Humanização dos cuidados em saúde

Suely Ferreira Deslandes · Capítulo 3 de 18

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Humanização dos cuidados em saúde

Parte I - Humanização dos cuidados: explorando conceitos e conexões disciplinares

Parte I - Humanização dos cuidados:

explorando conceitos e conexões

disciplinares

 

1 - Humanização: revisitando o

conceito a partir das contribuições da

sociologia médica

 

Suely Ferreira Deslandes

Em diversas ocasiões ouvi depoimentos de pessoas afirmando que o debate sobre a humanização dos cuidados em saúde é uma espécie de novo modismo ou conceito de ocasião, criado para nomear uma suposta óbvia vocação dos cuidados. Desapontando tais opiniões, devo esclarecer que o debate, esforço conceitual e luta por novas possibilidades de organização desses cuidados não são de forma alguma novos no campo da saúde. Suas nuances marcam, entretanto, a historicidade não só dos argumentos e sentidos envolvidos, das tradições teóricas, mas das relações hierárquicas, estruturas e modelos de comportamento em que se inserem os personagens mais constantemente invocados neste campo: profissionais e pacientes.

O objetivo deste artigo é, portanto, recapitular um pouco da tradição teórica do debate da humanização, tomando como referência textos dos anos 70 do século XX com base no enfoque da sociologia médica. Procuramos apenas tangencialmente confrontar alguns aspectos valorizados por essa literatura com o foco das reflexões brasileiras atuais.

Revisitar esse debate nos mostra a persistência de alguns dilemas éticos, morais e ideológicos. Sua constância pode ser explicada seja pela complexidade da reflexão que envolve (Em que consiste humanizar o cuidado de saúde? O que seria desumanizá-lo?), seja pela permanência de certas estruturas que alicerçam a produção de cuidados em saúde e que, portanto, reproduzem e atualizam as dinâmicas relacionais aí presentes. Olhar para as discussões das décadas anteriores nos mostra ainda a permanência de alguns conceitos e modelos explicativos neste campo. Indica, por outro lado, o amadurecimento de certos questionamentos, o abandono de outros e a incorporação de distintas tradições teóricas e disciplinares.

A descrição de um conjunto de práticas, lógicas e interações que poderiam ser reconhecidas como fatores de desumanização estará presente em estudos realizados desde os anos 50 por diversos campos da saúde (Casate & Corrêa, 2005).

Consideramos, entretanto, que a produção da sociologia médica norte- americana constitui uma referência histórica importante, com contribuições pioneiras ao esforço de conceituar a humanização ou desumanização do cuidado em saúde, tendo ainda como ambição a expectativa de consolidar um modelo teórico capaz de guiar investigações. Ao contrário dos textos das décadas anteriores que enunciavam o termo 'desumanização' ou denunciavam eventos assim considerados, na década de 1970 registra-se a eleição dessas relações e práticas como um objeto de estudo sistemático da sociologia médica.

Observamos alguns trabalhos que no início dessa década já agregavam em seus modelos descritivos ou explicativos (de forma mais ou menos articulada) diversos fatores de ordem estrutural - tais como a lógica da formação profissional na área biomédica, a organização dos serviços, as estruturas de hierarquia social e da provisão de cuidados - aos fatores de ordem interacional, mencionando as relações de conflito, cooperação e subordinação entre profissionais e pacientes.

Tomamos como marco do debate o simpósio americano intitulado Humanizing Health Care (Humanizando o Cuidado em Saúde), ocorrido em São Francisco em 1972. Esse encontro contou com centenas de participantes, entre profissionais da saúde e das ciências humanas, e dele derivou a publicação com a mesma denominação (Howard & Strauss, 1975) e que reuniu históricos nomes da sociologia médica norte-americana, tais como Eliot Freidson, Anselm Strauss, Sol Levine, David Mechanic, entre outros.

