Helmintologia

Adolpho Lutz · Capítulo 65 de 71

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Helmintologia

Beitrag zur Kenntnis der Ontogenie der Strigeiden

Contribuição ao conhecimento da

ontogenia das Strigeidas*

 

I - Ontogenia de Hemistomum trilobum

(Rudolphi, 1819)

(Com as estampas LXXXVII-LXXXVIII).

O pequeno trematódeo chamado Hemistomum trilobum foi descoberto por Bremser em Carbo cormoranus. Deu quatro exemplares a Rudolphi que os descreveu com o nome de Distomum trilobum, mas reconheceu as suas afinidades com o gênero Holostomum. Diesing os colocou no seu gênero Hemistomum cujos caracteres, entretanto, não eram ainda bem reconhecidos. Dujardin, que não parece ter examinado a espécie, a deixa no gênero Distomum recapitulando a descrição de Rudolphi. Rudolphi e Diesing indicam um comprimento de meia linha, Dujardin de 1,25 mm.

Em 1857 Wedl descreveu exemplares colhidos em Viena na mesma ave ou em espécie próxima. Seus desenhos são característicos.

Stossich (1890) diz ter encontrado a mesma espécie em Botaurus stellatus (socó europeu). Provavelmente, a espécie não é rara como se poderia concluir da leitura, porém escapa facilmente à observação por ser pequena e de forma pouco notável.

Na sua memória sobre as Hemistominae, Krause se refere aos exemplares originais de Rudolphi que achou muito opacos, como também mostra o seu desenho. Indica um comprimento total de 0,78-0,84 mm, sendo o dos ovos 0,081 e a sua largura 0,051. (Wedl dá 0,0084 e 0,057). Krause também suspeita da existência de glândulas cefálicas nos lóbulos laterais da extremidade anterior. Brandes cita o H. trilobum como parasito de Pelicanus onocrotalus, indicando um comprimento de 3-4 mm. Isto explica por que deixei de identificar os exemplares, observados por mim no biguá, em uma garça e em um socó, antes de verificar a literatura já citada, baseando-me apenas na memória coletiva de Brandes. Contudo, Krause mostrou que Brandes estudou uma espécie bem diferente, apenas um tanto parecida na formação da extremidade anterior. Desta ele deu uma descrição com desenho, denominando-a Hemistomum confusum.

Consultando as obras aqui citadas, verifiquei logo que, a não ser a distância do habitat, nada falava contra a identidade dos meus exemplares da região do Rio de Janeiro com o Hemistomum trilobum. Também a ocorrência de vermes parasitários, idênticos ou de distinção discutível em duas partes muito afastadas do mundo, mas em hospedeiros relacionados, não é isolada, e nesses casos achei também que as ontogenias concordavam quando se tornavam conhecidas.

Alimentando experimentalmente uma garça branca e um socó (Nycticorax violaceus) com barrigudos (Poecilia vivípara) da região do Instituto, já em 1921 achei, ao lado de um pequeno Neodiplostomum e de uma Ascocotyle, Hemistoma pequenos que, com raríssimas exceções, não continham ovos maduros, porém, como provam as preparações conservadas, eram bastante desenvolvidos e não diferiam do H. trilobum. Mais tarde encontrei num biguá (Phalacrocorax brasiliensis) da mesma região dois exemplares adultos com ovos maduros assaz numerosos.

Tendo mais interesse no estudo das ontogenias que na constatação de espécies novas ou ainda não observadas entre nós, e sendo também o material escasso, não prossegui no estudo dessa espécie antes de ter encontrado os seus primeiros estágios.

Em 4 de março deste ano meus estudos sobre cercárias me levaram à descoberta da forma extraordinária, representada nas Figuras 1 e 2. Reconheci que se tratava de uma dicranocercária notavelmente deformada. O corpo, pequeno e muito escuro, não mostrava sua estrutura, porém a parte ímpar da cauda era transparente, muito comprida e dilatada em forma de fuso; os ramos terminais achatados eram granulosos e um tanto deformados.

