Helmintologia
Sobre a questão da transmissão da Taenia elliptica
Sobre a questão da transmissão da
Taenia elliptica *
A fim de explicar o meu ponto de vista no que se refere a este assunto, permito-me fazer as seguintes observações adicionais:
No volume II (1887) deste periódico apresentei uma comunicação confirmando que a transmissão da Taenia elliptica não ocorre necessariamente por meio do Trichodectes, conforme evidenciam, assim me parece, de modo indubitável, as experiências de Grassi
(v.II, n.11, p.311). 1 Desse modo, tenciono dar apenas uma pequena contribuição para os materiais de observação, atendo-me, para fins de interpretação do fato, às investigações de Grassi. No entanto, nunca pensei em negar o modo de transmissão citado por Leuckart; parece-me claro, todavia, que as investigações de Grassi sobre a Taenia nana terão que provocar, necessariamente, uma modificação completa nas nossas concepções sobre os hospedeiros intermediários das tênias formadoras de cisticercóides. Porém, o que vale para uma espécie provavelmente também poderá ser aplicado a outra espécie.
Aliás, eu já havia interpretado anteriormente as descrições de Grassi do mesmo modo como Leuckart o fez no seu pós-escrito à minha comunicação, a saber, que o estágio cisticercóide de modo algum é suprimido, apenas se realiza no interior do hospedeiro definitivo; resumindo, ocorre somente um deslocamento cronológico da metamorfose para o hospedeiro definitivo. Tendo em vista a Taenia murina, parece comprovado, quando se faz uma relação entre o tenebrião da farinha e essa solitária, que existe para algumas espécies a possibilidade de um estágio cisticercóide bilocular. Tal suposição parece também mais provável do que a simples separação entre espécies com e espécies sem mudança de hospedeiro, uma vez que aqui, pelo menos, os estágios intermediários provavelmente não se realizam. De propósito, não empreguei a expressão ‘desenvolvimento direto’; porém, também Grassi parece tê-la compreendido apenas como a falta de um hospedeiro intermediário. Ao comparar a Taenia nana com o oxiúro, é provável que só tivesse em mente o fato de que, em ambos, os ovos primeiro abandonam o hospedeiro para em seguida, após nova ingestão, passarem por todo o seu desenvolvimento pós-ovular no mesmo. Certamente, considerou natural que, em se tratando de classes tão diferentes, não poderiam ser iguais as diversas fases do desenvolvimento. Pelo menos assim interpretei o fato quando li o artigo de Grassi. Não pensei num crescimento paralelo das diversas gerações sem o abandono prévio do intestino (sob forma de ovo); no máximo, isso seria admissível se os proglótides tivessem chegado primeiro ao estômago.
Concordo plenamente com Leuckart, quando ele espera o esclarecimento dessas questões apenas por meio de experimentos. Contudo, parece-me justificável levar em consideração também as observações mais clínicas, mesmo se forem a contra-senso das opiniões vigentes. O que lhes falta comprovar no detalhe, poderão, por vezes, suprir pela quantidade. Minhas comunicações foram efetuadas apenas com esta intenção.
* Trabalho realizado em São Paulo e publicado com o título “Zur Frage der Uebertragung von Taenia elliptica,” em Centralblatt für Bakteriologie und Parasitenkunde (Jena), ano II, v.3, n.16, p.489-90, 1888. [N.E.]
1 Lutz refere-se provavelmente ao trabalho de Giovanni Battista Grassi (1887), “Entwicklungzyclus der Taenia nana,” publicado em 1887 em Centralblatt fur Bakteriologie und Parasitologie (v.2, p.305-12). [N.E.]