Húmus
A Mulher da Esfrega
Os mortos é que estam vivos! os mortos é que estam vivos!
A MULHER DA ESFREGA
7
Do sonho que revolve o mundo cabe tambem uma parte á mulher da esfrega. Arrasta tudo comsigo. Cae o inverno dentro da primavera. Engrandece-a, espalma-lhe os pés, esfarrapa-lhe os vestidos.
Está aqui a figura—está aqui outra coisa. Muda de expressão, como se fosse possivel as lagrimas usarem por dentro as figuras humanas, como a chuva ou os passos gastam a pedra. Aquillo dura um momento, transparece um minuto, mas esse minuto chega. Logo á submissão e á humildade se mistura um nada de entontecimento. Quasi nada. Trouxe sempre comsigo debaixo do chale um resto de sonho amargo. Remoeu-o transida de frio pela vida fóra, quando fez recados, aqueceu a agua e rachou a lenha. É um nada e ampara-a. Atreve-se... Toda a gente precisa de qualquer estonteamento para suportar a vida. Sonho gasto que andou por todos os caminhos, com pés espalmados como a recoveira. Há sonhos humildes que ninguem quer sonhar: servem á Joanna que quando os usa os vira do avêsso.
Velha quer dizer experiencia e seccura, e a Joanna não tem experiencia nenhuma da vida. Conserva a ternura intacta. Ninguem na ouve. Tem uma filha, nunca fala na filha. Ás vezes pousa em mim os olhos turvos:
—O corpo pede-me terra.
Ainda hoje não comeu senão uma côdea que lhe deram. Aproveita tudo. Anda sempre absurda a fazer contas como um avaro. Os trapos são sempre os mesmos: secca-os no corpo. O monologo é sempre o mesmo com que enche a vida toda. É sempre a mesma obstinação desconjunctada, como se as palavras gesticulassem para o lado de dentro, e a mesma ideia que a persegue o que debalde repele. Seja o que fôr, a Joanna esconde-o muito fundo. Ás vezes fica suspensa e alheada. Mal pode arrastar as pernas trôpegas. É pelle, meia duzia d'ossos, um cangalho, que sente uma absoluta necessidade de repouso, de terra para dormir. O frio é de morte. Entranha-se-lhe até aos ossos, e a velha lá segue com o saquitel de borôa e os olhos turvos de tanto ter chorado. Vê sempre não sei quê que a não larga.
—A tua filha?...—E nunca fala da filha.
N'aquelle desespero percebo uma palavra outra palavra. Sobre isto choro, sobre isto lagrimas em barda, como se nascesse uma fonte na escuridão. A Joanna chora sempre, chora por tudo e por nada, chora por si e pelos outros. Não se sabe onde vae buscar tantas lagrimas.
A ternura é humida.
Não comprehendo este sêr. Viro-o, reviro-o. É um nada com duas ou tres idéas no caco. Cheira mal, cheira a aziumado. Passou a vida a aturar os doentes e a vida repele-a. Apega-se e a vida acaba por fazer de Joanna de unhas roídas, pelles no pescoço e olhos turvos, uma figura disforme. Irrita-me e prende-me. Sei como a Joanna se encortiça d'um lado e se faz sensibilidade do outro. Posso dizer quasi dia a dia como as mãos se lhe deformam, como os olhos se lhe aguam, explicar como a mulher da esfrega se parece com o panno da esfrega. Não sei explicar o resto. Com este molho d'ossos e alguns farrapos no corpo, há um fiosinho d'oiro a reluzir, um fio que teima em aparecer á tona e em se misturar a agua de lavar a louça. Annos, velhice, desgraça—e teima. Teima até ao caixão. Reluz sempre. Tem o mundo contra si, a vastidão sofrega, o rodilhão do universo em perpetuo inferno. Resiste. Parece facil de suprimir n'um sôpro. Resiste a tudo, esse pó necessario como o polen á aza para voar. Um nada com a noite deante de si, com a voragem deante de si. Tudo se gasta e desgasta—não o usam.