Verificada essa degeneração insólita, tratei logo de isolar o molusco produtor das dicranocercárias. Era um exemplar bastante novo de meu Planorbis immunis. As cercárias recém-nascidas mostravam o tipo das strigeidas, tendo a cauda o tronco cilíndrico bastante comprido. A dilatação gradual não se fazia esperar muito. Era constante e atingia pouco a pouco um alto degrau. Parecia existir uma cavidade pré-formada como na cercária de Wright-Leuckart, da mirabilis de Braun e na anchoroides de Ward, mas ela nunca continha o corpo do verme que se conservava na extremidade anterior. Contudo, a minha observação indica que provavelmente também essas cercárias devem entrar nas strigeidas.

O corpo da nossa cercária mostra anteriormente uma escavação profunda em forma de funil, que ocupa o lugar de uma ventosa oral e, no fim desta, um órgão de paredes grossas que podia corresponder a uma faringe. O acetábulo aparece um pouco para trás da transversal média. Os cecos se estendem até perto da extremidade posterior. Em redor do acetábulo há, de cada lado, umas quatro células glandulares grandes. Na parte anterior do corpo há acúleos finos. Todos os órgãos são hialinos, porém de percepção difícil, e as estruturas ficam logo apagadas pela formação de grânulos abundantes e muito finos, tornando o corpo da cercária opaco e pardacento. A mobilidade diminui sem cessar completamente. A cauda, às vezes, se destaca já nesse período.

Como quase todas as outras, esta dicranocercária se forma em esporocistos filiformes bastante longos que foram observados apenas no Planorbis immunis. Sendo os moluscos infectados geralmente novos, esse fato pode explicar, pelo menos em parte, a dificuldade de conservá-los vivos por algum tempo. Notou-se que a saída dessas cercárias era menos regular e abundante que em outras espécies.

O tronco da cauda, dilatado em forma de balão, sempre parece conter um fluido claro. Os dois segmentos finalmente perdem a sua mobilidade e as cercárias parecem incapazes de penetrar pela pele de girinos ou peixinhos.

A cauda intumescida parece muito hialina e reflete a luz, formando espelho quando a cercária, sustentada pelos ramos caudais, fica dependurada da superfície da água. O tecido da cauda é refratário a matérias corantes, apenas os ramos da cauda mostram as mesmas afinidades que o corpo.

Experiências de confrontação das cercárias com peixinhos e girinos produziram uma infecção pouco intensa, porém muito interessante. Não há infecção pela pele, mas, ao contrário do que se observou nas outras cercárias de strigeidas, estas se enquistam logo. Os quistos já no dia seguinte são encontrados livres na cavidade abdominal, o que indica uma infecção pelo intestino. Os quistos têm uma forma ovóide regular, com cápsula exterior grossa, transparente e gelatinosa. Mostram estratificação concêntrica, sendo a camada mais central especialmente hialina.

Para as experiências serviram exemplares de barrigudos (Poecilia vivipara) de vários tamanhos e girinos de Leptodactylus ocellatus. Os primeiros foram observados engolindo as cercárias, e nos girinos a infecção cutânea foi excluída.

Em animais não infectados, tanto em girinos como em peixinhos, aparecem em seguida à confrontação, quistos, caracterizados pelo invólucro gelatinoso próprio dos quistos de strigeidas. Estes contêm outro quisto ovóide apenas membranáceo, completamente repleto de massa finamente granulosa e sem estrutura. Se, ao contrário, girinos e barrigudos eram pegos em águas que forneciam os Planorbis infectados, continham até 8 ou 9 quistos, número não atingido nas infecções experimentais.

O conteúdo do quisto interior recém-formado (Fig. 3) se conserva inalterado durante uma série de dias. Depois de 10 a 20 dias observam-se ocasionalmente movimentos lentos e o quisto não aparece mais completamente cheio. Distingue-se, então, a parte anterior larga e a posterior estreita e dobrada para trás, excepcionalmente também uma indicação de ventosa. Indubitavelmente, o que se passa no quisto é uma metamorfose completa, análoga à das metacercárias pré-císticas das strigeidas.

Mesmo nos quistos mais antigos, é difícil isolar o conteúdo do quisto interior, mas não custa fazer estalar o exterior. Fiz uma série de experiências com camundongos, ratos, filhotes de gambá, pombinhos e patinhos. Apenas num camundongo branco e num patinho logrei obter algumas larvas livres, com contornos lembrando o Hemistomum trilobum. Ainda apareciam pálidas, constituídas por grânulos muito finos e sem estrutura nítida (Fig. 4). Todo o corpo parecia macio.

