Húmus
Atraz do Muro
Há na vida um unico momento. Um momento que sorri. Que concentra em si todos os momentos. Troquei-o pelo absurdo. Troquei a vida pela morte.
Só agora seus olhos verdes d'espanto me chamam, seus olhos que exprimem o irreal e o mundo todo, seus olhos cheios de dôr represa e de sonho coado por lagrimas...
Agora é que ella está viva! agora é que ella está viva! E tão viva que a confundo com a morte.
ATRAZ DO MURO
10
O tabique cahiu, e contemplo a vida. Mas entre mim e mim interpõe-se um muro. O drama não tem personagens nem gestos, nem regras, nem leis. Não tem acção. Passa-se no silencio, despercebido, entre mim e mim. É um debate perpetuo.
Que duvidas? Pois se a minha vida é esta e não há outra vida; se o minuto é este e não há outro minuto, que força me póde deter para que eu não realise o meu destino contra ti e contra todos?
Há um sêr que ocupa o meu sêr e me domina quer eu queira ou não queira. Quem há ahi capaz de dizer que a mesma ideia o não persegue?—Se ella morresse...— Arreda-a. Tambem eu. Mas saio d'isto aos gritos. Esfacelado. Tenho por força de o admitir na minha companhia. Subjuga-me. Peor: faz-me falta quando o não tenho ao pé de mim.
Talvez eu seja um sêr complexo, talvez os outros sejam tão complexos como eu. Tudo me faz sofrer—mas metade do meu sofrimento é representado. Tenho é certo duvidas—mas metade das minhas duvidas são postiças. Hei de acabar por não crer em mim como não creio nos outros.
Eterna contradição de todo o teu sêr. Não sabes o que queres nem como o queres. Não sabes no que crês nem no que não crês. És um impulso. Vaes até á cóva levado por todos os ventos, sempre a barafustar sem sentido. Explicas tudo, ignoras tudo, adivinhas tudo. És um mar d'inverno n'um dia de verão.
Está tudo decidido—dizes—está tudo prompto. Só uma coisa me falta: pôr isto em acção. E essa coisa, que é um nada, tem o infinito de comprido.
Desde que este phantasma se pôz a caminho nunca mais consegui detel-o.
Começa por uma idéa que afugento. Começa por um pensamento tenue, por uma simples palavra que afasto.
Insiste. Há ainda dias em que discuto. E por fim domina-me, tem mais vida que a minha vida, tem mais realidade, mais sonho e dôr, do que eu.
Assisto á sua acção e não o posso conter. Acaba por acampar entre os destroços do meu sêr como um dominador.
Mas eu não o criei! não fui eu que o criei! Não só o não tolero como lhe tenho horror. Mas para ser sincero devo dizer que há occasiões em que me submeto com alegria. Para ser sincero até ao amago, devo dizer que n'esta dôr, n'este desespero, é que me sinto inteiramente viver. Com elle é que eu grito. Decerto eu não sou isto—não quero ser isto. Tenho-te medo e pertenço-te. És a melhor e a peor parte do meu sêr.
Felizmente não vemos senão detalhes. Se alguem podesse encarar uma alma até ás maiores profundidades, e vêr ao mesmo tempo de que ternura, de que ancia, de que desespero e de que tempestades essa alma é capaz, nunca mais podia desviar os olhos d'esse espectaculo. Fosse ella a minha alma ou a tua alma. Era o mundo todo, era o universo. Era Deus.
Que posso eu contra a vida? E se me recuso, se lucto, que me espera? A renuncia? A estupida renuncia, e cada minuto que passa me aproxima do nada, me leva, queira ou não queira, para o nada? Na cóva, na podridão, desfeito em pó, arrastado por todos os ventos, d'aqui a um seculo, d'aqui a milhares de seculos, ainda todas as particulas do teu sêr, que não soubeste impregnar de vida e alimentaste de simulacros, te hão de prégar:—Estupido! estupido!
