Húmus

Raul Brandão · Capítulo 14 de 23

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Húmus

A Velha e os Ladrões

 

 

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Sombras. Tres cabeças monstruosas projectadas n'um muro, que se aproximam e afastam depois de confundidas. A velha a um canto agacha-se aos pés da filha. E ao lado as tres sombras fundem-se n'uma unica sombra disforme. Duas, tres horas talvez... A sombra da velha reduz-se a nada, a menos que nada, á sombra da dôr. Por fim erguem-se, mergulham e dissolvem-se na caligem da noite, as tres sombras dos ladrões e as sombras das mulheres, a quem não distingo as feições... Eu já vi isto algures, em outro mundo onde me custa a entrar. Metem-me medo. E não é só medo, é dôr. Vivi com estas sombras n'um pesadelo, de que sahi atonito e exhausto, n'um sonho em que tudo isto fazia parte integrante da minha propria alma, e que sonhei lavado em lagrimas. As tres grandes sombras levam, não sei para que destino, as outras

enrodilhadas. Duas, tres horas da madrugada talvez... Caminham sem se lhes ouvir os passos á beira do rio que corre para o mar desde o principio do mundo.

E o silencio é cada vez maior. Só a agua fala nos buracos poidos das pedras, em dialogos que nunca cessam, n'um côro de vozes ininterruptas e indistintas —ameaças, suplicas e gemidos. A Joanna cala-se: só se lhe ouve um anh... anh... de cançasso, como se arrastasse na escuridão uma cruz do tamanho da escuridão. A seu lado o côro inutil da agua corre sempre para o mar, com gritos, risos, vaias e apupos.

Uma voz, a do velho ladrão compadecido, diz-lhe baixinho:

—A tua filha... Se teimas levantas a desgraça a teus pés.

E lá deslisam no escuro, e o rio sempre a correr e a prégar o mesmo presagio de dôr no chape que chape onde se percebem échos de todas as desgraças que sucederam no mundo, levando para o mar todas as lagrimas que se choraram no mundo.

Outra vóz no escuro:

—Ou tens de sofrer mil mortes na tua filha, ou tens de me fazer a entrega. Agora escolhe. Uma ou outra. Agora ouve: ella é nada n'estas mãos.—E pergunta-lhe: —Tu és ou não uma coisa que me pertence? Posso matar-te?—Podes—E essa voz rouca, essa voz implacavel torna:—E ou... Tu ouves velha? A mim ninguem me engana... Tu riste? (Ella faz anh... anh...— cançasso ou dôr)—Aqui tens... Ouve mais... Tu ouves ou finges? Tu que dizes? A velha é rica tambem te cabe uma codea. Ninguem te pede mais nada. Eu cá é que executo.

E lança a dois metros um jacto de saliva.

A Joanna recua: avançam logo e não a largam as sombras que a envolvem.

—Tu hás-de abrir-nos por força a porta!

—Estafermo! estafermo!

—Tu abres-nos a porta. Á velha deito-lhe a mão ao gasganete e não dá pio. Aperto no escuro—eeeh...—e sinto no escuro um estremeção e mais nada...

—Jesus!...

—Ó pandorca! És um trapo! és peor que um trapo!...

—Deixem a velhota sósinha comigo, que nós dois entendemo-nos—intervem o ladrão mais velho. E leva-a suspensa pelo braço como quem leva uma pluma.

Cobre-os o céo profundo, onde palpita uma vida intensa. Arqueia-se sobre a velha e o ladrão de lez a lez a abobada recurva. Ao longe seguem-n'os sempre as outras sombras temerosas.

—Estupida! estupida! Passaste a vida a servil-os. Aproveitaram-te e deitam-te fóra. Só te deram restos e enchiam-se até aos gorgomilos. E tu apegaste e tu defendel-os!... Ouve tu abres-nos devagarinho a porta...

—Jesus Christo veio ao mundo para nos salvar!...

—Isso! Até me metes nojo! Isso! Até me fazes rir! Só tu, calhordas, eras capaz de me fazer rir n'esta hora aziaga. Pilhasse-te eu no meu tempo!...—E aperta-lhe o braço contra o peito, leva no ar aquelle molho de ossos e ri-se com escarneo.—Tu lavas, tu esfregas, tu comes os restos, tu até cheiras mal! Tu metes nojo. E hesitas... Que se te pede? Que nos abras a porta e mais nada. Só há uma ocasião na vida, toca a aproveital-a.... Se nos abres a porta, ficamos ricos.—Abraça-a. Vomita uma risada. Peor que matal-a, enlameia-a. Aquillo vem do fundo da terra, vem do boqueirão da noite e traz escarneo pegado. Sobre isto chove: parece que toda a lama fetida da rua subiu ao céo para tornar a cahir. A Joanna geme. Uma risada e um gemido que se amalgamam, gemido que se extingue para depois subir mais alto, para se confundir com a risada, sempre o mesmo gemido, sempre a mesma risada. E a noite é pó de desgraça, cada vez mais moído e mais negro.

