos recear a importação do parasito japonês.

 

O Schistosomum mansoni na América Casos de Sch. mansoni foram observados na América ou em pessoas lá infectadas desde 1902. Os primeiros focos, indicados pelos doentes, eram nas Antilhas. Citamos os casos de Manson (1903, infecção em Antilhas), de Letulle (1903, caso de Martinique), Mac Donell (1905, caso de Culebra), Lahille (1906, ibidem). Em Porto Rico, que é um foco importante, Gonzalez-Martinez observou e publicou os primeiros casos em 1904. Mais tarde Ashford, King e Gutiérrez Igaravidez encontraram freqüentemente os ovos durante estudos sobre a ancilostomíase endêmica.

Esses e outros trabalhos posteriores mostram que entre os focos principais deve constar Martinica, Guadalupe, (Vicques?), Culebra, Porto Rico e Cuba (v. Holcomb, 1907).

Na literatura existe mais um caso inexplicado de esquistossomatose urinária com ovos correspondentes, observado por Cortez em 1905, em pessoa nascida em Guatan, Guatemala. Cita-se também que o dr. Butler observou em San Juan, num habitante de Porto Rico, dois ovos com espinho terminal, evacuados na urina, sem saber onde foi infectado. Em vista do enorme número de doentes, examinados em Porto Rico por médicos conhecedores do assunto, há pouca probabilidade de existir lá um foco endêmico dessa forma de bilharziose; os médicos dessa ilha são unânimes em reconhecer a freqüência do Sch. mansoni e a falta da forma de ovos com espinho terminal.

Outros casos, constatados na zona do Canal do Panamá por Zeiller (1900), aparecem na literatura sem informação sobre o foco de infecção. Entre eles menciona-se um caso em que coexistiam as duas espécies de ovos com as duas formas de infecção. Se o caso for autêntico, desconfio tratar-se de infecção importada de outro continente.

No continente sul-americano, foram observados casos de Sch. mansoni na Guiana Holandesa (Flu, 1908), na Venezuela (Brem, Jesus Risquez), na Colômbia (Abtes) e no Peru. De um trabalho mais recente de Jesus Risquez resulta que a infecção é muito comum na Venezuela, tendo sido por ele encontrada em 25 por cento das autópsias feitas em Caracas, o que constitui um foco intenso.

 

Esquistossomatose no Brasil

Blumgart, de Nova York, observou em 1915 o Sch. mansoni num alemão, provavelmente infectado no Brasil onde esteve 7 anos.

Em 1908 e 1909 o dr. Manoel Pirajá da Silva fez uma série de comunicações sobre a esquistossomatose na Bahia, mostrando a sua freqüência. Procurou caracterizar o parasito como espécie diferente, que denominou Sch. americanum. Descreveu também debaixo do nome Cercaria blanchardi, uma cercária observada na Bahia. Pela forma geral combinada com a sua ocorrência numa espécie grande de Planorbis pode-se, em vista de estudos posteriores, concluir que essa forma faz parte da evolução do Schistosomum mansoni. Jonhn Miller (em 1914) e vários outros autores se referiam à observação do mesmo parasito na Bahia.

Ovos de Schistosomum com espículo lateral foram encontrados, no Rio de Janeiro, em fezes por Gomes de Faria, em tumores do reto por Vianna e no pâncreas por D'Utra. Essas observações e outras, mais recentes, foram feitas no Rio de Janeiro, mas a anamnese, quando conhecida, indicava tratar-se de infecções adquiridas no Norte do Brasil. O mesmo se dava em numerosos casos, observados por Penna e outros, em que os ovos apareceram na ocasião de pesquisas sobre a freqüência da ancilostomíase.

Tratava-se principalmente de marinheiros e soldados navais nortistas, tendo chegado de escolas dessa região, onde se infeccionaram antes de entrar na escola, geralmente por banhos em lagoas habitadas por caramujos.