A forma total da larva corresponde à do útero humano, tanto mais que a porção posterior, defletida no quisto, pode conservar-se um pouco desviada e lembra, na sua forma, a cervix uteri.

Uma vez bem verificada a forma desses trematódeos novos, só se podia pensar no Hemistomum trilobum.

Eu passei agora à última experiência para a qual dispunha de um Nycticorax violaceus, criado desde pequeno com carne crua de vaca. Os seus excrementos não continham ovos de strigeidas. Esta ave devorou espontaneamente uns cinqüenta girinos de um lote, em que os indivíduos examinados apresentavam geralmente alguns quistos mais desenvolvidos. O exame, feito depois de oito dias, mostrou apenas quatro exemplares vivos da espécie esperada. Pareciam adultos, mas apenas um deles continha ovos maduros em número de dois. Os vitelários eram muito pálidos e moles. Tratados com ácido ósmico, os tecidos tornaram-se mais resistentes e os vitelários mais distintos. A vesícula espermática era cheia. Fixados em estado comprimido, alcançavam o comprimento de 3 mm.

Das minhas experiências podia-se concluir que a garça branca e o socó, alimentados apenas com carne crua de vaca, permitem o desenvolvimento do H. trilobum, mas que os exemplares são, muitas vezes, expelidos antes de estarem completamente maduros. Se tivesse demorado mais com o exame, o resultado podia se ter tornado completamente negativo. Convém, todavia, ponderar que certos insucessos podem ser atribuídos a um estado imperfeito de madureza dos quistos.

Embora não haja motivo para separar a minha espécie da de Rudolphi, não pode entrar nos gêneros Alaria ou Hemistomum (s.s.) como resulta da descrição que segue e que contém os caracteres do gênero. Por este proponho o nome Hysteromorpha, que não parece ter sido usado antes e se refere à semelhança de seu contorno com a do útero humano.

A Hysteromorpha triloba fresca ou fixada apenas em compressão moderada é uma das hemistominas menores, medindo geralmente 1-2 mm ou pouco mais. Em vista ventral ou dorsal tem o contorno de uma pêra invertida. O primeiro segmento é escavado em forma de saco ou funil e obliquamente truncado, de modo que a parede ventral termina em contorno semicircular, mais curto do que o dorsal. Um tanto ventralmente da parede posterior há, de cada lado, um lóbulo arredondado cuja posição lembra a dos tentáculos de Alaria. São geralmente curtos e nem sempre excedem a parede dorsal, mas parece que podem alongar-se bastante. Entre eles, porém um tanto avançado em sentido ventral, acha-se a extremidade anterior lingüiforme e móvel que se pode chamar cotilóforo. Contém apenas um órgão muscular que parece a ventosa oral. Não há traço de faringe e o acetábulo é pelo menos muito indistinto, se não faltar completamente. O órgão adesivo (que aqui mostra ainda a forma primitiva de ventosa e foi considerado como acetábulo por Wedl) é deslocado um tanto para diante e parece em forma de disco achatado com fenda longitudinal. A sua base contém um plexo vascular que no exame microscópico deixa passar mais luz, produzindo assim a impressão de outras fendas. Krause menciona na descrição do adulto um contorno circular, sem discutir a sua significação.

Quanto aos outros órgãos, seguem geralmente o tipo dos de outras strigeidas. O intestino, cujo funcionamento é duvidoso, não aparece. Também só excepcionalmente consegui ver o ovário no lugar de costume. Os vitelários, já antes de haver ovos maduros, são bem desenvolvidos, enchendo a parte anterior do corpo sem se limitar a este. Também a espermatopoiese precede bastante a formação dos ovos maduros. Estes seguem o tipo do gênero Strigea, mas não alcançam o tamanho, observado nas espécies maiores. A casca já antes da postura parece distintamente amarela. O número um dos meus exemplares era de 15 e provavelmente pode ser maior. Os testículos bem desenvolvidos no sentido transversal, menos no longitudinal, têm uma forma de ferradura com contorno um tanto irregular, mas não distintamente lobado. Atrás deles pode aparecer a vesícula espermática bastante cheia, o útero pouco nítido e um cone genital e musculoso.

