Helmintologia
Sobre uma espécie do Rhabdonema suíno, bem como sobre o diagnóstico do Rhabdonema strongyloides (Anguillula intestinalis e stercoralis) em seres humanos no Brasil
Sobre uma espécie do Rhabdonema
suíno, bem como sobre o diagnóstico
do Rhabdonema strongyloides
(Anguillula intestinalis e stercoralis)
em seres humanos no Brasil*
Quando, há vários anos, eu pesquisava o histórico da evolução do Ancylostoma duodenale no Brasil, tentei - diga-se de passagem, sem sucesso - infectar porcos com larvas de ancilóstomo e de Rhabdonema do ser humano. Examinei, previamente, as fezes das cobaias, a fim de não ser perturbado pela presença de ovos ou larvas análogas durante o controle. Na primeira cobaia, de cerca de dois meses, encontrei um número bem elevado de ovos muito pequenos, arredondados, cuja casca fina e totalmente transparente deixava perceber um embrião do tipo rabditídio. Naquela ocasião não me foi possível medir os ovos com exatidão, no entanto, constatei que eram muito menores do que os do ancilóstomo. Durante a conservação úmida das fezes bastante secas e consistentes, eu vi a eclosão de inúmeros ovos em poucas horas; a jovem larva evidenciava, nos primeiros estados da evolução, a maior semelhança com as chamadas larvas da Anguillula do homem, as quais conheço muito bem. (O material foi guardado numa grande vasilha de porcelana, que não permitia a invasão de outros nematódeos.)
Quando, no segundo dia, retomei a análise brevemente interrompida, deparei com inúmeros pequenos vermes, mal reconhecíveis a olho nu, os quais só podiam ter saído das larvas citadas. No exame microscópico, ambos os sexos, que pareciam estar presentes em proporção aproximadamente igual, mostravam uma concordância total com os animais do gênero da chamada Anguillula stercoralis, ilustrados por Perroncito. Os animais, muito transparentes, deixavam perceber todas as particularidades com facilidade; além disso, observei o nascimento de embriões com e sem a casca do ovo, bem como ovos segmentados em diversos estágios. Contudo, logo vi que os meus vermes eram muito maiores- pelo menos o dobro do tamanho - do que os descritos por Perroncito.
Após ter guardado diversos exemplares, decidi sacrificar o porco, a fim de estudar a disseminação dos animais matrizes no intestino. Influenciado pelos trabalhos até então publicados, presumi um parasitismo mais facultativo; esperava, portanto, encontrar a mesma forma e poder conservá-la à vontade através do cultivo e acrescentando-a à ração de outros animais.
Antes de mais nada, convenci-me da presença dos pré-citados ovos em todo o trato intestinal, do estômago para baixo. Depois examinei o duodeno quase vazio, contendo apenas mucosidade espessa. O conteúdo foi raspado das paredes, triturado com água, aplicado em camada delgada numa lâmina de vidro, e examinado a uma luz concentrada num espelho côncavo e com incidência oblíqua. No entanto, não encontrei a forma procurada, mas sim, inúmeros exemplares de outro nematódeo, com mais de 1 cm de comprimento e fino como um fio de cabelo; isolei cerca de 50 destes a olho nu. Estavam quase completamente envoltos em muco e estavam presentes sobretudo no duodeno, alguns também na porção superior do jejuno, porém ausentes no estômago, como também no resto do intestino e nos canais biliares.
O exame microscópico evidenciou apenas uma forma do gênero, que continha inúmeros ovos, e que era totalmente análoga à chamada Anguillula intestinalis, exceção feita à diferença no tamanho. Lembrei-me imediatamente das proporções, que eu conhecia, da Ascar/s n/grovenosa, e concluí que também nesse caso estaríamos lidando com uma heterogenia. Naturalmente, as duas formas de Angu/llula do homem teriam que estar nas mesmas condições, e então compreendi por que eu havia encontrado apenas uma forma de larva nas fezes frescas, ao passo que sempre dei pela falta da Angu/llula /ntest/nal/s.
Como esses dados, um tanto surpreendentes, poderiam ser, sem uma justificativa mais precisa, facilmente postos em dúvida, abri mão de sua publicação, esperando poder renovar os meus estudos com mais vagar e com material novo. Contudo, além de dar pela falta do parasita nos inúmeros porcos examinados desde então, logo me convenci de que a conservação em álcool e glicerina diluída tornava esses seres delicados praticamente impróprios para pesquisas mais precisas.
Mais tarde eu soube que Leuckart, num trabalho ao qual não tive acesso na ocasião, defendeu a heterogenia da Angu/llula humana e também mencionou uma Angu/llula do porco. Se, por um lado, a concordância com uma autoridade de tal peso autenticava totalmente a veracidade das conclusões resultantes de minhas observações, por outro lado, sua comunicação parecia obsoleta e supérflua, e por isso desisti de uma publicação de alcance mais amplo.