Em alguns a infecção já datava de muitos anos. Eram originários dos estados Bahia, Sergipe, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte, que constituem zona certamente infecciosa. A estes pode-se adicionar Goiás, onde Neiva observou uma vez os ovos característicos. A infecção provavelmente também existia numa

lagoa de Óbidos7 e talvez numa outra no estado do Espírito Santo. Sendo a infecção pouco característica, só pode ser reconhecida nas autópsias ou durante a vida pelo exame microscópico das fezes. É graças a esse exame, que se vulgarizou pela pesquisa da Uncinaria e do Necator, que a infecção foi descoberta em tantos focos novos.

As condições indispensáveis para o estabelecimento de um foco epidêmico são, de um lado, um clima quente, do outro, a existência de umas espécies de Planorbis que se prestem para hospedador intermediário. Entre nós o Pl. olivaceus e mais duas espécies satisfazem essa condição, mas não consta que existam no Rio de Janeiro e de lá para o Sul.

Theophilo Martins, empregado deste Instituto, seguiu, em 1916, para Aracaju e lá verificou a existência da infecção em várias pessoas que costumaram banhar-se em lagoas onde existia Pl. olivaceus, que nessa região é muito abundante. Da Bahia recebemos remessas das mesmas espécies dos colegas N. Pirajá da Silva e Octavio Torres; usamo-las para infecção artificial. Na última, achamos também seis exemplares naturalmente infectados que já davam saída a cercárias de Schistosomum mansoni.

 

Observações mais recentes

No segundo semestre de 1917 resolveu-se mandar, por conta deste Instituto, uma comissão médica que devia percorrer os estados Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Sergipe e Bahia (onde constava haver focos de infecção), a fim de investigar as condições locais. A comissão, constituída pelos drs. Adolpho Lutz e Oswino Penna e dois serventes de laboratório, encontrou casos de esquistossomatose em todos esses estados, mas principalmente em Sergipe e Pernambuco, onde se demorou mais tempo. Verificaram que o Planorbis olivaceus era limitado aos estados Bahia e Sergipe; mais ao norte o hospedador intermediário deve ser um Planorbis menor que foi descrito com o nome de centimetralis na monografia dos Planorbis sul-americanos, publicada por Lutz nas Memórias do Instituto (Tomo X, Fasc. 1, 1918). No extremo norte do território percorrido aparece outra espécie, Planorbis guadaloupensis Sowerby, que é o transmissor do parasito na Venezuela e talvez também em todas as Antilhas, onde ele existe. As últimas duas espécies não forneceram exemplares com infecção espontânea, em razão provavelmente da estação, pouco favorável no caso do centimetralis. (No guadaloupensis realizei a infecção artificial, usando exemplares obtidos do Maranhão pelo obséquio do sr. Fabricio Caldas de Oliveira. A infecção do centimetralis não foi completada ainda; todavia, observei várias vezes a penetração dos miracídios). Do Planorbis olivaceus encontraram exemplares infectados uma vez em Sergipe e três vezes em pontos diferentes do estado da Bahia.

Mais recentemente obtivemos informações que permitem incluir Minas na lista dos estados infectados. Soubemos do dr. Henrique Villela que o dr. Abel Tavares de Lacerda observou em Belo Horizonte vários doentes que expeliam ovos com espículo lateral e cuja infecção deve ter-se dado em Minas. O dr. Oswino Penna também encontrou um doente procedendo de Minas, da zona do Rio Pomba.

(Informações mais recentes, obtidas do prof. Samuel Libanio e do dr. Mello Teixeira, já elevam o número dos casos a perto de trinta.)

Verifiquei que o Planorbis centimetralis existe também em Belo Horizonte. Espécies maiores não foram encontradas. Com isso combina uma observação de Lutz sobre a existência do Planorbis centimetralis em Minas (Retiro, perto de Juiz de Fora).