Um dos esforços desse encontro e da publicação foi o de conceituar, ou pelo menos identificar, o que seria a humanização ou desumanização do cuidado em saúde e as possíveis maneiras de implementar cuidados humanizados. Nesse simpósio, ocorrido há mais de trinta anos, já se discutia com base em estudos e reflexões consolidadas nas décadas anteriores o papel de fatores estratégicos para a (des)humanização do cuidado, relacionando-os: à relação médico-paciente; à formação médica; à comunicação e acesso à informação no processo terapêutico; às relações hierárquicas e de poder na produção do cuidado e na tomada de decisões; aos fatores psicológicos e subjetivos envolvidos (Geiger, 1975; Howard, 1975; Leventhal, 1975; Howard & Tyler, 1975)

Esse debate conta com um background acadêmico da sociologia médica norte-americana das décadas anteriores. Nos anos 50 a análise parsoniana fundamentara a leitura funcionalista dos papéis do médico e do doente em dado sistema social, lançando luz sobre o cuidado ao enfermo a partir de expectativas da sua função social e chamando a atenção para a interiorização das formas de controle social. Nessa década também se consolidam como temática nobre da sociologia médica a formação e a carreira médica, cujos estudos iniciados antes dos anos 40 terão grande avanço desde então. Em termos de escola sociológica, serão as contribuições da tradição interacionista, que se expandem neste campo nos anos 60, que darão o verdadeiro substrato para a reflexão pioneira apresentada nos EUA sobre a humanização.

Alguns destaques são inevitáveis, tais como a investigação de Goffman (1961) que retratará os intensos processos de despersonalização ocorridos nos hospitais psiquiátricos (as 'instituições totais') e permitirá, posteriormente, indagar em que medida tais mecanismos se mostram presentes nos demais hospitais. Sua análise sobre a "carreira moral do paciente de doença mental", trazendo as reflexões sobre a construção de uma nova identidade, transitando entre os domínios pessoais e públicos, entre o self e a sociedade, remodelando sua imagem e seu comportamento, irá apoiar os estudos sobre a construção de novas identidades no percurso terapêutico e o papel dos agentes de saúde nessa modelagem.

Em toda a década de 1960 serão produzidos estudos sobre o comportamento do doente seja diante da doença, de seus familiares, do sistema de saúde e seus agentes, seja na busca de ajuda ou no próprio processo terapêutico (Nunes, 1999). Destacam-se ainda os estudos voltados para o 'comportamento na doença' (no original formulado por David Mechanic, o 'illness behavior'), analisando os significados do estar doente, os sentidos atribuídos às diferentes doenças e à procura de ajuda médica. Tal perspectiva será estratégica, como dizia Mechanic, pois "nos ajuda a entender as inconsistências entre a racionalidade médica e a resposta dos indivíduos" (apud Nunes, 1999:126).

A tradição materialista e toda sua crítica ao sistema de saúde, ao seu modus operandi e à ação de seus agentes na reprodução do sistema capitalista e nas relações de desigualdade e subordinação impostas por este modelo, a análise sobre a forma de organização do trabalho no interior do sistema de cuidados viriam a ser agregadas posteriormente, já na segunda metade da década de 70. Portanto, sua presença e colaboração se notam apenas tangencialmente nesses textos iniciais.

Nessa coletânea de textos observamos uma mui tênue influência da perspectiva materialista crítica na análise de H. Jack Geiger, um médico e professor de medicina preventiva. Geiger (1975) irá criar um modelo explicativo sobre a desumanização no sistema médico que articula três ordens de causas: a) a ordem social, considerada por ele como desigual, racista e exploratória, cujas lógicas e critérios segregacionistas influenciariam o sistema médico; b) a racionalidade científica e tecnológica ocidental cujas tendências à fragmentação, ao hermetismo e à especialização seriam obstáculos a uma visão holista do ser humano, além de impedir o acesso à compreensão e a conseqüente participação na tomada de decisões médicas; c) a subcultura médica e a organização da profissão médica que invocam os estudos de Freidson (1970) sobre suas formas de auto-regulação e proteção contra a crítica e a supervisão externa, as barreiras de comunicação existentes na relação médico-paciente e a formação médica.

O modelo de Geiger, embora extremamente genérico, sem definir o próprio conceito de desumanização, tem o valor de prover uma visada estrutural, conectando desde a ordem social até a das relações face a face e as relações entre médicos e pacientes. Alertaria ainda para a sinergia ou, melhor dizendo, a porosidade entre as lógicas culturais e ideologias dominantes e as práticas cotidianas nos sistemas de saúde.