Concluo, pois, a partir do trabalho de Leuckart, que o Rhabdonema do porco é pouco conhecido e não é caracterizado como espécie própria; permito-me, portanto, retornar às minhas próprias observações, uma vez que me parecem indicar uma espécie independente. Não quero acentuar demais os resultados negativos das experiências com a alimentação de porcos através de forragem contendo larvas do Rhabdonema humano, embora ela provavelmente contivesse muitas larvas maduras de segunda geração; todavia, salta aos olhos que, em lugares nos quais o Rhabdonema é tão freqüente no homem (conforme mostrarei mais tarde), seja tão raramente encontrado no porco, ao passo que este acusa maciçamente Ascaris e Trichocephalus, e que as condições para a infecção sejam as mais favoráveis (falta de latrinas, circulação livre dos porcos etc.). Por outro lado, devo frisar que os ovos da geração intestinal do Rhabdonema do porco só eclodem fora do intestino do animal hospedeiro, o que nunca observei nos do homem ao longo de inúmeras pesquisas (inclusive em crianças pequenas, com um canal intestinal relativamente curto). Aliás, as diferenças no tamanho das formas maduras de ambas as gerações são grandes demais para que possam ser consideradas simples oscilações ocasionais, sob condições modificadas de existência.
Caso os meus dados e as minhas observações se confirmem, seria mais conveniente modificar o nome Rhabdonema strongyloides, proposto por Grassi e aceito por Leuckart, para Rhabdonema hominis, e da mesma forma denominar outras espécies segundo o animal hospedeiro; provavelmente as Anguillula do coelho e da doninha, descobertas por Grassi, também constituem uma espécie independente. Leuckart acrescenta ainda o chamado Ascaris nigrovenosa ao Rhabdonema, ao qual talvez também pertençam algumas formas encontradas vivendo de modo independente.
Aproveito esta oportunidade para transmitir a comunicação, ao que me consta, nova, de que o Rhabdonema do homem também existe na América do Sul. Eu constatei o mesmo em mais de 50 pessoas no Brasil, a saber, em diversos pontos distantes entre si, das províncias do Rio de Janeiro e de São Paulo. Não pode haver dúvida quanto à identidade, uma vez que as larvas que encontrei mostravam conformidade total com as larvas da chamada Anguillula stercoralis, e que, a partir daí, foi possível produzir uma geração rabditídea, igualmente concordante e bissexuada.
Os parasitas de Leuckart provavelmente eram provenientes de Atschin, além disso, recebemos as primeiras informações da Cochinchina, na Ásia; recentemente, o parasita foi encontrado
repetidas vezes em trabalhadores do São Gotardo, 1 de modo que, atualmente - segundo as minhas observações - já existe uma disseminação através de três continentes. Que o parasita passou despercebido em muitos lugares é bem mais compreensível do que no caso do ancilóstomo, que possui um tamanho considerável; só que ele foi encontrado com freqüência justamente em conjunto com este último, com o qual parece partilhar as condições de existência, de modo que podemos esperar a sua presença em todos os países com incidência de ancilóstomo.
A ampla disseminação do Rhabdonema por si só já torna altamente improvável que uma doença tão localizada quanto a diarréia da Cochinchina se fundamente nele. Não se conhece, no Brasil, qualquer doença análoga. Evidentemente constatei, em alguns poucos casos, que a diarréia coincidia com a presença de larvas da Anguillula; no entanto, nesse caso, era bem mais evidente considerar a diarréia como parte da manifestação de outra enfermidade. De qualquer modo, até mesmo a presença de grandes quantidades de Rhabdonema, normalmente não dá motivo para manifestações excepcionais; só se poderia no máximo supor uma relação, quando se tratasse de uma quantidade extrema de rabdonemas, como foi o caso de um dos meus pacientes. Ao que me parece, também foram observados casos de diarréia da Cochinchina sem larvas de Anguillula; se esse fato se confirmar, teremos o experimentum crucis de Anguillula sem diarréia da Cochinchina e de diarréia da Cochinchina sem Anguillula, e poderíamos, com razão, dar por encerrada a hipótese enunciada por Normand e Bavay.
Numa série seqüencial de cem exames fecais, que efetuei em Limeira, província de São Paulo, as larvas foram encontradas 35 vezes, ou seja, em cerca de um terço dos casos. (É sempre necessário presumir um número maior de animais matrizes, já que, em função da proliferação um tanto reduzida destes, só se pode descartar a presença de exemplares isolados através de uma investigação bastante pormenorizada). Setenta e dois dos examinados apresentavam suspeita de ancilóstomo, e setenta exibiam numerosos ovos dele nas fezes. Desses setenta, 29 (41,4%) evacuaram as chamadas larvas de Anguillula. É bastante provável que nos dois restantes o ancilóstomo estivesse presente previamente, tendo sido evacuado pela administração de anti-helmínticos antes do exame; destes, um acusava as larvas; se acrescentarmos estas, teremos 30 de 72 (41,7%) de coincidência de ancilóstomo e Rhabdonema.