Uma observação recente, provando a existência do Sch. mansoni no Acre, me foi comunicada pelo dr. Carlos Chagas; assim, hoje quase todo o território ao norte do Rio de Janeiro pode ser considerado infectado.

Para terminar este capítulo dou uma Recapitulação dos dados mais importantes

1851 Descoberta do Distomum haematobium por Bilharz no Egito.

1858 Weinland propõe o nome Schistosomum.

1864 Harley propõe o nome Distomum capense para os esquistosomas sulafricanos cujos ovos têm um espículo terminal.

1876 Cobbold não consegue descobrir o hospedador intermediário.

1874 Sonsino descobre o Schistosomum crassum em bovinos, mas não acha o hospedador intermediário do parasito humano.

1888 Allan indica a infecção por banhos (também Brock em 1897).

1892-1903 Casos importados de Sch. haematobium observados nos Estados Unidos e no Panamá.

1902-1903 Começam as observações de ovos com espículo terminal em doentes das Antilhas por Manson, Letulle, Gonzales-Martinez e outros.

1906 Blumgart em Nova York observa ovos de Sch. mansoni em um alemão que esteve 7 anos no Brasil.

1907 Sambon propõe o nome Schistosomum mansoni.

1908 Primeira comunicação do dr. M. Pirajá sobre a ocorrência do Sch. mansoni na Bahia.

1911 Primeira comunicação de Flu sobre o Sch. mansoni na Guiana Holandesa.

1911-1913 Descoberta do Sch. japonicum e da sua biologia.

1915 A comissão Leiper estuda a evolução dos Schistosomum do homem no Egito.

1916 Lutz estuda no Brasil a evolução do Sch. mansoni no Planorbis olivaceus.

1916 Iturbe e González verificam que o Pl. guadaloupensis é o hospedador do Sch. mansoni na Venezuela.

1917 Verificação que parte dos focos brasileiros depende da presença dos Pl. centimetralis e guadaloupensis.

1918 Verificação do hospedador do Schistosomum spindale do boi por Glen Liston & Soparkar.

Passo agora à parte descritiva e começo com

 

O gênero Schistosomum

(Fig. 1-8)

O gênero Schistosomum compreende várias espécies de trematódeos parasitos do sangue e munidos de duas ventosas (bucal e abdominal), razão por que foram colocados a princípio no gênero Distomum, hoje subdividido em muitos gêneros que formam a família Distomidae. Distingue-se de quase todos os outros por ter os dois sexos distribuídos sobre dois indivíduos, em vez de serem reunidos em um só. Outro caráter é o habitat nas veias, a que o verme é especialmente adaptado. Poucos gêneros, vizinhos e só recentemente separados, participam nesses caracteres, formando uma subfamília que se pode chamar Schistosominae. Cito os gêneros Bilharziella e Ornithobilharzia, observados em pássaros.

O dimorfismo sexual é muito acentuado. O Schistosomum macho tem o corpo achatado e bastante largo, a musculatura desenvolvida e a pele guarnecida de escamas agudas que facilitam a locomoção; a fêmea tem o corpo filiforme como os nematódeos e a musculatura fraca; as escamas faltam ou são pouco distintas.

O corpo do macho alarga-se por trás do processo cefálico, mas as partes laterais, em vez de estendidas, são enroladas, formando do lado ventral o “canalis gynaecophorus,” dentro do qual se costuma encontrar uma fêmea, raras vezes mais. Os órgãos genitais são reduzidos a um testículo subdividido, às vezes terminado por vesícula espermática e um vaso deferente sem órgão copulador.

Na fêmea há um corpo vitelígeno, um ovário e um canal comprido que representa o útero e a vagina. Um pequeno segmento, que contém o último ou o único ovo com casca perfeita, pode ser designado pelo nome ootipo.

Nos dois sexos falta um bulbo faríngeo ou esofageano e o intestino, dividido a princípio, se une outra vez em extensão maior ou menor.