O esforço de produzir modelos explicativos tem ainda o texto da socióloga Jan Howard (1975) como importante referência, por ser um dos primeiros trabalhos propostos no campo da sociologia médica nesse período para a conceituação e análise da humanização do cuidado. A autora diagnosticava na época o uso flexível e pouco rigoroso desses termos e a necessidade de uma conceituação tal que permitisse a operacionalização dessa noção em variáveis de pesquisa, tornando-a discernível das demais. Howard (1975), em ampla revisão bibliográfica de textos dos anos 60 e início dos anos 70, apresentará um modelo identificando 11 práticas produtoras de desumanização dos cuidados e oito práticas consideradas humanizadoras, já identificadas pelos pesquisadores em estudos anteriores e na literatura de narrativas de pacientes e médicos. Cada uma delas merece ser analisada ainda que brevemente, pois embora hoje tenhamos outros elementos e cenários, o seu debate continua vigoroso.

Um dos primeiros significados da desumanização apresentados seria o de "tratar pessoas como coisas" (thinging), indicando a persistente ação de não reconhecer o doente como pessoa e sujeito, mas como objeto da intervenção clínica. Nessa racionalidade as pessoas doentes seriam vistas como um conjunto de necessidades padronizadas, atendidas por serviços igualmente estandardizados. Fica patente que a conseqüência dessa prática é a destituição de poder da pessoa doente, além do não reconhecimento dos seus sentimentos, levando a uma ausência de reciprocidade com seus cuidadores.

A "desumanização pela tecnologia" indicaria as situações em que o cuidado seria predominantemente realizado por intermédio de máquinas e procedimentos, de tal forma que a interação entre doente e cuidador seria considerada eventual, suplementar, dispensável ou mesmo ausente.

A pesquisa clínica também poderia levar a uma forma de "desumanização pela experimentação", identificada pela sarcástica expressão segundo a qual trata-se "people as guinea pigs". Essa conceituação denuncia as muitas formas antiéticas de pesquisa experimental com seres humanos.

Ver a "pessoa como problema" denota a perseverante prática em saúde de reduzir a pessoa doente à sua patologia. Observa-se que toda a formação da biomedicina é centrada-na-patologia e não centrada-no- paciente como totalidade. A análise parsoniana sobre o aprendizado médico de ignorar todo e qualquer relato que não seja considerado útil para elucidar o diagnóstico é lembrada no texto. As necessidades subjetivas e os conflitos da pessoa doente seriam, portanto, desconsiderados sistematicamente.

Outra prática desumanizadora seria a de tratar certas pessoas como "pessoas de menor valor". Trata-se das atribuições de status e hierarquia num dado sistema social, em que determinados indivíduos e grupos seriam vistos como "não-pessoas" ou pessoas cujo valor seria considerado inferior ao das demais. Leituras raciais/ étnicas, de classes sociais, de gênero e eugênicas são determinantes, entre outros critérios classificadores que poderiam ser ativados conjunturalmente. Howard (1975) menciona o protótipo extremo das instituições de doentes mentais, invocando a reflexão de Goffman (1961) sobre a estigmatização de pacientes psiquiátricos.

O tipo seguinte é traduzido como "pessoas isoladas", e expressa a despersonalização, reclusão, solidão e não-reciprocidade entre pessoas doentes e seus cuidadores no sistema de saúde, especialmente quando envolve internações hospitalares prolongadas. O sentido que traduziria essa prática seria o de alienação, etimologicamente resgatado como 'tornar alien', ou seja, o paciente seria tratado como um ser externo, sem vínculos, isolado do sistema de relações cotidianas.

Tomar as "pessoas como recipientes de cuidados subpadronizados" denuncia a possibilidade de que se dispense a determinada pessoa ou grupo - seja por indiferença, discriminação ou negligência - um cuidado inferior, de menor qualidade quanto ao conhecimento ou tecnologia disponível para cuidar de determinado agravo de saúde.

Considerar "pessoas sem escolha" retrata uma contribuição da literatura ao discutir a autonomia, os graus de liberdade e suas antíteses como questões de desumanização, tanto de pacientes quanto dos profissionais num dado modelo de assistência.

As propagadas neutralidade e objetividade biomédica, que teriam a função de prover melhor discernimento na tomada de decisões, poderiam gerar interações frias e distanciadas com os pacientes, sendo identificadas como produtoras de desumanização do cuidado, conformando o que a autora traduz como "pessoas interagindo com icebergs".

A desumanização poderia também ser apresentada nas situações em que se colocam "pessoas em ambientes estáticos e estéreis". Este grupo de reflexões trata das preocupações com o ambiente, sublinhando a importância de um equilíbrio entre as necessidades funcionais do trabalho médico e o bem-estar que o ambiente poderia gerar se resgatasse uma maior proximidade como o mundo real e as demandas dos pacientes (espaços de socialização e troca tais como jardins, salas de estar ou ambientes de privacidade). A decoração e outras formas de ambiência revelam-se, já nessa época, como fatores para a humanização da assistência.