Remorsos? Eu não tenho remorsos. Duvidas? Eu não tenho duvidas. Desde que te vi—vi o universo. Comprehendi tudo. Comprehendi que não tinha vivido, e que toda a minha existencia tinha sido ficticia—que mais valia um minuto na vida, que cem annos de vida. Que só há uma hora na existencia e que é preciso aproveital-a. Que tudo é simulacro e só tu és a verdade. E apercebi o universo como força e destino a tal profundidade, que n'esse rapido segundo passou por mim n'uma rajada todo o turbilhão da vida, com as suas vozes, os seus misterios e toda a sua grandeza feroz. Vi tudo. Senti tudo. Bastou vêr-te. Portanto não tenho duvidas nem remorsos. Ao contrario estou calmo, ao contrario estou decidido.
Mas há uma coisa temerosa, uma coisa inexplicavel e immensa—um fio que não posso cortar. Tenho a sensação de que, cortando-o, aniquilaria a vida. Não a minha vida, que não importa—mas o que há de mais extraordinario e de mais tenue na vida. Se houvesse Deus, diria que aniquilaria Deus.
Há uma atmosphera de mentira que ninguem deve ultrapassar—há uma atmosphera viva que todos nós respeitamos.
Mergulho. Mergulho mais fundo ainda e não encontro nada. E no entanto tu existes. És muda e existes. Quando me imagino livre de ti, é que tu tens mais força. Procuro explicar-te por palavras, por convenções, por regras aprendidas, por habilidades... És muito maior do que eu.
Ponho o ouvido á escuta d'encontro ao mundo, ouço-me para dentro, para surprehender as coisas fundamentaes que elle me ordena e são duas ou tres simples, d'instincto e ferocidade. E além d'isso outra coisa immensa—que não existe.
Como te chamas tu? E tu, dôr, como te chamas?
11
Ponho-me a olhar para ti consciencia, e exijo que me fites nos olhos e que me fales claro. Não entarameles a lingua. Em primeiro logar diz-me o que és e o que significas: medo, receio, uma vóz que se cala se a miseria aperta ou a luxuria levanta a cabeça. Um nada, uma voz tão timida e tão prompta a sumir-se... Incommodas-me é certo, mas não impedes nada. Falas quando devias estar calada, não sabes o teu papel e nunca entras a tempo. Herdei-te: és convenção e egoismo alheio entranhado no meu egoismo, synthetisado em duas ou tres regras para commodidade dos outros. Fazes de mim uma prêsa facil para quem a não tem. És escrupulo, e o escrupulo é, pelo menos, inutil.
Estás em perpetua contradição. Inutilisas-me metade da vida e nunca me pude desfazer de ti. N'esta lucta de todos os dias, quando me julgo livre, é quando te sinto todo o pezo.
Isto é decerto a vida. Mas a vida é tambem o instincto que me diz:—Aproveita, não deixes fugir o unico minuto. Se a vida é um momento entre o nada e o nada, o que vale a pena é aproveital-o.
A questão suprema é esta e só esta: Deus existe ou Deus não existe. Se não há Deus, a vida, producto do acaso, é uma mistificação. Aproveitemol-a para satisfazer instinctos e paixões. Se Deus não existe, não há força que me detenha. Não há palavras, nem regras, nem leis. Tudo é permitido. Questão logica: pois eu hei-de ir para a cóva, para todo o sempre, para toda a eternidade, sem ter extrahido da vida tudo que ella me possa dar, preso a palavras ou a meras questões de forma? Oh! ponhamos a questão, consciencia: se Deus não existe tu não és senão um estôrvo, meia duzia de regras aprendidas ou herdadas. Ponhamos emfim a questão com toda a clareza, porque este é o unico problema que me importa e que te importa resolver.
Escusas de encher a bocca com o dever. O dever não me interessa nada. A questão fundamental, a questão que eu debato com todo o meu sêr, e de que me não consigo desligar, é a da morte eterna e a da vida eterna.
Se Deus existe eu sou um homem,—se Deus não existe eu sou outro homem completamente diferente.
Não existindo tu consciencia, o que tu te intrometes na minha vida! E tanto faz analisar-te, discutir-te, negar-te, incomodas-me sempre. Estás morta—estás viva. Na cóva hei-de chorar inutilmente por te ter obedecido. Hei-de revolver-me com desespero, por teres conseguido amolgar-me e amesquinhar-me. Por mais que queira desfazer-me de ti, tu impões-te-me. Quando te julgo aniquilada, ahi começas a falar outra vez.