(Há três espécies que são parasitos do homem e mais cinco que vivem em animais domésticos. Todas se distinguem facilmente pela forma dos ovos. As espécies humanas podem ser observadas em macacos e roedores, espontaneamente ou em conseqüência de tentativas de infecção. O Sch. japonicum ataca quase todos os animais domésticos.)

Tratarei agora da descrição e diferenciação:

 

Schistosomum mansoni

(Fig. 1-8, 15)

A morfologia e a anatomia do Schistosomum haematobium foram estudadas pelo descobridor e depois por Leuckart, R. Blanchard, Chatin e Fritsch, já antes de 1888. O assunto foi resumido novamente por Blanchard em 1989 e por Leuckart na segunda parte da sua obra clássica, com colaboração de Looss. Podia-se considerar o assunto esgotado se os autores tivessem trabalhado com uma espécie só e não com uma mistura das duas, quando não se referiam unicamente à forma localizada nas vias urinárias. Assim, os dados têm um valor apenas relativo e as descrições devem ser emendadas para cada uma das espécies, reunidas debaixo do nome Sch. haematobium.

As diferenças já foram apontadas por Pirajá, Flu, Holborn e outros autores que estudaram a espécie americana. Faltando uma comparação com exemplares frescos das outras espécies, o valor de alguns dos caracteres podia ser posto em dúvida, se Leiper (que ainda ultimamente teve ocasião de comparar as duas espécies no Egito) não tivesse confirmado o valor dos caracteres mais importantes que garantem a diferenciação fácil e segura. Nos nossos exemplares verifiquei também todos os caracteres que ele dá como específicos do Schistomum intestinal do Egito, que deve ser identificado com o Sch. mansoni. A essa opinião também já tinha chegado González Martínez, como se acha registrado numa publicação recente.

Os caracteres de gênero, comuns às duas espécies, são os seguintes:

Habitat no sistema circulatório. Alimentação com sangue.

Bissexualidade. Machos com canal ginecóforo, fêmeas filiformes.

Produção de ovos sem tampa, contendo um miracídio quando expelidos pelo hospedador.

Penetração do miracídio em moluscos de água doce, onde formam esporocistos e cercárias que emigram espontaneamente.

Cercárias sem bulbo faríngeo com a cauda bifurcada, munidas de grandes células glandulares e capazes de infectar animais penetrando pela pele em contato com água.

Para distinguir as espécies haematobium e mansoni bastam as seguintes diferenças que parecem bem estabelecidas:

haematobium

♂ Testículo composto de 4 ou 5 lobos.

Vesícula seminal anterior aos lobos do testículo.

♀ Ovário na metade anterior do corpo.

Ovo perfeito com espinho terminal.

Útero comprido com muitos ovos.

Vitelígeno curto no quarto caudal

♂ ♀ Ceco curto.

Primeiros estados em Physopsis.

mansoni

♂ Testículo com cerca de oito lobos.

Não foi observada vesícula seminal.

♀ Ovário na metade caudal do corpo.

Ovo perfeito com espinho lateral.

Útero curto, quase sempre com um ovo só.

Vitelígeno ocupando os dois terços posteriores do corpo.

♂ ♀ Ceco comprido.

Primeiros estados em Planorbis.

Além dessas diferenças, pode haver outras, menos seguras e de apreciação mais difícil, referindo-se ao tamanho do corpo e das ventosas, à distância, e terminação do ceco e ainda ao corpo e à armação da pele nos dois sexos. É certo que a forma dos testículos e do intestino é um tanto variável, mas as diferenças vão muito além de variações.

Para diferenciação clínica basta a forma do ovo encontrado nas fezes e a localização da moléstia.