A literatura consultada por Howard (1975) também se remete ao debate moral sobre a responsabilidade dos profissionais na preservação da vida, considerando uma forma de desumanização negar tal direito. Incluem- se aí as polêmicas sobre eutanásia, aborto e o desligamento de tecnologias de suporte da vida. Nesse debate alguns autores consideram, em contrapartida, antiético e desumanizador manter a vida sob certas circunstâncias.

Como se observa, o modelo de Howard (1975) para a desumanização dos cuidados em saúde, mais do que efetivamente produzir um exercício de conceituação, apresenta um amplo quadro descritivo, capaz de fornecer uma espécie de guia para identificar empiricamente situações em que a desumanização se verificaria. Tratou como fatores distintos o que posteriormente a literatura agruparia, pois diziam respeito a uma mesma ordem de fenômenos. 'Tratar as pessoas como coisas', vê-las 'como problemas' e tratá-las de forma objetiva e distanciada são conseqüências evidentes de uma racionalidade científica específica, manifesta no modo como a medicina constrói seu objeto e sua identidade como prática social, e esta perspectiva continuaria a ter destaque no campo investigativo da sociologia e antropologia médica (Good, 1994).

As formas de valoração social, manifestas nas maneiras de tratar pessoas como se tivessem menor valor e de prover cuidados abaixo do padrão parecem faces de um mesmo processo de hierarquização e discriminação social, presente nos sistemas de saúde, evidenciando o paradoxo de um ethos ligado à missão de salvar e valorizar a vida humana e as formas de seleção, discriminação e exclusão numa ordem de cuidado. Esses aspectos foram exaustivamente discutidos pela literatura marxista e feminista.

Mas se tal literatura 'falha' em sua ambição teórica de conceituação, tem o mérito de mencionar questões que serão posteriormente aprofundadas como nevrálgicas na análise crítica do sistema médico e suas formas de desumanização do cuidado:

a) A negação do estatuto de pessoa e/ou processos de despersonalização. Esses temas seriam constantemente problematizados pela antropologia médica, que colocaria em relevo as diversas formas de despersonalização produzidas pelos sistemas médicos profissionais (Helman, 1984).

b) As tecnologias como substitutas (ou mediadoras) das relações. Esta questão vai constituir um persistente filão de análises, cada vez mais atual diante dos incessantes avanços tecnológicos da biomedicina. Uma vez que o conceito de tecnologia também seria ampliado e revisado, o seu efetivo papel nas relações de produção de cuidados em saúde foi constantemente atualizado.

c) Aspectos relacionados à experimentação clínica levando, devido à sua importância e abrangência, à composição do escopo de um campo disciplinar específico, a bioética.

d) As lógicas e relações de poder que são instituídas, reproduzidas e atualizadas no sistema de saúde, e por seus partícipes, nos espaços físicos e relacionais, campo que já despertava atenção de cientistas sociais de diferentes tradições desde Freidson a Foucault.

No que concerne às leituras brasileiras sobre humanização, a questão do uso de tecnologias ganha um considerável destaque. A humanização é vista como uma proposta de articulação inseparável do bom uso de tecnologias na forma de equipamentos, procedimentos e saberes com uma proposta de escuta, diálogo, administração e potencialização de afetos, num processo de comprometimento com a felicidade humana (estes últimos recursos também vistos como uma forma de tecnologia de tipo relacional) (Ayres, 2005; Teixeira, 2005; Deslandes, 2004). Busca-se, como se vê, a superação de uma antiga dicotomia.

Autores brasileiros também têm investido, com base na leitura foucaultiana, na reflexão sobre a humanização como uma dimensão de política pública e sobre sua relação com o Estado e as possíveis formas de atualização de seu poder/discursos (Benevides & Passos, 2005a). Diferentes atores, como por exemplo as redes sociais de suporte, serão também reconhecidos como integrantes das relações de cuidados, conformando novas configurações de poder e participação.