Tenho passado noites em debate com este sêr absurdo. Acabo pelo desespero. Enfurece-me e apega-me ternura. Uma bocca enorme que se fecha sem emitir palavras, os mesmos olhos inocentes de pasmo, e um ronco que lhe vem dos gorgomilos como do fundo dum fole. Mais nada. Sacudo-a—deita sempre a mesma agua. O mundo é uma voragem. Tanto faz. A vida é uma mistificação. Debalde. Responde-me com ternura. Responde-me com uma vida humilde de desgraça e lagrimas. E outra coisa exprime a figura: surprehendo atravez dos farrapos e do ridiculo, um nada immenso, uma força immensa que transmite outro nada: algumas lagrimas para chorar, outro ventre para parir. Um poder de se perpetuar—para gritos. Impelem-na—impele. Debalde a dôr sua, a Joanna caminha molhada e tropega, mas caminha. É inutil a desgraça agarrar-se-lhe. Mais funda porque é muda como a noite. Faz parte da velha. Envolve-a, cresce, enrodilha-se-lhe. Sua. Só geme:—Anh...—Resiste á desgraça, resiste á vida, resiste ao ridiculo. A velha consegue ser maior que a desgraça. Nem toda a agua de lavar a louça suprime este facto.
O meu desespero termina aqui, deante d'esta creatura que não comprehendo, de mãos roidas e um chale velho sobre o corpo mirrado de ternura. Estraga-me a vida toda. Perturba-me a logica. Mete-me medo. Tanto faz que a Joanna viva ou morra, que grite ou se cale: as mesmas estrellas no céo, a mesma grandeza absurda, o mesmo mudo espanto. E no entanto n'esta confusão esplendida só a sua alma comunica com a minha alma. A sua dôr, a sua mentira é que importam á minha vida e á tua vida. Negrume e um arranco: exaspero para manter de pé um resto de ilusão. Mal se fecha abre os olhos atonitos. Não diz palavra. Por fim chora, as lagrimas correm-lhe pelos sulcos das lagrimas e mistura-as ao pó de sonho com que foi entretendo a vida, a pequeninas coisas gastas e poidas—ao sonho que ninguem quer, ao sonho que ninguem usa, o que em todo caso a sustenta e a enleva, como as bonecas das creanças pobres, de trapo e com dois olhos abertos a retroz, que se lhes afiguram rainhas.
Há um misterio na vida de Joanna, e no entanto na sua alma lê-se como atravez d'um vidro. Tudo n'ella será falso excepto a dôr. Não sei, ninguem sabe o que tem. Sinto que se obstina como se fosse de pedra e dentro houvesse outra Joanna a dar com a cabeça pelas paredes. Não ouço o que diz, nem sei o que sofre— mas a desgraça sua n'aquelle monologo sem pés nem cabeça, a que não ligo sentido. Debalde o sonho se encarniça. O sonho, que não cabe no mundo, cabe entre as quatro paredes daquelle caco e revolve-a. Fecha a bocca como se tivesse medo de falar. Não quer vêr—e há-de por força vêr. Persiste em manter de pé o resto da ilusão em que passou a vida, obstina-se o ciclone vivo em pol-a frente a frente á desgraça. É sonho contra sonho. O que ella não quer é vêr, e só ella sabe o que não quer vêr. Não pode com o pezo desconforme que a torna grotesca, e de todo se assemelha agora á arvore do quintal: mais sonho— mais flôr. Abre uma bocca enorme, fecha-a sem emitir som. Mostra as mãos, aperta os gorgomilos e o sonho arranca-lhe farrapos. Há-de acabar por lhe extorquir a dôr...
Sua vida é um monologo, que eu não sei traduzir. Nossa vida é sempre um monologo de interesse e de sonho. Sempre o mesmo monologo interior, de dia, de noite, quando acende o lume ou quando põe em mim os olhos turvos. Talvez os bichos monologuem assim, muito baixinho, p'ra dentro, só dôr, sem entenderem a vida nem explicarem a vida. A desgraça está alli ao pé, cada vez mais secca, e nem o sonho nem a desgraça conseguem arrancar-lhe aquillo de vez para fóra.—A minha filha...—Mas isso não basta! não chega! Mais dôr, mais sonho. Abre a bocca cada vez maior e não tira outro som dos gorgomilos: só emite um ronco. A desgraça e o doirado tingem e entranham-se na agua de lavar a louça. Há-de acabar por falar... Até agora por mais que faça sae-me das mãos ridicula.
