Húmus
Fevereiro
1
Chega fevereiro. Primavera. Dá logo rebate o tojo bravio. A aspereza é a primeira a sentil-a.
O tempo está funebre. Ouço o ruido calamitoso das aguas. Só os botões dos salgueiros estalaram. Nos galhos despidos entreabrem-se flocos friorentos e pelludos.
Corre um vento glacial e as arvores encolheram-se transidas. Mas n'esta frialdade sinto já ternura.
O ar de fevereiro é outro: é morno. As rãs, de barriga no lôdo, coaxam de satisfação, pegajosas e molles como a herva verde e humida. E, d'um dia para o outro, crescem á tona da poça azul, encastoada na terra negra, fios d'herva a reluzir. Tinta entornada.
O ar sabe bem: sabe a bravio.
Ao longe o sol trespassa os montes. Manhã de nevoa e oiro gelado. Uma arvore nova cobre-se entontecida da primeira flôr. Apressou-se, enganou-se... É uma haste de pele luzidia, tres raminhos abertos no azul. E isto envolto em ternura, tanto faz que se trate d'uma arvore como d'uma rapariga.
Sente-se n'esta atmosphera humida a seiva inchar os botões tumidos das arvores. Volta a chuva gelada: a primavera tenta, vem com hesitações.
Muda o scenario. Acinzentam-se os montes por onde sobem arrasto pelas pedras rôlos de fumarada. Acastelam-se no céo as grandes nuvens esponjosas. Chove. A voz é outra. D'onde a onde descerra-se a cortina vaporosa e emergem os montes brutos e compactos.
Nos abrunheiros bravos estalam os primeiros botões. E quanto mais bravos, mais flôr deitam. É uma prodigalidade.
Noite. A escuridão, o silencio, o esplendido céo todo d'oiro sobre a massa negra dos montes. É isto e os gritos da moichela aos ais d'aflição. Eis torna o silencio, e a alma sufoca de espanto... O pio triste dos sapos irrompe de profundidades ignotas. E outra vez o silencio, a noite imutavel cheiinha de estrellas—e sempre o mesmo fio d'agua, misturando ternura a este espectaculo d'assombro. É só isto, e a muralha disforme ao fundo, ainda palida de luz.
A primavera é um phenomeno electrico.
Na primeira tentativa da flôr há fealdade e ao mesmo tempo candura; depois, da noite para o dia uma gôta de tinta como uma gôta de leite. Basta que á nevoa se mistura o sol, para entreabrir, ainda informe. Todos os sêres, antes de se vestir, são abôrtos: teem medo de nascer bellos.
Ás vezes basta um dia. D'um instante para o outro, poeira azul, entontecimento, sonho...
E isto não é só material. N'este mysterio há certa dôr, certa tontura, há até espanto. É um olhar que se abre para o mundo. Pela emoção a arvore comunica com o universo e manifesta uma vontade que triumpha sobre a dôr inconsciente.
Entre a arvore, o céo e a terra há um compromisso de ternura.
5
O que isto custou na obscuridade do mundo cahotico!... Houve decerto uma primeira primavera, mas as flôres, que hoje são ternura eram então espanto—tentativas frustradas de sonho. Os gritos da floresta primitiva, não os ouço mas estão aqui contidos. E ainda hoje a terra se perturba, porque vae assistir ao mesmo drama.
Todo o universo se concentrou para gerar a vida, todo o universo se concentra para a destruir.
A villa estremece ao sentir a primavera estranha. Noiva. Noiva a D. Ursula, pergaminho e escrupulo, que fez da vida um pecado, e ao réz de cuja alma liquida se espalmam flôres venenosas. Não há sêr que fique indemne. Até que chegou a vêz á macieira anainha, que um bafo humido-lilaz turba e perturba. Há aqui um encolhido, que nunca sahiu do saguão, que nunca olhou para o céo nem sabe que o céo existe: sente tambem a primavera. Assim me succedeu com um tronco decepado que no inverno meti no fundo d'uma loja: na primavera seguinte tinham-lhe crescido ramos: sentiu-a atravez dos muros, e, com gritos represados, botou um simulacro de flôr.
Fevereiro. Primeira noite de luar e de loucura. A primavera toca mais fundo, mais fundo ainda—esta primavera que revolve os vivos e os mortos. Todos deitam flôr. Acordam na profundidade dos sepulchros, com o sonho que levaram para a cóva, com todos os sonhos desfeitos em pó. Há-os que nunca se atreveram a declaral-o. Há-os que o sumiram com receio de sonhar. Há-os estonteados...
Ouvel-os falar baixinho, surprehendidos, como se soltassem todos o mesmo ah—de espanto, e se puzessem a falar baixinho uns com os outros?... Fala a poeira, fala a sombra desconforme, fala o pó desaparecido.
Na frente uma aparencia—a vida está na multidão que nos impele, a vida está nos mortos. Massa atráz de massa, os mortos empurram os vivos. Sente-se o esforço doloroso. Atraz d'estas mãos, outras mãos de desespero; atraz d'estes olhos sem orbitas outros se esforçam para a luz. O peor era o silencio. O esquecimento é que é a morte definitiva, e por isso o esforço augmenta. Formam uma cadeia infinita, a caminho para a vida e para a dôr; a todo o momento nos falam e nos guiam, e toda a sua ancia é viverem depois que estão no sepulchro. A velha que sahiu da existencia mirrada, continua a trazer o menino ao collo. Outros caminham tropegos, sacudindo a terra que se lhes pegou aos ossos. Eil-os dispostos a sofrer por uma nova ilusão. A vida foi um nada, impregnou-os para toda a eternidade: um instante de luz bastou para lhes dar gosto á dôr. O que elles tentam misturar as suas lagrimas ás nossas lagrimas! o que elles arfam para que o mesmo fluido que nos prende aos sepulchros— onde estremecem—se não desligue da vida que ainda se não tornou visivel! É que não só os mortos mandam nos vivos, tambem os vivos mandam nos mortos. E avançam, empurram-nos... Conservam no fundo do tumulo as manias da outra existencia. Esta velha aperta um trapo ao peito como um filho, com medo de o perder. A moça, mesmo na cóva, dá um geitinho tão lindo ao lençól! Este conserva na concha da mão uma moeda de cobre, e áquella, Maria Antonieta, René reconhece-a mais uma vez por a têr visto sorrir nas Tulherias... Estendem as mãos mirradas para se aquecerem ao nosso lume; guardam nos ouvidos pela eternidade os ruidos vulgares—os mais bellos—o das folhas cahindo uma a uma, o da fonte que corre e que nunca mais tornará a correr, o da voz que lhes falou na hora extrema; guardam nas mãos o ultimo contacto das mãos, e a restea doirada d'este sol doirado ainda lhes reluz nos buracos das orbitas...
Deitam-se ao mesmo tempo a caminho do fundo dos fundos e de mais fundo ainda. Mesmo morto o que eu não quero é morrer... Primeiro rebate, da primavera doirada e phrenetica, primeiro impulso que estonteia e deslumbra...