As dimensões dependem (no material morto) tanto do modo de fixação como das condições que precederam e influíram sobre a contração ou relaxamento muscular. Estes são muito pronunciados no material vivo, de modo que os dados têm apenas um valor aproximativo. Os velhos autores não discriminaram as duas espécies e nenhum autor moderno parece ter comparado as duas em condições idênticas. Dos autores modernos, Brumpt dá para o haematobium macho 10 e 15 mm de comprimento, a largura não excedendo 1, e para a fêmea 15 a 20 para 0,1 a 0,2 mm de largura maior. Pirajá dá para mansoni no macho o comprimento de 12 e a largura no meio de 0,448 mm. Na fêmea as mesmas medidas importam em 14,5 a 15 para 0,168 mm. Não posso calar a minha impressão de que as dimensões de mansoni parecem ser um tanto inferiores às do Sch. haematobium.

A coloração também varia conforme as circunstâncias; julgo pouco provável que nesse ponto haja uma diferença fundamental entre as espécies.

 

Ovos de Schistosomum mansoni

(Fig. 9-15)

 

Caracteres dos ovos encontrados nas fezes

A evolução do Sch. mansoni, fora do corpo humano, principia com os ovos eliminados nas evacuações alvinas que merecem um estudo especial por fornecer o principal meio de diagnóstico. Desprezando este, é quase impossível chegar a um diagnóstico seguro, e por isso a freqüência do parasito na América do Sul só se tornou conhecida em conseqüência da prática de procurar os ovos dos outros parasitos intestinais.

Os ovos de Schistosomum são grandes, mas a sua casca é transparente e frágil. Por isso, não aparecem bem em preparações um pouco opacas e podem ser destruídos por pressão. Por causa da pequena produção são comparativamente raros e facilmente escapam ao exame direto, quando as fêmeas adultas não são muito numerosas. Infecções pequenas ou recentes não podem ser seguramente excluídas, porque os ovos levam bastante tempo para chegar ao intestino quando não encalham definitivamente, o que parece freqüente.

(O exame torna-se mais fácil pela lavagem repetida das fezes, seguida de sedimentação simples ou centrifugação. Com estas combina-se o uso de tecido de arame e de gaze de moleiro para reter todos os corpos mais grossos. Assim obtém-se um sedimento que contém quase exclusivamente corpusculus amilaceos e ovos de parasitos, sendo fácil de examinar.)

A aparência do ovo está bem representada nas figuras que damos. Os ovos normais (Fig. 15) são munidos apenas de um espinho lateral e contêm um embrião bem visível. Em ovos patológicos o tamanho pode ser diminuído, faltando o embrião. Pode haver num dos pólos um prolongamento mais ou menos comprido (Fig. 10 e 11), mas este só pode ser confundido com um espículo terminal quando o exame for pouco cuidadoso. A existência de dois espículos laterais não foi ainda assinalada. A figura 12 mostra o único caso dessa anomalia rara que verifiquei no exame de milhares de ovos. Os ovos com ou sem embrião podem ser calcificados ou incrustados por cristais (Fig. 13 e 14).

Os ovos com espinho lateral foram recentemente estudados nas publicações de Holcomb e Gonzalez-Martinez. Ambos deram figuras que são um tanto esquemáticas, principalmente as do último autor. Dou também uma figura tirada do natural (Fig. 15). A casca exterior do ovo ou córion tem uma forma ovóide bastante regular, apenas interrompida pelo espículo cujo ápice agudo é compacto, sendo a base cônica e escavada. A sua grossura é apreciável, principalmente nos pólos onde é muito aumentada (Fig. 15).

As dimensões dos ovos são um pouco variáveis em estado normal. Holcomb dá 112 a 162 micra para o eixo maior e 60-70 para o menor. Baseado em trinta medições, Gonzáles-Martinez indica uma média de 147 para 67,09. Essas medidas combinam melhor do que as do espículo, cujo comprimento o primeiro autor dá como 15-17 contra 22,7 do segundo (largura 7,5), mas isso pode depender do modo de medir. O ponto de inserção, segundo Holcomb, é afastado do pólo próximo pela quarta parte do eixo maior.