Voltemos ao texto de Howard (1975). A sua segunda parte dedica-se à tentativa de criar uma conceituação para a humanização. Parte da premissa básica de que os seres humanos são produtores de necessidades fisiológicas e psicológicas, e o cuidado que se preocupa em provê-las pode ser entendido como humanizado. Considera que tal enquadramento teórico deve ainda incluir referências socioculturais para definir parâmetros de humanização ou desumanização, adotando-se quiçá um modelo mais relativista que humanista fundacionista, isto é, não seria possível considerar um humano universal e suas necessidades independentemente das diversas culturas em que se formam de modo distinto esses sentidos. A autora defende que o contexto de análise se refere sempre a um campo interacional de cuidados seja do tipo 1:1 (relação face a face entre paciente e cuidador), 1:n (relações entre um paciente e vários cuidadores) ou relações n:n (grupos populacionais como o alvo de ações de grupos de profissionais). Nenhum desses campos interacionais seria per si ou a priori propício à produção de cuidados mais ou menos humanizados.

Apesar de não discutir as formas de leitura ou tradução desse campo de necessidades (como seria essa 'escuta' ou os espaços da enunciação pelos pacientes) num campo relacional com significativos obstáculos e singularidades comunicacionais, Howard (1975) inova ao considerar este norte para o conceito e as práticas de humanização. Necessidades que, como lembra a autora, não podem ser tomadas por qualquer a priori humanista. Esse lembrete tem sido mote de importantes debates atualmente no cenário intelectual brasileiro (Aleksandrowicz & Minayo, 2005; Puccini & Cecílio, 2004; Benevides & Passos, 2005b).

Após essas considerações, Jan Howard propõe um modelo que definirá a humanização a partir de oito condições que considera "necessárias e suficientes". Estas estariam filiadas a dimensões ideológicas, da estrutura das interações paciente-cuidador e psicológicas.

A "dimensão ideológica" é caracterizada por tomar três guias como referência da prática de cuidado: o intrínseco valor da vida humana, a insubstituibilidade de cada ser humano e as pessoas consideradas em sua integralidade (no original "holistic selves").

Reconhecer o "intrínseco valor da vida humana", independentemente de status ou qualquer hierarquia, traz também ao foco do debate as questões da igualdade, eqüidade e a discussão, emergente naquela sociedade, sobre a saúde como direito e não como privilégio dos que podem pagar.

Afirmar que cada pessoa é insubstituível é reconhecer que cada um (pacientes ou colegas) possui singularidades definidoras de uma identidade única. Estar insensível a esse aspecto conduziria a tratamento rotinizado, padronizado, impessoal ou falsamente personalizado (o 'sorriso de plástico'). Howard (1975) chama a atenção para o fato de que um atendimento padronizado não é, necessariamente, sinônimo de desumanização, assim como um tratamento diferenciado também não significa um cuidado humanizado.

O caráter holístico de cada pessoa impõe indagar sobre quais aspectos de sua vida são relevantes para o cuidado em saúde e como e com que legitimidade o profissional da saúde os abordará. E questiona a fragmentação do cuidado entre distintos agentes responsáveis pelo diagnóstico e pelo tratamento, impedindo a visão mais integral da pessoa doente. Nesse bloco sobressaem-se a defesa moral do valor da vida humana, da importância de um cuidado que articule eqüidade (porque são singulares e diferenciadas as necessidades) com integralidade. Nota-se que desde essa época o conceito de humanização estará de alguma forma associado ao de integralidade do cuidado, como bem observam alguns autores brasileiros (Benevides & Passos, 2005b; Pinheiro & Mattos, 2003; Deslandes, 2005).

Os fatores associados à "estrutura em que se dão as interações entre cuidadores e pacientes" referem-se à liberdade de ação, ao status de igualdade e ao compartilhamento na tomada de decisões. Na realidade, esses três aspectos parecem bastante interligados no modelo apresentado.

O primeiro aspecto está ligado ao questionamento da liberdade de ação de profissionais, que pode ser constrangida por limitação de custos, compromissos e exigências administrativas e pela pressão dos pares. Os pacientes teriam sua liberdade restringida pela própria doença, pela falta de conhecimentos e por protocolos institucionais.

A humanização do cuidado estaria, segundo a autora, baseada numa relação que pressupõe a igualdade em algum nível. As idéias de inferioridade e superioridade seriam antíteses de um cuidado humanizado. Entretanto, a literatura consultada por Howard (1975) já questionava essa possibilidade, dada a assimetria entre o conhecimento específico que o profissional (médico em especial) detém no que diz respeito ao paciente, além de caber moralmente ao médico a tomada de decisões. A argumentação apresentada tenta solucionar este impasse com a idéia de 'tratar o outro como igual', conotando um sentido de reciprocidade e empatia e de acesso à informação.

