Helmintologia
Sobre os parasitas intestinais do porco e de outros animais domésticos observados no Brasil, como também sobre a ocorrência das mesmas espécies no homem
Sobre os parasitas intestinais do
porco e de outros animais domésticos
observados no Brasil, como também
sobre a ocorrência das mesmas
espécies no homem *
Por ocasião de uma estadia mais prolongada em Limeira, no interior de São Paulo (Brasil), tive a oportunidade de efetuar algumas observações relativas aos parasitas intestinais de animais domésticos, especialmente de porcos, as quais, embora incompletas, podem apresentar algum interesse, razão pela qual eu as transcreverei brevemente.
No porco tanto foi encontrado o chamado Cyst/cercus cellulosae, quanto o da Taen/a ech/nococcus. Ambos parecem ser freqüentes, muito especialmente o primeiro, uma vez que os habitantes que, durante o abate e a fabricação de salsichas, costumam experimentar a carne crua, quase sempre se contaminam com a Taen/a sol/um. Os porcos contraem facilmente o cisticerco, porque, em muitos lugares (na falta de latrinas), as fezes humanas são depositadas nas cercanias das casas, e são devoradas com sofreguidão pelos porcos que circulam livremente. Pior ainda é o costume de instalar as latrinas acima dos chiqueiros, conforme ocorre por vezes no Brasil.
(No ser humano, não apenas observei com bastante freqüência a Taen/a sol/um, mas, algumas vezes, também o Cyst/cercus cellulosae, com e sem Taen/a. Encontrei, inclusive, a Taen/a med/ocannelata e a sag/nata, um sinal de que também ocorre o cisticerco bovino. No entanto, que eu saiba, o Ech/nococcus não foi constatado no homem.).
Encontrei dois exemplares de Ech/norhynchus g/gas no intestino de um porco (local).
Nada se deu a conhecer no Brasil sobre a ocorrência de triquinas; em algumas análises dei sempre pela sua falta; entretanto, encontra-se o Tr/chocephalus do porco.
A espécie (provavelmente idêntica) própria ao ser humano é muito difundida; encontrei-a em cerca de 25% dos casos examinados.
O áscaris do porco (A. su/llae Duj.) é muito freqüente; em animais recentemente abatidos, muitas vezes vi que formavam grandes conglomerados, em conseqüência distendendo ao extremo algumas partes do intestino. Também considero essa espécie idêntica à correspondente do ser humano e, quanto a esta, presenciei verdadeiras epidemias caseiras, provavelmente explicáveis pelo abate freqüente de porcos no quintal das casas em questão. Assim, os ascarídeos junto com uma parte do conteúdo do intestino eram espalhados pelo chão, ali encontrando, provavelmente, condições de desenvolvimento; consegui demonstrar, pelo menos uma vez, que havia ovos canelados no canal de escoamento da água da chuva.
Só encontrei o Rhabdonema ou o Anguillula do porco uma vez; contudo, a espécie, muito provavelmente diferente, do ser humano é bastante freqüente (cerca de um terço das pessoas examinadas).
Uma espécie do porco na América do Sul, que, ao que parece, ainda não foi mencionada, encontra-se com muita freqüência nas províncias do Rio de Janeiro e de São Paulo. Trata-se do Stephanurus dentatus s. Sclerostomum pinguicola. Este se encontra muitas vezes em quantidades consideráveis, fazendo grandes túneis, em geral repletos de pus, na gordura da cápsula renal e até no próprio rim; muitas vezes causa espanto a extensão da devastação, a qual é suportada sem maiores sintomas de doença. Num porco morto subitamente, além de um colossal extravasamento sangüíneo peritoneal, havia inúmeros exemplares desse parasita; eu suponho que um desses tenha danificado uma artéria durante a sua peregrinação.
Entre outros nematódeos, encontrei o Ascaris myolare muitas vezes em cães e gatos. No estômago destes últimos deparei duas vezes com alguns machos e fêmeas de uma espécie de Physaloptera, a qual, possivelmente, é idêntica à Physaloptera digitata Schneider de Felis concolor. Contudo, achei a posição das papilas da bursa masculina um pouco diferente, e meus exemplares também eram maiores (até o dobro do tamanho).
No cavalo constatei uma vez o Oxyuris curvula.
Quanto a outros parasitas intestinais, encontrei uma vez, no duodeno do porco, inúmeras formações esféricas microscópicas, que continham no seu interior algumas esferas menores, e que talvez devam ser denominadas coccídeos de conteúdo psoroespérmico.
Finalmente, devo dizer que estas observações ocasionais de modo algum permitem uma conclusão quanto à inexistência de outros parasitas intestinais.
* Trabalho publicado em 1886 com o título “Ueber in Brasilien beobachtete Darmparasiten des Schweines und anderer Hausthiere, sowie über das Vorkommen derselben Arten beim Menschen,” em Deutsche Zeitschrift für Thiermedizin und vergleichende Pathologie (Leipzig), v. 12, n.1-2, p.61-2 (seção intitulada Kleinere Mittheilungen, Breves comunicações). [N.E.]