A membrana interior amnion ou membrana vitelina acompanha a outra de perto, mas não entra no espículo e deixa nos pólos uma calota de dimensões variáveis, geralmente maior no pólo mais distante do espículo, que se pode considerar o anterior, por ser mais freqüentemente ocupado pela extremidade cefálica do embrião. Assim, o espículo fica dirigido para trás.

Ambas as membranas são finas e transparentes, mas o córion é mais amarelado, sendo o amnion hialino: todavia esse pigmento, como em outros ovos de entozoários, é derivado dos materiais fecais e falta em exemplares que foram protegidos por densa camada de muco.

 

O embrião ou miracídio dentro do ovo maduro

(Fig. 15)

Os ovos normais saem do intestino com o embrião completamente formado e vivo. (Os invólucros transparentes não impedem o estudo, mas os poderes fracos não bastam para apreciar todos os detalhes de estrutura. Usando lentes de imersão é indispensável fixar a lamínula na lâmina, o que pode ser feito por parafina ou terebintina. Assim, obteremos imagens nítidas, mas os contornos dos órgãos internos são sempre muito delicados e a superposição não permite ver tudo no mesmo ovo. Por isso, convém examinar muitos ovos em posições variadas.)

O embrião é revestido de cílios que na parte anterior são mais compridos e dirigidos para frente. Faltam na papila bucal, e no resto do corpo são virados para trás.

Há também quatro aberturas tubulares do sistema excretório contendo membranas vibráteis. Os troncos maiores com lâminas ciliadas também aparecem às vezes em parte do seu decurso.

A existência de fibrilas contráteis, orientadas em duas ou três direções, é indicada pelos movimentos enérgicos que o embrião faz, antes de sair. Ao contrário do que a literatura do assunto parece indicar, acho a demonstração óptica muito difícil e incerta.

Há um saco gástrico que se distingue facilmente quando está cheio de grânulos vitelinos. Abre-se na boca por meio de um canal, largo na base e mais estreito em direção à boca. As paredes do saco e do canal parecem muito frouxas.

Ao lado do estômago reconhecem-se mais duas grandes células glandulares cujo núcleo não consigo ver a fresco. O canal excretório começa largo e diminui gradualmente até chagar à papila cefálica, onde é defletido para fora, terminando num poro oblíquo.

Quando cheios, os canais e as glândulas são facilmente percebidos, estas podem ser viradas para dentro e cobrir o saco gástrico. (Na figura 15 as glândulas e o saco não são muito cheios e aparecem claramente no mesmo plano.) O conteúdo das glândulas não é granular, como se podia deduzir de figuras que se referem ao embrião da outra espécie.

Também não consigo ver uma indicação clara do sistema nervoso, nem mesmo com as figuras publicadas, mas uma grande célula vesicular, abaixo dos órgãos descritos e quase no centro do embrião, e mais uma ou duas semelhantes, posto que menores. Parece-me que a sua função pode ser comparada à de um balonete no meio de um balão, dando ao corpo certa rigidez e elasticidade, necessárias para os movimentos. O resto do corpo é formado por massas esféricas, maiores e menores; são pouco definidas e representam sem dúvida as células germinativas.

(Holcomb dá a figura de um embrião com seis vesículas claras que se pareciam com glândulas. Já vi um com seis no mesmo nível e mais para diante outros três. Simulavam glândulas, mas parece-me que se deve tratar de outras células vesiculares.)

Os cílios exteriores e interiores só se metem em movimento quando o ovo está num ambiente líquido e há penetração de água por osmose. Isto se dá quando os ovos são isolados por lavagem em água comum.

 

Ecdise e vida livre dos embriões ou miracídios

(Fig. 15-17)

As condições que favorecem a ecdise ou saída do embrião são água pura, luz e uma temperatura apropriada, vizinha a 30 o. No inverno do Rio de Janeiro, há muitos dias que não se prestam para essa observação, e em zonas temperadas as condições naturais só excepcionalmente permitem a ecdise.