—E vae eu disse-lhe...—E estaca, esfarrapada e atonita. Sacode-a o sonho com desespero.—Anh...—E como n'aquelle caco espesso só há duas ou tres idéas como traves mestras, e ternura n'aquella alma obscurecida, não avança mais palavra. E a desgraça sua e tresua. Grotesco, grotesco, e desespero n'este grotesco, e dôr n'este manequim desconjunctado, com um chale a esvoaçar e a bocca espremida. Anda aqui um sêr immenso que lucta com um sêr humilde e o amolga até á caricatura. Não pode mais—e ainda aperta a bocca... O que tu lhe fizeste, sonho! o que tu lhe fizeste!... Tornaste-a disforme como a sombra d'um bonifrate projectada sobre um ecran.—Creou aquillo a bafo, trouxe-o sempre comsigo debaixo do chale, com olhos agudos e tal ar de aflição que parece tonta.—A minha filha...—e tu arrastas-lho com um trapo por todos os esgotos. Debalde se debate: tem de falar...
—A minha filha casou rica, a minha filha tem uma sala de visitas (é o que a Joanna mais admira no mundo) como a das outras senhoras. A minha filha... não posso! não posso!...
E para não avançar mais a Joanna ri-se de si propria. Quem a não soubesse capaz de exagerar, diria que exagera. Ajunta pormenores embaraçosos a essa historia que se parece com a mulher da esfrega pelos empurrões e pelos trapos. Repete-se, hesita, volta ao principio, sem termos para se exprimir. E atraz das palavras sem ligação sente-se cada vez mais dôr: o panno sujo da esfrega está embebido de lagrimas.
—Tenho uma tristeza metida em mim...
A narrativa desconjuncta-se: ganha em dôr e em grotesco. Enche a bocca, perde em naturalidade, adquire em imponencia. O tom carregado é de farça com residuos de lagrimas. A desgraça ri-se da desgraça. Augmenta as côres de exagero, carrega o traço, e a tinta engrossa:
—A sala de vizitas! a sala de vizitas!...—Representa com ademanes e mesuras grotescas a sua entrada n'uma sala em passo medido de procissão. Avança um passo, recua um passo. E ahi surgem agora as vizitas da filha, umas atraz das outras com espalhafato. A Joanna prolonga demasiado a scena para as velhas se rirem—e tem os olhos arrasados de lagrimas. Insiste, para-lhe na bocca o riso desdentado como se tivesse um nó no gorgomilo. Teima, e desata a chorar.—E vae eu disse-lhe...—Reage e começa logo a rir. É um quadro extranho e sem realidade. No fundo, a tintas que resumam desespero, agitam-se figuras com penantes desconformes e sedas amarellas. Primeira dama, segunda dama—e os chapeus teem penachos doirados, os vestidos recortes de espanto. E as mesuras repetem-se n'um acesso. Terceira dama de cauda a rasto, outra dama, cumprimentando para a direita e para a esquerda, e já nos longes enfumados, sempre com exagero e grotesco, outras damas de espavento—da alta roda... E o sêr esfarrapado mexe o craneo, para cima e para baixo, com um sorriso á sobreposse. Postiço sobre postiço. Representa—e todas estas figuras parecem sufocadas, todas estas figuras que ella cria ridiculas, mal dão dois passos, estão mortas por desatar aos gritos—todas estas damas inverosimeis, de rôxo, de amarello e de verde, pariu-as o grotesco com dôr. A Joanna imita as contumelias, olha em roda, e recebe-as pé atraz pé adeante. E já o absurdo augmenta, a dôr augmenta e
trasborda, quando outras damas de farça, outros manequins forjados pelo sonho, se agitam de cá para lá na sala de vizitas, engrandecida e transformada na sua bocca n'um salão doirado. É o ponto em que as velhas gosam, sentadas á roda da Joanna, em que a D. Felicidade exclama:—Ai que eu não posso mais! ai que eu até fico doente! Vem-me a sufeca.—Estão ali todas. Está a D. Herminia, e com a D. Herminia um mundo de inveja paciente; a D. Penaricia, e com a D. Penaricia uma alma onde repousam exhaustos, como n'um vasto dormitorio, todos os despeitos d'uma existencia inutil; a D. Fufia com os cabelos arripiados, e por traz da D. Fufia as ruinas devastadas de Carthago. Está a mulher tropega, amachucada, com olhos aguados de cão. E com isto ridiculo, e sobre esta tragedia ridiculo.