Portanto, compartilhar decisões e responsabilidades seria uma conseqüência e uma reafirmação do fato de se considerar o outro como igual, revelando a ideologia emergente na época, segundo a qual, de acordo como o seu nível educacional, o paciente teria o direito à participação e talvez a obrigação de participar dos cuidados de sua saúde. O acesso à informação sobre o diagnóstico, tratamento e suas conseqüências seria condição necessária para essa forma de humanização do cuidado.

Esse bloco trata de questões ainda hoje bastante discutidas no campo da humanização: que autonomia e legitimidade teriam os pacientes para a tomada de decisões? Seria legítimo eleger, como faz Howard (1975), os pacientes de determinado nível educacional? Numa sociedade hierarquizada, seria real pressupor a relação entre pessoa doente e cuidador como uma relação de iguais? Qual a diferença entre considerar a capacidade do paciente em dividir decisões como referência a ser construída em cada encontro real e tomá-la, de forma equivocada, como substituto da responsabilidade médica em arbitrar tecnicamente? Estudos enfocando as relações comunicacionais, de poder e afetivas entre médico-paciente irão manter vivo esse debate (Ong, 1995; Caprara & Franco, 1999). Certamente o estatuto desse paciente mudou muito desde então. A 'passividade' e 'fragilidade' do papel de paciente cederão lugar ao reconhecimento de um paciente-consumidor, sujeito e portador de direitos, entre eles o de informação, autonomia (ainda que relativa) e arbítrio.

Finalmente, o modelo de Howard (1975) apresentará a dimensão psicológica nos fatores de humanização: a empatia e o afeto. A empatia, um dos comportamentos potencialmente humanizadores do cuidado, teria como limite a hiperidentificação do profissional com os problemas dos pacientes, demandando a criação de algumas barreiras protetivas. O afeto diz respeito ao envolvimento emocional, especialmente aos vínculos positivos entre pessoas doentes e seus cuidadores.

Esse bloco assinala outro forte filão que irá se desenvolver nos estudos sobre humanização do cuidado também no Brasil: a dimensão subjetiva, a importância dos afetos entre humanos numa relação que envolve a dramaticidade da dor e da morte. A discussão sobre o acolhimento, a importância do diálogo, da conversa se afastará do status de senso comum e ganhará enquadramentos teóricos da filosofia, da psicologia e psicanálise, sendo vistos como estratégicos na produção de cuidados em saúde (Teixeira, 2005; Campos, 2005 e Sandra Filgueiras no capítulo 15 deste volume). Revela-se nesse último bloco também o viés de desgaste e sofrimento do profissional da saúde, melhor explorado posteriormente pelos estudos de filiação materialista e pela psicodinâmica do trabalho.

 

À guisa de conclusão

Este capítulo buscou recapitular a importante contribuição da sociologia médica de tradição interacionista, pioneira na construção de quadros teóricos para o debate da humanização da assistência. Contudo, certamente ele não incorpora de forma adequadamente exaustiva os autores da década de 1970 e suas contribuições, até porque elegemos alguns textos como emblemáticos desse período. Estes constituem índices de uma tradição rica e profícua nas relações e estruturas que alicerçam a produção de cuidados em saúde, da qual muito podemos nos beneficiar. Procurei chamar a atenção para as muitas vertentes de análise e sua eventual presença no debate brasileiro.

Caberia ainda um plano de investigação tal que contemplasse as atualizações dessa trajetória nas décadas subseqüentes. Os estudos sobre satisfação dos usuários que iriam ser desenvolvidos a partir dos anos 70 e constituem um elo de referência na humanização e demarcam uma importante guinada sobre o papel deste usuário, por exemplo, não foram contemplados. Necessário ainda seria investigar as contribuições ao debate sobre a humanização com base em outras tradições sociológicas, em especial a do materialismo histórico, sobretudo em suas análises da organização do trabalho em saúde. As contribuições das leituras feministas também fizeram a história da construção teórica da humanização. Expandindo as fronteiras disciplinares, vale ainda lembrar as valiosas contribuições da antropologia, ciências políticas, planejamento, psicologia, psicanálise e filosofia para este campo que hoje se constitui como inegavelmente interdisciplinar e polissêmico.

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