O melhor processo para observar o miracídio na sua vida livre consiste em lavar, tamisar e sedimentar as fezes mais ricas em ovos usando água de temperatura baixa. O sedimento é colocado com pouca água em pequenos cristalizadores, placas de Petri etc. e depois exposto ao sol. O mesmo resultado pode ser obtido aproximando uma lâmpada elétrica a uma distância que basta para levantar a temperatura da água a cerca de 30o.

Mesmo em condições ótimas, quando os primeiros miracídios aparecem logo, nunca se obtém a saída de todos, talvez porque uma parte não atingiu ainda a maturidade completa. Recolhendo o resto em lugar menos iluminado e quente, a experiência, repetida uma vez por dia, dá ainda resultados positivos durante os três ou quatro dias que seguem. Mesmo depois de oito dias, acham-se ainda ovos com embriões vivos, mas estes não procuram mais sair dos ovos.

A ecdise é precedida por penetração de água exterior na casca que se dilata um tanto. Talvez a secreção das glândulas facilite esse processo. Notam-se movimentos brownianos nos grânulos vitelinos e começa o jogo dos diferentes cílios e membranas vibráteis. Depois seguem, em intervalos, contrações enérgicas do embrião que se pode virar completamente dentro da casca. A saída é instantânea e por isso facilmente passa despercebida. Numa observação minha era precedida por uma rotação muito enérgica e rápida do embrião, contraindo até assumir uma forma quase esférica.

A casca vazia geralmente mostra uma abertura fusiforme, atravessando obliquamente o equador da casca. Essas cascas vazias oferecem um contorno característico e tão facilmente reconhecido como o aspecto do ovo cheio.

Depois de saído do ovo, o miracídio alonga-se, tomando uma forma cilíndrica, e nada, em grandes curvas, com direção à luz, até ser detido pela margem da placa.

Com forte iluminação oblíqua é facilmente reconhecido pelo movimento característico. (Deve-se evitar uma confusão com certos infusórios e principalmente com rotatórios.) Em temperaturas menos favoráveis o embrião torna-se mais piriforme e vai ao fundo. O mesmo acontece depois de ter nadado algumas horas, sem encontrar um hospedador adequado.

Fechados em capilares e expostos na geleira à temperatura muito baixa, os miracídios tornam-se piriformes; depois ficam imóveis e morrem em pouco tempo, a menos que sejam retirados logo. Neste caso podem reassumir a sua atividade. Sempre são muito mais sensíveis ao frio do que as cercárias, o que faz compreender como uma infecção já realizada das antenas do caramujo pode ser interrompida em conseqüência de alguns dias frios.

Penetração dos miracídios nos moluscos

(Fig. 18, 39a.)

Para observar a penetração, introduzem-se os moluscos em placas de Petri que contêm os miracídios. Um binocular é de grande utilidade, mas basta qualquer lente de poder fraco. No princípio, os miracídios continuam nas suas evoluções, passando às vezes perto dos caramujos, sem fazer caso. Depois aproximam-se pouco a pouco das espécies preferidas. Subitamente um ou outro fixa-se em alguma parte exposta. Seguem outros, pouco a pouco, mas ainda por muito tempo observam-se exemplares refratários.

As espécies experimentadas eram dos gêneros Planorbis, Physa, Lymnaeus, Ancylus e Ampullaria. Com raras exceções, explicadas talvez por contato prévio com exemplares das outras espécies, as três últimas eram completamente desprezadas. As Physa e Planorbis (de sangue vermelho) ofereciam igual atração, sendo preferidos os exemplares já crescidos; ao contrário do que esperava, a atração parecia aumentar com o tamanho. O ponto preferido é a antena, que se presta muito bem para as observações ulteriores. O resto da cabeça e a região pós-antenal também são muito atacados. O pálio exposto é pouco procurado nos Planorbis, um pouco mais nas Physa; o pé é quase sempre desprezado.

