Húmus

Raul Brandão · Capítulo 12 de 23

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Húmus

Deus

 

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Dormi n'um taboado, cingiu-me uma cadeia. Vesti-me com um sacco. Todos os dias arranquei de mim proprio um farrapo e um grito. Arredei tudo para ficar só comtigo no mundo. Sacrifiquei-te tudo. Fiquei nu e Deus, nu e a vida eterna. Tinha o horrôr da lepra, vivi com os leprosos. Calquei todas as afeições inuteis, e se uma andorinha me fizesse ninho na banca, como ao frade d'Assis, torcia-lhe o pescoço. Encheste-me a vida toda.

 

E agora a morte não existe, Deus não existe, a vida eterna não existe. Uma luzinha e depois a escuridão!

 

Tenho diante de mim esta força cega, este absurdo a escorrer ternura e lepra, como uma primavéra escorre morte, a irromper contra tudo e apezar de tudo, d'uma profundidade cada vez mais sofrega e cada vez maior. Não quero vêr e hei-de por força vêr!

 

Este inferno, a que dei vida e a melhor parte do meu sêr, não existe! Tinha conseguido só te vêr a ti no mundo. Com uma palavra enchi o vacuo. E este Deus por quem sacrifiquei toda uma vida e a melhor parte da vida, não existe! Foi tudo inutil. Dilacerei-me. Dei-me a mim proprio em espectaculo. Assisti a esta tortura, e tu não existias! Vivi fóra de mim mesmo e de repente tive de me aceitar a mim mesmo. Toda a minha vida foi inutil! tudo o que fiz foi inutil! Foi grotesco e inutil!

 

Sacrifiquei tudo a quê? Sacrifiquei o melhor da minha vida ao vacuo. Ofereci-lhe em espectaculo a minha dôr. Mas então que existe? Qual a directriz da minha vida? Qual a ilusão com que hei-de encher isto? E para que hei-de viver? Qual o sonho immenso capaz de substituir este sonho? Que é Deus agora? Deus é tudo e nada. É uma força. Deus é uma lei inexhoravel. Mas então tu que podes tudo—tu não podes nada. És uma lei—e hás-de cumprir essa lei. És um destino e não podes dar um passo fóra d'esse destino. Não vês, não ouves, não sentes. Eu sou uma insignificancia, e valho mais do que tu. Porque eu grito, eu sofro, eu atrevo-me. Amanhã quebro o meu destino. Tenho uma consciencia. Sou ilogico e absurdo. Debato-me. E tu, Deus, não passas d'uma força cega e estupida. Não me serves de nada.

 

Preciso d'um Deus que me atenda, que me escute, que saiba que sofro e que me veja sofrer. Preciso d'um Deus que me salve ou que me condemne. Preciso d'um Deus que me ampare. Preciso d'uma inteligencia superior á minha e em comunicação com a minha.

 

Um Deus-força, um Deus que não se comove com os meus gritos nem com as minhas suplicas, não me interessa. Um Deus que caminha para um fim que não atinjo, é um Deus absurdo. De que me serve este Deus? Não ouve os gritos—destróe; não sente a dôr— destróe. Destróe e caminha. É inalteravel. Ilude-nos. Deixa-nos um segundo deante d'este espectaculo, para nos mergulhar no nada. A nossa aspiração não cabe aqui: entrevêmos, sonhamos, e, a meio do caminho, talvez no inicio de sonho maior, destróe-nos. Peor: tem uma necessidade de sofrimento cada vez maior, de sofrimento inocente ou culpado. Revê-se na dôr. Deus é cego.