O que mais caracteriza a Hysteromorpha é a ausência de uma constrição constante que separa os dois segmentos. Falta mesmo quando a extremidade posterior se conservou defletida. Em indivíduos novos, os lóbulos laterais são freqüentemente mais curtos que o cotilóforo saliente. O segmento anterior pode mostrar a cavidade dilatada posteriormente. Assim aparece uma semelhança com exemplares novos do gênero Apharyngostrigea.

Em certo período do estado pós-cístico a região imediatamente posterior à grande cavidade é ocupada por um corpo maciço que se tinge facilmente e tem a estrutura que se observa na glândula que nas strigeidas ocupa o mesmo lugar. Parece pertencer ao segundo segmento, mas a secreção deve entrar na cavidade do primeiro e ter uma função digestiva importante. Nesse período o sistema genital é pouco desenvolvido e recalcado para o fim da parte posterior que freqüentemente é defletida. Mais tarde aquele órgão tão volumoso desaparece completamente e os órgãos recalcados chegam mais para a frente.

Estas observações sobre a ontogenia de Hysteromorpha indicam nova orientação para Alaria alata. Como já Natterer, encontrei essa espécie (ou outra muito parecida) em Thoas cancrivorus. Dois desses “cachorros do mato,” procedentes de Lassance, mostravam no intestino grande número desses hemistomíneos. Ruszkowski criou as cercárias da espécie européia em Planorbis vortex e supõe que elas entrem diretamente no hospedeiro definitivo, fato nunca verificado em cercárias de strigeidas. Eu me atrevo a prognosticar uma ontogenia muito semelhante à da Hysteromorpha triloba para as Alaria e as espécies separadas sob o nome de Proalaria e observadas em aves aquáticas.

Tendo-se esgotado o material em conseqüência de seca prolongada, estas observações foram interrompidas até o princípio de junho, quando encontrei no cavo peritoneal de um tamboatá (Callichthys callichthys) numerosos quistos de H. triloba em vários estados de evolução. Nos quistos mais volumosos a cavidade interna era apenas em parte ocupada pelo verme muito ativo e continha abundantes grânulos de excreção, como se obteve também pela compressão do verme excapsulado. Depois de tirar o verme do quisto (o que agora era mais fácil) e aplicar uma compressão que espremia parte das massas excretórias, o verme se tornava mais claro, mas ainda era finamente granulado e sem estrutura apreciável. Essa aparência depois da coloração mostrava um desenvolvimento semelhante ao de exemplares mais novos obtidos de socó.

Desses quistos foram dados a um segmento Nycticorax violaceus cerca de 30 em 2, e mais uns 20 em 9 e mais outros 20 (de outro tamboatá), em 13 de julho, quatro dias depois. Ambos os peixes procediam de uma poça bastante distante da que forneceu os Planorbis infectados, mas os tamboatás podem migrar por terra para outra água quando o número das poças é reduzido pela seca, como se deu então.

Infelizmente o socó foi encontrado morto já na manhã do dia 15. Não obstante um princípio de podridão, conseguiu-se obter da primeira parte do intestino delgado cerca de trinta vermes, pequenos e novos, mas bem conservados. Tinham geralmente a forma de pêra invertida. Alguns lembravam muito a forma de strigeinas novas, mas diferiam pela forma do aparelho adesivo e a falta de constrição intersegmental.

Com esse material verificavam-se bem as condições singulares já observadas nas preparações antigas, mas cuja confirmação era muito desejada. Havia um estado evolutivo em que, logo atrás da cavidade do primeiro segmento já bem desenvolvido, se acha um órgão bem volumoso e fácil de tingir-se. É um corpo arredondado ou um pouco alongado em sentido transversal cuja estrutura corresponde claramente à da glândula observada, na mesma posição, nos adultos strigeinas. Não obstante o seu tamanho relativamente maior, parece mais tarde desaparecer completamente, enquanto os testículos, menos desenvolvidos e recalcados em direção caudal, se tornam mais distintos e ocupam a posição definitiva. Não se percebe, todavia, um ovário adiante deles. Os vitelários são bem desenvolvidos e o cone genital é bem distinto. Esse estado de desenvolvimento algumas vezes já se observa no quisto.

A existência, embora passageira, desse corpo glandular pode ser considerada como argumento adicional para separar Hysteromorpha das outras hemistominas tanto que nelas não se acha nada de semelhante.

 

Bibliografia

Rudolphi, K. A., Entozoorum Synopsis. Berlim, 1819.