—Não te cabe n'esse caco que ninguem tem pena de ti. Escuta o que te digo. Rouba-a, estupida! rouba-a! Na cadeia tambem se come pão. Ao menos lá enches essa barriga. Abres-nos devagarinho a porta...

—O que havia de dizer a minha senhora!

—Ninguem no sabe. E ouve: se não nos abres a porta, a tua filha nunca mais a vês.

O silencio e a noite com outras noites em cima, as sombras que caminham, e aquella sombra humilde cada vêz mais pequena, reduzida á sombra da sombra e do escarneo. E teima, e teima contra a desgraça, contra as injurias e as vozes do rio. Há milhares d'annos que o dialogo nas pedras dura, sempre nas mesmas ameaças, que vem do fundo da agua e a Joanna não ouve. Devagar palpa a algibeira e tira do bolso e entranha na pele um pedaço de ferro gasto e poido.

Outra vóz na noite:

—Mãe!

A vida d'essa mão de rachar lenha, d'essa mão de arvore e dôr! Como ella se contrae, emquanto a Joanna caminha absorta. Talvez uma hesitação instantanea, e depois, sem que ninguem repare, a mão abre-se e deixa cahir a chave nas profundas da agua, que continua a correr e a prégar, a correr e a falar ás pedras e ás estrellas nas mesmas palavras inuteis, ao lado da vida sem destino.

Chegam emfim á muralha do predio, e outra vêz as sombras se juntam n'uma unica sombra, outra vêz se ouve aquella vóz sahir da noite:

—Mãe, olhe p'ra mim! olhe bem p'ra mim!

E a velha sente na cara tres bafos monstruosos, ao mesmo tempo que as vozes roucas reclamam:

—A porta... Depressa! depressa!

—A chave perdi-a.

Um repelão e um grito, um grito que se afasta e sae da noite, cada vez mais longe e cada vêz mais alto...

 

Sobre este sêr humilde encarniça-se mais o sonho. Lá vae a mulher da esfrega empurrando o farrapo monstruoso que se agita na noite. A sombra e a mulher da esfrega, o espanto e a mulher da esfrega, o sonho doirado de grandes azas esfarrapadas no negrume e as mãos encortiçadas de lavar a louça, a vida phrenetica e a vida humilde. Uma bocca enorme d'um lado, a voz da Joanna do outro, sentimentos cahoticos impossiveis de traduzir em palavras, o que exprime a natureza impulsiva, o que responde uma creatura agarrada á ideia do sacrificio.—Anda para deante.—Estupida! estupida!—A bondade entranhou-se-lhe até ao amago. Tudo está nos seus logares: as coisas simples e as coisas eternas, e há outra coisa que ella não sabe exprimir, que a alma d'esta mulher não abrange: a intrusão do sonho na sua vida humilde. Bronco e sonho. Até agora só com a desgraça arca, agora o doirado tinge-a. Sacode-se como um cão molhado. Debalde tenta desfazer-se do sonho immenso que se lhe pega: irrompe em palavras baixinhas, hesitantes, que voltam atraz. Uma pausa e o monologo recomeça logo. Há não sei que de monstruoso no mundo, que bebe todas as lagrimas e leva todos os gritos. E não se farta. Há não sei quê que reclama dôr. Toda a noite se desespera. A desgraça sua, a desgraça trôpega e ridicula. A desgraça enche a noite de esgares. Depois o sonho desgrenha-se. Depois sacode-a uma rajada, e lá torna, sem uma palavra, sem um grito, a grande sombra que se envolve em si mesmo e a si mesmo se estorcega. A desgraça sua de aflição sem poder exprimir-se. E quando a dôr se concentra, quando a dôr se torce como quem torce um farrapo e a velha não pode—a velha irrompe n'uma toada estupida. Mais doirado, mais fundo...

Caminha e depara com a D. Restituta, que atravessou a vida com o guarda-chuva incolume e que faz gestos desordenados no escuro:

—Acuso! acuso! acuso!

—Senhora D. Restituta...

A senhora D. Restituta está cheia de lama. Tem a penna do quico partida: é uma figura feita com tres traços de tinta e algumas manchas de desespero. O sonho doira-a, esfarrapa-a tambem. A penna em frangalhos agita-se como um pendão de revolta, esgarçado e chamuscado. Todas as vontades a compeliram e a esmagaram—quer retomar a forma primitiva. Dir-se-hia que cresce na noite, e que a sua bocca é uma bocarra cada vez maior, para prégar, para açular, para vomitar injurias. Sómente não emite outro som senão este:—Acuso!—a velha gasta, a velha inutil, a D. Restituta da Piedade Sardinha.

—Senhora D. Restituta...

A outra não vê, não ouve, não mexe.

—Minha senhora...

—Acuso!

—...para o que se vive n'este mundo não paga a pena ruindades.

