Helmintologia

Adolpho Lutz · Capítulo 22 de 71

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Helmintologia

Sobre a questão da transmissão da solitária humana. Comunicações adicionais

Sobre a questão da transmissão da

solitária humana. Comunicações

adicionais *

 

Hoje, dia 2 de fevereiro de 1888, já estou em condições de relatar uma experiência bem-sucedida de transmissão da solitária ao homem. Apesar de ser ainda uma experiência isolada, é provável que seja suficiente, por sua natureza, para fornecer a prova da hipótese já enunciada de que a solitária é transmitida por meio de ovos contendo embriões, e que ainda possuem o invólucro externo moriforme.

O voluntário, de 32 anos, além de estar absolutamente livre de ascarídeos há pelo menos 20 anos e de não evacuar ovos deles, vive em condições e num meio ambiente no qual não foram observadas solitárias até agora; embora fosse já por hábito muito escrupuloso quanto à água potável e às condições alimentares, durante o período da experiência evitou ainda mais tudo o que pudesse favorecer, ao que nos consta, a importação de parasitas. A pessoa citada ingeriu então, voluntariamente, uma pequena quantidade de ovos de áscaris, com seus invólucros, da cultura anteriormente descrita, nos seguintes dias: 4, 5, 6, 7, 19, 23, 25 e 27 de janeiro. O número total de ovos não foi determinado com precisão, mas comportava, em média, uma dúzia de cada vez; apenas cerca de um terço até metade continha, comprovadamente, embriões bem desenvolvidos, em movimento; uma grande parte ainda evidenciava os diversos estágios de sulcagem. Nos primeiros dias, a pessoa adoeceu de dispepsia ácida, talvez em conseqüência de nocividades externas, com vômitos reiterados e leve febre remitente, e a esse quadro logo se associou uma bronquite extraordinariamente forte. Enquanto esta melhorava com a administração de antipirina, codeína e morfina, aos poucos se evidenciavam sintomas cada vez mais pronunciados de uma enterite. As diarréias iniciais desapareceram após alguns dias, permanecendo, porém, sensações desagradáveis, localizadas no epigástrio, as quais, por vezes, culminavam em acessos espasmódicos leves. Esses sintomas pareciam aumentar logo após cada nova ingestão de ovos, ao mesmo tempo em que os alimentos eram evacuados bem antes do tempo e, aparentemente, muito mal digeridos.

Enquanto as primeiras manifestações eram consideradas meros episódios fortuitos, esses sintomas abdominais persistentes e insólitos davam a entender que a experiência fora coroada de êxito. Por um lado, para esclarecer esse fato, e, por outro lado, para eliminar tais sintomas importunos, foi iniciado um tratamento anti-helmíntico já no dia 1° de fevereiro, da seguinte maneira: 1/2 grama de santonina e cerca de 6 decigramas de calomelano foram divididos em três doses; a fim de garantir o efeito, ainda se lançou mão de quatro cápsulas gelatinosas de 1 grama cada. À noite, às 22h30, foi ingerida a primeira dose de santonina com calomelano, e, logo após, duas cápsulas de timol. Algumas horas depois, o segundo pó e, logo a seguir, as cápsulas restantes.

Por volta das seis horas da manhã, o voluntário acordou com um pouco de xantopsia, a qual, no entanto, logo passou, de modo que, em torno das nove horas, foi ingerida a terceira dose de santonina e calomelano. Já na primeira evacuação de consistência pastosa, às seis horas da manhã, descobriu-se um verme delgado, de 12 mm, agitando-se com vivacidade. Durante um exame rigoroso foram encontrados outros seis, que davam nítidos sinais de vida. Nas dejeções posteriores, mais viscosas e que cheiravam a timol, ainda foram encontrados numerosos exemplares, contudo, em grande parte mortos.

Os pequeninos vermes, dos quais foram isolados 35, variavam quanto ao tamanho, tendo de 5 ½ a 13 mm de comprimento. Em virtude da formação da cabeça, com os lábios nitidamente visíveis, foram caracterizados de modo satisfatório como ascarídeos; além disso, a relação do esôfago em relação ao intestino, bem como a forma da ponta da cauda, também concordavam plenamente com os dados e os desenhos de Heller e Leuckart. A comparação com uma pequenina solitária de 15 mm de comprimento, anteriormente evacuada, revelou igualmente uma semelhança total. O riscado transversal da cutícula pode ser visto com nitidez em todo lugar; nos exemplares maiores, os apêndices vesiculosos dos músculos, entre a pele e o canal intestinal, sobressaem com muita nitidez. Contudo, abstenho-me de maiores descrições, mas penso enviar ao Senhor

Conselheiro Leuckart certo número de exemplares 1 para a confirmação do diagnóstico. Infelizmente, a conservação desses vermezinhos delicados é muito difícil.

Considerando que os dois exemplares evacuados por último ainda estavam vivos, é possível que parte dos vermes tenha ficado retida, o que será verificado mais tarde. Alguns também podem ter escapado à observação. Contudo, o número de exemplares encontrados é tão grande, que bem posso supor que a maioria dos ovos em boas condições (se não todos) chegou ao seu desenvolvimento. As diferenças no tamanho correspondem às diversas datas de ingestão e constituem mais uma prova para o ponto de vista há pouco citado. Após ter descoberto, anteriormente, que os ovos com invólucro moriforme permitem a eclosão de embriões vivos no canal intestinal humano, após ter visto se transformarem, no espaço de uma a três semanas, em vermezinhos de 5 ½ a 13 mm, cujo número correspondia aproximadamente ao dos ovos capazes de desenvolvimento, creio poder reivindicar a apresentação da prova de que a transmissão se dá pelos ovos contendo embriões e está ligada à boa conservação da casca exterior. Os ascarídeos mais jovens, encontrados por Heller no intestino, eram menores do que os nossos menores exemplares, e as etapas subseqüentes de desenvolvimento foram observadas por diversos autores, ainda que com lacunas maiores, de modo que creio ser lícito concluir que todo o desenvolvimento pós-embrionário se realiza no intestino do hospedeiro definitivo. Aliás, penso complementar esta prova com outras observações, servindo-me, porém, de experiências com animais, uma vez que a criação no ser humano parece estar ligada a desconfortos. A fim de explicar os sintomas, refiro-me à circunstância, já aludida, de que os vermes mais jovens, ao contrário dos adultos, distinguem-se por uma mobilidade muito grande. À temperatura ambiente, esta continua por certo tempo, e ainda pôde ser provocada novamente após várias horas, adicionando-se um pouco de saliva à temperatura do corpo.

 

* Trabalho realizado em São Paulo e publicado em 1888, na Alemanha, com o título “Zur Frage der Uebertragung des menschlichen Spulwurmes. Weitere Mittheilungen von dr. Adolpho Lutz in São Paulo,” em Centralblatt für Bakteriologie und Parasitenkunde [Folha Central de Bacteriologia e Parasitologia], ano II, v.3, n.14, p.425-8. Leuckart assina uma nota de rodapé no trabalho de Lutz, à p.427 do original em alemão. [N.E.]

1 Os pequenos vermes chegaram bem às minhas mãos. Quanto à pertinência aos Ascaris lumbricoides, não pode haver dúvida. Eu os examinei mais pormenorizadamente e darei o meu parecer mais detalhado sobre eles nestas folhas. [Nota de Leuckart]