O miracídio, no momento de penetrar, tem uma forma alongada cilíndrica, como se vê na fig. 18. Penetra por meio de movimentos que lembram um pistão de bomba ou uma broca. O tempo necessário regula 10 a 15 minutos. Depois destes o miracídio é encontrado estendido no tecido subcutâneo. Mostra ainda os cílios, mas as glândulas ficaram vazias. Muitas vezes o embrião cai ou abandona o lugar depois de várias tentativas de penetrar.

Até hoje, só se conhecem quatro espécies de Planorbis que se prestam para o papel de hospedadores intermediários. São o Planorbis boyssyi do Egito, o guadaloupensis das Antilhas, da Venezuela e do Norte do Brasil, o olivaceus, encontrado na Bahia e em Sergipe, com que realizei a maior parte das minhas experiências, e, finalmente, o centimetralis mihi, encontrado nos estados do Norte, principalmente em Pernambuco, e também no estado de Minas. As outras espécies, estudadas na minha monografia dos Planorbis brasileiros, não se prestam para esse papel. Em algumas delas, como na Physa, a penetração do miracídio ocorre normalmente, mas a evolução posterior dos parasitos pára depois dos primeiros estádios.

Parece que os miracídios que procuram penetrar em outras regiões que as antenas e a região dos olhos não o conseguem ou morrem pouco depois, porque nunca encontrei os estados ulteriores em outros pontos. Todavia, é possível que um ou outro miracídio passe pela abertura respiratória e se localize na parte visceral.

Os meus estudos foram todos feitos nas antenas, que são facilmente observadas e podem ser amputadas, sem prejudicar o caramujo. Mesmo as antenas destacadas de Physa ou Planorbis (que se deslocam pela ação do epitélio vibrátil como se fossem vivas) infectam-se facilmente.

As tentativas de penetração, bem ou malsucedidas, produzem na antena do caramujo uma reação local, caracterizada por tumefação, acompanhada de hiperemia, bem apreciável por causa do sangue vermelho.

É, sem dúvida, devida à secreção glandular cuja inoculação deve amolecer os tecidos, facilitando a penetração. Os caramujos são bastante indolentes, mas, quando atacados por maior número de miracídios, procuram recolher as partes expostas ou fugir da água.

Essa primeira reação retrocede em poucas horas, a ponto de deixar apenas um ou mais pequenos nódulos. (Uma antena, decepada dois dias depois da penetração do miracídio, tinha aparência edematosa. Achatada debaixo de uma lamínula e fechada com soro fisiológico, tornou-se bastante transparente permitindo o exame com lente de imersão. O esporocisto ainda aparecia estendido em sentido longitudinal, mas tinha, do lado de fora, um espaço claro onde se viam os restos da membrana vibrátil. Os cílios de epitélio já tinham desaparecido, deixando apenas restos indistintos. O contorno era agora muito fino e os dois pólos não se distinguiam, porque a papila, o saco gastrintestinal, as glândulas com seus tubos excretórios e as grandes células vesiculares tinham desaparecido. Por dentro viam-se pequenos grânulos, corpúsculos redondos com aspecto de núcleos, elementos vesiculares e algumas células hialinas maiores, no meio de uma massa protoplasmática sem estrutura aparente. Ainda existiam os quatro orifícios tubulares mostrando no interior o jogo animado da membrana vibrátil que, depois de cinco horas, ainda continuava com a mesma rapidez. Também o epitélio vibrátil da antena estava ainda em bom estado, mas, dez horas mais tarde, todo o movimento tinha cessado, os epitélios da antena estavam destacados e os seus cílios tinham desaparecido ou achavam-se soltos.)

Continuar: parte 2 de 3