Debalde a Joanna lhe fala. Resta deante do sonho com a mandibula despegada e o velho guarda-chuva que conserva intacto desde a primeira virgindade—teve duas—metido debaixo do braço. Nem uma nem outra entendem aquillo. Uma empurra, afasta de si o sonho com as mãos de lavar a loiça, a outra com as mãos pacientes, as mãos diaphanas da mentira. Tem feito sempre todas as vontades, e se a figura um momento se engrandece, amarfanha-se logo, como um trapo suspenso que se deixa cahir ao chão.

—Acuso! acuso! acuso! De repelão—mete para dentro! uma vergonha mete p'r'o sacco! desprezo, escrupulo, fome—mete tudo p'r'o sacco! Para um sacco sem fundo. Passei tudo, passei mortes para o poder crear e nunca pude dizer que tinha um filho. Para o crear, para o poder crear nunca pude vêr o meu filho. Meti tudo p'r'o sacco, sem poder abrir bico, senão matavam-me á fome... E nunca pude vêr o meu filho, senão matavam-me á fome. Criei-o longe para o poder crear, criei-o como pude, de vergonha, de restos, de codeas, de dizer a tudo que sim. E este filho! este filho que nunca pude vêr, vi-o agora! Este filho que criei de mentira, este filho que criei d'abjecção, sem nunca o poder vêr, vi-o agora! Este filho que tinha sonhado ás escondidas, com a bocca tapada para não gritar: Tenho um filho,

tambem tenho um filho!—vi-o! vi-o! vi-o! Meti tudo p'r'o sacco! meti o diabo no sacco! Só a noite me ficava livre

para sonhar com elle, para o vêr rico, para o vêr como os filhos das outras... Aqui está a Restituta que é idiota, aqui está a Restituta que é um poço sem fundo. Deante d'ella pode dizer-se tudo, a Restituta serve para tudo, a Restituta mete tudo para o saco. Cala-se que é o que lhe vale—mete a viola no saco. Só a Restituta sabe o que se passa, o que está no prégo e o que está no fundo das almas. Calei tudo, disse a tudo que sim para o poder crear. Mete p'r'o saco! mete tudo p'r'o saco! mete a viola no saco!—E n'um crescendo de desespero:—Acuso! acuso! acuso!

 

Debate-se a Joanna n'uma cogitação a que não suporta o pezo. É como se pela primeira vez désse com a vida e quizesse atalhar a vida. Tudo para ella mudou de expressão: a desgraça muda de expressão, a filha muda de expressão. E o sonho envolve-a, deforma-a, besunta-a. Sente-se-lhe o ranger dos gorgomilos.

A dôr descarna-a e redul-a ás linhas principaes, á secca realidade. Um ulular de tempestade, e tudo quieto.

Nunca o concavo se concentrou em mais serenidade. Gritos, um desabar monstruoso, e este sêr abjecto, que, como uma coisa que andou a rasto por todos os sitios suspeitos, não tem fórma nem côr: tem cheiro, e dois olhos de tanto pasmo que fazem aflição. Desapareceu tudo: ficou a velha, ficou a desgraça aos tropeções pela vida fóra.

É como se tivessem metido a dôr dentro de um saco e déssem com elle pelas paredes.

Aqui está a mulher da esfrega e a desgraça que tem os seus direitos e não os perde nem transige. Não a larga tambem o sonho. Agora é que ella destinge todo o doirado e toda a agua de lavar a louça. Agora é que ella ouve uma bocca enorme falar no escuro, e queda-se atonita e confusa feita trapo e horrôr.

—Para que é que vocemecê me creou?

Um soluço, um ranger d'arvore que se deita abaixo, um estalido de cruz que não suporta o pezo.

—Antes vocemecê me tivesse esganado ao parir. O que eu tenho chorado!

—Anh!...

—Olhe p'ra mim! olhe p'ra mim!

É um sêr diferente, um sêr aparte, que a Joanna vê pela primeira vez. Como pôde creal-o aos seus peitos? Crear vida é crear um grito que não se extingue? que nunca mais se cala? Sempre o mesmo grito:—Para o que tu me creaste! para o que tu me creaste!—Juntem a isto o escarneo e todas as vózes que lhe prégam:— Estupida! estupida! Toda a gente se ri de ti!—Andou nas mãos dos ladrões.—Rouba! rouba!...—E sente ainda nas mãos um pedaço de ferro gasto e poido como o aço, que entranha na pelle. Um gemido lucta com uma risada e tenta subir mais alto, cada vez mais alto... Juntem a isto que a Joanna quer ser má e não pode, e misturem a isto humildade. Aqueceu a vida a bafo. Incutiram-lhe para sempre a subordinação, só lá tem dentro ternura. Faz o gesto de quem tenta abrir uma porta; quer levantar a cabeça, mas tanto tem obedecido que curva logo a cabeça. Ridiculo sobre ridiculo.