Já a historia entra n'outra phase. Tantas vezes se lhe tem perguntado porque é que a filha a deixa andar na esfrega, que a velha acrescenta pormenores embaraçosos. A narrativa torna-se obscura, dolorosa, hesitante, como se fosse arrancada aos pedaços d'uma alma espesinhada.—E vae eu disse-lhe...
—Hoje é que ella está que até parece o Taborda!
Na realidade a Joanna é insuportavel. Repete sempre as mesmas coisas, depara-se por todos os cantos como um trambolho. De noite, quando se pilha na enxerga, cuido que moe ainda o mesmo sonho:—A esta hora lá está ella... a esta hora... A esta hora a minha filha...—E os olhos cerraram-se-lhe de extasi, de dôr ou de espanto no sordido buraco.
Todas as noites a velha, quando sae da esfrega, dá uma grande volta no negrume, alta, ossuda, molhada até aos ossos. Ninguem sabe onde a conduzem os passos tropegos, a falar só, a remoer o sonho que a sustenta e ampara. Por vezes palpa um pilar de granito, por vezes debate com um sêr mysterioso, uma questão insoluvel. Sigo a sombra esgalgada, que gesticula e reza. Pára n'uma ruella, senta-se á porta d'um casebre. Bate, não lhe respondem. Espera, e outra vez timidamente se atreve a chamar...—De dentro sacodem-na palavras bruscas, e a velha torna por o mesmo caminho, encharcada até aos ossos... Esta casa não é como as outras casas, esta sala não é como as outras salas, nem esta rua como as outras ruas.
8
O sonho é um—a realidade é outra: a realidade é uma figura só dôr. Remoeu aquelle sonho quando seguiu a filha pelas viellas. As mãos seccas de desespero tentaram em vão arrancal-a á desgraça. A filha desceu mais fundo, a Joanna desceu mais fundo. Deu-lhe a vida e suportou o escarneo. Andou nas mãos dos ladrões e tem tal ar de aflição, que parece tonta. A desgraça pega-lhe pela mão e leva-a mais fundo ainda: aperta-a de encontro ao peito descarnado... Não faz idéa nitida da vida e da morte, nem d'aquella viella com mulheres. Atura a miseria e a desgraça. Suporta os vestidos encharcados no corpo. Foi d'isto que ella fez sonho—das noites de dôr e do riso dos ladrões.—A usura da vida e a dôr represa, engrandecem-na. Nunca se queixou. Escondeu de todos a sorte da filha. Guardou aquillo para si, noite a noite, toda a vida. Bronco e dôr, uma carcassa e farrapos, e nos olhos não sei que expressão que a faz mais baixinha:—Aqui estou para te servir.—Passou por tudo, e um resto d'ilusão bastou-lhe para poder viver. Sós a sós a figura tem uma expressão descarnada e reflectida.
Nessa noite, á meia noite, nasce o menino entre ladrões. Vem morto ao mundo. A Joanna pega-lhe a tremer com as mãos da esfrega e deita-o no chale. Quatro cabeças se curvam á luz do candieiro de petroleo para verem o menino—tres cabeças de ladrões e a cabeça da velha.
—O menino está vivo!—afirma a Joanna.
—É preciso enterral-o de caminho—diz o ladrão mais velho, encolhendo os hombros. E juntam-se á porta falando baixo, enquanto a velha lhe aquece o corpo pegajoso com o bafo. Dentro a mãe geme.
—Vamos.
Os gritos cessaram de todo.
—Venha d'ahi.