 

Debalde grito—não há quem me ouça. Debalde sofro— ninguem o detem. Tanto faz viver como morrer. Deus, tu és monstruoso! Destróes—caminhas. Destróes e não sentes. Vens do infinito, e atraz de ti fica um infinito de dôres, uma massa de gritos e de sêres espesinhados. Segues e destróes. Constróes não sei o quê de portentoso com que não posso arcar. D'essa pata monstruosa escorre sempre ternura. Não é indiferente que calques e recalques. Quanto mais espesinhas, mais gritos, mais ternura nas arvores, mais estrellas nos céus. Parece que a dôr é inseparavel da ternura, como a morte é inseparavel da vida.—Até aqui eu tinha uma taboa a que deitar a mão. Até agora tinha um nome—agora não sei como me chamo. Agora tenho medo de mim mesmo, agora sinto-me isolado n'este cahos infinito, n'este repelão desabalado, que me leva sem sentido e sem fim. Eu e a noite—eu e o doido! Até agora supunha-me tudo, eu e Deus, eu e a mão enorme que me conduzia e amparava.—Sofras ou não sofras, vaes para a mesma cóva, para o mesmo nada, para o mesmo silencio. Antes o inferno! antes o inferno! Tu que foste desgraçado, ou tu que foste feliz, tu que te descarnaste até á medula e tu que passaste indiferente pela desgraça—vaes para a mesma cóva profunda, inutil, absurda e muda. Antes o inferno, antes a dôr pelos seculos dos seculos a vir, do que a mudez e o horrivel silencio atroz!—Tudo foi indiferente tudo é indiferente ao monstro que passa e esmaga, que não ouve e esmaga, que não vê e esmaga. Indiferentes os teus gritos e as tuas suplicas; indiferentes a tua renuncia, a tua dôr, as tuas lagrimas. Foi indiferente que fosses bom ou mau, que tentasses subir ao topo do calvario. Não existe na realidade nem vida nem morte— não há na realidade senão chimera e dôr—não há na realidade senão este monstro que passa e esmaga, que caminha e esmaga.

 

Deus é cego! Deus é cego!

 

Emquanto te importaste comigo no mundo, foste o meu unico pensamento e só tu me importavas no mundo. Agora não posso, agora não dou comtigo. Agora não te encontro. Agora sou mais pequeno, e maior. Agora meto-me mêdo. Que voz pode echoar e sobresaltar esta solidão infinita, este mundo infinito, onde os gritos se não ouvem a cem passos, e tudo que chamamos amargura, dôr, grandeza, se apaga logo e se reduz a zero? O meu dever já não é o mesmo dever, a minha

consciencia já não é a mesma consciencia. Só os meus instinctos se conservam de pé.

 

Acuso-te de teres comprometido a minha situação no universo. Acuso-te de não me deixares ser infame. Acuso-te de me dares o remorso. Acuso-te de impedires o instincto. Acuso-te de teres transformado a vida e criado a consciencia. Acuso-te de me deixares sósinho com este peso em cima, com a ideia da vida e com a ideia da morte. Acuso-te de me levares para um calvario como o teu, para me tornares grotesco, e de me colocares em frente de ideias com que não posso arcar. Acuso-te de não poder mais, e de me instigares a mais ainda. De me obrigares a olhar cara a cara o assombro que não existe; a morte que não existe; a consciencia que não existe. Subverteste o mundo. Forçaste-me a criar outro mundo, a olhar para cima e a clamar no vacuo. Acuso-te de não me deixares atascar á minha vontade em lôdo, de não me deixares mentir, matar, chafurdar. Acuso-te de me impelires para cima, quando a minha vontade era ir para o fundo. Acuso-te de não me deixares ser bicho.

 

Estou prompto para tudo. Desde que não há Deus tudo são palavras. Desde que não há outra vida, só há esta vida. Só há este minuto, esta hora presente. Sinto-me capaz de tudo. Estive annos a rezar a uma comoda, a falar a uma comoda, a sofrer deante de uma comoda. Fui grotesco! fui grotesco e tu não vias! fui grotesco e tu não ouvias! fui grotesco e tu não existias!

 

Doe-me tudo, doe-me principalmente sentir-me grotesco! sentir que perdi a vida e sou grotesco! sentir que me deti e fiquei descarnado, impotente e grotesco!

 

Por uma palavra fui absurdo. Por uma palavra tenho atraz de mim uma architectura desconforme e destroços que enchem o mundo—por uma palavra e mais nada. Tu não existias!