Dujardin, F., Histoire naturelle des Helminthes… Paris, 1845.

Diesing, C. M., Systema Helminthum I. Wien, 1850.

Wedl, R., Anatom. Beobacht. ueber Trematoden, Sitzungsber. d. k. Akademie d. Wissensch.mathem.-naturw. Cl., Bd. 26, I. Wien, 1857.

Stossich, M., Note parasitologische. Trieste, 1897. Brandes, G., Die Familie der Holostomiden. Zoolog. Jahrb. Abt. f. Systematik, 5. Jena 1890. (Dto. sep.).

Krause, R., Beitrag zur Kenntnis der Hemistominen. Zeitschr. f. wissenschaftl. Zoologie, Bd. 112, 1915.

 

Explicação das estampas LXXXVII-LXXXVIII

ESTAMPA LXXXVI

Figs. 1 e 2 - Cercárias de Hysteromorpha triloba, algum tempo depois de sair do caramujo. x 67.

Fig. 3 - Quisto em começo de desenvolvimento. Quisto exterior com as camadas periféricas escuras, as outras hialinas. x 67.

Fig. 4 - H. triloba, de Ardea leuce, antes da formação de ovos maduros. x 64.

Fig. 5 - H. triloba, criada em Nycticorax, com tamanho de adulto, porém sem ovos maduros, tratada com ácido ósmico e incluída em glicerina diluída. x 30.

Fig. 6 - H. triloba com ovos maduros de biguá (Ph. brasiliensis). Preparação colorida. x 47.

ESTAMPA LXXXVIII

Fig. 7 a 9 - Desenhos de Wedl. Em 2/3 do tamanho original.

Fig. 10 - H. triloba da última experiência com Nycticorax violaceus: Vê-se a glândula digestiva muito grande e um tanto esmagada. Preparação colorida. x 58.

Fig. 11 - H. triloba de Ardea leuce. Preparação colorida, mostrando claramente os vitelários e a glândula digestiva. x 58.

Fig. 12 - Cauda, destacada da cercária, em dilatação maximal, tratada com ácido ósmico e incluída em glicerina diluída. x 67.

Nota: As fotografias originais, tiradas por J. J. Pinto, foram reduzidas nas estampas a 2/3.

 

Ontogenia do gênero Apharyngostrigea Ciurea,

1927

Para a Strigea cornu, encontrada em garças européias e já conhecida de muito tempo, Ciurea fez um novo gênero, baseado principalmente na ausência completa da faringe. Além dessa espécie, Szidat enumera mais uma St. brasilianas, encontrada em material, obtido por Natterer, de Cancroma cochleare, garça noturna que se distingue das outras espécies apenas pelo bico curto e muito largo, sendo no resto semelhante na aparência e nos hábitos. Também cita uma espécie de Johnston (A. simplex), achada numa garça australiana. Eu tenho material abundante de uma espécie, encontrada aqui em garças diurnas e noturnas, que não se distingue claramente de cornu, e me inclino a pensar que em todos esses casos se trata apenas de uma só espécie, cosmopolita com os hospedeiros que são ardeídeos de várias espécies.

As espécies cornu e simplex, segundo Szidat, têm os testículos lobados; os de brasiliana, de Cancroma cochlearia (vulgo “arapapá”) seriam quase redondos. Nos meus exemplares de Ardea leuce e de Nycticorax violaceus encontro transições. Um deles tem mesmo testículos ramificados; em outros parecem bem lobados sendo o ovário ora redondo, ora ovóide, ora chanfrado na face caudal. Variações dessa natureza se observam também em outros trematódeos, por exemplo em Eurytrema pancreaticum. As outras diferenças parecem pouco importantes, visto que Szidat também dá as espécies como muito parecidas. Nem se pode falar em variedades características. Seria possível, embora seja pouco provável, que apenas os meus exemplares entrem na espécie cornu e que os do “arapapá” pertençam à outra. Sempre se poderá supor que todas as espécies de Apharyngostrigea tenham uma ontogenia muito semelhante à que determinei para a nossa espécie. Esta, revelada por observações e experiências, é a seguinte:

Esporocistos e cercárias são formados em caramujos de água doce e acompanham o tipo de outras strigeidas, as cercárias entram depois do estado livre em caramujos aquáticos da mesma ou outra espécie onde - depois de metamorfose demorada e completa -formam Tetracotyle, parecidas à típica. Estas, quando dadas a hospedeiros idôneos, alcançam o tipo adulto com formação de ovos em cerca de duas semanas.