E, tomando o braço de Joanna, que achega a si o menino embrulhado no chale, levam-na para a rua. Vão adiante o ladrão e a velha. Caminham até um terreno de construcção, lama calcada e recalcada: ao fundo o panno d'um muro e um resto d'arvore mutilada. Escolhem o sitio e o pae abre a cóva com o alvião. Nenhum diz palavra. Só a Joanna aperta mais o menino de encontro ao seio murcho, como se fosse possivel aquecel-o. Agazalha-o dando voltas ao chale roto, e vae depois no escuro palpar a terra encharcada. Tira-lho o pae para o meter na cóva, e ella ainda protesta:
—O menino está vivo.
Nenhum dos ladrões se ri. O que ella quer é outra vez crear. Está disposta a recomeçar a vida, a deitar mais ternura, a tiral-o á bocca para o dar aos outros. E insiste:
—O menino está vivo.
—Vamos embora.
Sacodem as mãos: só a Joanna conserva nas mãos a terra da cóva. Rodeiam-na tres sombras enormes e ella sente-lhes no escuro o bafo monstruoso. A seu lado caminha o ladrão mais velho. Os outros adiantam-se.
—O estafermo da velha rica está só. Tu podes abrir-nos a porta...
—Roubar!...
—Ouve o que te digo... Tu não sentes o frio e estás molhada até aos ossos, tu de tanta fome já não sentes a fome.
—Ainda hoje comi uma tigela de caldo que me deram.
—Nem dás pela desgraça. Tu não vês a tua filha n'uma viella e nas mãos dos ladrões?
—As bagadas que eu tenho chorado, senhor ladrão!...
—A desgraça tral-a escripta na cara. Ainda hontem lhe bateram. Nem a lama das ruas é mais baixa e mais calcada. Tu ouves?...
E a Joanna mastiga:
—N'aquella terra tão fria, chegado á terra...
—Para não sofrer. Deixa lá os mortos. Os mortos podem mais que os vivos. Ouves o que te digo?... O menino matou-o ella ao parir...
—Jesus!
—Matava-o eu para não ser ladrão. Deixa lá o menino que está na terra. Excusa de ser ladrão... O estafermo da velha rica está só. Tu podes fazer-nos a entrega...
—Senhor ladrão, vossa senhoria... Assim Deus me ajude... Como a terra está fria!...
—Que me importa a terra! O que me importa é o dinheiro do estafermo. Ouve! ouve! ouve! Ella é rica, tu és pobre...
—O Senhor fez os pobres para servirem os ricos, e os ricos para ajudarem os pobres...
—A minha vontade era esganar-te... Por tua filha! Se não nos abres a porta elle estorcega-a. A tua filha é menos que nada nas mãos d'elle...
—A minha filha... Vocemecê, senhor ladrão, tambem teve uma filha, que eu sei...
—Cala-te! Esta noite é por força noite de desgraça. Tive uma filha e não lhe pude valer. Vi-a morrer com os olhos enxutos. Morreu tisica, morreu-me á fome e não lhe pude valer! Fiz-me depois ladrão. Deixemos os mortos... Uma madrugada fui de prego em prego. Tinha despido o casaco para o pôr no prego. Á porta d'um estava um cavallo á carroça, com a cabeça metida n'uma ceira, a comer. O que eu invejei aquelle cavallo! Morreu-me. Foi n'esse dia que me fiz ladrão.
—A sua filha morreu-me nos braços...
—Tu não te calarás! Esta noite já me não serve. É noite de desgraça. Vae-te p'r'o diabo!
Repele-a, e ao por-lhe a mão no hombro, repara que só traz a camisa extreme sobre o corpo:
—O chale? que é do chale?
—O chale dei-o ao menino.
—Fizestel-a bonita!