Vens de muito fundo!
Ás vezes protesto e imponho-me. Decido passar sem ti: humilhas-te. Humilhas-te para logo levantares a cabeça e revolveres o punhal na ferida. Pesas-me como chumbo. És de ferro. Bem tento explicar-te: são os escrupulos que me não deixam trahir, mentir, subir. O que é eficaz não é ter escrupulos, é fingir tel-os. É tudo o que os outros nos pedem.—Mas tu não transiges. Se te abaixas, é para te ergueres de novo, para de novo me atormentares. Não me largas. Acompanhas-me por toda a parte.
Se me livrasse de ti! se me livrasse de ti!
18
O que eu tinha era medo. Medo da morte, medo da sombra. Só isto existia? Quando tudo em mim me prégava que aproveitasse este momento, que deste unico momento extrahisse tudo que elle me podia dar— alguma coisa me detinha. Eras tu consciencia. E tu não existias! Fale a logica, fale a razão, fale tambem o instincto... A consciencia é sempre religiosa. Mal posso dar um passo no mundo sem tremer. O mundo é Deus, Deus rodeia-me. Tudo para mim é uma causa de espanto—e atravez d'este espanto presinto ainda um espanto maior. Sinto-me como balouçado n'um sonho immenso. Ando nas pontas dos pés. Mal ouso respirar no cantinho onde contemplo. E a minha consciencia era um reflexo deste universo. Mas se tudo isto se converte em forças, se arredo de vez a sombra temerosa, se tudo é acaso no acaso, se nada existe, se é indiferente o que eu penso e o que tu pensas, se só eu sou ao mesmo tempo o bem e o mal, a consciencia já não é a mesma consciencia e a sentimentos novos corresponde uma consciencia nova. Bem te procuro encontrar no fundo do meu sêr. Rebusco-te. Ás vezes, nos momentos tragicos, já não é comtigo que eu deparo—é com outro sêr que assiste sempre, como um espectador, a todos os meus exageros. Deitavas-te comigo, levantavas-te comigo, ferrada como um punhal —e não existias. Neguei-te. Expliquei-te. Reduzi-te ás tuas verdadeiras proporções—e tu não existias! Atormentaste-me e fizeste-me sofrer mesmo quando já comprehendera que não existias. E agora mesmo, quando o universo é outro universo, ainda te encarniças sobre mim como um phantasma.
Escusas de te rir—tu não existes. Dependias da morte, e o que eu tinha na realidade era medo. Talvez medo para depois da morte—medo da minha alma em frente da minha alma, medo de aparecer nu e com pustulas diante do que é eterno. Carreguei-te como um fardo inutil. Põe-me a questão, põe-me todas as questões que quizeres. Tenho diante de mim este mundo e a voragem, este mundo e o nada. Não te metas de permeio, que já não tens razão de ser. Seria mistificação sobre mistificação. Não me atrever agora é absurdo. Porque, consciencia, o que importa é a parte interior—é a verdade sós a sós comigo, fechado a sete chaves, e essa é temerosa. Não tentes iludir-me. Não podes mentir a ti mesmo. Vê que passaste a vida a conter o mal—e o mal fez parte, queiras ou não queiras, da tua vida. O mal é pelo menos metade do teu sêr. Agora sim—agora estou livre e atrevo-me. Para sempre livre da morte e livre do tempo, calco-te aos pés. Nenhuma sujeição. Nenhum temor, nenhum phantasma. Sem escrupulos! sem escrupulos! Uma força entre forças e mais nada. O mundo pertence-me. Pertence-me e olho-o cara a cara sem desviar o olhar. Sou a unica força consciente, sem palavras que me diminuam, nem escrupulos que me contenham...
Agora fala! Aproveita o minuto unico, a infamia, o enxurro, o sabor a fél e a lagrimas da vida, ou enfileira-te, se podes, no estupido rebanho, e reentra na vida quotidiana, feita de pequeninas regras e interesses. Vem-me um vomito: tenho vontade do fugir de mim e dos outros: só o que é selvatico me interessa e acorda em mim sonho, perfume e ferocidade... Quero saber o que me impede agora de matar, quero saber o que me impede de olhar nos olhos o inferno, de seguir o instincto e de obedecer ao impulso...