 

Mas então—pergunta esta voz colerica—todo o esforço é inutil? todo o sacrificio é inutil? Creaste estas ideias falsas de dôr, de renuncia—e não existes! Um santo viveu sobre uma columna: «Desde que se punha o sol até que amanhecia o dia seguinte, estava de pé na columna com as mãos levantadas ao céo». Oitenta annos de grotesco. Outro amaldiçoou-te: «Ai de ti cidade sensual onde os demonios fizeram sua habitação!»—Grotesco! grotesco! grotesco! Tu não existias! Que se levantem todos do sepulchro, uns atraz dos outros, que se erga o pó e te grite:—Tu não existias! Chamaram-te. Imploraram-te. Carregaram com a tua cruz. Andaram de rastros, reduziram-se a osso e a lepra. Foram indiferentes ao sofrimento e ao sarcasmo. Renunciaram á vida, deram-te o espectaculo da sua dôr, a ti que não existias! Das profundas do mundo vem sempre a mesma ancia, das profundas da dôr ergue-se sempre o mesmo grito. Isto tem alicerces como nunca se cavaram alicerces. Cimentaram-n'os os vivos e os mortos. E por mais esforços que empregue— tu na realidade não existes. Há outra coisa peor que está viva, outra coisa monstruosa que avança dentro de nós e direita a nós e que ninguem pode deter. Tu não existes e eu tenho de caminhar por força, não sei para que estupido destino. Tu não existes e obrigas-me a avançar para um fim grotesco—desmedido e grotesco —que não comprehendo nem abranjo. Tu não existes— e estou nas tuas mãos. Tu não existes e n'este mundo absurdo, onde não encontro quem me condemne e quem me salve, há ainda quem me empurre, quem me arraste e me faça sofrer, uma força cega que trago comigo, que me rodeia e me não larga!—Tens de existir por força. Tens de existir pelo que sofremos e pelo que creamos. És a unica luz n'esta escuridão cerrada, a unica razão como verdade ou como mentira. Existe aquillo que eu quero que exista, é verdade aquilo que eu quero que seja verdade, aquilo que eu e os meus mortos transformamos em verdade. A fé é maior que todas as forças desabaladas, mais viva que todas as vidas. Comprehendo a inutilidade de todos os esforços e faço pela mentira, o esforço que fazia pela verdade. Tenho de te manter á custa de desespero.

 

Se não existes é forçoso que exista um dictador moral, que extirpe sem piedade o pecado da terra. Que não ouça os gritos e condemne, que realise o pensamento de Saint-Just e obrigue os ricos a trabalhar nas estradas, e cujo poder ignorado e oculto submeta a humanidade a uma lei de ferro, e a salve pela mentira, já que a não pôde salvar pela verdade. Cinja-me a mesma cadeia, durma no mesmo taboado, e empregue o mesmo esforço, por um sentimento de desespero contra ti que me iludiste. Por mim proprio, para fugir de mim e de ti que não existes! Resisto, teimo. Só vejo treva e teimo. Levo-me todos os dias ao mesmo espectaculo. Rasgo-me com gritos. Ó desgraçado, aquillo em que tu crês é mais negro que o negrume!

 

A mesma força cega nos impele. Queira ou não queira sou levado para um fim que não comprehendo... Cahi nas suas mãos! Outra coisa me envolve a que não sei o nome, outra coisa que espera de mim uma acção que ignoro, outra coisa a quem eu me quero manifestar e que talvez se queira manifestar, sem nos chegarmos a entender. Rodeia-me. Sinto-a. Há occasiões em que me toca. Ouço-lhe os passos. Debato-me. Constrange-me. Há momentos em que me iludo, para fingir que estou sósinho. Há momentos em que me escarnece. Sufoca-me: vou ouvir-lhe os gritos—tenho medo que me fale! Só ella vive no mundo, só ella anda á tôa no mundo! Debalde apélo para mil manhas, debalde tento mil explicações. Estou nas suas mãos! estou nas suas mãos! Outra coisa inexplicavel e immensa, temerosa e immensa, anda por traz de mim, dentro de mim, outro abysmo maior, outra coisa que sua e me escalda até á medula. Procuro esquecer-me—ella aqui está ao pé de mim. Na vida e na morte estou nas suas mãos monstruosas. Sou a consciencia—tu és o impulso. Sou a razão—e não sou nada. Lucto até á morte, finjo até á morte, vou até ao fim dilacerado, escarnecido e iludido.

 

Estou nas tuas mãos! estou nas tuas mãos!