Tal é a figura esfarrapada. Maior. Maior pela desgraça e pela mentira. A Joanna, quando faz rir as velhas de cuia postiça, mente. Tem duas existencias, uma vulgar, outra oculta. Lava as escadas, calada e submissa: á noite vive com os ladrões e as mulheres das viellas. E mente. Mentiu sempre. Mentiu emquanto pôde. Mentiu a si e aos outros. Fez da dôr mentira e da mentira sonho. Quanto mais desgraça, mais exagero e mais grotesca a sala de vizitas—maior a sala de vizitas—mais doirada a sala de vizitas. A Joanna não se atreve a sonhar a felicidade: contenta-se em sonhar a desgraça, e não lhe tira os olhos de cima, para não vêr outra desgraça maior. Ilude-se. E debate-se n'uma cogitação profunda como a noite. Toda a noite lhe parece negra. É como se pela primeira vêz désse com a vida. Deita as mãos, não encontra a que se apegue, e faz gestos para repelir o negrume. Remoe coisas que não percebe bem, que se lhe confundem na alma e que traduz em palavras descosidas e sem significação. De quando em quando pára, com os olhos fixos, e diz uma phrase fóra de propósito, a scismar com obstinação n'outra coisa:
—Casa de mulheres, casa de ladras.
Ou monologa parada a um canto:
—O Senhor lá sabe porque a gente anda n'este mundo e para que se criam estas coisas... Estas coisas...—E abre os olhos espantados.—Tudo está escripto no livro do futuro... Sempre elle há gente muito boa n'este mundo! É o que vale á pobreza.—Depois um salto dentro d'ella:—Onze, não, doze vintens é que são. Quatro vintens, do bahu que levei á cabeça, seis vintens da esfrega...—E conta pelos dedos:—Seis, sete, nove vintens... Depois aquillo remexe, vae ao fundo do fundo:—A desgraça não nasceu comigo nem há-de morrer comigo.—Ou explue n'um grito de quem não pode mais:—Não posso com este peso, com esta desgraça, com esta desgraça sobre esta desgraça, e com isto!... A dôr que a gente cria aos seus peitos! E ainda por cima isto!
Depois cala-se. É peor. Fica confundida e atonita, como um cavallo prostrado, que não sabe porque sofre e mantem os olhos abertos—ridicula deante da desgraça e deante do assombro. Cala-se e outro sêr immenso começa a falar dentro d'ella. É um debate ao mesmo tempo futil e cheio de grandeza, que não posso fixar, mesquinho pelas palavras que emprega e grande pelo sentimento que o reveste. É uma coisa triste, uma coisa dolorosa, uma coisa desconexa, feita de nadas, de gritos, de mudez. A Joanna fala com o Sonho tu cá tu lá e atira-se ao Sonho. E quando emfim o espanto se acumula sobre ella, a Joanna dispõe-se a arrancar-lhe farrapos. Misturem a isto a dôr, misturem a isto ridiculo, porque a Joanna revolve tudo, phrases, sentenças, palavras que lhe acodem e que não formam sentido— veem de muito longe...—lagrimas, sonho, e ranho. Assoa-se ao avental.
—Eu não sei dizer! eu não sei dizer!...
E sem falar á sombra que a não larga, a velha gesticula para o escuro: a desgraça tapou-lhe a bocca, meteu-lhe outra vez a bocca para dentro. Avança com as mãos abertas. A noite é immensa. Cabem na noite os mundos infinitos, mas só me interessa a alma de Joanna. Quer comprehender e não pode. Peor: o sonho humilde já lhe não é possivel. Parece perdida, tão inutil no mundo! A ternura não lhe serviu de nada. E há outra coisa em que é preciso insistir: não sabe porque sofre, não lhe cabem lá dentro a desgraça e a explicação da desgraça. Outra vez recorre á perlenga com que amortece a dôr:—A sala... a outra sala...—Mas na sala disforme vomitam-se injurias e as boccas transformam-se em bocarras monstruosas, que a Joanna não consegue tapar. Está só e a noite, só e o sonho. Fica dôr pelo lado de dentro, como a fuligem d'uma chaminé quando se incendeia e fica doirada pelo lado de dentro. O negrume é cada vez mais compacto e o esforço da velha cada vez maior. Quanto mais negra é a sala, mais a Joanna insiste. Augmenta-a, e agitam-se as vizitas em delirio: quem as recebe de pé a fazer cortezias de espalhafato é a propria desgraça vestida de amarello. As cadeiras tomam outra expressão, o doirado dos moveis apega-se á noite espessa. Estes cacos são expressões de dôr e é a desgraça quem os arruma.