Essa evolução, relativamente simples, com metamorfose e formação de Tetracotyle até hoje foi experimentalmente constatada por vários autores para os gêneros Apataemon e Cotylurus de Szidat e agora em Apharyngeostrigea Ciurea, 1927. Todos esses gêneros faziam parte de Strigea.

O que Ercolani e Mathias chamaram Strigea tarda parece corresponder a Cotylurus cornutus, segundo Szidat, que também observou a evolução dessa espécie. Eu criei da minha Dicranocercaria molluscipeta uma Tetracotyle, parecida com a típica e desta em patinho o que parece ser o Apatemon graciliformis Szidat e um outro Apataemon de Dicranocercaria bdellocystis, enquistado em hirudineas. Szidat diz ter criado também o Cotylurus cornutus de Tetracotyle de sanguessugas e o Apataemon gracilis de outras Tetracotyle dos mesmo hospedeiros. Van Haitsma observou a ontogenia de Cotylurus michiganensis La Rue, que tem por segundo hospedeiro um peixinho de lago e por hospedeiro final uma gaivota. Distinguem-se mais três espécies de Cotylurus de Laridae e mais uma de outras aves marinhas. Mesmo em se tratando sempre de espécies distintas, é lícito supor-se que a ontogenia seja semelhante. Quanto ao gênero Strigea em sentido mais estreito, já conheço a ontogenia de Strigea vaginata que é bem diferente, porque o enquistamento se faz apenas no terceiro hospedeiro. O mesmo deve se dar com Strigea strigis que criei em aves de rapina de Tetracotyle com quistos de forma ovóide, formados nos tecidos de uma Sterna.

A história da minha observação sobre a ontogenia do gênero Apharyngostrigea é a seguinte:

Tendo observado, saindo de Planorbis immunis, cercárias do tipo de Strigea, verifiquei que infectavam os mesmos moluscos, passando-se tudo como na Dicranocercaria molluscipeta de Apatemon molluspeta. Deixando os Planorbis infectados no mesmo aquário que os outros, estes pouco a pouco se infectaram, até que muito tempo depois todos eles continham Tetracotyle parecidas com a típica e quase sempre em grande número. Procedendo a experiências verifiquei que essas não se tornaram adultos em pombinhos e patinhos, o que confirmou a suspeita de que as Tetracotyle de Planorbis podiam pertencer a mais de uma espécie. Depois de outras experiências malogradas, dei a um Nycticorax violaceus três dos últimos Planorbis, que não deviam conter menos de cinqüenta Tetracotyle bem maduras.

O resultado foi positivo, aparecendo os primeiros ovos depois de 14 dias e continuando a aumentar depois. Passados 17 dias o socó foi examinado, fornecendo exemplares adultos e típicos de Apharyngostrigea. Uma infecção anterior foi excluída tanto pela alimentação como pelo exame de fezes.

Assim fica demonstrado que os ardeídeos se infectam por quistos de moluscos de água doce e não de peixinhos e batráquios.

Vista a falta da faringe no verme adulto, sinto não ter verificado se o mesmo se dava na cercária, o que, todavia, é duvidoso, vista a metamorfose radical que se observa nas Strigeinae.

A falta da faringe percebe-se bem nos primeiros estados depois do enquistamento, encontrados com bastante freqüência em experiências com ardeídeos que não estiveram em cativeiro.

A literatura completa do gênero Apharyngostrigea e as suas espécies, acompanhada de desenhos originais, encontra-se nesta memória:

Szidat, Lothar. Beitraege zur Kenntnis der Gattung Strigea Abildg. I & II. Zeitschrift fuer Parasitenkunde, Heft IV e V., Berlim, 1829.

 

* Trabalho de Adolpho Lutz submetido à publicação a 9 de setembro de 1931, e publicado aquele mesmo ano nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, v.25, n.4, em português (p.333-42) e em alemão (p.343-53), com o título “Beitrag zur Kenntnis der Ontogenie der Strigeiden. I - Ontogenie von Hemistomum trilobum (Rudolphi, 1819);” estampas n.87 e 88. [N.E.]