Nos 28 casos restantes, ou o exame estava orientado para o Ascaris, ou só foi executado a fim de completar o estudo; aqui, as larvas foram encontradas cinco vezes, isto é, em 17,9% dos casos, duas vezes isoladas (7,1%), duas vezes com Ascaris (7,1%) e uma vez com Trichocephalus (3,6%). Por outro lado, houve coincidência com Ascaris e ancilóstomo em 15 dos 72 casos restantes (20,8%). Somando esses casos, então dos 35 casos das chamadas larvas de Anguillula apenas 17 apresentaram Ascaris (48,6%), ao passo que em cem exames, cinqüenta vezes Ascaris, ou seja, nos pacientes acometidos pelo Rhabdonema, o Ascaris foi encontrado aproximadamente na mesma proporção como nos outros. Nos cinqüenta casos de Ascaris, o Rhabdonema foi encontrado 18 vezes, portanto, novamente na mesma proporção como nos outros pacientes. Por outro lado, em 35 casos de Rhabdonema, o ancilóstomo apareceu trinta vezes, ou seja, com 85,7% de coincidência, enquanto o ancilóstomo, individualmente, esteve presente no máximo em 72% dos casos. Esses números, por menores que sejam, parecem confirmar que as condições de infecção do ancilóstomo e do Rhabdonema são mais próximas do que as do Ascaris, o que na verdade, a priori, é provável. Em todo caso, considerando-se a quantidade presumida de exemplares, a ocorrência de Rhabdonema foi bem maior do que a de Ascaris.
As pessoas infectadas eram quase sem exceção trabalhadores rurais, ou crianças pequenas, o que, no Brasil também vale para o ancilóstomo.
Embora seja provável que a presença exclusiva do Rhabdonema não tenha grande importância, talvez fosse desejável fazer que sejam expelidos (mesmo se apenas por motivos de diagnóstico diferencial), e, em vista disso, comunico minhas experiências a respeito do assunto. Contudo, devo observar que não se pode contar com a descoberta de exemplares expelidos nas fezes, uma vez que estes são pequenos e delicados demais. Por outro lado, constata-se a cura ou a melhora com o desaparecimento constante ou a rarefação das larvas.
O Rhabdonema pode ser expelido com os mesmos recursos usados para o ancilóstomo, e também consegui a eliminação completa de ambos os parasitas em vários casos coincidentes. Mas esta é muito mais difícil no Rhabdonema, e muitas vezes ainda são encontradas larvas depois do desaparecimento de todos os ovos do ancilóstomo. Assim sendo, nem culpo tanto a permanência nos colédocos e no Ductus Wirsungianus, a qual considero póstuma ou pelo menos bastante rara (caso contrário, a retenção das larvas seria a regra); antes a mesma causa que explica o fracasso de muitos tratamentos do ancilóstomo me parece determinante. Isso acontece porque, conforme exporei com mais exatidão em outra parte, esses animais freqüentemente estão envoltos numa mucosa viscosa, estando assim protegidos do contato com os medicamentos que lhes são perniciosos; ceter/s par/bus, quanto menor o parasita, maior será essa proteção.
Nos meus tratamentos utilizei timol segundo um método a ser descrito mais tarde; outros autores administraram o mesmo produto, ou o Extratum aethereum f/l/c/s mar/s, com êxito total em casos isolados.
O caso acima citado, no qual se tratava de um número extraordinariamente grande de parasitas, dizia respeito a uma criança negra de dois anos, cujas fezes esverdeadas, biliares e viscosas, continham pelo menos duzentos embriões por centigrama; estes se amontoavam em verdadeiros ninhos de até trinta ou quarenta. Estavam num estado de evolução mais anterior ao que é encontrado normalmente, o que talvez possa ser explicado pelo peristaltismo mais intenso. Nesse caso, havia um catarro intestinal violento, que poderia ser facilmente atribuído aos parasitas. No entanto, a criança sofria de uma doença (ainda não descrita), a cujos sintomas, que estudei meticulosamente, pertence também a gastrenterite.
* “Comunicação provisória do Dr. med. Adolpho Lutz, médico em Limeira” publicada com o título “Über eine Rhabdonemaart des Schweines, so wie über den Befund der Rhabdonema strongyloides (Anguillula intestinalis und stercoralis) beim Menschen in Brasilien,” em Centralblatt für Klinische Medicin, 6.6.1885, v.6, n.23, p.385-90 (separata com paginação própria: 1-5). Resenhas sobre este artigo foram publicadas em Gazette Hebdomadaire de Medecine et de Chirurgie (Paris), v.22, n.4, p.653, 1885; Recueil de Médecine vétérinaire (Paris), v.64, n.7, p.47-8, 1887; Annales de Médecine Vétérinaire (Bruxelas), v.35, n6, p.343. [N.E.]
1 Túnel ferroviário que liga a Suíça à Itália, atravessando a cordilheira dos Alpes. Com 15 km de extensão, começou a ser perfurado em 1878 e foi aberto ao tráfego em 1882. [N.E.]